(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

17.9.12

O monstro das alfarrobas



- Ana!... –
Oiço a voz muito ao longe.
- Ana! –
Desço do alto mais  profundo  dos confins do meu sono.  
- Olha para a porta. Depressa! –
Pressinto a urgência. Manejo as pálpebras. Abro os olhos.
A porta do meu quarto dá diretamente para a rua. De Verão fica aberta de par em par. Olho para a rua e lá está ela, corpo na rua, cabeça cá dentro. Por momentos fico com a sensação de que mais uns segundos e acordaria com a Joaquina II a lamber-me os pés.
  O momento em que cruzamos aquele  olhar intenso dura muito pouco tempo, mas consigo interpretar o que me veio dizer com a sua expressividade quadrúpede de burra bem instalada na vida.
- Afasta-te do que é meu, sua monstra das alfarrobas! – Diz-me,  antes de se virar para continuar o seu dia. E eu fico ali, estendida nos meus aposentos invadidos pela recriminação contida no olhar de uma burra justiceira.  
- Realmente ela tem razão, Ana. Tu podes comer toda a comida humana que te apetecer…  porque  que é que tens de ir roubar as alfarrobas à burra e às éguas?  - Pensei.
   A verdade é que não sei.  Continuo em busca da resposta enquanto escrevo esta crónica… e vou ruminando uma maravilhosa alfarroba.
Ana Amorim Dias


16.9.12

O sumo da memória




     A menina atravessava o pomar todas as tardes. Caminhava pelo carreiro ensolarado e chegava em poucos minutos à casa da sua amiga. Sentavam-se no poial  de  pedra e cal  e  olhavam o campo enquanto contavam a vida uma à outra. O sol ia sulcando o céu e a menina ia seguindo a esteira das sombras, embalada pela companhia serena e fácil daquela amizade insuspeita…
  Hoje debati-me entre a vontade de continuar a ronronar nos lençóis ou ir ajudar uma amiga a fazer vinho. A Dona Irene, mulher forte do campo,  caminha manca e curvada pelo peso dos anos e de uma vida inteira de trabalho. Há dias confessei-lhe o meu desejo de relembrar como se faz o vinho caseiro. Convidou-me para lá ir esta manhã. Logo nesta manhã em  que,  já sabia, acordaria cansada.
  - Vá lá Ana, levanta-te… sabes que algo te espera! – Disse a mim mesma para me desagarrar do colchão.
E lá fui. Vi, perguntei, cheirei, senti.   Despejei  o mosto na prensa. Rodei. Rodei. Relembrei. Reaprendi.  Fotografei, claro. Como não? E vim-me embora mais rica. Venho sempre mais rica de todo o sítio onde vou. Enriquece-me sempre tudo aquilo que faço.
 E já no carro, como o líquido opaco e escuro que a prensa fez desprender, também uma memória  antiga, perdida nos confins do meu ser, se desagarrou das entranhas e voltou de novo à luz.
  A amiga com quem eu ia ter,  nas tardes dos meus Verões infantis, chama-se Emília. E eu dava-lhe a mão. A mesma mão que hoje rodou a prensa que desagarrou o sumo e trouxe à memória a lembrança daquelas tardes sem fim. Eu dava-lhe a mão de menina e sentia a sua mão de anciã. A Dona Emília tinha mais setenta anos que eu. Sim, pelo menos setenta. Vestia sempre de preto e andava curvada, amparada por uma bengala que era também os seus olhos.  Lembro-me que lhe descrevia o céu, as árvores e os insetos que pousavam perto. Descrevia-lhe tudo. O que via e o que imaginava ver.  Sei que usava as palavras para que ela pudesse ver de novo enquanto lhe segurava a mão. A mão sábia de anciã. E ela ria-se feliz com tudo o que eu lhe trazia. E eu só lhe trazia a  voz. E a minha mão na mão dela.
  Hoje fui rodar a prensa e ajudar uma amiga a fazer vinho caseiro. Mas a recompensa não foi a memória que me iluminou a manhã.  O mais sublime bálsamo foi perceber o valor verdadeiro que todas aquelas tardes tiveram na vida da doce Emília.   Na minha inocência de criança nunca o cheguei a saber.
  Por agora resta-me aguardar que a pipa faça o resto do trabalho, mas tenho a certeza que quando o provar, o meu mais sentido brinde irá para uma antiga amiga que via com as minhas palavras.
Ana Amorim Dias

