(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

5.10.12

Espanto



   Uma das muitas coisas parvas que faço com frequência é brincar aos alienígenas. Não requer  muito tempo, não precisa de companhia  e nem sequer  de qualquer tipo de adereço, no entanto é  simples ao ponto de se poder “jogar”  em qualquer lugar e ocasião.  Mas deixem-me explicar,  pois talvez  se vejam  tentados  a experimentar.
  Quando me lembro, imagino que sou um extraterrestre acabado de chegar à Terra e começo a olhar para tudo como se fosse a primeira vez; com a incredulidade de quem nada sabe e com um espanto absoluto por todas as coisas.   Com pouco esforço chego bem depressa a uma espécie de realidade paralela interior em que a única sensação que me invade é o espanto. De repente tudo fica diferente pois o olhar é completamente inocente. Não sei para que servem as coisas; não sei o que são; vejo seres a emitir sons,  mas não os entendo; vejo coisas móveis e imóveis, cores, texturas; sinto os elementos sem os saber nomear e os cheiros  sem os conseguir associar; aprecio as ações, as causas e efeitos, sem nada entender…  E o que sobra de tudo?   A beleza!  Uma visão completamente nova, limpa e espantada que me acomanha no regresso à realidade.
   Na fotografia que ilustra  esta crónica, contudo, não precisei de brincar aos alienígenas para me espantar: a minha pequenez,  no sopé deste magnífico ser vivo, foi mais do que suficiente para acionar o encantamento agradecido que tantas vezes sinto pelo Mundo.
Ana Amorim Dias

4.10.12

Kevin




  Ontem conheci o Kevin. Deambulava eu sem rumo pelas  avenidas do YouTube, a ouvir músicas em castelhano, e eis que me aparece o Kevin.  Johansen, não se confundam. Nascido no Alasca, filho de mãe argentina e pai norte-americano, tem uma obra tão fantástica que me espanta que  nunca antes tenha tropeçado nele.
  A voz,  de uma amplitude impressionante,  canta em castelhano e inglês. Músicas com influências tão díspares que vão dos sons  celtas aos brasileiros, passando por cumbias flamencas e novas abordagens do pop.  Ritmos envolventes e letras com alma. Este homem-génio, que se auto proclama um des-generado, é de uma inteligência musical como  há muito tempo não ouvia.
   Escusado será dizer que, após a descoberta, passei o resto do dia a devorar todas as suas criações. E hoje, ao acordar, comecei logo a ouvir aquela que mais me tocou, “ Desde que te perdi”…
   Continuo a ouvi-la. Esta música cumpre, perante mim,  a missão que todas as músicas deveriam abraçar: ela emociona e eleva. E, enquanto escrevo, emociono-me e elevo-me. Emociono-me. Muito. E uma lágrima de várias saudades teima em querer sair. Este é o género de tesouro com que eu corria para o colo do meu pai para partilhar com ele. Mas, emocionada, consigo sorrir: porque o partilho com todos vós.
Ana Amorim Dias
 

3.10.12

A peça de Cádiz



- Queres ir almoçar a Puerto de Santa Maria?
- Está bem. Mas tenho artigos para mandar e só estou pronta lá para as onze.
  Acabámos por passar a fronteira   ao meio dia. Ainda o convenci  a parar numas lojas em Sevilha e como o bom caminho é feito de belas paragens, detivemo-nos em Sanlucar de Barrameda e num fantástico pôr do sol em Chipiona, chegando ao Puerto de Santa Maria já à hora do Jantar.
  Mas o mais interessante deste   singelo “almoço” só chegou no dia seguinte. Tomámos um pequeno ferry para Cádiz, a cidade trimilenar de multiplas influências e considerável peso histórico onde  eu já há anos estivera.  Vi-a com outros olhos, como sempre acontece quando volvemos aos sítios muito tempo depois.  
   Mas deixem-me contar-vos a estória, que a introdução já vai longa. 
    Ao demabular entre a cidade velha e a nova, contaram-me sobre o terrível rebentamento de um engenho explosivo Franquista, ocorrido a 17 de Agosto de 1947.  Além de ter visto a dentada que a explosão deixou na baía e os fragmentos dispersos da parte da mulhalha que se finou,  ouvi o relato de quem sempre ouviu  os mais velhos  comentar  o sucedido.
  Parece que o estouro foi de tal forma forte que se chegou a ouvir no sotavento algarvio e é por isso que as pessoas de mais idade que por aqui sempre habitaram costumam dizer, face a algum barulho mais forte:  - Isto até parece a peça de Cádiz! –
   Ora agora que já conheço a expressão,  fiquei com a firme convicção de não a deixar perder, pelo menos enquanto viver. E,  quando os meus netos causarem algum estrondo  mais forte, não só exclamarei que “já parece a peça de Cádiz”,  como lhes contarei o que aconteceu e a forma como os seus trisavós, a tanta distância do sucedido, ouviram e se assustaram com o tal rebentamento.
É por isto e tantas outras coisas  que viajar enriquece  mais do que é possível explicar… mesmo que a viagem apenas consista num almocito em Puerto de Santa Maria.
Ana Amorim Dias
  

