A vida em saldos
Trinta. Cinquenta. Setenta por cento de desconto. E, como se de um gigante aspirador humano se tratasse, somos sugados para dentro das lojas. Apelativas. Cheirosas. Viciantes. Entramos num mundo novo que nos faz sentir bem e nos convence de excelentes oportunidades.
Já lá não ia há muito tempo mas ontem entrei em várias lojas. Circulei, olhei, toquei. E decidi fazer uma pequena lista antes de me permitir comprar algo.
Posso?
Quero?
Gosto?
Usarei?
Preciso?
Decidi só comprar algo se cada questão tivesse por resposta um "sim". Após andar quase uma hora alheada da realidade, entre roupas e sapatos, vim-me embora com a consciência de ter feito uma excelente aquisição: juízo por zero cêntimos! Se tivesse retirado da minha lista o "preciso" talvez não fosse bem assim, mas fiquei satisfeita na mesma.
Satisfeita e a pensar que a vida não tem época de saldos. Há incontáveis experiências que nem sequer se pagam ( com dinheiro, pelo menos) e que, se estivermos atentos, podemos aproveitar.
Com as vivências mudo a lista:
Posso?
Quero?
Crescerei?
Há muitas coisas que "decidimos" não poder, mas estamos redondamente enganados. Mentimos a nós mesmos dizendo "não posso" como quem conta a mais esfarrapada mentira. Nos "saldos" das vivências querer é mesmo poder. E quando queremos é porque a alma chama: porque sabe que, mesmo que a coisa dê para o torno, sairá enriquecida.
De todas as perguntas, a mais importante é "crescerei?". Sempre que percebermos que algo nos vai construir um pouco mais devemos "fechar tal negócio".
Dois exemplos muito simples: uma rápida fuga para um mergulho de mar a meio de um dia de trabalho. Se pudermos e quisermos, isso far-nos-á crescer... em boa energia, pelo menos. E um copo com os amigos? Pode dizer-se que não? Claro. Mas estamos a perder uma das melhores oportunidades de nos sentir parte de algo, de rir e rejuvenescer as células, de aliviar o stress e partilhar bons momentos. Pode ser só meia hora, mas um copo (ou café) com amigos fará para sempre parte dos saldos da vida: daqueles que podemos, queremos e nos fazem crescer em alegria interior.
Nunca pensei conseguir dizer isto sem que parecesse fútil, mas a verdade é que há mesmo saldos absolutamente imperdíveis!
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
5.7.13
Unicórnios
Unicórnios
Andava numa "expedição" costeira, do outro lado da fronteira, em busca de um bom "chiringuito". Queria eleger um destino simpático para daquelas fugas-relâmpago que às vezes é necessário fazer para descansar uma hora e sentir-me quase no estrangeiro.
Uns mais belos, outros menos, mas em quase todos um péssimo atendimento.
- Já viste? Isto é dar pérolas a porcos.- comentou o Ricardo, referindo-se a um restaurante bonito que estava a ser explorado por parentes próximos desses animaizitos.
- Eu vejo mais a coisa como se unicórnios tivessem vindo comer à pocilga!-
Acredito que todos temos um pouco de unicórnio em nós. Podemos até não saber, mas somos todos sensíveis, requintados, únicos, especiais e um pouco etéreos até. Todos gostamos de ser bem tratados. Todos merecemos ser atendidos com educação e simpatia. É por isso que não tenho qualquer problema em levantar-me e ir embora quando me apercebo que estou a mais por o local em questão não saber receber unicórnios.
Ana Amorim Dias
Andava numa "expedição" costeira, do outro lado da fronteira, em busca de um bom "chiringuito". Queria eleger um destino simpático para daquelas fugas-relâmpago que às vezes é necessário fazer para descansar uma hora e sentir-me quase no estrangeiro.
Uns mais belos, outros menos, mas em quase todos um péssimo atendimento.
- Já viste? Isto é dar pérolas a porcos.- comentou o Ricardo, referindo-se a um restaurante bonito que estava a ser explorado por parentes próximos desses animaizitos.
