(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
22.4.12
20.4.12
HOJE VOU
Nunca tal me aconteceu! Escrevi duas vezes e apaguei tudo! Mas quem quero eu enganar? Ou isto sai de rajada, das profundezas de mim, ou então não vale a pena!
Hoje queria contar-vos que à noite vou ao lançamento do novo CD de um amigo. Um homem talentoso e trabalhador que anda a construir a sua carreira há muitos anos. Um homem que canta bem, muito bem, e fá-lo com a credibilidade do sorriso que lhe a companha a voz.
HOJE VOU ouvir, pela primeira vez ao vivo e com a banda a tocar, letras que eu mesma escrevi, com um prazer e impetuosidade que não se explica em palavras. HOJE VOU dizer-vos algo que decerto já sabem: que há músicas que emocionam e letras que nos falam à alma. Toda vida fui consumidora ávida das emoções que me chegam, embrulhadas na arte da música, mas HOJE VOU sentir o que é estar no lado de lá, ao “consumir” algo que ajudei a criar.
HOJE VOU lembrar-vos que há sonhos que se concretizam… e sabem que mais? Acabei por dizer tudo o que queria, e saiu de rajada, das profundezas de mim!
A ti, RICARDO SOUSA, obrigada por esta benção e votos de muito sucesso. E a vocês, que ouvirão as palavras a vibrar na dimensão melodia, apenas espero, do fundo do coração, que se cheguem a emocionar!!
Ana Amorim Dias
19.4.12
Palavra!
“Falamos” desde a nascença. Iniciamo-nos com expressões faciais, choros, risos e outros sons, e continuamos a desenvolver a capacidade de comunicar até chegar à versão ( nunca acabada nem perfeita) da linguagem verbal e escrita. Ora essa linguagem, como ferramenta que é, por vezes falha. Ou é o emissor que se explica mal ou é o recetor que não capta a mensagem, por mais bem emitida que tenha sido.
As palavras são a mais brilhante invenção dos Homens! Desculpem-me se estou a ser obtusa mas a paixão turva-nos sempre o pensar. São as palavras que nos unem no gigante Ser que é a Humanidade. São elas que nos arrancam da à ilha isolada da nossa individualidade. Por isso, após escrever 328 crónicas a um ritmo quase diário, não posso deixar-me abater ao perceber que alguma mensagem foi, ocasionalmente, mal interpretada.
E é neste momento, na crónica número 329, que páro e me pergunto:
- Porque escreves crónicas todos os dias, Ana? –
E me respondo:
- Porque gosto. Porque esta meia hora me faz feliz e me faz compreender melhor a vida e todas as suas nuances. Faço-o porque há sempre algo novo a dizer, a refletir e a partilhar.
Termino com um agradecimento muito caloroso a todos os que têm tido a paciência de me acompanhar neste processo. Um agradecimento feliz por quase todos entenderem que, por mais que às vezes os tons sejam acinzentados ou as palavras mais nostálgicas, a mensagem é sempre colorida, desafiante e repleta de significado. Palavra que sim!
Ana Dias
18.4.12
Selvagem
O que define um animal selvagem? O perigo que representa para as outras espécies? A imprevisibilidade das suas ações? O cumprimento de regras não me parece que seja, pois há muitos que vivem em estruturas regradas e hierarquizadas.
Ao longo dos tempos muitos homens têm tentado domesticar animais selvagens. E muitas vezes o seu instinto imutável, por mais que se abafe, acaba por vir à tona de forma letal.
Mas não será o Homem o mais selvagem de todos os animais? Não é o Homem a mais perigosa ameaça a todos os outros animais, ao Planeta e à sua própria espécie?
É por isso que continuo sem compreender as pessoas que insistem em tentar “domesticar” outras pessoas, sem terem a consciência que o instinto imprevisível do ser humano, por mais que esteja latente, esconder-se-á para sempre debaixo da sua pele.
Ana Dias
17.4.12
Um desenho com ameixas
O Tomás continua a exigir que o vá aconchegar à cama. Mas aquilo não são mimos: a dois meses de fazer onze anos, ele quer é gargalhadas. Junta-se a vontade de rir dele à minha veia pela palhaçada e arma-se o rogobofe.
Ontem fi-lo rir com as minhas patifarias de criança. Mas fiquei transtornada por perceber que, com cinco minutos de conversa, a coisa ficou despachada!! Entre mais duas ou três, a malandrice mais brilhante que tive para contar ao meu filho foi a vez em que desenhei as paredes da garagem dos meus vizinhos com ameixas maduras!
