(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

16.10.12

(Des)governos

Qualquer dona de casa, por poucos estudos que tenha, é melhor economista  do que os nossos governantes têm sido. Qualquer pessoa percebe que quando as receitas não chegam para cobrir as despesas há que reduzir os gastos.
   Tenho trinta e oito anos e chego à conclusão que o País, durante toda a minha vida,  foi (des)governado por cabeças ocas e gananciosas que só olharam para o crescimento do volume dos seus próprios bolsos, sem olhar às consequências que inevitavelmente trariam a dez milhões de pessoas que se estão a tornar indigentes.
   O (des)governo destas décadas é semelhante ao de  uma dona de casa que, com o seu modesto salário, se permitiu comprar vestidos Gucci, sapatos Manolo Blahnik, malas Louis Vuitton e comer em restaurantes gourmet todos os dias. É semelhante a uma dona de casa que, com o seu modesto salário, adjudicou obras milionárias na sua casa de duas assoalhadas, fazendo a entrega de  entradas chorudas a que perdeu o direito por não ter como levar as obras até ao fim.
  Sempre me senti segura neste país que é o nosso. A par com o clima ameno, com a beleza deste retângulo à beira mar plantado e com a suavidade das gentes, sempre amei Portugal pela sua capacidade de me fazer sentir segura e sem medo. Nunca experimentei  o pavor de não poder falar o que penso nem de ouvir balas a zunir pelo ar quando saio à rua.   E de que serve isso agora?  De que serve este amor e valorização quando parte da minha família está na iminência de ter que emigrar?  De que serve o bom clima e a nossa linda História, quando todas as pessoas  se vêem  roubadas  por um Estado que supostamente deveria zelar pelos seus?
   Como dona de casa que também sou, já vivi ocasiões em que tudo o que era supérfluo teve que ser banido. Já vivi em grandes casas e em apartamentos mínusculos. Mas nunca roubei ninguém. Nunca, para manter o meu bem estar, lezei quem quer que fosse, muito menos o poderia fazer  com quem tenho a obrigação moral de cuidar.  
   Ao longo das últimas décadas os nossos governantes têm sido pais tiranos e injustos; viciosos e viciados. Têm sido como aqueles pais bêbados, drogados e sem honra que roubam as poupanças dos filhos e lhes tiram o pão da boca!
  O problema é conjuntural e estrutural. Não se soluciona nem rápida nem facilmente, se é que ainda tem solução.   Não digo que  os “filhos” da Nação não estejam dispostos a sacrifícios, mas é imperativo que os “filhos da mãe” que nos (des)governam, compreendam que não é só a apertar a rosca que isto lá vai. É preciso que deixem os empresários ( ignorantes ou não…) trabalhar.  É preciso que entendam que a “venda”  do turismo nacional no estrangeiro tem que ser apadrinhada. É preciso que  responsabilizem criminal e civilmente quem gastou milhões em elefantes azuis às pintinhas cor de rosa. É preciso que  devolvam alguma dignidade às pessoas e lhes recuperem  a esperança e a capacidade de  ganhar algum dinheiro pois sem ele a economia pára de vez  e aí é que Espanha ficará com vista para o mar a toda a volta. É preciso que os “filhos da mãe” que nos (des)governam   se humanizem um pouco mais e compreendam os dramas que se intensificam em cada casa, porque a economia, meus senhores,  não serve para escravizar o Homem e sim para o organizar!  
Ana Amorim Dias