- Eu vejo mais a coisa como se unicórnios tivessem vindo comer à pocilga!-
Acredito que todos temos um pouco de unicórnio em nós. Podemos até não saber, mas somos todos sensíveis, requintados, únicos, especiais e um pouco etéreos até. Todos gostamos de ser bem tratados. Todos merecemos ser atendidos com educação e simpatia. É por isso que não tenho qualquer problema em levantar-me e ir embora quando me apercebo que estou a mais por o local em questão não saber receber unicórnios.
Ana Amorim Dias
O assombroso facto
O assombroso facto
Estava a atrofiar o meu cérebro e a esgotar a minha energia com as notícias. Aparelhos de estado semelhantes a ventoinhas de teto que só chiam e mal se mexem em noites de mórbido calor. Ineficazes, devolutos e tendo por única ação uma apatia, impotente e apatetada, que de nada serve para aplacar o gigantesco fogo que se instalou na nação.
Desvio a atenção da televisão. Divago pelo VIMEO e, providencialmente, um vídeo chama-me a atenção: "THE MOST ASTOUNDING FACT". Desanimada, penso no que poderá ser mais assombroso que o desgoverno em que estamos. E então a voz de Neil DeGrasse Tyson começa a soar. Após ser interrogado para a TIMES magazine sobre o que considera ser o facto mais assombroso do Universo, dá início à verbalização da sua opinião.
"Estrelas colapsaram e explodiram, espalhando as suas entranhas pelo espaço. Esse carbono, nitrogénio e oxigénio foram os ingredientes que formaram nuvens de gases que depois se condensaram, dando origem à geração seguinte de sistemas estelares em cujos planetas passaram a existir os ingredientes fundamentais à vida. Quando olho para o céu sei que fazemos parte do Universo, sei que estamos no Universo e, mais importante que tudo isto: sei que o Universo está em nós!"
"Olho para o espaço e não me sinto insignificante nem pequeno, pelo contrário, sinto-me enorme... Porque os meus átomos vieram daquelas estrelas! Há um sentimento de conexão e relevância: podemos sentir-nos participantes porque é isso mesmo que somos, pelo simples facto de estarmos vivos!"
Caramba! Fiquei como nova! Ao ver a vida de cima, através dos olhos dos átomos celestes que me compõem, tudo voltou à sua correta posição universal. A consciência de sermos de facto feitos de matéria celeste tem o poder de nos fazer entender a importância relativa de tudo. E, com governos ou desgovernos, a vida continua!
Ana Amorim Dias
Estava a atrofiar o meu cérebro e a esgotar a minha energia com as notícias. Aparelhos de estado semelhantes a ventoinhas de teto que só chiam e mal se mexem em noites de mórbido calor. Ineficazes, devolutos e tendo por única ação uma apatia, impotente e apatetada, que de nada serve para aplacar o gigantesco fogo que se instalou na nação.
Desvio a atenção da televisão. Divago pelo VIMEO e, providencialmente, um vídeo chama-me a atenção: "THE MOST ASTOUNDING FACT". Desanimada, penso no que poderá ser mais assombroso que o desgoverno em que estamos. E então a voz de Neil DeGrasse Tyson começa a soar. Após ser interrogado para a TIMES magazine sobre o que considera ser o facto mais assombroso do Universo, dá início à verbalização da sua opinião.
"Estrelas colapsaram e explodiram, espalhando as suas entranhas pelo espaço. Esse carbono, nitrogénio e oxigénio foram os ingredientes que formaram nuvens de gases que depois se condensaram, dando origem à geração seguinte de sistemas estelares em cujos planetas passaram a existir os ingredientes fundamentais à vida. Quando olho para o céu sei que fazemos parte do Universo, sei que estamos no Universo e, mais importante que tudo isto: sei que o Universo está em nós!"
"Olho para o espaço e não me sinto insignificante nem pequeno, pelo contrário, sinto-me enorme... Porque os meus átomos vieram daquelas estrelas! Há um sentimento de conexão e relevância: podemos sentir-nos participantes porque é isso mesmo que somos, pelo simples facto de estarmos vivos!"
