(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

24.5.12

Rendição absoluta




    Imagina que aterravas em território inimigo. Imagina que, aos olhos deles, eras um invasor. Mas imagina também que os inimigos eram poucos e que podias dominá-los se quisesses. O que farias?
   Quando pensamos em inimigos temos a visão de pessoas  a quem queremos mal e que nos querem mal a nós também. Mas isto podem ser apenas distorções da realidade.  Se invadimos um território, é natural que não nos vejam com bons olhos e desejem a nossa partida. E se nos sentimos ameaçados, também é normal que vejamos como inimigos as fontes dessas ameaças.
   Como derrotamos o inimigo? Fazendo-lhe mal?  Liquidando-o? Tenho uma opinião contrária que talvez faça de mim uma pessoa muito estúpida. Ou talvez apenas ingénua. Ou, quem sabe,  com vocação para a santidade. Não sei. Apenas sei que o inimigo não se derrota com a guerra e a aniquilação. A única forma lógica, válida e verdadeira de se acabar com o inimigo é fazendo-o entender que somos humanos, como ele. A única maneira de acabar com o inimigo é dando-lhe tanto amor que acabará por se entregar ao único tipo de rendição absoluta que existe: a de nos aceitar e amar de volta.
Ana Amorim Dias

23.5.12

Sensibilidade e bom senso



  Às vezes pergunto-me o que é melhor: viver na neutralidade, sem as partes menos boas dos sentimentos poderosos, ou existir numa assunção assumida de sensibilidades e emoções?
  A neutralidade é de uma simpatia enorme porque nos mantém tranquilos e apartados de todo o tipo de dor mas, por outro lado, acaba por ter aquele  mesmo efeito sob o qual ficam aquelas pessoas que se rendem a prozacs, Xanaxs e outros “neutralaxs” dos sentires.
  Caramba! Se somos humanos é para nos emocionarmos, certo? Isto de viver é mais ou menos como parir: dói como o raio, mas é maravilhoso! Há quem tenha a coragem de não usar anestésicos e compreenda os verdadeiros milagres da vida, e há quem se afogue em supressores de dor para não ter que lidar com ela, não vivenciando assim a magia de uma compreensão superior.
  Neutralidade ou emoções? Em que é que ficamos? Mesmo correndo o risco de me meter onde não devo,  atrevo-me a sugerir o uso de toda a nossa sensibilidade e emoção… mas com  o máximo de bom senso.
Ana Amorim Dias

22.5.12

Cinco minutos



   Desafiaram-me de novo para participar no Ignite, desta vez no Algarve. Como detesto virar as costas a um desafio, escolhi o tema “Ferramentas mágicas para uma vida de sucesso”  e espero conseguir, nos curtos cinco minutos a que cada orador tem direito, passar a mensagem de que todos nós temos poderes mágicos.  A sério! Todos temos encerrados em nós estes mecanismos,  poderosos e fáceis de ativar em qualquer lugar e situação, que nos permitem o mais notável feito de que toda a pessoa pode ser capaz: viver uma vida notável !
   Se cinco minutos chegam? Não! Pelos menos para enumerar e falar um pouco de todas as ferramentas mágicas que podemos ativar, cinco minutos não dão nem para começar… mas chegam seguramente para utilizar diariamente mecanismos como o otimismo, a infantilidade, as gargalhadas, o entusiasmo, o amor-próprio  e a consciência de que somos intrínseca e absolutamente livres.
  Ana Amorim Dias

