(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

3.2.12

Aspirador de mulheres



Tenho um amigo que costuma dizer que as lojas são aspiradores de mulheres.
- A sério, Ana! Sabes a quantidade de vezes que já me aconteceu ir na rua, na conversa  com algum dos seres do teu género ( ou deverei dizer espécie?) e olho para o lado só para perceber que estou a falar sozinho porque ela já foi “sugada” por uma loja?? – Quando diz isto está sempre entre o estado divertido e um amuo pincelado de incredulidade.  
  E eu encolho os ombros a sorrir. Não tenho defesa possível. Bem podia esgrimir o tema, tentando proteger o meu género ( ou devei dizer espécie?) com argumentos que nem a mim me convenceriam, mas não vale a pena. Concordo e dou a mão à palmatória.
- É que quando uma pessoa já vai mentalizada para umas horas nas compras,  ainda se aguenta… mas somos constantemente apanhados desprevenidos! Não há nada a fazer!  - Torna ele.
  E nem vale a pena explicar-lhe que as lojas cheiram bem e são um agrado aos nossos olhos e demais sentidos. Quando uma mulher entra numa loja, ou melhor, é “aspirada” lá para dentro, entra num mundo perfeito em que todas as coisas que nos ocupam a mente são filtradas à porta e ficam de fora, na rua, entregues aos elementos. Quando uma mulher se vê no reduto sintetizado da perfeição, com todas as cores, formas e brilhos, perde-se da existência banal e sintoniza-se numa frequência quase poética.
   As lojas, para as mulheres, são quase como um bom romance. Lançam-nos num universo de beleza sedutora na qual voamos para longe, para hipotéticas festas perfeitas em que, como deusas do Olimpo, poderiamos envergar aqueles fabulosos vestidos e encantadores acessórios. 
   Posso calar-me quando o meu amigo diz que as lojas são aspiradores de mulheres, mas falo agora, para vos dizer que concordo e que… ainda bem que assim é porque, afinal, merecemos ou não que algo nos salve de todo o esforço que constantemente fazemos para o bem estar de todos ao nosso redor? 
   E vocês, mulheres que estão a ler esta crónica, digam lá se não deveríamos todas dar graças por essa força indecifrável mas poderosa, qua constantemente nos suga?
Ana Dias

2.2.12

Os níveis do Sudoku

  
 Devo ter herdado da minha mãe  esta mania de fazer palavras cruzadas e sudokus.  O sudoku, por exemplo, é uma charada  matemática  em que os números se têm que ordenar de uma única forma possível, e  é bastante agradável pela sua capacidade de nos fazer desligar o pensamento de tudo, restando apenas, a ecoar na nossa mente, um raciocínio numérico e apaziguador.
   Como em quase todas as minhas paixões, também nas fases “sudokuscas” mais intensas que por vezes atravesso, torno-me de tal forma compulsiva que tenho que ter revistas de sudokus, no quarto, na sala, no carro, no escritório e até nas casas de banho…  
   Mas perdoem-me pois estou a alongar-me demais para vos transmitir o que pretendo. É que o sudoku ( e quem o faz comprovará que é verdade) costuma ter quatro níveis de dificuldade, normalmente assinalados por estrelinhas.  Há alturas que me apetece estar a fazer os mais fáceis, os que são “de caras” e que, para dar mais interesse, até costumo cornometrar. Mas,  a maior parte das vezes, quanto mais difíceis são, mais prazer me dão! Ando às turras com os números,  desenvolvo novos métodos, coloco todas as hipóteses, desespero e, finalmente, consigo: o sabor é tão melhor!
 E é precisamente aqui que chego à ideia que vos queria apresentar. Já pensaram que os desafios que a vida vos trás podem ser como sudokus? Os fáceis, realmente,  têm essa vantagem: são fáceis… facilmente concretizáveis e de agradável e pronta resolução. Mas quanto mais estrelas trazem os desafios da vida, mais eles nos deveriam dar um enorme gozo e sentido de realização. Porque, bem feitas as contas, é quando os sudokus da vida são difíceis, que percebemos que as nossas capacidades são muito maiores do que suspeitávamos. E é nesses que efetivamente evoluímos e nos realizamos enquanto pessoas racionais, inteligentes e preparadas.
  Por isso, meus caros, da próxima vez que o “sudoku” vos pareça impossível de solucionar, inspirem-se, superem-se e… realizem-se!
Ana Dias

