(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

31.3.12

Dos zero aos cem




   O meu filho mais novo é apaixonado pelo Bugatti Veyron.  Há mais de um ano que o oiço dizer que o Veyron é o melhor carro do mundo e que quando for grande me vai oferecer um, mas só há dias, ao ver um prograva de tv, me apercebi que aquilo não é um carro e sim um avião rasteirinho.  Segundo as informações do dito programa, o tal Bugatti vai dos zero aos cem em menos de três segundos e o seu preço é tão aflitivamente elevado que só os principes do petróleo lá chegam .
  Não faço a mais pequena  ideia de quanto tempo levam os meus modestos carros a chegar dos zero aos cem, e também não me importa nada porque raramente ando a mais de cento e vinte(!!). Não me interesso mínimamente por velocidades na estrada… e nem na vida, agora que penso nisso. O que  me importa não é a quantidade de tempo que dispendo  a chegar à minha velocidade de ponta, é a segurança, convicção  e prazer  com que o faço. O que  me importa não é chegar ao detino, é saber para onde vou e conseguir apreciar a viagem. E tudo isto porque sei que há sempre o risco de não chegar lá.  Assim sendo não é a velocidade que é relevante, nem tão pouco o tempo que demoramos a chegar à nossa velocidade mais veloz, que nos pode diminuir os reflexos e a capacidade de contornar obstáculos. O mais importante é termos a consciência da velocidade ideal para prosseguirmos a viagem da vida em direção ao que buscamos, com a certeza de conseguir fazê-lo em condições que nos sejam confortáveis e seguras.  Existem perigos, surpresas e mudanças de planos que podem, a qualquer momento, mudar o curso da nossa viagem, e é por isso mesmo que me parece que mais vale um passo de caracol,  constante e firme, do que a rapidez que nos pode conduzir ao  estampanço  na primeira curva mais apertada.
  
Ana Dias

30.3.12

Greve geral


- Tenho que ir a Sevilha na quinta-feira, queres vir? – Disse-me ela,  ao telefone,  há três dias.
- Conta comigo! E o que dizes a levar a loira? – Perguntei-lhe.
- Boa! Liga-lhe.
  As melhores vivências são as que surgem assim, sem aviso nem grandes planos, embora os contratempos acabem sempre por surgir. O dia de ontem não foi exceção. Só ao chegar a Sevilha é que nos apercebemos da greve, ao ver as lojas fechadas e as manifestações nas ruas. Qualquer mulher que esteja a ler isto compreenderá o desalento de três amigas, preparadas para um dia de compras ( no estrangeiro…), que se deparam com TODAS as lojas fechadas.
- Não faz mal, desde que haja tapas e canhas, ficaremos bem. – Disse eu – Afinal estamos juntas e é isso que importa.
  Elas concordaram, mas o olhar de tristeza não escondia o desapontamento.
- Fizeram-nos uma macumba. – Dizia a Margarida
- Não tenhas dúvidas. – Respondia-lhe a Hebe.
A minha vontade foi juntar-me à manifestação com novas palavras de ordem: - Abran las tiendas! Abran las tiendas! – Não foi preciso. Elas começaram a abrir assim que a manifestação terminou.
 E, entre tapas, canhas e compras, pus-me a pensar em como é bom fazer greve geral ao dia-a-dia e fugir com amigas para um dia só nosso. Falámos e falámos,  como só as mulheres conseguem, e concluímos que as grandes amizades no feminino são diferentes das grandes amizades entre homens, mas isso meus caros, fica para outro dia.
Ana Dias

27.3.12

350 graus


    Há uns dias  vi uma playmate portuguesa a dar uma entrevista. A miúda realmente era bem gira… e cómica!   Entre outras coisas muito interessantes, disse que desde que se tornou playmate a sua vida deu uma volta de 350 graus.
  Além de outras reações que a convicta afirmação causou em mim, fiquei a pensar que para certas pessoas a matemática não deve fazer mesmo falta nenhuma. Para que precisa uma playmate de saber sobre graus, ângulos, raios ou circunferências?  A menos que seja para desenvolver melhores performances, na cama ou no varão, talvez tal conhecimento não lhe sirva mesmo para mais nada. Nem sequer para dar sentido às pomposas constatações.
   Ora vejamos: se a vida da menina deu uma volta ( ou será mais, cambalhota?) de 350 graus, isso quer dizer que ficou praticamente no mesmo sítio, certo?    Alguém pode explicar à menina, por favor,  que quando a vida se nos vira de pernas para o ar ( ela disso deve perceber bastante ) é porque deu uma volta de 180º  e não de TREZENTOS E SESSENTA???
   Fico a pensar que,  se a matéria dos ângulos começasse a ser dada com base nas figuras do Kamasutra, as afirmações de vida com fundamentos matemáticos seriam bem mais acertadas!
Ana Dias
  

