Os homens precisam de proteção
Se houvesse um medidor de sensibilidades quem é que ficaria no topo da lista? Se se fizessem estudos gerais, cientificamente comprovados, seriam os homens ou as mulheres a ser considerados os mais sensíveis?
Sobre essas eventuais conclusões apenas me posso permitir divagar, já que desconheço a existência de tais estudos. No entanto a análise empírica que os anos e a atenção ao comportamento humano me têm revelado é que os homens são tão sensíveis como as mulheres, senão mais.
Os homens também se emocionam, entristecem, desesperam e caem por dentro. Os homens também têm inseguranças, conflitos interiores, dores escondidas, traumas, medos. Os homens também sentem falta do "amo-te", do "não te preocupes", do "eu protejo-te" e, sobretudo, do "chora, não faz mal chorar".
Esperamos que os nossos maridos, namorados, pais, filhos, irmãos e amigos sejam fortes. Esperamos que estejam sempre bem, sorridentes, protetores. Esperamos não ter que lidar com as suas sensibilidades, fraquezas e lágrimas, porque esses atributos era suposto serem direitos só nossos.
Os homens são privados pela natureza do super poder de parir, e são castrados pela sociedade do seu direito à sensibilidade e suas manifestações. Eles têm o azar de não poder chorar, ter ataques histéricos e esconder-se depois atrás de tensões pré menstruais. Quanto à privação que a natureza lhes trouxe, nada há a fazer. Mas o direito à sensibilidade tem que ser por eles resgatado, de preferência com o nosso incentivo e, claro, sob a nossa proteção.
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
13.1.13
Equilíbrio
Equilíbrio
Once upon a time, há muitos, muitos anos...
Tinha eu acabado de tirar a carta e tive que levar o carro sozinha numa curta viagem. Na noite anterior custou-me a adormecer. Imaginei uma e outra vez os pontos do percurso em que teria de parar em subidas. Tentei prever como faria algo que ainda não dominava: o ponto de embraiagem.
O ponto perfeito de um corpo está no exato meio caminho: nem gordo nem magro.
A elegância situa-se no ponto preciso que concilia a sensualidade com o recato.
E os homens querem-se extremamente sensíveis... na sua masculinidade, enquanto as mulheres devem ser divinas, mas sem a postura de divas.
As pessoas mais atraentes sabem estar a meio caminho entre a sensatez e a loucura; entre a inteligência e a inocência.
As pessoas mais sábias conseguem ter uma maturidade infantil, uma seriedade humorada e uma divindade animal.
Queremos partilhar a vida com quem seja generoso, mas não ganancioso; com quem nos ame apaixonadamente mas sem nos querer possuir; com quem seja atento mas não controlador; seguro mas não detentor de excessos de confiança.
Somos mais felizes ao ser sensíveis sem ser piegas; humildes, mas grandiosos; atentos mas distraídos e fortes nas nossas fraquezas.
Domino o ponto de embraiagem há quase duas décadas, como o domina bem quem muito guia e gosta de o fazer. É ao conduzir-me pela vida que vejo que as coisas não são assim tão simples. O equilíbrio é uma conquista constante, diária, sofrida, feita no esforço de aprender a manter-me no ponto certo entre dois extremos.
Sim, acredito mesmo que equilibrado é quem domina o ponto de embraiagem da vida!
Ana Amorim Dias
Once upon a time, há muitos, muitos anos...
Tinha eu acabado de tirar a carta e tive que levar o carro sozinha numa curta viagem. Na noite anterior custou-me a adormecer. Imaginei uma e outra vez os pontos do percurso em que teria de parar em subidas. Tentei prever como faria algo que ainda não dominava: o ponto de embraiagem.
O ponto perfeito de um corpo está no exato meio caminho: nem gordo nem magro.
A elegância situa-se no ponto preciso que concilia a sensualidade com o recato.
