Gemidos
Quando penso escrever sobre algo está tudo estragado. Já sei que nem vale a pena tentar reprimir-me. Tenho que escrever. E o que escrevo tenho que publicar.
- Tens uma escrita corajosa, Ana. Sobretudo para mulher.- dizia-me no outro dia um amigo.
Corajosa ou inconveniente? Continuo a acreditar no que digo e isso é enorme. Mesmo que inconveniente para alguns, talvez outros queiram ler.
Chega de introduções, fica só o apelo aos púdicos para que se abstenham de ler.
Uma vida sem gemidos não pode ser sincera. Sensual não é, de certo. E a sensualidade faz falta. O deslizar lânguido dos corpos, mesmo que sós, acresce pontos à estética emocional de todas as vidas. Faz falta assumir os corpos nus. Faz falta envergá-los à luz, na assunção plena do nosso paradoxo de humano e animal. Faz falta sentir, assumir e admitir o prazer. E este só é inteiro quando nos sai com sons suaves, expressivos, guturais. Sons que prolongam, exponenciam e expressam todo o nosso prazer. É que a vida já é tão gritante no que toca a coisas más que se a deixamos muda no que ao prazer diz respeito, perdemos metade da voz. Há que gemer, sim, para não calar o prazer. E porque a sensualidade faz falta.
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
17.4.13
Resistente
Robustez
Tenho uns amigos que se continuam a rir com o episódio, depois de tantos anos. Eu estava atrás do balcão do Piratas e, com duas canecas em cada mão, virei-me de uma maneira estranha. Não sei com fiz aquilo mas devo ter tropeçado e caí, com muito estrondo, como uma sequoia gigante.
À força de tanto recordarem a queda da grande sequoia, lembraram-me do jogo infantil: "se fosses um animal, que animal eras?" , "Se fosses uma máquina, que máquina eras?" e por aí fora.
Mal vi esta fotografia foi quase como ver-me ao espelho! Uma viagem sozinha naquele volante? Era até ao cabo do Mundo! Exatamente como faço comigo: sigo-me até ao fim, sem sequer olhar para trás.
Olho de novo. Admiro a robustez da máquina, quase assustadora, e percebo que sim: mesmo quando a vida me quis fazer sentir como um triciclo de plástico comprado nos chineses, eu no fundo sabia que era um peso pesado e que a estrada estava mesmo ali ao meu lado, à espera de que eu a percorresse com toda a minha potência.
Resta um pequeno "senão", que é o de gastar muito. Mas não é preocupante. Sei que por todo o lado há estacões de combustível com aquilo que me move.
Ana Amorim Dias
Tenho uns amigos que se continuam a rir com o episódio, depois de tantos anos. Eu estava atrás do balcão do Piratas e, com duas canecas em cada mão, virei-me de uma maneira estranha. Não sei com fiz aquilo mas devo ter tropeçado e caí, com muito estrondo, como uma sequoia gigante.
À força de tanto recordarem a queda da grande sequoia, lembraram-me do jogo infantil: "se fosses um animal, que animal eras?" , "Se fosses uma máquina, que máquina eras?" e por aí fora.
Mal vi esta fotografia foi quase como ver-me ao espelho! Uma viagem sozinha naquele volante? Era até ao cabo do Mundo! Exatamente como faço comigo: sigo-me até ao fim, sem sequer olhar para trás.
Olho de novo. Admiro a robustez da máquina, quase assustadora, e percebo que sim: mesmo quando a vida me quis fazer sentir como um triciclo de plástico comprado nos chineses, eu no fundo sabia que era um peso pesado e que a estrada estava mesmo ali ao meu lado, à espera de que eu a percorresse com toda a minha potência.
Resta um pequeno "senão", que é o de gastar muito. Mas não é preocupante. Sei que por todo o lado há estacões de combustível com aquilo que me move.