Caramba! Fiquei como nova! Ao ver a vida de cima, através dos olhos dos átomos celestes que me compõem, tudo voltou à sua correta posição universal. A consciência de sermos de facto feitos de matéria celeste tem o poder de nos fazer entender a importância relativa de tudo. E, com governos ou desgovernos, a vida continua!
Ana Amorim Dias
Sou um homem do campo
Homem do campo
De repente lembrei-me que uma das atividades dele, durante o dia de férias ativas, seria o ténis.
- João!... Esqueci-me de te pôr as sapatilhas na mochila!
- Não faz mal, mãe. Estou de chinelos e agora vamos ter praia.-
- Pois, mas li no papelinho que esta tarde vais ter ténis... E agora? Não podes jogar ténis de havaianas!
- Ah bom! Claro que posso! Eu desenrasco-me, sou um homem do campo!
As gargalhadas propagaram-se dia fora. De cada vez que me lembrava do "homem" do campo, várias imagens me vinham à cabeça. Aquela vez em que me foi acordar com bigodes e uma sobrancelha cerrada; as correrias com as galinhas; o manuseamento dos bichos; as pescarias na barragem. Lembrei-me de quando o vejo, pela janela da cozinha, a passar no lombo da égua sem cela ou com o pai no trator. E depois recordei-me do dia em que, na citadina casa da minha mãe, vi o petiz muito intrigado a olhar para o buraquinho de vidro que existe na porta da rua.
- Mãe!! A porta da avó tem um buraco!!!-
Expliquei-lhe para que servia.
A criança sempre viveu numa quinta e, apesar de já ter viajado bastante e conhecer grandes metrópoles, continua a desconhecer a realidade de viver numa cidade.
Afinal qual é a diferença entre os homens da cidade e os do campo? Quanto a mim há apenas duas mesmo dignas de registo: é que, com os homens do campo, qualquer mulher se sente segura para sobreviver numa ilha deserta ou em caso de catástrofes... e, de acordo com o que constatei, os do campo auto-intitulam-se "homens" logo desde os oito anos!
Ana Amorim Dias
De repente lembrei-me que uma das atividades dele, durante o dia de férias ativas, seria o ténis.
- João!... Esqueci-me de te pôr as sapatilhas na mochila!
- Não faz mal, mãe. Estou de chinelos e agora vamos ter praia.-
- Pois, mas li no papelinho que esta tarde vais ter ténis... E agora? Não podes jogar ténis de havaianas!
- Ah bom! Claro que posso! Eu desenrasco-me, sou um homem do campo!
As gargalhadas propagaram-se dia fora. De cada vez que me lembrava do "homem" do campo, várias imagens me vinham à cabeça. Aquela vez em que me foi acordar com bigodes e uma sobrancelha cerrada; as correrias com as galinhas; o manuseamento dos bichos; as pescarias na barragem. Lembrei-me de quando o vejo, pela janela da cozinha, a passar no lombo da égua sem cela ou com o pai no trator. E depois recordei-me do dia em que, na citadina casa da minha mãe, vi o petiz muito intrigado a olhar para o buraquinho de vidro que existe na porta da rua.
- Mãe!! A porta da avó tem um buraco!!!-
Expliquei-lhe para que servia.
A criança sempre viveu numa quinta e, apesar de já ter viajado bastante e conhecer grandes metrópoles, continua a desconhecer a realidade de viver numa cidade.
Afinal qual é a diferença entre os homens da cidade e os do campo? Quanto a mim há apenas duas mesmo dignas de registo: é que, com os homens do campo, qualquer mulher se sente segura para sobreviver numa ilha deserta ou em caso de catástrofes... e, de acordo com o que constatei, os do campo auto-intitulam-se "homens" logo desde os oito anos!