1.10.12

Batom para a dor de garganta




   Enquanto procurava  comprimidos que me aliviassem a dor de garganta, encontrei um batom errante a navegar fora dos seus domínios.  Comecei a chupar o comprimido  e  olhei para o batom que os meus dedos seguravam.  – Será que me sentia melhor com os lábios pintados? –
  Tirei a tampa e espalhei-o nos lábios com uma generosa dose. – Onde andaste todo este tempo? A tua cor é perfeita.  – Continuei a chupar o comprimido enquanto namorava, ao espelho, aqueles lábios encantadores.
   Senti-me imediatamente melhor e,  já com o comprimido chupado, concluí que os créditos não eram só seus. Havia que partilhá-los com o garrido batom que me fez sentir tão bela.
   Se calhar a luta humana pela conquista da beleza em todas as suas manifestações não é algo assim tão fútil. Não. Não é mesmo. A nossa busca incessante pelos  refinados padrões estéticos de tudo o  que nos rodeia é uma demanda legítima e, quem sabe, imprescindível para o bem estar não só do nosso âmago como também do próprio invólucro que  o  encerra.
Ana Amorim Dias  

28.9.12

Qualidades e Defeitos


“ Socorro! Alguém me salve por favor!” – Oiço o pensamento a gritar dentro de mim enquanto o senhor continua a falar, muito convicto, sobre algo que já não tenho como recordar.
  Olho para ele em silêncio, na esperança de que não se aperceba da minha agonia. E ele olha para mim com intensidade, absolutamente absorto no seu discurso secante.
  Nesse momento começo a imaginar um pterodáctil a aproximar-se de nós e a levá-lo com as suas garras fortes. “ Um ataque de tosse também servia, mas não seria tão giro…” – penso.
  E ele continua a falar. E eu a temer que o seu monólogo se tenha que transformar em conversa com alguma pergunta sua que me obrigue a um “Hum, hum” acanhado.
  Já não olho para ele. Olho através dele e não vejo nada. Só o baile de pensamentos cómicos que me vão rodopiando cá dentro. “ Podia subir-lhe uma lagartixa pela perna…” e começo a rir imaginando-lhe os saltos. Ele gesticulava, empolgado com o assunto que eu não recordo por não ter ouvido palavra, mas pára de repente. Não entende o que me fez rir pois não me ouviu os pensamentos.
  Continuo sem perceber se esta minha faculdade é qualidade ou defeito.  Para os outros, aqueles que ao falar comigo falam com uma parede, talvez seja um defeito. Um daqueles defeitos grandes, feios e muito desrespeitosos. Mas para mim é qualidade: uma das  características que me são queridas e que refino com a idade, por  que me permitem manter a alma esvoaçante, infantil e fértil que tão boa companhia me faz.
Ana Amorim Dias
  