1.2.12

Por um fio de pensamento


  Desliguei o telefone com um sorriso. Não falávamos há alguns meses, mas despediram-se com as frases que desde há tantos anos usam – Adios, hija mia. Volta depressa! Sabes  que a nossa casa é tua. 
  Sempre que  o Luis e a  Luz me ligam, da sua casa em Medellin, Colômbia, intensificam-me a alegria de saber algo que nunca esqueço. Que sou amada em vários pontos do Mundo. Que lhes deixei a mesma marca de amor que também eles gravaram em mim.
  Mas o dia de ontem teve outros reencontros telefónicos e cibernáuticos de valor inestimável. Várias pessoas que  amo,  e que há muito tempo não vejo, contactaram-me… como se o facto de eu me andar a lembrar mais delas lhes tivesse despertado algum sexto sentido que lhes criou a vontade de me ouvir a voz.
  E de repente percebo que talvez existam ondas invisíveis que dão a volta ao mundo em instantes breves mas intensos. Ondas que, como uma mágica brisa quente,  percorrem continentes e mares e tocam no ombro de quem está longe, sussurrando o nosso amor e lembrança.  Quem sabe se todas as pessoas de quem me tenho lembrado não “ouviram” o meu doce pensamento, através do misterioso fio que nos une?
Ana Dias

31.1.12

Pedra tumular


Ontem à noite, depois de um esforço titânico para conciliar desavindos, pensei na maneira como tenho conduzido a minha vida. A minha formação académica preparou-me para os pleitos mas, uma das maiores máximas do meio judicial é: “ mais vale um mau acordo que uma boa demanda”…   e se assim é, talvez seja pelo facto de a razão “popular” perceber que a grande fonte das soluções para os problemas reside na paz e não na guerra…
   Sem dúvida! A formação académica e profissional prepararam-me para os conflitos… mas a minha alma veio preparada para as conciliações e para as resoluções dos conflitos apelando à parte boa que existe no coração de cada pessoa. Mais vale um mau acordo que uma boa demanda. Mais vale ceder e condescender do que astear o orgulho e os argumentos como uma bandeira de aço.
Pensei em tudo isto ontem à noite e percebi que toda a vida me tenho baseado nos maus acordos para evitar as boas demandas. Tenho caminhado as  largas avenidas da minha existência a comprovar que quase sempre os maus acordos se convertem em ganhos inegáveis e numa paz sólida e redentora. Não fomos feitos para a guerra. Fomos feitos para aprender a viver com dádivas que se repercutem no Mundo até voltarem a nós em forma de amor e harmonia!  Experimentem vocês mesmos para entenderem do que falo…
   E é por isso que, nas minhas reflexões noturnas de ontem, percebi que sei viver bem. Sei viver como quero, regida por leis superiores de entendimento e amor. E é também por isso que decidi que  as palavras que quero que se gravem na minha pedra tumular sejam: “Ela soube viver!”
Ana Dias

