(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

9.4.12

“Pluripolares”


    O meu filho mais novo tem uma capacidade fantástica, herdada de mim, que consiste em chorar e rir ao mesmo tempo. Há alturas em que ambas as ações são tão convictas que fico sem perceber qual é a que prevalece. E isto faz-me lembrar a bipolaridade,  uma doença em que a pessoa passa muito rapidamente de um extremo de humor ao outro, diamentralmente oposto.   Deverei com isto assumir que o meu pestinha e eu somos bipolares? Não me parece. Somos apenas pessoas que conseguem achar graça a alguma coisa, mesmo estando a chorar.
   Por outro lado, também se diz que é bipolar quem tem duas personalidades, como se houvesse duas pessoas dentro de uma. Nesse caso não teremos todos uma boa dose de bipolaridade? Se a  personalidade, numa definição muito leiga e popular, é o "conjunto das características marcantes de uma pessoa”, não poderemos assumir que todos temos em nós características marcantes antagónicas? 
   Senão vejamos: todos somos bons e maus;  santos e pecadores; grandiosos e pequeninos. Todos conseguimos ser egoistas e generosos;  compreensivos e incompreensivos;  tolerantes e intolerantes. Creio que não haja um único ser à face da terra que não tenha já sentido amor e ódio, vontade de perdoar e desejo de vingança; medo e coragem.     É certo que há uma  tendência mais prevalente para algum dos lados mas, ainda assim, ninguém me tira a convicção que o ser humano é, por definição, um ser “pluripolar”.   Apenas nos resta decidir qual dos polos nos “sabe” melhor…  como faz o meu filhote, que acaba por decidir sempre que rir é muito melhor que chorar!
Ana Dias

8.4.12

Renascer


   Jesus foi um nazareno dissidente. Alguém tão fantástico, poderoso e especial que tiveram que acabar com ele. Não conseguiram.  E a prova disso é o facto de a sua vida e ensinamentos continuarem, até hoje, a ser celebrados. No dia da festa da sua ressurreição vi-me na contingência de explicar aos meus filhos o porquê de não os acompanhar à missa que tal facto festeja. Fiz o melhor que pude mas receio que muitos anos se passem até que me entendam. Ou talvez não.
  Não sou nazarena, nem me considero dissidente. E longe de mim a pretensão de  me comparar a um ser tão iluminado e fantástico como Cristo. Mas, tal como cada um de vós, lá vou atravessando por vezes umas cruzes bem pesadas e alguns momentos de dor, em que me consola o facto de, tal como Jesus, conseguir ser forte e  fiel aos princípios que me guiam, não obstante as “crucificações” e “mortes” que vou tendo que enfrentar.  
  Hoje escrevo-vos de uma silenciosa capela, no meio do campo, onde apenas se ouvem as folhas a abanar ao vento, os pássaros a festejar a Primavera e outros sinais da natureza viva, também ela renascida. Escrevo-vos dos locais onde mais consigo sentir a fé. Escrevo-vos da terra e do meu corpo, essas voláteis casas de  Deus, seja lá qual for a sua forma e essência. Porque a fé é algo privado, que não precisa de uma multidão para se mostrar ou fazer ouvir.  Escrevo-vos a ouvir o renascer que em vós brota a cada instante, mesmo que não o consigam ver nem sentir. Porque todos renascemos constantemente: nas células, nos pensamentos e no que sentimos. E é assim mesmo que deve ser. Primeiro morremos no momento que acabou de passar, bom ou mau, marcante ou nem por isso. Depois ressurgimos, melhores ou não, numa sequência tão eterna quanto a nossa precária durabilidade permite. Porque, no fundo,  tudo é eterno. Pelo menos enquanto dura.
  Hoje escrevo-vos de uma silenciosa capela no meio do campo,  com uma fé consistente e renovada,  que celebra o constante renascer de todos nós … como seres cada vez melhores.  
Ana Dias

7.4.12

Dia Mundial do “Obrigada”




