(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

20.5.12

Dona Genoveva


  Uma das grandes riquezas de viajar é a quantidade de pessoas que temos oportunidade de conhecer. Pessoas que passam fugazmente pelas nossas vidas mas que, ainda assim, deixam  algo que nos enriquece e passa a fazer parte do patrimódio estupendo que são as nossas memórias.
   Conheci a Dona Genoveva em Buenos Aires. Sentei-me ao seu lado no Café de Los Angelitos, onde fui jantar e ver um ( fabuloso ) espetáculo de tango. Ela estava com a nora a passar uns dias na capital argentina e, quando começou a responder às minhas investidas curiosas, fiquei a saber que aquela idosa peruana era uma pessoa especial. Na meia hora que passámos a falar, antes do show começar, descobri a sabedoria doce daquela simpática anciã.
- A vida é uma colcha de retalhos que vai ficando sempre maior… - Disse-me a certa altura. – E só nós é que podemos escolher a qualidade dos tecidos e as cores, mais ou menos alegres,  que queremos usar! –
   Não cheguei a saber se a Dona Genoveva tinha sido costureira. Apenas me ficou a lembrança do amoroso olhar com que me soube brindar… e a noção da responsabilidade pela colcha de retalhos que me cabe continuar a fazer.
Ana Amorim Dias

19.5.12

Conversa de chacha


   Cada minuto que vivemos é valioso. Podemos não ter grande consciência disso porque andamos a toda hora atarefados com coisas que pensamos serem muito importantes e não ligamos ao valor de cada simples minuto. A nossa falsa ideia de eternidade, infelizmente,  também contribui para o facto.
  E porquê isto, agora? Podem estar a questionar-se. Simples: porque quando estou, como ainda há momentos, metida com os meus pensamentos e escritos, e sou interrompida por conversas de chacha vindas de pessoas que querem saber do que não é da sua conta, fico ainda mais consciente dos minutos preciosos que estou a perder!  Fico com vontade de responder – Desculpe lá, mas deixe-me aproveitar estes preciosos minutinhos em paz e meta-se na sua vida! –
   Mas,  agora que penso nisso, os minutos que há pouco perdi com mais uma conversa de chacha, tiveram o valor de me fazer ver algo importante:  que cada minutinho é mesmo precioso!
Ana Amorim Dias

18.5.12

A chama milenar


   Contaram-me que há um mosteiro, lá para os lados dos Himalaias, onde existe um fogo aceso que já arde há mil anos. De geração em geração, parece que foram alimentando a chama,  que se mantém em convicto brillho.
   Imaginei o tal mosteiro  e o pequeno fogo ardente… e lembrei-me do pouco trabalho que dá manter a nossa chama acesa. Se pensarmos um pouco nisso talvez não seja difícil perceber que, à semelhança do que fazem daqueles monges, bastam algumas  simples ações diárias para mantermos bem acesa a nossa paixão pela vida. Sim! … Talvez até baste,  simplesmente,  que apenas nos lembremos dela.
Ana Amorim Dias

17.5.12

Ilha deserta


   Não sei se sou só eu que tenho esta mania ou se os outros também “gastam” disto. É uma pergunta clássica, a que vou respondendo,  desde a infância,  das mais variadas formas. O que levaria comigo para uma ilha deserta? Mas a questão torna-se ainda mais lixada porque ( pelo menos era assim que o meu irmão a colocava ) só  poderia levar  uma coisa.
   De vez em quando lembro-me disto. Bem sei que é mais um estranho devaneio, mas mesmo esses nos ajudam a perceber um pouco melhor a vida e a forma como a encaramos. Ao longo dos anos que me separam da menina “pequenina” que já fui, vários têm sido os objetos eleitos. Desde escova de dentes e pasta, a uma mala de livros ou álbuns de fotografias, passando pela minha fronha ou por um sistema de música alimentado com energia solar; já tudo me passou pela cabeça. Mas nunca ficava satisfeita com a resposta: como pode alguém escolher uma só coisa para levar? Por mais minimalista que eu consiga ser, era-me imprescindível, pelo menos,  uma malita com direito a dez quilos como nos voos low cost! Em todos estes anos nunca consegui chegar a uma conclusão tão brilhante como a que me surgiu há uns dias.   Se tivesse que ir para uma ilha deserta e apenas pudesse levar uma coisa, já sei o que levaria! A civilização!  Ficava o problema integralmente resolvido porque além de ser, como todos os humanos, uma animal social, também não saberia viver sem a escova de dentes, os livros e a música; os meus filhos e as notícias, o protetor solar e a internet,  e mais tudo o resto de que todos os dias preciso.
   Moral desta estória? Para vocês não sei. Para mim, foi ter-me trazido a alegria de conseguir responder a uma das minhas inúmeras perguntas.
Ana Amorim Dias
 