30.1.12

Matar saudades



 - E vais por quanto tempo? – Perguntou ela,  quando lhe contei que ia de viagem.
- Dez dias. Não, onze. – Respondi.
- Tanto?? Não podias ir cinco agora e cinco noutra altura? – Propôs-me, meio embeiçada.
- Querida… Atravessar o Atlântico sai caro e é cansativo, tem que se aproveitar para ficar um pouco mais que cinco dias! – Eu sabia perfeitamente que a birrinha dela era mimo de “mana” mais nova que está habituada a ter-me sempre à distância de cinco minutos de caminho mas, ainda assim, entrei na brincadeira.
  Fui sabendo das saudades dela pelos comentários às minhas crónicas, mas foi hoje, enquanto matavamos as saudades num almoço junto ao mar, que percebi finalmente a veracidade do beicinho…
- Hoje a crónica vai ser para ti! – Disse-lhe enquanto içava o telemóvel para fazer a fotografia ilustrativa do carinhoso momento.
- … O amor prefeito… - Disse-me, olhos nos olhos, enquanto admirava, no ecrã do Iphone, a imagem que saíra.
  Sorri. Entendi-a. Não que todos os outros amores não sejam igualmente perfeitos, mas há qualquer coisa nas amizades profundas que se reveste de uma paz noutros casos inalcançável. Neste almoço percebi que,  para ela, onze dias foram mesmo demais, mas redimi-me a falar-lhe das descobertas que fiz, qual afoito marinheiro de outros tempos.  Ouviu-me com atenção quando lhe repeti, com a convicção renovada que trouxe desta jornada, que não é o que nos acontece na vida que é bom ou mau: é a forma como o encaramos que torna os acontecimentos bons ou maus. Também ela me entendeu e foi assim, olhos nos olhos, junto ao mar, que lá fomos começando a matar as nossas saudades.
Ana Dias

29.1.12

Surpresas


  Quase 48 horas depois de ter dormido pela última vez, começo a abandonar valeidades de me mostrar sem sinais de cansaço.  Memórias dos últimos abraços a quem ficou do lado de lá do Atlântico, misturam-se com os risos alegres de quem encontro neste lado.
    O corpo já pede cama, os olhos querem fechar e o pensamento já não escorre com o costumeiro caudal mas, depois de onze dias ausente, como poderia recusar um passeio de bicicleta com as crianças? Como poderia não ser eu a oferecer-lhes o ritual do banho e dos pijamas?  E recordo o último banho que lhes dei… recordo quem eu era há tão poucos dias; tudo o que não tinha visto, vivido, aprendido. Como se o banho que lhes dei há onze dias tivesse acontecido numa outra vida…
   É este o balanço correto de qualquer viagem: chegar-se infinitamente mais rico do que se partiu. Trazer na bagagem ofertas para todos, mas trazer mais, muito mais,  em nós mesmos. Independentemente do destino, companhia ou objetivo de cada viagem,  a real importância de tal  investimento é o enriquecimento pessoal: as vivências que trazemos, tatuadas na pele; os afetos conquistados pela rapidez de um sorriso franco; as memórias de momentos cinematográficos que nos acompanhão pela vida; os vislumbres dos mundos que dentro do mundo cabem; e tantas outras experiências que passam a fazer parte de nós.
   Mas quando, além de tudo isto, se traz a descoberta de uma asa protetora, de contornos paternais, percebemos que  a vida é, realmente, uma fonte inesgotável de aconchegantes surpresas…
Ana Dias

27.1.12

Laços


   Há laços que não se soltam. Faça chuva ou faça sol (mesmo em países ditos tropicais),  há uniões indissolúveis que o tempo só consolida.
   Ao longo dos últimos meses tenho descoberto uma amiga que acumula funções. Uma companheira leve, ligeira e de riso fácil, que se tem revelado uma inesgotável fonte de boas surpresas. É muito bom ter uma tal amiga,  que nos ouve os desabafos e aceita as nossas escolhas. A riqueza incontornável de ter por mãe uma amiga assim, torna-nos a vida mais leve, como se o peso que por vezes nos cai sobre os ombros se esfumasse num passo mágico.
   Nesta primeira viagem, apenas partilhada com a “Ninita”, sei que posso não ser, para ela, a companhia que mais lhe agradaria… mas sei que sou uma segunda escolha segura.
Ana Dias

