(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

3.8.13

Fugaz dúvida

Fugaz dúvida

Quando fui convidada para ser entrevistadora num documentário, aceitei de imediato. Quando as minhas opiniões e visões me conduziram a estar diretamente envolvida na produção do mesmo, achei tudo muito normal. Ao perceber que as filmagens decorrerão em Paris e entrevistarei em inglês, achei tudo perfeito e não me preocupei minimamente.
Mas no outro dia, enquanto guiava, comecei a somar todos os factos e, por breves segundos, ocorreu-me que talvez o meu inglês e todas as minhas capacidades não estejam à altura deste desafio em finais de Setembro. Foi estranho porque não costumo duvidar, nem sequer por segundos, daquilo de que sou capaz. Mas percebi logo que, às vezes, uma breve dúvida pode representar um avanço. Talvez sejam as fugazes dúvidas que nos fazem dar o nosso melhor. A minha imagem pode não ser das mais perfeitas para aparecer na televisão. O meu inglês pode não ser dos mais fluentes. Mas descobri uma capacidade que já não quero perder: a de transformar as breves dúvidas no sério compromisso de tentar fazer mais e melhor. E fiquei com a ideia de que é precisamente assim que nos nasce a certeza de conseguirmos orgulhar-nos com tudo aquilo que fazemos.

Ana Amorim Dias

Visualmente diferente

Visualmente diferente

Eu não queria acreditar. Por isso olhei uma e outra vez. Tentando sempre que ninguém se apercebesse, claro, para não ser inconveniente. O curto vestido de alças deixava à vista umas pernas e sovacos tão peludos que, comparativamente, fariam qualquer homem sentir-se quase depilado.
Mas o que me fez mais confusão nem foram os visíveis e fartos tufos, foi a desenvoltura despreocupada com que a moçoila se pavoneava entre os seus pares, completamente feliz. Fiquei muito baralhada. Espero que não me tomem por preconceituosa, mas não entendi como se pode sair assim à rua e estar em público com o ar mais tranquilo e confiante que alguém pode usar.
O certo é que a corajosa (ou naturista) senhora me deixou a matutar sobre liberdades básicas. Enquanto várias outras pessoas olhavam consternadas para as suas pernas e axilas, ocorreu-me que não há nenhuma regra legal, ética nem moral que proíba as mulheres de andarem desaparadas! Ela não estava a fazer mal a ninguém, apenas usou o singelo direito de não alterar qualquer vírgula no seu corpo, circulando com ele assim.
Continuei com o raciocínio acrescentando-lhe novas variáveis. E quando uma pessoa cheira mal? Não está a perturbar os direitos de quem está por perto? Afinal é ou não legítimo agredir visual e olfativamente os outros? Estar demasiado feio ou mal cheiroso é um direito legítimo de cada um? Ou, pelo contrário, há que respeitar publicamente padrões instituídos de beleza e de bom senso?
Volto aos sovacos cabeludos da confiante senhora e percebo o que tinha que perceber: pode ser-se visualmente diferente porque ninguém é obrigado a olhar para ninguém. Além do mais os gostos não se discutem e o namorado dela até me pareceu bastante apaixonado.
Quanto aos cheiros...bem, deixemo-los para outro dia.

Ana Amorim Dias

A lição de hortelã

A lição da hortelã

Um amigo recente fez-me descobrir mais uns quantos truques do ofício de barman. Espero que ele não se importe, mas vou partilhar um convosco.
Explicou-me ele que, para intensificar o sabor e odores da hortelã basta colocar algumas folhas numa mão e, com a outra, dar-lhes uma valente palmada.
Experimentei cheirá-las antes e depois e, como poderão comprovar, a decidida palmada intensifica realmente as suas propriedades.
Como seria de esperar lá fiquei a pensar no caso. Será que as outras ervas aromáticas também se intensificam à chapada? E nós? Seremos como folhas de hortelã, libertando mais a nossa essência a toque de tabefes? Sei, porque também já comprovei, que quando a vida nos dá valentes chapadões mesmo em cheio, tendemos a aprender certas lições de uma forma inesquecível. Mas e a nossa essência? É ou não à chapada que liberta o seu sabor e odores? Será que é a pancada que a vida dá que nos torna mais conscientes, sábios e despertos? Tenho a leve sensação que tudo depende da atenção com que vivemos: quanto mais estamos abertos, curiosos, atentos e meditativos quanto ao verdadeiro sentido e valor relativo de tudo, menos a vida precisa de andar à chapada connosco para nos realçar a essência.
Obrigada João, por mais uma bela lição com cheirinho a hortelã.

Ana Amorim Dias

28.7.13

O que andam por aqui a fazer?

O que andam por aqui a fazer?

