(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

12.11.12

A omissa lista


   Sempre que me enviam currículos, leio-os com atenção.  Percorro as listas descritivas da formação, experiência profissional e outras capacitações, sempre na expetativa de encontrar a listagem dos pontos do Planeta já “tocados” pela pessoa em questão.
   Mas nunca me fizeram o gosto. Nunca ninguém me enviou o currículo com a lista que considero mais  importante. E o pior é que não entendo o porquê de se continuar a desvalorizar a formação mais considerável  que qualquer indivíduo pode ter.
    Pessoas viajadas são indiscutivelmente mais ricas do que as que permanecem  nos confinados limites geográficos do dia-a-dia comum. Quem viajou investiu. Investiu em si sob todos os pontos de vista possíveis. Quem viajou superou-se de alguma forma; quis mais; experimentou; sentiu; arriscou; aprendeu; evoluiu. Foi tocado por todos os locais que os seus pés calcorrearam e  voltou diferente, a olhar com novos olhos e a reagir aos estímulos com reações mais grandiosas.
   Continuo a receber currículos, sempre à espera da lista mais importante. Aquela que me pode revelar se estou perante alguém que me conseguirá surpreender  graças aos horizontes que já decidiu alargar.
    Porque quem mais viaja e se deixa tocar pelos locais que tocou, terá para sempre a vantagem de ser,  pessoal e profissionalmente, maior.
Ana Amorim Dias
  

9.11.12

Nevoeiro



  Entro com o carro por um nevoeiro cerrado.  – Nevoeiro é quando as nuvens caem ao chão… - deixo escapar, a meia voz.  No banco de trás, os miúdos riem-se da minha definição infantil. E voltam à conversa tranquila (espanto!) que estão a ter entre si, deixando-me entregue a dez quilómetros de conjeturas.
   O Pablo vai soando na aparelhagem do carro,  “ … me llaman loco por dejar tu recuerdo quemarme la piel…”. Não me deixo levar por “recuerdos” nostálgicos, mas chegam-me  ao pensamento claros episódios dos sonhos da madrugada. Um restaurante deslumbrante onde nunca tinha estado. Algumas pessoas à minha espera lá dentro. Sou muito bem atendida  por uma senhora e dois senhores que me aguardam à porta. Tiro a toalha que me envolve os cabelos molhados e entrego-a, com toda a naturalidade, a um dos homens. Sacudo a melena sobre os ombros semi-desnudos. Volto atrás. Dois euros de gorjeta ao simpático senhor. Será bastante? 
    Continuo a conduzir. Em piloto automático extremamente atento. “ Que raio, Ana… como é que arranjas estes sonhos?”. Trespasso as nuvens caídas no chão e penso que tal como o lugar delas não é ali, também a realidade se encontra alterada. O Mundo mudou. As escolhas que pareciam certas na minha juventude não fazem agora grande sentido. Um bom emprego. Um ordenado certo ao fim do mês. Segurança. O que os meus pais queriam para mim; o que todos os pais queriam para o futuro dos filhos, pertence a uma realidade que já é quase irreal. Segui outros caminhos bem mais arriscados. Em boa hora o fiz.
   Olho de frente para o nevoeiro. Olho para trás pelo retrovisor e observo as duas crianças a quem tenho que ensinar a realidade. Como os preparo para o futuro?  O lugar das nuvens não é só no céu. E o “certo” pode ser de uma incerteza gritante…  Digo-lhes para se nortearem só pela segurança ou para ousarem ser originalmente inventivos?  Digo-lhes que uma escolaridade sólida é o suficiente ou incito-os a aprender todos os truques da natureza e a saber viver dela? Digo-lhes que saber história, geografia e fórmulas matemáticas é mais importante que saber pescar, amassar pão, depenar uma galinha ou distinguir as ervas do campo que se podem comer?  Não sei. Por isso, e por via das dúvidas, decido que o imaginativo sonho desta noite e as nuvens caídas no chão são sinais.  Sinais da mudança dos tempos. Sinais de que as crianças de hoje têm que ter, mais  do que  conhecimentos teóricos, sabedorias pragmáticas e, acima de tudo, a noção de que talvez um  dia venham a precisar de algo que os adultos lhes estão sempre a querer amputar: a capacidade de usar a fantasia e a imaginação como ferramentas bem reais.
Ana Amorim Dias

