Perfeição e sabor
Não me lembro bem onde é que vi um senhor com um cabelo tão perfeitamente penteado que tive de me perguntar se não seria um capachinho.
- Já reparaste que as coisas demasiado perfeitas soam a falso?- comentei com quem estava comigo.
Pouco vou à horta que o Ricardo plantou cá na Quinta mas, quando o faço, fico encantada com a cor dos tomates, o aroma das meloas e o sabor dos morangos.
- Anda! Quero que proves uma coisa.- disse ele enquanto me fazia segui-lo de um socalco para outro.
- Prova este morango!-
Olhei para o aspeto imperfeito e enfezado do fruto acabado de apanhar, limpei-o com as mãos e comi-o em duas pequenas dentadas.
Depois de alguns segundos a, literalmente, gemer de prazer, agradeci como uma criança: - Foi o melhor morango que comi em toda a minha vida!!
Quando me apercebi do antagonismo destes dois acontecimentos compreendi o valor da sua conjunta mensagem: não é a aparência perfeita que confere o sabor a nada! A perfeição em excesso faz tudo soar a falso. Procuramos rodear-nos de perfeição e beleza. No nosso corpo, nas nossas coisas, nas nossas relações e vivências. E no entanto é tão frequente esquecermos-lhes o sabor...
Não quero um casamento perfeito, quero-o tão saboroso como aquele morango. Não quero filhos perfeitos, quero-os com o seu sabor espontâneo e genuíno. Não preciso de carros topo de gama nem roupas de luxo, quero apenas bens que saibam a fiabilidade e caráter. E quanto à minha própria pessoa, fico feliz por já ter descoberto há muito que embora a perfeição não more aqui, o sabor de ser genuína todos os dias me nutre.
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
3.8.13
Inteligente decote
Inteligente decote
Há dias em que tudo o que queremos é passar despercebidas. Há outros em que nos incomodamos com olhares e hipotéticas considerações que possam formular sobre nós. Mas outros ainda existem em que nos sentimos tão confortáveis e sensuais na nossa pele que uma apresentação um pouco mais provocante faz todo o sentido.
Quando se veste uma saia curta ou um decote de deixar meio planeta a babar, temos que estar preparadas para isso. Não podemos pavonear condignamente a nossa estrutura física sem uma sólida estrutura emocional, sob pena de deixar que o invólucro fale mais alto que o conteúdo. Quando isso acontece está tudo perdido, é-se presa fácil das próprias inseguranças. O que transforma uma mulher "boa" num ser extremamente sensual é a confiança e a classe. Na verdade é preciso muita classe, inteligência e personalidade para sustentar um provocante decote sem se parecer oferecida. Da mesma maneira que tudo isso é necessário para se conseguir ser sensual com golas até às orelhas.
Ana Amorim Dias
Há dias em que tudo o que queremos é passar despercebidas. Há outros em que nos incomodamos com olhares e hipotéticas considerações que possam formular sobre nós. Mas outros ainda existem em que nos sentimos tão confortáveis e sensuais na nossa pele que uma apresentação um pouco mais provocante faz todo o sentido.
Quando se veste uma saia curta ou um decote de deixar meio planeta a babar, temos que estar preparadas para isso. Não podemos pavonear condignamente a nossa estrutura física sem uma sólida estrutura emocional, sob pena de deixar que o invólucro fale mais alto que o conteúdo. Quando isso acontece está tudo perdido, é-se presa fácil das próprias inseguranças. O que transforma uma mulher "boa" num ser extremamente sensual é a confiança e a classe. Na verdade é preciso muita classe, inteligência e personalidade para sustentar um provocante decote sem se parecer oferecida. Da mesma maneira que tudo isso é necessário para se conseguir ser sensual com golas até às orelhas.
Ana Amorim Dias
Musicalmente
Musicalmente
Esbarrei por acaso com uma música dele assim que acordei. Ajudou-me a sair da névoa adocicada dos sonhos e a entrar no dia como se ele estivesse inegavelmente abençoado. Quase por instinto pedi-lhe amizade e lancei-me corajosamente a mais um cansativo e alucinante dia, esquecendo o acontecimento.
