(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

13.4.12

Melodia do vento


Ontem à noite fez vento. E esse vento forte foi o combustível que a minha memória usou para me levar ao passado…
- Hoje não há horas para ires para a cama. Vais ver este filme comigo! -  
Eu tinha sete anos quando o meu pai me convidou para ver com ele “ The Eddie Duchin story”. E, nos últimos trinta anos, sempre que o vento sopra mais forte, lembro-me da cena em que a  mulher dele, no seu leito de morte, diz que tem medo do vento. Não sei se não gosto de vento por causa do filme, mas sei que adoro a memória daquela noite, em que o meu pai quis partilhar comigo um filme que adorava.
   Ontem, na viagem da memória em que o vento me levou, comecei a tauterear a música que o Tyrone Power toca com o menino de olhos rasgados. Nessa cena, única e de um encanto soberbo, a criança abraça-o no fim da música: abraça-o com a força agradecida de um momento de pura magia musical; com a mesma força com que ontem à noite abracei o meu pai na minha memória,  por ter conseguido gravar para sempre em mim… a melodia do vento.
Ana Dias

12.4.12

Bendita maldição


- Eu vou ter dois: o Gonçalo e a Tatiana.  – Afirmou o Tomás com a sua voz derretida. – E tu, João?-
- Eu vou ter cinco! Quatro rapazes e uma menina! –
- Tantos, filho? Bolas, nem sabes no que te metes.  – Avisei.
- Pensas o quê, mãe? Eu quero uma família de jeito! –
   Sorri e calei-me. Ainda é cedo para lhes dizer algo que só descobri no dia em que nasceram: os filhos são uma benção e uma maldição.  O chamamento ancestral de assegurar descendência e uma infinidade de outras razões,  continuam a fazer com que muitos de nós apenas se sintam “completos” depois de ter filhos.
   As bençãos de se ter filhos são tantas e tão indizíveis que nem me atrevo a ir por aí, embora quanto a mim, duas das maiores bençãos que os meus filhos me dão sejam as brilhantes lições de vida e as constantes gargalhadas que me arrancam pelos mais incríveis motivos.
   Quanto à maldição, por favor não me entendam mal mas, quando o nosso amor está dentro de corpinhos que ganham vida própria ao desagarrar-se das nossas entranhas, o mundo torna-se assustador. Percebi isso no momento em que eles saíram de mim: a minha vida tinha mudado para sempre; nunca nada do que eu fizesse seria alguma vez suficiente para os proteger como eu quero; haveria,  para todo o meu sempre ( assim o esperamos todos), alguém a quem nunca poderia falhar, alguém que manteria a minha preocupação e instinto protetor sempre alerta.
   Sim, os filhos são uma maldição. Mas a mais bendita maldição que um ser humano pode ter.
Ana Dias

11.4.12

Bodeguita de Atlântis

  Quando, há muitos anos,  planeei a minha viagem a Cuba, percebi que não poderia deixar de passar pela Bodeguita del medio, em Havana, onde Hemingway por vezes escrevia. Devido a um furacão qualquer alterei a o meu destino para o Rio de Janeiro e, tantos anos volvidos, continuo sem conhcer Cuba. Mas,  dessa viagem que não cheguei a viver,  ficou-me a mania de não perder outros redutos da boémia criativa dos gandes criadores literários: desde o Tortoni  em Buenos Aires, frequentado por Federico Garcia Lorca, ao café Greco em Roma, onde se diz que Hans Christian Andersen escreveu; passando pelo Café de Flore, em Paris que,  entre os mais badalados clientes, teve Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, tenho tomado café em todos.
   Não acredito que haja escritor, nos últimos 150 anos, que não tenha escrito em cafés. Ou pelo menos, “escrevinhado”.  Eu escrevo em qualquer lado. Em casa, na rua, restaurantes e cafés. Escrevo  onde quer que seja que a vontade me chegue. Já se deu o caso de sair do mar a correr para ir pôr no papel palavras que me estavam a sair em verso no meio das ondas.  E é frequente, durante qualquer viagem, encostar o carro na berma só para não perder mais algum bailado de palavras que me chega ao pensamento mesmo a meio do caminho. Mas há um sítio especial: o da meia de leite fantástica, com música de fundo e vida a acontecer à minha volta. Uma vida que nem vejo nem oiço, a não ser como pano de fundo a tudo o que escrevo pela manhã fora.
   Talvez seja sonhar alto, mas é de sonhos que a alma vive, e creio que não me morre a esperança de, daqui a muitos anos, o bar Atlântis, em Castro Marim, ser colocado nos roteiros turísticos como o local onde Ana Amorim Dias costumava passar as manhãs a escrever…
Ana Dias