7.11.12

Nomes



  - Olha para isto. – A minha tia passou-me o papel para as mãos, sem que eu o esperasse.
  Fiz como disse. Olhei. Li e reli para ter a certeza de que  estava a entender bem. Mariana Enriqueta Salvadora Concepción Cayetana Petra Esperanza Ignacia Cinta de la Santissima Trinidad  Romero y Rasco.
- Não pode ser, Concha! – Respondi-lhe,  depois do choque inicial.
- Pois… Estás tão espantada como eu fiquei quando me deram a certidão. Até pensei que se tivessem enganado na pessoa, mas não. Era este o nome da tua avó materna! –
   Fiquei logo com a sensação de ter sangue da realeza espanhola. Afinal que outra justificação poderia haver para a minha avó ter nada mais nada menos que treze nomes?
Mais tarde comentei com os meus filhos o nome da sua bisavó, ao que o João respondeu, praticamente sem pestanejar: - Porque é que ela tinha treze e eu só tenho três? -   Senti-lhe a indignação na voz e só soube responder-lhe: - Óh filho… assim é muito mais prático. –
  Mas, como é óbvio, não consegui impedir-me de me entregar às mais profundas conjeturas. Porque é que os pais desta avó,  que nunca cheguei a conhecer, a batizaram com tão rebuscada fórmula? Seria costume? Que tipo de afirmação, dedicatória ou tributo estavam a efetuar?  Não encontrei a resposta e talvez nunca a encontre, mas fiquei a pensar em como me chamaria se acaso me calhasse a (má?) sorte de ter que ter tantos nomes.
   Ana do Mar Lúcia Paixão Prazeres Lopes Deslumbrada das Palavras  Amorim  Amores dos Dias. Um pouco índio, mas seria este o meu nome!
   Deslumbrei-me com o nome desta avó que também escrevia. Deslumbrei-me como quase todos os dias consigo deslumbrar-me com algo. E reservei, como se reserva a massa do pão que amasso até estar pronto para entrar no forno a lenha. Reservei esta pequena estória até me chegar a questão que me fez partilhá-la hoje: e tu? Se tivesses treze nomes, como te chamarias?

Ana Amorim Dias

6.11.12

Nas barbas do Pai Natal




    Abri o mail da editora da revista. Dizia que a edição de Dezembro  não iria fugir ao clichê do Natal  e acrescentava que a abordagem do tema se deveria inclinar para o  reinventar da tradição.   
   Esfreguei as mãos de contentamento. Se durante o calor  a minha loucura é o mar, no Inverno tudo me  gira em torno da chegada do Pai Natal.  É como se a estação fria fosse um crescendo de excitação e expectativa até à madrugada de  25 de Dezembro e, depois disso, tudo se reduzisse a uma longa espera pelo regresso do calor e dos banhos de mar.  
   Mas voltemos ao tema de reinventar o Natal, algo que, com a atual crise, é de uma simplicidade gritante. Em vez de oferecer prendas a todas as pessoas que fazem parte das nossas vidas, podemos limitar-nos às crianças. Em vez de coisas caríssimas, podemos optar pelas criadas por nós ou por quem esteja a aproveitar a ocasião para revelar talentos esquecidos. Também podemos trocar os enfeites antigos com amigos ou familiares para não se comprarem novos; trocar o bacalhau por latas de atum e o bolo rei por pão de ló,  mas vou deixar estes detalhes para os meus colegas cronistas e falar agora do que realmente importa!
    A maneira mais incrível de reinventar o Natal não é para todos. Só quem tem um coração enorme, especial e de uma infantil inocência  pode ser capaz de abraçar esta encantadora aventura…. de acreditar no Pai Natal.  É isso mesmo, leram bem! Acreditar no Pai Natal é preciso.  Se formos capazes de nos entusiasmar com a sua chegada, conseguimos ouvir as suas gargalhadas,  os guizos das renas  e  o trenó a travar.  E só com o uso pleno desta capacidade  é que a tradição se reinventa e  a magia do Natal se volta a viver. Não se esqueçam que andamos há tempo demais armados em espertos , a não  conseguir vê-lo, mesmo nas barbas dele, e isto,  além de nos diminuir, faz de nós malcriadões.
   Por esta altura consigo ouvir os pensamentos de alguns de vós a ponderar que eu devia procurar ajuda psiquiátrica,  mas não se preocupem pois o Natal está quase aí …. e com ele os milagres que acontecem…. mesmo nas barbas do Pai Natal!
Ana Amorim Dias

