- Esta Páscoa também não vou à missa. – Disse no outro dia à minha mãe que, apesar do ar desconsolado, não me fez qualquer comentário.
Hoje é Sexta-feira Santa, o único dia o ano em que não se celebra missa. É também o dia em que faz um ano que o meu pai faleceu, ele que me educou na fé católica e tanto gostava que eu lá fosse.
Mas eu não vou à missa por ter fé em excesso e não em defeito. Não é na missa que ela em mim se acende ou exponencia: isso tanto pode acontecer numa igreja, como numa mesquita, num templo hindu, num mosteiro budista ou nas ruas de qualquer cidade. Não vou mas respeito e admiro quem vai e procura um encontro mais intenso com a fé o sentido de tudo. Apenas não consigo entender quem o faz como castigo auto imposto.
Não vou à missa porque não sinto necessidade de mostrar a ninguém que tenho fé nos Homens, no Mundo e na Vida. Tenho fé que cada vez mais a parte boa, lúcida e sábia de cada Homem, prevaleça sobre o seu lado mau, conflituoso e ignorante.
Tenho fé na fé dos outros e na sua capacidade de perdão, entrega e generosidade. Tenho fé que as guerras ( em particular as religiosas, incompreensíveis na sua génese) se esbatam em compromissos de entendimento sustentável .
Tenho fé em quem mais custa tê-la: em mim mesma, e na coragem de persistir na tentativa de contribuir para um Mundo emocionalmente mais evoluido.
Perdoem-me se alguém ofendo, mas tenho fé em tantas e tão boas coisas que os monólogos aborrecidos e cânticos deprimentes ma poderiam perturbar.
Talvez por não ir à missa me esteja a expor ao perigo de não ter acesso à vida eterna no Paraíso mas, de igual forma, ao não “exercer” outros credos, não estarei também a dizer adeus à eternidade com 40 virgens ou condenada a nunca renascer como um ser mais evoluído?
Hoje é Sexta-feira Santa e, neste único dia do ano em que não se celebra missa, resta-me desejar que todos os dias sejam santos. Para crentes e não crentes de todos os credos. Para ateus, agnósticos ou simples não pensadores.
Por isso pai, estejas tu onde estiveres, tenho fé que não fiques triste e compreendas… porque não vou à missa.
Ana Dias
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