E os homens querem-se extremamente sensíveis... na sua masculinidade, enquanto as mulheres devem ser divinas, mas sem a postura de divas.
As pessoas mais atraentes sabem estar a meio caminho entre a sensatez e a loucura; entre a inteligência e a inocência.
As pessoas mais sábias conseguem ter uma maturidade infantil, uma seriedade humorada e uma divindade animal.
Queremos partilhar a vida com quem seja generoso, mas não ganancioso; com quem nos ame apaixonadamente mas sem nos querer possuir; com quem seja atento mas não controlador; seguro mas não detentor de excessos de confiança.
Somos mais felizes ao ser sensíveis sem ser piegas; humildes, mas grandiosos; atentos mas distraídos e fortes nas nossas fraquezas.
Domino o ponto de embraiagem há quase duas décadas, como o domina bem quem muito guia e gosta de o fazer. É ao conduzir-me pela vida que vejo que as coisas não são assim tão simples. O equilíbrio é uma conquista constante, diária, sofrida, feita no esforço de aprender a manter-me no ponto certo entre dois extremos.
Sim, acredito mesmo que equilibrado é quem domina o ponto de embraiagem da vida!
Ana Amorim Dias
11.1.13
Lucidez
Lucidez
- Mãe, tens ali lugar.-
- Aquele é para deficientes, João.-
Silêncio.
- Mãe?-
- Huum.-
- Os deficientes podem parar nos lugares todos?-
- Sim meu amor, desde que não sejam lugares proibidos.-
- Mãe?-
- Huummmmm!?-
- ... Eu sou deficiente?-
- Não, João! Tu tens todas as capacidades corporais e mentais.-
Acabei por estacionar e acompanhá-lo com os olhos no seu caminhar para a escola, mas o estupor do puto deixou-me a pensar, aliás como sempre faz.
Será que o défice de capacidades físicas ou mentais é que determina quem é ou não é deficiente? Ou será o défice de ternura, lucidez, e capacidade de amar, entender e perdoar? Não tenho a mais pequena dúvida: deficiente é apenas quem tem défices na mais básica estrutura interior que o ser humano deve ter: um grande coração.
Obrigada, João, por essa tua vozinha traquina e lúcida que é, tão amiúde, a voz da minha própria lucidez.
Ana Amorim Dias
- Mãe, tens ali lugar.-
- Aquele é para deficientes, João.-
Silêncio.
- Mãe?-
- Huum.-
- Os deficientes podem parar nos lugares todos?-
- Sim meu amor, desde que não sejam lugares proibidos.-
- Mãe?-
- Huummmmm!?-
- ... Eu sou deficiente?-
- Não, João! Tu tens todas as capacidades corporais e mentais.-
Acabei por estacionar e acompanhá-lo com os olhos no seu caminhar para a escola, mas o estupor do puto deixou-me a pensar, aliás como sempre faz.
Será que o défice de capacidades físicas ou mentais é que determina quem é ou não é deficiente? Ou será o défice de ternura, lucidez, e capacidade de amar, entender e perdoar? Não tenho a mais pequena dúvida: deficiente é apenas quem tem défices na mais básica estrutura interior que o ser humano deve ter: um grande coração.
Obrigada, João, por essa tua vozinha traquina e lúcida que é, tão amiúde, a voz da minha própria lucidez.
Ana Amorim Dias
10.1.13
Fascínio
Fascínio
Vi-o aqui, virtual, no meio de tantas outras caras. Não olhei apenas. Tentei ver. Ver para lá das barbas e das rugas. Ver para lá da pele pintada de sol e dos olhos de dureza cristalina. Tentei ver o que apenas posso imaginar: quem será; o seu percurso; as suas estórias; as pequenas e grandes escolhas que fizeram deste o seu olhar. E deixei-o logo entrar, altaneiro, no romance que agora escrevo. Não posso saber o que lhe deu este olhar, mas posso muito bem imaginar.
