(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

3.3.12

“Hoje Vou”


  Há uns meses, numa tarde de Agosto,  reencontrei o Ricardo Sousa. Ele precisava de letras para o novo álbum e eu, como sempre, estava cheia de vontade de escrever.
  Nessa mesma noite, e embora estivéssemos ambos a trabalhar, entreguei-lhe as duas primeiras letras. Nas semanas seguintes, fui-lhe mandando outras, num total de quase duas dezenas. 
 Lembrei-me que a minha irmã, Maria João Dias, adora compôr melodias e demos por nós a passar algumas tardes mágicas na sua casa. Tardes em que palavras sentidas começaram a bailar na voz do Ricardo e da minha maninha mais velha.
  De todas as letras, só seis vão ser para já ouvidas no álbum HOJE VOU : “Hoje vou” ,  “ Não será dizer demais” e “Se algum dia” foram  musicadas por Ramon Galarza.  “ No teu sono” e “Dar-te música”, com melodia do próprio Ricardo e da minha irmã; e  finalmente, “ rendo-me”, com parceria das duas manas na letra e melodia  do Ricardo, da Maria João e do Paulo.
  A minha parte, por agora, está feita. Apenas me resta desejar ao Ricardo todo o sucesso que ele merece e deixar-lhe mais um “obrigada” por proporcionar às minhas palavras  um novo voo.
Faço votos de que gostem.
Ana Dias

2.3.12

A “caixa”



   Acabei de conseguir perceber porque é que existem tantos jornais desportivos e bom mercado para eles. É que o futebol é realmente empolgante! Sinto-me a contactar com uma nova dimensão da vida!
   Hoje, no dia do Benfica-Porto, vim a descobrir, nas notícias da manhã, que as autoridades policiais não estão muito apreensivas porque o líder dos Super Dragões aceitou que ficassem na “caixa”.
  Super Dragões?? Eu pensava que ia haver um desafio de futebol  mas afinal é uma batalha medieval??  Alguém me explica o que se passa? E quem são os Super Dragões? Pelo nome devem ser para o lado do terrível. E o que é a “caixa”?
   Como continuei a ver o noticiário com uma atenção redobrada, acabei por perceber que a “caixa” é um recinto próprio e isolado para “colocar” os adeptos minoritários e furibundos da equipa visitante.
   Ocorreu-me logo uma ideia brilhante ( o que até é raro acontecer tão cedo ): porque não fazem uma “caixa”,  bem estanque, do tamanho de metade do estádio? Depois, quando as pessoas comprassem o bilhete ou entrassem para o estádio, era só perguntar: “Quer com molho ou em molho?” . Era como quem comprava um cachorro, mas mais eficiente,  porque os pacíficos seres que apenas quisessem ver o jogo,  pediriam:  “ Sem molho, se faz favor ”,  e ficariam fora da “caixa”. Os outros, que já sabiam ao que iam, ficariam na tal “caixa”, mas com  o benefício de se poupar em forças de segurança, completamente desnecessárias.
 Termino  com  duas questões: se as claques querem dar “voz” às suas dores incontidas, porque haverão de ser reprimidos? Afinal, berrar gritos de ordem  por uma equipa e querer liquidar os adeptos da outra é algo tão compreensível quanto saudável… não acham?
Ana Dias

1.3.12

A velocidade de Deus


   Quando, em 1988,  o Ayrton Senna se consagrou campeão mundial de fórmula 1 (creio que no circuito do Mónaco) confessou que, na volta final, sentiu a presença de Deus, o que me leva a ponderar se Deus terá alguma relação próxima com a velocidade.
   Sou da opinião que cada Homem tem muito de divino em si; capacidades e características que lhe colocam a existência no cimo de uma montanha imaginária, mais perto do céu, mais próximo do divino. Mas como é que podemos sentir essa ligação? Esse elo que para alguns é tão forte e que outros vêem como impossível, estará ao alcance de todos? Em primeiro lugar há que partir do princípio que só se “toca” no que se crê ser real. Nesse caso, será que quem não crê, não lhe “toca”? Ou estará apenas distraído, acreditando que os contactos que, ao longo da vida, vai tendo com o divino nada mais são que momentos de rara beleza?
   Lembro-me de um dia, a olhar para o dedo de Deus, no teto da capela Sistina, ter pensado que o Miguel Ângelo tinha de facto sido “tocado” por quem pintou. Mas será que o sentiu?
   Tenho a vaga ideia de que,  quando estamos a fazer aquilo para que a  nossa essência  vem programada, se  ativam em nós super poderes de contornos divinos e que isso nada tem a ver com a velocidade a que nos deslocamos.  É por isso que sei que, no meu carro ( e ao contrário do Ayrton), apenas sinto o “toque” de Deus… quando vou bem devagar.
Ana Dias
  