    Não sei se o Dia Mundial do Obrigada existe. Apenas sei que nunca dele ouvi falar.
Há dias mundiais de tanta coisa e este parece-me tão importante que, a não existir, deveria ser implantado.
Mas vamos um pouco mais longe: o que agradeceriam se hoje fosse tal dia? E a quem? Diriam “obrigado por estar vivo, apesar de todas as dificuldades”? Diriam “obrigada pelo pouco dinheiro que ainda tenho na carteira”? Diriam “obrigado por ter emprego” ou “ obrigado por, apesar de não ter emprego, ter força de vontade para continuar a lutar”?   E quantos de vós saberiam agradecer tudo o que já vos causou dor, mas vos tornou mais fortes e sábios?
   Quantos de vocês teriam vontade de agradecer o  privilégio de, pelas vossas vidas,  terem passado  todos os que já partiram? E será que agradeceriam o amor que já sentiram , mesmo que ele tenha ficado  algures no passado? Saberiam dizer obrigado pelo momento que está  a acontecer  agora? Pelo facto de conseguirem ver, falar, cheirar, ouvir, andar, pensar, sentir? Lembrar-se-iam de agradecer todas as oportunidades que tiveram de crescer, perdoar, reconciliar e  emocionar?
   Há tanto para agradecer que só me ocorre uma coisa: um dia inteiro jamais chegaria! O melhor é propormos dois dias mundias do “Obrigada!”
Ana Dias
Ps – Ah, esqueci-me: OBRIGADA!!!!
  

6.4.12

Estranha fé


- Esta Páscoa também não vou à missa. – Disse no outro dia à minha mãe que, apesar do ar desconsolado, não me fez qualquer comentário.
 Hoje é Sexta-feira Santa, o único dia o ano em que não se celebra missa. É também o dia em que faz um ano que o meu pai faleceu, ele que me educou na fé católica e tanto gostava que eu lá fosse. 
  Mas eu não vou à missa por ter fé em excesso e não em defeito.  Não é na missa que ela em mim se acende ou exponencia: isso tanto pode acontecer numa igreja, como numa mesquita, num templo hindu, num mosteiro budista ou nas ruas de qualquer cidade. Não vou mas respeito e admiro quem vai e procura um encontro mais intenso com a fé o sentido de tudo. Apenas não consigo entender quem o faz como castigo auto imposto.
  Não vou à missa porque não sinto necessidade de mostrar a ninguém que tenho fé nos Homens, no Mundo e na Vida. Tenho fé que cada vez mais a parte boa, lúcida e sábia de cada Homem, prevaleça sobre o seu lado mau, conflituoso e ignorante.
   Tenho fé na fé dos outros e na sua capacidade de perdão, entrega e generosidade. Tenho fé que as guerras ( em particular as religiosas, incompreensíveis na sua génese) se esbatam em compromissos de entendimento sustentável .  
  Tenho fé em quem mais custa tê-la: em mim mesma,  e na coragem de  persistir na tentativa de contribuir para um Mundo emocionalmente mais evoluido.
   Perdoem-me se alguém ofendo, mas tenho fé em tantas e tão boas coisas que os monólogos aborrecidos e cânticos deprimentes ma poderiam perturbar.
   Talvez por não ir à missa me esteja a expor ao perigo de não ter acesso à vida eterna no Paraíso mas, de igual forma, ao não “exercer” outros credos, não estarei  também a dizer adeus à eternidade com 40 virgens ou condenada a nunca renascer como um ser mais evoluído?
   Hoje é Sexta-feira Santa e, neste único dia do ano em que não se celebra missa, resta-me desejar que todos os dias sejam santos. Para crentes e  não crentes de todos os credos. Para ateus, agnósticos ou simples não pensadores.
   Por isso pai, estejas tu onde estiveres, tenho fé que não fiques triste e compreendas… porque não vou à missa.
Ana Dias

