(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

26.10.12

A teoria do taparuer



   Começo por avisar que não me vou render à forma complicada como originalmente se escreve tupperware. Vai à portuguesa e acabou a conversa.
  Mas deixem-me começar pelo princípio, para ver se isto faz algum sentido. Há quem tenha a ambição de encontrar resposta para as grandes questões da existência, como os clássicos “de onde vimos”, “ para onde vamos”, etc.   Eu garanto-vos que não sei qual é o meu problema, mas às vezes dou comigo no desesperado  estado de quem acha que  encontraria o sentido da vida caso percebesse para onde vão os taparueres!
   Tenho a firme convicção de que poderia gastar duzentos euros por mês em taparueres e, quando precisasse, não encontraria nenhum!  É por isso que comecei a desenvolver a teoria do taparuer. Depois de anos e anos de investigações exaustivas, recolha de provas e soma de conclusões, percebi que nunca são as nossas mães, sogras, filhos, amigos ou funcionários que nos levam os taparueres. Não, nada disso! O que se passa ( e isto é um facto comprovado por todos)  é que eles pura e simplesmente se desmaterializam!  E porquê?  Porque existe um complot intergaláctico!!   Tenho quase a certeza ( só me faltam as provas finais) de que os taparueres são os diamantes do Universo. As diversas espécies de outros planetas e galáxias, usam os taparueres como moeda para as suas trocas comerciais e como por algum estranho motivo não os conseguem produzir, vêm roubá-los às cozinhas e despensas da Terra enquanto nós estamos distraídos.
  Aceito a vossa incredulidade quanto ao que acabei de escrever e é por isso mesmo que vos deixo o desafio: comprem uns quantos taparueres hoje mesmo e contem os dias que eles levam a desaparecer.
Ana Amorim Dias

25.10.12

Espuma



   Coloco duas moedas na ranhura. Viro o ponteiro para a primeira fase. Carrego no “start” e a água inicia o seu trajeto entre a agulheta e o carro.  Revejo mentalmente a lista do que queria ter preparado. A casa impecavelmente arranjada. Confere. O frigorífico repleto das coisas mais importantes. Confere. A verificação da hora de chegada do combóio que os trás. Confere.
  “Não me posso atrasar!” – Penso.  Detesto atrasos. Mais os meus que os alheios.  “A falta de pontualidade é, para mim,  uma das mais incomodativas e gritantes faltas de formação que alguém pode ter. Ainda bem que sou pontual!”.  Os pensamentos vão voando, velozes, enquanto, em piloto automático, aponto  a agulheta ao carro. 
  Faço planos. Mais dez minutos para chegar ao café. Meia hora para a crónica. Uma hora para chegar a Faro nas calmas e esperar pelo Alfa Pendular que embala  as melhores visitas com quem poderia querer privar durante os próximos dias.  Aponto a água quente para  o vidro da frente. “ Credo,  que encardido…”.  
   “E o que vou escrever hoje?”.  Divago. A água pára. Coloco mais uma moeda e continuo. Lembro-me de uma parábola que ouvia nas missas da minha infância: a diferença entre quem se desdobrava em salamaleques para receber Jesus em casa, não lhe prestando qualquer atenção, e quem o recebia sem limpar a casa nem preparar a comida, de tão compenetrado que estava em concentrar  toda a atenção na própria visita.   Viro o ponteiro para o “enxaguar” e ponho mais uma moeda, completamente desatenta ao que ali estou a fazer.
  “Vou pela via do infante ou pela nacional? Bem… já se vê.” Imagino os dias felizes que me esperam na companhia da minha mãe, da Micá e do Vítor. E a porcaria da água acaba-se de novo! O lado esquerdo do carro ainda está cheio de espuma. O stock de  moedas chegou ao fim e o senhor do Elefante ainda não chegou para trocar mais. Olho para a agulheta e para o carro. Volto a olhar e a ponderar as hipóteses.
   Sigo caminho. Pode ser que chova mais um pouco e a espuma se vá.  A parte boa do espumante episódio  é já  saber  o que vou escrever. Às vezes, quando fazemos coisas completamente alheados do que estamos a fazer, elas correm menos bem. Mas isso pode muito bem querer dizer que, simultaneamente, estamos a dar forma a  outras coisas muito mais importantes.
  E agora já me vou. Chegar atrasada é algo em que nem posso ponderar.
Ana Amorim Dias

