(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

4.4.12

Por um amor maior




   Conheço-a há mais de trinta anos e,  durante todo este tempo,  sempre a vi a viver uma paixão feita tanto de alegrias como de amargos dissabores.
   A minha mais antiga e constante amiga, com a sua personalidade alegre e expansiva, infelizmente não é perfeita. Ela é,  como  o próprio filho afirma, “da lagartagem”!
   Sempre a vi a seguir o seu amado clube, contra tudo e contra todos; a sofrer como uma condenada em jogos mais importantes; e a manter-se fiel a esse tão grande amor. Em alturas mais críticas, e dando provas da mais sólida amizade, cheguei a sofrer ao seu lado e  a gritar de alegria por o Sporting marcar ( perdoem-me mas a amizade vem primeiro!).
  Mas quis o destino ( ou o pai da criança, por certo ) que o Afonso, seu filho,  lhe saísse das entranhas, qual  profanador hospedeiro, com o mais vermelho sangue a latejar-lhe na alma. Assim que as enfermeiras o deitaram no berço pela primeira vez, o seu pai cobriu-lhe o franzino corpo com as vestes benfiquistas, selando um pacto irreversível.  
Com a chegada do entendimento,  ao ser questionado sobre o local de nascimento, respondia com voz fanhosa:
- No xtádio da Uuz. –
- Não, meu anjo! Foi no HOSPITAL da luz! – corrigia-o a mãe.
- Nã foi nada! Foi no xtádio da Uuz!! -
Mas isto é só um exemplo da sua encarnada  paixão.   A minha pobre amiga tem que ouvir o cd do Benfica a toda a hora, com o acérrimo adepto a cantar tudo de cor e  com uma convicção invacilável.
Mas foi apenas há dois dias que a Margarida me confessou o inconfessável ( mas prometam manter o segredo, que não lhe quero manchar a imaculada reputação  sportinguista, ok?)
- Sabes, comecei a levá-lo à escolinha do Benfica. Se visses a alegria dele, todo equipado a rigor e a jogar “ à séria”… Juro-te, Ana,  nunca tinha visto o meu filho tão feliz em toda a vida.  
Eu não respondi nada porque lhe vi um orgulho no olhar que não achei nada normal. Afinal conheço-a há mais de três décadas e somos mais que unha e carne. Olhei um pouco mais para aquele olhar com 20% de tristeza e 80% de alegria. Não precisei que ela me explicasse mais nada.   Ali estava eu, perante uma mãe  cujo filho é da equipa rival, que falava do seu pequeno  “arqui-inimigo” cheia de alegria e orgulho por o ver tão decidido e feliz.   
– “ Assim são os filhos” -  pensei,  - “ os reis de um amor maior!”

Ana Dias

3.4.12

A origem do caos



   Ontem, perante uma plateia muito reduzida, comecei a dissertar sobre o facto de não fazermos escolhas.
- Nós nunca fazemos escolhas – Ouvi-me eu a dizer, com alguma surpresa – nós sabemos sempre o que queremos e não queremos, se é pela esquerda ou pela direita, se nos apetece carne ou peixe, se isto ou aquilo nos faz sentir bem ou mal.
  E elas olhavam para mim com atenção.
- Nós nunca fazemos escolhas, porque o nosso coração sabe sempre tudo com uma certeza absoltuta – Continuei – a única coisa importante, é saber como ouvi-lo!
  Agora,  que me lembro do que ontem à noite disse, percebo que o derradeiro motivo de não sabermos escutar o nosso coração/essência, é sermos animais sociais.  Esquecemos como se ouve o nosso interior por “respeito” aos outros.
Se somos expansivos, invadimos o espaço alheio; se não somos, implodimos.  Se somos totalmente sinceros, ferimos; se não somos, prejudicamos.  Se somos impulsivos, damos ideias erradas; se não somos, contribuímos para uma humanidade mais fria.  Se somos servis com os outros, somos carrascos connosco. Se somos constantes, não evoluímos; se evoluímos, tiramos a segurança aos demais.  Se somos falsos connosco, agradamos aos outros; se somos verdadeiros connosco, lançamos o caos no Mundo. Mas, como diz uma pessoa que muito amo:  " ...não te preocupes se por vezes lanças o  caos, minha filha, pois é dele que  nasce sempre a luz e o ordenamento, não só do cosmo, como de tudo. Por isso continua a espalhar esse tipo de caos!"
  É difícil sobreviver incólume no caos que plantamos ao seguirmos a nossa verdade, mas muito mais vale esse caos que nos engole em dificuldades sem fim,  do que a pacífica e amorfa vida de quem cede  a sua verdade às que os outros que lhes impõem.
Ana Dias