Andava com o pensamento às voltas. O que iria hoje escrever?
Sobre o acompanhamento onde fui buscar os meus filhos e a paciência da avó? Sobre o gato que já só quer andar à solta? Sobre o silêncio que temporariamente voltou a pairar na quinta? Sobre chakras e kundalinis ou o que irei fazer para o almoço de amanhã? Sobre o documentário em que ando a trabalhar ou os prazos de entrega de artigos que estão quase a chegar ao fim? Sobre o fabuloso mojito de morango que ontem fiz ou os casamentos que tenho que organizar?
E então o pensamento parou e tudo voltou a ordenar-se num alinhamento perfeito com o ato de apenas ser.
Não preciso de escrever sobre nada de especial. Basta-me apenas deixar fluir os dedos no teclado ao sabor do mais puro sentir. É assim que todos os dias celebro algo que desejo a todos e tão bem sei atingir: o mais puro e reconfortante encontro comigo e com o que ando por aqui a fazer.
É por isso que hoje terão que me perdoar, mas vejo-me obrigada a deixar-vos a mais complexa questão: o que andam por aqui a fazer?

Ana Amorim Dias

Chegada da guerra

Chegada da guerra

O que faz uma pessoa quando chega da guerra?
Eu descarreguei as compras.
Depois tomei um longo banho, dei de comer ao gato e limei as unhas. Senti-me tentada a adormecer um pouco, mas as palavras escondidas em mim, falaram mais alto que o sono, exigindo vir à tona.
Estendida na cama, ouvindo o vento lá fora, atribuo-lhe agora uma grande parte da culpa. Pior que um dia frio de verão é um dia frio de verão no Algarve. O povo salta dos areais e invade as estradas, as terras, as ruas. Demorei quatro horas a tratar de coisitas que, na pior das hipóteses, me costumam tomar duas. Carrinhos de choque com os corpos, com os carros de supermercado e com os carros verdadeiros. Caras carrancudas, stressadas, aborrecidas. E as buzinadelas. Pergunto-me para quê. Quem está parado na estrada não o faz por gosto: é porque não pode avançar.
Cheguei da guerra, mas só cansada. Vim ilesa de corpo e alma. Estive lá mas com o escudo imunitário de quem é só observador. É muito melhor assim. Não fiz más caras, cedi várias vezes passagem com o corpo, com o carrinho de supermercado e com o carro, enquanto via a aborrecida multidão e ouvia os "buzinadores". Posso não ter descoberto a explicação para certos comportamentos, mas comprovei que quando se olha como se se estivesse de fora, a nossa atitude tende a ser diferente e melhor.
Agora vou fechar os olhos e talvez sonhar com as caipirinhas que vou fazer daqui a pouco...tranquilamente...e sem buzinas.

Ana Amorim Dias

Fico feliz por estares triste

Fico feliz por estares triste

Ela andava numa azáfama, a fazer as malas de toda a família para regressarem a casa. Depois de umas semanas passadas a oito numa desassossegada harmonia, as férias deles terminaram e chegou a hora do adeus à Quinta do Monte e a todos os seus habitantes.
- E então Mafalada? Estás triste?-
- ... Estou!- respondeu num meio falsete.
- Fico feliz por estares triste!- pus tanta emoção na frase que começamos as duas a rir.
É verdade que isto não é coisa que se diga a uma amiga, mas a Mafalda percebeu logo que eu apenas estava feliz com aquela melancolia por ela ser um reflexo de dias muito felizes.
E foi assim que comprovei hoje de novo que, no contexto certo, até as frases mais ofensivas podem conter muito amor.

Ana Amorim Dias

Benção

Benção

No dia do escritor percebo porque não sou outra coisa qualquer. Não poderia ser jornalista ou repórter. Demasiada emoção impede a imparcialidade. Vejo a jornalista da SIC a fazer o seu trabalho na Galiza, junto ao local onde o combóio ontem se acidentou, e pergunto-me como consegue ser tão profissional.
Sou escritora porque sinto. Sinto tudo. Sinto demais. O que já vivi e o que espero nunca vir a viver. Escrevo como quem faz algo que não se escolhe, que vem agarrado à alma, colado às células. Escrevo como quem explode por não saber manter lá dentro o que sente. Benção ou maldição? Benção! Mil vezes benção!

Ana Amorim Dias

Aquele som

O som

Quando ele começou a puxar, todos fizemos silêncio. As conversas pararam para reverenciar o som da rolha a saltar da garrafa daquele excelente vinho tinto.
E ele, de uma forma que me pareceu ligeiramente maquiavélica, fez a rolha deslizar com tal suavidade que o "ploc" que todos queríamos ouvir acabou por não soar.
- Que maldade, Ricardo! Queríamos ouvir o som!!- reclamei.
- Desculpa lá mas assim é que as garrafas se devem abrir. Assim é que é fino!-
Por momentos pensei que ele me estivesse a gozar mas, nos dias seguintes, comprovei a teoria com pessoas que considero idóneas. Não é no entanto por ser de bom tom abrir garrafas sem escândalo que a minha alegria se acomoda ao silêncio. Com o champanhe nem me importo muito, conformo-me com um "ploc" deslavado, causado quase numa envergonhada surdina. Mas o vinho tinto? O néctar dos néctares? Não celebrar uma das mais perfeitas formas de arte em que natureza e homem trabalham num esforço conjunto? Não me parece etiqueta, soa-me mais a crime!
Não sei se nos próximos dias abrirei alguma garrafa mas, da próxima vez que o fizer, colocarei no sonoro "ploc" toda a minha mal educada alegria. Porque a vida não é a soma das regras e da etiqueta, é (ou deve ser) uma constante celebração agradecida!