14.9.12

A questão




    Habituei-me a ver o “gosto” dela na maior parte das crónicas que aqui publico. Hoje amanheci com uma mensagem sua. Dizia-me que todas as manhãs “me” lê e que essa leitura é uma espécie de  “vício” matinal que a conforta e deixa estática por uns momentos.
   Disse que ontem se lembrou de mim ao ouvir a frase “ser feliz ou fazer os outros felizes”, calculando que eu teria algo a dizer sobre o tema…
   Vejamos então se esta minha amiga virtual se enganou ou nem por isso.
   Poderia parecer lógico que se começasse pela  premissa,  quase instintiva, de que somos  felizes a fazer felizes os outros. No entanto esta afirmação tem tantos “mas” que nem sei por onde começar.
   É por isso que me vou cingir a um raciocínio muito fácil. Ora então vamos lá!
    Ninguém pode ser feliz a fazer felizes os outros… a menos que se faça feliz a si próprio primeiro. Não! Não é uma questão de egoísmo. É o pleno exercício da mais básica lógica. Ora pensem lá comigo: de que serve dar felicidade aos outros se isso nos trouxer a nós uma enorme tristeza? Como podemos dar alegria sem a sentir? Isso não é fazer os outros felizes, é passar por cima de nós mesmos e oferecer uma maçã linda por fora mas podre por dentro.  
   Creio que, ao contrário do que se pensa, devemos esforçar-nos até ao limite por estar ( e, por que não, ser? ) felizes. Nós em primeiro lugar. Porque a verdade é só uma: só podemos fazer feliz quem nos ama se estivermos também nós felizes.
   É claro que não posso terminar sem dizer que podemos sempre fazer muito feliz quem se está “nas tintas” para nós, mesmo sem estarmos felizes, mas isso já é outra história e não faz muito sentido.
Quanto a mim, meus caros, garanto-vos que sou bem feliz   ao conseguir,   por vezes,  trazer-vos a felicidade em palavras.
Ana Amorim Dias

13.9.12

O tudo do nada



 - Queres beber alguma coisa? –
- Não. Nada.  – Respondi.
- Nem cerveja?   -
Abanei a cabeça.
- E vinho tinto? –
- Já disse “nada”.  E nada inclui tudo! –
  Assim que me saiu que “nada inclui tudo”, apressei-me a  tomar nota da conversa pois fiquei com ideia  que daria pano para mangas.  Mas não. Não me chegou nenhuma teoria, alegoria ou analogia.  Só a conclusão de que há frases muito  estranhas que, por vezes, parecem fazer todo o sentido.
Ana Amorim Dias

12.9.12

A extensão mais sensual



   A extensão mais sensual de um homem continua a ser a sua mota.  Talvez por trazer reminiscências dos heróis a cavalo.  Mas convém clarificar a afirmação. Não é uma boa mota que torna um homem comum num ser desejável. Da mesma forma que não foi, durante séculos, o puro sangue do seu corsel a transformar o homem num   cavaleiro andante saído de um bom romance.  Não. Não é a mota que faz o homem. Da mesma maneira que não são as pinturas, roupas e adornos que fazem da mulher uma “bomba”. 
   O sexo feminino pode vestir roupas fantásticas,  jóias valiosíssimas e pinturas vistosas, mas tem que saber envergá-las e dominá-las, sob pena de ser apenas um cabide mal amanhado e estranho desprovido de qualquer encanto.  Com o sexo masculino passa-se o mesmo: ou o homem domina a máquina que lhe ronrona entre as pernas e se torna uno com ela numa ligação consistente, ou corre o sério risco de fazer figuras tristes e se estampar na curva seguinte.
  Adoro motas. E temo-as, claro. Talvez por isso nunca me tenha atrevido a guiá-las eu mesma. É dos poucos casos em que a atitude aventureira me fica em casa, guardada nalguma gaveta. Com as motas mantenho uma postura de donzela recatada. É um dos poucos casos em que me parece bem ser sempre o homem a comandar, levando-me abraçada atrás, por caminhos em que o vento me fustiga por fora com a mesma intensidade que a adrenalina  corre  cá dentro.
   Um passeio de mota  com ele a conduzir-me.  Algo tão poderoso,  tão intenso e ao mesmo tempo tão simples.   À volta só  vazio. O asfalto  a fugir por baixo e, à frente, as costas largas e fortes que só tenho que agarrar.
  A extensão mais sensual de um homem continua a ser a sua mota. Mas só se a dominar. Se souber ser uno com ela. Porque o mais apelativo atributo é a alma de selvagem… que sabe ser bem segura.
Ana Amorim Dias