 

29.2.12

Esqueletos no armário



  Os temas para as crónicas do meu “pequeno almoço feliz” amontoam-se em listas escritas na agenda, no telefone, nos blocos de notas ou em papelinhos dispersos que depois me saltam dos mais inusitados lugares.
   Mas,  normalmente,  o tema de cada manhã é escolhido na noite anterior, nos poucos minutos que roubo ao tempo para pensar um pouco nisso.
   Ontem estava a ponderar que talvez hoje me tivesse de socorrer das ditas listas, quando fechei a porta de um pequeno armário do meu quarto. Desde miúda que tenho a mania de não dormir com portas de armário abertas, e penso que tal “tara” se acentuou após ver o “Monstros e cia”.
   No momento em que encostava a portinha, pensei nos esqueletos no armário. Será que tenho este hábito para não deixar que os esqueletos me fujam do armário? Será que existe alguém que não os tenha? Não me parece. Creio que todas as pessoas vão acumulando, ao longo da vida e em maior ou menor quantidade, esqueletos nos seus armários. Alguns vão sendo de lá tirados, mas normalmente outros surgem, para lhes ocupar o lugar.
   Fiquei a  pensar se existirá no Mundo quem não tenha ( ou nunca tenha tido)  nada a esconder de ninguém. Parece-me que há sempre pensamentos, vontades, ideias e  sonhos que não se confessam; que ficam apenas para o seu criador.
  Acabei por adormecer a pensar que, enquanto não inventarem um aspirador de pensamentos, os nossos esqueletos estarão seguros, no local onde pertencem: o armário.
Ana Dias

28.2.12

Grunhido futebolístico


Embora os homens sejam bem mais fáceis de decifrar do que as mulheres, há uma ocasião em que parecem seres vindos de outro planeta.
   Quando um homem está a torcer pelo seu clube, qualquer antropólogo, psicólogo ou cardiologista pode fazer inúmeros estudos e chegar às mais curiosas conclusões, mas talvez também não consiga decifrar o enigma que me atormenta: será que os homens se transformam, ao ver futebol, em seres vindos do planeta dos Urros??
Ninguém me tira da ideia que sim. O exaustivo estudo ( como não olho para o ecrã, acabo por reparar em cada expressão facial e corporal e analisar cada som) de uma vida inteira a ficar de boca aberta perante os estranhos rituais comportamentais dos machos a ver a bola, tem-me revelado que até os mais inteligentes e bem preparados se metamorfoseiam em seres algo primitivos que estão a meio caminho entre o Tarzan   e os seus amigos gorilas.
   Os F…s., C…..s e outros bogalhos, jorram numa catadupa que noutras situações não se ouve. Em campo todos são, numa ou outra altura, filhos de alguém. Mas os urros e grunhidos, sofridos e guturais, chegam a fazer-me temer pelas cordas vocais dos infelizes sofredores. E o que dizer dos saltos do sofá que me fazem ir depois, à sucapa, verificar se debaixo das almofadas há molas de extrema potência?
  Outros clássicos, de refinado gosto, são as palmadas dadas na perna de quem está ao lado ou os momentos de beleza em que se atiram ao chão, de joelhos, numa tentativa vã de deslizar na carpete como os jogadores deslizam na relva após marcar algum golo.
E por falar em golos, como poderei encontrar palavras para descrever o momento em que a equipa pela qual sofrem marca o providencial golo? Os saltos, gritos e abraços, que se juntam à vermelhidão dos esbaforidos rostos, completam um quadro quase irreal que me revelam que os homens, por mais que não venham do tal planeta dos Urros, têm o gene do grunhido futebolístico.
Muito mais há a dizer sobre tão interessante temática, pelo que me proponho a, num futuro próximo, visionar jogos nas tascas,  para vos apresentar mais conclusões.
( continuará….)
Ana Dias