5.4.12

Palavras de sonho


    Li algures um testemunho de um escritor que dizia que escreve para fazer as pessoas pensar. Um outro escritor, meu amigo, dizia,  na apresentação do seu último livro, que escrever é uma tentativa desesperada de conquistar a vida eterna através da obra que fica para além do seu desaparecimento. Para outros,  ainda, acredito que escrever seja um exercício de enaltecimento do ego, ou uma fórmula fantástica de exorcizar demónios e redescobrir o sentido das coisas.
    Penso na última resposta que dei quando fui confrontada com tal questão.
- Escrever é tudo e tudo é escrita. Escrever é ser, respirar e existir. 
   Não podia ter sido mais verdadeira. E lembrei-me  disto porque, no sonho que hoje  me embalou o despertar, senti as palavras formularam-se-me tão vívidas e vibrantes que tive que ligar o computador e, no próprio sonho, começar a escrever.
Ana Amorim Dias

4.4.12

Por um amor maior




   Conheço-a há mais de trinta anos e,  durante todo este tempo,  sempre a vi a viver uma paixão feita tanto de alegrias como de amargos dissabores.
   A minha mais antiga e constante amiga, com a sua personalidade alegre e expansiva, infelizmente não é perfeita. Ela é,  como  o próprio filho afirma, “da lagartagem”!
   Sempre a vi a seguir o seu amado clube, contra tudo e contra todos; a sofrer como uma condenada em jogos mais importantes; e a manter-se fiel a esse tão grande amor. Em alturas mais críticas, e dando provas da mais sólida amizade, cheguei a sofrer ao seu lado e  a gritar de alegria por o Sporting marcar ( perdoem-me mas a amizade vem primeiro!).
  Mas quis o destino ( ou o pai da criança, por certo ) que o Afonso, seu filho,  lhe saísse das entranhas, qual  profanador hospedeiro, com o mais vermelho sangue a latejar-lhe na alma. Assim que as enfermeiras o deitaram no berço pela primeira vez, o seu pai cobriu-lhe o franzino corpo com as vestes benfiquistas, selando um pacto irreversível.  
Com a chegada do entendimento,  ao ser questionado sobre o local de nascimento, respondia com voz fanhosa:
- No xtádio da Uuz. –
- Não, meu anjo! Foi no HOSPITAL da luz! – corrigia-o a mãe.
- Nã foi nada! Foi no xtádio da Uuz!! -
Mas isto é só um exemplo da sua encarnada  paixão.   A minha pobre amiga tem que ouvir o cd do Benfica a toda a hora, com o acérrimo adepto a cantar tudo de cor e  com uma convicção invacilável.
Mas foi apenas há dois dias que a Margarida me confessou o inconfessável ( mas prometam manter o segredo, que não lhe quero manchar a imaculada reputação  sportinguista, ok?)
- Sabes, comecei a levá-lo à escolinha do Benfica. Se visses a alegria dele, todo equipado a rigor e a jogar “ à séria”… Juro-te, Ana,  nunca tinha visto o meu filho tão feliz em toda a vida.  
Eu não respondi nada porque lhe vi um orgulho no olhar que não achei nada normal. Afinal conheço-a há mais de três décadas e somos mais que unha e carne. Olhei um pouco mais para aquele olhar com 20% de tristeza e 80% de alegria. Não precisei que ela me explicasse mais nada.   Ali estava eu, perante uma mãe  cujo filho é da equipa rival, que falava do seu pequeno  “arqui-inimigo” cheia de alegria e orgulho por o ver tão decidido e feliz.   
– “ Assim são os filhos” -  pensei,  - “ os reis de um amor maior!”