11.9.12

Retorno à inocência



 
  Lembro-me perfeitamente do que fiz há onze anos. Recordo-me com impressionante nitidez em que curva guiava quando o telefone tocou e uma amiga me contou o que se estava a passar do outro lado do Atlântico.
    O primeiro pensamento foi para os meus pais que estavam na Turquia. Liguei-lhes para me certificar que  estavam bem, ainda  sem perceber nada do que se estava a passar. Ao longo do dia fui entendendo. Fomos entendo todos. 
   O soco no estômago da segura civilização ocidental foi sentido com a agonia da perda de uma inocência que até então ainda existia. No dia em que o meu pequeno buda fazia três meses de idade, percebi que há extremismos letais, perpetrados por homens doentes, que não deixam ninguém a salvo.  Nesse dia lamentei  os mortos. Mas o que chorei foi a perda da inocência.
   Cinco anos depois estive em Nova Iorque. Por toda a cidade  estavam ainda bem vivos os tributos e memoriais aos falecidos; bem como vivo estava um fumo invisível feito de uma dor que não passa.  No ground zero apenas parei o tempo suficiente para sentir a solenidade amarga do local  e vim-me embora a lamentar que as memórias brilhantes da cidade que nunca dorme tivessem perdido para sempre parte da sua alegria.
   Há uns meses um amigo trouxe-me uma prenda dessa cidade que adoro: a fotografia do meu primeiro romance tendo como pano de fundo a nova construção que se eleva no mesmo chão em que as gigantes gémeas tombaram.  Ao ver a imagem arrepiei-me de novo: há reconstruções lentas, feitas  ano após ano, tijolo após tijolo, página após página.  Há reconstruções que, por mais que não apaguem as enormes perdas, nos fazem perceber  que, tarde ou cedo, chega  sempre o  dia em que a inocência, lentamente, se  recomeça a conquistar.
Ana Amorim Dias
  

9.9.12

Luso abraço




   Pergunto-me se os portugueses continuarão a apreciar a arte.  Interrogo-me se conseguirão continuar a alegrar-se com a música ou a sorrir sem motivo. Será que as feridas pessoais de cada cidadão português chegarão a sarar algum dia?
   Não faz muito sentido enumerar  uma e outra vez os incontáveis rombos que este nosso navio luso tem no casco; nem os buracos que tem nas velas ou os mastros que estão quebrados. Da mesma forma que também já de pouco serve perguntar como foi que os timoneiros que o comandam e comandaram ao longo das últimas décadas puderam transformar Portugal neste país acidentado.  Como foi que se permitiu  a homens que nem remar sabiam que fossem os comandantes?  Quando é que começamos a adernar de forma tão acentuada sem que se tomassem medidas coerentes e  sem que houvesse um único  marinheiro capaz de segurar este leme?
   Não tenho resposta. Mas também devo ser  culpada pois sou adulta, racional e eleitora.  
    Mas o que realmente quero dizer é que há algo muito importante que ninguém pode esquecer:  nós não somos só um país, somos uma nação! E o bem mais valioso deste navio metafórico são os seus Homens.
    Além de um país pacífico, de belas paisagens, monumentos  e tradições seculares, somos uma equipa fantástica de pessoas boas e corajosas.    Somos muito  mais do que uma soma de sofredores tolerantes: somos a tripulação em apuros de navio que foi contra as rochas.  Somos todos  marinheiros,  de bravo gene  ancestral, capazes de estóicos feitos.  E parece que chegou a hora de mostrarmos  de novo o valor; de nos refazermos com  recurso à nossa astúcia,  aos nossos inventivos recursos e  à nossa condição de eternos conquistadores.
     Seria bom unir-nos mais ainda, enquanto marinheiros deste barco, com demostrações de altruismo e mútuo apoio, enquanto tentamos avaliar os estragos e reparar o navio.   Seria bom que, enquanto tentamos sobreviver aos ferimentos pessoais, tentássemos simultaneamente trazer de novo à vida o orgulho de ser Português, num sentimento  coletivo de abraço a tudo o que de bom corre no nosso lusitano sangue.
  Seria bom que, apesar de toda a preocupação, angústia, injustiça e perda, mantivéssemos  a capacidade de continuar a transmitir esperança aos mais novos; a capacidade de apreciar a arte,  de nos alegrarmos  com a música  e de  sorrir sem motivo… quanto mais não seja uns aos outros.
Um forte abraço a todos,
Ana Amorim Dias

