(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

4.5.12

“Logo pela fresquinha”

- Chega-te para lá, gorda!
- Tomás! O teu irmão nem é gordo nem é uma menina.  – Repreendo-o.
- Tá. Tá. Tá. Tá. Tá.  – começa o João, para irritar o irmão.
- João, pára! – Diz o Tomás, atingido em cheio na sua fácil irascibilidade matinal.
- Párem! Os dois!
 E eles continuam a implicar no banco de trás.
- É a última vez que vos aviso! –
  Ao menos quando estão completamente ensonados,  fazem o percurso catatónicos e nem os oiço, mas isso é raro. O restolho rasteirinho da implicância inicial dá lugar a alguma atividade física pouco amistosa mas, ainda assim, suave.
- Vou contar para trás e se não pararem, páro eu o carro e não repondo por mim!
Eles não me ouvem. Tenho a certeza que não.
- Três. Dois. Um… – Digo em voz sonora mas, para eles, inaudível.
  Páro o carro na berma e saio. Abro a porta de trás com o ar mais feroz que a minha vontade de rir me permite. Apenas um “Ô ÔU!” do João quebra o silêncio que  de súbito se instalou. Sacudo levemente o pó na perna de cada um. Volto a entrar no carro e peço a mim mesma paciência para os cinco quilómetros que faltam para chegar a Castro Marim.
   Cinco segundos depois de arrancar,  a novela mexicana dos manos no banco de trás volta a ganhar forma. Desisto! Ponho a música mais alto e penso que isto é a forma de mostrarem o quanto gostam um do outro … logo pela fresquinha!
Ana Dias


2.5.12

Mazurrão


  Devia ter escrito esta crónica há cerca de duas semanas, enquanto os factos ainda estavam fresquinhos. Agora terei que usar essa ferramenta (por vezes falível) a que chamamos memória e tentar recriar com fidedignidade o que aconteceu.
  Era domingo e fui tomar a minha meia de leite a um café que fica um pouco a norte de Altura, de seu nome “Carrapato” mas que, apesar do nome algo estranho, tem os melhores caracóis cá da zona.
  Instalei-me, meia ensonada, a beberricar o meu néctar matinal e não pude deixar de ouvir a conversa de dois senhores de idade, que implicavam um com o outro.
- Tu devias era chatear-te a sério com isso! – Dizia um.
- Eu não me chateio com nada… - As reticências que deixou no ar pareceram-me encerrar um: “isso dá muito trabalho.”
- Claro! – Tornou o primeiro. – Estás sempre aí feito mazurrão! –
  Espero que ninguém tenha reparado que quase me engasguei com o café com leite que tinha na boca! A minha reação foi idêntica à dos caçadores ao ver a presa. Procurei freneticamente o meu bloco de notas dentro da mala e apontei aquela prenda dos céus antes de ter tempo de me esquecer da palavra.
  Mazurrão! Como eu adoro viver no Algarve profundo! Uma pessoa pensa que já viu e ouviu tudo e eis que, no mais insuspeito momento, nos cai um tesouro ao colo! Tenho andado em investigações ( mais ou menos) profundas e ninguém conhece a palavra. Até procurei no google… e nada! Vale-me o facto de ter continuado atenta à conversa e ter entendido, pelo contexto,  que mazurrão talvez seja mais ou menos parecido a preguiçoso.
  O que é certo é que,  nesse dia, vim mais rica do café!  Trazia uma alegria estranha. Como podia explicar a quem me rodeia que aquela palavra me fez ganhar o dia? Serei uma colecionadora de palavras? Bem, de qualquer forma  aqui a deixo, para o caso de, se algum dia vos chamarem “mazurrão” ou “mazurrona”, poderem responder: - Nem pense nisso! Eu até sou muito trabalhador/a! –
Ana Dias

30.4.12

“Se eu tivesse..."