Ao fim da tarde, pouco antes de ir para o banho para passar depois à segunda fase laboral do dia, verifiquei que o Olivier Cosson tinha aceite o meu convite e publicado no meu mural. "Bom dia Ana, agradeço o teu convite. Desejo-te um doce dia. Musicalmente, Olivier Cosson." E juntou mais de uma hora da sua tranquilizante música que ouvi durante o banho e enquanto me vestia. O sublime atingiu-me e comoveu-me de tal forma que tive que lhe agradecer a partilha. E que fez ele? Bem, respondeu que era ele que me agradecia a mim por ouvi-lo!
Tive que sorrir. Ele faz melodias que dão paz e plenitude e ainda agradece a quem o ouve? Tive que sorrir porque senti a sintonia com o que eu própria descobri que faço: escrevo coisas que dão paz e plenitude e depois agradeço por lerem. Fico a pensar que se calhar há uma humildade estranha que une invisivelmente os artistas e sonhadores. Sim, se calhar há mesmo um fio mágico que nos une na esperança de inspirar e melhorar o mundo.
Mais uma vez obrigada, Olivier!
E vocês, meus meninos, vão lá ouvi-lo e sentir a paz!
Musicalmente,
Ana Amorim Dias
Esbarrei por acaso com uma música dele assim que acordei. Ajudou-me a sair da névoa adocicada dos sonhos e a entrar no dia como se ele estivesse inegavelmente abençoado. Quase por instinto pedi-lhe amizade e lancei-me corajosamente a mais um cansativo e alucinante dia, esquecendo o acontecimento.
Ao fim da tarde, pouco antes de ir para o banho para passar depois à segunda fase laboral do dia, verifiquei que o Olivier Cosson tinha aceite o meu convite e publicado no meu mural. "Bom dia Ana, agradeço o teu convite. Desejo-te um doce dia. Musicalmente, Olivier Cosson." E juntou mais de uma hora da sua tranquilizante música que ouvi durante o banho e enquanto me vestia. O sublime atingiu-me e comoveu-me de tal forma que tive que lhe agradecer a partilha. E que fez ele? Bem, respondeu que era ele que me agradecia a mim por ouvi-lo!
Tive que sorrir. Ele faz melodias que dão paz e plenitude e ainda agradece a quem o ouve? Tive que sorrir porque senti a sintonia com o que eu própria descobri que faço: escrevo coisas que dão paz e plenitude e depois agradeço por lerem. Fico a pensar que se calhar há uma humildade estranha que une invisivelmente os artistas e sonhadores. Sim, se calhar há mesmo um fio mágico que nos une na esperança de inspirar e melhorar o mundo.
Mais uma vez obrigada, Olivier!
E vocês, meus meninos, vão lá ouvi-lo e sentir a paz!
Musicalmente,
Ana Amorim Dias
Fugaz dúvida
Fugaz dúvida
Quando fui convidada para ser entrevistadora num documentário, aceitei de imediato. Quando as minhas opiniões e visões me conduziram a estar diretamente envolvida na produção do mesmo, achei tudo muito normal. Ao perceber que as filmagens decorrerão em Paris e entrevistarei em inglês, achei tudo perfeito e não me preocupei minimamente.
Mas no outro dia, enquanto guiava, comecei a somar todos os factos e, por breves segundos, ocorreu-me que talvez o meu inglês e todas as minhas capacidades não estejam à altura deste desafio em finais de Setembro. Foi estranho porque não costumo duvidar, nem sequer por segundos, daquilo de que sou capaz. Mas percebi logo que, às vezes, uma breve dúvida pode representar um avanço. Talvez sejam as fugazes dúvidas que nos fazem dar o nosso melhor. A minha imagem pode não ser das mais perfeitas para aparecer na televisão. O meu inglês pode não ser dos mais fluentes. Mas descobri uma capacidade que já não quero perder: a de transformar as breves dúvidas no sério compromisso de tentar fazer mais e melhor. E fiquei com a ideia de que é precisamente assim que nos nasce a certeza de conseguirmos orgulhar-nos com tudo aquilo que fazemos.
Ana Amorim Dias
Quando fui convidada para ser entrevistadora num documentário, aceitei de imediato. Quando as minhas opiniões e visões me conduziram a estar diretamente envolvida na produção do mesmo, achei tudo muito normal. Ao perceber que as filmagens decorrerão em Paris e entrevistarei em inglês, achei tudo perfeito e não me preocupei minimamente.
