(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

23.12.11

Livre trânsito Natalício


     Qualquer que seja o lado para onde me viro, só oiço e leio “Bom Natal”,  em todas as versões, formatos e cores.  Porquê? Porque estamos na época mágica em que nos é permitido distribuir todo o  carinho e amor  que nos apetecer, por quem bem entendermos, sem que nos considerem tontinhos ou merecedores de internamento!   Estamos naqueles poucos dias do ano em que há uma espécie de livre trânsito para todas as felicitações, abraços e beijos…. Estamos na época em que alguns ódios se suavizam; alguns desentendimentos se  amenizam e  se chega mesmo a praticar o perdão!
   Não vos vou deixar votos de Bom Natal!   Vou deixar-vos a semente do desejo de que a “insanidade” desta época se comece a estender a outras. Não se esqueçam de a regar!!
Ana Dias

22.12.11

Ao domingo…


   Sempre que eu e os meus irmãos estamos juntos, os disparates reinam e as gargalhadas divertidas são uma constante. Não sei se isso acontece por termos o mesmo tipo de humor, que nos faz rir muito mais entre nós do que com estímulos externos, ou se é por pertencermos a um grupo muito restrito a  que mais ninguém poderá, jamais, fazer parte: o grupo de pessoas que sairam da barriga da minha mãe!
     Ora este trio a que pertenço tem peculiaridades tão exclusivas que a sensação de pertença não é comparável a mais nada.  Nesta espécie de clã,  elitista e impenetrável, impera uma regra básica e irrevogável:  a  nossa irmandade ( e os nossos secretos super-poderes de entendimento supremo) é inabalável e eterna.   Se calhar é por isso que, nos dias de festa em  que a casa estava cheia de gente, nos trancávamos a sós na casa de banho para poder dar largas às nossas divertidas tolices.  Talvez seja também por isso que continuamos a conseguir comunicar por dialetos estranhos,  inventados na infância, que mais ninguém percebe… nem mesmo os nossos filhos.  
   E hoje ao almoço, estando os três na presença da minha mãe, comentou-se novamente que todos nascemos ao Domingo.   O meu irmão logo de manhã, a minha irmã à hora de sair da missa e eu… bem, eu cheguei às primeiras horas da madrugada, já a antecipar o gosto pela criatividade noturna. Fiquei a pensar no facto de todos termos chegado à vida em dias dominicais. Terá sido coincidência? Ou terá sido um sinal? Terá sido um presságio de que as nossas vidas decorreriam tão despreocupadas e leves como as tardes de domingo?  Um aviso de preguiça sei muito bem que não foi porque não somos dados a isso. Por agora não tenho mais teorias a formular quanto a este pouco preocupante assunto, mas pode ser que um dia se faça mais luz quanto a isto. O que redescobri, ao escrever esta crónica, foi que duas das prendas mais belas que a vida já me meu, foram-me dadas… ao domingo!
Ana Dias

21.12.11



    Algum de vocês pode dizer que nunca dececionou ninguém?  Não sou, nem serei nunca, dona da razão, mas parece-me que ter a pretensão de passar pela vida sem nunca dececionar ninguém é quase tão impossível como pôr o tal elefante ( ou era um camelo?) a passar pelo buraco da agulha.
   Há sempre momentos em que dececionamos aqueles de quem gostamos ( com quem nos é indiferente parece que a questão nem se coloca, já repararam?).  Há sempre situações em que, por mais que nos estiquemos até ao nosso máximo , não sabemos como não defraudar as expetativas alheias.  É   então que surge aquele sentimento algo amargo que,  por momentos,  nos faz gostar um bocadinho menos de nós.
   Se me perguntassem a opinião ( nunca ninguém pergunta, mas eu dou-a sempre  na mesma!) eu diria para não se preocuparem muito com isso. Respondam apenas a três questões:  
- Deram o melhor de vós?
- Agiram movidos por bons sentimentos?
- Não se dececionaram a vocês mesmos?
  Se as respostas foram sim/sim/não, tenho a leve impressão de que, cedo ou tarde, tudo ficará bem. 
  Quando se é uma pessoa justa e de bons sentimentos, as deceções provocadas aos outros, desde que não nos dececionem a nós, acabam sempre por vir a ser entendidas e, com sorte, perdoadas.
Ana Dias
 