2.4.12

A fuga do Chouriço (ou Como animar uma tarde chata de domingo)



    Ontem, pouco depois de escrever a crónica sobre a neura de domingo à tarde, liguei a uma amiga para me salvar da letargia.
- Olá princesa, estou cheia de tédio… - Lamentei-me.
- Então já vou aí ter. – Respondeu prontamente.
- Traz o Mixa para brincar cá na quinta. – Acrescentei.
   Meia hora depois a minha amiga Hebe, uma espécie de Heidi dos tempos modernos, mas toda fashion e elegante, apareceu com o seu borrego de estimação, criado em casa e a biberon.
  O Tomás e o João largaram o computador e vieram logo para a rua, brincar com o “primo”.
- Mãe, não achas que o Mixa gostava de ir aos estábulos conhecer os outros animais?- Quis saber o João.
  E lá fomos em excursão, debaixo da chuva miudinha, com o Mixa todo contente, a fazer tropeçar os miúdos.    Passamos pelas éguas, pelos patos e pintaínhos. Vimos os galos, as galinhas, a cabra e também a burra. Terminamos a visita no “quintal” comum dos animais a que apenas as éguas não têm acesso devido ao seu mau feitio. Ora é nesse mesmo “pátio” que moram o Chouriço e a Salsicha, um casal de porcos vietnamitas cuja burrice faz a própria Joaquina II  ( a burra ) parecer uma cientista.
   A certa altura tive a brilhante ideia de pedir ao João para correr atrás dos bichos ( para dar mais emoção à tarde, estão a ver?) , mas o pobre do Chouriço assustou-se de tal maneira que se escapuliu pela porta mal trancada ( ainda não se apuraram bem as responsabilidades de tal façanha, mas a seu tempo as devidas investigações terão lugar).
   Moral da história, seguiu-se uma hora e meia de perseguição desenfreada em que eu, a Hebe/Heidi, o Tomás, o João, o  Mixa e a Fiona (a mais velha e  anafada cadela cá da quinta que se nos juntou para ajudar à festa) corremos monte acima e cerro abaixo numa tentativa vã de persuadir o Chouriço a regressar para os braços/patas da sua amanda Salsicha. Ainda ocorreu o momento em que quase triunfámos mas o burro do porco, após três marradas convictas na parte de trás da porta da entrada do “quintal”, desistiu e fugiu de novo para o mais alto cume da quinta.
   Esmorecidos, demos por encerrado o resgate, na esperança de, com menos confusão, o Chouriço se voltar a aproximar de casa. E  fomos então comer nêsperas e buscar pares de binóculos para conseguir ver o bicho. Vai daí o João desaparece e volta algum tempo depois.   Ao fim da tarde, já eu estava preparada para mandar os meus encardidos filhos para o banho, comentei com a Hebe: - Hummm…. Aquele desaparecimento do João deve trazer água no bico. -     E ela ficou a olhar para mim sem perceber nada, enquanto eu fui à varanda de cima ( de onde a visibilidade para os estábulos é melhor) confirmar as minhas suspeitas: o estupor do moço foi abrir a porta da área comum dos animais para o Chouriço, ao regressar, ter como voltar aos seus nobres aposentos.
- HEBEEEEE!! – Gritei, enquanto descia as escadas.  -  Agora é que fugiu tudo! O João deixou a porta aberta!
  E lá fomos, a correr à força toda, com o Mixa já cansado a acompanhar a aventura. A Cabra, perdida de grávida, andava satisfeita de roda das laranjeiras. A burra apareceu do outro lado, toda acelerada,  enquanto algumas galinhas dissidentes mediam forças com os atarantados gatos.  Entre correrias e esbracejares, lá conseguimos reunir o gado, mas ainda faltava uma galinha que se colocou num sítio tão inacessível que só depois de muito cercada se deixou apanhar.
   - Não, não…. Eu não acredito… - Lamentei-me, ao ver a Joaquina II de novo à solta. – Estes bichos estão possuídos por algum espírito libertador. –
  Depois de prender de novo a burra fomos finalmente para casa e o João ainda reclamou por eu não lhe dar banho de banheira cheia como lhe tinha prometido.
- Óh filho, toma duche e desenrasca-te que tenho que fazer o jantar. Foi por tua causa que andei até esta hora a prender o gado!
- Mãe… O que é gado? – Perguntou o meu cowboy favorito, já pronto para entrar para o banho.
  Não consegui evitar um sorriso!!
 O Chouriço ainda anda a monte, mas espera-se que regresse da sua aventura ainda no dia de hoje.