26.9.12

Bem à vista

 
    Já não sei onde é que li que as mulheres são mais consumidoras de gadgets que os homens.  Não tenho como comprovar que tal conclusão tenha algum fundo de verdade, mas há um brinquedo em particular que, embora não se possa considerar um gadget, é o santo graal que toda a  fémea ambiciona: o closet!
    Não estou a falar de um ou dois roupeiros espaçosos. Nada disso! O pináculo da satisfação material de uma mulher é, sem qualquer sombra de  dúvida,  um daqueles  quartos de vestir enormes  e organizados que aparecem nas revistas de decoração e nos programas do canal E! sobre as estrelas de Hollywood.
  Nós mulheres nunca temos nada para vestir pela simples razão de não possuirmos um espaço suficientemente amplo, atraente e digno para arrumar de forma solene os nossos parcos pertences.
   Pois é! Um closet resolveria metade dos nossos problemas. As fileiras de botas, sapatos e sandálias, em crescendos de cor e altura dos saltos; alas intermináveis de blusinhas penduradas sob uma luz indireta; os vestidos, todos juntos, do mais curto ao mais comprido; a zona das pulseiras, colares e brincos, próxima da cómoda das pinturas coroada com um espelho com lâmpadas a toda a volta…     E tudo à vista. Tudo bem à nossa vista para que o modelito do dia se formasse na nossa mente apenas com um breve olhar. Tudo bem à vista para que a entrada nesse santuário épico fosse como se chegassemos à gruta do Ali Bábá.
  No meu mundo ideal todas as mulheres teriam este compartimento. Neste utópico universo paralelo, todas as mulheres se sentiriam, no mínimo, como estrelas de cinema ou belas Deusas do Olimpo.
   Mas a realidade é bem diferente e como o que vamos acumulando não tem o espaço devido, acabamos por perder o rumo às coisas,  perdidas na profundeza  de armários que esticam até rebentar. E é neste ponto da reflexão que proponho a mim mesma um negócio: revirar os meus armários; sacar tudo cá para fora e deixar, bem à vista e bem à larga, as coisas de que realmente gosto. É que quando temos as nossas coisitas bem visíveis, damos-lhes muito mais uso.
   A verdade é só uma: com as roupagens  que me compõem ando a fazer isto há muito tempo… resta-me agora experimentar  com as roupas que uso por fora!
Ana Amorim Dias


25.9.12

Pensar?


   Não apoio a violência em circunstância alguma, mas  até compreendo que dois gajos andem à pazada por causa de uma mulher. Também não me é difícil conceber  que vizinhos se esmurrem por dois metros de terra ou que países entrem em guerra por territórios que ambos reclamam ser seus. Não me escandaliza que haja pessoas a exceder-se nos atos  para repôr direitos básicos que lhes foram roubados nem que claques desportivas se engalfinhem devido a resultados dúbios.   Mas continuo sem conseguir perceber o motivo que, ao longo da história,  mais guerras, injustiças e mortes tem gerado!   Por mais voltas que dê à questão, garanto que não percebo como é que as religiões têm trazido tanto mal ao Mundo!  É de tal forma grande a minha incrédula incompreensão que tenho que refrear os dedos para não escrever palavrões.
    Na minha ingénua maneira de encarar os factos, parece-me que as religiões deveriam servir, única e exclusivamente, para criar pontes entre o Homem e o Divino; para lhe enaltecer as qualidades e aprofundar a bondade, veracidade  e perfeição. Em última análise todas as religiões teriam que servir para potenciar a evolução da espécie humana. Mas para que é que as religiões têm servido?  Para fomentar guerras “santas”; para gerar ódios seculares e viscerais; para enfiar à força, guela abaixo dos homens, dogmas irrefutáveis, medos descabidos e promessas patológicas.
   Mas não se confundam, por favor, com a frieza destas palavras. Acredito no divino. Acredito em Deus, nos milagres e na divindade do Homem. Apenas já  vi e  pensei  o  suficiente para perceber que a obra das religiões na sua derradeira função de promover a evolução humana na direção do divino tem sido um redundante fracasso!  
  E de todas as culpas que as religiões têm, há um atentado  que é superior a todos os outros.  As religiões, com os seus dogmas chantagistas, têm retirado ao Homem a sua faculdade mais gritante: a capacidade ( obrigação?) de PENSAR.  Cada indivíduo que se permite prescindir da mais importante responsabilidade humana, que é pensar, está a cometer o mais grave atentado à humanidade. E fá-lo na cegueira irresponsável de seguir a carneirada, nessa obediência cega à religião que lhe foi, desde a nascença, impingida.
  Podem ser escandalosas, estas palavras. Podem ser uma blasfémia,  aos olhos de muitos. Mas não peço que deixem de frequentar os templos, de rezar ou de ser crentes. Só apelo a que pensem e comecem de uma vez  a experimentar o divino!
Ana Amorim Dias