16.5.12

"Homemsexuais"


- Mãe, o que são “homemsexuais”? –
- Hoje as perguntas matinais começaram em grande! -  Pensei – E logo hoje que eu ia iniciar o dia a escrever sobre o que  desejaria levar para uma ilha deserta… -
- “Homemsexuais” não existe, João. Acho que estás a falar de homosexuais, não será? –
- Sim, isso. –
- Homosexuais são homens que namoram com homens, meu amor. – Expliquei com calma, temendo a reação.
- Que nojo! –
- Não deves achar isso, João. Cada um tem direito a escolher se quer namorar com homens ou mulheres, não te parece? Gostavas que te achassem nojento por namorares com meninas? –
- Não. –
    A coisa ficou por ali. Mas só por uns momentos. Ao sair do carro para ir para a escola voltou ao ataque:
- Mãe? -    
Tremi.
- Sim? –
- Como é que os homosexuais põem a sementinha? –
   Devo ter ficado com cara de peixe-balão, mas lá encontrei as palavras (que me pareceram) certas.
- Para os bébés nascerem é sempre preciso uma mulher, por isso eles normalmente adotam. –
Saímos do carro e, enquanto caminhávamos lado a lado até à escola, ele deu a estocada final.
- E se houvesse polícias que prendessem os homosexuais? –
  A sério! Ninguém merece passar por um susto destes antes das nove da manhã! Por uma fração de segundo imaginei o meu filho já homem, dirigente de algum partido extremista, a fazer campanhas homofóbicas! – Tem calma, Ana, tu estás a educá-lo bem. Isto é só um mal entendido! – Disse a mim mesma em surdina.
- Mas tu achas bem que houvesse polícias a prender os homosexuais? –
- Não, mãe. Claro que não! –
- Olha João:  - Parei e fi-lo olhar para mim  -  Se há coisa feia nesta vida, é a discriminação! -
- Mãe, o que é discriminação? –
Lá vamos nós outra vez!!!!  Respirei fundo e disse: - É pensar que somos melhores que os outros e tratá-los mal por isso. –
  Já não me respondeu.  Olhou-me com um sorriso traquinas, deu-me um delicioso beijo e deixou-me ali, atarantada para o dia todo.
Ana Amorim Dias

15.5.12

Boa noite, aranha




    Ela passou à minha frente num caminhar convicto feito a oito patas. A imaginação fez-me logo vê-la como se fosse às compras, carteira a tiracolo com a lista escrita lá dentro. Indiferente aos meus desaires, ela continuou a caminhar, sob este olhar atento e carinhoso. Mas antes tinha-lhe reparado na sombra. Uma sobra enorme, assustadora, muito maior que a própria aranha que, inofensiva, apenas seguia o seu caminho.
   Fiquei com o olhar lá preso: aranha e sombra; realidade e ilusão. Quando, pouco depois, me fui deitar, levei comigo uma consideração importante. Quantas vezes não conseguimos distinguir a realidade,  das sombras? Quantas vezes não tememos a ilusão que não corresponde à realidade? Quantos medos injustificados não termos, que passariam com um mero olhar mais atento e isento? Porque uma coisa é certa: embora a sombra que ontem vi, me tenha despertado instintos assassinos, aquela aranhita simpática apenas arrancou de mim um “Boa noite, aranha…”
Ana Amorim Dias