24.10.12

I left my lips on you



   Entramos em casa. A avó, ensonada, aguarda-nos na sala enquanto as crianças já dormem o sono sereno dos inocentes.  O Ricardo fica a falar com a mãe enquanto eu levanto de novo voo, desta vez para os quartos dos meus filhos.
   Acendo a luz do quarto do João. Aprecio a forma como dorme, tão parecida à maneira como vive a vida: de frente e com os braços abertos. Beijo-lhe o rosto. Cheiro-lhe o pescoço até encher os pulmões com o doce odor que tão bem conheço. Estremece levemente e, com mais uns beijos e snifadelas, deixo-o entregue à noite. Apago e luz e sigo para o quarto do Tomás. Já ocupa a cama toda. Afasto as mantas e junto o meu rosto ao dele. Afago-lhe o cabelo cortado de fresco e pego-lhe na mão. Comparo a minha mão com a dele. Já estão do mesmo tamanho. Beijo-o de novo e sorrio enquanto recordo as saudades constantes que, ao longo dos últimos dias, o pai teve deles.
- Tu não tens saudades? Não lhes sentes a falta? – Perguntava-me.
E eu desviava a conversa por vergonha de responder a verdade.  – Digamos que não me dói a alma. Sei que estão bem… -
E, numa das vezes que a questão voltou, olhei para a chávena do café que estava a bebe, onde li:  “I left my lips on you”. Entendi então o porquê de não sofrer com saudades. Deixei-lhes a marca dos meus lábios. A marca do meu amor estará sempre com eles, ande eu por onde andar. E é por tão bem reconhecer este facto que as saudades de quem amo já não  me doem. Because I left my lips on them.
Ana Amorim Dias

23.10.12

Siracusa





   Se acaso os budistas estiverem certos,  tenho a certeza que já passei algumas vidas em Itália.  A sonoridade da língua, a cultura, a gastronomia, as paisagens e a história,  despertam-me uma sensação de pertença de tal forma confortável que não tenho como negar uma qualquer ligação  ancestral.
   Foi com a consciência deste  inegável amor por Itália que  voltei lá  toda contente, desta vez a terras sicilianas.   Foi sem esforço que, mesmo antes de partir, encarei  Siracusa como o destino mais empolgante que iria visitar. E a razão é tão simples que chega a ser parva: a forma como o nome “Siracusa” sempre me bailou  nos lábios  e me soou no fundo da alma,  conferiam-lhe,  inegavelmente, o  caráter etéreo dos sonhos.
   Cheguei lá pela fresquinha. Visitei, passeei, fotografei, e até encontrei um recanto para entrar mar adentro como é costume. Mas a cidade não fez juz ao efeito que o seu nome produz em mim! Não sei explicar porquê, mas o “clic” não se deu. E lá me fui embora, algumas horas depois, um pouco desalentada pela deceção sentida.
  Mas a vida sabe o que faz e, sem se fazer rogada, fez-me chegar a Modica, uma cidade que eu nem suspeitava existir. No fundo de um encantador vale, encontrei a cidade do chocolate e das gargalhadas. Parece que a receita do chocolate foi roubada a uns espanhóis que a truxeram dos Maias, mas não posso confirmar pois não me informei com exatidão.  Já as gargalhadas que dei, sei bem porque foram libertadas, quase me levando ao doce pranto do riso.
   Mas isso agora não interessa nada! O que importa é que tinha grandes expetativas sobre uma terra que me defraudou e nenhumas expetativas sobre outra,  que se revelou um tesouro, e isso fez-me entender que nem tudo o que pensamos adorar  é merecedor da nossa adoração ao passo que,  às vezes,  é de onde menos se espera que nos chegam as maiores bençãos.

