(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

21.12.12

Nova era



    Sete da tarde. Mudo da TVI 24 para a Sky News e depois para a CNN. Vejo e oiço o que se passa no mundo. Começou o Inverno, anuncia-se mais austeridade, há nevões fortes na Bulgária e no centro dos Estados Unidos, e por aí fora. Mas o que me espanta realmente é a dimensão global que a história do fim do Mundo alcançou. Será que as coisas teriam a mesma brutal divulgação se tivessem anunciado o início de uma nova era em que em todos os corações só houvesse amor e compreensão? Embora tal ocorrência me pareça, para já, quase tão improvável como o fim do planeta Terra, tenho sérias dúvidas que o tema se tornasse tão popular como o armaguedão.  
    Lembro-me do que sentia, na minha infância, quando ouvia a música "The age of aquarious": que ia mesmo começar uma nova era em que tudo faria sentido. E não consigo impedir-me a interrogação: para quando o rumor global do início da mais perfeita das eras?

Ana Amorim Dias

20.12.12

Domesticar o tempo

    Há duas verdades mais ou menos incontornáveis sobre o tempo: ele acelera quando estamos bem e reduz  a velocidade quando estamos mal. Até aqui nada de novo. 
   No entanto há já muitas pessoas que aprenderam a domesticar o tempo. Domesticar. Dom/Esticar. O dom de esticar o tempo.
    É de tal forma simples que chega a ser patético. Um dia maravilhoso pode mesmo estender-se para além de todas as nossas expectativas. Quando aprendemos o truque, cada excelente minuto pode ser muito mais comprido do que a perceção que temos de  sessenta segundos.  O tempo dura mais se saborearmos a vida! Assim de simples!
     E o mais engraçado de tudo é que, se pensarmos bem no assunto, se quisermos acelerar o tempo,  a receita  é exactamente a mesma: saborear! 
     É por isso que não aceito desculpas de falta de tempo: nada mais são que uma máscara para as faltas de vontade!

Ana Amorim Dias

19.12.12

Perigoso sono


                                           
   Ninguém lhe está imune. E quando aparece enquanto se
conduz é que o caso fica preto. Preto e perigoso.
   Quem nunca se viu na aflição de lutar contra o sono com as mãos no volante, tendo apenas a estrada por companheira?
  No outro dia aconteceu-me de novo e decidi tentar inventar algumas táticas para combater o bandido. Comecei por beber golinhos de água. Nada. Ataquei o resto de gomas que estavam num saquinho esquecido junto ao travão de mão. Nada. E então decidi não recorrer a recursos exteriores e usar-me apenas a mim. Tentei fazer com que a língua tocasse na ponta do nariz. Divertiu-me. Mas como não estava a conseguir voltei a tentar e tentar e tentar. Quando já me estavam a doer os maxilares comecei a contorcer o rosto todo para aliviar a tensão. Divertiu-me. Soltei o riso,  entusiasmada com a minha própria parvoíce. E não resisti a passar directamente às caretas. Mais gargalhadas. Estava a resultar. Mas durou pouco porque o maléfico sono  depressa regressou.
   Um pouco de magia era o que me fazia falta; ou para cem quilómetros se fazerem em cinco minutos ou para me manter bem desperta. E então decidi fazer magia. Inventei dois dedos mágicos colocados na têmpora esquerda que me arrancariam o sono. Afinal as minhas magias funcionam sempre...
    Cheguei a casa sã e salva e ainda fui ver um filme! Divertida com as gargalhadas soltas e com a forma como lidei com o caso, acabei por perceber que quem me manteve acordada foram todos vocês... porque vim todo o caminho a descrever-vos mentalmente as formas parvas como se consegue manter afastado o perigo: com imaginação, fantasia e gargalhadas!