Ana Amorim Dias
Sem saber
Sem saber
Há uns dias comecei a falar com uma senhora que não conheço de lado nenhum, como tantas vezes acontece. Na fila do supermercado, por ficar forçosamente quieta, tenho que me entreter com alguma coisa. Falei-lhe com o à vontade com que falo a toda a todas as pessoas, conhecidas ou não, mas estranhei a sua euforia por eu lhe estar a dar atenção.
A minha irmã tinha na carteira um postalito de um santo, com uma pequena oração. Com a curiosidade dos meus oito ou nove anos, perguntei-lhe o que era aquilo e ela contou-me a história.
- Eu estava na minha hora de almoço e uma velhinha, daquelas que moram na rua, pediu-me uma moeda porque estava com fome. Pedi-lhe para esperar e fui buscar qualquer coisa para comermos.-
- Para comerem?- perguntei.
- Sim, querida. Sentei-me com ela e almoçamos as duas, sentadas num degrauzinho da rua. Foi tão bom. Quando nos despedimos ela ofereceu-me esta oração.
Sei hoje que aquele almoço deve ter sido muito especial para ambas. O que não sei é se a minha irmã alguma vez sonhou no que este almoço fez por mim. Mas esta é uma prova irrefutável de que os nossos gestos têm repercussões que vão muito para além do momento, e se multiplicam como ondas para além do tempo e do espaço. Lembrei-me disto de novo, há dias, perante o olhar espantado da jovem mãe cigana, com quem tanto conversei na fila do supermercado.
Ana Amorim Dias
Há uns dias comecei a falar com uma senhora que não conheço de lado nenhum, como tantas vezes acontece. Na fila do supermercado, por ficar forçosamente quieta, tenho que me entreter com alguma coisa. Falei-lhe com o à vontade com que falo a toda a todas as pessoas, conhecidas ou não, mas estranhei a sua euforia por eu lhe estar a dar atenção.
A minha irmã tinha na carteira um postalito de um santo, com uma pequena oração. Com a curiosidade dos meus oito ou nove anos, perguntei-lhe o que era aquilo e ela contou-me a história.
- Eu estava na minha hora de almoço e uma velhinha, daquelas que moram na rua, pediu-me uma moeda porque estava com fome. Pedi-lhe para esperar e fui buscar qualquer coisa para comermos.-
- Para comerem?- perguntei.
- Sim, querida. Sentei-me com ela e almoçamos as duas, sentadas num degrauzinho da rua. Foi tão bom. Quando nos despedimos ela ofereceu-me esta oração.
Sei hoje que aquele almoço deve ter sido muito especial para ambas. O que não sei é se a minha irmã alguma vez sonhou no que este almoço fez por mim. Mas esta é uma prova irrefutável de que os nossos gestos têm repercussões que vão muito para além do momento, e se multiplicam como ondas para além do tempo e do espaço. Lembrei-me disto de novo, há dias, perante o olhar espantado da jovem mãe cigana, com quem tanto conversei na fila do supermercado.
Ana Amorim Dias
14.4.13
Alegria
Alegria
Eu achou que no fundo já sabia, mas ontem percebi-o conscientemente, enquanto desligava o telefone à minha mãe.
- Adeus princesa-mãe! Beijinho da princesa-filha!-
- Oh filha, mas se sou a mãe devia ser rainha, não?-
- Claro que não, isso era demasiado pesado para ti! O teu ar é tão jovial que só podes ser princesa!-
Riu-se. E antes de desligar perguntou:
- Mas porque é que tu me deixas sempre assim tão bem disposta?-
A universal lei da atração funciona com a alegria. As pessoas alegres magnetizam os outros, transformam a realidade, melhoram as energias e atraem coisas boas. A grande questão que fica? Como ser uma pessoa alegre!
Se é para estar triste que seja, mas que se chore a tristeza toda inteira até ao fim. E depois o encantamento. Com tudo. Com todos.
Se é para estar preocupado que seja, mas que se perceba que existe sempre solução. Quanto mais não seja a de perceber que o que não a tem, solucionado está! E depois? Mais alegria.
É que todos somos demasiado bons e belos para a rendição à tristeza! E todos os que nos rodeiam merecem o melhor de nós, certo?