Ana Amorim Dias

Gosto

Gosto

As ondas pequeninas de uma beira mar muito morna, atingiam os nossos corpos com doçura.
- Amas-me?-
- claro!-
- Porquê?-
- Porque és minha mãe!-
- Só por isso?-
- Não! Amo-te porque és minha mãe e és muito fixe.-
Gosto da forma simples como o João vê a vida.

Algum tempo depois, deitada a poucos metros do mar que continuava a subir:
- Já viste Tomás?-
- O quê, mãe?-
- Os meus super poderes! Estou a atrair o mar para mim só com a força do pensamento!!-
- Fantástico mãe! E sabes? Daqui a um bocado também vais ter o poder de o fazer recuar outra vez!-
Gosto da forma diplomática como o Tomás entra no meu mundo de fantasia.

No regresso a casa o Ricardo saiu do carro para pôr gasóleo. Quando voltou a entrar eu tinha começado a fazer soar na aparelhagem o "let it snow, let it snow, let it snow" e, entre fortes gargalhadas, os miúdos já estavam a fazer coro comigo.
- Tu és mesmo muito doida!!- comentou embevecido.
Gosto da forma como o meu marido revela o bem que me conhece.

Ana Amorim Dias

Deusas

Deusas

Ouvido há três minutos, de novo na passadeira da praia:
- Acarinhada? Ela é mas é uma Deusa! Ele trata-a como uma Deusa!-
- Sim, e faz-lhe as vontades todas...-

Fiquei feliz por não conseguir encontrar qualquer ponta de inveja naquelas palavras. Mas também fiquei admirada. Ok: ele (não faço ideia quem) trata-a (também não sei a quem) como uma Deusa. E depois? Qual é o espanto? Não é exatamente assim que devemos ser tratadas? Será que não temos uma certa dose de culpa quando nos tratam sem a mesma adoração e admiração que uma divindade merece? Temos sempre a hipótese de excluir das nossas vidas quem não nos trate como Deusas. Da mesma forma que, creio, é a nossa atitude que faz o nosso homem adorar-nos e admirar-nos como se num altar merecêssemos estar. E o mais engraçado é que, numa relação de causa e efeito, homem que nos trate assim é igualmente feliz e afortunado pois as Deusas são infinitas fontes de dádiva, perdão, sabedoria e amor.

Ana Amorim Dias

21.7.13

Regras

Regras

Ouvido na passadeira da praia:
- Oh mãe, mas porquê?-
- Porque não, são essas as regras!-

Isto é resposta que se dê a uma criança? Não faço a mínima ideia do que é que o puto estava a pedir. Seria uma bola de berlim? Caso fosse, a senhora devia ter respondido que iam almoçar e ele perderia a fome para comer o peixinho. Ou estaria ele a pedir que ela lhe comprasse os componentes para fazer uma bomba caseira? Nesse caso deveria ter explicado que ele colocaria a sua integridade física ( e alheias, certamente) em risco, o que não era de todo conveniente.
Fiquei com vontade de voltar para trás e segredar no ouvido do miúdo: "Põe em causa as regras que não te pareçam justas!". Se o tivesse feito teria aproveitado também para o instigar a colocar em causa a autoridade e sabedoria de quem faz as regras a que ele terá que se sujeitar pela vida fora. Seria uma irresponsabilidade da minha parte? Provavelmente. Talvez estivesse a despertar um monstro. Mas, por outro lado, também ninguém me garante que não estivesse a lançar as sementes para um futuro homem desperto.

Ana Amorim Dias

Berlindes

Berlindes

Que os filhos são a maior riqueza da vida duvido que alguém conteste. Mas descobri recentemente que são inúmeras as fórmulas que podem usar para nos fazer sentir verdadeiros magnatas.
Há uns tempos estivemos em Londres e, entre muitos outros pontos altos, o momento preferido do João foi a visita ao Hamleys, uma loja de brinquedos de vários andares. Até aqui nada de novo. Contudo, agora que anda louco com a coleção de berlindes, recordou a variedade que lá havia e decidiu avisar-me:
- Mãe! Temos que ir a Londres!-
- Desculpa?-
- Sim! Ao Hamleys, comprar berlindes!-
E pumba: ganhei um par de gargalhadas e a momentânea sensação de ter vários milhões no banco.

Ana Amorim Dias