27.2.12

O sábio homem


Quando conheci o Francisco não tinha como prever que estava perante um sábio homem. Não um Homem sábio, mas um ser masculino com uma sabedoria rara.
Da primeira vez que me falou, por acaso, da ex-mulher, denotei um carinho tão sentido que, por uma fração de segundo, quase julguei que ainda a amava.
O Francisco tem outra família agora, uma mulher que ama e dois filhos adolescentes. E tenho a certeza que é feliz… por ser sábio.
   Não teve filhos com a primeira mulher porque ela é um ser diferente, uma  alma nómada incapaz de se render como sedentária matriarca.
  Confidenciou-me que ela sempre soube qual era o preço da liberdade.
Um dia não resisti e perguntei-lhe o porquê do fim daquele casamento.
- Ninguém percebeu o divórcio porque nos amavamos muito. – Explicou-me em curtas palavras. – Só que o meu amor era tão grande que apenas o pude demontrar deixando-a  voar… -
Ana Dias

24.2.12

“Já o rego não vai direito”


   O José Joaquim Botequilha, mais conhecido como Zé Bambo, repete constantemente uma frase que, com uma ou outra variante, reza mais ou menos assim: “Mau… Já o rego nã vai derêto!”.  
    É que o Zé, quando a vida não lhe vai de feição, aclara a garganta num ronco profundo e profere com solenidade a dita frase, numa espécie de aviso premonitório. Como quem diz: ou isto muda ou as consequências virão depois.
    À força de tantas vezes o ouvir,  acabei por prestar atenção àquelas  palavras que lhe saem sempre com a voz semi rouca e meio toldada, mas creio que apenas as compreendi há uns tempos quando, num raro e muito aplaudido pulsar da minha fraca veia bucólica, me decidi a ajudar a plantar favas e griséus ( a quem não seja algarvio:  griséus são ervilhas). 
   Enquanto ia deixando cair as favas secas no solo fértil que as esperava, reparei que os regos estavam um pouco para o lado do torto.
- Mas que raio… -  pensei  - Afinal é por isso que o Zézinho diz sempre que o rego já não vai direito. – Não me preocupei pois percebi que não havia razão para alarmes: não era por o rego estar torto que as favas não nasceriam!
  Passei ontem pela horta. As favas e os griséus vão despontando, todos convencidos e viçosos, apesar do rego torto! O que me leva a concluir que, na maior parte das “plantações” das nossas vidas, as condições não precisam de ser perfeitas para as plantas germinarem. Na verdade nunca ouvi falar de planta alguma que deixasse de nascer só por o rego estar torto.
Ana Dias

23.2.12

Pessoas

As pessoas não se medem aos palmos, medem-se nos carinhos já dados pelas  palmas das suas  mãos; medem-se nos planos que concretizam e nos aplausos que  os seus feitos merecem.
Os Homens não se devem julgar pelas aparências, mas podem julgar-se pelo olhar que sustentam; pelos ideiais que defendem e pelos atos de amor ao próximo
Porque cada pessoa é  mais que a soma das suas atitudes, é a multiplicação das suas concretizações.
Cada pessoa é mais que os caminhos que percorreu, é a marca que deixou no seu percurso
Cada pessoa é mais que os sorrisos que distribuiu, é a coleção de todos os sorrisos que recebeu de volta
Cada pessoa é mais que as palavras ofensivas e agressões perpetradas, é o perdão que pediu e o arrependimento sentido
Cada pessoa é mais que os filhos que teve e educou, é a pedra basilar dos feitos de todos seus descendentes
Cada pessoa é mais que todo o amor que sentiu, é a  quantidade de amor que soube dar, receber e potenciar
Cada pessoa é mais que a soma das suas conquistas, é a equação perfeita que, subtraindo o desapontamento ao erro, gera aprendizagem como resultado
As pessoas não se podem medir aos palmos nem julgar pelas aparências porque cada Homem é mais que um Mundo… é um Universo em expansão.
Ana Dias