O bichinho



    Todos temos um bichinho dentro de nós, seja ele qual for.  Calculo que quem costuma ler o que escrevo esteja já a prever que vou dizer que o meu bichinho é escrever. Pois desenganem-se! Esta crónica ainda vai dar algumas voltas até eu conseguir produzir uma conclusão, muito embora, confesso, tenha já uma ideia bem clara de onde é que isto vai parar.
   Escrevi a última crónica há três manhãs atrás, antes de me “enclausurar”, para uma sequência de três festas, na  Quinta do Monte, de onde apenas saí para comprar ovos e dar um tropeção no mar.
   Ora acontece que o bichinho que vêem na imagem que acompanha estas palavras,  se cruzou várias vezes no meu caminho ao longo dos últimos dias. Volta e meia eu virava-me e lá estava ele a meter-se comigo.
- Olá! Sou giro, não sou? – Perguntava-me o animal que eu não soube catalogar.
- Estás a falar comigo? –
- Sim. Tiras-me uma fotografia?... Pode vir a servir-te para alguma crónica…  -  Instigou-me.
“ Olha-me este!” – pensei – “ Mais um a fazer-se à crónica!”
   Bem, o certo é que lhe tirei a foto e aceitei o desafio. Mas foi ao não conseguir definir se o bicho é um rato, um coelhinho ou qualquer outro animal, que percebi que iria pelo caminho do “bichinho”: o bichinho que todos temos cá dentro.
   Passei a sexta, o sábado e o domingo com pessoas maravilhosas. Tanto as que me contrataram as festas como as que às suas festas vieram. Mas de todas, as mais maravilhosas  são as que  repetidamente chamo  para me ajudarem a tornar perfeitos os dias alheios que se querem especiais!  Todos juntos formamos um grupo tão eclético quanto louco e cómico. Cada um com as suas manias, conversas, ritmos e humores. Cada um com os seus sonhos, desejos, ambições e problemas. Mas todos com uma simpatia sem mácula e com uma amor à camisola “Quinta do Monte” que não tenho como agradecer.  Tenho a sorte de trabalhar com amigos; com pessoas sensacionais que,  por mais que às vezes peguem fogo às toalhas, se esqueçam dos camarões ou partam pratos, se juntam estóicamente nos momentos dos pequenos stresses para solucionar tudo com muito empenho e gargalhadas.
   E é ao fazer este balanço que acabo por perceber o significado de todos os  “bichinhos” que moram dentro de mim.  E fico a saber que, de todos eles,  o mais  ativo e constante, é o bichinho que me impulsiona na direção dos outros.   O meu mais valioso bichinho é o que me faz  conseguir estabelecer uma ligação especial com quem faz parte da minha vida.  Porque é nas mais significativas ligações que conseguimos estabelecer com os outros que os grandes valores da vida nos são revelados.
Ana Amorim Dias

11.10.12

Uma vida normal




   Não sei se vos aconteceu, na juventude, idealizarem como seria a vossa vida adulta.  E se o fizeram, não sei se ainda se recordam.   Eu lembro-me. Mas fiz batota. Só me recordo do que sonhava para a minha vida adulta porque há uns tempos descobri uma carta que me recordou sobre o que,  na altura, a minha imaginação alcançava.
  Eu imaginava uma vida citadina, com um lindo apartamento,  filhos,  um bom emprego e um eterno amor inocente e juvenil.  Imaginava uma vida absolutamente normal, porque foi na normalidade e na segurança de um bom emprego que fui levada a crer que tudo correria bem e estaria segura. 
   Li aquela carta com a incredulidade de quem se recusa a acreditar que já foi tão limitada. Li-a como se fosse a personagem de um filme de aventuras que olha, através do ecrã, para o observador  que jaz  inerte no sofá.
  Tirando os filhos, tudo o resto saiu invertido. Moro num paraíso bucólico; nunca tive  um bom emprego nem salário certo  ao fim do mês, mas tudo o que faço enche-me de um prazer inexplicável; e o amor, ao invés de inocente e juvenil, cresceu para uma aventura que se contrói, inexplicável, numa conquista surpreendente e diária.   Vivo numa vida que nem eu mesma tive capacidade para imaginar. Uma vida cheia de tempo, projetos, aspirações, energia, sol, mar, palavras, música, cultura  e emoções. Uma vida arriscada e completamente alheia à normalidade instituída  pelas mentes comuns.  E acabo por perceber que foi por ter rejeitado por completo a segurança da normalidade que agora tenho uma vida boa e “normal”.
   Não me vou pôr a imaginar mais  o futuro. Já percebi que ele tem sempre a hipótese de adquirir contornos  mais surpreendentes e atípicos do que  temos capacidade para supôr.  Já percebi que a normalidade é um conceito demasiado amplo e moldável, inconfinável  a qualquer tipo de padrão pré-estabelecido. Porque, no fundo, por mais anormal que seja a nossa vida, o truque de a viver bem, é olhá-la como se fosse a mais normal das vidas.
Ana Amorim Dias