Por isso comecem a treinar hoje mesmo, com a ajuda do sol. É que o espírito humano tende mesmo à alegria, para quê forçar o contrário?
Ana Amorim Dias
Eu achou que no fundo já sabia, mas ontem percebi-o conscientemente, enquanto desligava o telefone à minha mãe.
- Adeus princesa-mãe! Beijinho da princesa-filha!-
- Oh filha, mas se sou a mãe devia ser rainha, não?-
- Claro que não, isso era demasiado pesado para ti! O teu ar é tão jovial que só podes ser princesa!-
Riu-se. E antes de desligar perguntou:
- Mas porque é que tu me deixas sempre assim tão bem disposta?-
A universal lei da atração funciona com a alegria. As pessoas alegres magnetizam os outros, transformam a realidade, melhoram as energias e atraem coisas boas. A grande questão que fica? Como ser uma pessoa alegre!
Se é para estar triste que seja, mas que se chore a tristeza toda inteira até ao fim. E depois o encantamento. Com tudo. Com todos.
Se é para estar preocupado que seja, mas que se perceba que existe sempre solução. Quanto mais não seja a de perceber que o que não a tem, solucionado está! E depois? Mais alegria.
É que todos somos demasiado bons e belos para a rendição à tristeza! E todos os que nos rodeiam merecem o melhor de nós, certo?
Por isso comecem a treinar hoje mesmo, com a ajuda do sol. É que o espírito humano tende mesmo à alegria, para quê forçar o contrário?
Ana Amorim Dias
Não encomudar
Não "encomudar"
A culpa deve ser minha. E do pai também, claro. Mas em primeiro lugar, minha. Os meus pobres filhos sofrem com o excesso energético da progenitora desde tempos uterinos. Lembro-me de um jogo de matraquilhos que ganhei junto à ribeira, às oito da manhã do primeiro de Maio de 2001, depois de uma inesquecível direta. Um mês depois, o Tom nasceu. Vinha cansado.
Lembro-me de um casamento que fiz, há oito anos por esta altura, no qual trabalhei como louca. Cinco dias depois nasceu o João. Como também (não percebo porquê) vinha bastante cansado, deixei-o a descansar e, passados mais cinco dias, voltei ao trabalho.
Desde bem pequeninos que levam estafas terríveis. Seguem-nos durante quilómetros, vivem experiências extenuantes, mantêm-se vivos e alerta muito para além do que seria de esperar, porque perceberam logo cedo que só assim conseguiriam acompanhar a "pedalada" dos pais e absorver a intensidade de imensas coisas que lhes é facultado viver.
Mas às vezes pedem tréguas. Adormecem nos sofás de uma qualquer esplanada ou aninham-se na tranquilidade merecida do banco de trás, depois de pendurarem no retrovisor o apelo do "não encomudar"!
Ana Amorim Dias
A culpa deve ser minha. E do pai também, claro. Mas em primeiro lugar, minha. Os meus pobres filhos sofrem com o excesso energético da progenitora desde tempos uterinos. Lembro-me de um jogo de matraquilhos que ganhei junto à ribeira, às oito da manhã do primeiro de Maio de 2001, depois de uma inesquecível direta. Um mês depois, o Tom nasceu. Vinha cansado.
Lembro-me de um casamento que fiz, há oito anos por esta altura, no qual trabalhei como louca. Cinco dias depois nasceu o João. Como também (não percebo porquê) vinha bastante cansado, deixei-o a descansar e, passados mais cinco dias, voltei ao trabalho.
Desde bem pequeninos que levam estafas terríveis. Seguem-nos durante quilómetros, vivem experiências extenuantes, mantêm-se vivos e alerta muito para além do que seria de esperar, porque perceberam logo cedo que só assim conseguiriam acompanhar a "pedalada" dos pais e absorver a intensidade de imensas coisas que lhes é facultado viver.
Mas às vezes pedem tréguas. Adormecem nos sofás de uma qualquer esplanada ou aninham-se na tranquilidade merecida do banco de trás, depois de pendurarem no retrovisor o apelo do "não encomudar"!