Mas que raio?!? Eu era assim tão certinha? Como? Como foi que isto aconteceu? Será que o meu currículo de malandrices infantis é assim tão insonso? Eu serei eu que não me lembro?
Não posso ficar nesta angústia! Vou almoçar com a minha mãe que, com a sua boa memória, certamente me arrancará de tão terrível aflição. Mas uma coisa é certa: da próxima vez que os meus filhos aumentarem a sua lista de traquinices, vou perceber com mais lucidez que é um património importante… pelo menos para contarem aos filhos quando os forem aconchegar à cama.
Ana Dias
16.4.12
Aumentar a coleção
Quando gosto de uma música sou capaz de a ouvir até à exaustão. E desde que me lembro que faço coleção dessas músicas: as preferidas; as que considero como parte integrante da banda sonora da minha vida e que têm o condão de me levar a lugares, momentos vividos, e emoções sentidas.
Calculo que o número destas canções fabulosas esteja nas largas centenas, afinal 37 anos são 37 anos! Embora não seja qualquer uma que entra para a lista ( sou muito exigente ), as que entram ficam cá para sempre. E a coleção de músicas vai aumentando a toda a hora, com a mesma cautela e zelo com que vou escolhendo os “frames” do filme da minha existência: filtrando o que realmente conta e faz de mim uma pessoa melhor e mais feliz.
Ana Dias
15.4.12
Na génese da santidade
Como há bocado consegui vencer a inércia das manhãs de domingo e pôr o corpinho a mexer, fiquei com ideia de que hoje iria escrever sobre as vantagens de vencer a preguiça. Mas o imprevisto aconteceu: enquanto passava os olhos pela revista dominical de um jornal diário, fiquei presa a um artigo. Falava de castidade.
Entre vários testemunhos, teorias e justificações, houve uma que traumatizou: um homem (que nem sequer é padre) afirmava que renuncia ao sexo porque busca a perfeição e a santidade.
“Cum caneco”!! Então quem assegura a continuidade da espécie não pode ser perfeito? Se todos aspirássemos à santidade, a humanidade extinguir-se-ia?? Não faz sentido, porque todos devemos esforçar-nos por chegar o mais perto possível da santidade! Respeito as escolhas de toda a gente, desde que não prejudiquem os demais (não me parece que este senhor prejudique quem quer que seja a não ser, talvez, a namorada) mas isso não invalida que reflita sobre as coisas.
Ao ler a tal reportagem lembrei-me do meu terceiro romance, o “ Orgasmos da Alma” que, apesar do seu forte título, é uma obra absolutamente casta e que mergulha bem fundo em todo o tipo de orgasmos que podemos ter… com a alma. Incrivelmente, o sexo só nele entra na última frase da última página, quando Diego confessa: “Nessa noite tive vários orgasmos da alma… a acompanhar-me os do corpo.”
E porque vos estou a contar isto agora? Para que me sigam o raciocínio: O sexo não é feio. Nem mau. É uma “ferramenta” que, quando bem utilizada, nos eleva para dimensões perfeitas, para lá do tempo e do espaço. É uma maneira sublime de elevação, iluminação e vislumbre do divino. E eu chamo orgasmos da alma às experiências magníficas que vivenciamos sem o corpo e que nos conduzem ao mesmo resultado. Também as sensações de perdão, de amor intenso, de enfrentar medos, de nos superarmos, de aprender ou de apreender conceitos como a beleza ou a arte, têm a capacidade de sublimar a nossa existência.
Somos um todo. Somos metade matéria e metade intangível. Porque não podemos usar tudo o que nos compõe para avançar na nossa evolução pessoal? Conseguem Imaginar como seria o Mundo se todos começassem o dia com um bom orgasmo do corpo? Aposto que os da alma seriam muito mais prolixos e tudo seria melhor.
E isto deixa-me a pensar: será que não são os orgasmos, do corpo e da alma, a mais forte génese da santidade?...