8.9.12

O meu iphone e eu



    A relação que mantenho com o meu iphone tem sido como um daqueles enamoramentos que  o tempo e a convivência transformam em paixão.
   Primeiro fomos apresentados por uma amiga comum. Depois, ao reconhecer-lhe os encantos, comecei a desejá-lo e, passado algum tempo, acabei por conquistá-lo.  O relacionamento começou por ser frio e algo distante;  passou por  fases  de reconhecimento e descoberta e evoluiu para algo belo e cada vez mais consistente.
    Estou nesta relação há mais tempo do que duram muitos casamentos hoje em dia e orgulho-me por continuar a explorar e a conhecer cada vez melhor este meu companheiro fiel.   A relação tem crescido,  em bonança e intensidade, devido a algo indispensável a qualquer relacionamento que se queira sólido:  tempo e dedicação.
   Com tempo e dedicação descobri novas aplicações, atualizações e funcionalidades e acabei por ficar a pensar que são estes dois fatores que fazem tudo funcionar de  outra maneira. Estou mesmo convencida que, nas relações entre duas pessoas, por mais que a rotina  tente esbater a paixão, ela não conseguirá  levar a melhor se se  souber dedicar tempo  à  descoberta de todos os aplicativos e funcionalidades com que a vida atualiza constantemente cada  pessoa .
Ana Amorim Dias
   

6.9.12

Pata Negra




     As papilas gustativas  são uma das grandes fontes de prazer com que fomos abençoados.  É claro que os nossos antepassados mais distantes se alimentavam mais por  pura necessidade que por aspirações gourmet.  Por isso talvez se possa dizer que esta mudança foi uma espécie de upgrade corporal da humanidade instalado ao longo dos  milénios.    
    Não sou perita na história da culinária e da alimentação mas penso que não erro muito ao afirmar que o palato humano mudou quase tanto como a própria vida das pessoas.  Se calhar a carne em cima do fogo está para as cavernas como a cozinha molecular está para as casas inteligentes.  Sim, é isso mesmo:  os produtos recolhidos da natureza   e ingeridos  sem transformação estão para  as vestes  de peles de animais como o caviar está para a internet!  
  Diz-se que um dos requisitos para se ser um fabuloso Chef é ter o palato bem afinado. Vejo-me obrigada a concordar.  Como se pode criar o sublime sem o saber apreciar?  E é aqui que me travo. Como me travei ontem para não devorar sozinha a dose de pata negra que me colocaram à frente.
   Da mesma forma que não consigo escolher a viagem predileta também sou incapaz de me decidir por uma comida preferida. Contudo este presunto seria um muito bom candidato.   Tem que ser de porco preto e alimentado só a bolotas. O tempo e a salga da sua cura têm que ser feitos por casas com experiência secular. Os locais onde se precessa esta alquimia têm que cumprir requisitos tão específicos como estar construídos com entradas de ar na direção certa dos únicos ventos  que interessam (pelos menos assim me foi já explicado).
   De cada vez que este soberbo manjar se me derrete sobre a língua, volto  ao céu da minha boca:   impludo num prazer  bem carnal  e vejo-me compelida  a agradecer o upgrade gustativo deste tempo em estou a existir.
Ana Amorim Dias

5.9.12

A melhor viagem



       Às vezes perguntam-me  qual foi a melhor viagem da minha vida. Para conseguir responder teria que colocar de volta uma grande quantidade de questões:  Sozinha ou acompanhada? De natureza ou citadina? De aventura ou de descanso? Desportiva ou cultural?  
   A verdade é crua e simples:  não recordo nenhuma como sendo a preferida.  Todas até agora tiveram o seu valor e o seu tempo. Todas se revestiram de um encanto muito próprio feito de paisagens, monumentos, cheiros e sabores. Enriqueci,  em cada diferente destino, com  estórias brilhantes, memórias fabulosas e muitos novos amigos. Cresci  com o que os locais me deram e com o que lá descobri sobre mim.
   Quando se pergunta a alguém qual foi a sua melhor viagem talvez não se saiba que todas têm os seus obstáculos, perigos e desconfortos,  que há que saber tourear com humor.  Penso nisto agora, enquanto planeio a próxima viagem, porque percebo que a melhor viagem de todas acaba por ser sempre a que se vai fazer a seguir.
   Ana Amorim Dias

