(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

30.5.12

Estar vivo é diferente de viver


   Apesar de já pouco recordar sobre o que aprendi nos três anos em que tive Filosofia no liceu, lembro-me que adorava a disciplina. O Professor Furtado não debitava apenas as correntes de pensadores e as suas respostas às grandes perguntas da humanidade. Ele desafiava-nos a pensar por nós próprios e, ao que parece, gostava da minha lógica porque foi sempre generoso nas notas que me deu.
    Ontem lembrei-me de algumas das grandes questões filosóficas e respondi-as em segundos. Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?   À primeira respondi: o que importa? À segunda respondi: do cocktail genético dos nossos ascendentes. E à terceira, “para onde vamos?”, decidi que,  quando lá chegar, logo saberei!
   O que importa mesmo questionar é o que é que andamos cá a fazer! O resto não tem a mínima importância. O que é que andamos aqui a fazer? Qual é o sentido da vida? … Pausa… Estou a ouvir-vos a pensar… Caramba! Não acredito que não saibam! Esta é de caras! A resposta é óbvia e, como tal, devia ser quase automática!
   O que estamos aqui a fazer? … A VIVER!!! Certo? É isto, não é? Podem pensar de diferente forma que não vos dou má nota por isso, mas pensam lá comigo: o que andamos cá a fazer não é a viver? A experimentar, a aprender, a pensar, a sentir, a evoluir e a emocionar-nos. Talvez algumas pessoas não percebam o sentido da vida por isso mesmo, por se esquecerem de o fazer. Ou por não sabererem como se vive, não sei…    Correndo o risco de fazer uma afirmação tão brilhante como a da Dona Caneças, vou dizer que estar vivo é diferente de viver. Mas é que é mesmo! Uma pessoa pode estar viva, respirar e ter os órgãos todos a funcionar em pleno e, ainda assim, não estar de facto a viver. Já me entenderam, certo? Respirar não é estar  vivo  de verdade.  Estar  mesmo vivo é acionar a toda  a hora a  apaixonada loucura de pensar e sentir. Estar realmente vivo é procurar incessantemente as emoções, o conhecimento e a evolução. Há muitas pessoas que apenas respiram e, com esse pequeno e constante sopro de oxigénio, arrastam-se pela existência sem a mínima consciência do que estão a fazer. E há outras, meus caros, que a dada altura do percurso, se recordam do que cá andam a fazer e começam  realmente  a viver.
   Não sei se o professor Furtado lerá esta crónica e nem sequer posso dizer que a aprovação deste meu ídolo da juventude seja assim tão importante mas,  tanto quanto o lhe recordo a vitalidade, creio que concordará comigo.
Ana Amorim Dias

29.5.12

O mergulho


   Ontem estava a contar passar o dia entre crónicas para algumas publicações, as últimas páginas de “Quatro”, umas arrumações e uns mergulhitos no mar. Mas, às nove e cinquenta, fiquei a saber que um amigo em apuros precisava de mim no Tribunal… às dez.
  Lá fui. Biquini rosa fushia por baixo de uma túnica e calças de ganga. Nos pés umas havaianas castanhas e, a completar o quadro, os cabelos sempre revoltosos de sal, colares de coloridas missangas  e outros adornos ibizengos.
   Fui à secretaria pedir uns esclarecimentos. Aproveitei e pedi também uma caneta e uma toga.
- Bom dia, Dra! – Recebem-me sempre com um sorriso rasgado. Explicaram que a toga teria que ser emprestada por algum colega. Não me preocupei. Quem tem boca tudo explica.
   Passei a manhã em espera e em inquérito. A audiência de julgamento ficou marcada para as   duas. fui a casa refrescar-me e buscar a amiga toga que sempre me acompanha nestas andanças de tentar fazer justiça. Não me livrei do biquini que a praia ainda me esperava. Voltei ao Tribunal e esperei. O costume. Mas a audiência lá se fez e, tendo em consideração o cenário, até correu muito bem. Mas foi ao sair daquele local,  tão solene e cheio de regras, que me lembrei de novo do que tinha vestido por baixo, como quem recorda a essência.
   Podemos passar a existência enganados, vestidos com togas, fatos e outras enganadoras peças de guarda roupa encenado, a pensar que somos grandes doutores, médicos, polícias ou padeiros mas, bem lá no fundo, somos inocentes selvagens que só precisam de uma tanga para se atirar ao mar e se ligar à essência da vida.
Ana Amorim Dias
P. s. – Sim. Terminei o dia com um mergulho. Gelado. Emocionante. Regenerador.
 