Ana Amorim Dias
  

20.10.12

Homens-peixe




   Gozo, a segunda ilha de Malta, tem um recanto chamado Azure Window   que ontem tive a oportunidade de conhecer.  
   Prevenida com o sempre presente bikini, não me neguei a explorar  a escorregadia e irregular entrada de mar que a foto ilustra.  Mas o verdadeiro interesse deste pequeno episódio  deu-se depois de tirada a foto, quando mergulhei no precipício azul escuro que está mesmo atrás de mim.  Tomar banho num local tão profundo e com água tão translúcida faz uma certa impressão, sobretudo quando começamos a ver grandes quantidades de ar a vir à tona e peixes amarelos enormes a aproximar-se de nós.
   Por momentos o banho perdeu todo o seu encanto… até que percebi que os enormes peixes eram apenas mergulhadores desportivos que começaram a sair do buraco, um por um, sob o meu olhar aliviado.
  Não sei porquê  mas o banho acabou ali. Fiquei com saudades dos “meus” areais divinalmente extensos que roçam o oceano sem grandes sobressaltos. E fiquei a pensar que talvez não seja assim tão aventureira… Ou então foi apenas o gene do gosto pelo que nos é conhecido que resolveu vir à tona como os estupores dos homens-peixe.
Ana Amorim Dias

19.10.12

A coleção



    Normalmente quando vou de férias é sempre assim: a última coisa que faço é descansar.  Para isso tenho  as “minhas” praias e cafés; a minha casa e os seus sofás. Se escolho novos destinos é para acordar ao amanhecer e voltar para o hotel quando as pernas já se renderam e os olhos se estão a fechar; é  para caminhar por todas as ruas, espreitar todas as praças e experimentar o mar a cada oportunidade; é para provar tudo, cheirar tudo e andar em tudo;  é para  recarregar as baterias do ser à mesma velocidade que  gasto as energias do corpo.  
  A cada milha guiada, voada, andada ou navegada, tomo a consciência de que para encontrar o bonito é preciso, por vezes, passar pelo feio e que para se poder viver experiências únicas há que saber contrariar o atrito da preguiça, ignorar  o  apelo sedutor  dos caminhos seguidos pela carneirada e calar os receios que às vezes se instalam.
  Viajar é muito fácil e confortável,  mas conhecer realmente os locais que se visitam já não é assim tão simples. É preciso ter resistência, espírito de aventura e capacidade seletiva. É preciso improvisar, filtrar informação, saltar com facilidade para os planos “b” e “c” e não desistir perante as dificuldades. É preciso ter capacidade de orientação, observação e comunicação,  entre tantas coisas mais. É por isso que continuo a achar que viajar, mais que um exercício de lazer e estilo, é uma escola de vida; uma ocasião renovadamente única para nos potenciar as capacidades.  E o que  isto tem de bom é o enriquecimento de inquantificável valor que exercemos sobre nós mesmos e a seleção   de momentos  fabulosos  que  vamos acrescentando à única  coleção que realmente possuímos: a coleção de tudo aquilo que já vivemos.
Ana Amorim Dias
  
  

17.10.12

Instintos



   Sentei-me no carro e dei à chave. Concentrei-me em meter as mudanças com a mão esquerda, mas a direita teimou em tentar destravar o travão de mão.  Soprei a madeixa de cabelo que me pendia no rosto e abri o vidro.
   “Não és tu, parva!” – Disse à minha mão direita.  – “ É a outra!”  E a mão esquerda, obediente, lá destravou o carro que já tinha a marcha a trás engatada.
   Tive que pensar bem como ia sair daquele parque, mas usei a  lógica, essa fabulosa ferramenta da razão, e coisa até correu bem. Entrei na estrada sempre pela mão esquerda e com a minha mão esquerda bem ativa nas mudanças. Passaram só cinco minutos e já eu ia a guiar e a conversar alegremente como se aquilo que estava a fazer,  pela primeira vez e contra todos os meus instintos, fosse a coisa mais simples  do mundo.  E sabem que mais? É mesmo!
   Se eu pensasse bem nas coisas talvez  não me tivesse metido à noite, num carro alugado e “todo trocado”,  numa terra que me é completamente desconhecida, a guiar no que é, para mim, o lado errado da estrada. Mas a verdade é que não pensei muito e acabei por fazer algo que sempre tive curiosidade em experimentar,  para ver como me sairia.  Em boa hora o fiz pois  fiquei com a satisfatória noção de ter efetuado mais um upgrade às minhas (já vastas?) capacidades.  Em boa hora o fiz porque adoro a sensação de ter a habilidade para me desenrascar bem em situações  diferentes  e de me sentir completamente  à vontade em muito poucos minutos.    Mas o motivo que mais me alegra é ter feito uma descoberta: podemos dominar os instintos!    
   É  nas coisas mais simples que percebemos a força dos hábitos. E mesmo que alguns hábitos estejam de tal forma enraizados em nós que até lhes chamamos instintos,   percebi ontem que a desenvoltura e a capacidade de nos mantermos focados no que estamos a  fazer nos dá a superioridade do controle sobre  coisas bem importantes.
   Há instintos que podem ser perigosos por nos conduzirem na vida completamente em contra-mão. E é por isso que, da próxima vez que notar em mim instintos menos bons, me vou lembrar da experiência de condução destes dias em Malta e tentar dominá-los   com  a serenidade  e a lucidez  da razão.
Ana Amorim Dias