Ana Amorim Dias
Capitalizar emoções
Capitalista
Gosto de dinheiro, claro. Gosto de dinheiro nas contas, nos bolsos, na mala. Gosto de ganhar dinheiro e de gastar dinheiro. Gosto de dar dinheiro a ganhar. Não gosto que me roubem dinheiro nem que tenham deixado o país num estado em que já nada dá dinheiro por dinheiro não haver.
Encaro como normal esta minha relação com o dinheiro. Convivo com ele mas não vivo para ele. Conheço o seu valor, que é exatamente o que vale e nem um cêntimo a mais. E nem sequer vou dizer que o prazer de comprar é fugaz e se esgota assim que se passa o cartão, porque há coisas que ele compra que ficam mesmo para sempre. Há coisas compradas que nos marcam, constroem e deixam lembranças que ficam para sempre. Há dinheiro que sim, traz mesmo felicidade, sobretudo quando vem daquilo que amamos fazer e quando deixa feliz quem compra o que fizemos tão bem.
Gosto de ver para lá do dinheiro, para lá das roupas rasgadas que envolvem os indigentes; para lá dos fatos de marca e dos sapatos italianos. Gosto de me sentir para além do dinheiro, de saber que consigo sentir felicidade no zero e no mil. Gosto de perceber que talvez consiga viver com a humildade de ter para partilhar e com a nobreza de algum dia o ter que pedir.
Sei que só se adormece, imediata e profundamente, quando o básico está assegurado, quando não há grandes dívidas nem a sombra de devastadoras perdas. Mas o que de mais importante sei é que uma fatia de pão com manteiga partilhada com a minha melhor amiga, me sabe muito melhor que toda a lagosta do mundo; que ver as gargalhadas felizes da existência normal dos meus filhos me orgulha mais que tudo o que lhes possa comprar; que a alegria mais intensa pode estar numa volta ao quarteirão e não numa volta ao Mundo. É que o dinheiro pode comprar muitas coisas mas vale só o que vale e nem mais um cêntimo. Pode comprar muitas coisas mas não compra o sentido crítico, a sensibilidade, a inteligência e a criatividade. O dinheiro não compra a arte interior, a amizade eterna, o amor verdadeiro, a fé fervorosa, o respeito merecido nem a admiração genuína.
Sou capitalista, sem dúvida, mas acima de tudo de emoções boas e das gargalhadas que até de cabeça para baixo sei dar.
Ana Amorim Dias
Gosto de dinheiro, claro. Gosto de dinheiro nas contas, nos bolsos, na mala. Gosto de ganhar dinheiro e de gastar dinheiro. Gosto de dar dinheiro a ganhar. Não gosto que me roubem dinheiro nem que tenham deixado o país num estado em que já nada dá dinheiro por dinheiro não haver.
Encaro como normal esta minha relação com o dinheiro. Convivo com ele mas não vivo para ele. Conheço o seu valor, que é exatamente o que vale e nem um cêntimo a mais. E nem sequer vou dizer que o prazer de comprar é fugaz e se esgota assim que se passa o cartão, porque há coisas que ele compra que ficam mesmo para sempre. Há coisas compradas que nos marcam, constroem e deixam lembranças que ficam para sempre. Há dinheiro que sim, traz mesmo felicidade, sobretudo quando vem daquilo que amamos fazer e quando deixa feliz quem compra o que fizemos tão bem.
Gosto de ver para lá do dinheiro, para lá das roupas rasgadas que envolvem os indigentes; para lá dos fatos de marca e dos sapatos italianos. Gosto de me sentir para além do dinheiro, de saber que consigo sentir felicidade no zero e no mil. Gosto de perceber que talvez consiga viver com a humildade de ter para partilhar e com a nobreza de algum dia o ter que pedir.