Mas no outro dia, enquanto guiava, comecei a somar todos os factos e, por breves segundos, ocorreu-me que talvez o meu inglês e todas as minhas capacidades não estejam à altura deste desafio em finais de Setembro. Foi estranho porque não costumo duvidar, nem sequer por segundos, daquilo de que sou capaz. Mas percebi logo que, às vezes, uma breve dúvida pode representar um avanço. Talvez sejam as fugazes dúvidas que nos fazem dar o nosso melhor. A minha imagem pode não ser das mais perfeitas para aparecer na televisão. O meu inglês pode não ser dos mais fluentes. Mas descobri uma capacidade que já não quero perder: a de transformar as breves dúvidas no sério compromisso de tentar fazer mais e melhor. E fiquei com a ideia de que é precisamente assim que nos nasce a certeza de conseguirmos orgulhar-nos com tudo aquilo que fazemos.
Ana Amorim Dias
Visualmente diferente
Visualmente diferente
Eu não queria acreditar. Por isso olhei uma e outra vez. Tentando sempre que ninguém se apercebesse, claro, para não ser inconveniente. O curto vestido de alças deixava à vista umas pernas e sovacos tão peludos que, comparativamente, fariam qualquer homem sentir-se quase depilado.
Mas o que me fez mais confusão nem foram os visíveis e fartos tufos, foi a desenvoltura despreocupada com que a moçoila se pavoneava entre os seus pares, completamente feliz. Fiquei muito baralhada. Espero que não me tomem por preconceituosa, mas não entendi como se pode sair assim à rua e estar em público com o ar mais tranquilo e confiante que alguém pode usar.
O certo é que a corajosa (ou naturista) senhora me deixou a matutar sobre liberdades básicas. Enquanto várias outras pessoas olhavam consternadas para as suas pernas e axilas, ocorreu-me que não há nenhuma regra legal, ética nem moral que proíba as mulheres de andarem desaparadas! Ela não estava a fazer mal a ninguém, apenas usou o singelo direito de não alterar qualquer vírgula no seu corpo, circulando com ele assim.
Continuei com o raciocínio acrescentando-lhe novas variáveis. E quando uma pessoa cheira mal? Não está a perturbar os direitos de quem está por perto? Afinal é ou não legítimo agredir visual e olfativamente os outros? Estar demasiado feio ou mal cheiroso é um direito legítimo de cada um? Ou, pelo contrário, há que respeitar publicamente padrões instituídos de beleza e de bom senso?
Volto aos sovacos cabeludos da confiante senhora e percebo o que tinha que perceber: pode ser-se visualmente diferente porque ninguém é obrigado a olhar para ninguém. Além do mais os gostos não se discutem e o namorado dela até me pareceu bastante apaixonado.
Quanto aos cheiros...bem, deixemo-los para outro dia.
Ana Amorim Dias
Eu não queria acreditar. Por isso olhei uma e outra vez. Tentando sempre que ninguém se apercebesse, claro, para não ser inconveniente. O curto vestido de alças deixava à vista umas pernas e sovacos tão peludos que, comparativamente, fariam qualquer homem sentir-se quase depilado.
Mas o que me fez mais confusão nem foram os visíveis e fartos tufos, foi a desenvoltura despreocupada com que a moçoila se pavoneava entre os seus pares, completamente feliz. Fiquei muito baralhada. Espero que não me tomem por preconceituosa, mas não entendi como se pode sair assim à rua e estar em público com o ar mais tranquilo e confiante que alguém pode usar.
O certo é que a corajosa (ou naturista) senhora me deixou a matutar sobre liberdades básicas. Enquanto várias outras pessoas olhavam consternadas para as suas pernas e axilas, ocorreu-me que não há nenhuma regra legal, ética nem moral que proíba as mulheres de andarem desaparadas! Ela não estava a fazer mal a ninguém, apenas usou o singelo direito de não alterar qualquer vírgula no seu corpo, circulando com ele assim.
Continuei com o raciocínio acrescentando-lhe novas variáveis. E quando uma pessoa cheira mal? Não está a perturbar os direitos de quem está por perto? Afinal é ou não legítimo agredir visual e olfativamente os outros? Estar demasiado feio ou mal cheiroso é um direito legítimo de cada um? Ou, pelo contrário, há que respeitar publicamente padrões instituídos de beleza e de bom senso?