Ana Dias
  
 

31.3.12

Dos zero aos cem




   O meu filho mais novo é apaixonado pelo Bugatti Veyron.  Há mais de um ano que o oiço dizer que o Veyron é o melhor carro do mundo e que quando for grande me vai oferecer um, mas só há dias, ao ver um prograva de tv, me apercebi que aquilo não é um carro e sim um avião rasteirinho.  Segundo as informações do dito programa, o tal Bugatti vai dos zero aos cem em menos de três segundos e o seu preço é tão aflitivamente elevado que só os principes do petróleo lá chegam .
  Não faço a mais pequena  ideia de quanto tempo levam os meus modestos carros a chegar dos zero aos cem, e também não me importa nada porque raramente ando a mais de cento e vinte(!!). Não me interesso mínimamente por velocidades na estrada… e nem na vida, agora que penso nisso. O que  me importa não é a quantidade de tempo que dispendo  a chegar à minha velocidade de ponta, é a segurança, convicção  e prazer  com que o faço. O que  me importa não é chegar ao detino, é saber para onde vou e conseguir apreciar a viagem. E tudo isto porque sei que há sempre o risco de não chegar lá.  Assim sendo não é a velocidade que é relevante, nem tão pouco o tempo que demoramos a chegar à nossa velocidade mais veloz, que nos pode diminuir os reflexos e a capacidade de contornar obstáculos. O mais importante é termos a consciência da velocidade ideal para prosseguirmos a viagem da vida em direção ao que buscamos, com a certeza de conseguir fazê-lo em condições que nos sejam confortáveis e seguras.  Existem perigos, surpresas e mudanças de planos que podem, a qualquer momento, mudar o curso da nossa viagem, e é por isso mesmo que me parece que mais vale um passo de caracol,  constante e firme, do que a rapidez que nos pode conduzir ao  estampanço  na primeira curva mais apertada.
  
Ana Dias

30.3.12

Greve geral


- Tenho que ir a Sevilha na quinta-feira, queres vir? – Disse-me ela,  ao telefone,  há três dias.
- Conta comigo! E o que dizes a levar a loira? – Perguntei-lhe.
- Boa! Liga-lhe.
  As melhores vivências são as que surgem assim, sem aviso nem grandes planos, embora os contratempos acabem sempre por surgir. O dia de ontem não foi exceção. Só ao chegar a Sevilha é que nos apercebemos da greve, ao ver as lojas fechadas e as manifestações nas ruas. Qualquer mulher que esteja a ler isto compreenderá o desalento de três amigas, preparadas para um dia de compras ( no estrangeiro…), que se deparam com TODAS as lojas fechadas.
- Não faz mal, desde que haja tapas e canhas, ficaremos bem. – Disse eu – Afinal estamos juntas e é isso que importa.
  Elas concordaram, mas o olhar de tristeza não escondia o desapontamento.
- Fizeram-nos uma macumba. – Dizia a Margarida
- Não tenhas dúvidas. – Respondia-lhe a Hebe.
A minha vontade foi juntar-me à manifestação com novas palavras de ordem: - Abran las tiendas! Abran las tiendas! – Não foi preciso. Elas começaram a abrir assim que a manifestação terminou.
 E, entre tapas, canhas e compras, pus-me a pensar em como é bom fazer greve geral ao dia-a-dia e fugir com amigas para um dia só nosso. Falámos e falámos,  como só as mulheres conseguem, e concluímos que as grandes amizades no feminino são diferentes das grandes amizades entre homens, mas isso meus caros, fica para outro dia.
Ana Dias