  Sempre adorei a escola, principalmente nos dias em que havia composição!  Contudo passei a infância a reprimir um tema que, já sabia de antemão, viria a causar-me problemas com a censura. Mas acredito que vamos sempre a tempo de fazer algo que antes não nos permitimos.
   Ao longo do tempo fui conhecendo o Mundo um pouco melhor e pensei que os budistas, a terem razão, podiam estar a apresentar-me a solução do problema: talvez eu sempre tenha desejado começar a minha composição com “ Se eu tivesse uma pilinha…” por na última vida ter sido homem. Quem sabe?
   Nunca cheguei a escrever sobre tal tema porque, com o passar do tempo, a minha veia infantil de maria-rapaz,  foi dando lugar a uma pessoa que compreende em absoluto a infinita riqueza de ser mulher. Abracei essa riqueza com toda a plenitude. Mas a vida, com os seus estranhos desígnios, permite-nos façanhas e aventuras com que nem sequer tínhamos sonhado… E hoje, ao lembrar este tema que o meu juízo infantil me impediu de explorar, constato que tenho sido tudo o que a minha imaginação alcança: já fui  capitão um navio  pirata e matriarca de uma família italiana durante a 1ª Guerra Mundial. Já fui um velho e sábio pescador, uma mulher de negócios com um património incrível e um quarentão bem parecido com problemas existenciais. Já fui chefe de uma tribo nos primórdios da humanidade, já fui prostituta de refinadas capacidades  ou assassina profissional. Já fui um viúvo saudoso; um lutador de boxe e uma espanhola infiel. Nos livros que escrevo posso ser homem, mulher, criança e ancião; posso viver em qualquer século e em qualquer parte do mundo, basta começar a escrever.
   É por tudo isto que não posso deixar de agradecer à vida, que me permitiu ser escritora, e viver assim, sob qualquer personagem, de uma forma muito mais ampla do que com aquela composição nunca escrita em que apenas… teria uma pilinha!
Ana Amorim Dias

29.4.12

Maria Samuela

   Muitas coisas fantásticas podem acontecer quando se escreve um romance. E uma das mais assombrosas  é quando “ouvimos” o que as personagens estão a dizer e ficamos a matutar no que elas, como se tivessem ganho vida própria, nos “ensinam”.
  Conheci a Maria Samuela em Março. Quer dizer, já andava a pensar nela desde o fim do Verão passado, mas só a fiquei a conhecer bem nestes últimos meses. Preferiu que a tratasse apenas por Sam, porque detesta o seu nome completo e porque “Sam” serve também como diminutivo daquilo que se considera: uma samurai dos tempos modernos.
   Mas voltando ao que vos estava a contar: há umas tardes dei com a ela a falar com o Artur, um outro personagem de “Quatro”, cujo verdadeiro mistério ainda não me revelou,  apesar de eu já me encontrar a escrever a página 148… 
  Ora bolas! Lá estou eu de novo a perder o fio à meada. Mas enfim, o que quero partilhar é que fiquei a pensar no que, há dias,  a Sam disse ao Artur:
 - Ninguém pode mudar o que os outros pensam, sentem ou fazem, mas podemos mostrar-lhes novas formas de pensar, sentir e fazer. Entendes? –
  Ele respondeu-lhe que sim, que entendia perfeitamente, mas eu bem pude ver o seu ar apatetado de quem, como eu, ia ficar a pensar naquilo.
   Acho que, no fundo, tanto eu como o Artur concordamos com o que ela disse nesse momento tão espontâneo.   Não podemos mudar o que os outros pensam, sentem ou fazem, mas podemos mostrar-lhes novas formas de o fazer… mesmo quando quem o faz é o  mero personagem de um qualquer romance.
Ana Amorim Dias
 


28.4.12

Paixão pela vida ( ou "como três parágrafos podem salvar o dia")


  Nos raros dias em que não  me sinto apaixonada pela vida fico lixada. Nem é que me dê uma neura, é bem pior! Entro num campo neutro de ausência de emoções que me deixa com a sensação de estar a desperdiçar algo precioso:  um dia de vida. Percebi isto, com toda a clareza, há uns dias, quando pensava numa questão muito filosófica da minha existência em particular: será que escrevo para  incendiar a paixão que quero sentir pela vida,  ou é pelo facto de a sentir (quase) sempre de forma tão intensa que escrevo?
  Uma coisa é certa, quando encontramos a forma ideal de sublimar as boas sensações que  podemos ter,  ganhamos a riqueza inestimável de saber como ativar a magia da feliciade.
   Hoje fico por aqui. Amanheci pouco apaixonada, mas estes três parágrafos parece que me responderam à pergunta que há dias me coloquei!!
Ana Dias

