(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

16.5.12

"Homemsexuais"


- Mãe, o que são “homemsexuais”? –
- Hoje as perguntas matinais começaram em grande! -  Pensei – E logo hoje que eu ia iniciar o dia a escrever sobre o que  desejaria levar para uma ilha deserta… -
- “Homemsexuais” não existe, João. Acho que estás a falar de homosexuais, não será? –
- Sim, isso. –
- Homosexuais são homens que namoram com homens, meu amor. – Expliquei com calma, temendo a reação.
- Que nojo! –
- Não deves achar isso, João. Cada um tem direito a escolher se quer namorar com homens ou mulheres, não te parece? Gostavas que te achassem nojento por namorares com meninas? –
- Não. –
    A coisa ficou por ali. Mas só por uns momentos. Ao sair do carro para ir para a escola voltou ao ataque:
- Mãe? -    
Tremi.
- Sim? –
- Como é que os homosexuais põem a sementinha? –
   Devo ter ficado com cara de peixe-balão, mas lá encontrei as palavras (que me pareceram) certas.
- Para os bébés nascerem é sempre preciso uma mulher, por isso eles normalmente adotam. –
Saímos do carro e, enquanto caminhávamos lado a lado até à escola, ele deu a estocada final.
- E se houvesse polícias que prendessem os homosexuais? –
  A sério! Ninguém merece passar por um susto destes antes das nove da manhã! Por uma fração de segundo imaginei o meu filho já homem, dirigente de algum partido extremista, a fazer campanhas homofóbicas! – Tem calma, Ana, tu estás a educá-lo bem. Isto é só um mal entendido! – Disse a mim mesma em surdina.
- Mas tu achas bem que houvesse polícias a prender os homosexuais? –
- Não, mãe. Claro que não! –
- Olha João:  - Parei e fi-lo olhar para mim  -  Se há coisa feia nesta vida, é a discriminação! -
- Mãe, o que é discriminação? –
Lá vamos nós outra vez!!!!  Respirei fundo e disse: - É pensar que somos melhores que os outros e tratá-los mal por isso. –
  Já não me respondeu.  Olhou-me com um sorriso traquinas, deu-me um delicioso beijo e deixou-me ali, atarantada para o dia todo.
Ana Amorim Dias

15.5.12

Boa noite, aranha




    Ela passou à minha frente num caminhar convicto feito a oito patas. A imaginação fez-me logo vê-la como se fosse às compras, carteira a tiracolo com a lista escrita lá dentro. Indiferente aos meus desaires, ela continuou a caminhar, sob este olhar atento e carinhoso. Mas antes tinha-lhe reparado na sombra. Uma sobra enorme, assustadora, muito maior que a própria aranha que, inofensiva, apenas seguia o seu caminho.
   Fiquei com o olhar lá preso: aranha e sombra; realidade e ilusão. Quando, pouco depois, me fui deitar, levei comigo uma consideração importante. Quantas vezes não conseguimos distinguir a realidade,  das sombras? Quantas vezes não tememos a ilusão que não corresponde à realidade? Quantos medos injustificados não termos, que passariam com um mero olhar mais atento e isento? Porque uma coisa é certa: embora a sombra que ontem vi, me tenha despertado instintos assassinos, aquela aranhita simpática apenas arrancou de mim um “Boa noite, aranha…”
Ana Amorim Dias

14.5.12

Elementar



      Quando duas pessoas não se dão bem,  normalmente põem as culpas uma na outra.  É raro ouvirmos alguém dizer : “Ele é  uma pessoa espetacular, mas o meu feitio não se coadunava ao dele. ” ou “ Terminámos  a nossa relação porque eu não tenho capacidade para lhe dar toda  a entrega de que  ela precisa.”
    Ao longo da vida vamos somando relacionamentos de toda a espécie; familiares, laborais, amorosos, de amizade, e por aí fora. Uns são mais fáceis e dão-nos a entender que somos pessoas funcionais e bem integradas,  e outros, mais difíceis, vão servindo para aprendermos as mais variadas lições.
   Às vezes pergunto-me como seria  o Mundo se cada indivíduo aceitasse a sua responsabilidade no tipo de relação que mantém com cada pessoa com quem se relaciona… Já imaginaram?  Mas o que me parece mesmo mais importante é que cada um assuma um facto fundamental  e extremamente óbvio. Há apenas uma pessoa com quem temos forçosamente que nos relacionar desde o princípio até ao fim dos nossos dias: nós mesmos.  O que parece já não ser assim tão óbvio é a relação direta entre a forma como nos damos connosco e o modo como nos relacionamos com os outros. E tenho a certeza que quem se dá mesmo bem consigo mesmo, não precisa de se esforçar muito para fazer funcionar bem todos os outros relacionamentos.
Ana Amorim Dias
    

