(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

14.10.11

Lost in translation

    Quando o meu sobrinho mais velho estava a estudar em Inglaterra, não percebeu à primeira a razão de não ser entendido quando perguntou se era preciso usar um “monkeysuit”. As gargalhadas correram velozes quando, depois de se explicar por outras palavras, percebeu que,  em inglês,  é jumpsuit que se diz, e não fato de macaco traduzido à letra….
   Mas há outras ocasiões em que o desvirtuar do sentido das palavras proferidas nos deixa com um sorriso amarelo e as bochecas coradas de vergonha, como me aconteceu num jantar em casa de uns amigos ingleses que quis pôr à vontade revelando que gosto de todas as comidas. Ora se em bom português é absolutamente inócuo dizer-se que se é de boa boca, em inglês, dizer – “ I’m a good mouth” – deixou-os com uma palidez assustadora e a boca aberta de espanto por eu estar a ser tão inconveniente, a vangloriar-me à mesa de habilidades que não devem sair do recato dos intervenientes envolvidos em tais atividades!
   Mas há tantos outros casos… Por exemplo: os habitantes do Tibete e outras terras altas, será que gastam todas as economias e saúde em substâncias proibidas para estarem sempre”high”?  E o que dizer dos músicos que tocam instrumentos de sopro… serão perversos por terem um “blow job”?
   Enfim, há situações caricatas, cómicas até, quando nos “perdemos” na tradução. Poderia dizer que o que se perde é o sentido daquilo que pretendemos transmitir, mas insisto no “perdemo-nos” porque ficamos, realmente, perdidos!
  Se um espanhol nos disser que foi a um restaurante “exquisito”, a nossa primeira tendência é pensar: - “ ainda bem que avisas que assim já lá não vou” – e, no entanto ,  estaremos a perder uma experiência gastronómica excelente…
  Ou se um natural do norte do pais sai de casa, de manhã, e diz ao telefone a um amigo mais mouro: “ fuodass… tá um dia do carago!”, o mais certo é que, do outro lado da linha, pensem que há uma tormenta de proporções bíblicas.
  E se alguém adjetivar outrem de fleumático ou peremptório  e receber injúrias em troca?
   No fundo we can be lost in translation  independentemente da lingua ou dialeto!  A qualquer momento pode surgir a calamidade de não sermos entendidos e gerar-se a confusão de nos interpretarem erroneamente. Basta um tom de voz mais irónico ou palavras vagas para a confusão se instalar… Por isso,  meus caros, quando tiverem algo realmente importante a dizer, escolham bem as palavras e digam-no de várias maneiras diferentes… pode ser que assim não se percam…. os verdadeiros sentidos!
Ana Dias

13.10.11

" Culo de mal asiento"



   - “ Importas-te de parar quieta?” –
- “ Hã?” –
 - “ Sim! Pára um bocadinho e senta-te sossegada ao pé de nós!”
  Quando estavam junto a mim, era quase sempre este o discurso da matriarca de uma família espanhola pela qual tenho grande estima.  O meu feitio irrequieto era de tal forma pronunciado que ela me começou a chamar… “culo de mal asiento”…
   Passaram muitos anos e já não ando sempre a fazer “ricochete” pelos sítios por onde ando.  Mas a sede de conhecimento do mundo e a ânsia de viver, aprender, pensar  e  emocionar-me,  mantém-se inalterada.   Às vezes, ao pensar nisto, ainda me lembro da música do António Variações… “só estou bem  onde não estou…” porque afinal, não é muito normal que uma pessoa, antes mesmo de chegar à praia, já esteja a antever alguma inquietude e a antecipar a partida. E é então que me pergunto: mas porque raios não és como as pessoas normais, acomodadas no seu canto, sossegadas, conformadas?
    Seria certamente  mais fácil…  mas muito menos inteligente e emocionante!  Não estou à espera de descobrir novos continentes nem efectuar outras grandes descobertas, mas o que seria do Mundo se o Marco Polo, o Cristóvão Colombo,  o Vasco da Gama e o Pedro Álvares Cabral não tivessem sido “culos de mal asiento”?   E se todos os grandes criadores de arte, cientistas, filósofos, etc, tivessem ficado acomodados no seu canto, sossegados e conformados? Que perda isso não seria?  
  É por isso que me conformo com este “fardo” de ser, mais que um “ culo de mal asiento”, uma “alma de mal asiento”.  Porque,   por mais que essas características não tragam nenhum benefício ao Mundo, mal também não farão!
Ana Dias