21.5.12

E o Mundo a encolher



 
 Acho que o Mundo está a encolher. Não estou a falar do tamanho, claro, até porque o pouco saber que tenho sobre essa área do conhecimento, apenas me vem de ténues lembranças estudantis e dos programas que vejo nos canais de ciências.  Mas continuo a achar que o Mundo está a encolher. O crescimento de todos os meios de comunicação, o desenvolvimento de novas tecnologias e a utilização crescente dessa coisa fantantástica a que chamamos internet, fazem com que o mundo encolha.
   Há muitos que proclamam os efeitos nefastos da globalização do conhecimento e do contacto virtual entre pessoas que nunca se viram e provavelmente nunca se verão. Muitas pessoas apontam esta explosão incontrolável de redes sociais, profissionais e afins como um dos primeiros sinais do armaguedão da civilização tal como a conhecemos, mas será que têm razão?  Não me parece. Na minha humilde opinião, quanto mais o conhecimento se puder espalhar pelo máximo de milhões possível, melhor. Quanto mais as pessoas de um continente, cultura, religião, formação ou convicção, conhecerem pessoas de outros continentes, culturas, religiões, formações ou convicções, melhor para a humanidade! Tenho esta estranha ideia de que quanto mais perto estivermos uns dos outros, mesmo que só virtualmente, mais temos a ganhar com isso; mais temos a aprender uns com os outros, a enternecer-nos mútuamente e a aceitar as diferenças.
  Saber que posso “falar” a qualquer hora com essa riqueza infinita que é todo e qualquer ser humano e  saber que o posso fazer à velocidade das teclas e para qualquer canto do Mundo, faz-me sentir que estou a viver numa das épocas mais propícias para o desenvolvimentos de cada pessoa enquanto indivíduo e enquanto parte do Ser fabuloso que é a Humanidade…
  E, enquanto percebo isto, está o mundo a encolher!
Ana Amorim Dias

20.5.12

Dona Genoveva


  Uma das grandes riquezas de viajar é a quantidade de pessoas que temos oportunidade de conhecer. Pessoas que passam fugazmente pelas nossas vidas mas que, ainda assim, deixam  algo que nos enriquece e passa a fazer parte do patrimódio estupendo que são as nossas memórias.
   Conheci a Dona Genoveva em Buenos Aires. Sentei-me ao seu lado no Café de Los Angelitos, onde fui jantar e ver um ( fabuloso ) espetáculo de tango. Ela estava com a nora a passar uns dias na capital argentina e, quando começou a responder às minhas investidas curiosas, fiquei a saber que aquela idosa peruana era uma pessoa especial. Na meia hora que passámos a falar, antes do show começar, descobri a sabedoria doce daquela simpática anciã.
- A vida é uma colcha de retalhos que vai ficando sempre maior… - Disse-me a certa altura. – E só nós é que podemos escolher a qualidade dos tecidos e as cores, mais ou menos alegres,  que queremos usar! –
   Não cheguei a saber se a Dona Genoveva tinha sido costureira. Apenas me ficou a lembrança do amoroso olhar com que me soube brindar… e a noção da responsabilidade pela colcha de retalhos que me cabe continuar a fazer.
Ana Amorim Dias

19.5.12

Conversa de chacha


   Cada minuto que vivemos é valioso. Podemos não ter grande consciência disso porque andamos a toda hora atarefados com coisas que pensamos serem muito importantes e não ligamos ao valor de cada simples minuto. A nossa falsa ideia de eternidade, infelizmente,  também contribui para o facto.
  E porquê isto, agora? Podem estar a questionar-se. Simples: porque quando estou, como ainda há momentos, metida com os meus pensamentos e escritos, e sou interrompida por conversas de chacha vindas de pessoas que querem saber do que não é da sua conta, fico ainda mais consciente dos minutos preciosos que estou a perder!  Fico com vontade de responder – Desculpe lá, mas deixe-me aproveitar estes preciosos minutinhos em paz e meta-se na sua vida! –
   Mas,  agora que penso nisso, os minutos que há pouco perdi com mais uma conversa de chacha, tiveram o valor de me fazer ver algo importante:  que cada minutinho é mesmo precioso!
Ana Amorim Dias

18.5.12

A chama milenar


   Contaram-me que há um mosteiro, lá para os lados dos Himalaias, onde existe um fogo aceso que já arde há mil anos. De geração em geração, parece que foram alimentando a chama,  que se mantém em convicto brillho.
   Imaginei o tal mosteiro  e o pequeno fogo ardente… e lembrei-me do pouco trabalho que dá manter a nossa chama acesa. Se pensarmos um pouco nisso talvez não seja difícil perceber que, à semelhança do que fazem daqueles monges, bastam algumas  simples ações diárias para mantermos bem acesa a nossa paixão pela vida. Sim! … Talvez até baste,  simplesmente,  que apenas nos lembremos dela.
Ana Amorim Dias