Ana Amorim Dias
O sonolento tigre
O sonolento tigre
Está oficialmente aberta a época do ano em que ando sempre com sono. Trabalhar até tarde e quase nunca dormir as horas recomendadas traz alguns inconvenientes mas não deixa de ter certas vantagens. Especialmente quando é para estar num bar. Ou melhor, NO BAR...no da minha vida, pelo menos.
Para quem é de natureza solitária (explicaram-me no outro dia que nasci no ano do Tigre e que os tigres caçam sozinhos) a companhia constante pode causar algum desconforto. Mas, depois de duas décadas a passar as minhas noites de Verão no Piratas, tive que me habituar tanto a estar rodeada de gente como a privar-me ainda um pouco mais de dormir. Se trocava estes factos por outros? Não, de forma nenhuma! Estar a trás de um balcão é estar no território perfeito para uma caçadora de almas e nuances da humanidade. Ser uma espécie de "embebedadora" especializada é uma ironia perfeita na vida de quem, por definição e essência, se dedica por inteiro a escrever sobre esse interminável filão que é o Homem!
Ao longo das próximas semanas as crónicas começarão a ser escritas e publicadas noutros horários e, quem sabe, com conteúdos mais caóticos. Mas já ficam a saber ao que se deve: esta caçadora de histórias vai estar sob as influências de muita gente diferente e conversas quiçá sem nexo, bem como de fortes doses de privação de sono. Assim sendo, aos que apenas me lêem, faço votos de boas leituras. E, aos que forem ao Piratas, lembrem-se de ter cuidado: atrás do balcão estará um tigre... pronto a caçar-vos as histórias.
Ana Amorim Dias
Está oficialmente aberta a época do ano em que ando sempre com sono. Trabalhar até tarde e quase nunca dormir as horas recomendadas traz alguns inconvenientes mas não deixa de ter certas vantagens. Especialmente quando é para estar num bar. Ou melhor, NO BAR...no da minha vida, pelo menos.
Para quem é de natureza solitária (explicaram-me no outro dia que nasci no ano do Tigre e que os tigres caçam sozinhos) a companhia constante pode causar algum desconforto. Mas, depois de duas décadas a passar as minhas noites de Verão no Piratas, tive que me habituar tanto a estar rodeada de gente como a privar-me ainda um pouco mais de dormir. Se trocava estes factos por outros? Não, de forma nenhuma! Estar a trás de um balcão é estar no território perfeito para uma caçadora de almas e nuances da humanidade. Ser uma espécie de "embebedadora" especializada é uma ironia perfeita na vida de quem, por definição e essência, se dedica por inteiro a escrever sobre esse interminável filão que é o Homem!
Ao longo das próximas semanas as crónicas começarão a ser escritas e publicadas noutros horários e, quem sabe, com conteúdos mais caóticos. Mas já ficam a saber ao que se deve: esta caçadora de histórias vai estar sob as influências de muita gente diferente e conversas quiçá sem nexo, bem como de fortes doses de privação de sono. Assim sendo, aos que apenas me lêem, faço votos de boas leituras. E, aos que forem ao Piratas, lembrem-se de ter cuidado: atrás do balcão estará um tigre... pronto a caçar-vos as histórias.
Ana Amorim Dias
30.6.13
Assinar de coração
Assinar de coração
Ao longo dos últimos dias, ao levar o João às férias ativas, em vez de ir direta ao sítio certo, tenho falhado sempre o alvo. Devia virar logo à esquerda, trezentos metros antes da sua escola, mas vou dar a volta lá ao fundo depois de perceber que estava outra vez no aluado mundo das minhas divagações. Se isto me irrita? Nem um bocadinho. Pelo contrário, traz-me um sorriso feliz: posso falhar o alvo da vida real, mas estou no caminho correto deste crescimento interior.
Ao longo dos últimos anos tenho passado grande parte do meu tempo consciente a escrever em pensamento e, aparentemente, o mecanismo tem-se otimizado com uma tal eficácia que se tem tornado normal funcionar também em pleno não só quando estou a render-me ao sono como a regressar dos seus braços.