10.4.12

Excerto de "Zoia"

“ Rafael,
  Muitos anos se passaram desde os tempos em que escreviamos longas cartas um ao outro. Muito tempo passou desde a última vez em que conseguimos comunicar verdadeiramente e transmitir mutuamente  o que nos vai cá por dentro.
  Vou dizer-te coisas que já repeti até à exaustão e talvez te diga outras que ainda nunca fui capaz…
  Mas deixa-me começar pelo princípio: a nossa história foi um conto de fadas. Disso nunca duvides! Fizeste-me completamente feliz durante muito tempo, desde os anos da nossa adolescência, em que conseguimos crescer entrelaçados e unidos, até nos tornarmos adultos capazes e vencedores… Juntos fomos capazes de coisas incríveis: mudamos a realidade do património e tocámos e alterámos muitas das vidas que connosco se foram cruzando. Chegámos a ser o vórtice em torno do qual todos os que fazem parte das nossas vidas giravam. Juntos conquistámos sonhos em que acreditámos e fizemo-lo com uma tal veemência e sucesso que se poderia pensar em capacidades quase mágicas.
  A felicidade tranquila e absoluta que a partilha de vida contigo me trouxe foi algo que quis tomar como seguro até ao fim dos meus dias. Mas sabes, Rafael? No fundo eu sentia que ninguém podia ser assim tão feliz durante toda a vida. Sentia que um dia o filme da minha existência ia ter história para contar…
  Agora penso nos medos intrínsecos que nos acompanham pela vida e começo a entender os seus significados. O pavor que eu tinha de te perder, lembras-te? A fobia infantil e incontrolável de que te desvanecesses no ar…. Muitas vezes, quando viajávamos, se te afastasses de mim um minuto eu entrava em pânico a pensar como seria se nunca mais te voltasse a ver…
   Pois bem, Rafael: ultrapassei o meu mais enraizado medo no dia em que, depois de te saber perdido, te disse interiormente o meu derradeiro adeus.
  Sei que o teu amor por Luz ( e o dela por ti, também), foi algo completamente verdadeiro, e sentido com a plenitude que só existe naqueles raros casos de pessoas abençoadas com a mais grandiosa das graças: o reconhecimento da alma…. Uma ligação tão forte e poderosa jamais poderia não ter sido vivida. Não estava nas vossas mãos evitá-lo. Era algo que estava escrito e destinado a acontecer. E Isto não foi por mim entendido apenas agora; senti-o de forma cristalina no preciso momento em que o sentiram vocês.  E, apesar de na alma sentir a verdade e dos vossos sentimentos e a inevitabilidade da vossa ligação, foi na minha ignorância do ego que tentei desesperadamente lutar contra a mais poderosa força do Universo… A minha sabedoria era então muito incipiente, confesso.
  Por isso, Rafael, pára de te culpar por teres amado. Acaba com qualquer sentimento menos bom que possas ter por Luz; não a vejas nunca como o interveniente que veio causar a morte do passado perfeito porque, mais que isso, ela é e será sempre, um ser superiormente ligado ao teu. Não a vejas nunca como origem do mal por que tens passado. E mais te digo, com todo o carinho: não lamentes a morte do ser perfeito que fomos enquanto casal:… no Mundo tudo perece, desde a mais bela flor ao mais esplendoroso monumento. A perfeição é efémera, bem como a existência… Mas, se a passagem de algo belo pela via da existência deixar a sua marca na memória de quem fica, então a sua existência não terá sido em vão.
  É por isso que não lamento nem o princípio nem o fim da nossa história de amor! Não renego o passado nem o amor que tivemos; pelo contrário, orgulho-me dele e de toda a obra que deixou erigida.
 É por isso, Rafael, que sei também que, onde quer que o futuro nos leve, serás para sempre uma importante parte do meu património interior. Sei que amarei para sempre o teu espírito e a tua alma… Aceita apenas que já não te vejo como o meu homem, o meu marido, o meu porto seguro… Passaste a ser um irmão para toda a eternidade, alguém com quem crescerei sempre e que quero que faça para sempre parte da minha existência.
  A Bianca está sempre a dizer – “ Que Deus tenha piedade dos homens que nos amarem..” e refere-se a todas as “manas” quando o diz. Mas não concordo, não com o sentido com que o faz. Homem que me ame ou tenha amado e, sobretudo, homem que tenha sido amado por mim, já tem a maior benção que a vida pode trazer. Guarda-a bem no teu interior  e aceita a minha partida. Só quando o fizeres em pleno poderá a tua vida começar de novo e novamente seres absolutamente feliz.
  Reitero, e fá-lo-ei eternamente, o perdão a ti e à Luz, dois seres  maravilhosos  cuja presença na minha vida agradecerei para sempre. Reitero o perdão a cada dia, limpando-me completamente de qualquer mal. Aceita-o, Rafael, a Luz já o fez há muito e é por isso que somos cada vez mais unidas e aprendemos cada vez mais uma com a outra.  Aceita o perdão e perdoa-te a ti. Aceita a vida e sê feliz, abraça-a como só tu sabes e vive em pleno a tua lenda pessoal… Tens tanto de bom para dar ao Mundo, jamais o esqueças.
  Talvez te perguntes qual o motivo de não voltar  a viver feliz nos teus braços se a compreensão foi total e o perdão tão absoluto… A verdade é que nada houve para perdoar, Rafael, a não ser a dor do abandono que sofri. A rocha sólida e constante que sempre foste para mim desvaneceu-se em pó ao longo dos largos meses em que te pedi em vão que me abraçasses com alma e me cobrisses a existência com o manto quente da tua plena presença. Em toda a verdade, não foi o amor por Luz que me roubou de ti, foi a tua incapacidade de me dares todo o amor e atenção a que sempre me habituaste…  Meu pobre tolo… Como pudeste pensar que uma mulher como eu se contentaria em ter  menos do que o absoluto? Foi apenas essa a tua falha.
  Ao mesmo tempo, e como querias estar em paz contigo e comigo, presenteaste-me com a liberdade para me entregar a uma amizade pura e doce. A verdade, Rafael, é que me deixaste livre para chorar a sós. Retiraste o teu ombro e aceitaste o do Benedito para acolher as minhas lágrimas. Tomaste-me por garantida e deixaste que outro homem fizesse aquilo que apenas tu deverias ter feito: curar-me. E claro, como todos os laços que se forjam no calor das mais duras batalhas, o laço de amor que selei com ele jamais poderá perecer.
   Talvez algum dia as irónicas partidas da vida transmutem a força titânica dos sentimentos que me prendem a ele, mas nunca, jamais, deixará de fazer também parte da minha história. Começo a aceitar a realidade e todas as suas impossibilidades, mas na certeza de que não é o exterior que nos mata o sentir.
  Por tudo isto te digo, te repito e te relembro que a vida, meu anjo, é o caminho que percorremos na gloriosa busca do reencontro com nós mesmos e nunca com os demais.
 É por tudo isto que espero que não esqueças a fortaleza que existe no teu interior: a única fonte onde verdadeiramente poderás encontrar o derradeiro sentido da tua vida e a secreta fórmula de bem a viveres.
Com todo o amor e carinho,
Carmen.”