26.1.12

Lar de afetos


  Quando ontem cheguei de novo, cansada e feliz, a casa do Vítor e da Micá, comentei com um suspiro:
- Como é bom estar em casa! –
O meu desabafo, tão verdadeiro quanto sentido, causou-lhes risos. Afinal apenas cá tinha pernoitado três noites e estou a milhares de quilómetros de casa… Mas o abraço paternal do Vítor, o sorriso ternurento da Micá e o olhar orgulhoso da minha mãe, tiraram-me, num segundo, a nostalgia do adeus a Buenos Aires!
 Hoje, enquanto almoçávamos na paradisíaca casa do Álvaro e do Víctor Emanuel, seus amigos,  comentei precisamente isso: que o lar está onde se encontram os afetos. E não foi à toa nem levianamente que me senti também lá como se a minha terceira nuvem à esquerda se tivesse, de súbito, materializado. A beleza etérea  e indescritível daquele cantinho de céu, deixou-me a meio caminho entre a comoção e o pasmo. Cada recando tem alma, história, estórias e afetos. Cada detalhe revela a exultação criativa e existencial dos seus criadores/ocupantes. Quem vive assim,  na mais perfeita réplica de éden terrestre é porque, indiscutivelmente, o merece.
   Mas não foi só a beleza mística do local, nem a sua fabulosa energia,  que me fascinaram. Perguntei-lhes se me queriam adotar por me conseguir imaginar a viver num sítio assim, e na companhia de duas pessoas tão magnéticas e preciosas.
- Somos almas gémeas.  – Disse-me o Álvaro, também escritor (  e matemático e escultor e dono de várias outras capacidades criativas ) após falarmos um pouco e nos antendermos a um nível tão profundo quanto se podem entender dois seres que falam a mesma linguagem interior.
Respondi-lhe com o olhar. E ele sabe o que lhe disse. Porque, bem feitas as contas, sentimo-nos em casa onde quer que haja velhos afetos… ou novos afetos se criem!
Ana Dias

25.1.12

De modo Tango a modo Samba



  De novo nas nuvens, regresso ao Rio, onde me aguardam para um lanchinho no Leblon. Enquanto me preparo para passar do modo Tango para a frequência do Samba, vou recordando alguns factos curiosos que me chamaram a atenção em Buenos Aires.
    As avenidas são larguíssimas e muitas delas de um só sentido. Grande parte da cidade é de desenho quadrangular ( tipo Vila Real de Santo António, mas um bocadinho maior), sendo que os edícios modernos estão, muitas vezes, lado a lado com estilos arquitetónicos que nos deixam com a sensação de estar em Paris. Os pombos são chatos e descaradões e as casas de banho femininas estão assinaladas com um “M” de mulher e não um”S” de senhora. Porque será?  É muito raro esperar mais de um minuto por taxi ou estar mais de trinta segundos sem ouvir algum piropo engraçado e decente. Ouve-se tango por toda a parte mas,  infelizmente, também se ouve o “ai se eu te pego” do Talló não sei das quantas ( alguém devia criar uma lei que impedisse que a dita música passe em sítios  públicos! ).  As livrarias são excelentes e a meia de leite vem sempre acompanhada por um copo de água com gás  o que,  após exaustivas e profundas considerações, continuo sem conseguir explicar!   Os homens cumprimentam-se entre si com um só beijo na face esquerda e só usam brilhantina quando vão dançar o tango. Os nativos de Buenos Aires são conhecidos como “porteños” e  são muito afáveis, mas falam com um sotaque tão cantado que demoram o dobro do tempo para dizer cada palavra.  As expressões mais usadas são o “dále” que significa ok, está bem, fica combinado e o “como no?”, que nada mais é que uma forma complicada que têm para dizer sim.   Muito mais há para contar, mas por aqui me fico… numa saudade enternecida por mais uma cidade que me conquistou.
Ana Dias
  