14.5.12

Elementar



      Quando duas pessoas não se dão bem,  normalmente põem as culpas uma na outra.  É raro ouvirmos alguém dizer : “Ele é  uma pessoa espetacular, mas o meu feitio não se coadunava ao dele. ” ou “ Terminámos  a nossa relação porque eu não tenho capacidade para lhe dar toda  a entrega de que  ela precisa.”
    Ao longo da vida vamos somando relacionamentos de toda a espécie; familiares, laborais, amorosos, de amizade, e por aí fora. Uns são mais fáceis e dão-nos a entender que somos pessoas funcionais e bem integradas,  e outros, mais difíceis, vão servindo para aprendermos as mais variadas lições.
   Às vezes pergunto-me como seria  o Mundo se cada indivíduo aceitasse a sua responsabilidade no tipo de relação que mantém com cada pessoa com quem se relaciona… Já imaginaram?  Mas o que me parece mesmo mais importante é que cada um assuma um facto fundamental  e extremamente óbvio. Há apenas uma pessoa com quem temos forçosamente que nos relacionar desde o princípio até ao fim dos nossos dias: nós mesmos.  O que parece já não ser assim tão óbvio é a relação direta entre a forma como nos damos connosco e o modo como nos relacionamos com os outros. E tenho a certeza que quem se dá mesmo bem consigo mesmo, não precisa de se esforçar muito para fazer funcionar bem todos os outros relacionamentos.
Ana Amorim Dias
    

12.5.12

Conquilhas e bodyboard



  Deixo-me convencer a passar o dia na praia. Com direito a sombrinhas, lancheiras a abarrotar de comida, raquetes e pranchas de bodyboard. Felizmente só lá consegui chegar à uma tarde. Mas mesmo assim estou morta. Muito, muito morta!
   Neste dia intenso e repleto de brincadeira, sal e sol, descobri algo que já andava a suspeitar: tenho um vício incontrolável! Alguém que me informe, por favor,  se conhece algum grupo de apanhadores de conquilhas anónimos! É que nem quero saber se as vou comer ou  não!  O simples facto de andar a dar à perna à beira mar e caçar as bandidas que, esquivas, se esgueiram ondas fora, é algo inexplicável. Quanto mais apanho, mais viciada fico…
   Mas as descobertas do dia não se ficaram por aqui. Andava o Tomás com os amigos, a apanhar umas ondas, quando decidi juntar-me a eles.
- Não liguem muito à minha mãe – Avisou logo aos amigos. – Ela é meia marada. –
O certo é que a minha prancha deslizava mais que as deles. Dei-lhes um “bailinho” tão jeitoso que acabaram por desistir, não sei se envergonhados pela derrota se pelo facto da “cota” se estar a divertir como louca.
   Mas a história tem moral. É que, disse-me o Tomás, as ondas têm que ser apanhadas no momento certo! E claro ( confessem lá que já sabem ), pensei logo que com a vida é a mesma coisa:  se apanhamos a onda na hora certa, chegamos muito mais longe.
   Por agora já vou indo porque, como ainda agora dizia: estou morta. Muito, muito morta!
Ana Dias

10.5.12

Seis e dez



  Ele tardou mas acabou por chegar. Quem não sentia já a falta do calor? 
    Depois de, ontem, ter passado a tarde a escrever na tal esplanada (sim, é a do Sem Espinhas Natura na praia da Retur!) acabei por não resistir a uma entrega há muito esperada. Deixei a Sam, na página cento e noventa, a braços com uma situação complicada; desliguei o computador e entrei no mar. Deviam ser seis e dez quando dei o primeiro mergulho do ano. Quer dizer, em Março já por lá tinha andado a brincar, mas como para mim só conta quando mergulho inteira, foi só ontem que inaugurei a Época Mar de 2012.
   Mas aconteceu uma coisa engraçada: se a bem elaborada crónica matinal sobre as razões do sono profundo não foi muito aplaudida, já a simples frase que acompanhou a fotografia da vista de um dos meus “escritórios” ( que utilizo todo o ano), foi alvo de inúmeros “gostos” e comentários. Fartei-me de rir. Será caso para dizer que uma imagem vale mais que mil palavras? Prefiro acreditar que não. Será que a “inveja”,  que eu disse não querer causar, foi a culpada de tal acaso? Também estou certa que não. O facto deveu-se, sem dúvida, ao calor que ontem se começou a fazer sentir, deixando-nos a todos com uma predisposição enorme para ouvir bossa nova à beira bar enquanto sugamos caipirinhas por duas palhinhas largas.
   Podia prometer tentar conter-me e não publicar mais fotografias deste Algarve que emociona e nos faz constantemente lembrar que a vida pode ser mesmo bela, mas não o vou fazer. Porque no fundo sei que gostam. Sei que os relatos destes meus Diasescritos ( para quem está a ler isto no face, é o nome do meu blog) vos trazem à alma esse bálsamo que é sonhar com a chegada das férias.
   Por agora um “até amanhã”,  porque tenho o romance para acabar antes da vossa chegada.
Ana Amorim Dias