27.4.12

Coação emocional



Há várias modalidades:
- Como podes ir ver o futebol com os teus amigos para o café? Não foi com eles que casaste, pois não?
Ou:
- Nunca pensei que me fizesses isto… depois de tudo o que eu fiz por ti!
Ou:
- Isso! Vai ter com as tuas amigas. Elas hão-de abandonar-te e um dia vais ficar sem ninguém!
Ou:
- Não te quero a falar com nenhum homem ( ou mulher, conforme o caso) senão acaba tudo entre nós.
Ou:
- Estou a sofrer muito e a culpa é tua.
   Tudo isto são exemplos (mais ou menos dramáticos) de um tipo de violência que já nos foi inflingido a todos ( e todos já inflingimos?...) sem sequer nos darmos conta. A coação emocional faz com que as pessoas sucumbam a emoções que não deviam sentir e que lhes são impostas sob a forma de culpa, remorsos ou falsos sentimentos bons. A meu ver não se pode recriminar um amigo por não ligar há um mês: se temos saudades da pessoa,  porque não ligamos nós?  Não acredito que se possa culpabilizar um homem que gosta de estar com os amigos na tasca só porque entretanto casou. E não se pode culpar uma mãe que não está todo o tempo com os filhos porque tem que ganhar a vida ou seguir uma carreira ou ter uma vida afetiva.
   A verdade é só uma: passamos metade da vida a cobrar afetos e atenções e a outra metade a vê-los ser-nos cobrados. Pois bem, meus caros: o tempo, a atenção e os afetos que damos aos outros é algo nosso para dar e não para nos ser exigido.  Quando cobrado deixa de fazer sentido. E o inverso também é verdadeiro: nunca caiam no erro de mendigar tempo, atenção ou afetos, pois assim não são uma dádiva e sim o produto de um crime cometido contra as emoções alheias.
   É verdade que é preciso ter a  consciência muito alerta para nos apercebermos de quando estamos a ser vítimas de coação emocional mas, se nos treinarmos para a detetar, passaremos a ser um pouco mais livres para sentir as emoções e sentimentos que na realidade sentimos!
Ana Dias

26.4.12

Amores da nova era


   Comecei por lhe mandar um mail. Enorme. Sentido. Escrito com um propósito muito bem definido. Duvidei que ela me respondesse porque não a conhecia e estava a meter-me na vida dela, mesmo assim. Ela respondeu-me. Com um mail longo e sentido. Não  me levou a mal porque percebeu que, se me quis meter onde não era chamada, o tinha feito com as melhores intenções.
   Isto aconteceu há três meses. Três meses em que nos fomos conhecendo através dos mails quase diários que nos habituámos a trocar como uma mágica terapia para a alma.
   Hoje ela faz anos, esta minha amiga que tanto adoro. Ela ligou-me há dois dias:
- Parva! Fizeste-me chorar! – Começou, mal me ouviu do outro lado da linha.
- Um choro bom, espero!-
- Pois! Primeiro vieram entregar-me uma encomenda para mim. Abri e vi o teu livro. A frase da capa fez-me logo chorar… Depois li a tua dedicatória e chorei outra vez!
   Mandei-lhe o “ Histórias do (A)Mar” pelo correio para o local de trabalho. Queria surpreendê-la com uma prenda de anos. E, depois do telefonema dela, fiquei a pensar como se gosta assim de alguém com quem só se partilhou uma hora cara a cara. Porque me arrepio ao sentir o amor que lhe tenho? Estaremos a juntar-nos aos seres humanos desta nova era que já sabem que se pode amar tanta gente quanta a que no nosso coração caiba?
A ti, minha amiga adorada, um enorme beijo de feliz aniversário!
Ana Dias