12.5.12

Conquilhas e bodyboard



  Deixo-me convencer a passar o dia na praia. Com direito a sombrinhas, lancheiras a abarrotar de comida, raquetes e pranchas de bodyboard. Felizmente só lá consegui chegar à uma tarde. Mas mesmo assim estou morta. Muito, muito morta!
   Neste dia intenso e repleto de brincadeira, sal e sol, descobri algo que já andava a suspeitar: tenho um vício incontrolável! Alguém que me informe, por favor,  se conhece algum grupo de apanhadores de conquilhas anónimos! É que nem quero saber se as vou comer ou  não!  O simples facto de andar a dar à perna à beira mar e caçar as bandidas que, esquivas, se esgueiram ondas fora, é algo inexplicável. Quanto mais apanho, mais viciada fico…
   Mas as descobertas do dia não se ficaram por aqui. Andava o Tomás com os amigos, a apanhar umas ondas, quando decidi juntar-me a eles.
- Não liguem muito à minha mãe – Avisou logo aos amigos. – Ela é meia marada. –
O certo é que a minha prancha deslizava mais que as deles. Dei-lhes um “bailinho” tão jeitoso que acabaram por desistir, não sei se envergonhados pela derrota se pelo facto da “cota” se estar a divertir como louca.
   Mas a história tem moral. É que, disse-me o Tomás, as ondas têm que ser apanhadas no momento certo! E claro ( confessem lá que já sabem ), pensei logo que com a vida é a mesma coisa:  se apanhamos a onda na hora certa, chegamos muito mais longe.
   Por agora já vou indo porque, como ainda agora dizia: estou morta. Muito, muito morta!
Ana Dias

10.5.12

Seis e dez



  Ele tardou mas acabou por chegar. Quem não sentia já a falta do calor? 
    Depois de, ontem, ter passado a tarde a escrever na tal esplanada (sim, é a do Sem Espinhas Natura na praia da Retur!) acabei por não resistir a uma entrega há muito esperada. Deixei a Sam, na página cento e noventa, a braços com uma situação complicada; desliguei o computador e entrei no mar. Deviam ser seis e dez quando dei o primeiro mergulho do ano. Quer dizer, em Março já por lá tinha andado a brincar, mas como para mim só conta quando mergulho inteira, foi só ontem que inaugurei a Época Mar de 2012.
   Mas aconteceu uma coisa engraçada: se a bem elaborada crónica matinal sobre as razões do sono profundo não foi muito aplaudida, já a simples frase que acompanhou a fotografia da vista de um dos meus “escritórios” ( que utilizo todo o ano), foi alvo de inúmeros “gostos” e comentários. Fartei-me de rir. Será caso para dizer que uma imagem vale mais que mil palavras? Prefiro acreditar que não. Será que a “inveja”,  que eu disse não querer causar, foi a culpada de tal acaso? Também estou certa que não. O facto deveu-se, sem dúvida, ao calor que ontem se começou a fazer sentir, deixando-nos a todos com uma predisposição enorme para ouvir bossa nova à beira bar enquanto sugamos caipirinhas por duas palhinhas largas.
   Podia prometer tentar conter-me e não publicar mais fotografias deste Algarve que emociona e nos faz constantemente lembrar que a vida pode ser mesmo bela, mas não o vou fazer. Porque no fundo sei que gostam. Sei que os relatos destes meus Diasescritos ( para quem está a ler isto no face, é o nome do meu blog) vos trazem à alma esse bálsamo que é sonhar com a chegada das férias.
   Por agora um “até amanhã”,  porque tenho o romance para acabar antes da vossa chegada.
Ana Amorim Dias

9.5.12

Concorrentes de Morfeu


   Ninguém me tira da ideia que as noites de sono agitado têm uma relação direta com a quantidade de convites e pedidos para aplicações que nos vão fazendo no Face enquanto, incautos, estamos a dormir.  
   Descobri  isso hoje porque o meu sono não foi, como de costume, forrado a chumbo, e em vez dos trinta segundos que normalmente levo para adormecer, devo ter demorado para cima de minuto e meio! Encontrei  a explicação ao ligar o face: convites e pedidos para aplicações em números acima da média. Até fiquei com a sensação que quem nos convida, noite fora,  para cursos intensivos de crochet e jogos de pôr caras nas bolas das árvores de Natal, tem algum acordo com uma entidade que faz concorrência ao Morfeu!
   Se por acaso se riram, desde já aviso que agora a coisa vai ficar séria. Pensem lá porque é que se pode dormir bem! Como é que se atinge em segundos aquele estado de sono,  tipo coma,  que nos faz acordar ressuscitados? Será a consciência tranquila? A ausência de preocupações? Alguma predisposição genética? A idade? Ou uma mera questão de sorte?
   Nesta altura quase consigo ouvir a voz do meu pai a dizer : “ Aproveita, Ana. Aproveita que eu também era assim e agora  se durmo cinco horas seguidas  é uma sorte!”
   A verdade é que não sei porque é que as empresas que produzem  calmantes iriam à falência comigo ( pelo menos até à data )!  Sei que me deito tranquila e com a consciência na paz,   mas preocupações,  quem as não tem? Portanto estas justificações talvez não sejam muito acertadas.   O que sei é que enquanto o sono me embalar neste restabelecimento mágico, o aproveitarei com prazer. Mas quando, como aconteceu ao meu pai, as noites começarem a ser mais brancas, também será muito bom: terei mais tempo para escrever!!
Ana Amorim Dias
  