16.10.12

Uma dança ao luar



 Ela acabou de colocar a loiça na máquina de lavar. Olhou para o balde do lixo com preguiça mas pegou nele e saiu para a rua. Lá fora sentiu o calor da noite e o luar que a banhava. Caminhou  os trinta passos que a separavam do contentor verde, embalada pela sonoridade ritmada da música que estava a ouvir. Caminhou os trinta passos a deixar-se envolver pela tranquilidade e segurança daquele paradisíaco vale tão protegido do mundo. Colocou o saco no contentor e começou a voltar para casa.
   E então a sua sombra tomou-a nos braços e roubou-lhe uma dança. “Hoy voy a verte de nuevo, voy a  alegrar tu tristeza, vamos hacer una fiesta… “ cantava a Gloria Stefan.  E ela rendeu-se. Dançou com a sua sombra sob a luz cintilante do luar. E na sombra viu a silhueta do Cristo redentor, viu o pensador de Rodin e o Poseidon com o seu ceptro. Dançou com todos eles ao luar, num êxtase inesperado que a fez voltar a si.
   Volveu a casa no fim da música. Colocou um novo saco no balde do lixo e suspirou de alegria. O dia tinha valido a pena.
Ana Amorim Dias

(Des)governos

Qualquer dona de casa, por poucos estudos que tenha, é melhor economista  do que os nossos governantes têm sido. Qualquer pessoa percebe que quando as receitas não chegam para cobrir as despesas há que reduzir os gastos.
   Tenho trinta e oito anos e chego à conclusão que o País, durante toda a minha vida,  foi (des)governado por cabeças ocas e gananciosas que só olharam para o crescimento do volume dos seus próprios bolsos, sem olhar às consequências que inevitavelmente trariam a dez milhões de pessoas que se estão a tornar indigentes.
   O (des)governo destas décadas é semelhante ao de  uma dona de casa que, com o seu modesto salário, se permitiu comprar vestidos Gucci, sapatos Manolo Blahnik, malas Louis Vuitton e comer em restaurantes gourmet todos os dias. É semelhante a uma dona de casa que, com o seu modesto salário, adjudicou obras milionárias na sua casa de duas assoalhadas, fazendo a entrega de  entradas chorudas a que perdeu o direito por não ter como levar as obras até ao fim.
  Sempre me senti segura neste país que é o nosso. A par com o clima ameno, com a beleza deste retângulo à beira mar plantado e com a suavidade das gentes, sempre amei Portugal pela sua capacidade de me fazer sentir segura e sem medo. Nunca experimentei  o pavor de não poder falar o que penso nem de ouvir balas a zunir pelo ar quando saio à rua.   E de que serve isso agora?  De que serve este amor e valorização quando parte da minha família está na iminência de ter que emigrar?  De que serve o bom clima e a nossa linda História, quando todas as pessoas  se vêem  roubadas  por um Estado que supostamente deveria zelar pelos seus?
   Como dona de casa que também sou, já vivi ocasiões em que tudo o que era supérfluo teve que ser banido. Já vivi em grandes casas e em apartamentos mínusculos. Mas nunca roubei ninguém. Nunca, para manter o meu bem estar, lezei quem quer que fosse, muito menos o poderia fazer  com quem tenho a obrigação moral de cuidar.  
   Ao longo das últimas décadas os nossos governantes têm sido pais tiranos e injustos; viciosos e viciados. Têm sido como aqueles pais bêbados, drogados e sem honra que roubam as poupanças dos filhos e lhes tiram o pão da boca!
  O problema é conjuntural e estrutural. Não se soluciona nem rápida nem facilmente, se é que ainda tem solução.   Não digo que  os “filhos” da Nação não estejam dispostos a sacrifícios, mas é imperativo que os “filhos da mãe” que nos (des)governam, compreendam que não é só a apertar a rosca que isto lá vai. É preciso que deixem os empresários ( ignorantes ou não…) trabalhar.  É preciso que entendam que a “venda”  do turismo nacional no estrangeiro tem que ser apadrinhada. É preciso que  responsabilizem criminal e civilmente quem gastou milhões em elefantes azuis às pintinhas cor de rosa. É preciso que  devolvam alguma dignidade às pessoas e lhes recuperem  a esperança e a capacidade de  ganhar algum dinheiro pois sem ele a economia pára de vez  e aí é que Espanha ficará com vista para o mar a toda a volta. É preciso que os “filhos da mãe” que nos (des)governam   se humanizem um pouco mais e compreendam os dramas que se intensificam em cada casa, porque a economia, meus senhores,  não serve para escravizar o Homem e sim para o organizar!  
Ana Amorim Dias