Sei que só se adormece, imediata e profundamente, quando o básico está assegurado, quando não há grandes dívidas nem a sombra de devastadoras perdas. Mas o que de mais importante sei é que uma fatia de pão com manteiga partilhada com a minha melhor amiga, me sabe muito melhor que toda a lagosta do mundo; que ver as gargalhadas felizes da existência normal dos meus filhos me orgulha mais que tudo o que lhes possa comprar; que a alegria mais intensa pode estar numa volta ao quarteirão e não numa volta ao Mundo. É que o dinheiro pode comprar muitas coisas mas vale só o que vale e nem mais um cêntimo. Pode comprar muitas coisas mas não compra o sentido crítico, a sensibilidade, a inteligência e a criatividade. O dinheiro não compra a arte interior, a amizade eterna, o amor verdadeiro, a fé fervorosa, o respeito merecido nem a admiração genuína.
Sou capitalista, sem dúvida, mas acima de tudo de emoções boas e das gargalhadas que até de cabeça para baixo sei dar.
Ana Amorim Dias
Primeira vez
Atirei o barro à parede.
- Tomás, hoje lavas tu a loiça.-
- Oh mãe...-
- Oh mãe, nada, filho! Hoje em dia nenhuma mulher te vai querer se não souberes fazer estas coisas!-
Soubesse eu disto mais cedo! As minhas palavras embruxaram-no. Levantou a mesa, todo airoso, aproximou-se do lava loiças, arregaçou as mangas, olhou para mim muito sério, com a esponja na mão, e perguntou:
- O shampô vai de que lado?-
- Do que tem a parte verde. - respondi, tentando conter as gargalhadas.
Calculei que o resultado talvez não fosse perfeito, mas é a fazer que se aprende.
Instalei-me à secretária, liguei o facebook e saboreei o doce sabor da minha maquiavélica vitória, enquanto ele, muito satisfeito consigo, ia desenvolvendo mais uma aptidão de Don Juan.
Só mais tarde, quando fui fazer um chá, reparei na perfeição da limpeza e do alinhamento da loiça. O moço faz-se!
Ana Amorim Dias
- Tomás, hoje lavas tu a loiça.-
- Oh mãe...-
- Oh mãe, nada, filho! Hoje em dia nenhuma mulher te vai querer se não souberes fazer estas coisas!-
Soubesse eu disto mais cedo! As minhas palavras embruxaram-no. Levantou a mesa, todo airoso, aproximou-se do lava loiças, arregaçou as mangas, olhou para mim muito sério, com a esponja na mão, e perguntou:
- O shampô vai de que lado?-
- Do que tem a parte verde. - respondi, tentando conter as gargalhadas.
Calculei que o resultado talvez não fosse perfeito, mas é a fazer que se aprende.
Instalei-me à secretária, liguei o facebook e saboreei o doce sabor da minha maquiavélica vitória, enquanto ele, muito satisfeito consigo, ia desenvolvendo mais uma aptidão de Don Juan.
Só mais tarde, quando fui fazer um chá, reparei na perfeição da limpeza e do alinhamento da loiça. O moço faz-se!
Ana Amorim Dias
10.4.13
Página 50
Pagina 50
Quando uma crónica se enche de "gostos" e boas críticas, a que escrevo depois é criada com um acrescido sentido de responsabilidade. Creio que acontece com tudo: a única desvantagem de fazer algo reconhecidamente bom é a necessidade de suplantar o feito logo na oportunidade seguinte. Mas se analisarmos bem o facto, ele nada tem de desvantajoso. Muito pelo contrário, é a capacidade de fazer bem as coisas que nos incendeia o fogo de ainda tentar melhorar.
Estou na página cinquenta da biografia do Eric. Um ritmo um pouco escandaloso se for fazer uma média. Ainda para mais porque não há prazos a cumprir, ninguém corre atrás de mim. A não ser eu mesma. Os dias sucedem-se entre treinos físicos, intelectuais e linguísticos; entre momentos criativamente orgásmicos, pesquisas culturais e geográficas, leituras incessantes numa língua que não domino e o apuramento de tudo o que a memória reteve. Em suma, vivo dias de desafio constante e de um prazer indizível, em que a responsabilidade de contar bem a vida mais interessante que algum dia poderia ter imaginado existir, quase me esmaga.