25.4.12

Três mantos



   Na saga do Harry Potter, o pequeno herói usa, por diversas vezes, o manto da invisibilidade para poder estar em locais onde não era suposto estar e ver coisas que não era suposto ver. Por mais que me custe, confesso que, como a maior parte das pessoas, costumo dar uso a um manto: o manto da insensibilidade. Não pretendo arranjar desculpas, mas talvez seja devido ao constante bombardeamento de coisas más a que estamos sujeitos, que esse manto é tão usado. Optamos por ser menos humanos   e  mais insensíveis e dados ao uso desta carapaça que nos “protege” de sentimentos como a solidariedade, a piedade ou a caridade. Usamos esse manto que nos impede de consolar quem chora e nos mantém a uma distância segura dos outros por forma a não nos identificarmos com as suas dores.
  Mas vou mais longe porque, sendo hoje o dia da liberdade no nosso país, há um terceiro manto que também usamos mal. Pensamos que somos livres, mas não estaremos apenas a usar um manto fingido de falsa liberdade?  A liberdade não passa só por eleições democráticas;  por dizer e escrever o que se pensa;  ou  por estarmos seguros que nenhuma polícia política  nos vai bater à porta para nos prender ou torturar. Esse é um tipo de liberdade básica que a sanidade Humana jamais devia deixar cair por terra. Este manto de falsa liberdade de que vos falo é aquele que envergamos quando dizemos ser livres sem o sermos de facto. Considero que liberdade é a  faculdade de auto determinação de acordo com os nossos valores e essência,  desde que conjugada com o respeito ao próximo. Considero que ser livre é acreditar em nós mesmos e nas nossas escolhas, agindo de forma a poder trilhar o caminho que escolhemos para nós.  Agora digam lá, quase quarenta anos depois do 25 de Abril, quem é que se considera realmente livre e quem é que sabe que apenas está ainda a usar o manto da liberdade?
Ana Dias

24.4.12

Pintar olhos


  Uma das incontáveis vantagens de se ser mulher é podermos enfeitar-nos. Mesmo os mais metrosexuais homens não se conseguem aproximar da infinidade de adereços, enfeites, pinturas e cores a que o sexo feminino pode recorrer. Das pulseiras, aneis e brincos aos vários formatos e padrões das roupas, sapatos, sandálias e botas, passando pelas pinturas na cara, unhas e cabelo: nós mulheres somos os manequins perfeitos para todas as experiências que a imaginação alcança.
   Muitas de nós mantêm-se fieis a um estilo, outras, mais arrojadas, mudam como camaleões ao longo da vida ou dos humores com que acordam. Há as que nunca se arranjam e as que andam sempre impecáveis. Mas temos o poder de mudar a qualquer hora.
   Já não me lembro desde que idade me pinto. Em três minutos apenas: um risco nos olhos, dois tons de sombra suave e um pouco de rímel, colocados por esta ordem. Base não, para deixar respirar a pele que os bons genes me ofereceram. O batom, muito discreto, há dias em que é usado e outros em que nem sai da bolsa.
  Mas ontem à noitinha, vagueando pelo facebook (!), vejo fotografias com pinturas de olhos feitas na sequência correta: sombras, eyeliner e rímel.  – Ando há tantos anos a fazer mal as coisas?? – Pergunto-me enquanto olho maravilhada para aqueles olhos de arte.  – Amanhã vou experimentar! –
  Se bem o pensei, melhor o fiz. Resultado? O mesmo! Excepto no tempo gasto, que triplicou para nove minutos. Conclusão? Qualquer que seja a idade, devemos estar dispostos a experimentar novos métodos, quanto mais não seja para perceber que o que usamos é melhor.
Ana Dias
    