O Homem fascina-me completamente. Não este, todos. O ser humano em geral, transformado em indivíduo, é a mais fascinante maravilha que existe. Creio que é por isso que me apaixono por toda a gente, excepto talvez pelas poucas pessoas que conseguem a difícil tarefa de ser totalmente desprovidas de interesse.
E, ao concretizar estes pensamentos, percebo melhor a minha sorte. Percebo que esta afortunada paixão é o que me faz conseguir ver em vez de apenas olhar; percebo que esta compulsão pelos outros é o que me constrói e dá a capacidade de entender, não julgar e amar quem conheço e não conheço. É por isso que escrevo, mais que tudo, sobre pessoas, sobre vida. Porque o meu maior fascínio é, sem a mais pequena dúvida, o Homem.
Ana Amorim Dias
Vi-o aqui, virtual, no meio de tantas outras caras. Não olhei apenas. Tentei ver. Ver para lá das barbas e das rugas. Ver para lá da pele pintada de sol e dos olhos de dureza cristalina. Tentei ver o que apenas posso imaginar: quem será; o seu percurso; as suas estórias; as pequenas e grandes escolhas que fizeram deste o seu olhar. E deixei-o logo entrar, altaneiro, no romance que agora escrevo. Não posso saber o que lhe deu este olhar, mas posso muito bem imaginar.
O Homem fascina-me completamente. Não este, todos. O ser humano em geral, transformado em indivíduo, é a mais fascinante maravilha que existe. Creio que é por isso que me apaixono por toda a gente, excepto talvez pelas poucas pessoas que conseguem a difícil tarefa de ser totalmente desprovidas de interesse.
E, ao concretizar estes pensamentos, percebo melhor a minha sorte. Percebo que esta afortunada paixão é o que me faz conseguir ver em vez de apenas olhar; percebo que esta compulsão pelos outros é o que me constrói e dá a capacidade de entender, não julgar e amar quem conheço e não conheço. É por isso que escrevo, mais que tudo, sobre pessoas, sobre vida. Porque o meu maior fascínio é, sem a mais pequena dúvida, o Homem.
Ana Amorim Dias
9.1.13
Orgasmo universal
A humanidade precisa de se vir. Mais, muito mais.
Vão perdoar-me a franqueza e o vocabulário, mas se em Tribunal os factos devem ser expostos clara e taxativamente, não vejo motivo para que tal não aconteça aqui também.
A frase que acompanha a fotografia não é minha, contudo, assim que a li, decidi que lhe queria fazer uns breves acrescentos.
"São poucos os problemas que um orgasmo não consegue resolver." Tão simples quanto isto! Para quê complicar mais?
Não importa se sozinhos ou acompanhados; se de forma simples ou mais rebuscada; se de noite ou de dia; o importante é que cada pessoa saiba ouvir e respeitar as necessidades do seu corpo. Há quem coma mais e quem tenha menos apetite. Há quem durma muito e quem se baste com poucas horas. O que não acredito que haja é pessoas sensatas e de bem com a vida...sem comer nem dormir.
Às vezes, perante pessoas demasiado irritadas, dou comigo a pensar: "Oh minha senhora, vá-se vir." ou "Caro senhor: já lhe fazia bem um orgasmo, não acha?" Se calhar é por isso que as pessoas se mandam foder umas às outras. Se virmos bem não é uma ofensa, é um conselho sensato, valioso e apropriado, que vale bem a pena acatar.
Ora se a constatação dos benefícios de assíduos orgasmos, na vida de cada indivíduo, é inegável, acredito piamente que a humanidade daria um enorme salto qualitativo se cada um dos seus componentes aprendesse a respeitar melhor as necessidades do seu corpo. Embora o chavão "make love not war" me pareça demasiado redutor, tenho a certeza absoluta que muitos dos problemas do mundo se começariam a atenuar se cada ser humano contribuísse, fazendo a sua parte.