4.9.12

A receita




     Não há receita infalível para educar os filhos.  Não é justo: não há manual de intruções!  É que nem sequer um folhetozinho informativo com algumas dicas básicas.  Quando nos tornamos pais não fazemos mesmo a mínima ideia que a verdadeira aventura das nossas vidas acabou de começar.
    O que é afinal, educar uma criança para a vida?  Como se prepara um/a  menino/a para ser um/a adulto/a   feliz, decidido/a, inteligente e honrado/a?    Os pais  podem ter uma educação esmerada, uma cultura sólida e uma polidez invejável ; podem  ter um caráter nobre e uma força de vontade imaculada e,  ainda assim,  não estar preparados para o constante desafio que é acompanhar  estas pessoas pequeninas até se tornarem grandes indivíduos autónomos.  
   Não me faz confusão nenhuma que se eduquem  dois  (ou mais)   filhos da mesma exata maneira e eles tomem  rumos muito diferentes, mas não consigo conceber que haja pais que, perante os vários filhos,  tenham vários pesos e diferentes medidas.
   Sou mãe há dez anos e quase três meses e duplamente mãe há sete anos e tal. O que é que aprendi nestes surpreendentes anos?  Que não devo esperar que sejam iguais a mim e que não devo tentar moldá-los contra a sua essência .   Aprendi que  cada dia pode ser uma sucessão de canseiras, patifarias e raspanetes ou  pode ser simplesmente divino e repleto de ensinamentos.    Mas a mais importante aprendizagem foi perceber que  a soma das atitudes educativas    de  um progenitor  não tem que ser   férreamente imutável.   O ato de educar, desde os primeiros dias até bem depois do abandono do ninho, é um arame preso entre duas montanhas, que se vai percorrendo, pé ante pé, sem qualquer rede por baixo.   Temos que tatear o arame, sentir os humores do vento, ter uma fé enorme neles e  confiar no instinto.
   Educar é saber ralhar e conseguir aplaudir. Mas por vezes também é afagar quando era para se ralhar e ralhar quando era suposto aplaudir, se acaso tiverem capacidades para mais.  Educar é aprender a  deixar o outro ser ; é vergar um pouco a crista aos frangos sem nunca lhes tentar domar  a raça de puros sangues selvagens.   Educar é mostrar a diferença entre bem e mal; verdade e mentira; dinheiro e valor; prazer e suor.   É ensinar a acalmar os defeitos e a realçar as virtudes. Educar é confiar e transmitir confiança.
   Mas, por mais voltas que  dê à questão, continuo a dizer que a receita de  educar talvez seja, simplesmente,  acompanhá-los  a  aprender a ser quem são.
Ana Amorim Dias

3.9.12

O colar genético


    Sou fascinada por colares únicos feitos pelas mãos hábeis dos próprios artesãos que os vendem em feiras, mercados ou simples bancas na rua despontadas.  Encanta-me conhecer quem faz o que trago ao peito,  para estar bem segura da riqueza das peças, porque cada objeto que requer arte na sua feitura fica impregnado da energia de quem o cria; fica com um valor que transcende a matéria e a beleza.  
  É por isso que grande parte dos meus colares tem uma estória, mas vou-vos contar apenas a mais recente.
   No domingo, último dia dos Medievais de Castro Marim, tive finalmente  tempo para, pela primeira  vez este ano,  vaguear pelas ruelas em busca de algum tesouro. Detive-me em algumas bancas de ornamentos, mas em outras, as do produto industrializado, nem sequer parei. A certa altura os olhos prenderam-se a um colar prateado com uma pedra azul, pendurado numa minuscula bancada que era também o atelier do artista moreno que me atendeu em tronco nu. Falamos um pouco. Era de Madrid, o rapaz. Tem amigos em todo o mundo, que foi fazendo no seu jeito acertadamente errante de levar a vida.
 - Esta pedra deve ser usada junto à garganta…  - Disse-me – Melhora a voz e a eloquência, sabe?  
  Eu ri-me. Claro. Tinha que ser.  
Não trazia dinheiro suficiente no bolso das calças e disse-lhe que voltava em pouco tempo. Sorriu-me em concordância: também ele sabia que aquele colar era meu.
  Mas a parte mais gira desta pequena estória não é, de todo, aquilo que já contei e sim  o que ainda aí vem.
   Quando fui buscar o colar, levei o meu filho mais velho comigo. O madrileno das rastas olhou para o Tomás e  disse:  - Este rapaz já cá veio ontem, e perguntou-me o preço do seu colar. –
- Pois foi, mãe. É o mais bonito de todos e tive a certeza que era o que escolherias.  
Abracei o meu filho enquanto o moreno artesão me talhava o colar à medida do pescoço.
“ De todas as bancas de colares ele acertou na correta e de todos os colares que aqui há, soube escolher o meu…” pensei, embevecida.  
  Será que o sentido estético se pega em dez anos e dois meses de vida? Será que ele é apenas um menino atento aos gostos da mãe? Ou será algo mais? Creio que é algo mais… e  que o meu gosto mais íntimo lhe foi transmitido nos genes.
Ana Amorim Dias