9.4.12

“Pluripolares”


    O meu filho mais novo tem uma capacidade fantástica, herdada de mim, que consiste em chorar e rir ao mesmo tempo. Há alturas em que ambas as ações são tão convictas que fico sem perceber qual é a que prevalece. E isto faz-me lembrar a bipolaridade,  uma doença em que a pessoa passa muito rapidamente de um extremo de humor ao outro, diamentralmente oposto.   Deverei com isto assumir que o meu pestinha e eu somos bipolares? Não me parece. Somos apenas pessoas que conseguem achar graça a alguma coisa, mesmo estando a chorar.
   Por outro lado, também se diz que é bipolar quem tem duas personalidades, como se houvesse duas pessoas dentro de uma. Nesse caso não teremos todos uma boa dose de bipolaridade? Se a  personalidade, numa definição muito leiga e popular, é o "conjunto das características marcantes de uma pessoa”, não poderemos assumir que todos temos em nós características marcantes antagónicas? 
   Senão vejamos: todos somos bons e maus;  santos e pecadores; grandiosos e pequeninos. Todos conseguimos ser egoistas e generosos;  compreensivos e incompreensivos;  tolerantes e intolerantes. Creio que não haja um único ser à face da terra que não tenha já sentido amor e ódio, vontade de perdoar e desejo de vingança; medo e coragem.     É certo que há uma  tendência mais prevalente para algum dos lados mas, ainda assim, ninguém me tira a convicção que o ser humano é, por definição, um ser “pluripolar”.   Apenas nos resta decidir qual dos polos nos “sabe” melhor…  como faz o meu filhote, que acaba por decidir sempre que rir é muito melhor que chorar!
Ana Dias