12.10.11

A fotografia


   Ela leva-me ao quarto e mostra-me a fotografia que tem na mesinha mais próxima da cama. Uma bela jovem admira, extasiada, o homem seguro que a abraça com ar confiante. Toda ela é sorriso e amor. Todo ele é integridade e realização.
    Pego na moldura e absorvo cada detalhe. O requinte da envolvência; a forma como ele, feliz,  olha o infinito e segura o cigarro com estilo. A perfeição toma conta de cada singular nuance naquele daguerreótipo ainda a duas cores…
    Pouco depois, enquanto bebemos um porto sentadas à mesa,    ela diz-me:  - “Ainda o amo, sabes querida?” – O brilho daquele  olhar comprova a verdade das palavras. O sorriso saudoso, todo feito de amor, confere ao momento uma singularidade quase etérea.
   Fico sem palavras. Numa das poucas vezes em que elas me faltam, compreendo o valor do silêncio. Entendo que há frases,  ditas por todas as células,  que não esperam resposta.
  Peço-lhe para continuar. Para me falar mais desse homem perfeito que conseguiu continuar a arder na chama acesa de um amor tão forte… quarenta e três anos depois de ter morrido! E ela continua. A conversa corre, veloz e emocionante, enquanto conheço um pouco mais desse avô perdido nas brumas do tempo.
   Mas os momentos passam e a conversa acaba por ter um fim.  Contudo,  embora os momentos passem ( sejam eles uma conversa profunda ou um amor perfeito vivido durante treze anos)  os efeitos de certos momentos estendem-se no tempo de uma forma quase inexplicável…
   Trago comigo a certeza comprovada  de que os amores eternos existem.  E a esperança de que haja,  por esse mundo fora, mais homens fortes como o meu avô… capazes de enfrentar  tudo por amor; capazes de se sentirem  seguros  e plenos ao lado de  mulheres tão fortes e impetuosas como eles próprios…
Ana Dias

11.10.11

Por inteiro...


   Entro no carro e sinto o calor. Começo a percorrer os cinquenta quilómetros que agora me separam de casa e percebo que é imperativo ligar o ar condicionado.   A voz da Nina Simone invade o pequeno espaço e consola-me das saudades das maravilhosas mulheres que deixei para trás, naquela terra cinzenta e fria.
   O voo decorreu suave e ensonado mas, ao sair do avião, sinto o peso dos vinte graus a mais. Felizmente fui precavida e deixei uma fresca blusa de alças por baixo de toda a roupa que de manhã vesti.   E, perante o calor e luminosidade brilhante da minha terra, percebo que no frio também se pode encontrar calor…
  Cheguei à Holanda na sexta feira, para rever as minhas tias  e reencontrar-me com a mãe delas, o amor da vida do meu avô paterno, que nunca conheci. Ao longo dos breves dias conheci primas ( é impressionante o que a distância pode fazer…)  e “conheci” um pouco mais sobre esse avô maravilhoso a quem, na inocência da infância, pedia sempre a etérea  proteção; ouvi contar a história de um amor eterno e imortal e episódios da vida de um homem único que me deixou como legado uma imensidão de características de que tanto me orgulho. De caminho recebi uma avalanche quente de amor e mimos que me deixaram com a certeza de que há laços que nem o tempo nem a distância têm capacidade de enfraquecer.
  E então, enquanto o carro desliza suave ao som da potente voz da Nina,  sorrio para o céu numa silenciosa comunhão com dois homens que estão juntos, a brindar para toda a eternidade… Onde quer que estejam, o meu avô e o meu pai, devem ter passado um fim de semana feliz, a “ouvir” as gargalhadas e cumplicidades das suas filhas.
  E sigo o meu caminho, a sentir-me infinitamente rica e poderosa: o meu avô pode ter sofrido muito para poder viver aquele amor, mas o seus frutos estarão para sempre unidos num amor indissolúvel. Porque, como dizia o meu pai às suas meias irmãs: não há meios irmãos, há apenas e sempre, irmãos!
  E sabes, Rute? Ele tinha razão! Porque eu jamais saberia dizer-te qual a metade de mim que é tua sobrinha….
Ana Dias

6.10.11

Façam a mala!