Agora dêm-me licença que tenho de ir ali ajudar a salvar o Mundo.
Ana Amorim Dias
Vão perdoar-me a franqueza e o vocabulário, mas se em Tribunal os factos devem ser expostos clara e taxativamente, não vejo motivo para que tal não aconteça aqui também.
A frase que acompanha a fotografia não é minha, contudo, assim que a li, decidi que lhe queria fazer uns breves acrescentos.
"São poucos os problemas que um orgasmo não consegue resolver." Tão simples quanto isto! Para quê complicar mais?
Não importa se sozinhos ou acompanhados; se de forma simples ou mais rebuscada; se de noite ou de dia; o importante é que cada pessoa saiba ouvir e respeitar as necessidades do seu corpo. Há quem coma mais e quem tenha menos apetite. Há quem durma muito e quem se baste com poucas horas. O que não acredito que haja é pessoas sensatas e de bem com a vida...sem comer nem dormir.
Às vezes, perante pessoas demasiado irritadas, dou comigo a pensar: "Oh minha senhora, vá-se vir." ou "Caro senhor: já lhe fazia bem um orgasmo, não acha?" Se calhar é por isso que as pessoas se mandam foder umas às outras. Se virmos bem não é uma ofensa, é um conselho sensato, valioso e apropriado, que vale bem a pena acatar.
Ora se a constatação dos benefícios de assíduos orgasmos, na vida de cada indivíduo, é inegável, acredito piamente que a humanidade daria um enorme salto qualitativo se cada um dos seus componentes aprendesse a respeitar melhor as necessidades do seu corpo. Embora o chavão "make love not war" me pareça demasiado redutor, tenho a certeza absoluta que muitos dos problemas do mundo se começariam a atenuar se cada ser humano contribuísse, fazendo a sua parte.
Agora dêm-me licença que tenho de ir ali ajudar a salvar o Mundo.
Ana Amorim Dias
8.1.13
Provar o Mundo
Provar o Mundo
Cinco dias por semana. Sempre pela fresquinha. Dez quilómetros de retas e curvas, forradas de verde se o ano é de chuva. Um rebanho de ovelhas, duas ou três perdizes. Umas galinhas à solta e um casal de pavões na rotunda do Rio Seco. E quando o verão se aproxima: lagartixas, uma ou outra cobra e atenção redobrada para não esborrachar algum adorável camaleão. E vacas, também há vacas.
Carros? Depende. Entre cinco e quinze. Incluindo tratores e motinhas-camião.
Amendoeiras. Alfarrobeiras. Estevas. Umas pequenas hortas os meus preferidos, os paus de pita, que ganha quem contar mais.
Companhia? A melhor: dois fedelhos ensonados, uma banda sonora boa e os pensamentos matinais que me brotam das entranhas como géiseres inflamados.
Mas o ponto alto são os pedaços de caminho em que o sol me atinge de frente, num óbvio convite a saborear a vida.
"O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído", canta o brasileiro na rádio. "O sabor do Mundo vai-me chegar, enquanto eu o quiser provar", canto eu, de frente para o sol.
Ana Amorim Dias
Cinco dias por semana. Sempre pela fresquinha. Dez quilómetros de retas e curvas, forradas de verde se o ano é de chuva. Um rebanho de ovelhas, duas ou três perdizes. Umas galinhas à solta e um casal de pavões na rotunda do Rio Seco. E quando o verão se aproxima: lagartixas, uma ou outra cobra e atenção redobrada para não esborrachar algum adorável camaleão. E vacas, também há vacas.
Carros? Depende. Entre cinco e quinze. Incluindo tratores e motinhas-camião.
Amendoeiras. Alfarrobeiras. Estevas. Umas pequenas hortas os meus preferidos, os paus de pita, que ganha quem contar mais.
Companhia? A melhor: dois fedelhos ensonados, uma banda sonora boa e os pensamentos matinais que me brotam das entranhas como géiseres inflamados.