8.4.12

Renascer


   Jesus foi um nazareno dissidente. Alguém tão fantástico, poderoso e especial que tiveram que acabar com ele. Não conseguiram.  E a prova disso é o facto de a sua vida e ensinamentos continuarem, até hoje, a ser celebrados. No dia da festa da sua ressurreição vi-me na contingência de explicar aos meus filhos o porquê de não os acompanhar à missa que tal facto festeja. Fiz o melhor que pude mas receio que muitos anos se passem até que me entendam. Ou talvez não.
  Não sou nazarena, nem me considero dissidente. E longe de mim a pretensão de  me comparar a um ser tão iluminado e fantástico como Cristo. Mas, tal como cada um de vós, lá vou atravessando por vezes umas cruzes bem pesadas e alguns momentos de dor, em que me consola o facto de, tal como Jesus, conseguir ser forte e  fiel aos princípios que me guiam, não obstante as “crucificações” e “mortes” que vou tendo que enfrentar.  
  Hoje escrevo-vos de uma silenciosa capela, no meio do campo, onde apenas se ouvem as folhas a abanar ao vento, os pássaros a festejar a Primavera e outros sinais da natureza viva, também ela renascida. Escrevo-vos dos locais onde mais consigo sentir a fé. Escrevo-vos da terra e do meu corpo, essas voláteis casas de  Deus, seja lá qual for a sua forma e essência. Porque a fé é algo privado, que não precisa de uma multidão para se mostrar ou fazer ouvir.  Escrevo-vos a ouvir o renascer que em vós brota a cada instante, mesmo que não o consigam ver nem sentir. Porque todos renascemos constantemente: nas células, nos pensamentos e no que sentimos. E é assim mesmo que deve ser. Primeiro morremos no momento que acabou de passar, bom ou mau, marcante ou nem por isso. Depois ressurgimos, melhores ou não, numa sequência tão eterna quanto a nossa precária durabilidade permite. Porque, no fundo,  tudo é eterno. Pelo menos enquanto dura.
  Hoje escrevo-vos de uma silenciosa capela no meio do campo,  com uma fé consistente e renovada,  que celebra o constante renascer de todos nós … como seres cada vez melhores.  
Ana Dias

7.4.12

Dia Mundial do “Obrigada”




    Não sei se o Dia Mundial do Obrigada existe. Apenas sei que nunca dele ouvi falar.
Há dias mundiais de tanta coisa e este parece-me tão importante que, a não existir, deveria ser implantado.
Mas vamos um pouco mais longe: o que agradeceriam se hoje fosse tal dia? E a quem? Diriam “obrigado por estar vivo, apesar de todas as dificuldades”? Diriam “obrigada pelo pouco dinheiro que ainda tenho na carteira”? Diriam “obrigado por ter emprego” ou “ obrigado por, apesar de não ter emprego, ter força de vontade para continuar a lutar”?   E quantos de vós saberiam agradecer tudo o que já vos causou dor, mas vos tornou mais fortes e sábios?
   Quantos de vocês teriam vontade de agradecer o  privilégio de, pelas vossas vidas,  terem passado  todos os que já partiram? E será que agradeceriam o amor que já sentiram , mesmo que ele tenha ficado  algures no passado? Saberiam dizer obrigado pelo momento que está  a acontecer  agora? Pelo facto de conseguirem ver, falar, cheirar, ouvir, andar, pensar, sentir? Lembrar-se-iam de agradecer todas as oportunidades que tiveram de crescer, perdoar, reconciliar e  emocionar?
   Há tanto para agradecer que só me ocorre uma coisa: um dia inteiro jamais chegaria! O melhor é propormos dois dias mundias do “Obrigada!”
Ana Dias
Ps – Ah, esqueci-me: OBRIGADA!!!!
  