22.2.12

Comandar os sentimentos


  Partindo das confissões de uma amiga, dicido-me a escrever sobre relacionamentos e sobre a forma como, sem êxito nenhum, tentamos comandar os sentimentos.
  Confidenciava-me ela que, à força de tanto empenho mútuo em tentarem “construir” um relacionamento descomprometido, ela e o seu ( como lhe hei-de chamar?) par, perceberam que os sentimentos de carinho, amor, ciúme e posse se instalaram sem pedir autorização.  Quase aposto que,  como eles,  deve haver muitos. Pessoas que já sofreram e decidem avançar apenas para relacionamentos seguros em que nada é esperado nem cobrado. Não se esperam telefonemas nem mensagens constantes.  Não se cobra que o outro diga “amo-te”, na verdade é disso mesmo que se foge. Mas os seres humanos são mesmo assim, dotados de sentimentos que brotam mesmo sem serem semeados e que acabam por estender os seus viçosos ramos em abraços envolventes.
  O que fazer quando um “ não relacionamento” assumido começa a gerar os tais sentimentos que se procurou não ter? Devem ser alimentados ou arrancados sem misericórdia? Creio que cada um sabe de si, mas negar à alma o seu alimento não me parece boa solução.
  Disse à minha amiga que, se todos pudéssemos mandar nos sentimentos ninguém amaria pela segunda vez. O amor costuma estar associado a alguma dose de dor, havendo até quem preoconize que se não doer não é amor. Assim, quando um amor acaba,  em qualquer das vestes que o fim de um amor pode vestir, o normal seria fechar-lhe o coração  e ficar por ali, numa existência serena e semi vegetativa. Mas o marafado do coração, ou qualquer que seja o local onde em nós nascem os sentimentos, sobrepõe-se ao que lhe dita a razão. Resultado: os sentimentos, de início sorrateiros, vão tomando conta da pessoa, de uma forma tão irónica quanto descarada, até que nenhuma outra solução reste do que sucumbir-lhes, na habitual vertigem de quem voltou a amar e se sabe,  de novo, no fio da navalha.
  Termino com as palavras com que finalizei a conversa com a minha amiga: - Querida, o coração talvez não tenha sido feito para sofrer, mas para gelar é que não foi de certeza! –
Ana Dias

20.2.12

Altifalante

    Olho para o lado porque é inevitável. Observo-a disfarçadamente apesar de saber que ela é daquelas pessoas que não se importa com isso. Caso se importasse, talvez falasse um pouco mais baixo e eu não tivesse sabido, em menos de cinco minutos, que a vida lhe corre mal porque a tia da cunhada do primo da melhor amiga usou um vestido igual ao dela na festa do passado fim de semana.
   Pouso o jornal. Ela está a digitar outro número no telemóvel. A política e economia vão ter que esperar um pouco porque, a julgar pela sua expressão facial, este telefonema também vai trazer revelações  bombásticas,  propagadas aos quatro cantos da esplanada  pela forte sonoridade da sua  estridente  voz.
- Queriiiiiidaaaaa!! Tás boaaa? Nem vais acreditar. Tás sentada? –
Fico com o pastel de nata,  indeciso, a meio da boca entreaberta, porque o espanto com a quantidade de decibéis com que a senhora fala, tira-me o reflexo da dentada. E ela continua, com os lábios bem delineados a mexerem-se com convicção, enquanto as compridas garras escarlate lhe bailam nas pontas das  expressivas mãos.
- Claro! E eu disse logo para não contarem comigo porque não ia deixar de ir à entrega dos prémios, para ir ao aniversário do miúdo deles. O quê? Pois querida, claro. -
Lá estava. Agora as quatro pessoas dispersas pelas mesas daquela esplanada já sabiam todas que ela ia a uma entrega de prémios. Desejei que senhora se desse por satisfeita e fosse fazer o seu pregão para outro local. Continuei a ouvi-la, mas cada vez mais ao longe, porque começava a escutar a minha vozinha cá dentro a sussurra-me algo importante: “ Já repaste, Ana? Não é a sonoridade que dá valor ao que é dito. Na verdade aqui tens um belo exemplo de que, muitas vezes, há coisas que  vale mais calar que dizer.”
Ana Dias