Mas o ponto alto são os pedaços de caminho em que o sol me atinge de frente, num óbvio convite a saborear a vida.
"O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído", canta o brasileiro na rádio. "O sabor do Mundo vai-me chegar, enquanto eu o quiser provar", canto eu, de frente para o sol.
Ana Amorim Dias
7.1.13
O envelope
O envelope
Pelos dias do Natal, o João correu para mim com um grosso envelope na mão.
- Chegou correio para ti, mãe!-
Satisfiz-nos a curiosidade e abri-o logo ali. Tinha que estar um tesouro lá dentro, vindo de quem vinha!
Um cartão acompanhava a coleção de postais: "Querida Amiga, quando vi isto lembrei-me logo de ti, espero que gostes!(...)"
Comecei a lê-los um por um.
Lembrança: A gaveta que fica sempre aberta.
Amor: Encontrar-nos para ficar.
Humor: Despertar um sorriso.
Esperança: Enrolar novelos de sonhos.
Sonho: As árvores que crescem no sono.
Felicidade: Os pés quentes em dias nublados.
Desejo: Um beijo parado nas nuvens.
Saudade: O ontem que vem.
O João foi-se embora, desinteressado, e eu fiquei com um sorriso do tamanho da cara toda. As amizades improváveis têm um valor acrescido. É por isso que vos deixo mais uma outra definição.
Amizade: O envelope dos tesouros.
Obrigada, Sofia!
Ana Amorim Dias
(Nota: as oito frases transcritas são da autoria de "caramelo-frases que querem dizer")
Pelos dias do Natal, o João correu para mim com um grosso envelope na mão.
- Chegou correio para ti, mãe!-
Satisfiz-nos a curiosidade e abri-o logo ali. Tinha que estar um tesouro lá dentro, vindo de quem vinha!
Um cartão acompanhava a coleção de postais: "Querida Amiga, quando vi isto lembrei-me logo de ti, espero que gostes!(...)"
Comecei a lê-los um por um.
Lembrança: A gaveta que fica sempre aberta.
Amor: Encontrar-nos para ficar.
Humor: Despertar um sorriso.
Esperança: Enrolar novelos de sonhos.
Sonho: As árvores que crescem no sono.
Felicidade: Os pés quentes em dias nublados.
Desejo: Um beijo parado nas nuvens.
Saudade: O ontem que vem.
O João foi-se embora, desinteressado, e eu fiquei com um sorriso do tamanho da cara toda. As amizades improváveis têm um valor acrescido. É por isso que vos deixo mais uma outra definição.
Amizade: O envelope dos tesouros.
Obrigada, Sofia!
Ana Amorim Dias
(Nota: as oito frases transcritas são da autoria de "caramelo-frases que querem dizer")
6.1.13
Nunca caio de saltos altos
Nunca caio de saltos altos!
Comecei a desconfiar do seu problema gravítico há muitos anos e comecei logo a alertá-la para o facto.
- Tem cuidado, Ana, não caias! - disse-me certo dia, a meio de um passeio campestre, mesmo antes de se estatelar, redonda, bem à frente dos meus olhos.
As suas quedas são uma constante tão assídua que chego a conjeturar a hipótese de a mãe Terra a estar sempre a querer abraçar!
Foi sabendo de todo este contexto que há dias, ao sairmos do aeroporto, lhe dei o braço antes de colocarmos os pés numas escadas rolantes.
- Cuidado, rapariga, não te destramonques!- alertei.
E ela, muito solene e segura, respondeu-me prontamente: -Nunca caio de saltos altos!-
Tenho que vos confessar que o momento adquiriu contornos cinematográficos. Pareceu-me começar a ouvir uma big band a tocar ao mesmo tempo que me senti acometida por um arrepio emocionado devido a tal revelação. Grande nome para um romance manhoso! Pena que eu não escreva desses ou já teria meio caminho andado!