O bichinho



    Todos temos um bichinho dentro de nós, seja ele qual for.  Calculo que quem costuma ler o que escrevo esteja já a prever que vou dizer que o meu bichinho é escrever. Pois desenganem-se! Esta crónica ainda vai dar algumas voltas até eu conseguir produzir uma conclusão, muito embora, confesso, tenha já uma ideia bem clara de onde é que isto vai parar.
   Escrevi a última crónica há três manhãs atrás, antes de me “enclausurar”, para uma sequência de três festas, na  Quinta do Monte, de onde apenas saí para comprar ovos e dar um tropeção no mar.
   Ora acontece que o bichinho que vêem na imagem que acompanha estas palavras,  se cruzou várias vezes no meu caminho ao longo dos últimos dias. Volta e meia eu virava-me e lá estava ele a meter-se comigo.
- Olá! Sou giro, não sou? – Perguntava-me o animal que eu não soube catalogar.
- Estás a falar comigo? –
- Sim. Tiras-me uma fotografia?... Pode vir a servir-te para alguma crónica…  -  Instigou-me.
“ Olha-me este!” – pensei – “ Mais um a fazer-se à crónica!”
   Bem, o certo é que lhe tirei a foto e aceitei o desafio. Mas foi ao não conseguir definir se o bicho é um rato, um coelhinho ou qualquer outro animal, que percebi que iria pelo caminho do “bichinho”: o bichinho que todos temos cá dentro.
   Passei a sexta, o sábado e o domingo com pessoas maravilhosas. Tanto as que me contrataram as festas como as que às suas festas vieram. Mas de todas, as mais maravilhosas  são as que  repetidamente chamo  para me ajudarem a tornar perfeitos os dias alheios que se querem especiais!  Todos juntos formamos um grupo tão eclético quanto louco e cómico. Cada um com as suas manias, conversas, ritmos e humores. Cada um com os seus sonhos, desejos, ambições e problemas. Mas todos com uma simpatia sem mácula e com uma amor à camisola “Quinta do Monte” que não tenho como agradecer.  Tenho a sorte de trabalhar com amigos; com pessoas sensacionais que,  por mais que às vezes peguem fogo às toalhas, se esqueçam dos camarões ou partam pratos, se juntam estóicamente nos momentos dos pequenos stresses para solucionar tudo com muito empenho e gargalhadas.
   E é ao fazer este balanço que acabo por perceber o significado de todos os  “bichinhos” que moram dentro de mim.  E fico a saber que, de todos eles,  o mais  ativo e constante, é o bichinho que me impulsiona na direção dos outros.   O meu mais valioso bichinho é o que me faz  conseguir estabelecer uma ligação especial com quem faz parte da minha vida.  Porque é nas mais significativas ligações que conseguimos estabelecer com os outros que os grandes valores da vida nos são revelados.
Ana Amorim Dias