10.10.12

Curiosos



    A convite do professor de Português do Tomás, fui  visitar uma turma de 5º ano para lhes explicar a importância da leitura e  da escrita.  Assim que cheguei ele olhou para mim e, com um olhar entristecido,  desabafou que os miúdos de hoje andam pouco curiosos.
   Ao longo de quase uma hora falei, à luz de vários contextos, sobre a importância da nossa língua, chegando mesmo a confessar que um dos mais fortes motivos da minha alegria lusa é ter a incrível riqueza da língua portuguesa à disposição do meu ofício.  Mas, cá dentro, só me ecoava o tom sentido com que o professor João Viegas se queixou da falta de curiosidade dos putos.
   Será normal que as crianças de hoje não leiam? Será normal que não tenham nem curiosidade nem a consciência da riqueza que lhes é facultada nas escolas em forma de conhecimento?
  Numa era em que a tv passa 24 horas por dia de desenhos animados em vários canais; numa época em que a internet é raínha e os jogos de computador e play stations são princípes e o mundo se lhes apresenta como um produto acabado, não seria de esperar esta apatia cerebral  por parte das nossas crianças? 
   É claro que não estou contra o formato que o Mundo adquiriu. Não sou uma aguerrida vingadora das novas tecnologias e meios de comunicação, isso seria uma estupidez. Mas não posso evitar perguntar-me como se pode dar a volta a isto, ainda mais por ter dois filhos!   Como poderemos, afinal, aliciar os miúdos a ler e a ter curiosidade em apreender pelo menos  uma mínima parte de toda a informação e conhecimento a que têm acesso?  Como semeamos a curiosidade nas nossas crianças?
   Desta vez a questão fica em aberto. Deixo a “bola” do vosso lado porque está na hora de ir cumprir a mesma missão no 6º - C, a turma do Tomás…
   E agora que penso nisto, já decidi: vou perguntar a todos eles do que é precisam para se tornarem mais curiosos!
Ana Amorim Dias

9.10.12

Por mais que se leia



   Abro os olhos como se estivesse a gravar uma cena de um filme de terror.  Procuro, aflita, o relógio ou o telemóvel porque sei que estou atrasada. Só não sei quanto tempo.
  -  Tomás! João!  Depressa!! Plano de emergência ativado!! – Vou gritando pela casa enquanto constato que já devíamos ter saído há cinco minutos.
  Os putos, cambaleantes e confusos, percebem que a coisa está grave e cooperam de forma surpreendente. Ainda nos deparamos com o grave problema do Tom que não consegue encontrar o livro de Ciências da Natureza. Entre todos, montamos uma ação de resgate ao livro que, vendo-se cercado, rapidamente aparece.
  No final das contas, o balanço do percalço não é grave: o Tomás entra na escola com dez minutos de atraso e o João mesmo em cima do toque. Mas não me perguntem como…
   E agora, tendo como testemunhas apenas o meu computador e a meia de leite escura,  relembro algo que me tem borbulhado no pensamento ao longo dos últimos dias: é que nem tudo se aprende nos livros.   Tenho andado a pensar bastante  nisto devido a uma grande amiga que, quase a ser mãe pela primeira vez, me tem dito que irá agir assim e assado com o seu bébé pois é isso que os livros lhe dizem.   E quando ela fala eu olho-a de boca aberta (literalmente, com comida à vista e tudo!).
- Querida! – Digo-lhe, quase a abaná-la – Somos sete biliões e há bébés desde que há humanidade, certo? Achas que,  antes,  as mães tinham que vestir os recém nascidos no mesmo sítio em que lhes davam banho??? Achas que,  antes, eles não saíam de casa até terem um mês? –
Ela olha-me com aquele ar que me revela que vai pensar no assunto, mas que também me deixa antever que continuará a ler como se trata de um filho.
  Há coisas que não percebo. Juro que não. Quando os meus filhos eram bébés, sempre tive o cuidado de os alimentar com comida e amor; mantê-los lavadinhos; quentes ou frescos consoante a estação e repletos de atenção e brincadeira. Ponto final. Não os acordava de x em x horas para lhes enfiar comida no bucho porque quando dormem é porque estão bem; não esperava pelo dia em que faziam quatro meses para dar a primeira sopa, ou pela vigésima quarta badalada do início do sétimo mês para introduzir o peixe!  Nada disso. Os meus meninos iam comigo para onde eu tinha que ir, brincavam com a natureza e com os animais e, com dez meses, mais coisa menos coisa, já se lambuzavam com pasteis de bacalhau e caracóis. Quem quiser que me leve presa, mas não segui nenhum livro. Segui o instinto, o amor que lhes tenho e, quem sabe a coisa mais importante: segui a ausência de ansiedade que me caracteriza! 
   Para se seguir o amor, o instinto e a ausência de ansiedade não é preciso ler livros. Basta ler ou  ouvir uma  frase  e ter a inteligência suficiente para a colocar em prática.
   Por mais que me custe admitir, há coisas que não se aprendem nos livros. E são muitas. Dei o exemplo dos filhos mas podia ter dado o exemplo dos homens, ou dos amigos, ou da família, patrões, colegas de trabalho, subordinados, etc.
   Qual é, por exemplo,  a mulher que aprende a “dar a volta” ao seu homem  com a leitura de livros sobre o tema??  Mais uma vez só lá se chega com amor, instinto e, claro, muita atitude.
   Enfim, os exemplos do que não se aprende nos livros são imensos, e escrevi hoje sobre isto porque o turbulento acordar  me fez entender que jamais de um livro se poderiam extrair ensinamentos capazes de fazer com que duas “pestes” ensonadas se unissem à sua mãe na missão impossível de fazer recuar o tempo.
Ana Amorim Dias