Volto aos sovacos cabeludos da confiante senhora e percebo o que tinha que perceber: pode ser-se visualmente diferente porque ninguém é obrigado a olhar para ninguém. Além do mais os gostos não se discutem e o namorado dela até me pareceu bastante apaixonado.
Quanto aos cheiros...bem, deixemo-los para outro dia.
Ana Amorim Dias
A lição de hortelã
A lição da hortelã
Um amigo recente fez-me descobrir mais uns quantos truques do ofício de barman. Espero que ele não se importe, mas vou partilhar um convosco.
Explicou-me ele que, para intensificar o sabor e odores da hortelã basta colocar algumas folhas numa mão e, com a outra, dar-lhes uma valente palmada.
Experimentei cheirá-las antes e depois e, como poderão comprovar, a decidida palmada intensifica realmente as suas propriedades.
Como seria de esperar lá fiquei a pensar no caso. Será que as outras ervas aromáticas também se intensificam à chapada? E nós? Seremos como folhas de hortelã, libertando mais a nossa essência a toque de tabefes? Sei, porque também já comprovei, que quando a vida nos dá valentes chapadões mesmo em cheio, tendemos a aprender certas lições de uma forma inesquecível. Mas e a nossa essência? É ou não à chapada que liberta o seu sabor e odores? Será que é a pancada que a vida dá que nos torna mais conscientes, sábios e despertos? Tenho a leve sensação que tudo depende da atenção com que vivemos: quanto mais estamos abertos, curiosos, atentos e meditativos quanto ao verdadeiro sentido e valor relativo de tudo, menos a vida precisa de andar à chapada connosco para nos realçar a essência.
Obrigada João, por mais uma bela lição com cheirinho a hortelã.
Ana Amorim Dias
Um amigo recente fez-me descobrir mais uns quantos truques do ofício de barman. Espero que ele não se importe, mas vou partilhar um convosco.
Explicou-me ele que, para intensificar o sabor e odores da hortelã basta colocar algumas folhas numa mão e, com a outra, dar-lhes uma valente palmada.
Experimentei cheirá-las antes e depois e, como poderão comprovar, a decidida palmada intensifica realmente as suas propriedades.
Como seria de esperar lá fiquei a pensar no caso. Será que as outras ervas aromáticas também se intensificam à chapada? E nós? Seremos como folhas de hortelã, libertando mais a nossa essência a toque de tabefes? Sei, porque também já comprovei, que quando a vida nos dá valentes chapadões mesmo em cheio, tendemos a aprender certas lições de uma forma inesquecível. Mas e a nossa essência? É ou não à chapada que liberta o seu sabor e odores? Será que é a pancada que a vida dá que nos torna mais conscientes, sábios e despertos? Tenho a leve sensação que tudo depende da atenção com que vivemos: quanto mais estamos abertos, curiosos, atentos e meditativos quanto ao verdadeiro sentido e valor relativo de tudo, menos a vida precisa de andar à chapada connosco para nos realçar a essência.
Obrigada João, por mais uma bela lição com cheirinho a hortelã.
Ana Amorim Dias
28.7.13
O que andam por aqui a fazer?
O que andam por aqui a fazer?
Andava com o pensamento às voltas. O que iria hoje escrever?
Sobre o acompanhamento onde fui buscar os meus filhos e a paciência da avó? Sobre o gato que já só quer andar à solta? Sobre o silêncio que temporariamente voltou a pairar na quinta? Sobre chakras e kundalinis ou o que irei fazer para o almoço de amanhã? Sobre o documentário em que ando a trabalhar ou os prazos de entrega de artigos que estão quase a chegar ao fim? Sobre o fabuloso mojito de morango que ontem fiz ou os casamentos que tenho que organizar?
E então o pensamento parou e tudo voltou a ordenar-se num alinhamento perfeito com o ato de apenas ser.
Não preciso de escrever sobre nada de especial. Basta-me apenas deixar fluir os dedos no teclado ao sabor do mais puro sentir. É assim que todos os dias celebro algo que desejo a todos e tão bem sei atingir: o mais puro e reconfortante encontro comigo e com o que ando por aqui a fazer.