28.5.12

A parte mais gostosa


Estavamos todas juntas, espalhadas pelos sofás e pelo felpudo tapede, a beber um Lambrusco fresquinho.
- Os homens não gostam de celulite!  - Começou uma, enquanto comíamos snaks que, na embalagem, deviam trazer aquele género de frases que vêm nos pacotes de cigarros : “Comer estes snaks vai fazer com que as suas coxas fiquem repugnantes. A responsabilidade é sua”.
- Nenhum homem gosta menos de uma mulher por ela ter celulite, acreditem! – Disse eu. – Eles não são assim! – Senti-me na obrigação de defender o sexo que, naquele momento e lugar, era o mais fraco.
- Podemos perguntar-lhes. – Disse outra.
- Tomás? A celulite incomoda-te? –
- Credo! Que nojo!! –Respondeu.
  Expliquei-lhes que o meu filho mais velho é assim. Por agora tudo lhe mete nojo, até pensar em andar de mão dada com a namorada.
- João? A celulite incomoda-te? –
- Não! – E foi-se embora brincar.
   Depois de perguntarmos a um macho de dez anos e a outro de sete, resolvemos “atacar” o único macho adulto presente:  -  Paulo? A celulite incomoda-te? –
- Claro! Muito! – Respondeu.
   Expliquei que a opinião dele também não contava porque, além de ser um gozão da pior espécie, adora tanto a mulher que ela podia ser uma verdadeira beleia e  ele não se importaria.
- Só falta um! Afonso! A celulite incomoda-te? –
  As suas brincadeiras de menino de quatro anos e meio foram interrompidas e creio que não gostou muito.
- O que é ixo?
- É um bicho de quatro patas! – brincou uma de nós.
 Ele saiu da sala a repetir: - Um bicho de quatro patas, um bicho de quatro patas? Que medo! –
A discussão sobre os inconvenientes da celulite acabou com uma explosão de gargalhadas. O que eu me esqueci de lhes dizer, foi o que aprendi com um simpático brasileiro que há dias me atendeu num restaurante de rodízio:
- Cê não gosta dji gordurinha? Nossa! É a prartji mais góistosa da carne!! Si não tem gordurinha, presta não!! -
Há homens muito sábios…
Ana Amorim Dias

27.5.12

A minha paixão por mulheres



  Anda por aí uma música que diz:  “toda a gente sabe que os homens são brutos”. Coitadinhos. Não são nada! A menos que interpretemos o “brutos” no  lato sentido da ignorância e incapacidade de compreender as Mulheres.
  Nos últimos dias aprofundei a amizade com uma mulher que conhecia mal e conheci outra de quem apenas ouvira falar. Além disso também passei bastante tempo com três das muitas mulheres da minha vida. Como eu entendo os homens! As mulheres podem passar horas a falar de tintas para o cabelo, extensões de pestanas ou de celulite, mas são os seres mais fabulosos do planeta!  Embora de forma completamente inocente e espiritual, começo a peceber que sou louca por mulheres. As mulheres elevam-me e apaixonam-me. Surpreendem-me e inspiram-me!
   E isto leva-me a pensar que nós,  mulheres, à semelhança de algumas civilizações antigas, deviamos instaurar uma espécie de retiro exclusivamente feminino pelo menos uma vez por ano. No solstício de Verão, por exemplo, porque não? Devíamos reunir-nos em grupos de amigas, colegas e familiares que, na proibição  convicta da presença desses estranhos e “brutos” seres do outro género, se dedicariam apenas ao prazer da maravilhosa companhia que sabemos dar umas às outras. Deveríamos retirar-nos, durante largos dias, para a maior casa disponível e apenas poderíamos levar a miudagem e os animais de estimação. E enriqueceríamos de forma inimaginável a nossa existência ( e a dos homens, certamente!) com o exponenciar de toda a nossa mística e miraculosa energia feminina. Voltaríamos desses dias mais poderosas e próximas do divino porque aquilo que temos para dar umas às outras, não me levem a mal, mas nenhum homem consegue!
Ana Amorim Dias