Boa Demanda


   Passei os anos de faculdade a ouvir, uma e outra vez,  que  mais vale um mau acordo do que uma boa demanda.  Mais tarde vim a perceber que esta espécie de  provérbio jurídico nem sempre corresponde à verdade. E se assim é no contexto dos enredos judiciais,  sinto-me com legitimidade suficiente para o derrubar por completo se o tentar aplicar à vida em geral.
   Senão vejamos: o que é a vida? Partindo da mais básica e irrefutável premissa, ela é, nada mais e nada menos,  que o intervalo entre o nascimento e a morte.  E o que se passa ( ou se deveria passar)  nesse intervalo é uma incessante demanda:  a demanda da felicidade.  Podemos procurá-la de todas as maneiras possíveis e sob todas as formas de que ela se pode revestir e, enquanto nos conseguirmos  manter  focados nesse imperativo supremo, podemos dizer que a nossa vida é uma  Boa Demanda.
   O que não percebo é porque é que milhões de pessoas se permitem a uma rendição constante e  sucessiva   aos  maus acordos!  Fico com a ideia de que, na nossa essência, trazemos instalado o gene da Boa Demanda, mas que, ao longo desse intervalo de tempo que é a vida, nos vamos acomodando aos maus acordos, por  nos trazerem uma sensação entorpecedora de segurança e estabilidade.
  Aceitamos maus acordos em tudo. Nas relações interpessoais, nos ofícios, nos estilos de vida e na forma como escolhemos encarar  as nossas existências.  Aceitamos os maus acordos porque temos um medo visceral da Boa Demanda, esse bicho tenebroso que nos obriga a arriscar tudo a todo o momento.  Não abraçamos a Boa Demanda pelo medo de perder, sem perceber que, ao fazê-lo, estamos a perder à partida tudo o que realmente importa.
  Há Vidas vencedoras e vidas perdidas. Nas primeiras  vive-se a arriscar a nossa suprema demanda, mesmo sabendo que aqui e ali se perde; nas outras, nas vidas desperdiçadas,   passa-se por cá sem perceber que muito mais vale viver na  demanda da felicidade, com todos os riscos e perdas que daí podem resultar,  do que numa sequência constante de bons e ocos acordos.
Ana Amorim Dias

5.10.12

Espanto



   Uma das muitas coisas parvas que faço com frequência é brincar aos alienígenas. Não requer  muito tempo, não precisa de companhia  e nem sequer  de qualquer tipo de adereço, no entanto é  simples ao ponto de se poder “jogar”  em qualquer lugar e ocasião.  Mas deixem-me explicar,  pois talvez  se vejam  tentados  a experimentar.
  Quando me lembro, imagino que sou um extraterrestre acabado de chegar à Terra e começo a olhar para tudo como se fosse a primeira vez; com a incredulidade de quem nada sabe e com um espanto absoluto por todas as coisas.   Com pouco esforço chego bem depressa a uma espécie de realidade paralela interior em que a única sensação que me invade é o espanto. De repente tudo fica diferente pois o olhar é completamente inocente. Não sei para que servem as coisas; não sei o que são; vejo seres a emitir sons,  mas não os entendo; vejo coisas móveis e imóveis, cores, texturas; sinto os elementos sem os saber nomear e os cheiros  sem os conseguir associar; aprecio as ações, as causas e efeitos, sem nada entender…  E o que sobra de tudo?   A beleza!  Uma visão completamente nova, limpa e espantada que me acomanha no regresso à realidade.
   Na fotografia que ilustra  esta crónica, contudo, não precisei de brincar aos alienígenas para me espantar: a minha pequenez,  no sopé deste magnífico ser vivo, foi mais do que suficiente para acionar o encantamento agradecido que tantas vezes sinto pelo Mundo.
Ana Amorim Dias