17.2.12

Carnavais

- Vá lá,  João… – Não me bastava o despertador não ter tocado. O estupor do puto tinha que me estar a moer o espírito com a roupa.
- Não quero essa! – embirrou, a arrastar os “ss” com mimo.
- “ Graças a Deus que o Tomás não se quis mascarar.” – Pensei, enquanto o ouvia, no seu quarto,  a preparar-se para a escola.
- Olha pá, estás a fazer-me perder a paciência! Amanha-te! – E fui preparar o pequeno almoço.
O João acabou por vir para a escola preparado para qualquer eventualidade, não fosse o seu primeiro Carnaval na primária apanhá-lo desprevenido, mascarado no meio de colegas vestidos de forma normal. Calças de neve, blusa de gola alta, blusão e capacete enfiado na mochila. Resolveu o seu dilema cobrindo todas as possibilidades: aparentemente vestido de forma normal e sabendo que, em caso de emergência, punha o capacete e se transformava em motard.
  Confesso que adorei a solução e a sua capacidade de se precaver. Afinal a minha própria visão do Carnaval é muito ambígua: acho ótimo que as pessoas se mascarem e divirtam com folias e brincadeiras… apenas me parece mal que isso tenha data marcada. Parece-me muito mais sábio que as pessoas o façam quando estão para aí viradas,  porque a predisposição para a galhofa não pode ser algo forçado, a soar a falso, com disfarces mal amanhados que não se adaptam ao clima dos nossos frios Carnavais. Nas poucas vezes em que me predisponho a ir espreitar os desfiles, costumo ficar com dó das enregeladas moças que, brancas e forradas de celulite, se arrastam pelas ruas a mover-se com uma ausência de ritmo tão grave que chega a ser, para o samba, uma espécie de missa de sétimo dia.
  Foi por isso que gostei de ver o meu filhote mais novo, a usar da sua auto determinação repleta de mau feitio, a saber dar uma no cravo e outra na ferradura, e a preparar-se para, caso a folia lhe descesse à disposição, se divertir nestes Carnavais sem alma.
Ana Dias
 

16.2.12

Uma noite bem dormida

     Acredito com convicção que pais ansiosos potenciam a ansiedade nos filhos, mas nada é mais natural para um progenitor do que satisfazer as necessidades das crias, fornecer-lhes condições seguras de desenvolvimento e impedir que sofram qualquer tipo de dor ou dissabor.
   Se a criança chora há que calá-la a qualquer custo. Não se dá uma palmada porque as marcas emocionais ficam para a vida. Os biberons têm que ser fervidos e só se pode “introduzir” o peixe no dia exato em que cumpre sete meses. Mais tarde é-se mau pai se a criança vai sozinha para a escola mesmo que a escola seja na esquina. Andar de skate nem pensar e de bicicleta só em terrenos planos e com joelheiras e capacete. A dieta tem que ser vigiada de perto e a ajuda tem que ser dada em cada disciplina. Não se é bom pai se a criança não andar em, pelo menos, uma atividade desportiva e a aprender um instrumento. Além de que o boné tem que estar sempre na cabeça e o telemóvel  ligado em qualquer circustância.  E acudam-nos todos os santos se os inocentes fazem  uma nódoa negra, uma esfoladela ou partem uma perna!
As crianças ficam a saber que há pessoas más que os podem raptar; que se comerem um chocolate apanham diabetes e que se não forem o melhor aluno da escola vão acabar a pedir esmola à porta da igreja. Elas ficam a saber que o mundo é um lugar feio e hostil em que se têm de proteger constantemente de tudo e de todos para não correrem o risco de se magoar fisica ou emocionalmente.
  Quando o Mundo é assim apresentado aos miúdos, através do excesso de protecionismo dos seus ansiosos pais, é natural que se tornem transtornados, ansiosos e dependentes de ansioliticos na idade em que antigamente se vivia a boémia vida de estudante da faculdade.
Mas afinal estes pais estão a proteger os filhos, tirando-lhes todas as pedras do caminho, ou estarão, pelo contrário, a potenciar seres incapazes de cortar o próprio bife?  Porque os pais, ansiosos ou não, não vão estar lá sempre para lhes pôr o bife à frente. Nem é esse o papel deles!
Um bom progenitor deve ser capaz de perceber o momento do colo e o da palmada; o bom progenitor tem que entender o momento certo para segurar na mão dos filhos e a hora exata em que a deve largar. Os bons pais e mães não caçam toda a vida para os filhos: ensinam-lhes a técnicas de caça e fazem-nos praticar. Os melhores progenitores não colocam os filhos em redomas de cristal,  fazendo-os perder a infância,  nem lhes ensinam o mundo como um lugar feio e mau, pelo contrário, mostram que a vida é um lugar bom onde por vezes aparecem pessoas menos boas e que é apenas dessas que devem ficar longe.  Os pais que vêm a ter filhos de corpo e mente sãos, são o que os deixam dar as quedas próprias da idade, mostrando que, aconteça o que acontecer, vão estar lá com o algodão e a água oxigenada, ou com o carro pronto para ir ao hospital pôr um bocado de gesso.
   Os pais que conseguem gerir a ansiedade com alguma eficácia costumam ter filhos que dormem pacificamente durante toda a noite e que, mesmo depois de adultos, continuam a dormir como anjos,  porque sabem que o mundo, mesmo não sendo por vezes seguro, é um lugar onde sabem como viver.
Ana Dias