20.12.11

Instintivo


      Não sei quem foi que uma vez me disse que sabemos guiar bem um carro quando o fazemos sem pensar.  Faltas de jeito à parte, sinto-me inclinada a concordar quanto ao facto de não se dominar  a arte da condução  enquanto ainda se pensa como conseguir fazer o ponto de embraiagem. 
O que seria de nós se, de cada vez que nos sentamos ao volante, tivéssemos que nos abstrair de tudo e pensar apenas na próxima mudança a meter ou em levantar gentilmente um pé enquanto pressionamos o pedal com o  outro?     O  que seria de nós se estivéssemos constantemente a pensar em pôr um pé à frente do outro para andar, ou na direção que a  mão tem que levar para conduzir o garfo à boca?
   Será que  quanto mais as nossas ações são comandadas pelo instinto mais perfeitas saem? Será que as decisões são mais acertadas quando as tomamos sem perder muito tempo em pensamentos e pesagens?
   Acho que às vezes pensamos demais e isso impede-nos de viver melhor.  Por isso, da próxima vez que tivermos o impulso de abraçar, beijar ou dizer a alguém o quanto o/a amamos… porque não seguir o instinto?
Ana Dias

19.12.11

Uma caminhada



   Há muitos anos o meu pai viveu uma fase em que decidiu ter mais cuidado com a comida e dar longas caminhadas.  Como levava as decisões muito a sério, era frequequente  (nesse período, pelo menos ) vê-lo a sair para passeios de longa distância.  Houve um dia em que decidi acompanhá-lo, simplesmente para o presentear  com a minha companhia e valorização do seu esforço.
     Hoje passei de carro na estrada em que percorremos, lado  a lado, nove quilómetros. Já não me lembro que conversas tivemos, mas recordo que aquela hora e pouco foi especial. Pai e filha a caminhar juntos.
   E esta lembrança fez-me recordar também  que  não precisamos de estar ao lado de quem amamos para poder caminhar ao seu lado…  O caminho que cada um trilha é individual, mas quase todos nós temos muitas pessoas a andar ao nosso lado, mesmo que não as consigamos ver.   
     … É por isso que me quero esforçar mais por fazer ver a quem amo que estou sempre a caminhar ao seu lado, mesmo quando não estou presente!
Ana Dias

17.12.11

Coincidências

   Há precisamente um ano, mais ou menos por esta hora, aconteceu a primeira apresentação do meu primeiro romance, “Histórias do (A)Mar”.  O momento, ainda que importante na sequência do percurso, passou a existir no antro das minhas memórias, não como um sonho cumprido, mas como uma noite bonita partilhada com quem gosto.
  Hoje  lembrei-me deste aniversário íntimo mas  nem contava partilhá-lo convosco. Não fosse um mail que abri ainda há pouco e a data seria comemorada apenas com um sorriso nos lábios.   Mas, tal como o “Zoia” me chegou pelo correio no meu aniversário, venho a saber  hoje ( exatamente hoje!)  que o minha terceira obra, “Orgasmos da Alma”, tem uma editora  a querer publicá-la…
  Há coisas que, por mais que sejam apenas coincidências, dão um sabor especial à Vida.  Não acham?
Ana Dias
 
 

15.12.11

A festinha

- Mãe!
- what??
- Amanhã vais-me ver a tocar baixo na festa de Natal?
Pimba! Já estava a demorar muito! Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, as temíveis festas de Natal dos putos se iam abater sobre mim. Afinal estamos na época mais temível em que  é impossível escapar às multidões de pais encafuados no auditórios das escolas, a tentar perceber os poemas recitados e as peças de teatro intermináveis nas quais nunca se entendem as falas das pobres criancinhas…
- Claro que vou Tomás!
  E termina por ali a conversa. Porque o que eu só lhe vou dizer em adulto é que jamais lhe cobrarei as noites em branco, as preocupações, as nódoas dos sofás e os milhares de banhos que já lhe dei… mas de todas as festinhas de escola a que tenho tido que ir, vou arranjar maneira de me “vingar”…
Ana Dias