4.10.12

Kevin




  Ontem conheci o Kevin. Deambulava eu sem rumo pelas  avenidas do YouTube, a ouvir músicas em castelhano, e eis que me aparece o Kevin.  Johansen, não se confundam. Nascido no Alasca, filho de mãe argentina e pai norte-americano, tem uma obra tão fantástica que me espanta que  nunca antes tenha tropeçado nele.
  A voz,  de uma amplitude impressionante,  canta em castelhano e inglês. Músicas com influências tão díspares que vão dos sons  celtas aos brasileiros, passando por cumbias flamencas e novas abordagens do pop.  Ritmos envolventes e letras com alma. Este homem-génio, que se auto proclama um des-generado, é de uma inteligência musical como  há muito tempo não ouvia.
   Escusado será dizer que, após a descoberta, passei o resto do dia a devorar todas as suas criações. E hoje, ao acordar, comecei logo a ouvir aquela que mais me tocou, “ Desde que te perdi”…
   Continuo a ouvi-la. Esta música cumpre, perante mim,  a missão que todas as músicas deveriam abraçar: ela emociona e eleva. E, enquanto escrevo, emociono-me e elevo-me. Emociono-me. Muito. E uma lágrima de várias saudades teima em querer sair. Este é o género de tesouro com que eu corria para o colo do meu pai para partilhar com ele. Mas, emocionada, consigo sorrir: porque o partilho com todos vós.
Ana Amorim Dias
 

3.10.12

A peça de Cádiz



- Queres ir almoçar a Puerto de Santa Maria?
- Está bem. Mas tenho artigos para mandar e só estou pronta lá para as onze.
  Acabámos por passar a fronteira   ao meio dia. Ainda o convenci  a parar numas lojas em Sevilha e como o bom caminho é feito de belas paragens, detivemo-nos em Sanlucar de Barrameda e num fantástico pôr do sol em Chipiona, chegando ao Puerto de Santa Maria já à hora do Jantar.
  Mas o mais interessante deste   singelo “almoço” só chegou no dia seguinte. Tomámos um pequeno ferry para Cádiz, a cidade trimilenar de multiplas influências e considerável peso histórico onde  eu já há anos estivera.  Vi-a com outros olhos, como sempre acontece quando volvemos aos sítios muito tempo depois.  
   Mas deixem-me contar-vos a estória, que a introdução já vai longa. 
    Ao demabular entre a cidade velha e a nova, contaram-me sobre o terrível rebentamento de um engenho explosivo Franquista, ocorrido a 17 de Agosto de 1947.  Além de ter visto a dentada que a explosão deixou na baía e os fragmentos dispersos da parte da mulhalha que se finou,  ouvi o relato de quem sempre ouviu  os mais velhos  comentar  o sucedido.
  Parece que o estouro foi de tal forma forte que se chegou a ouvir no sotavento algarvio e é por isso que as pessoas de mais idade que por aqui sempre habitaram costumam dizer, face a algum barulho mais forte:  - Isto até parece a peça de Cádiz! –
   Ora agora que já conheço a expressão,  fiquei com a firme convicção de não a deixar perder, pelo menos enquanto viver. E,  quando os meus netos causarem algum estrondo  mais forte, não só exclamarei que “já parece a peça de Cádiz”,  como lhes contarei o que aconteceu e a forma como os seus trisavós, a tanta distância do sucedido, ouviram e se assustaram com o tal rebentamento.
É por isto e tantas outras coisas  que viajar enriquece  mais do que é possível explicar… mesmo que a viagem apenas consista num almocito em Puerto de Santa Maria.
Ana Amorim Dias
  

1.10.12

Batom para a dor de garganta




   Enquanto procurava  comprimidos que me aliviassem a dor de garganta, encontrei um batom errante a navegar fora dos seus domínios.  Comecei a chupar o comprimido  e  olhei para o batom que os meus dedos seguravam.  – Será que me sentia melhor com os lábios pintados? –
  Tirei a tampa e espalhei-o nos lábios com uma generosa dose. – Onde andaste todo este tempo? A tua cor é perfeita.  – Continuei a chupar o comprimido enquanto namorava, ao espelho, aqueles lábios encantadores.
   Senti-me imediatamente melhor e,  já com o comprimido chupado, concluí que os créditos não eram só seus. Havia que partilhá-los com o garrido batom que me fez sentir tão bela.
   Se calhar a luta humana pela conquista da beleza em todas as suas manifestações não é algo assim tão fútil. Não. Não é mesmo. A nossa busca incessante pelos  refinados padrões estéticos de tudo o  que nos rodeia é uma demanda legítima e, quem sabe, imprescindível para o bem estar não só do nosso âmago como também do próprio invólucro que  o  encerra.
Ana Amorim Dias  

