(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

5.11.12

Work your magic!



  Eu já desconfiava!  Já tinha fortes suspeitas que também pensava em forma escrita durante o enlevo do sono. Hoje ficou provado. As ideias, divagações e seus desenvolvimentos, também fervilham enquanto me encontro aninhada nos fortes braços de Morfeu.
   E então acordei. Ouvia ainda a voz do Gonçalo a repetir algo que me disse este Verão enquanto esperava que eu fizesse mais umas quantas caipirinhas para ele levar para as mesas:  - Vai, Ana,  work your magic! –
   Sei que “trabalho a minha magia” quando faço caipirinhas… e quando sorrio, e quando converso, e quando me entrego e viajo e penso e escrevo. Trabalho a minha magia como a trabalha toda a gende que está empolgada e  sintonizada naquilo que está a fazer. Mas porque raios  é que a magia não cobre a chegada do mail de uma editora capaz  a dizer que quer publicar as minhas obras em edições de alguns milhares em vez de apenas quinhentos livros? Porque raios é que as pessoas certas não me lêem sequer uma obra?  Viverei no sítio errado? Na altura errada? Não tenho os conhecimentos certos? Ou a magia não engloba tais campos?
   Continuo a acordar para mais um dia. Ponho música a tocar. Levanto-me. E enquanto me preparo e vou gerindo a correria matinal, acabo por perceber que para um escritor tudo o que pode importar é conseguir trabalhar a magia de continuar a escrever, emocionado e feliz. Work my  magic a fazer caipirinhas pode demorar breves instantes, mas a conseguir outras coisas… bem,  aí, acordada ou a dormir,  pode levar anos mas talvez acabe por produzir os seus efeitos.  
Ana Amorim Dias

2.11.12

Os caroços das bananas




    Durante um passeio pela Sicilia  houve um italiano que me contou uma história interessante a propósito das minhas adoradas alfarrobas. Não garanto a fidedignidade dos factos mas também nada me leva a crer que tenham sido inventados.
   Disse-me o tal senhor que, no tempo da segunda guerra mundial, era costume mitigar a fome às crianças com as ditas alfarrobas, fazendo crer aos catraios que estavam a comer bananas secas, para que gostassem mais.  Mas não se ficou por aqui e acrescentou que há uns tempos, contando a mesma estória a uma senhora de mais idade,  ela lhe respondeu: - Ah!! Agora é que entendo, finalmente, porque é que as bananas secas tinham caroços! –
   Gravei tal episódio porque me pareceram importantes estes caroços das bananas. No fundo e em termos amplos, todos já comemos, numa ou noutra altura da vida, bananas com caroços. Pode ter sido a crença de que a justiça era mesmo justa ou a convicção de que todas as pessoas são boas; pode ter sido a noção de imutabilidade da vida ou a certeza absoluta que que teríamos pais para sempre. E apesar de lá bem no fundo da nossa razão infantil sabermos que as bananas, mesmo que secas, não têm caroços, fomos acreditando que assim era, até ao dia das bombáticas revelações que nos confirmaram as suspeitas.
   E,  para quem aprecie metáforas, termino com a decisão que tomei: por mais que nunca me tenham dado alfarrobas a fazer-me acreditar que fossem bananas secas, come-las-ei, daqui para a frente, como se bananas secas fossem… bananas secas com caroços.
Ana Amorim Dias