   Deixo os putos na escola e vejo um um grande “carrão” a parar à minha frente. Comparo-o com os meus e penso: “ Um dia vais oferecer a ti mesma  o carro que te apetecer…” – Mas mudo logo o registo do pensamento… - “ Óh minha burra… E será que eras mais feliz ao volante de um daqueles do que aos comandos dos dois que tens à disposição??”
  Duvido! E enquanto duvido lembro-me de fazer um  pequeno balanço à vida. O meu pai dizia sempre que um homem pode partir desta vida depois de ter feito uma casa, tido um filho, plantado uma árvore e escrito um livro… Eu acho que uma pessoa pode partir a qualquer momento… mas que parte muito melhor se tiver realmente vivido; se tiver seguido sonhos e feito os outros sonhar; se tiver sido amado e feito os outros amar; se não guardar ressentimentos nem tiver quaisquer remorços! 
   E, nos restantes minutos que me separam do computador e da meia de leite, tenho ainda tempo para mais dois exercícios mentais ( ou seriam espirituais?).  Percorro a minha história e tudo o que já disse, fiz, construí, destruí, desejei, consegui, perdi, agarrei, gerei…. e sorrio. Na verdade um sorriso grandioso abre-se-me no rosto!  Porque, por mais que ainda me faltem fazer milhões de coisas nesta vida, sei que se ela acabasse hoje mesmo, nada tinha ficado por dizer, fazer ou desfazer.  Talvez não saiba ainda viver cada dia como se fosse o último, mas o estado de amor, perdão e ausência de remorço em que aprendi a viver, indica-me que “estou de malas feitas” para toda e qualquer viagem!!
  Enquanto termino, permitam-me que vos sugira  uma pequena reflexão para que vejam o que têm nas vossas bagagens…. Têm coisas por dizer? Coisas por fazer? Pazes e desculpas por pedir?  Façam, simplesmente, a mala…. Tentem viver sempre preparados para qualquer viagem…
Ana Dias

4.10.11

Poderosa raiva


O sangue ferve. A adrenalina sobe. A respiração torna-se mais ofegante e pesada. Ela sabe o que está a acontecer-lhe…. Sente-se injustiçada. Não aceita as acusações, que sabe estarem fundeadas num pântano de medos e impotências. Ela sabe que as reações do seu corpo são um reflexo deuma emoção: a raiva.  Aprendeu a sentir a raiva. A usá-la para se defender com palavras frias e retiradas abruptas. 
   Aprendeu a sentir a raiva e a aceitá-la como um reagente ideal que sabe diluir com o tempo. Mastiga as palavras que ouviu. Relembra-as por uma ou duas horas, não mais. Usa a raiva para destilar os estilhaços do confronto num alambique de amor.
   Ausenta-se. Retira-se. Calibra-se a sós enquanto a raiva, essa poderosa aliada, se esfuma como o cheiro de um bom churrasco ao longo de uma tarde de verão. Sabe que a raiva passa e, ao passar, leva com ela toda e qualquer hipótese de que o ódio se instale.
“- Faças o que fizeres, meu amigo, jamais me farás odiar-te.” – Pensa ela. – “ Faças o que fizeres, amar-te-ei sempre… Porque em mim só cabe amor!”
Ana Dias

3.10.11

Amanhã pode ser tarde...


    Ontem almocei de novo com o Vítor, o grande amigo,  de toda a vida, do meu pai. Quando o meu filho mais velho me perguntou quem era, respondi-lhe: - Este senhor era o João Paulinho do teu avô…. – E o Tomás, ao ouvir-me a proferir o nome do seu melhor amigo, compreendeu de imediato o valor daquela presença.
    A dada altura o Vítor, comovido, disse-me que revê muito o meu pai em mim. Fiquei feliz. Sei que, para o bem e para o mal, é uma verdade irrefutável. E, durante as poucas horas que passamos juntos, senti-lhe de novo a dor de ter esperado tanto tempo para rever o amigo João… Porque não chegou a tempo…
   E vou dizer-vos algo porque é importante que pensem: os que nos são mais queridos continuam a amar-nos sempre. Por mais que a distância e os anos separem amigos, há amizades  intocáveis!   Mas qual é o peso na nossa inércia? Qual é o sentido de dizermos a nós mesmos que não podemos ir ao outro lado do mundo ver AQUELE amigo porque não há dinheiro ou tempo ou condições?  Vou deixar-vos um desafio… sabem aquele grande amigo (que será vosso amigo para sempre, neste mundo ou no outro) que não vêem há tanto tempo?  Vão vê-lo!! Esteja ele na rua de cima ou nas profundezas da selva amazonica!  Juntem os trocos que andam a guardar para comprar o plasma maior e, se não puderem ir com a família toda, vão sozinhos!  Mesmo que seja só por uma hora ou dois ou três dias, vão vê-lo… porque amanhã podem não ter saúde para ir. Amanhã podem já não o encontrar, sorridente, à vossa espera…
   É por isso que vou ver a minha tia/grande amiga, que há tantos anos não vejo… Porque amanhã uma de nós pode já não estar cá…. É por isso que quero ver todos os que amo sempre que posso…
   Quanto ao meu filho e ao seu grande amigo, o João Paulinho,  que vivem a trezentos km um do outro, hei-de fazer os possíveis para lhes proporcionar mais tempo juntos.
   E tu, Vítor, grande amigo, pára de lamentar não teres vindo a tempo…. Posso ser  uma mera lembrança fugaz de tudo o que o meu pai foi para ti… mas devotar-te-ei para sempre a continuação da amizade que o João te tinha.
Ana Dias