24.9.12

Primeiras chuvas



    As primeiras chuvas da temporada apanharam-me no mar.    Fui à praia,  mais pela obstinada teimosia de quem se recusa a aceitar que vai estar uns meses sem entrar mar adentro, do que pela real vontade de lá estar.  O sol era uma impercetível mancha por detrás das nuvens espessas. E frio obrigou-me a envolver o corpo na toalha.
   Mas o mar revolto chamou-me aos gritos.  As ondas dançaram para mim, num bailado sedutor a que não sei resistir. A espuma  enfeitiçou-me   com o baixo golpe do seu cheiro ativo e, antes que me demovesse  o  cinzento escuro do céu,  lancei-me às labaredas salgadas da minha paixão.
  O escuro mar estava quente. Pelo menos senti que sim.  Mas quando se cavalgam as ondas com prancha,  a emoção cala o frio.  E aquela explosão de cinzento, a abraçar-me por baixo e a comprimir-me por cima, devolveu-me a consciência de estar bem viva. Não, não podia sentir frio. Naquele momento, na praia deserta, só existia eu. Eu na natureza. Eu em mim. Um gigante e assoberbado EU. Um  EU feliz, emocionado.  Sei que consegui parar o tempo ali. O tempo e o pensamento que, vencido, se rendeu à inércia  enquanto o corpo se colava à prancha deslizante.
Mas,  de quando em vez, nos intervalos do pasmo exultante em que me encontrava, a mente alvitra-me congeminações: - “ Como podem os outros perder isto?” ; “ Cum caneco! Aquela é enorme!” ;  “ Será que as outras pessoas se conseguem sentir assim?” ; “ Tenho que comprar um fato para fazer isto de Inverno” ; “ Uau… o céu está a ficar preto!”
  E a chuva começou a cair quando saí do mar com a minha prancha amarela. Andei sem pressas. Sem medo de me molhar. E ri-me, deixando algumas lágrimas rolar.
Ana Amorim Dias

23.9.12

Burros, inteligentes e espertos


Burros, inteligentes e espertos

    Tenho um fraquinho por pessoas pouco inteligentes.  Não estou a ser má, a sério que não: divirto-me a ouvi-las e a admirar a sua forma peculiarmente simples e limitada de encarar o mundo. Não tenho qualquer problema em entregar-lhes a minha confiança  porque sei que dificilmente me poderão lesar e tenho a ideia de que quem nasce mais abonado em burrice, normalmente tende a compensar tal  fraqueza  com uma inocência adocicada por laivos de infantilidade. Com quem é genuínamente burro aprendem-se coisas incríveis, como o espanto e a pureza de cada singela descoberta.
    Também tenho um fraquinho por pessoas muito inteligentes.  Os neurónios ligam-se-lhes com uma eficácia esplendorosa e normalmente limitam-se a colocar tais aptidões ao serviço dos seus geniais devaneios, atingindo amíúde estados em que se tornam capazes de fazer evoluir o mundo. Tendo a confiar nos génios pois não costumam fazer mal a ninguém, de tão embrenhados que se encontram no seu universo mental. Quando estamos perante alguém  provido de prodigiosa inteligência também podemos subliminar-nos se nos soubermos munir de atenção e sede de novos conhecimentos.
   Mas de quem eu mais gosto é dos espertos!  Há algo de desafiante no contacto direto com pessoas assim. Os espertos têm uma inteligência razoável regada com certa maldade que usam indiscriminadamente em prol do seu próprio proveito.  Não têm pudor em mentir com uma displicência tal que acreditam na verdade de cada falácia impingida e o seu maior orgulho é sentirem-se ilesos no alto do seu  nível mental que lhes segreda ao ouvido a garantia de levarem sempre a melhor.   Sim, com os espertos aprendemos lições impagáveis… mas só se tivermos inteligência suficiente para conseguir que nos considerem completamente burros.
Ana Amorim Dias
  
 
  

  