31.10.12

A ponta do fio




    Ontem fiquei a olhar para os armários forrados de livros na sala da minha mãe. Os mesmos que eu cheirava, lia ou consultava na infância e juventude. Fiquei presa à fileira dos  grossos volumes que compõem a enciclopédia luso-brasileira, esse importante clássico de qualquer casa habitada por jovens curiosos com pretensões a bons estudantes. Ainda me lembro que a consultava amiúde para complementar as matérias e fazer os trabalhos que me eram pedidos.
   Fiquei a olhar para as lombadas castanhas com a noção da sua atual inutilidade. Mesmo quem não tem computador nem internet em casa, pode usar essa infindável fonte de informação nas bibliotecas e outros locais e assim ampliar um pouco a sua cultura. 
   Vivemos na mais rica época de acesso à informação que a humanidade já conheceu. Temos, à distância de meia dúzia de cliques, todo o conhecimento a que possamos aspirar. Podemos, em segundos, saber o que se passa ou já se passou em qualquer local do Mundo.  Podemos, num instante, saciar qualquer sede intelectual, tirar qualquer dúvida, aprofundar qualquer tema… mas creio que não nos apercebemos verdadeiramente da incomensurável riqueza que isso representa.  E tudo porque, a muitos milhões de pessoas por este mundo fora, lhes  falta a pontinha do fio para puxar.
   Esta pontinha de fio de que vos falo é composta, em partes iguais, por dúvidas e  curiosidade.  O problema é que, para se ter dúvidas, é preciso um bocadinho de conhecimento e vontade de ter mais informações. Só assim se consegue usar a faculdade de pensar  com mais clarividência e esclarecimento.
    E agora pergunto eu: quantos de nós estamos dispostos a usar a faculdade de pensar? Quantos de nós estamos despertos para a importância da cultura histórica, geográfica, económica, política, social,  artística e todas as outras que nos fazem falta para observar convenientemente o mundo e formular pensamentos sensatos? Quantos são os que estão capacitados a puxar essa pontinha do fio do conhecimento e transformá-lo numa maior riqueza pessoal e social?
   Será que evoluímos das enciclopédias luso-brasileiras para a inesgotável fonte que é a internet para nada?  Quero acreditar que não mas,  quando vejo tanta gente a falar de futebol e do que se passa nas casas dos segredos e afins, quase  me morre a esperança…
Ana Amorim Dias

30.10.12

“Ninita” e o até já aos “Meus Branquinhos”



   Hoje deparo-me com um dilema. Dois temas inadiáveis requerem a minha atenção. É imperativo escrever sobre ambos e é por isso que esta crónica  será feita em  dois atos.
“Ninita”
    A avó Mariana, mãe da minha mãe, chamava “nena” à filha. “Nena” ou “ nenita”, é a forma carinhosa de, em castelhano, dizer menina.   Mas há coisas que (não necessariamente para mal) se deturpam e, muito rapidamente, a minha mãe começou a ser dona de uma doce alcunha: Ninita.   Durante a minha própria infância fui-me habituando a ouvir o meu pai, a minha outra avó e outras pessoas mais velhas a chamarem-lhe Ninita mas, com o passar do tempo, tal tratamento caiu no esquecimento… mas só até o Vítor e a encantadora Micá (re)entrarem de rompante nas nossas vidas.
   Hoje a Laura “Ninita” faz anos. Do alto das suas várias décadas,  mantém o ar de princesa serena que eu lhe atribuía quando só lhe chegava à cintura. Com o seu cabelo branco, andar deslizante,  pose nobre, e beleza natural,  a Laura, minha mãe, continua a ser o irreprensível ícone de matriarca compreensiva e exemplar. Mas, olhando com mais atenção, percebo que ainda nela habita a Ninita, a nena que foi em menina.  Porque todos somos tudo  o que a soma da passagem dos anos foi deixando marcado em nós.  Parabéns mãe!