Ana Dias
13.4.12
Melodia do vento
Ontem à noite fez vento. E esse vento forte foi o combustível que a minha memória usou para me levar ao passado…
- Hoje não há horas para ires para a cama. Vais ver este filme comigo! -
Eu tinha sete anos quando o meu pai me convidou para ver com ele “ The Eddie Duchin story”. E, nos últimos trinta anos, sempre que o vento sopra mais forte, lembro-me da cena em que a mulher dele, no seu leito de morte, diz que tem medo do vento. Não sei se não gosto de vento por causa do filme, mas sei que adoro a memória daquela noite, em que o meu pai quis partilhar comigo um filme que adorava.
Ontem, na viagem da memória em que o vento me levou, comecei a tauterear a música que o Tyrone Power toca com o menino de olhos rasgados. Nessa cena, única e de um encanto soberbo, a criança abraça-o no fim da música: abraça-o com a força agradecida de um momento de pura magia musical; com a mesma força com que ontem à noite abracei o meu pai na minha memória, por ter conseguido gravar para sempre em mim… a melodia do vento.
Ana Dias
12.4.12
Bendita maldição
- Eu vou ter dois: o Gonçalo e a Tatiana. – Afirmou o Tomás com a sua voz derretida. – E tu, João?-
- Eu vou ter cinco! Quatro rapazes e uma menina! –
- Tantos, filho? Bolas, nem sabes no que te metes. – Avisei.
- Pensas o quê, mãe? Eu quero uma família de jeito! –
Sorri e calei-me. Ainda é cedo para lhes dizer algo que só descobri no dia em que nasceram: os filhos são uma benção e uma maldição. O chamamento ancestral de assegurar descendência e uma infinidade de outras razões, continuam a fazer com que muitos de nós apenas se sintam “completos” depois de ter filhos.
As bençãos de se ter filhos são tantas e tão indizíveis que nem me atrevo a ir por aí, embora quanto a mim, duas das maiores bençãos que os meus filhos me dão sejam as brilhantes lições de vida e as constantes gargalhadas que me arrancam pelos mais incríveis motivos.
Quanto à maldição, por favor não me entendam mal mas, quando o nosso amor está dentro de corpinhos que ganham vida própria ao desagarrar-se das nossas entranhas, o mundo torna-se assustador. Percebi isso no momento em que eles saíram de mim: a minha vida tinha mudado para sempre; nunca nada do que eu fizesse seria alguma vez suficiente para os proteger como eu quero; haveria, para todo o meu sempre ( assim o esperamos todos), alguém a quem nunca poderia falhar, alguém que manteria a minha preocupação e instinto protetor sempre alerta.
Sim, os filhos são uma maldição. Mas a mais bendita maldição que um ser humano pode ter.
Ana Dias
11.4.12
Bodeguita de Atlântis
Quando, há muitos anos, planeei a minha viagem a Cuba, percebi que não poderia deixar de passar pela Bodeguita del medio, em Havana, onde Hemingway por vezes escrevia. Devido a um furacão qualquer alterei a o meu destino para o Rio de Janeiro e, tantos anos volvidos, continuo sem conhcer Cuba. Mas, dessa viagem que não cheguei a viver, ficou-me a mania de não perder outros redutos da boémia criativa dos gandes criadores literários: desde o Tortoni em Buenos Aires, frequentado por Federico Garcia Lorca, ao café Greco em Roma, onde se diz que Hans Christian Andersen escreveu; passando pelo Café de Flore, em Paris que, entre os mais badalados clientes, teve Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, tenho tomado café em todos.
Não acredito que haja escritor, nos últimos 150 anos, que não tenha escrito em cafés. Ou pelo menos, “escrevinhado”. Eu escrevo em qualquer lado. Em casa, na rua, restaurantes e cafés. Escrevo onde quer que seja que a vontade me chegue. Já se deu o caso de sair do mar a correr para ir pôr no papel palavras que me estavam a sair em verso no meio das ondas. E é frequente, durante qualquer viagem, encostar o carro na berma só para não perder mais algum bailado de palavras que me chega ao pensamento mesmo a meio do caminho. Mas há um sítio especial: o da meia de leite fantástica, com música de fundo e vida a acontecer à minha volta. Uma vida que nem vejo nem oiço, a não ser como pano de fundo a tudo o que escrevo pela manhã fora.
Talvez seja sonhar alto, mas é de sonhos que a alma vive, e creio que não me morre a esperança de, daqui a muitos anos, o bar Atlântis, em Castro Marim, ser colocado nos roteiros turísticos como o local onde Ana Amorim Dias costumava passar as manhãs a escrever…
Ana Dias
10.4.12
Excerto de "Zoia"
“ Rafael,
Muitos anos se passaram desde os tempos em que escreviamos longas cartas um ao outro. Muito tempo passou desde a última vez em que conseguimos comunicar verdadeiramente e transmitir mutuamente o que nos vai cá por dentro.