11.10.12

Uma vida normal




   Não sei se vos aconteceu, na juventude, idealizarem como seria a vossa vida adulta.  E se o fizeram, não sei se ainda se recordam.   Eu lembro-me. Mas fiz batota. Só me recordo do que sonhava para a minha vida adulta porque há uns tempos descobri uma carta que me recordou sobre o que,  na altura, a minha imaginação alcançava.
  Eu imaginava uma vida citadina, com um lindo apartamento,  filhos,  um bom emprego e um eterno amor inocente e juvenil.  Imaginava uma vida absolutamente normal, porque foi na normalidade e na segurança de um bom emprego que fui levada a crer que tudo correria bem e estaria segura. 
   Li aquela carta com a incredulidade de quem se recusa a acreditar que já foi tão limitada. Li-a como se fosse a personagem de um filme de aventuras que olha, através do ecrã, para o observador  que jaz  inerte no sofá.
  Tirando os filhos, tudo o resto saiu invertido. Moro num paraíso bucólico; nunca tive  um bom emprego nem salário certo  ao fim do mês, mas tudo o que faço enche-me de um prazer inexplicável; e o amor, ao invés de inocente e juvenil, cresceu para uma aventura que se contrói, inexplicável, numa conquista surpreendente e diária.   Vivo numa vida que nem eu mesma tive capacidade para imaginar. Uma vida cheia de tempo, projetos, aspirações, energia, sol, mar, palavras, música, cultura  e emoções. Uma vida arriscada e completamente alheia à normalidade instituída  pelas mentes comuns.  E acabo por perceber que foi por ter rejeitado por completo a segurança da normalidade que agora tenho uma vida boa e “normal”.
   Não me vou pôr a imaginar mais  o futuro. Já percebi que ele tem sempre a hipótese de adquirir contornos  mais surpreendentes e atípicos do que  temos capacidade para supôr.  Já percebi que a normalidade é um conceito demasiado amplo e moldável, inconfinável  a qualquer tipo de padrão pré-estabelecido. Porque, no fundo, por mais anormal que seja a nossa vida, o truque de a viver bem, é olhá-la como se fosse a mais normal das vidas.
Ana Amorim Dias

10.10.12

Curiosos



    A convite do professor de Português do Tomás, fui  visitar uma turma de 5º ano para lhes explicar a importância da leitura e  da escrita.  Assim que cheguei ele olhou para mim e, com um olhar entristecido,  desabafou que os miúdos de hoje andam pouco curiosos.
   Ao longo de quase uma hora falei, à luz de vários contextos, sobre a importância da nossa língua, chegando mesmo a confessar que um dos mais fortes motivos da minha alegria lusa é ter a incrível riqueza da língua portuguesa à disposição do meu ofício.  Mas, cá dentro, só me ecoava o tom sentido com que o professor João Viegas se queixou da falta de curiosidade dos putos.
   Será normal que as crianças de hoje não leiam? Será normal que não tenham nem curiosidade nem a consciência da riqueza que lhes é facultada nas escolas em forma de conhecimento?
  Numa era em que a tv passa 24 horas por dia de desenhos animados em vários canais; numa época em que a internet é raínha e os jogos de computador e play stations são princípes e o mundo se lhes apresenta como um produto acabado, não seria de esperar esta apatia cerebral  por parte das nossas crianças? 
   É claro que não estou contra o formato que o Mundo adquiriu. Não sou uma aguerrida vingadora das novas tecnologias e meios de comunicação, isso seria uma estupidez. Mas não posso evitar perguntar-me como se pode dar a volta a isto, ainda mais por ter dois filhos!   Como poderemos, afinal, aliciar os miúdos a ler e a ter curiosidade em apreender pelo menos  uma mínima parte de toda a informação e conhecimento a que têm acesso?  Como semeamos a curiosidade nas nossas crianças?
   Desta vez a questão fica em aberto. Deixo a “bola” do vosso lado porque está na hora de ir cumprir a mesma missão no 6º - C, a turma do Tomás…
   E agora que penso nisto, já decidi: vou perguntar a todos eles do que é precisam para se tornarem mais curiosos!
Ana Amorim Dias