Até já aos  “ Meus Branquinhos”
  Ele olhou-me com olhos tristes quando nos abraçamos com força. O combóio estava prestes a levá-los de novo para longe.
- Não vás triste… Para nos podermos ver de novo é preciso dizer “até já”.  – Segredei-lhe ao ouvido, convicta do que estava a dizer. Por muito que tenha detestado o momento do adeus, percebi que os cinco dias que passei com este maravilhoso casal valeriam todas a penas.
   Desconfio que a tristeza da separação é mais cruel para quem tem mais idade. Talvez o inconfessável receio de não haver próxima vez lhes baile no pensamento como um fantasma de negras vestes.
  Mas esses medos obscuros não passam disso mesmo: de pensamentos. Porque com a linguagem da alma o que realmente dizemos a quem amamos é que estamos sempre juntos. Para lá do espaço. Para além do tempo.
Ana Amorim Dias

  
 

29.10.12

Uma encantadora grávida



- Mãe? –
Eu estava concentrada, a cozinhar dois jantares diferentes, mas reconheci os sinais de perigo naquela vozinha sonsa.
- Diz,  Johny. 
- Podes ir à internet ver o que é que as salamandras comem? –
Eu garanto-vos solenemente que já andava a estranhar  a  acalmia  de episódios dignos de registo por parte de um dos meus personagens principais.  Levantei os olhos para lhe conseguir  “ler” melhor a linguagem corporal.  O catraio estava espevitado e enérgico, no meio de uns ligeiros saltinhos que me garantiram estar perante um caso grave e consumado.
- Desculpa?? –
- Sim, mãe! Vai lá ver o que é que as salamandras comem! Rápido! -
- Mas tu estarás bom da cabeça? Achas que agora vou andar a alimentar esses bichos asquerosos?
- Óh mãe… Não é preciso alimentá-los todos… É só a que está grávida, que eu até já separei dos outros… -
É claro que larguei as minhas habilidades gourmet e o segui para a rua, com o iphone já em riste, enquanto ele explicava a importância de alimentar bem aquela fémea para viver o privilégio de ter salamandras bébés.
- Ai João, que nojo! – Foi tudo o que consegui exclamar ao vê-lo a apanhar outra pelo rabo para juntar à coleção.
Obriguei-o a ir para o banho e abortar a missão, mas de nada serviu pois no dia seguinte fui dar com o marafado catraio a montar uma pequena sela com um boneco da lego… em cima de outra atarantada salamandra.  Assim é o meu filho mais novo: uma inesgotável fonte de invenções que não lembram a ninguém!
Ana Amorim Dias

26.10.12

A teoria do taparuer



   Começo por avisar que não me vou render à forma complicada como originalmente se escreve tupperware. Vai à portuguesa e acabou a conversa.
  Mas deixem-me começar pelo princípio, para ver se isto faz algum sentido. Há quem tenha a ambição de encontrar resposta para as grandes questões da existência, como os clássicos “de onde vimos”, “ para onde vamos”, etc.   Eu garanto-vos que não sei qual é o meu problema, mas às vezes dou comigo no desesperado  estado de quem acha que  encontraria o sentido da vida caso percebesse para onde vão os taparueres!
   Tenho a firme convicção de que poderia gastar duzentos euros por mês em taparueres e, quando precisasse, não encontraria nenhum!  É por isso que comecei a desenvolver a teoria do taparuer. Depois de anos e anos de investigações exaustivas, recolha de provas e soma de conclusões, percebi que nunca são as nossas mães, sogras, filhos, amigos ou funcionários que nos levam os taparueres. Não, nada disso! O que se passa ( e isto é um facto comprovado por todos)  é que eles pura e simplesmente se desmaterializam!  E porquê?  Porque existe um complot intergaláctico!!   Tenho quase a certeza ( só me faltam as provas finais) de que os taparueres são os diamantes do Universo. As diversas espécies de outros planetas e galáxias, usam os taparueres como moeda para as suas trocas comerciais e como por algum estranho motivo não os conseguem produzir, vêm roubá-los às cozinhas e despensas da Terra enquanto nós estamos distraídos.
  Aceito a vossa incredulidade quanto ao que acabei de escrever e é por isso mesmo que vos deixo o desafio: comprem uns quantos taparueres hoje mesmo e contem os dias que eles levam a desaparecer.
Ana Amorim Dias