Vou dizer-te coisas que já repeti até à exaustão e talvez te diga outras que ainda nunca fui capaz…
Mas deixa-me começar pelo princípio: a nossa história foi um conto de fadas. Disso nunca duvides! Fizeste-me completamente feliz durante muito tempo, desde os anos da nossa adolescência, em que conseguimos crescer entrelaçados e unidos, até nos tornarmos adultos capazes e vencedores… Juntos fomos capazes de coisas incríveis: mudamos a realidade do património e tocámos e alterámos muitas das vidas que connosco se foram cruzando. Chegámos a ser o vórtice em torno do qual todos os que fazem parte das nossas vidas giravam. Juntos conquistámos sonhos em que acreditámos e fizemo-lo com uma tal veemência e sucesso que se poderia pensar em capacidades quase mágicas.
A felicidade tranquila e absoluta que a partilha de vida contigo me trouxe foi algo que quis tomar como seguro até ao fim dos meus dias. Mas sabes, Rafael? No fundo eu sentia que ninguém podia ser assim tão feliz durante toda a vida. Sentia que um dia o filme da minha existência ia ter história para contar…
Agora penso nos medos intrínsecos que nos acompanham pela vida e começo a entender os seus significados. O pavor que eu tinha de te perder, lembras-te? A fobia infantil e incontrolável de que te desvanecesses no ar…. Muitas vezes, quando viajávamos, se te afastasses de mim um minuto eu entrava em pânico a pensar como seria se nunca mais te voltasse a ver…
Pois bem, Rafael: ultrapassei o meu mais enraizado medo no dia em que, depois de te saber perdido, te disse interiormente o meu derradeiro adeus.
Sei que o teu amor por Luz ( e o dela por ti, também), foi algo completamente verdadeiro, e sentido com a plenitude que só existe naqueles raros casos de pessoas abençoadas com a mais grandiosa das graças: o reconhecimento da alma…. Uma ligação tão forte e poderosa jamais poderia não ter sido vivida. Não estava nas vossas mãos evitá-lo. Era algo que estava escrito e destinado a acontecer. E Isto não foi por mim entendido apenas agora; senti-o de forma cristalina no preciso momento em que o sentiram vocês. E, apesar de na alma sentir a verdade e dos vossos sentimentos e a inevitabilidade da vossa ligação, foi na minha ignorância do ego que tentei desesperadamente lutar contra a mais poderosa força do Universo… A minha sabedoria era então muito incipiente, confesso.
Por isso, Rafael, pára de te culpar por teres amado. Acaba com qualquer sentimento menos bom que possas ter por Luz; não a vejas nunca como o interveniente que veio causar a morte do passado perfeito porque, mais que isso, ela é e será sempre, um ser superiormente ligado ao teu. Não a vejas nunca como origem do mal por que tens passado. E mais te digo, com todo o carinho: não lamentes a morte do ser perfeito que fomos enquanto casal:… no Mundo tudo perece, desde a mais bela flor ao mais esplendoroso monumento. A perfeição é efémera, bem como a existência… Mas, se a passagem de algo belo pela via da existência deixar a sua marca na memória de quem fica, então a sua existência não terá sido em vão.
É por isso que não lamento nem o princípio nem o fim da nossa história de amor! Não renego o passado nem o amor que tivemos; pelo contrário, orgulho-me dele e de toda a obra que deixou erigida.
É por isso, Rafael, que sei também que, onde quer que o futuro nos leve, serás para sempre uma importante parte do meu património interior. Sei que amarei para sempre o teu espírito e a tua alma… Aceita apenas que já não te vejo como o meu homem, o meu marido, o meu porto seguro… Passaste a ser um irmão para toda a eternidade, alguém com quem crescerei sempre e que quero que faça para sempre parte da minha existência.
A Bianca está sempre a dizer – “ Que Deus tenha piedade dos homens que nos amarem..” e refere-se a todas as “manas” quando o diz. Mas não concordo, não com o sentido com que o faz. Homem que me ame ou tenha amado e, sobretudo, homem que tenha sido amado por mim, já tem a maior benção que a vida pode trazer. Guarda-a bem no teu interior e aceita a minha partida. Só quando o fizeres em pleno poderá a tua vida começar de novo e novamente seres absolutamente feliz.