Ela viu o meu ar maravilhado.
- Vai dar crónica, não vai? - o seu sorriso rasgado nem precisou de resposta. É que os saltos altos são a poção mágica da confiança feminina. É por isso que, sob o efeito dos seus super poderes, nada nos pode fazer cair!
Ana Amorim Dias
Comecei a desconfiar do seu problema gravítico há muitos anos e comecei logo a alertá-la para o facto.
- Tem cuidado, Ana, não caias! - disse-me certo dia, a meio de um passeio campestre, mesmo antes de se estatelar, redonda, bem à frente dos meus olhos.
As suas quedas são uma constante tão assídua que chego a conjeturar a hipótese de a mãe Terra a estar sempre a querer abraçar!
Foi sabendo de todo este contexto que há dias, ao sairmos do aeroporto, lhe dei o braço antes de colocarmos os pés numas escadas rolantes.
- Cuidado, rapariga, não te destramonques!- alertei.
E ela, muito solene e segura, respondeu-me prontamente: -Nunca caio de saltos altos!-
Tenho que vos confessar que o momento adquiriu contornos cinematográficos. Pareceu-me começar a ouvir uma big band a tocar ao mesmo tempo que me senti acometida por um arrepio emocionado devido a tal revelação. Grande nome para um romance manhoso! Pena que eu não escreva desses ou já teria meio caminho andado!
Ela viu o meu ar maravilhado.
- Vai dar crónica, não vai? - o seu sorriso rasgado nem precisou de resposta. É que os saltos altos são a poção mágica da confiança feminina. É por isso que, sob o efeito dos seus super poderes, nada nos pode fazer cair!
Ana Amorim Dias
5.1.13
Em atualização
A vida é estranha "comó" caraças! Então não é que, depois de uma vida quase inteira a fugir a sete pés da cozinha, comecei a gostar de ir para lá ?!?
Isto começou há coisa de dois ou três anos: entrava como quem não queria a coisa, experimentava, saía-me bem, voltava a repetir... Tudo com muita contenção; com uma espécie de satisfação camuflada e reticente; com alguma desconfiança, até, nesta espécie de rendição carinhosa.
Mas ontem...! Ontem passei das marcas e apercebi-me de uma sensação nunca antes sentida: queria chegar a casa depressa; apetecia-me a cozinha; desejava a paz musicada daquele recanto de luz!
E enquanto me entregava à satisfeita preparação de um rolo de carne recheado, percebi que temos o nosso software em constante actualização! Quaisquer que sejam as características do nosso hardware pessoal, quaisquer que sejam os nossos sistemas operativos, capacidade de memória e por aí fora, passamos a vida em constantes e sucessivos downloads.
Se há uns anos me dissessem que no futuro eu iria apreciar os meus momentos na cozinha, provavelmente a minha resposta teria sido: - Só se for trocada por extraterrestres!-
Mas hoje, a atualização do meu software de gosto pela culinária faz-me compreender que as nossas características, gostos, aptidões e formas de encarar tudo na vida, são tão mutáveis e passíveis de upgrades como qualquer computador!
Ana Amorim Dias
4.1.13
Cavalheiro
- Porque estás a fazer comida tão bonita, mãe?
- Sabes, João? A comida, mais que uma satisfação animalesca, deve ser uma manifestação estética.
- Mas isso não devia ser só lá para baixo, para os casamentos?
- Claro que não, filho. A estética é um valor pelo qual devemos lutar sempre! Além disso a comida deve ser como as pessoas realmente atraentes: bonitas por fora e nutritivas por dentro.
Tenho ideia que às vezes não escolho bem as palavras para falar com o puto, mas ele não se atrapalha a tirar todas as dúvidas.
- Isso tem alguma coisa a ver com aquela conversa do outro dia... Aquela sobre como tratar as meninas, sabes? - questionou-me.