É por isso que hoje terão que me perdoar, mas vejo-me obrigada a deixar-vos a mais complexa questão: o que andam por aqui a fazer?
Ana Amorim Dias
Andava com o pensamento às voltas. O que iria hoje escrever?
Sobre o acompanhamento onde fui buscar os meus filhos e a paciência da avó? Sobre o gato que já só quer andar à solta? Sobre o silêncio que temporariamente voltou a pairar na quinta? Sobre chakras e kundalinis ou o que irei fazer para o almoço de amanhã? Sobre o documentário em que ando a trabalhar ou os prazos de entrega de artigos que estão quase a chegar ao fim? Sobre o fabuloso mojito de morango que ontem fiz ou os casamentos que tenho que organizar?
E então o pensamento parou e tudo voltou a ordenar-se num alinhamento perfeito com o ato de apenas ser.
Não preciso de escrever sobre nada de especial. Basta-me apenas deixar fluir os dedos no teclado ao sabor do mais puro sentir. É assim que todos os dias celebro algo que desejo a todos e tão bem sei atingir: o mais puro e reconfortante encontro comigo e com o que ando por aqui a fazer.
É por isso que hoje terão que me perdoar, mas vejo-me obrigada a deixar-vos a mais complexa questão: o que andam por aqui a fazer?
Ana Amorim Dias
Chegada da guerra
Chegada da guerra
O que faz uma pessoa quando chega da guerra?
Eu descarreguei as compras.
Depois tomei um longo banho, dei de comer ao gato e limei as unhas. Senti-me tentada a adormecer um pouco, mas as palavras escondidas em mim, falaram mais alto que o sono, exigindo vir à tona.
Estendida na cama, ouvindo o vento lá fora, atribuo-lhe agora uma grande parte da culpa. Pior que um dia frio de verão é um dia frio de verão no Algarve. O povo salta dos areais e invade as estradas, as terras, as ruas. Demorei quatro horas a tratar de coisitas que, na pior das hipóteses, me costumam tomar duas. Carrinhos de choque com os corpos, com os carros de supermercado e com os carros verdadeiros. Caras carrancudas, stressadas, aborrecidas. E as buzinadelas. Pergunto-me para quê. Quem está parado na estrada não o faz por gosto: é porque não pode avançar.
Cheguei da guerra, mas só cansada. Vim ilesa de corpo e alma. Estive lá mas com o escudo imunitário de quem é só observador. É muito melhor assim. Não fiz más caras, cedi várias vezes passagem com o corpo, com o carrinho de supermercado e com o carro, enquanto via a aborrecida multidão e ouvia os "buzinadores". Posso não ter descoberto a explicação para certos comportamentos, mas comprovei que quando se olha como se se estivesse de fora, a nossa atitude tende a ser diferente e melhor.
Agora vou fechar os olhos e talvez sonhar com as caipirinhas que vou fazer daqui a pouco...tranquilamente...e sem buzinas.
Ana Amorim Dias
O que faz uma pessoa quando chega da guerra?
Eu descarreguei as compras.
Depois tomei um longo banho, dei de comer ao gato e limei as unhas. Senti-me tentada a adormecer um pouco, mas as palavras escondidas em mim, falaram mais alto que o sono, exigindo vir à tona.
Estendida na cama, ouvindo o vento lá fora, atribuo-lhe agora uma grande parte da culpa. Pior que um dia frio de verão é um dia frio de verão no Algarve. O povo salta dos areais e invade as estradas, as terras, as ruas. Demorei quatro horas a tratar de coisitas que, na pior das hipóteses, me costumam tomar duas. Carrinhos de choque com os corpos, com os carros de supermercado e com os carros verdadeiros. Caras carrancudas, stressadas, aborrecidas. E as buzinadelas. Pergunto-me para quê. Quem está parado na estrada não o faz por gosto: é porque não pode avançar.
Cheguei da guerra, mas só cansada. Vim ilesa de corpo e alma. Estive lá mas com o escudo imunitário de quem é só observador. É muito melhor assim. Não fiz más caras, cedi várias vezes passagem com o corpo, com o carrinho de supermercado e com o carro, enquanto via a aborrecida multidão e ouvia os "buzinadores". Posso não ter descoberto a explicação para certos comportamentos, mas comprovei que quando se olha como se se estivesse de fora, a nossa atitude tende a ser diferente e melhor.