6.4.12

Estranha fé


- Esta Páscoa também não vou à missa. – Disse no outro dia à minha mãe que, apesar do ar desconsolado, não me fez qualquer comentário.
 Hoje é Sexta-feira Santa, o único dia o ano em que não se celebra missa. É também o dia em que faz um ano que o meu pai faleceu, ele que me educou na fé católica e tanto gostava que eu lá fosse. 
  Mas eu não vou à missa por ter fé em excesso e não em defeito.  Não é na missa que ela em mim se acende ou exponencia: isso tanto pode acontecer numa igreja, como numa mesquita, num templo hindu, num mosteiro budista ou nas ruas de qualquer cidade. Não vou mas respeito e admiro quem vai e procura um encontro mais intenso com a fé o sentido de tudo. Apenas não consigo entender quem o faz como castigo auto imposto.
  Não vou à missa porque não sinto necessidade de mostrar a ninguém que tenho fé nos Homens, no Mundo e na Vida. Tenho fé que cada vez mais a parte boa, lúcida e sábia de cada Homem, prevaleça sobre o seu lado mau, conflituoso e ignorante.
   Tenho fé na fé dos outros e na sua capacidade de perdão, entrega e generosidade. Tenho fé que as guerras ( em particular as religiosas, incompreensíveis na sua génese) se esbatam em compromissos de entendimento sustentável .  
  Tenho fé em quem mais custa tê-la: em mim mesma,  e na coragem de  persistir na tentativa de contribuir para um Mundo emocionalmente mais evoluido.
   Perdoem-me se alguém ofendo, mas tenho fé em tantas e tão boas coisas que os monólogos aborrecidos e cânticos deprimentes ma poderiam perturbar.
   Talvez por não ir à missa me esteja a expor ao perigo de não ter acesso à vida eterna no Paraíso mas, de igual forma, ao não “exercer” outros credos, não estarei  também a dizer adeus à eternidade com 40 virgens ou condenada a nunca renascer como um ser mais evoluído?
   Hoje é Sexta-feira Santa e, neste único dia do ano em que não se celebra missa, resta-me desejar que todos os dias sejam santos. Para crentes e  não crentes de todos os credos. Para ateus, agnósticos ou simples não pensadores.
   Por isso pai, estejas tu onde estiveres, tenho fé que não fiques triste e compreendas… porque não vou à missa.
Ana Dias

5.4.12

Palavras de sonho


    Li algures um testemunho de um escritor que dizia que escreve para fazer as pessoas pensar. Um outro escritor, meu amigo, dizia,  na apresentação do seu último livro, que escrever é uma tentativa desesperada de conquistar a vida eterna através da obra que fica para além do seu desaparecimento. Para outros,  ainda, acredito que escrever seja um exercício de enaltecimento do ego, ou uma fórmula fantástica de exorcizar demónios e redescobrir o sentido das coisas.
    Penso na última resposta que dei quando fui confrontada com tal questão.
- Escrever é tudo e tudo é escrita. Escrever é ser, respirar e existir. 
   Não podia ter sido mais verdadeira. E lembrei-me  disto porque, no sonho que hoje  me embalou o despertar, senti as palavras formularam-se-me tão vívidas e vibrantes que tive que ligar o computador e, no próprio sonho, começar a escrever.
Ana Amorim Dias