Há uns dias andei a explicar-lhes melhor algumas regras de etiqueta:
- ... e não há nada que enganar, pega-se nos talheres de fora para dentro à medida que a comida vai sendo trazida; o guardanapo ao colo, levado à boca antes de cada utilização dos copos e, quando a senhora se levanta, o cavalheiro deve também levantar-se levemente.-
- Explica melhor a das escadas, mãe!
- Ao subir deve ir o homem à frente, ao descer é ao contrário e já vos expliquei porquê: é muito indelicado porem-se a jeito para olhar para o rabo ou para o peito das senhoras!
Risos.
- A sério é mesmo assim!
Achei engraçado que o João tenha retido tão bem tal conversa, a ponto de ontem me pedir para a desenvolver um pouco mais.
- Conta-me mais regras daquelas das mulheres, mãe.- pediu.
- Muito bem: para teres encanto aos olhos delas, deves saber um pouco de tudo, de história, artes, filosofia, geografia... Deves abrir a porta do carro para ela entrar, puxar a cadeira para ela se sentar e deves olhá-la os olhos quando falas com ela. Deves mostrar-lhe que é o centro da tua atenção e nunca dar elogios óbvios ao seu corpo, embora possam ser completamente óbvios se se referirem à sua maneira de ser. Mas há algo mais importante que tudo isto, João.
- O quê, mãe? O quê, o quê??
- Tens que caminhar e agir sempre com uma coisa chamada confiança. Mulher nenhuma confia num homem que não confie em si mesmo.
Acabei de preparar a bonita comida enquanto ele me olhava, maravilhado. Teremos estas conversas tantas vezes quantas ele queira, porque se um homem é só um homem, um cavalheiro é a sublimação estética e essencial do homem.
Ana Amorim Dias
O centro dos guardiões
Uma das muitas vantagens de ter filhos é haver sempre justificação para ir ver filmes infantis sem que nos olhem de lado. Aceito que haja quem não goste, talvez por não conseguir sentir a magia que se opera... nas crianças e em nós.
Independentemente de todas estas questões, gostei particularmente do último: "A origem dos guardiões", que retrata a eterna luta entre o acreditar na magia ou ceder ao medo. De um lado o Pai Natal, a Fada dos dentes, o Coelho da Páscoa, o Padrinho dos sonhos bons e o Jack Gelado. Do outro, o bicho papão!
Vi com toda a atenção, da razão e do coração, segura da importância do que me estava a ser ali entregue. A certa altura o Pai Natal pergunta ao Jack Gelado qual era o centro dele, revelando que o seu era a magia. No fim do filme o Jack, príncipe das Neves, descobriu o seu centro de guardião: a diversão.
Será demais considerarmos-nos Guardiões de alguma coisa? A ser este exercício aceitável, somo guardiões do quê? E qual é o nosso centro?
Chamem-me louca se quiserem, mas não tenho a menor dúvida que sou uma guardiã das evoluções interiores! O meu centro? As palavras!
Ana Amorim Dias
1.1.13
Jibóiar
"Frágil, tão frágil como o amor", canta o Paulo. E eu rendo-me, forte e com amor, ao encantamento de cristalizar o momento. Sentada no felpudo tapete da sala, silenciosa testemunha de tantas confidências, recolho às primeiras divagações escritas do novo ano que se inaugurou sob um auspicioso sol.
A ordem do dia foi jibóiar, esse precioso verbo que talvez nem exista; esse precioso verbo que encerra a deliciosa actividade de apenas existir. Sem pressas, sem stresses, sem expetativas nem desapontamentos.
Aproxima-se a hora de deixar para trás os sofás e tapetes felpudos; de guardar na bagagem as horas felizes e voltar ao normal devir dos dias comuns. Jibóiar é fantástico, mas viver a todo o gás é igualmente fabuloso!
Bom ano!
Ana Amorim Dias
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