23.4.12

Sete anos


As super mães fazem super festas. Por isso,  ontem,  cozinhei três horas e hoje acordei cedo e, às quatro da tarde,  estava tudo a postos para a festa do João. Mas deixem-me contar-vos como tudo aconteceu.
  Dez da manhã – O João acorda e pergunta, ainda ensonado,  -“ Mãe, é hoje o meu dia de anos, não é?” – Derreto-me e cubro-o de beijos.  Dou-lhe o telemóvel que me pediu, brincamos um pouco e parto, convicta,  para o desafio de criar a festa perfeita.
Onze e meia – O João entra na cozinha e diz que vai aos estábulos porque os animais estão agitados e tem que ir ver se algo se passa e resolver o problema. Percebo que não vou ter que me preocupar com ele: quem se atravessar no seu caminho é que talvez tenha que ter cuidado.
  Meio dia – Coberta de farinha da cabeça aos pés ( literalmente, acreditem )  e com a cozinha completamente dominada ( estou a falar da cozinha da Quinta do Monte, preparada para servir bodas para quatrocentas pessoas e onde normalmente trabalham cozinheiros e não escritores!) decido fazer uma pausa. Subo as escadas e vejo a caixa do telemóvel com  um bicho morto lá dentro. Anoto mentalmente: avisar o João que a caixa faz falta para trocar o telefone nos próximos quinze dias, caso tenha algum defeito.
Uma da tarde – A malvada da Margarida, a madrinha,  que está cá desde ontem (SUPOSTAMENTE PARA AJUDAR!)  chega finalmente da passeata e põe a criançada a almoçar.
Três da tarde – A comida está pronta,  mas o sítio onde a festa vai decorrer ainda precisa de ser decorado. Enquanto encho balões e corro para ter tudo pronto a horas,  não páro de me perguntar porque  é que os miúdos precisam de ter festas de anos!! Prometo a mim mesma tornar tudo mais simples para a festa do Tomás  que é já em Junho.
Quatro e dez – Pergunto-me porque é que ainda não chegou ninguém e também me interrogo como é que consegui fazer tanta comida sem ajuda de ninguém ( Ok, a Margarida ajudou um bocadinho, e  a avó Glória também fez bolos…)! Entretanto lembro-me que sou a super mãe  e que tanto eu como o puto estamos todos mal amanhados.
Quatro e vinte – Ainda bem que a malta não cumpre horários. Volto para a festa com o João, já todos bonitos, mesmo a tempo de começar a receber os convidados.
Cinco da tarde – Começo-lhe a dar no Lambrusco. Afinal mereço bastante porque sou a super melhor mãe do mundo!!
Seis e meia – O convite era para as quatro mas só agora é que está toda a gente.
Sete horas – Parece que a minha comida está muito boa. Pelo menos assim o dizem. Os putos andam feitos loucos pela quinta fora. Os animais estãos assustados porque pensam que o fim do mundo já chegou. Pela correia dos gansos na relva,  o armaguedão chegou com o sétimo aniversário do meu filho mais novo!
Oito horas – Não sei em que mesa me sente,  para dar atenção a todos. À cautela mantenho um copo em cada uma.
Nove horas  - O meu filho afirma, com convicção invacilável, que esta é a melhor festa de sempre. Os amigos atestam a veracidade da afirmação. Estou extasiada!
Nove e meia – A minha sobrinha Mariana dá show de voz e viola, deixando alguns convidados com comentários tipo juri dos Ídolos. Leva o papel amarelo.
Dez horas – Agarro-me eu à viola e começo a tocar as “ Dunas”. Raios partam o  lambrusco!!!
Dez e meia – Há  malditos desertores que começam a abandonar a festa. Ameaço que vou barricar as saídas da Quinta enquanto  a comida não for toda consumida! Que lata! Andei a fazer tudo em doses industriais para quê?
- Onze horas – As crianças refugiam-se em casa sozinhas e apenas algumas mulheres permanecem na festa. É sempre assim. As mulheres são mais resistentes. Enquanto convivo com elas, a minha mente vagueia  para a sensação que vou ter ao ver o previsivel cenário dantesco que me aguarda lá em cima, em casa.
- Uma e meia – Esta noite selou pactos de novas amizades. Agradeço interiormente ao meu filho mais novo por me proporcinar estes momentos e por ter amigos com mães tão fantásticas.
- Duas da manhã – Tenho uma conversa profunda com a minha sobrinha cantora/compositora. Falamos das insanidades dos criadores num momento muito profundo para ambas. Olho ao meu redor e percebo que o estado da casa é bem pior do que eu supunha. Não me importo. Sei que vou escrever e que mais nada importa. Dou um abraço apertado à minha sobrinha e os meus filhos reclamam que também querem.
- Duas e quinze. – O João tomba ao meu lado enquanto escrevo. Cai num sono exausto e feliz de quem teve um sétimo aniversário de sonho. Olho-o e penso: - “ talvez no teu décimo oitavo aniversário te ofereça a compilação de crónicas que fui escrevendo sobre ti ao longo das nossas vidas…
- Três da manhã – Agora sim, o dia pode acabar:  a crónica tardou… mas não falhou.
Ana Dias

Enquanto esperas

    Qualquer advogado sabe que tem que esperar pela “barra”. Ai de nós se chegamos quinze minutos depois do horário marcado para o início das audiências mas, se somássemos todas as horas que já gastámos à espera, teríamos tempo mais que suficiente para escrever um longo livro.
  Os exemplos de espera  estão em tudo. Há tempos um editor pediu-me que lhe mandasse os meus originais, mas apenas de estivesse disposta a esperar. Respondi-lhe que é isso que os escritores fazem: escrevem e esperam!
   Como a vida é uma longa espera por tantas coisas diferentes, convém termos presente que, mais que fazê-la acontecer enquanto esperamos, devemos fazer dessas “esperas” algo memorável  e  produtivo.
Ana Dias