Ana Dias

3.4.12

A origem do caos



   Ontem, perante uma plateia muito reduzida, comecei a dissertar sobre o facto de não fazermos escolhas.
- Nós nunca fazemos escolhas – Ouvi-me eu a dizer, com alguma surpresa – nós sabemos sempre o que queremos e não queremos, se é pela esquerda ou pela direita, se nos apetece carne ou peixe, se isto ou aquilo nos faz sentir bem ou mal.
  E elas olhavam para mim com atenção.
- Nós nunca fazemos escolhas, porque o nosso coração sabe sempre tudo com uma certeza absoltuta – Continuei – a única coisa importante, é saber como ouvi-lo!
  Agora,  que me lembro do que ontem à noite disse, percebo que o derradeiro motivo de não sabermos escutar o nosso coração/essência, é sermos animais sociais.  Esquecemos como se ouve o nosso interior por “respeito” aos outros.
Se somos expansivos, invadimos o espaço alheio; se não somos, implodimos.  Se somos totalmente sinceros, ferimos; se não somos, prejudicamos.  Se somos impulsivos, damos ideias erradas; se não somos, contribuímos para uma humanidade mais fria.  Se somos servis com os outros, somos carrascos connosco. Se somos constantes, não evoluímos; se evoluímos, tiramos a segurança aos demais.  Se somos falsos connosco, agradamos aos outros; se somos verdadeiros connosco, lançamos o caos no Mundo. Mas, como diz uma pessoa que muito amo:  " ...não te preocupes se por vezes lanças o  caos, minha filha, pois é dele que  nasce sempre a luz e o ordenamento, não só do cosmo, como de tudo. Por isso continua a espalhar esse tipo de caos!"
  É difícil sobreviver incólume no caos que plantamos ao seguirmos a nossa verdade, mas muito mais vale esse caos que nos engole em dificuldades sem fim,  do que a pacífica e amorfa vida de quem cede  a sua verdade às que os outros que lhes impõem.
Ana Dias

2.4.12

A fuga do Chouriço (ou Como animar uma tarde chata de domingo)



    Ontem, pouco depois de escrever a crónica sobre a neura de domingo à tarde, liguei a uma amiga para me salvar da letargia.
- Olá princesa, estou cheia de tédio… - Lamentei-me.
- Então já vou aí ter. – Respondeu prontamente.
- Traz o Mixa para brincar cá na quinta. – Acrescentei.
   Meia hora depois a minha amiga Hebe, uma espécie de Heidi dos tempos modernos, mas toda fashion e elegante, apareceu com o seu borrego de estimação, criado em casa e a biberon.
  O Tomás e o João largaram o computador e vieram logo para a rua, brincar com o “primo”.
- Mãe, não achas que o Mixa gostava de ir aos estábulos conhecer os outros animais?- Quis saber o João.
  E lá fomos em excursão, debaixo da chuva miudinha, com o Mixa todo contente, a fazer tropeçar os miúdos.    Passamos pelas éguas, pelos patos e pintaínhos. Vimos os galos, as galinhas, a cabra e também a burra. Terminamos a visita no “quintal” comum dos animais a que apenas as éguas não têm acesso devido ao seu mau feitio. Ora é nesse mesmo “pátio” que moram o Chouriço e a Salsicha, um casal de porcos vietnamitas cuja burrice faz a própria Joaquina II  ( a burra ) parecer uma cientista.
   A certa altura tive a brilhante ideia de pedir ao João para correr atrás dos bichos ( para dar mais emoção à tarde, estão a ver?) , mas o pobre do Chouriço assustou-se de tal maneira que se escapuliu pela porta mal trancada ( ainda não se apuraram bem as responsabilidades de tal façanha, mas a seu tempo as devidas investigações terão lugar).
   Moral da história, seguiu-se uma hora e meia de perseguição desenfreada em que eu, a Hebe/Heidi, o Tomás, o João, o  Mixa e a Fiona (a mais velha e  anafada cadela cá da quinta que se nos juntou para ajudar à festa) corremos monte acima e cerro abaixo numa tentativa vã de persuadir o Chouriço a regressar para os braços/patas da sua amanda Salsicha. Ainda ocorreu o momento em que quase triunfámos mas o burro do porco, após três marradas convictas na parte de trás da porta da entrada do “quintal”, desistiu e fugiu de novo para o mais alto cume da quinta.
   Esmorecidos, demos por encerrado o resgate, na esperança de, com menos confusão, o Chouriço se voltar a aproximar de casa. E  fomos então comer nêsperas e buscar pares de binóculos para conseguir ver o bicho. Vai daí o João desaparece e volta algum tempo depois.   Ao fim da tarde, já eu estava preparada para mandar os meus encardidos filhos para o banho, comentei com a Hebe: - Hummm…. Aquele desaparecimento do João deve trazer água no bico. -     E ela ficou a olhar para mim sem perceber nada, enquanto eu fui à varanda de cima ( de onde a visibilidade para os estábulos é melhor) confirmar as minhas suspeitas: o estupor do moço foi abrir a porta da área comum dos animais para o Chouriço, ao regressar, ter como voltar aos seus nobres aposentos.
- HEBEEEEE!! – Gritei, enquanto descia as escadas.  -  Agora é que fugiu tudo! O João deixou a porta aberta!
  E lá fomos, a correr à força toda, com o Mixa já cansado a acompanhar a aventura. A Cabra, perdida de grávida, andava satisfeita de roda das laranjeiras. A burra apareceu do outro lado, toda acelerada,  enquanto algumas galinhas dissidentes mediam forças com os atarantados gatos.  Entre correrias e esbracejares, lá conseguimos reunir o gado, mas ainda faltava uma galinha que se colocou num sítio tão inacessível que só depois de muito cercada se deixou apanhar.
   - Não, não…. Eu não acredito… - Lamentei-me, ao ver a Joaquina II de novo à solta. – Estes bichos estão possuídos por algum espírito libertador. –
  Depois de prender de novo a burra fomos finalmente para casa e o João ainda reclamou por eu não lhe dar banho de banheira cheia como lhe tinha prometido.
- Óh filho, toma duche e desenrasca-te que tenho que fazer o jantar. Foi por tua causa que andei até esta hora a prender o gado!
- Mãe… O que é gado? – Perguntou o meu cowboy favorito, já pronto para entrar para o banho.
  Não consegui evitar um sorriso!!
 O Chouriço ainda anda a monte, mas espera-se que regresse da sua aventura ainda no dia de hoje.