 

8.5.12

Sinceridade fraterna



    A sala era grande. Pelo menos é assim que me lembro dela porque, na altura, eu era bem mais pequena. Tinha umas portas enormes, envidraçadas, que davam para o lado poente da propriedade. E era por detrás das cortinas dessas portas que eles surgiam, como elenco de um musical da Broadway, muito compenetrados nos seus papeis. Eles cantavam Caetano e Gal; cantavam Sting e Scorpions e cantavam os meus preferidos: imitações de música chinesa e canções populares alentejanas.   O meu pai, com a sua voz bonita, acompanhava os meus irmãos artistas, sentado no sofá/plateia. Mas comigo era diferente: os meus idolatrados irmãos não me deixavam abrir a boca e, caso a honra de aparecer com eles em  palco me fosse concedida, apenas o podia fazer como figurante e assumindo o compromisso de manter a boca fechada.
   Adoro cantar… mas continuo a não gostar muito de me ouvir.  Até os meus filhos já me vão pedindo silêncio quando, no carro, alguma canção mais animada faz nascer em mim uma actuação tão empolgada como se estivesse no palco do Pavilhão Atlântico. 
  Durante muitos anos recordei estes episódios (bastante frequentes, acreditem!)  com uma pitada de mágoa pela atitude da minha irmã que, além da maravilhosa  voz,  fazia (e faz) melodias divinas; e pela atitude do meu irmão, dono de uma voz doce e muito afinadinha. Ficava fula por não ter aptidões para participar naqueles duetos irrepreensíveis que tanto me deliciavam.  E os meus pobres irmãos, não sei se para aplacar a minha titânica ira de criança rejeitada, habituaram-se a fazer-me ver a toda a hora que as minhas artes eram outras.
   Ainda hoje não me atrevo a interromper-lhes as cantorias, mas agora já não me resta nem a tal  pitadinha de mágoa. Apenas o agradecimento pela sinceridade de irmãos mais velhos com que souberam dizer-me que para cantar não sirvo… mas que em quase tudo o resto, sou o maior orgulho deles!
Ana Amorim Dias

7.5.12

Proporções de Sol e Lua


   Ontem, enquanto olhava para a Lua e lhe admirava a etérea beleza, tentei perceber se sou uma pessoa mais virada para a Lua ou mais virada para o Sol. Deixei-me estar na varanda, naquele embalo de noite serena, a ouvir os sons tardios do campo. Inspirei o ar puro e admirei as ténues nuvens que iam brincando com aquela bola branca e luminosa que tantos sonhos incendeia.
  E continuei a tentar perceber: “ Afinal, sou mais de Sol ou de Lua?” Lembrei-me da canção do Rui (Veloso) em que ele canta sobre o lado lunar das pessoas. Cantarolei-a  um pouco. Lua ou Sol? Sol ou Lua?
  Cheguei à conclusão de uns cordiais 50/50. Tomos somos Sol e Lua. Todos somos noite e dia; perfeição e imperfeição; tristeza e alegria; romance e real.  Todos nos encantamos com a noite e exultamos o dia. Tudo faz parte do devir ritmado da nossa existência. Tudo faz parte de nós e da raíz do nosso encanto.
   Mas foi esta manhã, quando o Sol me acordou com os beijos dos seus alaranjados raios, que a resposta me chegou, tão quente e envolvente como ele mesmo. Sou cem por cento Sol e sou cem por cento Lua. Sou cem por cento qualquer que seja o contexto ou momento que me envolve e emociona.
Ana Amorim Dias