25.5.12

Sob um sol inspirador



- Mãe, lê-nos a crónica de hoje! – Pede o Tomás.
   Estamos a jantar. Sem televisão. Só nós.
- Sim, mãe. Lê lá. – Apoia-o o pequenino.
  Procuro a crónica no telemóvel e começo a ler. Quando acabo ficam pensativos e eu interrompo a meditação cantando músicas de Natal com letras cómicas, inventadas ao momento. Gargalhadas. Cumplicidade. Um momento-tesouro.
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Pouco antes tinha recebido um mail :
“Olá Ana! boa tarde,
Aqui estou eu mais uma vez, para lhe dizer ... Como é possível ?! As suas crónicas são assustadoramente idênticas ao “meu estado de alma” e à situação que actualmente estou a passar ... parece que foram escritas para mim para me ajudar a saltar o degrau que teimo em não saltar (…)
Isto para lhe dizer mais uma vez OBRIGADA Ana, do fundo do coração, pelas palavras magicas!
E mais ... comecei a escrever (graças a si também) faço-o como uma espécie de Xanax precisamente para soltar as emoções que ficam presas.
 Vou dando noticias,
OBRIGADA; OBRIGADA e mais um OBRIGADA
Aproveite este sol maravilhoso para escrever, é inspirador este sol!”
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  Sim. Hoje vou aproveitar este sol para escrever. Como aproveito a chuva e os dias nublados. Hoje vou aproveitar este sol para escrever e para me entusiasmar com a vida. Vou aproveitar o sol e a inspiração que me dão os pedidos dos meus filhos para que lhes leia o que escrevo. Vou aproveitar o sol e a inspiração destes mails de agradecimento que me fazem crer que as palavras não operam  magia só em mim…
  Sim. Vou aproveitar o sol e inspirar-me para o discurso de motivação que vou fazer mais logo, no Ignite Algarve, às sete e meia em Loulé.
Ana Amorim Dias

24.5.12

Rendição absoluta




    Imagina que aterravas em território inimigo. Imagina que, aos olhos deles, eras um invasor. Mas imagina também que os inimigos eram poucos e que podias dominá-los se quisesses. O que farias?
   Quando pensamos em inimigos temos a visão de pessoas  a quem queremos mal e que nos querem mal a nós também. Mas isto podem ser apenas distorções da realidade.  Se invadimos um território, é natural que não nos vejam com bons olhos e desejem a nossa partida. E se nos sentimos ameaçados, também é normal que vejamos como inimigos as fontes dessas ameaças.
   Como derrotamos o inimigo? Fazendo-lhe mal?  Liquidando-o? Tenho uma opinião contrária que talvez faça de mim uma pessoa muito estúpida. Ou talvez apenas ingénua. Ou, quem sabe,  com vocação para a santidade. Não sei. Apenas sei que o inimigo não se derrota com a guerra e a aniquilação. A única forma lógica, válida e verdadeira de se acabar com o inimigo é fazendo-o entender que somos humanos, como ele. A única maneira de acabar com o inimigo é dando-lhe tanto amor que acabará por se entregar ao único tipo de rendição absoluta que existe: a de nos aceitar e amar de volta.
Ana Amorim Dias

23.5.12

Sensibilidade e bom senso



  Às vezes pergunto-me o que é melhor: viver na neutralidade, sem as partes menos boas dos sentimentos poderosos, ou existir numa assunção assumida de sensibilidades e emoções?
  A neutralidade é de uma simpatia enorme porque nos mantém tranquilos e apartados de todo o tipo de dor mas, por outro lado, acaba por ter aquele  mesmo efeito sob o qual ficam aquelas pessoas que se rendem a prozacs, Xanaxs e outros “neutralaxs” dos sentires.
  Caramba! Se somos humanos é para nos emocionarmos, certo? Isto de viver é mais ou menos como parir: dói como o raio, mas é maravilhoso! Há quem tenha a coragem de não usar anestésicos e compreenda os verdadeiros milagres da vida, e há quem se afogue em supressores de dor para não ter que lidar com ela, não vivenciando assim a magia de uma compreensão superior.
  Neutralidade ou emoções? Em que é que ficamos? Mesmo correndo o risco de me meter onde não devo,  atrevo-me a sugerir o uso de toda a nossa sensibilidade e emoção… mas com  o máximo de bom senso.
Ana Amorim Dias

22.5.12

Cinco minutos



   Desafiaram-me de novo para participar no Ignite, desta vez no Algarve. Como detesto virar as costas a um desafio, escolhi o tema “Ferramentas mágicas para uma vida de sucesso”  e espero conseguir, nos curtos cinco minutos a que cada orador tem direito, passar a mensagem de que todos nós temos poderes mágicos.  A sério! Todos temos encerrados em nós estes mecanismos,  poderosos e fáceis de ativar em qualquer lugar e situação, que nos permitem o mais notável feito de que toda a pessoa pode ser capaz: viver uma vida notável !
   Se cinco minutos chegam? Não! Pelos menos para enumerar e falar um pouco de todas as ferramentas mágicas que podemos ativar, cinco minutos não dão nem para começar… mas chegam seguramente para utilizar diariamente mecanismos como o otimismo, a infantilidade, as gargalhadas, o entusiasmo, o amor-próprio  e a consciência de que somos intrínseca e absolutamente livres.
  Ana Amorim Dias