Mas foi ontem que tudo ganhou mais sentido. Andei a dar uns retoques de pintura, em paredes cá da quinta e, quando estava a terminar, consciencializei-me da vontade de assinar. Tornou-se óbvio que não iria fazê-lo como em cada crónica e livro, com "Ana Amorim Dias", por isso segui o instinto e assinei de coração.
Quando dei uns quantos passos atrás e ganhei mais perspectiva, consegui uma visão mais abrangente. Entendi finalmente que é assim que assino todas as criações: feliz e...de coração.
Ana Amorim Dias
Ao longo dos últimos dias, ao levar o João às férias ativas, em vez de ir direta ao sítio certo, tenho falhado sempre o alvo. Devia virar logo à esquerda, trezentos metros antes da sua escola, mas vou dar a volta lá ao fundo depois de perceber que estava outra vez no aluado mundo das minhas divagações. Se isto me irrita? Nem um bocadinho. Pelo contrário, traz-me um sorriso feliz: posso falhar o alvo da vida real, mas estou no caminho correto deste crescimento interior.
Ao longo dos últimos anos tenho passado grande parte do meu tempo consciente a escrever em pensamento e, aparentemente, o mecanismo tem-se otimizado com uma tal eficácia que se tem tornado normal funcionar também em pleno não só quando estou a render-me ao sono como a regressar dos seus braços.
Mas foi ontem que tudo ganhou mais sentido. Andei a dar uns retoques de pintura, em paredes cá da quinta e, quando estava a terminar, consciencializei-me da vontade de assinar. Tornou-se óbvio que não iria fazê-lo como em cada crónica e livro, com "Ana Amorim Dias", por isso segui o instinto e assinei de coração.
Quando dei uns quantos passos atrás e ganhei mais perspectiva, consegui uma visão mais abrangente. Entendi finalmente que é assim que assino todas as criações: feliz e...de coração.
Ana Amorim Dias
Pelo sol ou pela vida?
Pelo sol ou pela vida?
- Não te rias, Ana! A sério: sou uma pessoa marcada!-
- Pelo sol ou pela vida?
Como ela tinha acabado de regressar da praia a minha pergunta saiu por instinto mas agora, quanto mais me lembro da questão mais lhe reconheço a pertinência.
Começo a divagação constatando que uma vida que não marca é como um Verão em que faltamos à praia. De que serve uma vida que não marca? Uma vida que não bronzeia nem nos deixa com um ar mais saudável e sensual?
"Mas, Ana, muitas vezes a vida marca com dores, com tristezas e sofrimentos...", poderão vocês contrapor.
Não posso falar em nome das "queimaduras solares" que a vida trouxe aos outros mas o que fiz com os meus próprios "escaldões" confere-me legitimidade para dizer algumas coisas.
Detenho-me um momento a fazer uma compilação dos dolorosos raios com que a vida já me queimou. Podem ter sido só três ou quatro mas fariam tombar qualquer um. Então porque é que me lembro de tudo sem me recordar da dor e com um sorriso tranquilo a brotar no corpo todo? Qual foi a alquimia que transformou queimaduras neste bronzeado perfeito? Aceitar que a vida é assim, que às vezes queima a valer; aceitar o ocorrido e encher o coração de amor, perdoar, seguir em frente, seja lá para onde for. É que o que não nos liquidou só nos pode tornar mais fortes.
Temos a sensata opção de não nos expor demasiado ao sol, mas não nos expormos à vida não devia caber nos planos de ninguém. Ela queima, é verdade, mas é com cada escaldão dela que conquistamos a hipótese de andar de alma saudável, forte, feliz, sensual... e bronzeada!
(E Luís? Esta é para si, caro amigo!)
Ana Amorim Dias
- Não te rias, Ana! A sério: sou uma pessoa marcada!-
- Pelo sol ou pela vida?
Como ela tinha acabado de regressar da praia a minha pergunta saiu por instinto mas agora, quanto mais me lembro da questão mais lhe reconheço a pertinência.
