(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

9.10.14

Ensino burocratizado

Ensino burocratizado

- Não gosto lá muito desses calções, João.
- Mas são bons para levar hoje, porque tenho "expressão físico-motora".
- Ah, tens ginástica?
- Não, mãe: expressão físico-motora!
É claro que não lhe disse, mas aquilo fez-me logo imaginar que estivessem a ensinar aos putos como fazer manguitos e espetar expressivamente o dedo do meio.

Porque é que não chamam as coisas pelos nomes? Não entendo! É para sermos mais finos? É para passar a ideia que temos um ensino muito eficaz? Porque é que não há nome nenhum composto por menos de três palavras? No meu tempo tínhamos "contínuas" em vez de auxiliares da ação educativa que, apesar do modesto epíteto, eram bem eram mais respeitadas. As fichas de avaliação diagnóstica chamavam-se testes e ai de nós se não estudássemos com afinco. Não tínhamos psicólogos de volta de nós a analisar o nosso enquadramento psico-socio-emocional: levavamos um par de reguadas e, com um bocadito de sorte, em casa, mais um aconchego no pêlo.
E os professores? Que felicidade não seria, não terem três resmas de papel para preencher e sete reuniões por mês, podendo apenas ensinar? Fiscalizações ao ensino? Que eu me lembre, se as havia, deviam ser muito suaves porque consigo visualizar perfeitamente a minha professora Alexandrino a mandar-lhes um daqueles pares de berros que nos punha a todos em sentido.
E não, nunca fiquei traumatizada. Nem pelos gritos nem pelas reguadas. Nem pelos nomes de uma só palavra nem pela ausência de rigorosos mapas a dividir os minutos dados ao ensino da matemática ou do português. O que me traumatiza, agora, é ver pessoas capazes e cheias de boa vontade, que não podem ensinar os nossos filhos e netos porque estão atolados num lodo burocrático que lhes rouba o tempo para fazer o que devem e querem: ensinar.
Da mesma forma, espero não vos traumatizar ao dizer que, por mim, os burocratas bem podiam ir todos passar uns meses a cavar, lá nas minas da Sibéria. Podia ser que voltassem com as ideias mais claras e parassem com a tendência, tão difícil de inverter, de regulamentarizar cada passo que se dá.
Pensando melhor: podiam lá ficar a cavar para todo o sempre!

Ana Amorim Dias
26/9/2014


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