27.3.12

350 graus


    Há uns dias  vi uma playmate portuguesa a dar uma entrevista. A miúda realmente era bem gira… e cómica!   Entre outras coisas muito interessantes, disse que desde que se tornou playmate a sua vida deu uma volta de 350 graus.
  Além de outras reações que a convicta afirmação causou em mim, fiquei a pensar que para certas pessoas a matemática não deve fazer mesmo falta nenhuma. Para que precisa uma playmate de saber sobre graus, ângulos, raios ou circunferências?  A menos que seja para desenvolver melhores performances, na cama ou no varão, talvez tal conhecimento não lhe sirva mesmo para mais nada. Nem sequer para dar sentido às pomposas constatações.
   Ora vejamos: se a vida da menina deu uma volta ( ou será mais, cambalhota?) de 350 graus, isso quer dizer que ficou praticamente no mesmo sítio, certo?    Alguém pode explicar à menina, por favor,  que quando a vida se nos vira de pernas para o ar ( ela disso deve perceber bastante ) é porque deu uma volta de 180º  e não de TREZENTOS E SESSENTA???
   Fico a pensar que,  se a matéria dos ângulos começasse a ser dada com base nas figuras do Kamasutra, as afirmações de vida com fundamentos matemáticos seriam bem mais acertadas!
Ana Dias
  

26.3.12

O valor de uma ervilha

    Devia ter os meus sete anos quando li uma estória (acho perdoável não me lembrar já do nome) em que uma princesa na miséria pede abrigo a uns lenhadores. Estes, desconfiados da veracidade do seu sangue real, decidem deixá-la pernoitar na sua casa, mas em cima de dez colchões com uma ervilha por baixo.
 Na manhã seguinte, depois de lhe perguntarem como tinha passado a noite, a princesa respondeu que não tinha conseguido “pregar” olho,  pois a cama era muito desconfortável. Os lenhadores comprovaram assim que ela era de facto uma princesa, pois só uma princesa sentiria uma ervilha debaixo de dez colchões.
  Mas que raio?  Eu podia ter só sete anos, mas a estória pareceu-me tão estúpida que fiquei a remoer a coisa por uns tempos. Como podia haver alguém que,  estando deitado em cima de dez colchões,  sentisse a ervilha que estava por baixo deles?  Se a ervilha estivesse cozida também a sentiria?  De que raios servia ser-se princesa se não se conseguia dormir bem por uma coisa tão insignificante?   Que raio de lenhadores eram aqueles, que tinham dez colchões a mais em casa? Será que os tinham ido pedir  à estalagem do lado?
    Eu nunca tive aspirações a ser princesa ( credo!!) mas,  caso a inocência infantil me tivesse dado para aí, creio que me teria passado logo a vontade porque fiquei a achar que quem tem sangue real está munido de uma carga de sensibilidade tão grande que só me traria chatices.
 Não sei porquê, ontem lembrei-me disto. Talvez tenha sido apenas para perceber que a tal ervilha foi, para mim, um diamante: trouxe-me a riqueza de saber que, por mais que leia, veja ou oiça, é pela minha cabeça que penso, interpreto e entendo.
Ana Dias

25.3.12

Por 4 carteiras de cromos…

A estória começou assim:
- Mãe, compra-me cromos. –
- Outra vez?!? –
- Sim, mãe. Vá lá, vá lá, vá lá!
- Isto é um abuso, João!  Cromos todos os dias? -
- Óh mãe, vá lá. Compras-me umas carteirinhas e prometo que sou teu escravo eterno… -
  Foi nesta altura que a conversa passou a despertar-me verdadeiro interesse.
- Quantas?- Quis eu saber.
- Cinco. – Respondeu-me.
- Quatro e fechamos negócio… mas quero um papel assinado!- Não tencionava deixar fugir esta fantástica oportunidade.
- Ok, mãe. – E terminou com o habitual: - És a melhor mãe de sempre! –
   Comprei-lhe os cromos e ele assinou. Vendeu a alma… à mãe. Se morassemos nos Estados Unidos, talvez poucas horas depois desta publicação eu tivesse alguma autoridade à porta, para me tirar a custódia do miúdo, mas como por cá  o bom senso impera,  não é difícil perceber que não vou obrigar o meu filho a trabalhos forçados nem a manter a sua promessa de eterna obediência por muito tempo. Mas também não vou negar o bem que me soube saborear o doce triunfo de o ter “ na minha mão” durante estes dias. Acho que consegui demonstrar  ao João  o valor dos negócios, do compromisso e da honra. Talvez  daqui para a frente comece a medir melhor o valor das suas pomposas promessas. E acho preferível que aprenda estas lições  com a sua compreensiva mãe, do que com quem se possa vir a aproveitar dele.
  Mas não termino sem contar o final da história.
  É claro que este “contrato” foi feito sem cláusula de rescisão e é também óbvio que, alguns dias passados sobre a celebração do mesmo, o João já andava “à rasca”, pois percebeu que cometeu o maior erro da sua ainda curta vida.
   Ainda tentei celebrar contrato igual com o meu filho mais velho mas esse, mais sabido, já não se deixou enganar e, pelo contrário, iniciou uma campanha de apoio ao irmão, baseada na recuperação e destruição do supra citado documento. 
  Optei por lho entregar, ontem à tarde, dizendo com voz solene:  - João, aqui tens o contrato. Faz o que a tua consciência te disser. –
   Olhou para mim meio espantado, indeciso entre a voz da consciência que lhe dizia que promessa é para cumprir, e o sopro diabólico do irmão, que lhe dizia: - Rasga, João, rasga! –
   Como fui tratar de outras coisas, acabaram por ficar os dois a decidir  a melhor forma de resolver a questão.
   E hoje, mesmo antes de começar a escrever, perguntei-lhes pelo “documento”, dizendo que queria rasgá-lo e libertar o João das suas obrigações de meu eterno escravo, explicando-lhe de novo que, de ora em diante, deverá medir e ponderar melhor cada “negócio” que fechar.
    Mas o caso deu uma reviravolta surpreendente e continuo sem saber do malvado papel pardo onde o meu filho mais novo assinou a sua honra… E,  devido ao  ar malandro do meu filho mais velho, estou com a leve suspeita que  guardou o documento e lhe trocou as palavras “minha mãe” por “meu irmão”….
   Ana Dias
  