Ana Amorim Dias

18.12.12

Como uma dor nas canelas

Sempre que a encaro de frente entra-me um frio na barriga. Faço a primeira subida em silêncio, a medir forças comigo e com a besta. Ou então a falar demais para calar a impressão de perigo que se instala sem permissão.
   Depois de negociações calorosas com os miúdos para os convencer a levar capacete, lá ganho  a batalha, consolada com a pequena noção de segurança que as suas protegidas cabeças me dão. E, enquanto descem as primeiras pistas disparados à minha frente, penso que mesmo que partam algum membro, o principal está salvaguardado. 
   O Tom desce ao seu ritmo, com a desenvoltura de quem o fez toda a vida, mas o bandido do João quer sempre chegar primeiro e tira-me da razão quando vejo aquela mancha amarelo mostarda disparada como um tiro. E então percebo que me esqueço do meu próprio prazer; esqueço-me de ver as nuvens abaixo de mim a acariciar os outros cumes da paisagem; esqueço-me de sentir a força do ar da montanha a entrar-me nos pulmões e do deslizar suave dos skis contra a neve. 
    Ninguém se estreia por si mesmo nestas andanças: vamos sempre levados por alguém que já se apaixonou pela neve. E enquanto deslizo, com um olho nos filhos e outro no caminho a seguir, procuro pela minha paixão. Afinal sou ou não apaixonada pela neve, pela montanha e pelo ski? Faço descidas e mais descidas em busca de uma resposta. Será isto um sucedâneo do amor, que envolve prazer e dor, medo e emoção? Será isto como uma lição de vida, que nos mostra de que fibra somos feitos?
   O dia de ski chega ao fim e respiro de alívio por estarmos todos inteiros.  Ao deixar para trás a montanha concluo que me ensina sempre algo novo.  E desta vez percebi que o seu desafio é uma alegoria aos desafios da vida: como uma dor de canelas que nos fica de uma alma um pouco mais sábia. Já no que diz respeito à paixão... bem, tenho que lá voltar outra vez, como sempre volto apesar do atrito. 

Ana Amorim Dias

15.12.12

No meu Mundo




- Ana. Ana! Anaaaa!- 
- Hã? ... Diz.-
- Não me ouves a chamar-te?-
- Não.- E ponho o ar mais inocentemente infantil que sei envergar, desarmando por completo o interlocutor.
Não oiço mesmo ninguém. Nada mais importa. Deixo de estar onde está o meu corpo. Os meus filhos, por exemplo, já sabem:
- Shhhh, João, não vês que não vale a pena?- Diz o Tomás ao irmão quando me vê a escrever.
- Pois é.- Responde-lhe o pequenino.
Mas agora quando estou acompanhada, só para pôr a funcionar o respeito, optei por  começar a despedir-me:
- Olhem, vou só ali ao meu Mundo e já volto, está bem?-

Ana Amorim Dias

14.12.12

Se…


   A vida está cheia de “ses”. A vida de toda a gente.  “Se eu tivesse dito aquilo naquele dia” ou  “se eu me tivesse calado naquele momento”. “ Se eu tivesse agido assim” ou “se eu nada tivesse feito”. “ Se eu tivesse concordado”; “ se eu me tivesse conformado”; “se eu soubesse o que hoje sei…”
   Os “ses” acontecem a toda a hora, uns maiores outros mais insignificantes. Aparecem a cada passo, em cada cruzamento do percuso da vida. E a realidade é simples: não sabemos fazer melhor. Tudo se resume a cálculos de probabilidades, assunção de obrigações e respeito de  vontades que nem sempre não as nossas. Não sabemos fazer melhor porque por mais  que tentemos prever onde é que aquela escolha nos vai levar, nunca o conseguimos fazer em absoluto e não chegamos a perceber bem onde é que o outro caminho nos poderia ter levado.
  Não gosto dos “ses” mas, por mais que nos desagrade, a vida é um “se” gigantesco que depende das nossas escolhas e da mais aleatória sorte. Se ao menos eu conseguisse deixar de pensar nisso…
Ana Amorim Dias
  

13.12.12

Achas normal?



- Diz-me lá, achas isto normal? – pergunta-me, sobre o  comportamento de alguém.
 Fico em silêncio uns segundos.  Escolho  a verdade.
- Mãe… eu sou a última pessoa a quem deves perguntar se algo é normal! -
- Pois… -
    Não acho normal a crueldade. Só isso. A natureza e os animais não são cruéis, não com malvadez pelo menos. Porque o consegue ser o Homem?  Sim, tirando o que nasce da crueldade, não vejo os comportamentos como anormais. Tirando quem é movido pela crueldade, não me parece que haja pessoas inaceitáveis. Claro que há individuos com fortes transtornos mentais que fazem coisas horríveis, mas esses vou deixá-los de baixa nesta crónica,  por motivos de doença.
   Não julgar é mesmo bom. Liberta-nos. Torna-nos coerentes. Faz-nos  melhores. Arranca-nos à mesquinhez.
   Podemos não aceitar certas coisas, mas se acaso tivermos a capacidade de pelo menos as tentar entender,  nasce em nós uma capacidade enorme de perdoar. E esta é a única fórmula para nos sabermos perdoar a nós mesmos.
Ana Amorim Dias