17.5.12

Ilha deserta


   Não sei se sou só eu que tenho esta mania ou se os outros também “gastam” disto. É uma pergunta clássica, a que vou respondendo,  desde a infância,  das mais variadas formas. O que levaria comigo para uma ilha deserta? Mas a questão torna-se ainda mais lixada porque ( pelo menos era assim que o meu irmão a colocava ) só  poderia levar  uma coisa.
   De vez em quando lembro-me disto. Bem sei que é mais um estranho devaneio, mas mesmo esses nos ajudam a perceber um pouco melhor a vida e a forma como a encaramos. Ao longo dos anos que me separam da menina “pequenina” que já fui, vários têm sido os objetos eleitos. Desde escova de dentes e pasta, a uma mala de livros ou álbuns de fotografias, passando pela minha fronha ou por um sistema de música alimentado com energia solar; já tudo me passou pela cabeça. Mas nunca ficava satisfeita com a resposta: como pode alguém escolher uma só coisa para levar? Por mais minimalista que eu consiga ser, era-me imprescindível, pelo menos,  uma malita com direito a dez quilos como nos voos low cost! Em todos estes anos nunca consegui chegar a uma conclusão tão brilhante como a que me surgiu há uns dias.   Se tivesse que ir para uma ilha deserta e apenas pudesse levar uma coisa, já sei o que levaria! A civilização!  Ficava o problema integralmente resolvido porque além de ser, como todos os humanos, uma animal social, também não saberia viver sem a escova de dentes, os livros e a música; os meus filhos e as notícias, o protetor solar e a internet,  e mais tudo o resto de que todos os dias preciso.
   Moral desta estória? Para vocês não sei. Para mim, foi ter-me trazido a alegria de conseguir responder a uma das minhas inúmeras perguntas.
Ana Amorim Dias
 

16.5.12

"Homemsexuais"


- Mãe, o que são “homemsexuais”? –
- Hoje as perguntas matinais começaram em grande! -  Pensei – E logo hoje que eu ia iniciar o dia a escrever sobre o que  desejaria levar para uma ilha deserta… -
- “Homemsexuais” não existe, João. Acho que estás a falar de homosexuais, não será? –
- Sim, isso. –
- Homosexuais são homens que namoram com homens, meu amor. – Expliquei com calma, temendo a reação.
- Que nojo! –
- Não deves achar isso, João. Cada um tem direito a escolher se quer namorar com homens ou mulheres, não te parece? Gostavas que te achassem nojento por namorares com meninas? –
- Não. –
    A coisa ficou por ali. Mas só por uns momentos. Ao sair do carro para ir para a escola voltou ao ataque:
- Mãe? -    
Tremi.
- Sim? –
- Como é que os homosexuais põem a sementinha? –
   Devo ter ficado com cara de peixe-balão, mas lá encontrei as palavras (que me pareceram) certas.
- Para os bébés nascerem é sempre preciso uma mulher, por isso eles normalmente adotam. –
Saímos do carro e, enquanto caminhávamos lado a lado até à escola, ele deu a estocada final.
- E se houvesse polícias que prendessem os homosexuais? –
  A sério! Ninguém merece passar por um susto destes antes das nove da manhã! Por uma fração de segundo imaginei o meu filho já homem, dirigente de algum partido extremista, a fazer campanhas homofóbicas! – Tem calma, Ana, tu estás a educá-lo bem. Isto é só um mal entendido! – Disse a mim mesma em surdina.
- Mas tu achas bem que houvesse polícias a prender os homosexuais? –
- Não, mãe. Claro que não! –
- Olha João:  - Parei e fi-lo olhar para mim  -  Se há coisa feia nesta vida, é a discriminação! -
- Mãe, o que é discriminação? –
Lá vamos nós outra vez!!!!  Respirei fundo e disse: - É pensar que somos melhores que os outros e tratá-los mal por isso. –
  Já não me respondeu.  Olhou-me com um sorriso traquinas, deu-me um delicioso beijo e deixou-me ali, atarantada para o dia todo.
Ana Amorim Dias