24.3.12

Bom tempo



   Hoje acordei muito cedo, com o som da chuva a cair. Primeiro pensei que estava a sonhar mas, ao abrir os olhos, verifiquei que gotas de água estavam , de facto, a ser vertidas do céu.
- Chuva? Chuva!! CHUVAAAA!!!!  Finalmente o bom tempo! -
  Com um sorriso consolado, voltei a adormecer: era demasiado cedo para ir para a rua inspirar o fabuloso odor da terra molhada.
  Há um qualquer dispositivo em nós  que nos faz identificar o céu azul  como o derradeiro indicador de bom tempo. Sem dúvida que um sol radioso é mais agradável e menos incomodativo que a chuva. Ou não fosse ele  o mais perfeito antídoto para estados depressivos e outras maleitas da alma. Mas sem água não há vida e é por isso que bendizemos os dias cinzentos de chuva, sobretudo depois de tão prolongada ausência.
 Voltei a acordar algumas horas mais tarde. O céu continuava cinzento,  mas a chuva… nem vê-la. A terra, sequiosa, absorveu tudo num ápice e nem o cheiro de que tanto gosto me chegou a brindar  os sentidos.
 - Isto é como o choro… - Pensei , mesmo correndo o risco de estar a sublinhar o óbvio. – Esta chuva foi como aquele choro  engasgado que não chegamos a chorar. 
   E fiquei a magicar se, da mesma forma que chamamos “mau tempo”  à tão importante chuva, também não temos por hábito fugir ao nosso “mau tempo” interior, feito de tristezas que nos regam por dentro para nos fazer florescer.
  Será que da próxima vez que uma chuva de lágrimas nos vier visitar,  vamos fugir, reprimindo-a?   Ou devemos deixá-la verter toda a água que as nuvens passageiras da vida nos trazem?    Acho que deviamos tentar deixar  que chovesse tudo!  É  que parece-me que só assim é que o nosso sol interior poderá brilhar em todo o seu esplendor….
Ana Dias
 
 

23.3.12

Desistir


 - A palavra “desistir” não entra no meu vocabulário!  – É frequente ouvirmos por aí, dito por pessoas confiantes e repletas de tenacidade.  
Nunca gostei muito da frase, que considero um presunçoso clichê.
Há coisas, realmente, das quais não devemos nunca desistir. O cultivo dos bons sentimentos, na nossa horta interior, é uma delas. A descoberta e valorização dos mundos que se escondem nos outros Homens, é outra. Não podemos desistir de nós mesmos, dos nossos sonhos e da nossa evolução, mas, ainda assim,  a palavra “desistir” devia fazer parte  do vocabulário de toda a gente.
  Há coisas de que vale a pena desistir. Há caminhos que já não são os que devemos seguir; sentimentos de mágoa e rancor que não devemos sentir; projetos que não nos vão trazer nada de bom; situações de perigo físico e emocional perante os quais mais vale dizer,  alto e a bom som: - desisto! –
 Afinal esta  atitude revela fraqueza ou força? Ela implica sabedoria ou falta de caráter? Creio que, como tudo na vida, depende do uso que lhe damos.
  Todas as palavras têm valor. Quanto mais não seja o valor de nomear aquilo que não pretendemos para nós. Quanto à palavra  “desistir” , no meu vocabulário ela entra… E no vosso?
Ana Dias