1.10.11

Elementar, meu caro Watson!


   Desde miúda que me lembro de ser fascinada pelo Sherlock Holmes  e  de me  maravilhar com os seus geniais métodos de dedução.  Na verdade,  a minha admiração sempre foi toda para a argúcia inteligente do seu “pai”, o Sir Arthur Conan Doyle.  
  E como, recentemente, tenho completado a leitura dos vários volumes que compõem as “Histórias completas de Sherlock Holmes”, é natural que me tenha deixado envolver de novo pela experimentação ( com que às vezes brincava na  adolescência ) de tentar pôr em prática os seus métodos.
   Desengane-se quem pense que vivo rodeada de crimes violentos e aparentemente insolúveis… mas começo a constatar que sou eu própria uma “criminosa” quando não estou atenta a todas as “pistas” que a vida dá… para que eu a entenda claramente!  Usando um pouco mais a inteligência ( na medida do que se tem, claro) e a observação compenetrada, acabamos por deduzir factos extremamente importantes, a saber:  - até prova em contrário, a vida é só uma;  - mais cedo ou mais tarde todos morremos;  - existem muito poucas coisas por que valha a pena estarmos tristes e irritados;  - o amor é a melhor coisa que se pode sentir;     -cada dia que deixamos passar não volta a ser vivido; - pode-se sempre tirar algo bom de uma coisa má;  - nada é para sempre, por isso mais vale saber aceitar as mudanças!
   Para comprovarem estas verdades , e muitas outras, basta começarem a observar tudo e todos com mais atenção e aprenderem a deduzir que cada momento é único e, literalmente, irrepetível !   
   Elementar, não é, caro Watson??
Ana Dias

30.9.11

A festa

   Os meus pais estiveram casados quarenta e nove anos, seis meses e seis dias!  Fariam hoje cinquenta anos de vida a dois. 
  Como se diz por aí, não há casa onde o sol não entre e a união dos dois seres que me deram a vida não terá sido  sempre um mar de rosas… mas foi, sem dúvida, um terreno fértil  para uma  prole vasta  ( e meio louca…) e para um amor que durou tanto tempo quanto o tempo permitiu. 
  Embora a grande festa com que o meu pai sonhou  para o dia de hoje, não se tenha realizado, o amor da vida dele viveu um jantar risonho e animado na companhia de todos os filhos.  Não sei o que terá passado pela cabeça e pelo coração da minha mãe esta noite, até porque a sua atitude composta e recatada pouco deixa vislumbrar o lá por dentro ocorre, mas de algumas  coisas estou segura:  sentiu a presença dele em todos nós; agradeceu-lhe em silêncio   os quarenta e nove anos, seis meses e seis dias de coisas boas e más, de lutas e triunfos, de amor  e companhia …
   E há pouco, quando a deixei em casa, disse-lhe que  ficou o legado. O meu pai pode não ter estado presente por si próprio na sua grande festa, mas esteve em amor, em legado e  em carga genética… E como, para mim, o amor não morre na ausência, brindo aos meus pais… que fizeram hoje cinquenta anos de casados!
Ana Dias

28.9.11

Ironias...