Reitero, e fá-lo-ei eternamente, o perdão a ti e à Luz, dois seres maravilhosos cuja presença na minha vida agradecerei para sempre. Reitero o perdão a cada dia, limpando-me completamente de qualquer mal. Aceita-o, Rafael, a Luz já o fez há muito e é por isso que somos cada vez mais unidas e aprendemos cada vez mais uma com a outra. Aceita o perdão e perdoa-te a ti. Aceita a vida e sê feliz, abraça-a como só tu sabes e vive em pleno a tua lenda pessoal… Tens tanto de bom para dar ao Mundo, jamais o esqueças.
Talvez te perguntes qual o motivo de não voltar a viver feliz nos teus braços se a compreensão foi total e o perdão tão absoluto… A verdade é que nada houve para perdoar, Rafael, a não ser a dor do abandono que sofri. A rocha sólida e constante que sempre foste para mim desvaneceu-se em pó ao longo dos largos meses em que te pedi em vão que me abraçasses com alma e me cobrisses a existência com o manto quente da tua plena presença. Em toda a verdade, não foi o amor por Luz que me roubou de ti, foi a tua incapacidade de me dares todo o amor e atenção a que sempre me habituaste… Meu pobre tolo… Como pudeste pensar que uma mulher como eu se contentaria em ter menos do que o absoluto? Foi apenas essa a tua falha.
Ao mesmo tempo, e como querias estar em paz contigo e comigo, presenteaste-me com a liberdade para me entregar a uma amizade pura e doce. A verdade, Rafael, é que me deixaste livre para chorar a sós. Retiraste o teu ombro e aceitaste o do Benedito para acolher as minhas lágrimas. Tomaste-me por garantida e deixaste que outro homem fizesse aquilo que apenas tu deverias ter feito: curar-me. E claro, como todos os laços que se forjam no calor das mais duras batalhas, o laço de amor que selei com ele jamais poderá perecer.
Talvez algum dia as irónicas partidas da vida transmutem a força titânica dos sentimentos que me prendem a ele, mas nunca, jamais, deixará de fazer também parte da minha história. Começo a aceitar a realidade e todas as suas impossibilidades, mas na certeza de que não é o exterior que nos mata o sentir.
Por tudo isto te digo, te repito e te relembro que a vida, meu anjo, é o caminho que percorremos na gloriosa busca do reencontro com nós mesmos e nunca com os demais.
É por tudo isto que espero que não esqueças a fortaleza que existe no teu interior: a única fonte onde verdadeiramente poderás encontrar o derradeiro sentido da tua vida e a secreta fórmula de bem a viveres.
Com todo o amor e carinho,
Carmen.”
9.4.12
“Pluripolares”
O meu filho mais novo tem uma capacidade fantástica, herdada de mim, que consiste em chorar e rir ao mesmo tempo. Há alturas em que ambas as ações são tão convictas que fico sem perceber qual é a que prevalece. E isto faz-me lembrar a bipolaridade, uma doença em que a pessoa passa muito rapidamente de um extremo de humor ao outro, diamentralmente oposto. Deverei com isto assumir que o meu pestinha e eu somos bipolares? Não me parece. Somos apenas pessoas que conseguem achar graça a alguma coisa, mesmo estando a chorar.
Por outro lado, também se diz que é bipolar quem tem duas personalidades, como se houvesse duas pessoas dentro de uma. Nesse caso não teremos todos uma boa dose de bipolaridade? Se a personalidade, numa definição muito leiga e popular, é o "conjunto das características marcantes de uma pessoa”, não poderemos assumir que todos temos em nós características marcantes antagónicas?
Senão vejamos: todos somos bons e maus; santos e pecadores; grandiosos e pequeninos. Todos conseguimos ser egoistas e generosos; compreensivos e incompreensivos; tolerantes e intolerantes. Creio que não haja um único ser à face da terra que não tenha já sentido amor e ódio, vontade de perdoar e desejo de vingança; medo e coragem. É certo que há uma tendência mais prevalente para algum dos lados mas, ainda assim, ninguém me tira a convicção que o ser humano é, por definição, um ser “pluripolar”. Apenas nos resta decidir qual dos polos nos “sabe” melhor… como faz o meu filhote, que acaba por decidir sempre que rir é muito melhor que chorar!
Ana Dias
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