14.12.11

Vai mesmo a olho

   
Chego a casa a tempo de fazer o jantar, depois de dois dias fora. Entre burritos, banhos e um casal amigo que telefona a dizer que está a caminho, oiço uma voz a ecoar cá dentro, num espasmo de  momentânea lembrança.
   A voz é da Isabel, a professora do João, que me disse há dias para levar qualquer coisa para a festa de Natal dos miúdos.
  Tinha pensado passar pelo supermercado ou por alguma pastelaria e resolver o problema, como quase sempre faço. Mas algo em mim  quis surpreender-me: “ Ana, tu consegues! O João está de molho na banheira e a Miriam só chega daqui a cinco minutos… Vá, começa!”
  Espeto com um bom bocado de farinha num alguidar. Junto açucar, leite e dois ovos das simpáticas galinhas da quinta. Vai tudo a olho! Misturo bem com um garfo,  que as batedeiras dão muito trabalho a lavar e raramente lhes encontro as pás. Por fim,  uma lata de leite condensado cozido e pedacinhos de amêndoa.
  Quando eles batem à porta já eu untei o tabuleiro e pus a massa no forno. Nem sequer há  dificuldades na temperatura. Vai a 180 graus que, em caso de dúvida, no meio é que está a virtude!
  É claro que a quantidade de quadradinhos de bolo que coloco na lata de metal, para o joão levar para a festinha,  é bastante inferior à que saiu do forno… mas o certo é que,  em mim, aumentou a quantidade da certeza que aquilo que se faz a olho (e na busca incessante de nos tornarmos super pessoas) sai sempre com um sabor delicioso. É que não falha!!
Ana Dias
 
 

12.12.11

Pobres homens…



O mundo é injusto para com os homens. E hoje levanto a minha voz em sua defesa!
 Tudo porque ontem, ao ligar, incauta, a tv, vejo um relato exaustivo sobre um qualquer governador dos E.U.A. a ser tratado como um criminoso, a retratar-se em público e, finalmente, a demitir-se do cargo.  Pensava eu que o dito senhor tinha assassinado alguém ou, do mal o menos,  se tinha “afiambrado” a dinheiros  alheios, quando percebo que afinal tudo o que fez foi contratar os serviços de uma acompanhante de luxo.
   Ora pensem lá comigo: num país onde quase toda a gente tem armas de fogo, onde se cometem crimes horríveis a torto e a direito e onde a violência é uma constante em grande parte das produções televisivas e cinematográficas, com que direito é que vêm apedrejar o senhor por ter feito o que fez? Desde que o dinheiro gasto não tenha sido o dos contribuintes parece-me que o assunto deveria ser entre ele e a sua senhora! 
  O burburinho que oiço dentro dos vossos cérebros está-me a falar de valores… Como pode um titular de um cargo de responsabilidade dar um bom exemplo à sociedade ao corromper os bons costumes e a moral, não é?  Pois é, meus caros, mas há questões que estão na consciência de cada um e, em bom abono dos factos, sou da opinião que as senhoras que ganham a vida com tal ocupação são merecedoras de todo o respeito e consideração. Prestam um serviço de valor inestimável para o bom funcionamento da sociedade. Quanto aos homens que procuram os seus serviços, por favor, deixem-nos em paz! Apenas o fazem para suprir carências de uma forma eficiente e, na maior parte das vezes, por motivos completamente justificáveis.
  Por isso termino com três pensamentos. Os homens não se deveriam recriminar entre si pois quem nunca o fez não está livre de o vir a fazer. As mulheres não deveriam recriminar os homens que usam tais serviços pois se o utilizam deve ser por sentirem lacunas que elas próprias não preenchem. O que deve, sim, ser exorcisado é a hipocrisia de haver tantos verdadeiros criminosos no poder. E  se aquele governador se demitiu, estes, proporcionalmente, talvez devessem cometer suicídio!
Ana Dias