A primeira cobrição

    O início do ano letivo traz consigo um corropio de novos horários e velhos hábitos, e listas intermináveis de materiais escolares para comprar. Mas traz também algo bem mais terrível: as reuniões de pais.  Como encarregada de educação, lá fui ontem à reunião do João e hoje à do Tomás.  Acabo por me sentir como nos aviões… por mais que já se conheçam de cor todas as regras de segurança, temos que “levar” sempre com aquilo!
    Mas, nestas duas reuniões seguidas,  houve algo que me prendeu a atenção.  Tanto o pequenino, que entrou para o 1º ano, como o grande, que foi para o 5º, vão ter uma componente de educação sexual….   Até aqui tudo muito bem, certo?
  Então o que é que me espantou neste facto? Simples! Foi  a cautela com que os professores abordaram a questão… quase a pedir desculpa por terem de obedecer a ordens superiores! Salientaram e sublinharam bastante que era tudo muito superficial e inóquo, por forma a não ferir a susceptibilidade das crianças.
  Ri-me por dentro. Triste por constatar que os obsoletos tabus e o  encarar o sexo como uma coisa nefasta ,ainda perduram nas mentes da minha própria geração. Mas ri-me,  também, de contentamento. Afinal os meus dois filhos ( esses a quem a sexualidade vai ser aflorada com tantos cuidados ) só na última semana, foram três vezes levar a égua mais nova ao cavalo para ver se há um potro novo cá na quinta para o próximo verão….
 Embora saibam ambos, desde há muito, a exata maneira como a sementinha vai parar ao campo fértil do útero, não pude deixar de soltar umas valentes gargalhadas com a descrição da primeira cobrição a que assistiram!   O pequeno abriu os braços e disse: - Mãe! Aquilo é deste tamanho!!  -  e o grande ia repetindo: - Que  nojo! Que nojo! -
  O certo é que,  nas vezes seguintes,  lá foram  de novo  os dois, todos satisfeitos, montados no trator e com a égua a reboque para ir ter com o “namorado”.
  Por isso das duas, uma: nas tais aulas de sexualidade  que alguns professores tão relutantemente vão dar, ou  os meus filhos adormecem ou …. dão eles próprios a aula!
Ana Dias

27.9.11

Viagem … ao centro de mim

   A solidão assusta. Não só na vida em geral, mas nas viagens também. Começam, aos poucos, a proliferar as viagens a sós, muitas delas organizadas por agências vocacionadas para excursões a solo… mas em grupo!  E isso não é viajar sozinho, mas na companhia de desconhecidos que em breve  se tornarão companheiros de viagem… Assim é fácil…
   A solidão assusta. Sobretudo quando, lançados ao mundo, percorremos caminhos desconhecidos; enfrentamos desafios não previstos e descobrimos, perante a mais fabulosa paisagem, estar a contemplá-la a sós, sem a alegria da partilha que nos exponencia as sensações…
  E a solidão assusta porque sabemos que só contamos connosco e que, se algo correr menos bem, apenas nos restará contar com o milagre da solidariedade alheia. Mas uma viagem a sós ( daquelas marcadas na net com a convicção de não se querer ir em excursão) tem a  sua  mais temida face no tempo passado com nós mesmos… Mais que tudo o resto, é isto que nos assusta, ou pelo menos é o que tenho entendido de todos quantos, espantados, me dizem que jamais seriam capazes de fazer o que eu faço….!
  Tudo começou numa manhã de Domingo, sentada ao computador. A vontade de partir já cá estava, mas não queria partilhar o meu tempo e espaço com ninguém.  – “ Para onde vou?” – Perguntei-me. – “ Conheço meio Mundo e nunca visitei o Louvre…É isso! Vou para Paris!” -  Meia hora depois tinha os voos marcados, o hotel escolhido e o planeamento dos meus dias relativamente bem estruturado.  Por momentos pensei em convidar alguma amiga, mas o friozinho no estômago estava a saber-me tão bem que percebi que aquela viagem era mesmo só para mim:  para estar comigo… em Paris.
  Uma semana mais tarde, ao sentar-me no avião, percebi que, apesar das incontáveis vezes que me elevara nos céus, jamais o havia feito apenas comigo. Revi mentalmente tudo o que tivera de deixar preparado para a minha ausência: quanto ao trabalho, quanto à casa e aos filhos… mas depressa percebi que queria deixar tudo em casa, como que tirando umas férias da vida. Ainda bem que assim fiz ou teria corrido o risco de partir só com o corpo, deixando a alma para trás…  Mas não! Eu fui inteira! Ou pelo menos assim o pensava  ao chegar, maravilhada, à cidade Luz!
  Quando se viaja sozinha tudo tem outro encanto:  responsabilizamo-nos em absoluto por nós num silêncioso pacto de zelosa  protecção; seguimos ao nosso ritmo e divagamos, com ou sem destino, ao sabor da nossa vontade; respeitamos as regras por nós impostas, mas com a satisfeita leveza de nos sabermos senhores da nossa própria vontade e experimentamos a egoísta vivência de tudo saborear com um encantamento infantil de quem não se cansa, mesmo quando o corpo já não pode dar mais um passo…
Por isso devolvo o meu espanto a quem se admira por eu partir sozinha pelo Mundo, dizendo que jamais seria capaz… como podem negar-se a experimentar? Como podem pensar que é assustador e desconfortável?  Como podem não dar, sequer, uma condescendente hipótese à viagem que poderia abrir, mais que os vossos horizontes, as portas do vosso interior?