26.3.12

O valor de uma ervilha

    Devia ter os meus sete anos quando li uma estória (acho perdoável não me lembrar já do nome) em que uma princesa na miséria pede abrigo a uns lenhadores. Estes, desconfiados da veracidade do seu sangue real, decidem deixá-la pernoitar na sua casa, mas em cima de dez colchões com uma ervilha por baixo.
 Na manhã seguinte, depois de lhe perguntarem como tinha passado a noite, a princesa respondeu que não tinha conseguido “pregar” olho,  pois a cama era muito desconfortável. Os lenhadores comprovaram assim que ela era de facto uma princesa, pois só uma princesa sentiria uma ervilha debaixo de dez colchões.
  Mas que raio?  Eu podia ter só sete anos, mas a estória pareceu-me tão estúpida que fiquei a remoer a coisa por uns tempos. Como podia haver alguém que,  estando deitado em cima de dez colchões,  sentisse a ervilha que estava por baixo deles?  Se a ervilha estivesse cozida também a sentiria?  De que raios servia ser-se princesa se não se conseguia dormir bem por uma coisa tão insignificante?   Que raio de lenhadores eram aqueles, que tinham dez colchões a mais em casa? Será que os tinham ido pedir  à estalagem do lado?
    Eu nunca tive aspirações a ser princesa ( credo!!) mas,  caso a inocência infantil me tivesse dado para aí, creio que me teria passado logo a vontade porque fiquei a achar que quem tem sangue real está munido de uma carga de sensibilidade tão grande que só me traria chatices.
 Não sei porquê, ontem lembrei-me disto. Talvez tenha sido apenas para perceber que a tal ervilha foi, para mim, um diamante: trouxe-me a riqueza de saber que, por mais que leia, veja ou oiça, é pela minha cabeça que penso, interpreto e entendo.
Ana Dias

25.3.12

Por 4 carteiras de cromos…

A estória começou assim:
- Mãe, compra-me cromos. –
- Outra vez?!? –
- Sim, mãe. Vá lá, vá lá, vá lá!
- Isto é um abuso, João!  Cromos todos os dias? -
- Óh mãe, vá lá. Compras-me umas carteirinhas e prometo que sou teu escravo eterno… -
  Foi nesta altura que a conversa passou a despertar-me verdadeiro interesse.
- Quantas?- Quis eu saber.
- Cinco. – Respondeu-me.
- Quatro e fechamos negócio… mas quero um papel assinado!- Não tencionava deixar fugir esta fantástica oportunidade.
- Ok, mãe. – E terminou com o habitual: - És a melhor mãe de sempre! –
   Comprei-lhe os cromos e ele assinou. Vendeu a alma… à mãe. Se morassemos nos Estados Unidos, talvez poucas horas depois desta publicação eu tivesse alguma autoridade à porta, para me tirar a custódia do miúdo, mas como por cá  o bom senso impera,  não é difícil perceber que não vou obrigar o meu filho a trabalhos forçados nem a manter a sua promessa de eterna obediência por muito tempo. Mas também não vou negar o bem que me soube saborear o doce triunfo de o ter “ na minha mão” durante estes dias. Acho que consegui demonstrar  ao João  o valor dos negócios, do compromisso e da honra. Talvez  daqui para a frente comece a medir melhor o valor das suas pomposas promessas. E acho preferível que aprenda estas lições  com a sua compreensiva mãe, do que com quem se possa vir a aproveitar dele.
  Mas não termino sem contar o final da história.
  É claro que este “contrato” foi feito sem cláusula de rescisão e é também óbvio que, alguns dias passados sobre a celebração do mesmo, o João já andava “à rasca”, pois percebeu que cometeu o maior erro da sua ainda curta vida.
   Ainda tentei celebrar contrato igual com o meu filho mais velho mas esse, mais sabido, já não se deixou enganar e, pelo contrário, iniciou uma campanha de apoio ao irmão, baseada na recuperação e destruição do supra citado documento. 
  Optei por lho entregar, ontem à tarde, dizendo com voz solene:  - João, aqui tens o contrato. Faz o que a tua consciência te disser. –
   Olhou para mim meio espantado, indeciso entre a voz da consciência que lhe dizia que promessa é para cumprir, e o sopro diabólico do irmão, que lhe dizia: - Rasga, João, rasga! –
   Como fui tratar de outras coisas, acabaram por ficar os dois a decidir  a melhor forma de resolver a questão.
   E hoje, mesmo antes de começar a escrever, perguntei-lhes pelo “documento”, dizendo que queria rasgá-lo e libertar o João das suas obrigações de meu eterno escravo, explicando-lhe de novo que, de ora em diante, deverá medir e ponderar melhor cada “negócio” que fechar.
    Mas o caso deu uma reviravolta surpreendente e continuo sem saber do malvado papel pardo onde o meu filho mais novo assinou a sua honra… E,  devido ao  ar malandro do meu filho mais velho, estou com a leve suspeita que  guardou o documento e lhe trocou as palavras “minha mãe” por “meu irmão”….
   Ana Dias
  