21.9.12

Feel immortal




    Atribuir frases e aforismos nem sempre é fácil, mas talvez seja  legítimo dar  a  Hemingway os créditos desta  pérola: “ For that moment when you are making love with a woman of true greatness you will feel immortal.” Ou então isto é apenas Ernest Heminguay by woody Allan. Não garanto nada. O tema de hoje não são os créditos e sim uma reflexão sobre o sumo que escorre desta oração.
    O sexo tem sido alvo de atentados incríveis. Por parte das religiões ( a essas volto um dia destes) e  da moral. Em última análise, por parte do Homem e da sua imensa estupidez.  Acredito nesta frase. Acredito que quando um homem faz amor com uma mulher grandiosa, chega a haver o momento em que se sente imortal: o fragmento de tempo em que transpõe a barreira do humano e roça na divindade.
   Quando um homem encontra uma mulher assim e conquista, mais que o corpo, toda a sua sua essência numa fusão inexplicável, ele torna-se mesmo num Deus imortal. Mesmo que só por momentos.  E ninguém me tira da ideia  que é  exatamente  isto que todos buscam sem saber. Muitas  vezes da forma errada, julgando que é na quantidade ou no mero contacto físico que tal sublimação se conquista. Mas não.  A imortalidade momentânea e  a supressão absoluta do medo da morte e da consciência de finitude só se atingem quando a grandiosidade feminina se entrega, para lá do corpo, com a própria essência. 
   É por isso que o sexo tem sido considerado algo feio; algo a ser castrado e  calado: porque é considerado perigoso que o Homem se transmute em Deus. Mesmo que só por momentos.
Ana Amorim Dias
 

Ganhar a vida




- És escritora? – Esta pergunta saiu sem espanto. Mas ele voltou ao ataque, desta vez meio incrédulo:  - Ganhas a vida a escrever??!? –
Fiquei calada. Muda. Seca de palavras. Respirei fundo três vezes e comecei a costurar a resposta.
“ Não. Claro que não. Casei com um gajo rico que me sustenta por isso faço o que me apetece.”   
Não era justo. Porque haveria  de mentir? Afinal a pergunta até é legítima.
“ Ganhar a vida a escrever?” podia eu responder com uma sonora gargalhada. E depois calava-me. A irónica risota seria, por si, a resposta.
Mas não sinto vontade. Nem de rir nem de ser irónica.
“ Não. Ganho a vida a fazer outras dez coisas diferentes; a trabalhar como uma doida em certas alturas para conseguir pagar as contas e guardar algum tempo para mim, para o que amo fazer.”
   Aqui estaria um pouco mais próxima da verdade. Mas ainda assim muito longe. Não seria justo. Tenho que ser verdadeira.
“ Sabes, rapaz? Sim, ganho a vida a escrever.  Mas não te confundas. Pago as contas com o fruto dos meus trabalhos que nada têm que ver com a escrita. E no entanto a vida, ganho-a  todos os dias… enquanto escrevo.”
Aí tens a resposta.
Ana Amorim Dias


20.9.12

Espartilhados no tempo



Mergulho na memória externa e começo a viagem ao passado.
Quem havia de dizer que a fotografia seria uma banalidade do dia a dia? As máquinas fotográficas abandonadas ao pó das gavetas e os  rolos que deixaram de fazer parte da vida há já tantos ,  são só alguns indícios de como os daguerreótipos se tornaram quase tão diários e presentes como as refeições que diariamente se tomam.
   Fotografias constantes. Prolixas. A comprovar cada momento. A servir de testemunho visual da pessoa que fomos. E do que vivemos.
Mergulho na memória externa e começo a abrir pastas. Relatos de cumplicidades. De festas. De sorrisos alegres ou de uma tristeza que ninguém soube ver.  Provas da existência quem já não está.  Documentos que atestam a veracidade de amizades que  não mais se abraçam. Texturas não palpáveis do que já foi real. Temperaturas distintas. Focagens dispersas.
  E lembranças. Muitas. Mais perenes e eternas que as imagens captadas. Memórias com cheiro, som e sabor. Com suspiros, carícias e promessas gemidas.
Mergulho nos álbuns ao som do “clic” das teclas. E vou desfolhando o passado que se rende ante o meu olhar pensativo: somos realmente quem ali se plasma? Ou quem ali mora é um fantasma de nós? Sentimos saudades de quem fomos? Sentirão os outros saudades, não de quem agora somos, mas de quem  assim sorria para a objetiva da máquina?
   Somos o produto,  sempre inacabado, da soma de tudo o que fazemos, dizemos, escolhemos? Ou uma sucessão de frames espartilhados no tempo?
Mergulho nas pastas,  repletas de fotos,  e revivo cada momento. Quem lá está não são fantasmas, são os pedaços da vida que fazem de nós quem somos.
Ana Amorim Dias