Faço-o com a vantagem de não precisar de suplantar qualquer obra minha anteriormente reconhecida. Nenhuma delas o foi. Mas faço-o com a pressão de querer manter e melhorar toda a qualidade que sei ter colocado nos livros que já escrevi.
Por agora vou indo. Já li alguns destes, mas faltam-me outros. E está tudo escrito em francês!
Ana Amorim Dias
Quando uma crónica se enche de "gostos" e boas críticas, a que escrevo depois é criada com um acrescido sentido de responsabilidade. Creio que acontece com tudo: a única desvantagem de fazer algo reconhecidamente bom é a necessidade de suplantar o feito logo na oportunidade seguinte. Mas se analisarmos bem o facto, ele nada tem de desvantajoso. Muito pelo contrário, é a capacidade de fazer bem as coisas que nos incendeia o fogo de ainda tentar melhorar.
Estou na página cinquenta da biografia do Eric. Um ritmo um pouco escandaloso se for fazer uma média. Ainda para mais porque não há prazos a cumprir, ninguém corre atrás de mim. A não ser eu mesma. Os dias sucedem-se entre treinos físicos, intelectuais e linguísticos; entre momentos criativamente orgásmicos, pesquisas culturais e geográficas, leituras incessantes numa língua que não domino e o apuramento de tudo o que a memória reteve. Em suma, vivo dias de desafio constante e de um prazer indizível, em que a responsabilidade de contar bem a vida mais interessante que algum dia poderia ter imaginado existir, quase me esmaga.
Faço-o com a vantagem de não precisar de suplantar qualquer obra minha anteriormente reconhecida. Nenhuma delas o foi. Mas faço-o com a pressão de querer manter e melhorar toda a qualidade que sei ter colocado nos livros que já escrevi.
Por agora vou indo. Já li alguns destes, mas faltam-me outros. E está tudo escrito em francês!
Ana Amorim Dias
Os corações tratam-se por tu
Os corações tratam-se por tu
Assim que liguei o facebook para publicar a crónica, vi que tinha várias mensagens. Uma delas, de uma doce Anabela, desejava-me simplesmente um excelente dia de escrita. A ser verdade que os pequeninos gestos transformam o Mundo, o meu em particular foi ontem ainda mais mágico e inspirado devido a este "bom dia" tão espontâneo.
Mais tarde, ao fim da noite, quando já estava a ponderar fazer descansar os dedos, um leitor publica algo no meu mural e escreve: "Adorei a tua crónica". Em que é que isto me despertou a vontade de escrever mais esta? No tratamento por "tu"!
Há algum tempo atrás, a Ana-advogada-princesa semi oligarca da Quinta teria torcido o nariz ao facto de alguém que não conhece a ter tratado de uma forma tão desautorizadamente intimista.
Mas hoje? Hoje parece-me bem!
Significa que estou a fazer um bom trabalho. Significa que a Ana-escritora se começa a sobrepor a tudo o resto e isso agrada-me imenso. Posso manter o meu hábito de, até prova em contrário, tratar todos por "você", mas é quando a espontaneidade alheia me brinda com "tus" que sorrio e percebo os porquês: é que escrevo de coração a corações e estes tratam-se sempre por "tu"!
Ana Amorim Dias
Assim que liguei o facebook para publicar a crónica, vi que tinha várias mensagens. Uma delas, de uma doce Anabela, desejava-me simplesmente um excelente dia de escrita. A ser verdade que os pequeninos gestos transformam o Mundo, o meu em particular foi ontem ainda mais mágico e inspirado devido a este "bom dia" tão espontâneo.
Mais tarde, ao fim da noite, quando já estava a ponderar fazer descansar os dedos, um leitor publica algo no meu mural e escreve: "Adorei a tua crónica". Em que é que isto me despertou a vontade de escrever mais esta? No tratamento por "tu"!
Há algum tempo atrás, a Ana-advogada-princesa semi oligarca da Quinta teria torcido o nariz ao facto de alguém que não conhece a ter tratado de uma forma tão desautorizadamente intimista.