24.3.12

Bom tempo



   Hoje acordei muito cedo, com o som da chuva a cair. Primeiro pensei que estava a sonhar mas, ao abrir os olhos, verifiquei que gotas de água estavam , de facto, a ser vertidas do céu.
- Chuva? Chuva!! CHUVAAAA!!!!  Finalmente o bom tempo! -
  Com um sorriso consolado, voltei a adormecer: era demasiado cedo para ir para a rua inspirar o fabuloso odor da terra molhada.
  Há um qualquer dispositivo em nós  que nos faz identificar o céu azul  como o derradeiro indicador de bom tempo. Sem dúvida que um sol radioso é mais agradável e menos incomodativo que a chuva. Ou não fosse ele  o mais perfeito antídoto para estados depressivos e outras maleitas da alma. Mas sem água não há vida e é por isso que bendizemos os dias cinzentos de chuva, sobretudo depois de tão prolongada ausência.
 Voltei a acordar algumas horas mais tarde. O céu continuava cinzento,  mas a chuva… nem vê-la. A terra, sequiosa, absorveu tudo num ápice e nem o cheiro de que tanto gosto me chegou a brindar  os sentidos.
 - Isto é como o choro… - Pensei , mesmo correndo o risco de estar a sublinhar o óbvio. – Esta chuva foi como aquele choro  engasgado que não chegamos a chorar. 
   E fiquei a magicar se, da mesma forma que chamamos “mau tempo”  à tão importante chuva, também não temos por hábito fugir ao nosso “mau tempo” interior, feito de tristezas que nos regam por dentro para nos fazer florescer.
  Será que da próxima vez que uma chuva de lágrimas nos vier visitar,  vamos fugir, reprimindo-a?   Ou devemos deixá-la verter toda a água que as nuvens passageiras da vida nos trazem?    Acho que deviamos tentar deixar  que chovesse tudo!  É  que parece-me que só assim é que o nosso sol interior poderá brilhar em todo o seu esplendor….
Ana Dias
 
 

23.3.12

Desistir


 - A palavra “desistir” não entra no meu vocabulário!  – É frequente ouvirmos por aí, dito por pessoas confiantes e repletas de tenacidade.  
Nunca gostei muito da frase, que considero um presunçoso clichê.
Há coisas, realmente, das quais não devemos nunca desistir. O cultivo dos bons sentimentos, na nossa horta interior, é uma delas. A descoberta e valorização dos mundos que se escondem nos outros Homens, é outra. Não podemos desistir de nós mesmos, dos nossos sonhos e da nossa evolução, mas, ainda assim,  a palavra “desistir” devia fazer parte  do vocabulário de toda a gente.
  Há coisas de que vale a pena desistir. Há caminhos que já não são os que devemos seguir; sentimentos de mágoa e rancor que não devemos sentir; projetos que não nos vão trazer nada de bom; situações de perigo físico e emocional perante os quais mais vale dizer,  alto e a bom som: - desisto! –
 Afinal esta  atitude revela fraqueza ou força? Ela implica sabedoria ou falta de caráter? Creio que, como tudo na vida, depende do uso que lhe damos.
  Todas as palavras têm valor. Quanto mais não seja o valor de nomear aquilo que não pretendemos para nós. Quanto à palavra  “desistir” , no meu vocabulário ela entra… E no vosso?
Ana Dias