Começo a divagação constatando que uma vida que não marca é como um Verão em que faltamos à praia. De que serve uma vida que não marca? Uma vida que não bronzeia nem nos deixa com um ar mais saudável e sensual?
"Mas, Ana, muitas vezes a vida marca com dores, com tristezas e sofrimentos...", poderão vocês contrapor.
Não posso falar em nome das "queimaduras solares" que a vida trouxe aos outros mas o que fiz com os meus próprios "escaldões" confere-me legitimidade para dizer algumas coisas.
Detenho-me um momento a fazer uma compilação dos dolorosos raios com que a vida já me queimou. Podem ter sido só três ou quatro mas fariam tombar qualquer um. Então porque é que me lembro de tudo sem me recordar da dor e com um sorriso tranquilo a brotar no corpo todo? Qual foi a alquimia que transformou queimaduras neste bronzeado perfeito? Aceitar que a vida é assim, que às vezes queima a valer; aceitar o ocorrido e encher o coração de amor, perdoar, seguir em frente, seja lá para onde for. É que o que não nos liquidou só nos pode tornar mais fortes.
Temos a sensata opção de não nos expor demasiado ao sol, mas não nos expormos à vida não devia caber nos planos de ninguém. Ela queima, é verdade, mas é com cada escaldão dela que conquistamos a hipótese de andar de alma saudável, forte, feliz, sensual... e bronzeada!
(E Luís? Esta é para si, caro amigo!)
Ana Amorim Dias
De luz e escuridão
De luz e escuridão
- Ai mãe... Está tão escuro...-
Seguíamos de carro por uma estrada isolada, o João e eu. Liguei os máximos quase instintivamente, para ver se lhe passava.
- Deixa-me explicar-te uma coisa, amor: a noite é escura, é mesmo assim, mas tudo o que vês de dia está igual durante a noite. Só que não se vê porque não há luz, percebes?-
Senti-o a relaxar um pouco ao medir a veracidade das minhas palavras. Mas não continuei a verbalizar os meus pensamentos.
Quantas pessoas vivem na escuridão mesmo em plena luz do dia? A confiança e ausência de medos tolos lança tanta luz à noite como os medos infundados escurecem os mais luminosos dias. Não é uma divagação, é um facto. Há quem se desloque na noite com olhos felinos, vendo nas sombras difusas exatamente o que lá está e não inexistentes monstros. E há quem atravesse a luz com o esmagador e negro peso dos fantasmas nascidos no seu interior.
Caminho por vezes às escuras, mas uso o passo firme e confiante da minha luz interior, a mesma que sabe que os mais perigosos demónios são os que a nossa imaginação se permite deixar entrar.
Ana Amorim Dias
- Ai mãe... Está tão escuro...-
Seguíamos de carro por uma estrada isolada, o João e eu. Liguei os máximos quase instintivamente, para ver se lhe passava.
- Deixa-me explicar-te uma coisa, amor: a noite é escura, é mesmo assim, mas tudo o que vês de dia está igual durante a noite. Só que não se vê porque não há luz, percebes?-
Senti-o a relaxar um pouco ao medir a veracidade das minhas palavras. Mas não continuei a verbalizar os meus pensamentos.
Quantas pessoas vivem na escuridão mesmo em plena luz do dia? A confiança e ausência de medos tolos lança tanta luz à noite como os medos infundados escurecem os mais luminosos dias. Não é uma divagação, é um facto. Há quem se desloque na noite com olhos felinos, vendo nas sombras difusas exatamente o que lá está e não inexistentes monstros. E há quem atravesse a luz com o esmagador e negro peso dos fantasmas nascidos no seu interior.
Caminho por vezes às escuras, mas uso o passo firme e confiante da minha luz interior, a mesma que sabe que os mais perigosos demónios são os que a nossa imaginação se permite deixar entrar.
Ana Amorim Dias
Ao som dos chocalhos
Ao som dos chocalhos
Deviam ser umas dez da noite quando comecei a ouvir os chocalhos. À meia noite o Tomás veio reclamar: de janela aberta não conseguia adormecer porque as vizinhas fugitivas faziam muito barulho e com a janela fechada tinha que ligar a ventoínha que fazia um chiar estranho.