  

5.11.12

Work your magic!



  Eu já desconfiava!  Já tinha fortes suspeitas que também pensava em forma escrita durante o enlevo do sono. Hoje ficou provado. As ideias, divagações e seus desenvolvimentos, também fervilham enquanto me encontro aninhada nos fortes braços de Morfeu.
   E então acordei. Ouvia ainda a voz do Gonçalo a repetir algo que me disse este Verão enquanto esperava que eu fizesse mais umas quantas caipirinhas para ele levar para as mesas:  - Vai, Ana,  work your magic! –
   Sei que “trabalho a minha magia” quando faço caipirinhas… e quando sorrio, e quando converso, e quando me entrego e viajo e penso e escrevo. Trabalho a minha magia como a trabalha toda a gende que está empolgada e  sintonizada naquilo que está a fazer. Mas porque raios  é que a magia não cobre a chegada do mail de uma editora capaz  a dizer que quer publicar as minhas obras em edições de alguns milhares em vez de apenas quinhentos livros? Porque raios é que as pessoas certas não me lêem sequer uma obra?  Viverei no sítio errado? Na altura errada? Não tenho os conhecimentos certos? Ou a magia não engloba tais campos?
   Continuo a acordar para mais um dia. Ponho música a tocar. Levanto-me. E enquanto me preparo e vou gerindo a correria matinal, acabo por perceber que para um escritor tudo o que pode importar é conseguir trabalhar a magia de continuar a escrever, emocionado e feliz. Work my  magic a fazer caipirinhas pode demorar breves instantes, mas a conseguir outras coisas… bem,  aí, acordada ou a dormir,  pode levar anos mas talvez acabe por produzir os seus efeitos.  
Ana Amorim Dias

2.11.12

Os caroços das bananas




    Durante um passeio pela Sicilia  houve um italiano que me contou uma história interessante a propósito das minhas adoradas alfarrobas. Não garanto a fidedignidade dos factos mas também nada me leva a crer que tenham sido inventados.
   Disse-me o tal senhor que, no tempo da segunda guerra mundial, era costume mitigar a fome às crianças com as ditas alfarrobas, fazendo crer aos catraios que estavam a comer bananas secas, para que gostassem mais.  Mas não se ficou por aqui e acrescentou que há uns tempos, contando a mesma estória a uma senhora de mais idade,  ela lhe respondeu: - Ah!! Agora é que entendo, finalmente, porque é que as bananas secas tinham caroços! –
   Gravei tal episódio porque me pareceram importantes estes caroços das bananas. No fundo e em termos amplos, todos já comemos, numa ou noutra altura da vida, bananas com caroços. Pode ter sido a crença de que a justiça era mesmo justa ou a convicção de que todas as pessoas são boas; pode ter sido a noção de imutabilidade da vida ou a certeza absoluta que que teríamos pais para sempre. E apesar de lá bem no fundo da nossa razão infantil sabermos que as bananas, mesmo que secas, não têm caroços, fomos acreditando que assim era, até ao dia das bombáticas revelações que nos confirmaram as suspeitas.
   E,  para quem aprecie metáforas, termino com a decisão que tomei: por mais que nunca me tenham dado alfarrobas a fazer-me acreditar que fossem bananas secas, come-las-ei, daqui para a frente, como se bananas secas fossem… bananas secas com caroços.
Ana Amorim Dias