 

12.12.12

Voo P206




   “ Dzzzzt.   Bom   dia senhores passageiros, fala-vos o vosso capitão.  É um prazer tê-los de novo a bordo do voo P206.  Agradecemos que mantenham os cintos apertados durante toda a viagem.  A temperatura exterior do ar é de nove graus, o tempo está limpo e as condições atmosféricas, no geral,  excelentes. Estamos a voar a uma altitude de zero pés e  aterraremos dentro de dez minutos, à hora prevista,  no Aeroporto Internacional de Castro Marim.  Obrigada mais uma vez por terem escolhido a Ana Airlines  e  esperamos vê-los em breve a bordo dos nossos aviões. Bom voo! Dzzzzt “
   No manhã em que criei a Ana Airlines os putos riram-se imenso e ficaram numa excitação pegada apesar de já terem voado a sério várias vezes, visitando inclusivamente o cockpit. Como a brincadeira teve sucesso estrondoso, agora pedem-me frequentemente para “fazer aquilo dos aviões”.   E eu faço, com prazer.   Podem ir só para a escola, mas vão com uma emoção diferente.
   Hoje ouviram-me e ficaram calados. Já não riram nem pediram para imitar as hospedeiras com as indicações de segurança. Deixaram-se apenas ficar, tranquilos, no banco de trás, a deixar voar as suas imaginações. E eu, a Ana mãe, transformei-me mesmo na Ana capitã do voo P206 da Ana Airlines  e aterrei  no Aeroporto Internacional de Castro Marim com um sorriso rasgado nos lábios.  Gosto mesmo de ter asas capazes de alargar as asas destes dois meninos que um dia voarão por si.
Ana Amorim Dias

11.12.12

Possuídos



        Nenhuma pessoa possui outra. Excepto talvez os escritores.
     Nenhum escravo foi jamais do seu “dono”.  Nenhum amante foi jamais do seu amor. Ninguém pode ser verdadeira e completamente possuído por outro alguém. A menos que tenha o pesado fardo de fazer parte da vida de quem faz da vida as palavras.  Aí sim, é-se possuído. Integralmente e sem defesa possível.
     Não há antídoto capaz de parar tal domínio. Não há apelo, calado ou surdo, que trave o roubo dessas almas que os escritores podem vestir com as vestes que quiserem, nomear com o nome que escolherem ou com o sexo que desejem. Quem convive com um escritor, nasce e renasce, em tantas personagens quantas ele entenda; com tantas nuances quantas as que ele em si veja; com tantas cores, odores e  sabores quantos os que ele lhe sinta.   Quem convive com escritores carrega um  dos mais pesados fardos que um ser humano pode ter: perde o domínio de si.
     Li algures que quem ambicione a imortalidade deve ser amado por um escritor. É a mais pura verdade. A menos que a humanidade se extinga, essas pessoas ficarão para sempre. Para sempre conservadas nos laboratórios da escrita.
- Tem cuidado com ela. Distrais-te um bocadinho e faz mil estórias contigo.  – Comentam,  às vezes,  de mim.    E eu sorrio.
- Tem cuidado com ela. É como  um vampiro  que te vai sugar  as  entranhas.  – É o que me dá a  ideia de ouvir.     E eu sorrio.     Sorrio do meu poder.    Não sou dona de ninguém, mas sei que todos possuo.