4.4.12

Por um amor maior




   Conheço-a há mais de trinta anos e,  durante todo este tempo,  sempre a vi a viver uma paixão feita tanto de alegrias como de amargos dissabores.
   A minha mais antiga e constante amiga, com a sua personalidade alegre e expansiva, infelizmente não é perfeita. Ela é,  como  o próprio filho afirma, “da lagartagem”!
   Sempre a vi a seguir o seu amado clube, contra tudo e contra todos; a sofrer como uma condenada em jogos mais importantes; e a manter-se fiel a esse tão grande amor. Em alturas mais críticas, e dando provas da mais sólida amizade, cheguei a sofrer ao seu lado e  a gritar de alegria por o Sporting marcar ( perdoem-me mas a amizade vem primeiro!).
  Mas quis o destino ( ou o pai da criança, por certo ) que o Afonso, seu filho,  lhe saísse das entranhas, qual  profanador hospedeiro, com o mais vermelho sangue a latejar-lhe na alma. Assim que as enfermeiras o deitaram no berço pela primeira vez, o seu pai cobriu-lhe o franzino corpo com as vestes benfiquistas, selando um pacto irreversível.  
Com a chegada do entendimento,  ao ser questionado sobre o local de nascimento, respondia com voz fanhosa:
- No xtádio da Uuz. –
- Não, meu anjo! Foi no HOSPITAL da luz! – corrigia-o a mãe.
- Nã foi nada! Foi no xtádio da Uuz!! -
Mas isto é só um exemplo da sua encarnada  paixão.   A minha pobre amiga tem que ouvir o cd do Benfica a toda a hora, com o acérrimo adepto a cantar tudo de cor e  com uma convicção invacilável.
Mas foi apenas há dois dias que a Margarida me confessou o inconfessável ( mas prometam manter o segredo, que não lhe quero manchar a imaculada reputação  sportinguista, ok?)
- Sabes, comecei a levá-lo à escolinha do Benfica. Se visses a alegria dele, todo equipado a rigor e a jogar “ à séria”… Juro-te, Ana,  nunca tinha visto o meu filho tão feliz em toda a vida.  
Eu não respondi nada porque lhe vi um orgulho no olhar que não achei nada normal. Afinal conheço-a há mais de três décadas e somos mais que unha e carne. Olhei um pouco mais para aquele olhar com 20% de tristeza e 80% de alegria. Não precisei que ela me explicasse mais nada.   Ali estava eu, perante uma mãe  cujo filho é da equipa rival, que falava do seu pequeno  “arqui-inimigo” cheia de alegria e orgulho por o ver tão decidido e feliz.   
– “ Assim são os filhos” -  pensei,  - “ os reis de um amor maior!”

Ana Dias

3.4.12

A origem do caos



   Ontem, perante uma plateia muito reduzida, comecei a dissertar sobre o facto de não fazermos escolhas.
- Nós nunca fazemos escolhas – Ouvi-me eu a dizer, com alguma surpresa – nós sabemos sempre o que queremos e não queremos, se é pela esquerda ou pela direita, se nos apetece carne ou peixe, se isto ou aquilo nos faz sentir bem ou mal.
  E elas olhavam para mim com atenção.
- Nós nunca fazemos escolhas, porque o nosso coração sabe sempre tudo com uma certeza absoltuta – Continuei – a única coisa importante, é saber como ouvi-lo!
  Agora,  que me lembro do que ontem à noite disse, percebo que o derradeiro motivo de não sabermos escutar o nosso coração/essência, é sermos animais sociais.  Esquecemos como se ouve o nosso interior por “respeito” aos outros.
Se somos expansivos, invadimos o espaço alheio; se não somos, implodimos.  Se somos totalmente sinceros, ferimos; se não somos, prejudicamos.  Se somos impulsivos, damos ideias erradas; se não somos, contribuímos para uma humanidade mais fria.  Se somos servis com os outros, somos carrascos connosco. Se somos constantes, não evoluímos; se evoluímos, tiramos a segurança aos demais.  Se somos falsos connosco, agradamos aos outros; se somos verdadeiros connosco, lançamos o caos no Mundo. Mas, como diz uma pessoa que muito amo:  " ...não te preocupes se por vezes lanças o  caos, minha filha, pois é dele que  nasce sempre a luz e o ordenamento, não só do cosmo, como de tudo. Por isso continua a espalhar esse tipo de caos!"
  É difícil sobreviver incólume no caos que plantamos ao seguirmos a nossa verdade, mas muito mais vale esse caos que nos engole em dificuldades sem fim,  do que a pacífica e amorfa vida de quem cede  a sua verdade às que os outros que lhes impõem.
Ana Dias

2.4.12

A fuga do Chouriço (ou Como animar uma tarde chata de domingo)