5.5.12

Carta a uma mãe


    Hoje escrevo só para ti. Por isso ouve-me com a voz de menina decidida que há muito tempo já fui. Olha-me de cima para baixo, como me olhavas quando eu era pequenina e te seguia, casa fora, atrás de uma lindíssima Deusa de flutuantes vestidos. Sente-me como me sentias quando o meu tamanho ainda permitia que me aninhasse no colo do teu doce perfume. Quero que me vejas, oiças e sintas na invacilável  pureza de criança com que eternamente te chamarei de MÃE.
   Hoje escrevo só para ti e  quero que saibas o quanto entendo e me encantam as palavras que no silêncio me dizes. Quero que saibas que sinto cada gota  de orgulho que tens nas minhas conquistas; que sinto cada onda de alegre prazer  com  que a minha boa disposição te enrola;  que sinto cada aragem  de divino  com que as minhas palavras te embalam.
   Hoje escrevo só para ti porque o cordão que nos une é feito do aço eterno de um amor maior que a vida; porque te sinto a estóica tristeza de não saberes aplacar-me os desgostos; porque te conheço o desejo de que todos os meus caminhos sejam feitos só de alegria; porque sei que me entendes as escolhas mesmo quando não as percebes e me devolves toda a paz como tu  e só tu consegues.  
   Hoje escrevo só para ti porque só de ti posso em verdade dizer o quanto és nobre, forte e muito, muito bela. És uma caixa de gloriosas surpresas envolta em pose serena. És presença encantadora na minha encantada visão. És o mar de águas mais calmas em que jamais naveguei.
  E é por isso que nunca duvidei do meu pai quando embevecido dizia que as suas filhas eram lindas, mas que  mais linda que nós era a mãe das filhas dele.
Hoje escrevo só para ti. Ouve-me com voz de menina.
Ana Dias
 
 
 
 
  

4.5.12

Hulka


   O ritmo interminável com que a senhora da mesa ao lado está a mexer o café,  irrita-me profundamente. O facto de ter trocado três vezes de roupa ( quando acerto sempre à primeira) irritou-me profundamente. O batido de meloa que fiz para o pequeno almoço não ficou com o sabor que eu queria… e isso irritou-me profundamente.  Até os índios dos meus filhos perceberam que a irritação é profunda e fizeram a viagem matinal sem dar pio. Isso irritou-me. Profundamente. Como se não bastasse, a mesa onde escrevo todas as manhãs está ocupada! Aiiiiii que profunda irritação!!!
   Leio o que já escrevi. Começo a rir. Percebi o que se passava assim que hoje abri os olhos e dei os primeiros  sinais de Poltergeist. Raramente este fenómeno me atinge  de forma tão acentuada mas, quando acontece, o melhor é fugirem! Fujam todos! Protejam-se! Hoje, para ser Hulk, só me falta ficar verde! 
   Mas conheço bem o antídoto. As palavras saem-me lentas, hesitantes. Não me importo. À medida que me forem saindo, pela manhã fora, o sorriso suave e doce vai voltar à minha alma e salvar-me de todas as irritações.
  Já sabem, certamente, do que falo. Qualquer mulher me entende porque, volta e meia, também está assim. E qualquer homem que ature uma mulher também percebe  pois são vocês, homens, quem mais sofre na pele o incompreendido terror que a TPM vos inflinge. Pobrezinhos… Aqui vos deixo hoje a minha simpatia e solidariedade.  Não desesperem: por mais que esse síndrome ataque com força, também passa depressa. E em caso de perigo, não hesitem: fujam! Porque o seguro morreu de velho.
Ana Dias

“Logo pela fresquinha”

- Chega-te para lá, gorda!
- Tomás! O teu irmão nem é gordo nem é uma menina.  – Repreendo-o.
- Tá. Tá. Tá. Tá. Tá.  – começa o João, para irritar o irmão.
- João, pára! – Diz o Tomás, atingido em cheio na sua fácil irascibilidade matinal.
- Párem! Os dois!
 E eles continuam a implicar no banco de trás.
- É a última vez que vos aviso! –
  Ao menos quando estão completamente ensonados,  fazem o percurso catatónicos e nem os oiço, mas isso é raro. O restolho rasteirinho da implicância inicial dá lugar a alguma atividade física pouco amistosa mas, ainda assim, suave.
- Vou contar para trás e se não pararem, páro eu o carro e não repondo por mim!
Eles não me ouvem. Tenho a certeza que não.
- Três. Dois. Um… – Digo em voz sonora mas, para eles, inaudível.
  Páro o carro na berma e saio. Abro a porta de trás com o ar mais feroz que a minha vontade de rir me permite. Apenas um “Ô ÔU!” do João quebra o silêncio que  de súbito se instalou. Sacudo levemente o pó na perna de cada um. Volto a entrar no carro e peço a mim mesma paciência para os cinco quilómetros que faltam para chegar a Castro Marim.
   Cinco segundos depois de arrancar,  a novela mexicana dos manos no banco de trás volta a ganhar forma. Desisto! Ponho a música mais alto e penso que isto é a forma de mostrarem o quanto gostam um do outro … logo pela fresquinha!
Ana Dias