Segui-o até ao quarto, matei os três mosquitos, fechei a janela, arranjei a ventoínha e dei-lhe o "beijo mágico", capaz de adormecer quem já bebeu dez cafés. Cinco minutos depois a criaturinha respirava profundamente, entregue ao seu sono tranquilo. E eu continuei o meu serão embalado por chocalhos.
- Pai, pai!! Compraste vacas?? Yeeeyyyy!- o João chegou ao quarto a segurar um tabuleiro com o pequeno almoço para todos, provavelmente para comemorar e agradecer a "compra" das cinco vacas cujos chocalhos continuavam a soar.
- Não João. São vizinhas fugitivas.-
- Ooohhhh.-
Provei o leite com chocolate e engasguei-me.
- Filho: deixa-te de pequenos almoços. Está outra vez horrível.-
Habituado à minha frontalidade sincera, deu-me um satisfeito "Está bem" e foi olhar para as vacas chocalhantes que continuavam a espalhar bosta pelos relvados.
Quando saímos de casa e parei para as fotografar, olharam-me com o focinho de "O que é que foi? Há algum problema??" e eu respondi que "Não, não há problema nenhum". Gosto de chocalhos, mosquitos, ventoínhas chiantes e leites mal misturados. Acho que é a conjugação disto tudo que me faz mesmo feliz.
Ana Amorim Dias
Deviam ser umas dez da noite quando comecei a ouvir os chocalhos. À meia noite o Tomás veio reclamar: de janela aberta não conseguia adormecer porque as vizinhas fugitivas faziam muito barulho e com a janela fechada tinha que ligar a ventoínha que fazia um chiar estranho.
Segui-o até ao quarto, matei os três mosquitos, fechei a janela, arranjei a ventoínha e dei-lhe o "beijo mágico", capaz de adormecer quem já bebeu dez cafés. Cinco minutos depois a criaturinha respirava profundamente, entregue ao seu sono tranquilo. E eu continuei o meu serão embalado por chocalhos.
- Pai, pai!! Compraste vacas?? Yeeeyyyy!- o João chegou ao quarto a segurar um tabuleiro com o pequeno almoço para todos, provavelmente para comemorar e agradecer a "compra" das cinco vacas cujos chocalhos continuavam a soar.
- Não João. São vizinhas fugitivas.-
- Ooohhhh.-
Provei o leite com chocolate e engasguei-me.
- Filho: deixa-te de pequenos almoços. Está outra vez horrível.-
Habituado à minha frontalidade sincera, deu-me um satisfeito "Está bem" e foi olhar para as vacas chocalhantes que continuavam a espalhar bosta pelos relvados.
Quando saímos de casa e parei para as fotografar, olharam-me com o focinho de "O que é que foi? Há algum problema??" e eu respondi que "Não, não há problema nenhum". Gosto de chocalhos, mosquitos, ventoínhas chiantes e leites mal misturados. Acho que é a conjugação disto tudo que me faz mesmo feliz.
Ana Amorim Dias
Às vezes pergunto-me a quem foi o catraio sair. É que tanta demagogia numa pessoa tão jovem até me deixa assustada. Depois de se portar mal e perante a ameaça de eu já não lhe emprestar o iPad, a criança lembrou-se de ir fazer uma composição:
"A minha mãe é tão bonita como o pôr do sol
A minha mãe também é linda e também muito sexy. Quando ela fala tem uma voz tão meiga e o cabelo é preto como um jaguar. Sobretudo a minha mãe tem uns olhos tão bonitos e brilhantes como dois diamantes."
Ter filhos pode ser muito assustador...
Ana Amorim Dias
"A minha mãe é tão bonita como o pôr do sol
A minha mãe também é linda e também muito sexy. Quando ela fala tem uma voz tão meiga e o cabelo é preto como um jaguar. Sobretudo a minha mãe tem uns olhos tão bonitos e brilhantes como dois diamantes."