22.3.12

Luta pela luta…



- Já não se faz a luta pela luta! – Dizia o senhor, com voz queixosa – Agora fazem as greves a querer melhores salários e condições. Já não há a luta pela luta. –
   Como estava a tirar o pão da torradeira não consegui ver quem estava a ser entrevistado no jornal da manhã.
- Luta pela luta? – Pensei. – Mas que raio…? –
Ainda estava a digerir esta quando ouvi a seguinte: - Estamos a fazer greve à crise e à austeridade. –
  Boa! ( penso muito logo de manhã!) Então, por essa ordem de ideias, hoje é dia de viver à grande!
  Não me entendam mal, nada tenho contra as greves. É um direito e,  como tal,  pode ser exercido. Mas o que se consegue em concreto com isso? Tirando casos pontuais, que afetam realmente as vidas das pessoas ( estou a lembrar-me de uma, dos camionistas, feita no início do Verão há três anos, que deixou as bombas sem combustível e as prateleiras dos supermercados praticamente vazias ) muitas greves apenas servem para mostrar o descontentamento de quem as faz e diminuir a produtividade.  Não me parece que sirvam para muito mais.  
   No  estado de doença terminal em que a nossa economia se encontra, o primeiro passo a dar não deveria ser  o de responsabilizar quem geriu mal o país e o colocou nesta miséria?  Se os governantes começassem a responder pelos seus desgovernos com a sua liberdade e o seu património, aposto que a raiz da doença seria arrancada e poder-se-ia, então, começar a tratar das suas sequelas até voltarmos a ter um país saudável.
   A greve é como uma aspirina de pouco ou nenhum efeito. O que fazia falta era uma cirurgia para extirpar o cancro. Uma intervenção que fosse capaz de expropriar todo o enriquecimento indevido e colocar atrás das grades quem pôs isto neste estado, era a única solução sustentável para pôr este belo país nos carris. Só assim quem se sentasse, depois, nos poleiros, tomaria  consciência  do que está lá a fazer. E talvez já não fosse preciso haver greves.
Ana Dias
  
  

21.3.12

Os perigos do amor

     Não há nada mais perigoso que o amor. Não há guerra,  doença, desatre natural    ou  animal selvagem que seja mais devastador para o Homem do que esse sentimento que até hoje ninguém conseguiu descrever com a mais precisa exatidão. Por amor já se morreu (pelo menos por dentro), já caíram impérios e se mudou o curso da história. Em suma: o amor pode ser tão poderoso quanto perigoso.
    O primeiro perigo do amor é surgir de surpresa, como uma praga absurda para a qual não há prevenção possível nem antídoto eficiente para quem dele queira fugir. O segundo perigo do amor é escapar-se,  como areia entre os dedos, de quem o busca com desespero. O terceiro perigo do amor é a consciencialização da sua morte e correspondente enterro.  Há quem perceba que já não ama, mas não tenha direito à sua libertação; há quem ame com todo o ser e seja abandonado, ou traído, ou mais uma infinidade de coisas…
   Não quer dizer que aconteça sempre mas,  muitas vezes,  o perigoso amor  dá cabo da sua maior vítima e produz o típico  coração destroçado.    E também os corações estraçalhados podem ser catalogados em diversas espécies e sub-espécies: os de regeneração rápida, os que levam meses e anos a curar-se e os outros, que nunca se curam.
  Quando nos deparamos com alguém com o coração feito em cacos,  o que há a fazer? Mandamo-los para o hospital dos corações durante dois, dez ou vinte anos? Vamos buscar fita cola? Impomos a nossa presença, arrombando algo que nem dá para arrombar por estar  completamente desfeito?
  E quando o amor se tranforma em simples gostar? Porque não aceitar? Haverá prova de amor maior que aceitar que o amor do outro morreu?  Por mais voltas que dê ao assunto, não chego a nenhuma conclusão. Mas talvez um dia ainda descubra quantos anos se leva a  enterrar um amor que morreu.
Ana Dias