25.10.12

Espuma



   Coloco duas moedas na ranhura. Viro o ponteiro para a primeira fase. Carrego no “start” e a água inicia o seu trajeto entre a agulheta e o carro.  Revejo mentalmente a lista do que queria ter preparado. A casa impecavelmente arranjada. Confere. O frigorífico repleto das coisas mais importantes. Confere. A verificação da hora de chegada do combóio que os trás. Confere.
  “Não me posso atrasar!” – Penso.  Detesto atrasos. Mais os meus que os alheios.  “A falta de pontualidade é, para mim,  uma das mais incomodativas e gritantes faltas de formação que alguém pode ter. Ainda bem que sou pontual!”.  Os pensamentos vão voando, velozes, enquanto, em piloto automático, aponto  a agulheta ao carro. 
  Faço planos. Mais dez minutos para chegar ao café. Meia hora para a crónica. Uma hora para chegar a Faro nas calmas e esperar pelo Alfa Pendular que embala  as melhores visitas com quem poderia querer privar durante os próximos dias.  Aponto a água quente para  o vidro da frente. “ Credo,  que encardido…”.  
   “E o que vou escrever hoje?”.  Divago. A água pára. Coloco mais uma moeda e continuo. Lembro-me de uma parábola que ouvia nas missas da minha infância: a diferença entre quem se desdobrava em salamaleques para receber Jesus em casa, não lhe prestando qualquer atenção, e quem o recebia sem limpar a casa nem preparar a comida, de tão compenetrado que estava em concentrar  toda a atenção na própria visita.   Viro o ponteiro para o “enxaguar” e ponho mais uma moeda, completamente desatenta ao que ali estou a fazer.
  “Vou pela via do infante ou pela nacional? Bem… já se vê.” Imagino os dias felizes que me esperam na companhia da minha mãe, da Micá e do Vítor. E a porcaria da água acaba-se de novo! O lado esquerdo do carro ainda está cheio de espuma. O stock de  moedas chegou ao fim e o senhor do Elefante ainda não chegou para trocar mais. Olho para a agulheta e para o carro. Volto a olhar e a ponderar as hipóteses.
   Sigo caminho. Pode ser que chova mais um pouco e a espuma se vá.  A parte boa do espumante episódio  é já  saber  o que vou escrever. Às vezes, quando fazemos coisas completamente alheados do que estamos a fazer, elas correm menos bem. Mas isso pode muito bem querer dizer que, simultaneamente, estamos a dar forma a  outras coisas muito mais importantes.
  E agora já me vou. Chegar atrasada é algo em que nem posso ponderar.
Ana Amorim Dias

24.10.12

I left my lips on you



   Entramos em casa. A avó, ensonada, aguarda-nos na sala enquanto as crianças já dormem o sono sereno dos inocentes.  O Ricardo fica a falar com a mãe enquanto eu levanto de novo voo, desta vez para os quartos dos meus filhos.
   Acendo a luz do quarto do João. Aprecio a forma como dorme, tão parecida à maneira como vive a vida: de frente e com os braços abertos. Beijo-lhe o rosto. Cheiro-lhe o pescoço até encher os pulmões com o doce odor que tão bem conheço. Estremece levemente e, com mais uns beijos e snifadelas, deixo-o entregue à noite. Apago e luz e sigo para o quarto do Tomás. Já ocupa a cama toda. Afasto as mantas e junto o meu rosto ao dele. Afago-lhe o cabelo cortado de fresco e pego-lhe na mão. Comparo a minha mão com a dele. Já estão do mesmo tamanho. Beijo-o de novo e sorrio enquanto recordo as saudades constantes que, ao longo dos últimos dias, o pai teve deles.
- Tu não tens saudades? Não lhes sentes a falta? – Perguntava-me.
E eu desviava a conversa por vergonha de responder a verdade.  – Digamos que não me dói a alma. Sei que estão bem… -
E, numa das vezes que a questão voltou, olhei para a chávena do café que estava a bebe, onde li:  “I left my lips on you”. Entendi então o porquê de não sofrer com saudades. Deixei-lhes a marca dos meus lábios. A marca do meu amor estará sempre com eles, ande eu por onde andar. E é por tão bem reconhecer este facto que as saudades de quem amo já não  me doem. Because I left my lips on them.
Ana Amorim Dias