15.5.12

Boa noite, aranha




    Ela passou à minha frente num caminhar convicto feito a oito patas. A imaginação fez-me logo vê-la como se fosse às compras, carteira a tiracolo com a lista escrita lá dentro. Indiferente aos meus desaires, ela continuou a caminhar, sob este olhar atento e carinhoso. Mas antes tinha-lhe reparado na sombra. Uma sobra enorme, assustadora, muito maior que a própria aranha que, inofensiva, apenas seguia o seu caminho.
   Fiquei com o olhar lá preso: aranha e sombra; realidade e ilusão. Quando, pouco depois, me fui deitar, levei comigo uma consideração importante. Quantas vezes não conseguimos distinguir a realidade,  das sombras? Quantas vezes não tememos a ilusão que não corresponde à realidade? Quantos medos injustificados não termos, que passariam com um mero olhar mais atento e isento? Porque uma coisa é certa: embora a sombra que ontem vi, me tenha despertado instintos assassinos, aquela aranhita simpática apenas arrancou de mim um “Boa noite, aranha…”
Ana Amorim Dias

14.5.12

Elementar



      Quando duas pessoas não se dão bem,  normalmente põem as culpas uma na outra.  É raro ouvirmos alguém dizer : “Ele é  uma pessoa espetacular, mas o meu feitio não se coadunava ao dele. ” ou “ Terminámos  a nossa relação porque eu não tenho capacidade para lhe dar toda  a entrega de que  ela precisa.”
    Ao longo da vida vamos somando relacionamentos de toda a espécie; familiares, laborais, amorosos, de amizade, e por aí fora. Uns são mais fáceis e dão-nos a entender que somos pessoas funcionais e bem integradas,  e outros, mais difíceis, vão servindo para aprendermos as mais variadas lições.
   Às vezes pergunto-me como seria  o Mundo se cada indivíduo aceitasse a sua responsabilidade no tipo de relação que mantém com cada pessoa com quem se relaciona… Já imaginaram?  Mas o que me parece mesmo mais importante é que cada um assuma um facto fundamental  e extremamente óbvio. Há apenas uma pessoa com quem temos forçosamente que nos relacionar desde o princípio até ao fim dos nossos dias: nós mesmos.  O que parece já não ser assim tão óbvio é a relação direta entre a forma como nos damos connosco e o modo como nos relacionamos com os outros. E tenho a certeza que quem se dá mesmo bem consigo mesmo, não precisa de se esforçar muito para fazer funcionar bem todos os outros relacionamentos.
Ana Amorim Dias
    

12.5.12

Conquilhas e bodyboard



  Deixo-me convencer a passar o dia na praia. Com direito a sombrinhas, lancheiras a abarrotar de comida, raquetes e pranchas de bodyboard. Felizmente só lá consegui chegar à uma tarde. Mas mesmo assim estou morta. Muito, muito morta!
   Neste dia intenso e repleto de brincadeira, sal e sol, descobri algo que já andava a suspeitar: tenho um vício incontrolável! Alguém que me informe, por favor,  se conhece algum grupo de apanhadores de conquilhas anónimos! É que nem quero saber se as vou comer ou  não!  O simples facto de andar a dar à perna à beira mar e caçar as bandidas que, esquivas, se esgueiram ondas fora, é algo inexplicável. Quanto mais apanho, mais viciada fico…
   Mas as descobertas do dia não se ficaram por aqui. Andava o Tomás com os amigos, a apanhar umas ondas, quando decidi juntar-me a eles.
- Não liguem muito à minha mãe – Avisou logo aos amigos. – Ela é meia marada. –
O certo é que a minha prancha deslizava mais que as deles. Dei-lhes um “bailinho” tão jeitoso que acabaram por desistir, não sei se envergonhados pela derrota se pelo facto da “cota” se estar a divertir como louca.
   Mas a história tem moral. É que, disse-me o Tomás, as ondas têm que ser apanhadas no momento certo! E claro ( confessem lá que já sabem ), pensei logo que com a vida é a mesma coisa:  se apanhamos a onda na hora certa, chegamos muito mais longe.
   Por agora já vou indo porque, como ainda agora dizia: estou morta. Muito, muito morta!
Ana Dias