Mas hoje? Hoje parece-me bem!
Significa que estou a fazer um bom trabalho. Significa que a Ana-escritora se começa a sobrepor a tudo o resto e isso agrada-me imenso. Posso manter o meu hábito de, até prova em contrário, tratar todos por "você", mas é quando a espontaneidade alheia me brinda com "tus" que sorrio e percebo os porquês: é que escrevo de coração a corações e estes tratam-se sempre por "tu"!
Ana Amorim Dias
Heróis
Heróis
- Sabes qual é o meu único e verdadeiro medo?-
- Não. Diz-me.-
- É perder algum dia a capacidade de partir para novas aventuras; é ficar estagnada, não sentir nada, não ser a heroína da minha própria história...-
- Eu sei. Mas já pensaste que os verdadeiros heróis talvez sejam aqueles que sabem enfrentar a monotonia do quotidiano?-
Afinal quem são os heróis? Onde e como se salta por cima dessa linha que separa as vidas memoráveis das vidas banais? Existem vidas banais? O que implica mais coragem? Ficar ou partir? E a liberdade o que é? Todos a têm apesar de não a exercerem para não suportarem as consequências.
Desconfio que ele tem razão: os verdadeiros heróis se calhar são mesmo os que aceitam enfrentar a monotonia do quotidiano. Por isso não quero ser heroína. Isso não é para mim. Continuarei a ser apenas a pessoa que se constrói dia a dia com novos sonhos, novas partidas, mais ambiciosos planos e sentidas emoções. Continuarei a ser apenas aquela que há-de partir sempre em direção ao pôr do sol para escrever o livro da vida.
Ana Amorim Dias
- Sabes qual é o meu único e verdadeiro medo?-
- Não. Diz-me.-
- É perder algum dia a capacidade de partir para novas aventuras; é ficar estagnada, não sentir nada, não ser a heroína da minha própria história...-
- Eu sei. Mas já pensaste que os verdadeiros heróis talvez sejam aqueles que sabem enfrentar a monotonia do quotidiano?-
Afinal quem são os heróis? Onde e como se salta por cima dessa linha que separa as vidas memoráveis das vidas banais? Existem vidas banais? O que implica mais coragem? Ficar ou partir? E a liberdade o que é? Todos a têm apesar de não a exercerem para não suportarem as consequências.
Desconfio que ele tem razão: os verdadeiros heróis se calhar são mesmo os que aceitam enfrentar a monotonia do quotidiano. Por isso não quero ser heroína. Isso não é para mim. Continuarei a ser apenas a pessoa que se constrói dia a dia com novos sonhos, novas partidas, mais ambiciosos planos e sentidas emoções. Continuarei a ser apenas aquela que há-de partir sempre em direção ao pôr do sol para escrever o livro da vida.
Ana Amorim Dias
Assobio
Assobio
- Mãe podemos ir àquela loja?- o Tomás adora andar sozinho e sem pressões pelo centro comercial.
- Está bem. Mas não se separem um do outro e tenham atenção ao assobio.-
Minutos depois volto à loja onde os deixei e, logo à entrada, faço soar o nosso assobio. Em apenas três segundos tenho as crias ao meu lado.
- Oh mãe...-
- Diz Tom. -
- A chamares assim por nós até parecemos uns cachorrinhos!-
Nem lhe respondo. Desconfio que um dia ele vai ter os seus próprios "cachorrinhos" para chamar com um assobio. E, se os meus planos funcionarem, também vai perceber que o mais importante nem sempre é o que fazemos por eles e sim o que lhes ensinamos a fazer por si próprios.
Ana Amorim Dias
- Mãe podemos ir àquela loja?- o Tomás adora andar sozinho e sem pressões pelo centro comercial.
- Está bem. Mas não se separem um do outro e tenham atenção ao assobio.-
Minutos depois volto à loja onde os deixei e, logo à entrada, faço soar o nosso assobio. Em apenas três segundos tenho as crias ao meu lado.