23.1.12

A vida num tango


A pequena orquestra começa a tocar e os dançarinos tomam o palco. A pele arrepia-se e os sentidos apuram-se, não querendo perder nenhum detalhe daquele banquete emocional.
  No café de los Angelitos, em Buenos Aires,  o ambiente quer fazer-nos regressar à primeira metade do século passado. Durante um bom bocado, desço do meu covil, na terceira nuvem à esquerda, e entrego-me em absoluto à paixão.
   Para ser sincera, quando me sentei para jantar ( a carne aqui é realmente divina, devem fazer qualquer coisa às vacas…) e ver o show de tango, não estava à espera de ver os artistas a fazer amor em palco! Porque, acreditem, é realmente isso que fazem enquanto dançam. E nós, pobres e mortais turistas, ficamos ali, como voyeurs embasbacados, a sonhar dançar como eles dançam e apaixonar-nos com aquela mesma paixão.
  Os corpos movem-se com um frenesim tão extasiado quanto é expressivo o rosto de cada bailarino. Sente-se-lhes a tensão do desejo e a dor de quanto sofre quem apaixonadamente ama.  Então as quatro pernas rodopiam e entrelaçam-se a uma velocidade tão super-sónica que ficamos com a respiração em suspenso, a temer que, a qualquer momento, um passo em falso os faça ficar estérieis para todo o sempre.
  Se alguém me perguntasse, diria que é a mais perigosa das danças: a tensão emergente, ao confluir com rios de desejo banhados em expressão corporal levada ao limite, parece capaz de provocar uma síncope aos exímios executantes. Tango é desejo ardente,  é paixão pulsante e perigo iminente. Tango é vida, arte e amor.
  É por isso,  e só por isso, que além de vos desejar que algum dia vejam algo assim, me desejo a mim, a vida num tango…
Ana Dias

22.1.12

O baterista sem ritmo


“Conheci” o  Diego Torres há uns catorze anos, através de uma música cheia de boa energia, cujo refrão reza mais ou menos assim: “ Saber que se puede / creer que se pueda / quitarse los miedos / sacarlos afuera / pintarse la cara / color esperanza / entrar al futuro / com el corazón…”
   O concerto que ontem vi, durou mais de três horas nas quais, além do músico fantástico (cuja obra tenho acompanhado desde então) descobri uma pessoa cheia de humor, otimismo e energia, o que me deixou a pensar que, normalmente, o sucesso e o bem viver estão diretamente ligados à nossa paixão pela vida.
  Não concebo, por exemplo, que um baterista não tenha ritmo, um cantor não tenha voz ou um músico não tenha musicalidade. Da mesma forma, não consigo perceber como pode haver pessoas que queiram ser amadas e felizes sem saberem amar e ser, por si mesmas, felizes.
  Cada um de nós é um íman, cujo poder de atração aumenta de acordo com o seu nível interior de positivismo, boa energia e capacidade de existir de forma melodiosa e harmónica…
   Cozinho estas palavras na companhia de uma cerveja, numa esplanada em San Telmo, ( Cuja feira de domingo é uma verdadeira delícia ) depois de ter comprado prendinhas para todos os meus amores. Porque a distância acentua as ternuras e faz-nos querer brindar os ausentes com toda a nossa saudade.
  Por agora aqui termino, com uma grande beijo para todos, pois os sons do tango reclamam a minha atenção.
Ana Dias

21.1.12

Tu Buenos Aires querida…


  Enquanto sobrevoo o Uruguai não conconsigo evitar que uma lágrima caia, com vida própria, enquanto a voz dele me soa como se a estivesse realmente a ouvir.
- Ai, Buenos Aires, querida… É maravilhosa. Talvez seja das cidades de que, até hoje, mais gostei. – Disse-me ele há uns tempos.  – Quando puderes ir, não percas! –
  Não sei se o meu pai tinha ou não, planos de regressar à sua Buenos Aires querida, mas vou honrar a sua memória ao percorrer a sós, nos próximos dias, caminhos já por ele percorridos.
  E é numa esplanada cercana ao Obelisco  que escrevinho estas palavras em papel, para daqui a pouco as partilhar convosco. Escrevo a deliciar-me com a atmosfera da mais europeia cidade da América do Sul. Entre sons de tango e de animadas gentes, a respirar o Verão de 2012 ( que já aqui chegou ) oiço-lhe de novo a voz e vejo-lhe de novo o rosto…
- Cá estou, pai…. En tu Buenos Aires querida… Não voltaste em pessoa, mas regressas em legado, genes e memória.
Tua, Ana.
  Pode ser só impressão minha, mas gosto de acreditar que ele “leu” isto enquanto eu escrevia, pois ao vir publicar mais esta crónica,  vejo um espetáculo do meu adorado Diego Torres, numa sala de espetáculos a vinte metros do Hotel…
- Queres mesmo que eu me divirta, não é pápi? -
Ana Dias