Ana Dias
  
 

31.3.12

Dos zero aos cem




   O meu filho mais novo é apaixonado pelo Bugatti Veyron.  Há mais de um ano que o oiço dizer que o Veyron é o melhor carro do mundo e que quando for grande me vai oferecer um, mas só há dias, ao ver um prograva de tv, me apercebi que aquilo não é um carro e sim um avião rasteirinho.  Segundo as informações do dito programa, o tal Bugatti vai dos zero aos cem em menos de três segundos e o seu preço é tão aflitivamente elevado que só os principes do petróleo lá chegam .
  Não faço a mais pequena  ideia de quanto tempo levam os meus modestos carros a chegar dos zero aos cem, e também não me importa nada porque raramente ando a mais de cento e vinte(!!). Não me interesso mínimamente por velocidades na estrada… e nem na vida, agora que penso nisso. O que  me importa não é a quantidade de tempo que dispendo  a chegar à minha velocidade de ponta, é a segurança, convicção  e prazer  com que o faço. O que  me importa não é chegar ao detino, é saber para onde vou e conseguir apreciar a viagem. E tudo isto porque sei que há sempre o risco de não chegar lá.  Assim sendo não é a velocidade que é relevante, nem tão pouco o tempo que demoramos a chegar à nossa velocidade mais veloz, que nos pode diminuir os reflexos e a capacidade de contornar obstáculos. O mais importante é termos a consciência da velocidade ideal para prosseguirmos a viagem da vida em direção ao que buscamos, com a certeza de conseguir fazê-lo em condições que nos sejam confortáveis e seguras.  Existem perigos, surpresas e mudanças de planos que podem, a qualquer momento, mudar o curso da nossa viagem, e é por isso mesmo que me parece que mais vale um passo de caracol,  constante e firme, do que a rapidez que nos pode conduzir ao  estampanço  na primeira curva mais apertada.
  