- Oh mãe...-
- Diz Tom. -
- A chamares assim por nós até parecemos uns cachorrinhos!-
Nem lhe respondo. Desconfio que um dia ele vai ter os seus próprios "cachorrinhos" para chamar com um assobio. E, se os meus planos funcionarem, também vai perceber que o mais importante nem sempre é o que fazemos por eles e sim o que lhes ensinamos a fazer por si próprios.
Ana Amorim Dias
6.4.13
Ontem à tarde
Ontem à tarde
O avião aterra em Sevilla sob um sol resplandecente. Olho para o relógio. Ontem a esta hora estava a beber cerveja numa esplanada da marina de Saint Tropez e agora vou tomar a direção de Castro Marim? Bem, é a vida!
Entro para o carro e páro junto às máquinas onde se paga o parque. Nesse momento lembro-me: faz hoje dois anos que, à hora em que eu hoje estava lá em cima nas nuvens, me ligaram: - Ana? Lamentamos informá-la, mas o seu pai acabou de falecer.-
Ponho o tiquet na máquina e a cancela levanta. Aprecio a união com o meu carro, esse prolongamento de mim que me leva onde quero. Entrego-me a esse prazer. Passo da segunda para a terceira e da terceira para a quarta, meio macambúzia. Mas quando a quinta se engata não reprimo o sorriso que se me estampa no rosto. De que me serve estar triste? Isso não o traz de volta. Prefiro abraçar este sorriso agradecido por tudo o que de bom ele deixou gravado em mim.
E então lembro-me de uma das gravações do Eric, sobre a forma como a sua mãe, as suas filhas e algumas mulheres que amou o ajudaram na sua construção pessoal. Faço o mesmo exercício com a minha própria vida e sorrio outra vez de orelha a orelha, lembrando-me da última lição deste homem que me inspira a superar-me.
- Não aprecio despedidas por isso tchau, nem vou olhar para trás.- disse-lhe eu.
- Tens razão, eu também não. Tchau!-
Devido às filas em corredor, acabei por ficar mesmo de frente para a saída da gare. E lá estava ele à espera. Deu uma gargalha, fez adeus e só então foi embora.
E eu fiquei a rir. Já aprendi que o Mundo é tão pequenino que um dia destes nos vamos encontrar por aí.
Ana Amorim Dias
O avião aterra em Sevilla sob um sol resplandecente. Olho para o relógio. Ontem a esta hora estava a beber cerveja numa esplanada da marina de Saint Tropez e agora vou tomar a direção de Castro Marim? Bem, é a vida!
Entro para o carro e páro junto às máquinas onde se paga o parque. Nesse momento lembro-me: faz hoje dois anos que, à hora em que eu hoje estava lá em cima nas nuvens, me ligaram: - Ana? Lamentamos informá-la, mas o seu pai acabou de falecer.-
Ponho o tiquet na máquina e a cancela levanta. Aprecio a união com o meu carro, esse prolongamento de mim que me leva onde quero. Entrego-me a esse prazer. Passo da segunda para a terceira e da terceira para a quarta, meio macambúzia. Mas quando a quinta se engata não reprimo o sorriso que se me estampa no rosto. De que me serve estar triste? Isso não o traz de volta. Prefiro abraçar este sorriso agradecido por tudo o que de bom ele deixou gravado em mim.
E então lembro-me de uma das gravações do Eric, sobre a forma como a sua mãe, as suas filhas e algumas mulheres que amou o ajudaram na sua construção pessoal. Faço o mesmo exercício com a minha própria vida e sorrio outra vez de orelha a orelha, lembrando-me da última lição deste homem que me inspira a superar-me.
- Não aprecio despedidas por isso tchau, nem vou olhar para trás.- disse-lhe eu.
- Tens razão, eu também não. Tchau!-
Devido às filas em corredor, acabei por ficar mesmo de frente para a saída da gare. E lá estava ele à espera. Deu uma gargalha, fez adeus e só então foi embora.
E eu fiquei a rir. Já aprendi que o Mundo é tão pequenino que um dia destes nos vamos encontrar por aí.
Ana Amorim Dias
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