22.3.12

Luta pela luta…



- Já não se faz a luta pela luta! – Dizia o senhor, com voz queixosa – Agora fazem as greves a querer melhores salários e condições. Já não há a luta pela luta. –
   Como estava a tirar o pão da torradeira não consegui ver quem estava a ser entrevistado no jornal da manhã.
- Luta pela luta? – Pensei. – Mas que raio…? –
Ainda estava a digerir esta quando ouvi a seguinte: - Estamos a fazer greve à crise e à austeridade. –
  Boa! ( penso muito logo de manhã!) Então, por essa ordem de ideias, hoje é dia de viver à grande!
  Não me entendam mal, nada tenho contra as greves. É um direito e,  como tal,  pode ser exercido. Mas o que se consegue em concreto com isso? Tirando casos pontuais, que afetam realmente as vidas das pessoas ( estou a lembrar-me de uma, dos camionistas, feita no início do Verão há três anos, que deixou as bombas sem combustível e as prateleiras dos supermercados praticamente vazias ) muitas greves apenas servem para mostrar o descontentamento de quem as faz e diminuir a produtividade.  Não me parece que sirvam para muito mais.  
   No  estado de doença terminal em que a nossa economia se encontra, o primeiro passo a dar não deveria ser  o de responsabilizar quem geriu mal o país e o colocou nesta miséria?  Se os governantes começassem a responder pelos seus desgovernos com a sua liberdade e o seu património, aposto que a raiz da doença seria arrancada e poder-se-ia, então, começar a tratar das suas sequelas até voltarmos a ter um país saudável.
   A greve é como uma aspirina de pouco ou nenhum efeito. O que fazia falta era uma cirurgia para extirpar o cancro. Uma intervenção que fosse capaz de expropriar todo o enriquecimento indevido e colocar atrás das grades quem pôs isto neste estado, era a única solução sustentável para pôr este belo país nos carris. Só assim quem se sentasse, depois, nos poleiros, tomaria  consciência  do que está lá a fazer. E talvez já não fosse preciso haver greves.
Ana Dias
  
  

21.3.12

Os perigos do amor

     Não há nada mais perigoso que o amor. Não há guerra,  doença, desatre natural    ou  animal selvagem que seja mais devastador para o Homem do que esse sentimento que até hoje ninguém conseguiu descrever com a mais precisa exatidão. Por amor já se morreu (pelo menos por dentro), já caíram impérios e se mudou o curso da história. Em suma: o amor pode ser tão poderoso quanto perigoso.
    O primeiro perigo do amor é surgir de surpresa, como uma praga absurda para a qual não há prevenção possível nem antídoto eficiente para quem dele queira fugir. O segundo perigo do amor é escapar-se,  como areia entre os dedos, de quem o busca com desespero. O terceiro perigo do amor é a consciencialização da sua morte e correspondente enterro.  Há quem perceba que já não ama, mas não tenha direito à sua libertação; há quem ame com todo o ser e seja abandonado, ou traído, ou mais uma infinidade de coisas…
   Não quer dizer que aconteça sempre mas,  muitas vezes,  o perigoso amor  dá cabo da sua maior vítima e produz o típico  coração destroçado.    E também os corações estraçalhados podem ser catalogados em diversas espécies e sub-espécies: os de regeneração rápida, os que levam meses e anos a curar-se e os outros, que nunca se curam.
  Quando nos deparamos com alguém com o coração feito em cacos,  o que há a fazer? Mandamo-los para o hospital dos corações durante dois, dez ou vinte anos? Vamos buscar fita cola? Impomos a nossa presença, arrombando algo que nem dá para arrombar por estar  completamente desfeito?
  E quando o amor se tranforma em simples gostar? Porque não aceitar? Haverá prova de amor maior que aceitar que o amor do outro morreu?  Por mais voltas que dê ao assunto, não chego a nenhuma conclusão. Mas talvez um dia ainda descubra quantos anos se leva a  enterrar um amor que morreu.
Ana Dias

20.3.12

Na mais ordeira anarquia


   Em tertuliana conversa com outros poetas, saiu-me esta frase: ” Há duas condições importantes na vivência poética: o exercício da boémia e o gosto pela anarquia.”  Valeu-me o facto de não ter sido absolutista,  pois estes dois requisitos, embora importantes, não são o que define o poeta.  Aliás,  os poetas e todos os demais artistas têm como única peculiaridade absoluta, o facto de ( para o mal e para o bem) se saberem ouvir a si mesmos.
   Mas ficou-me a anarquia a zunir nos tímpanos da alma enquanto,  ontem à noite, adormecia. Vai daí abri o google no iphone e pesquisei ANARQUIA: “… erradamente associada aos caos e desordem, vem da palavra grega anarckos, ou seja, sem governo. (….) Baseia-se na estrutura auto-gestionária, sem regras, autoridades ou hierarquias (…) só valoriza a liberdade natural de cada indivíduo(…).”
   Sejamos francos: eu, tal como vocês, sabia o que é a anarquia. Mas a leitura destas coisas quando já estava  no enlevo do sono, trouxe-me uma brilhante ideia. Vou declarar a República Independente da Minha Pessoa !!  Mas, mesmo antes de o Morfeu me tomar nos seus enormes braços de um sono tranquilo, tive um rasgo de consciência e percebi que a anarquia é uma utopia pegada. Uma estrutura auto-gestionária, sem regras ou hierarquias,  havia de dar uma coisa jeitosa…
   O clarear do dia trouxe-me de volta as plenas funções do meu raciocínio e o tema inicial que despoletou esta crónica: a poesia.
   Afinal os poetas, com o devido respeito que devem prestar às rimas, métricas e outras formalidades, podem ou não ser anárquicos? Os artistas vivem ou não no caos desregrado da sua liberdade natural?
   Perdoem-me terminar como qualquer bom demagogo, dizendo que tudo deve ser doseado. Sejamos artistas ou nem por isso, a virtude da nossa condução pelas vielas ( mais ou menos boémias) da existência, deve ser a conjugação de doses bem medidas de caos e ordem; deve  resultar do respeito às regras fundamentais e do uso e abuso da nossa liberdade intrínseca. E tudo isto porque me parece que as mais marcantes vidas e obras se têm construído… na mais ordeira anarquia!
 Ana Dias