É por isso que não, a solidão não assusta! Só a pode temer quem  pense que não se tem a si mesmo!
  E apenas digo isto porque nessa primeira viagem a sós, sem mais companhia que a minha,  vivi um reencontro inesperado que me devolveu a mim mesma….houve segredos revelados de dentro para fora, num conhecimento mais pleno e profundo,… numa beleza tão rica quanto o destino escolhido… E é na bela paisagem do nosso interior que realmente fazemos a mais perfeita viagem… aquela nos muda e regenera e poderá muito bem ficar gravada na nossa memória como a viagem da nossa vida!
Como nessa semana em Paris… Nessa viagem… ao centro de mim…

Ana Dias

Peregrino das Estrelas

  Deixo o telefone chamar, mas ninguém atende. Espero um pouco mais. Em vez do meu irmão, atende a minha cunhada que me informa que ele está nas cem piscinas matinais. Peço que mesmo assim o interrompam, e a minha sobrinha leva-lhe o telefone à piscina. Talvez outra pessoa não merecesse a interrupção das cem mil léguas submarinas mas, para o meu genial maninho, as irmãs são uma prioridade!
  -“ Estou, maninha?” – pergunta-me, curioso e ainda meio ofegante.
- “ O planeta Terra viaja no espaço?” – Habituado aos meus devaneios, que surgem sem mais aviso, começa a responder prontamente.
- “ A Terra anda à volta do Sol…”
- “ Passa à frente, essa parte eu sei!!”
- “ …E o Sol anda à volta do centro da nossa galáxia… Um gigantesco buraco negro cuja existência já foi comprovada. Para toda a galáxia dar uma volta completa em torno do seu centro são necessários cerca de 200 milhões de anos, mas quanto a estes valores não estou bem seguro… Depois… há milhões de galáxias….” – Quando começa a falar disto já ninguém o cala.
- “ Mas diz-me, estamos a viajar no Universo?...”
- “ Tudo se move, nada é estático. Ainda para mais porque o Universo está em expansão e depois há ainda outras forças como a da gravidade que, apesar da expansão do Universo, faz com que galáxias inteiras se juntem mais umas às outras,  formando aquilo a que se chama os enxames de galáxias…”
- “ Obrigada maninho, já tenho o que preciso. Vai lá nadar outra vez!” – E desligo sem que o meu bem informado irmão chegue a ter tempo de me perguntar o porquê de tais perguntas.
  Pois bem, o “culpado” é um senhor que ontem me pediu amizade virtual e que se define como Peregrino das Estrelas. À vista desarmada,  pensei: “ Pimba… mais um chalupa…”, mas depressa reconsiderei,  por ponderar que,  no fundo, de uma forma ou de outra,  todos somos viajantes do Espaço (mas não quis escrever esta crónica sem consultar uma autoridade…).
  Vieram-me à lembrança uns meteoritos que vi no Museu de História Natural de Nova Iorque. Fiquei impressionada com a densidade dos pedregulhos que tinham um peso tremendo para o volume físico em questão. E fiquei a olhar ( e a tocar, como não??) embasbacada para aqueles pedaços de matéria vindos sabe-se lá de que confins do Universo. Fiquei a pensar se as primeiras células que deram origem aos primórdios da vida na Terra se terão gerado por cá ou terão  chegado “montadas” nalguma daquelas pedras celestes…
   Será assim tão descabido que alguém se auto proclame Peregrino das Estrelas? Afinal não estamos todos em movimento no imenso Universo? Não pertencemos ao Espaço? Não podemos voar, por dentro de nós, até aos confins desta Galáxia e de todas as outras?  Talvez desta vez me tenha “metido” por terrenos pantanosos… mas quem sabe, um dia destes, nas minhas imaginárias viagens, não me sente num confortável meteorito, com as perninhas a balançar, e parta numa emocionante viagem como Peregrina das Estrelas…
Ana Dias