31.10.12

A ponta do fio




    Ontem fiquei a olhar para os armários forrados de livros na sala da minha mãe. Os mesmos que eu cheirava, lia ou consultava na infância e juventude. Fiquei presa à fileira dos  grossos volumes que compõem a enciclopédia luso-brasileira, esse importante clássico de qualquer casa habitada por jovens curiosos com pretensões a bons estudantes. Ainda me lembro que a consultava amiúde para complementar as matérias e fazer os trabalhos que me eram pedidos.
   Fiquei a olhar para as lombadas castanhas com a noção da sua atual inutilidade. Mesmo quem não tem computador nem internet em casa, pode usar essa infindável fonte de informação nas bibliotecas e outros locais e assim ampliar um pouco a sua cultura. 
   Vivemos na mais rica época de acesso à informação que a humanidade já conheceu. Temos, à distância de meia dúzia de cliques, todo o conhecimento a que possamos aspirar. Podemos, em segundos, saber o que se passa ou já se passou em qualquer local do Mundo.  Podemos, num instante, saciar qualquer sede intelectual, tirar qualquer dúvida, aprofundar qualquer tema… mas creio que não nos apercebemos verdadeiramente da incomensurável riqueza que isso representa.  E tudo porque, a muitos milhões de pessoas por este mundo fora, lhes  falta a pontinha do fio para puxar.
   Esta pontinha de fio de que vos falo é composta, em partes iguais, por dúvidas e  curiosidade.  O problema é que, para se ter dúvidas, é preciso um bocadinho de conhecimento e vontade de ter mais informações. Só assim se consegue usar a faculdade de pensar  com mais clarividência e esclarecimento.
    E agora pergunto eu: quantos de nós estamos dispostos a usar a faculdade de pensar? Quantos de nós estamos despertos para a importância da cultura histórica, geográfica, económica, política, social,  artística e todas as outras que nos fazem falta para observar convenientemente o mundo e formular pensamentos sensatos? Quantos são os que estão capacitados a puxar essa pontinha do fio do conhecimento e transformá-lo numa maior riqueza pessoal e social?
   Será que evoluímos das enciclopédias luso-brasileiras para a inesgotável fonte que é a internet para nada?  Quero acreditar que não mas,  quando vejo tanta gente a falar de futebol e do que se passa nas casas dos segredos e afins, quase  me morre a esperança…
Ana Amorim Dias

30.10.12

“Ninita” e o até já aos “Meus Branquinhos”



   Hoje deparo-me com um dilema. Dois temas inadiáveis requerem a minha atenção. É imperativo escrever sobre ambos e é por isso que esta crónica  será feita em  dois atos.
“Ninita”
    A avó Mariana, mãe da minha mãe, chamava “nena” à filha. “Nena” ou “ nenita”, é a forma carinhosa de, em castelhano, dizer menina.   Mas há coisas que (não necessariamente para mal) se deturpam e, muito rapidamente, a minha mãe começou a ser dona de uma doce alcunha: Ninita.   Durante a minha própria infância fui-me habituando a ouvir o meu pai, a minha outra avó e outras pessoas mais velhas a chamarem-lhe Ninita mas, com o passar do tempo, tal tratamento caiu no esquecimento… mas só até o Vítor e a encantadora Micá (re)entrarem de rompante nas nossas vidas.
   Hoje a Laura “Ninita” faz anos. Do alto das suas várias décadas,  mantém o ar de princesa serena que eu lhe atribuía quando só lhe chegava à cintura. Com o seu cabelo branco, andar deslizante,  pose nobre, e beleza natural,  a Laura, minha mãe, continua a ser o irreprensível ícone de matriarca compreensiva e exemplar. Mas, olhando com mais atenção, percebo que ainda nela habita a Ninita, a nena que foi em menina.  Porque todos somos tudo  o que a soma da passagem dos anos foi deixando marcado em nós.  Parabéns mãe!