19.3.12

um abraço



  Estive mais de três minutos com o word aberto, o cursor a piscar e sem que palavra alguma saísse. Quem me lê  não tem como saber que isso raramente acontece. Todas as manhãs os dedos começam a percorrer as teclas, ativados pelo único mecanisco que me propulsiona: o coração.
- “ Ana, deixa-te de merdas e pára de pensar tanto. Faz como sempre fazes e começa.” – pensei.
  E porque me pus a pensar tanto? Perguntam vocês…  Porque me estava a lembrar que há um ano fui passar este dia com o meu pai. Sabia que era o último dia do pai que passaria com ele. Não me lembro do que falámos, ele deitado na cama e eu ao lado, no sofá. Não me lembro se o que ele dizia ainda fazia sentido. Mas lembro-me bem que a companhia foi excelente. Para os dois. Porque, por mais que às vezes discordássemos, o amor e admiração mútuos estavam sempre presentes.
   Nessa altura eu sabia que cada dia tinha que ser aproveitado. Cada oportunidade tinha que ser agarrada. Mas de que me teria servido aproveitar o conhecimento de que aqueles eram os últimos dias que tinha com ele, se não o tivesse “aproveitado” toda a vida?   Não é nas últimas oportunidades que devemos entregar-nos. Não é na consciência de que algo está a chegar ao fim que a redenção acontece e os remorços futuros se evitam.   É na somas dos dias que a paz interior se constrói. É claro que os afetos e demontrações de amor dão “trabalho”. Ser carinhoso e presente para os que amamos pode roubar-nos  tempo  e até energia, mas é nessa dádiva que nos construímos como seres humanos sensíveis e emocionalmente saudáveis.
  Hoje é dia do pai. Dia de afetos sentidos e redenções emergentes. É dia de abraçar, nem que seja só com a alma, todos os pais, genéticos ou não, que a vida, com a sua indizível bondade, teve o cuidado de nos presentear.
Ana Dias

18.3.12

O “Vesgo” e o “Zarolho”



- Anda lá… -
- Não!-
- Vá lá, vais ver que vais gostar. 
- Não quero ir a essa porcaria! – Costumava eu responder,  um domingo em cada mês, ao ser convidada para ir ao mercado de Cacela.
   Hoje, ao trocar o “não” por um “sim”, percebi o quanto estava a ser parva e petulante. Achava que as minhas idas ao Portobello Market, em Londres,  ou ao mercado de San Telmo, em Buenos Aires, me iriam fazer olhar para  o mercado de Cacela com atitude  de desagradada comparação.
   Mas que grande parvalhona!   Eu já devia saber que quanto mais se viaja, mais se deve conseguir ver com novos olhos o que há cá na “terrinha”!
  Já posso ter feito compras nos mais emblemáticos  mercados  de Nova Iorque, Rio de Janeiro, Paris ou Londres. Tenho recordações compradas em feiras de rua no Rio Negro, Colômbia, Formentera, Buenos Aires ou Roma; mas foi no mercado de Cacela que, sem gastar dinheiro nenhum, fiz a maior aquisição de todas: tomei consciência que os pré-julgamentos nunca são acertados. E nem é que seja preciso ver para crer, basta perceber que cada cada local tem as suas características e encantos.
   Para comemorar a epifania, ofereci aos meus filhos dois patinhos amarelos. A um chamei “Vesgo” e ao outro, “Zarolho”, para não me deixarem esquecer a minha falha de visão….
Ana Dias