    Ontem, pouco depois de escrever a crónica sobre a neura de domingo à tarde, liguei a uma amiga para me salvar da letargia.
- Olá princesa, estou cheia de tédio… - Lamentei-me.
- Então já vou aí ter. – Respondeu prontamente.
- Traz o Mixa para brincar cá na quinta. – Acrescentei.
   Meia hora depois a minha amiga Hebe, uma espécie de Heidi dos tempos modernos, mas toda fashion e elegante, apareceu com o seu borrego de estimação, criado em casa e a biberon.
  O Tomás e o João largaram o computador e vieram logo para a rua, brincar com o “primo”.
- Mãe, não achas que o Mixa gostava de ir aos estábulos conhecer os outros animais?- Quis saber o João.
  E lá fomos em excursão, debaixo da chuva miudinha, com o Mixa todo contente, a fazer tropeçar os miúdos.    Passamos pelas éguas, pelos patos e pintaínhos. Vimos os galos, as galinhas, a cabra e também a burra. Terminamos a visita no “quintal” comum dos animais a que apenas as éguas não têm acesso devido ao seu mau feitio. Ora é nesse mesmo “pátio” que moram o Chouriço e a Salsicha, um casal de porcos vietnamitas cuja burrice faz a própria Joaquina II  ( a burra ) parecer uma cientista.
   A certa altura tive a brilhante ideia de pedir ao João para correr atrás dos bichos ( para dar mais emoção à tarde, estão a ver?) , mas o pobre do Chouriço assustou-se de tal maneira que se escapuliu pela porta mal trancada ( ainda não se apuraram bem as responsabilidades de tal façanha, mas a seu tempo as devidas investigações terão lugar).
   Moral da história, seguiu-se uma hora e meia de perseguição desenfreada em que eu, a Hebe/Heidi, o Tomás, o João, o  Mixa e a Fiona (a mais velha e  anafada cadela cá da quinta que se nos juntou para ajudar à festa) corremos monte acima e cerro abaixo numa tentativa vã de persuadir o Chouriço a regressar para os braços/patas da sua amanda Salsicha. Ainda ocorreu o momento em que quase triunfámos mas o burro do porco, após três marradas convictas na parte de trás da porta da entrada do “quintal”, desistiu e fugiu de novo para o mais alto cume da quinta.
   Esmorecidos, demos por encerrado o resgate, na esperança de, com menos confusão, o Chouriço se voltar a aproximar de casa. E  fomos então comer nêsperas e buscar pares de binóculos para conseguir ver o bicho. Vai daí o João desaparece e volta algum tempo depois.   Ao fim da tarde, já eu estava preparada para mandar os meus encardidos filhos para o banho, comentei com a Hebe: - Hummm…. Aquele desaparecimento do João deve trazer água no bico. -     E ela ficou a olhar para mim sem perceber nada, enquanto eu fui à varanda de cima ( de onde a visibilidade para os estábulos é melhor) confirmar as minhas suspeitas: o estupor do moço foi abrir a porta da área comum dos animais para o Chouriço, ao regressar, ter como voltar aos seus nobres aposentos.
- HEBEEEEE!! – Gritei, enquanto descia as escadas.  -  Agora é que fugiu tudo! O João deixou a porta aberta!
  E lá fomos, a correr à força toda, com o Mixa já cansado a acompanhar a aventura. A Cabra, perdida de grávida, andava satisfeita de roda das laranjeiras. A burra apareceu do outro lado, toda acelerada,  enquanto algumas galinhas dissidentes mediam forças com os atarantados gatos.  Entre correrias e esbracejares, lá conseguimos reunir o gado, mas ainda faltava uma galinha que se colocou num sítio tão inacessível que só depois de muito cercada se deixou apanhar.
   - Não, não…. Eu não acredito… - Lamentei-me, ao ver a Joaquina II de novo à solta. – Estes bichos estão possuídos por algum espírito libertador. –
  Depois de prender de novo a burra fomos finalmente para casa e o João ainda reclamou por eu não lhe dar banho de banheira cheia como lhe tinha prometido.
- Óh filho, toma duche e desenrasca-te que tenho que fazer o jantar. Foi por tua causa que andei até esta hora a prender o gado!
- Mãe… O que é gado? – Perguntou o meu cowboy favorito, já pronto para entrar para o banho.
  Não consegui evitar um sorriso!!
 O Chouriço ainda anda a monte, mas espera-se que regresse da sua aventura ainda no dia de hoje.

Ana Dias