9.5.12

Concorrentes de Morfeu


   Ninguém me tira da ideia que as noites de sono agitado têm uma relação direta com a quantidade de convites e pedidos para aplicações que nos vão fazendo no Face enquanto, incautos, estamos a dormir.  
   Descobri  isso hoje porque o meu sono não foi, como de costume, forrado a chumbo, e em vez dos trinta segundos que normalmente levo para adormecer, devo ter demorado para cima de minuto e meio! Encontrei  a explicação ao ligar o face: convites e pedidos para aplicações em números acima da média. Até fiquei com a sensação que quem nos convida, noite fora,  para cursos intensivos de crochet e jogos de pôr caras nas bolas das árvores de Natal, tem algum acordo com uma entidade que faz concorrência ao Morfeu!
   Se por acaso se riram, desde já aviso que agora a coisa vai ficar séria. Pensem lá porque é que se pode dormir bem! Como é que se atinge em segundos aquele estado de sono,  tipo coma,  que nos faz acordar ressuscitados? Será a consciência tranquila? A ausência de preocupações? Alguma predisposição genética? A idade? Ou uma mera questão de sorte?
   Nesta altura quase consigo ouvir a voz do meu pai a dizer : “ Aproveita, Ana. Aproveita que eu também era assim e agora  se durmo cinco horas seguidas  é uma sorte!”
   A verdade é que não sei porque é que as empresas que produzem  calmantes iriam à falência comigo ( pelo menos até à data )!  Sei que me deito tranquila e com a consciência na paz,   mas preocupações,  quem as não tem? Portanto estas justificações talvez não sejam muito acertadas.   O que sei é que enquanto o sono me embalar neste restabelecimento mágico, o aproveitarei com prazer. Mas quando, como aconteceu ao meu pai, as noites começarem a ser mais brancas, também será muito bom: terei mais tempo para escrever!!
Ana Amorim Dias
  
 

8.5.12

Sinceridade fraterna



    A sala era grande. Pelo menos é assim que me lembro dela porque, na altura, eu era bem mais pequena. Tinha umas portas enormes, envidraçadas, que davam para o lado poente da propriedade. E era por detrás das cortinas dessas portas que eles surgiam, como elenco de um musical da Broadway, muito compenetrados nos seus papeis. Eles cantavam Caetano e Gal; cantavam Sting e Scorpions e cantavam os meus preferidos: imitações de música chinesa e canções populares alentejanas.   O meu pai, com a sua voz bonita, acompanhava os meus irmãos artistas, sentado no sofá/plateia. Mas comigo era diferente: os meus idolatrados irmãos não me deixavam abrir a boca e, caso a honra de aparecer com eles em  palco me fosse concedida, apenas o podia fazer como figurante e assumindo o compromisso de manter a boca fechada.
   Adoro cantar… mas continuo a não gostar muito de me ouvir.  Até os meus filhos já me vão pedindo silêncio quando, no carro, alguma canção mais animada faz nascer em mim uma actuação tão empolgada como se estivesse no palco do Pavilhão Atlântico. 
  Durante muitos anos recordei estes episódios (bastante frequentes, acreditem!)  com uma pitada de mágoa pela atitude da minha irmã que, além da maravilhosa  voz,  fazia (e faz) melodias divinas; e pela atitude do meu irmão, dono de uma voz doce e muito afinadinha. Ficava fula por não ter aptidões para participar naqueles duetos irrepreensíveis que tanto me deliciavam.  E os meus pobres irmãos, não sei se para aplacar a minha titânica ira de criança rejeitada, habituaram-se a fazer-me ver a toda a hora que as minhas artes eram outras.
   Ainda hoje não me atrevo a interromper-lhes as cantorias, mas agora já não me resta nem a tal  pitadinha de mágoa. Apenas o agradecimento pela sinceridade de irmãos mais velhos com que souberam dizer-me que para cantar não sirvo… mas que em quase tudo o resto, sou o maior orgulho deles!
Ana Amorim Dias