28.9.12

Qualidades e Defeitos


“ Socorro! Alguém me salve por favor!” – Oiço o pensamento a gritar dentro de mim enquanto o senhor continua a falar, muito convicto, sobre algo que já não tenho como recordar.
  Olho para ele em silêncio, na esperança de que não se aperceba da minha agonia. E ele olha para mim com intensidade, absolutamente absorto no seu discurso secante.
  Nesse momento começo a imaginar um pterodáctil a aproximar-se de nós e a levá-lo com as suas garras fortes. “ Um ataque de tosse também servia, mas não seria tão giro…” – penso.
  E ele continua a falar. E eu a temer que o seu monólogo se tenha que transformar em conversa com alguma pergunta sua que me obrigue a um “Hum, hum” acanhado.
  Já não olho para ele. Olho através dele e não vejo nada. Só o baile de pensamentos cómicos que me vão rodopiando cá dentro. “ Podia subir-lhe uma lagartixa pela perna…” e começo a rir imaginando-lhe os saltos. Ele gesticulava, empolgado com o assunto que eu não recordo por não ter ouvido palavra, mas pára de repente. Não entende o que me fez rir pois não me ouviu os pensamentos.
  Continuo sem perceber se esta minha faculdade é qualidade ou defeito.  Para os outros, aqueles que ao falar comigo falam com uma parede, talvez seja um defeito. Um daqueles defeitos grandes, feios e muito desrespeitosos. Mas para mim é qualidade: uma das  características que me são queridas e que refino com a idade, por  que me permitem manter a alma esvoaçante, infantil e fértil que tão boa companhia me faz.
Ana Amorim Dias
  

26.9.12

Bem à vista

 
    Já não sei onde é que li que as mulheres são mais consumidoras de gadgets que os homens.  Não tenho como comprovar que tal conclusão tenha algum fundo de verdade, mas há um brinquedo em particular que, embora não se possa considerar um gadget, é o santo graal que toda a  fémea ambiciona: o closet!
    Não estou a falar de um ou dois roupeiros espaçosos. Nada disso! O pináculo da satisfação material de uma mulher é, sem qualquer sombra de  dúvida,  um daqueles  quartos de vestir enormes  e organizados que aparecem nas revistas de decoração e nos programas do canal E! sobre as estrelas de Hollywood.
  Nós mulheres nunca temos nada para vestir pela simples razão de não possuirmos um espaço suficientemente amplo, atraente e digno para arrumar de forma solene os nossos parcos pertences.
   Pois é! Um closet resolveria metade dos nossos problemas. As fileiras de botas, sapatos e sandálias, em crescendos de cor e altura dos saltos; alas intermináveis de blusinhas penduradas sob uma luz indireta; os vestidos, todos juntos, do mais curto ao mais comprido; a zona das pulseiras, colares e brincos, próxima da cómoda das pinturas coroada com um espelho com lâmpadas a toda a volta…     E tudo à vista. Tudo bem à nossa vista para que o modelito do dia se formasse na nossa mente apenas com um breve olhar. Tudo bem à vista para que a entrada nesse santuário épico fosse como se chegassemos à gruta do Ali Bábá.
  No meu mundo ideal todas as mulheres teriam este compartimento. Neste utópico universo paralelo, todas as mulheres se sentiriam, no mínimo, como estrelas de cinema ou belas Deusas do Olimpo.
   Mas a realidade é bem diferente e como o que vamos acumulando não tem o espaço devido, acabamos por perder o rumo às coisas,  perdidas na profundeza  de armários que esticam até rebentar. E é neste ponto da reflexão que proponho a mim mesma um negócio: revirar os meus armários; sacar tudo cá para fora e deixar, bem à vista e bem à larga, as coisas de que realmente gosto. É que quando temos as nossas coisitas bem visíveis, damos-lhes muito mais uso.
   A verdade é só uma: com as roupagens  que me compõem ando a fazer isto há muito tempo… resta-me agora experimentar  com as roupas que uso por fora!
Ana Amorim Dias