Ana Amorim Dias

10.12.12

Beleza



      O deadline aproxima-se. Ter temas impostos e prazos limite é um desafio muito interessante para quem escreve quase sempre ao sabor dos ventos da vontade.   Mas de hoje não passa.
    Depois de alguns dias a ruminar o tema, decido-me pela única abordagem lógica a algo tão subjetivo.
   Como  a beleza é um conceito muito individual, têm levado a cabo várias tentativas científicas de a plasmar  numa fórmula uniformizada.  Decidiram-se pela  simetria: quanto mais simétrico é um rosto, mais deverá corresponder ao conceito universal ( se é que tal coisa pode existir) de beleza.
    Que me desculpem os cientistas, mas a beleza não é mensurável em programas de computador nem com fórmulas matemáticas e geométricas. A beleza é, e será sempre, uma decisão pessoal do observador. Quer estejamos a apreciar uma paisagem, uma obra de arte, um carro ou uma pessoa, a beleza só pode ser plenamente medida por quem olha e “sente” o que está a ver.
   Mas limitemo-nos apenas à beleza humana.  Afinal porque é que consideramos alguém  belo?  Como é que funciona o nosso sistema de apreciação?  Quais são os atributos que determinam a beleza ou a fealdade de outrém?   Serão as caras perfeitas no topo de corpos de fazer parar o trânsito? Ou haverá algo mais?
   É  neste ponto que mudo o rumo da crónica para um tom bem mais intimista  e falo do que conheço bem. Será que eu me sentiria mais bela com um rosto nota cem no teste da simetria e um corpo capaz de desfilar nas passagens de modelos da Vitorias’s Secret? Não me parece. Há algo em mim que supera os feios detalhes dos quilinhos a mais, da celulite, da falta de simetria e das rugas e cabelos brancos que se vão instalando. Chama-se amor próprio. Chama-se auto-confiança. Chama-se emoção e capacidade de sonhar. Chama-se paixão pela vida.
     É disto que a beleza é feita. Ela é o magnetismo emanado pelo nosso interior e pela forma como envergamos a nossa unicidade e o nosso amor por nós mesmos.  São estes atributos que nos tornam realmente atraentes ao próximo.  E quanto mais profundamente  o entendemos e naturalmente praticamos, mais irresistíveis  e belos nos tornamos.  
Ana Amorim Dias
  

   

7.12.12

Chá de Lello


   Pela primeira vez quase me esqueci de sair do avião. É o tipo de coisa que  acontece quando a melhor amiga está sentada ao nosso lado e o Mundo inteiro se resume àqueles momentos que roubámos só para nós.
   Pela primeira vez nos confundem com um casal.
- Desejam o quarto com cama de casal ou camas individuais? –
- Camas individuais. – Respodemos em coro com um ar divertido, rindo-nos da naturalidade com que as diferenças são agora encaradas.
   Pela primeira vez deixamos tudo para trás e verificamos a compatibilidade viajeira de duas pessoas tão diferentes e, ainda assim,  tão complementarmente compatíveis.
  Gastamos as solas das botas como se não houvesse amanhã. Gastamos as palavras como se não quiséssemos deixar palavra alguma por dizer.  Passeamos sem olhar ao tempo, desrespeitando horários alimentares e prestando a devida homenagem a uma amizade de várias décadas.
   E então paramos num dos únicos locais que eu fazia realmente questão de conhecer. Entramos como quem entra num templo. Respiramos o ambiente mágico do espaço. Subimos a escadaria encantada. Convido-a para um chá e sentamo-nos, em plena livraria Lello, uma das mais belas do mundo. Beberricamos o líquido negro e quente, e olhamos uma para a outra num silêncio cúmplice e reverencial.  E é então que percebo que somos mesmo um casal. Um caso de amor amigo, platónico e sagrado. E é então que percebo que há momentos eternos:  tão serenos e perfeitos que se conseguem contruir apenas com chá e silêncio.

Ana Amorim Dias

5.12.12

A Câmara do lado



      Agora parece que é moda.  Esgotam os mandatos e, não se podendo voltar a candidatar, viram-se para a Câmara do lado.  Procuram apoios, forjam alianças, preparam as campanhas  e, com alguma sorte e jeito,  lá se instalam na vizinhança.
    Sempre encarei as autáquicas como uma escolha que não deve depender muito da cor política de cada eleitor.  Trata-se de um caso à parte em que, mais que a esquerda ou direita, o que deve importar são questões como as capacidades e projetos do candidato  e, sobretudo,  a sua  ligação à autarquia.  Ora é exatamente neste último ponto que toda celeuma se me levanta: qual é a legitimidade funcional  de se governar locais e gentes cuja  realidade se desconhece quase na totalidade? Não é essa a essência que rege a própria existência do poder local? Ou será que pensam que a experiência adquirida ao longo dos muitos anos passados noutras Câmaras os prepara para tudo? 
   Descarto da minha escolha os candidatos que já esgotaram os mandatos na vizinhança e se vêm candidatar ao meu Concelho. Não que não lhes reconheça o valor pessoal e político, entendam-me, mas porque continuo a acreditar ( não sei muito bem como) que quem se candidata vem por bem, capacitado e decidido a  resolver os problemas que são, acima de tudo, os problemas da SUA gente.
Ana Amorim Dias