Agora vou fechar os olhos e talvez sonhar com as caipirinhas que vou fazer daqui a pouco...tranquilamente...e sem buzinas.
Ana Amorim Dias
Fico feliz por estares triste
Fico feliz por estares triste
Ela andava numa azáfama, a fazer as malas de toda a família para regressarem a casa. Depois de umas semanas passadas a oito numa desassossegada harmonia, as férias deles terminaram e chegou a hora do adeus à Quinta do Monte e a todos os seus habitantes.
- E então Mafalada? Estás triste?-
- ... Estou!- respondeu num meio falsete.
- Fico feliz por estares triste!- pus tanta emoção na frase que começamos as duas a rir.
É verdade que isto não é coisa que se diga a uma amiga, mas a Mafalda percebeu logo que eu apenas estava feliz com aquela melancolia por ela ser um reflexo de dias muito felizes.
E foi assim que comprovei hoje de novo que, no contexto certo, até as frases mais ofensivas podem conter muito amor.
Ana Amorim Dias
Ela andava numa azáfama, a fazer as malas de toda a família para regressarem a casa. Depois de umas semanas passadas a oito numa desassossegada harmonia, as férias deles terminaram e chegou a hora do adeus à Quinta do Monte e a todos os seus habitantes.
- E então Mafalada? Estás triste?-
- ... Estou!- respondeu num meio falsete.
- Fico feliz por estares triste!- pus tanta emoção na frase que começamos as duas a rir.
É verdade que isto não é coisa que se diga a uma amiga, mas a Mafalda percebeu logo que eu apenas estava feliz com aquela melancolia por ela ser um reflexo de dias muito felizes.
E foi assim que comprovei hoje de novo que, no contexto certo, até as frases mais ofensivas podem conter muito amor.
Ana Amorim Dias
Benção
Benção
No dia do escritor percebo porque não sou outra coisa qualquer. Não poderia ser jornalista ou repórter. Demasiada emoção impede a imparcialidade. Vejo a jornalista da SIC a fazer o seu trabalho na Galiza, junto ao local onde o combóio ontem se acidentou, e pergunto-me como consegue ser tão profissional.
Sou escritora porque sinto. Sinto tudo. Sinto demais. O que já vivi e o que espero nunca vir a viver. Escrevo como quem faz algo que não se escolhe, que vem agarrado à alma, colado às células. Escrevo como quem explode por não saber manter lá dentro o que sente. Benção ou maldição? Benção! Mil vezes benção!
Ana Amorim Dias
No dia do escritor percebo porque não sou outra coisa qualquer. Não poderia ser jornalista ou repórter. Demasiada emoção impede a imparcialidade. Vejo a jornalista da SIC a fazer o seu trabalho na Galiza, junto ao local onde o combóio ontem se acidentou, e pergunto-me como consegue ser tão profissional.
Sou escritora porque sinto. Sinto tudo. Sinto demais. O que já vivi e o que espero nunca vir a viver. Escrevo como quem faz algo que não se escolhe, que vem agarrado à alma, colado às células. Escrevo como quem explode por não saber manter lá dentro o que sente. Benção ou maldição? Benção! Mil vezes benção!
Ana Amorim Dias
Aquele som
O som
Quando ele começou a puxar, todos fizemos silêncio. As conversas pararam para reverenciar o som da rolha a saltar da garrafa daquele excelente vinho tinto.
E ele, de uma forma que me pareceu ligeiramente maquiavélica, fez a rolha deslizar com tal suavidade que o "ploc" que todos queríamos ouvir acabou por não soar.
- Que maldade, Ricardo! Queríamos ouvir o som!!- reclamei.
- Desculpa lá mas assim é que as garrafas se devem abrir. Assim é que é fino!-
Por momentos pensei que ele me estivesse a gozar mas, nos dias seguintes, comprovei a teoria com pessoas que considero idóneas. Não é no entanto por ser de bom tom abrir garrafas sem escândalo que a minha alegria se acomoda ao silêncio. Com o champanhe nem me importo muito, conformo-me com um "ploc" deslavado, causado quase numa envergonhada surdina. Mas o vinho tinto? O néctar dos néctares? Não celebrar uma das mais perfeitas formas de arte em que natureza e homem trabalham num esforço conjunto? Não me parece etiqueta, soa-me mais a crime!