Até já aos  “ Meus Branquinhos”
  Ele olhou-me com olhos tristes quando nos abraçamos com força. O combóio estava prestes a levá-los de novo para longe.
- Não vás triste… Para nos podermos ver de novo é preciso dizer “até já”.  – Segredei-lhe ao ouvido, convicta do que estava a dizer. Por muito que tenha detestado o momento do adeus, percebi que os cinco dias que passei com este maravilhoso casal valeriam todas a penas.
   Desconfio que a tristeza da separação é mais cruel para quem tem mais idade. Talvez o inconfessável receio de não haver próxima vez lhes baile no pensamento como um fantasma de negras vestes.
  Mas esses medos obscuros não passam disso mesmo: de pensamentos. Porque com a linguagem da alma o que realmente dizemos a quem amamos é que estamos sempre juntos. Para lá do espaço. Para além do tempo.
Ana Amorim Dias

  
 

29.10.12

Uma encantadora grávida



- Mãe? –
Eu estava concentrada, a cozinhar dois jantares diferentes, mas reconheci os sinais de perigo naquela vozinha sonsa.
- Diz,  Johny. 
- Podes ir à internet ver o que é que as salamandras comem? –
Eu garanto-vos solenemente que já andava a estranhar  a  acalmia  de episódios dignos de registo por parte de um dos meus personagens principais.  Levantei os olhos para lhe conseguir  “ler” melhor a linguagem corporal.  O catraio estava espevitado e enérgico, no meio de uns ligeiros saltinhos que me garantiram estar perante um caso grave e consumado.
- Desculpa?? –
- Sim, mãe! Vai lá ver o que é que as salamandras comem! Rápido! -
- Mas tu estarás bom da cabeça? Achas que agora vou andar a alimentar esses bichos asquerosos?
- Óh mãe… Não é preciso alimentá-los todos… É só a que está grávida, que eu até já separei dos outros… -
É claro que larguei as minhas habilidades gourmet e o segui para a rua, com o iphone já em riste, enquanto ele explicava a importância de alimentar bem aquela fémea para viver o privilégio de ter salamandras bébés.
- Ai João, que nojo! – Foi tudo o que consegui exclamar ao vê-lo a apanhar outra pelo rabo para juntar à coleção.
Obriguei-o a ir para o banho e abortar a missão, mas de nada serviu pois no dia seguinte fui dar com o marafado catraio a montar uma pequena sela com um boneco da lego… em cima de outra atarantada salamandra.  Assim é o meu filho mais novo: uma inesgotável fonte de invenções que não lembram a ninguém!
Ana Amorim Dias

26.10.12

A teoria do taparuer



   Começo por avisar que não me vou render à forma complicada como originalmente se escreve tupperware. Vai à portuguesa e acabou a conversa.
  Mas deixem-me começar pelo princípio, para ver se isto faz algum sentido. Há quem tenha a ambição de encontrar resposta para as grandes questões da existência, como os clássicos “de onde vimos”, “ para onde vamos”, etc.   Eu garanto-vos que não sei qual é o meu problema, mas às vezes dou comigo no desesperado  estado de quem acha que  encontraria o sentido da vida caso percebesse para onde vão os taparueres!
   Tenho a firme convicção de que poderia gastar duzentos euros por mês em taparueres e, quando precisasse, não encontraria nenhum!  É por isso que comecei a desenvolver a teoria do taparuer. Depois de anos e anos de investigações exaustivas, recolha de provas e soma de conclusões, percebi que nunca são as nossas mães, sogras, filhos, amigos ou funcionários que nos levam os taparueres. Não, nada disso! O que se passa ( e isto é um facto comprovado por todos)  é que eles pura e simplesmente se desmaterializam!  E porquê?  Porque existe um complot intergaláctico!!   Tenho quase a certeza ( só me faltam as provas finais) de que os taparueres são os diamantes do Universo. As diversas espécies de outros planetas e galáxias, usam os taparueres como moeda para as suas trocas comerciais e como por algum estranho motivo não os conseguem produzir, vêm roubá-los às cozinhas e despensas da Terra enquanto nós estamos distraídos.
  Aceito a vossa incredulidade quanto ao que acabei de escrever e é por isso mesmo que vos deixo o desafio: comprem uns quantos taparueres hoje mesmo e contem os dias que eles levam a desaparecer.
Ana Amorim Dias