Ana Dias

30.3.12

Greve geral


- Tenho que ir a Sevilha na quinta-feira, queres vir? – Disse-me ela,  ao telefone,  há três dias.
- Conta comigo! E o que dizes a levar a loira? – Perguntei-lhe.
- Boa! Liga-lhe.
  As melhores vivências são as que surgem assim, sem aviso nem grandes planos, embora os contratempos acabem sempre por surgir. O dia de ontem não foi exceção. Só ao chegar a Sevilha é que nos apercebemos da greve, ao ver as lojas fechadas e as manifestações nas ruas. Qualquer mulher que esteja a ler isto compreenderá o desalento de três amigas, preparadas para um dia de compras ( no estrangeiro…), que se deparam com TODAS as lojas fechadas.
- Não faz mal, desde que haja tapas e canhas, ficaremos bem. – Disse eu – Afinal estamos juntas e é isso que importa.
  Elas concordaram, mas o olhar de tristeza não escondia o desapontamento.
- Fizeram-nos uma macumba. – Dizia a Margarida
- Não tenhas dúvidas. – Respondia-lhe a Hebe.
A minha vontade foi juntar-me à manifestação com novas palavras de ordem: - Abran las tiendas! Abran las tiendas! – Não foi preciso. Elas começaram a abrir assim que a manifestação terminou.
 E, entre tapas, canhas e compras, pus-me a pensar em como é bom fazer greve geral ao dia-a-dia e fugir com amigas para um dia só nosso. Falámos e falámos,  como só as mulheres conseguem, e concluímos que as grandes amizades no feminino são diferentes das grandes amizades entre homens, mas isso meus caros, fica para outro dia.
Ana Dias

27.3.12

350 graus


    Há uns dias  vi uma playmate portuguesa a dar uma entrevista. A miúda realmente era bem gira… e cómica!   Entre outras coisas muito interessantes, disse que desde que se tornou playmate a sua vida deu uma volta de 350 graus.
  Além de outras reações que a convicta afirmação causou em mim, fiquei a pensar que para certas pessoas a matemática não deve fazer mesmo falta nenhuma. Para que precisa uma playmate de saber sobre graus, ângulos, raios ou circunferências?  A menos que seja para desenvolver melhores performances, na cama ou no varão, talvez tal conhecimento não lhe sirva mesmo para mais nada. Nem sequer para dar sentido às pomposas constatações.
   Ora vejamos: se a vida da menina deu uma volta ( ou será mais, cambalhota?) de 350 graus, isso quer dizer que ficou praticamente no mesmo sítio, certo?    Alguém pode explicar à menina, por favor,  que quando a vida se nos vira de pernas para o ar ( ela disso deve perceber bastante ) é porque deu uma volta de 180º  e não de TREZENTOS E SESSENTA???
   Fico a pensar que,  se a matéria dos ângulos começasse a ser dada com base nas figuras do Kamasutra, as afirmações de vida com fundamentos matemáticos seriam bem mais acertadas!
Ana Dias
  

26.3.12

O valor de uma ervilha

    Devia ter os meus sete anos quando li uma estória (acho perdoável não me lembrar já do nome) em que uma princesa na miséria pede abrigo a uns lenhadores. Estes, desconfiados da veracidade do seu sangue real, decidem deixá-la pernoitar na sua casa, mas em cima de dez colchões com uma ervilha por baixo.
 Na manhã seguinte, depois de lhe perguntarem como tinha passado a noite, a princesa respondeu que não tinha conseguido “pregar” olho,  pois a cama era muito desconfortável. Os lenhadores comprovaram assim que ela era de facto uma princesa, pois só uma princesa sentiria uma ervilha debaixo de dez colchões.
  Mas que raio?  Eu podia ter só sete anos, mas a estória pareceu-me tão estúpida que fiquei a remoer a coisa por uns tempos. Como podia haver alguém que,  estando deitado em cima de dez colchões,  sentisse a ervilha que estava por baixo deles?  Se a ervilha estivesse cozida também a sentiria?  De que raios servia ser-se princesa se não se conseguia dormir bem por uma coisa tão insignificante?   Que raio de lenhadores eram aqueles, que tinham dez colchões a mais em casa? Será que os tinham ido pedir  à estalagem do lado?
    Eu nunca tive aspirações a ser princesa ( credo!!) mas,  caso a inocência infantil me tivesse dado para aí, creio que me teria passado logo a vontade porque fiquei a achar que quem tem sangue real está munido de uma carga de sensibilidade tão grande que só me traria chatices.
 Não sei porquê, ontem lembrei-me disto. Talvez tenha sido apenas para perceber que a tal ervilha foi, para mim, um diamante: trouxe-me a riqueza de saber que, por mais que leia, veja ou oiça, é pela minha cabeça que penso, interpreto e entendo.
Ana Dias