Não sei se nos próximos dias abrirei alguma garrafa mas, da próxima vez que o fizer, colocarei no sonoro "ploc" toda a minha mal educada alegria. Porque a vida não é a soma das regras e da etiqueta, é (ou deve ser) uma constante celebração agradecida!
Ana Amorim Dias
Quando ele começou a puxar, todos fizemos silêncio. As conversas pararam para reverenciar o som da rolha a saltar da garrafa daquele excelente vinho tinto.
E ele, de uma forma que me pareceu ligeiramente maquiavélica, fez a rolha deslizar com tal suavidade que o "ploc" que todos queríamos ouvir acabou por não soar.
- Que maldade, Ricardo! Queríamos ouvir o som!!- reclamei.
- Desculpa lá mas assim é que as garrafas se devem abrir. Assim é que é fino!-
Por momentos pensei que ele me estivesse a gozar mas, nos dias seguintes, comprovei a teoria com pessoas que considero idóneas. Não é no entanto por ser de bom tom abrir garrafas sem escândalo que a minha alegria se acomoda ao silêncio. Com o champanhe nem me importo muito, conformo-me com um "ploc" deslavado, causado quase numa envergonhada surdina. Mas o vinho tinto? O néctar dos néctares? Não celebrar uma das mais perfeitas formas de arte em que natureza e homem trabalham num esforço conjunto? Não me parece etiqueta, soa-me mais a crime!
Não sei se nos próximos dias abrirei alguma garrafa mas, da próxima vez que o fizer, colocarei no sonoro "ploc" toda a minha mal educada alegria. Porque a vida não é a soma das regras e da etiqueta, é (ou deve ser) uma constante celebração agradecida!
Ana Amorim Dias
Gosto
Gosto
As ondas pequeninas de uma beira mar muito morna, atingiam os nossos corpos com doçura.
- Amas-me?-
- claro!-
- Porquê?-
- Porque és minha mãe!-
- Só por isso?-
- Não! Amo-te porque és minha mãe e és muito fixe.-
Gosto da forma simples como o João vê a vida.
Algum tempo depois, deitada a poucos metros do mar que continuava a subir:
- Já viste Tomás?-
- O quê, mãe?-
- Os meus super poderes! Estou a atrair o mar para mim só com a força do pensamento!!-
- Fantástico mãe! E sabes? Daqui a um bocado também vais ter o poder de o fazer recuar outra vez!-
Gosto da forma diplomática como o Tomás entra no meu mundo de fantasia.
No regresso a casa o Ricardo saiu do carro para pôr gasóleo. Quando voltou a entrar eu tinha começado a fazer soar na aparelhagem o "let it snow, let it snow, let it snow" e, entre fortes gargalhadas, os miúdos já estavam a fazer coro comigo.
- Tu és mesmo muito doida!!- comentou embevecido.
Gosto da forma como o meu marido revela o bem que me conhece.
Ana Amorim Dias
As ondas pequeninas de uma beira mar muito morna, atingiam os nossos corpos com doçura.
- Amas-me?-
- claro!-
- Porquê?-
- Porque és minha mãe!-
- Só por isso?-
- Não! Amo-te porque és minha mãe e és muito fixe.-
Gosto da forma simples como o João vê a vida.
Algum tempo depois, deitada a poucos metros do mar que continuava a subir:
- Já viste Tomás?-
- O quê, mãe?-
- Os meus super poderes! Estou a atrair o mar para mim só com a força do pensamento!!-
- Fantástico mãe! E sabes? Daqui a um bocado também vais ter o poder de o fazer recuar outra vez!-
Gosto da forma diplomática como o Tomás entra no meu mundo de fantasia.
No regresso a casa o Ricardo saiu do carro para pôr gasóleo. Quando voltou a entrar eu tinha começado a fazer soar na aparelhagem o "let it snow, let it snow, let it snow" e, entre fortes gargalhadas, os miúdos já estavam a fazer coro comigo.
- Tu és mesmo muito doida!!- comentou embevecido.
Gosto da forma como o meu marido revela o bem que me conhece.
Ana Amorim Dias
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