11.12.11

O macaco e o pato

    Quando uma pessoa é bastante inocente e ingénua, é frequente ser apelidado  de “patinho”. Por outro lado, aos espertalhões, é costume colar-lhes o cognome de “macacos”.
E hoje ocorreu-me a questão: o  que será melhor? Ser-se “patinho” ou “macaco”? Acredito que os “patinhos” sejam tendencialmente sempre “patinhos” , o mesmo  se podendo dizer dos “macacos”.   Mas afinal quem é que se sai melhor? Os “macacos”  que,  com a sua esperteza,   conseguem os seus intentos, ou os “patinhos”, que vão navegando nos perigosos lagos da vida sem muitas vezes se aperceberem,  sequer,  que o perigo se encontra à espreita?
  Será que ao longo da vida os “patinhos” vão perdendo a inocência e se tornam “macacos”? E quantos são os patinhos com que nos cruzamos que nada mais são que macacos disfarçados?
Eu gostaria de poder dizer, como nos finais felizes das comédias românticas americanas,  que a inocência de se ser “patinho” acaba por compensar sempre…. mas acho que já tenho idade para perceber que o melhor mesmo é preservar a essência de “patinho”, mas aprender a agir à “macaco”…
Ana Dias
  

7.12.11

A gaveta


   Ontem falei com uma pessoa que me confessou  já ter rejeitado  alguns desafios. Não os aceitou, embora se sentisse aliciada, por um dos motivos que mais nos assola: o medo.
  Disse-me que não gostaria que esses projetos acabassem na gaveta. Sei que, no fim da conversa, eu lhe disse: - Experimenta escrever como se só tu existisses no Mundo; escreve para a tua alma e aposto que ela se vai surpreender com o que tens para lhe dizer…-
  E hoje esta crónica é para ti, pessoa de olhar meigo com quem ontem falei! É para ti e para todos os que ainda precisam de perceber que não há mal nenhum em deixar coisas na gaveta. Porque o simples facto de termos coisas na gaveta já implica a imensidão da conquista de as termos feito. Pode ser arte em qualquer das suas formas, pode ser caridade, pode ser qualquer coisa que tenhamos feito sem que ninguém tenha visto. Mas foi feito! E tem todo o valor que teve,  para nós, ao fazê-lo!
  Por isso, pessoa do olhar meigo, te digo: não temas o julgamento da tua obra. Diverte-te e completa-te ao criá-la e, mesmo que fique na gaveta, verás como te enobrece e enriquece. Porque todos temos, na nossa gaveta, feitos que nunca chegam a ver o sol.     E porque, às vezes, chega o dia em que as coisas voam para fora da gaveta e nos brindam com as mais agradáveis surpresas…
Ana Dias
  
 

6.12.11

Supera-te

- Não te vou dar isso nos anos… estás louca?
- Vá lá, vá lá!! E nem sequer é assim tão caro!!
- Óh pá, ganha juízo que já tens idade…
- Não! Quero fazê-lo e vou fazê-lo!
   A discussão de mim comigo surge logo após a visita a um site de Kitesurf. Ando há uns tempos tentada e  acho que está na hora. Mas,  enquanto a Ana teenager vai discutindo com a Ana adulta ( coitada, que perde quase sempre nestas coisas ) não consigo impedir-me de pensar se o quero fazer por mim, ou para afirmar alguma coisa aos outros. Tenho que confessar que é muito giro ver a cara dos amiguinhos dos meus filhos quando vêem a “cota” a fazer street surf ou outras coisas que as mães deles não fazem. E não me atrevo a negar  que o estilo de se fazer desportos radicais não seja um elemento aliciante. Mas não é por isso que gosto de descer montanhas cada vez mais inclinadas com os skis enfiados nos pés. Não é por isso que viajo sozinha para países distantes! Não é por isso que me atrevo em ondas grandes ou tomo banho na praia à noite sozinha! E também não é por isso que me proponho a  escrever um romance em menos de um mês, letras de música em cinco minutos ou criar uma revista online sem qualquer experiência na área! Não! Definitivamente não o que faço  para demonstrar aos outros que consigo. Faço-o para me superar. Para me sentir inteira, completa,  realizada, feliz.  Faço coisas que as pessoas que eu conheço não fazem, sejam homens ou mulheres. E sinto-me muito grata  por ter a capacidade de me propôr a isso. Porque não páro de me surpreender comigo… ao superar-me em cada nova “loucura”.
E, como me arrogo à função de vos instigar e inspirar, deixo-vos a questão: o que vos falta fazer? Porque não começarem ( ou retomarem)? Mas que seja por vós e não pelos outros!
Ana Dias