25.10.12

Espuma



   Coloco duas moedas na ranhura. Viro o ponteiro para a primeira fase. Carrego no “start” e a água inicia o seu trajeto entre a agulheta e o carro.  Revejo mentalmente a lista do que queria ter preparado. A casa impecavelmente arranjada. Confere. O frigorífico repleto das coisas mais importantes. Confere. A verificação da hora de chegada do combóio que os trás. Confere.
  “Não me posso atrasar!” – Penso.  Detesto atrasos. Mais os meus que os alheios.  “A falta de pontualidade é, para mim,  uma das mais incomodativas e gritantes faltas de formação que alguém pode ter. Ainda bem que sou pontual!”.  Os pensamentos vão voando, velozes, enquanto, em piloto automático, aponto  a agulheta ao carro. 
  Faço planos. Mais dez minutos para chegar ao café. Meia hora para a crónica. Uma hora para chegar a Faro nas calmas e esperar pelo Alfa Pendular que embala  as melhores visitas com quem poderia querer privar durante os próximos dias.  Aponto a água quente para  o vidro da frente. “ Credo,  que encardido…”.  
   “E o que vou escrever hoje?”.  Divago. A água pára. Coloco mais uma moeda e continuo. Lembro-me de uma parábola que ouvia nas missas da minha infância: a diferença entre quem se desdobrava em salamaleques para receber Jesus em casa, não lhe prestando qualquer atenção, e quem o recebia sem limpar a casa nem preparar a comida, de tão compenetrado que estava em concentrar  toda a atenção na própria visita.   Viro o ponteiro para o “enxaguar” e ponho mais uma moeda, completamente desatenta ao que ali estou a fazer.
  “Vou pela via do infante ou pela nacional? Bem… já se vê.” Imagino os dias felizes que me esperam na companhia da minha mãe, da Micá e do Vítor. E a porcaria da água acaba-se de novo! O lado esquerdo do carro ainda está cheio de espuma. O stock de  moedas chegou ao fim e o senhor do Elefante ainda não chegou para trocar mais. Olho para a agulheta e para o carro. Volto a olhar e a ponderar as hipóteses.
   Sigo caminho. Pode ser que chova mais um pouco e a espuma se vá.  A parte boa do espumante episódio  é já  saber  o que vou escrever. Às vezes, quando fazemos coisas completamente alheados do que estamos a fazer, elas correm menos bem. Mas isso pode muito bem querer dizer que, simultaneamente, estamos a dar forma a  outras coisas muito mais importantes.
  E agora já me vou. Chegar atrasada é algo em que nem posso ponderar.
Ana Amorim Dias

24.10.12

I left my lips on you



   Entramos em casa. A avó, ensonada, aguarda-nos na sala enquanto as crianças já dormem o sono sereno dos inocentes.  O Ricardo fica a falar com a mãe enquanto eu levanto de novo voo, desta vez para os quartos dos meus filhos.
   Acendo a luz do quarto do João. Aprecio a forma como dorme, tão parecida à maneira como vive a vida: de frente e com os braços abertos. Beijo-lhe o rosto. Cheiro-lhe o pescoço até encher os pulmões com o doce odor que tão bem conheço. Estremece levemente e, com mais uns beijos e snifadelas, deixo-o entregue à noite. Apago e luz e sigo para o quarto do Tomás. Já ocupa a cama toda. Afasto as mantas e junto o meu rosto ao dele. Afago-lhe o cabelo cortado de fresco e pego-lhe na mão. Comparo a minha mão com a dele. Já estão do mesmo tamanho. Beijo-o de novo e sorrio enquanto recordo as saudades constantes que, ao longo dos últimos dias, o pai teve deles.
- Tu não tens saudades? Não lhes sentes a falta? – Perguntava-me.
E eu desviava a conversa por vergonha de responder a verdade.  – Digamos que não me dói a alma. Sei que estão bem… -
E, numa das vezes que a questão voltou, olhei para a chávena do café que estava a bebe, onde li:  “I left my lips on you”. Entendi então o porquê de não sofrer com saudades. Deixei-lhes a marca dos meus lábios. A marca do meu amor estará sempre com eles, ande eu por onde andar. E é por tão bem reconhecer este facto que as saudades de quem amo já não  me doem. Because I left my lips on them.
Ana Amorim Dias