23.10.12

Siracusa





   Se acaso os budistas estiverem certos,  tenho a certeza que já passei algumas vidas em Itália.  A sonoridade da língua, a cultura, a gastronomia, as paisagens e a história,  despertam-me uma sensação de pertença de tal forma confortável que não tenho como negar uma qualquer ligação  ancestral.
   Foi com a consciência deste  inegável amor por Itália que  voltei lá  toda contente, desta vez a terras sicilianas.   Foi sem esforço que, mesmo antes de partir, encarei  Siracusa como o destino mais empolgante que iria visitar. E a razão é tão simples que chega a ser parva: a forma como o nome “Siracusa” sempre me bailou  nos lábios  e me soou no fundo da alma,  conferiam-lhe,  inegavelmente, o  caráter etéreo dos sonhos.
   Cheguei lá pela fresquinha. Visitei, passeei, fotografei, e até encontrei um recanto para entrar mar adentro como é costume. Mas a cidade não fez juz ao efeito que o seu nome produz em mim! Não sei explicar porquê, mas o “clic” não se deu. E lá me fui embora, algumas horas depois, um pouco desalentada pela deceção sentida.
  Mas a vida sabe o que faz e, sem se fazer rogada, fez-me chegar a Modica, uma cidade que eu nem suspeitava existir. No fundo de um encantador vale, encontrei a cidade do chocolate e das gargalhadas. Parece que a receita do chocolate foi roubada a uns espanhóis que a truxeram dos Maias, mas não posso confirmar pois não me informei com exatidão.  Já as gargalhadas que dei, sei bem porque foram libertadas, quase me levando ao doce pranto do riso.
   Mas isso agora não interessa nada! O que importa é que tinha grandes expetativas sobre uma terra que me defraudou e nenhumas expetativas sobre outra,  que se revelou um tesouro, e isso fez-me entender que nem tudo o que pensamos adorar  é merecedor da nossa adoração ao passo que,  às vezes,  é de onde menos se espera que nos chegam as maiores bençãos.

Ana Amorim Dias
  

20.10.12

Homens-peixe




   Gozo, a segunda ilha de Malta, tem um recanto chamado Azure Window   que ontem tive a oportunidade de conhecer.  
   Prevenida com o sempre presente bikini, não me neguei a explorar  a escorregadia e irregular entrada de mar que a foto ilustra.  Mas o verdadeiro interesse deste pequeno episódio  deu-se depois de tirada a foto, quando mergulhei no precipício azul escuro que está mesmo atrás de mim.  Tomar banho num local tão profundo e com água tão translúcida faz uma certa impressão, sobretudo quando começamos a ver grandes quantidades de ar a vir à tona e peixes amarelos enormes a aproximar-se de nós.
   Por momentos o banho perdeu todo o seu encanto… até que percebi que os enormes peixes eram apenas mergulhadores desportivos que começaram a sair do buraco, um por um, sob o meu olhar aliviado.
  Não sei porquê  mas o banho acabou ali. Fiquei com saudades dos “meus” areais divinalmente extensos que roçam o oceano sem grandes sobressaltos. E fiquei a pensar que talvez não seja assim tão aventureira… Ou então foi apenas o gene do gosto pelo que nos é conhecido que resolveu vir à tona como os estupores dos homens-peixe.
Ana Amorim Dias