21.5.12

E o Mundo a encolher



 
 Acho que o Mundo está a encolher. Não estou a falar do tamanho, claro, até porque o pouco saber que tenho sobre essa área do conhecimento, apenas me vem de ténues lembranças estudantis e dos programas que vejo nos canais de ciências.  Mas continuo a achar que o Mundo está a encolher. O crescimento de todos os meios de comunicação, o desenvolvimento de novas tecnologias e a utilização crescente dessa coisa fantantástica a que chamamos internet, fazem com que o mundo encolha.
   Há muitos que proclamam os efeitos nefastos da globalização do conhecimento e do contacto virtual entre pessoas que nunca se viram e provavelmente nunca se verão. Muitas pessoas apontam esta explosão incontrolável de redes sociais, profissionais e afins como um dos primeiros sinais do armaguedão da civilização tal como a conhecemos, mas será que têm razão?  Não me parece. Na minha humilde opinião, quanto mais o conhecimento se puder espalhar pelo máximo de milhões possível, melhor. Quanto mais as pessoas de um continente, cultura, religião, formação ou convicção, conhecerem pessoas de outros continentes, culturas, religiões, formações ou convicções, melhor para a humanidade! Tenho esta estranha ideia de que quanto mais perto estivermos uns dos outros, mesmo que só virtualmente, mais temos a ganhar com isso; mais temos a aprender uns com os outros, a enternecer-nos mútuamente e a aceitar as diferenças.
  Saber que posso “falar” a qualquer hora com essa riqueza infinita que é todo e qualquer ser humano e  saber que o posso fazer à velocidade das teclas e para qualquer canto do Mundo, faz-me sentir que estou a viver numa das épocas mais propícias para o desenvolvimentos de cada pessoa enquanto indivíduo e enquanto parte do Ser fabuloso que é a Humanidade…
  E, enquanto percebo isto, está o mundo a encolher!
Ana Amorim Dias

20.5.12

Dona Genoveva


  Uma das grandes riquezas de viajar é a quantidade de pessoas que temos oportunidade de conhecer. Pessoas que passam fugazmente pelas nossas vidas mas que, ainda assim, deixam  algo que nos enriquece e passa a fazer parte do patrimódio estupendo que são as nossas memórias.
   Conheci a Dona Genoveva em Buenos Aires. Sentei-me ao seu lado no Café de Los Angelitos, onde fui jantar e ver um ( fabuloso ) espetáculo de tango. Ela estava com a nora a passar uns dias na capital argentina e, quando começou a responder às minhas investidas curiosas, fiquei a saber que aquela idosa peruana era uma pessoa especial. Na meia hora que passámos a falar, antes do show começar, descobri a sabedoria doce daquela simpática anciã.
- A vida é uma colcha de retalhos que vai ficando sempre maior… - Disse-me a certa altura. – E só nós é que podemos escolher a qualidade dos tecidos e as cores, mais ou menos alegres,  que queremos usar! –
   Não cheguei a saber se a Dona Genoveva tinha sido costureira. Apenas me ficou a lembrança do amoroso olhar com que me soube brindar… e a noção da responsabilidade pela colcha de retalhos que me cabe continuar a fazer.
Ana Amorim Dias

19.5.12

Conversa de chacha


   Cada minuto que vivemos é valioso. Podemos não ter grande consciência disso porque andamos a toda hora atarefados com coisas que pensamos serem muito importantes e não ligamos ao valor de cada simples minuto. A nossa falsa ideia de eternidade, infelizmente,  também contribui para o facto.
  E porquê isto, agora? Podem estar a questionar-se. Simples: porque quando estou, como ainda há momentos, metida com os meus pensamentos e escritos, e sou interrompida por conversas de chacha vindas de pessoas que querem saber do que não é da sua conta, fico ainda mais consciente dos minutos preciosos que estou a perder!  Fico com vontade de responder – Desculpe lá, mas deixe-me aproveitar estes preciosos minutinhos em paz e meta-se na sua vida! –
   Mas,  agora que penso nisso, os minutos que há pouco perdi com mais uma conversa de chacha, tiveram o valor de me fazer ver algo importante:  que cada minutinho é mesmo precioso!
Ana Amorim Dias

18.5.12

A chama milenar


   Contaram-me que há um mosteiro, lá para os lados dos Himalaias, onde existe um fogo aceso que já arde há mil anos. De geração em geração, parece que foram alimentando a chama,  que se mantém em convicto brillho.
   Imaginei o tal mosteiro  e o pequeno fogo ardente… e lembrei-me do pouco trabalho que dá manter a nossa chama acesa. Se pensarmos um pouco nisso talvez não seja difícil perceber que, à semelhança do que fazem daqueles monges, bastam algumas  simples ações diárias para mantermos bem acesa a nossa paixão pela vida. Sim! … Talvez até baste,  simplesmente,  que apenas nos lembremos dela.
Ana Amorim Dias