19.10.12

A coleção



    Normalmente quando vou de férias é sempre assim: a última coisa que faço é descansar.  Para isso tenho  as “minhas” praias e cafés; a minha casa e os seus sofás. Se escolho novos destinos é para acordar ao amanhecer e voltar para o hotel quando as pernas já se renderam e os olhos se estão a fechar; é  para caminhar por todas as ruas, espreitar todas as praças e experimentar o mar a cada oportunidade; é para provar tudo, cheirar tudo e andar em tudo;  é para  recarregar as baterias do ser à mesma velocidade que  gasto as energias do corpo.  
  A cada milha guiada, voada, andada ou navegada, tomo a consciência de que para encontrar o bonito é preciso, por vezes, passar pelo feio e que para se poder viver experiências únicas há que saber contrariar o atrito da preguiça, ignorar  o  apelo sedutor  dos caminhos seguidos pela carneirada e calar os receios que às vezes se instalam.
  Viajar é muito fácil e confortável,  mas conhecer realmente os locais que se visitam já não é assim tão simples. É preciso ter resistência, espírito de aventura e capacidade seletiva. É preciso improvisar, filtrar informação, saltar com facilidade para os planos “b” e “c” e não desistir perante as dificuldades. É preciso ter capacidade de orientação, observação e comunicação,  entre tantas coisas mais. É por isso que continuo a achar que viajar, mais que um exercício de lazer e estilo, é uma escola de vida; uma ocasião renovadamente única para nos potenciar as capacidades.  E o que  isto tem de bom é o enriquecimento de inquantificável valor que exercemos sobre nós mesmos e a seleção   de momentos  fabulosos  que  vamos acrescentando à única  coleção que realmente possuímos: a coleção de tudo aquilo que já vivemos.
Ana Amorim Dias
  
  

17.10.12

Instintos



   Sentei-me no carro e dei à chave. Concentrei-me em meter as mudanças com a mão esquerda, mas a direita teimou em tentar destravar o travão de mão.  Soprei a madeixa de cabelo que me pendia no rosto e abri o vidro.
   “Não és tu, parva!” – Disse à minha mão direita.  – “ É a outra!”  E a mão esquerda, obediente, lá destravou o carro que já tinha a marcha a trás engatada.
   Tive que pensar bem como ia sair daquele parque, mas usei a  lógica, essa fabulosa ferramenta da razão, e coisa até correu bem. Entrei na estrada sempre pela mão esquerda e com a minha mão esquerda bem ativa nas mudanças. Passaram só cinco minutos e já eu ia a guiar e a conversar alegremente como se aquilo que estava a fazer,  pela primeira vez e contra todos os meus instintos, fosse a coisa mais simples  do mundo.  E sabem que mais? É mesmo!
   Se eu pensasse bem nas coisas talvez  não me tivesse metido à noite, num carro alugado e “todo trocado”,  numa terra que me é completamente desconhecida, a guiar no que é, para mim, o lado errado da estrada. Mas a verdade é que não pensei muito e acabei por fazer algo que sempre tive curiosidade em experimentar,  para ver como me sairia.  Em boa hora o fiz pois  fiquei com a satisfatória noção de ter efetuado mais um upgrade às minhas (já vastas?) capacidades.  Em boa hora o fiz porque adoro a sensação de ter a habilidade para me desenrascar bem em situações  diferentes  e de me sentir completamente  à vontade em muito poucos minutos.    Mas o motivo que mais me alegra é ter feito uma descoberta: podemos dominar os instintos!    
   É  nas coisas mais simples que percebemos a força dos hábitos. E mesmo que alguns hábitos estejam de tal forma enraizados em nós que até lhes chamamos instintos,   percebi ontem que a desenvoltura e a capacidade de nos mantermos focados no que estamos a  fazer nos dá a superioridade do controle sobre  coisas bem importantes.
   Há instintos que podem ser perigosos por nos conduzirem na vida completamente em contra-mão. E é por isso que, da próxima vez que notar em mim instintos menos bons, me vou lembrar da experiência de condução destes dias em Malta e tentar dominá-los   com  a serenidade  e a lucidez  da razão.
Ana Amorim Dias