Ter filhos pode ser muito assustador...
Ana Amorim Dias
O estranho mistério da clavícula torta
O estranho caso da clavícula torta
Há uns anos, não sei precisar quantos, apanhei um susto no banho. Passava eu o gel pelos ombros e, ao chegar à zona das clavículas, apercebi-me que as tinha completamente diferentes uma da outra. A esquerda estava direitinha e a direita toda amolgada, metida para dentro na parte central do osso. Habituei-me ao facto e passei a ignorá-lo quase na mesma medida em que o ignorava antes de nele ter reparado.
Mas ontem ao almoço, talvez a propósito de alguma conversa, lembrei-me da clavícula torta e percebi finalmente que a devo ter partido à nascença sem que ninguém se tenha apercebido. Comentei a minha constatação perante o olhar espantado da minha mãe, que insistiu em comprovar com as suas próprias mãos e olhos este defeito de fabrico.
Ao fim do dia, quando lhe fui dar o beijo de boa noite à cama, confessou-me ter ficado incomodada e preocupada por nunca ter dado por nada. É claro que só me arrancou gargalhadas.
Tenho as minhas conclusões formadas quanto ao estranho caso da clavícula torta. Ela é como aqueles pedacinhos da nossa alma que já se quebraram sem nos termos apercebido e que se soldaram de novo, de uma forma muito própria e deveras eficiente. Ela é um símbolo de como quebramos e recuperamos de forma quase automática. Mas para mim, cá bem no fundo, a minha sui generis clavícula direita, é mais uma manifestação dos meus super poderes que, um atrás do outro, se continuam a revelar!
Ana Amorim Dias
Há uns anos, não sei precisar quantos, apanhei um susto no banho. Passava eu o gel pelos ombros e, ao chegar à zona das clavículas, apercebi-me que as tinha completamente diferentes uma da outra. A esquerda estava direitinha e a direita toda amolgada, metida para dentro na parte central do osso. Habituei-me ao facto e passei a ignorá-lo quase na mesma medida em que o ignorava antes de nele ter reparado.
Mas ontem ao almoço, talvez a propósito de alguma conversa, lembrei-me da clavícula torta e percebi finalmente que a devo ter partido à nascença sem que ninguém se tenha apercebido. Comentei a minha constatação perante o olhar espantado da minha mãe, que insistiu em comprovar com as suas próprias mãos e olhos este defeito de fabrico.
Ao fim do dia, quando lhe fui dar o beijo de boa noite à cama, confessou-me ter ficado incomodada e preocupada por nunca ter dado por nada. É claro que só me arrancou gargalhadas.
Tenho as minhas conclusões formadas quanto ao estranho caso da clavícula torta. Ela é como aqueles pedacinhos da nossa alma que já se quebraram sem nos termos apercebido e que se soldaram de novo, de uma forma muito própria e deveras eficiente. Ela é um símbolo de como quebramos e recuperamos de forma quase automática. Mas para mim, cá bem no fundo, a minha sui generis clavícula direita, é mais uma manifestação dos meus super poderes que, um atrás do outro, se continuam a revelar!
Ana Amorim Dias
23.6.13
Obrigada
Obrigada
A ser verdade que a vida só começa aos quarenta, resta-me esperar mais um ano. Esperarei com a paciência irrequieta de quem se prepara, de todas as formas possíveis, para algo grandioso. Esperarei em movimento, em ação, em aprendizagem, encantada com o belo e a querer tornar bom o que é mau.
A ser verdade (e isto é mesmo!) que a beleza e a jovialidade interior são mais importantes que as exteriores, só posso sentir-me mais bela que nunca. Mais sábia, mais capaz, mais preparada. Estou certa que, de todas as bênçãos com que já fui brindada, uma das mais magníficas é a de ter descoberto o sentido mais profundo da minha existência. É por isso que o partilho convosco. Diariamente . Em palavras e dias escritos.
A todos os que me acompanham, lêem, entendem e inspiram (sim, são mesmo vocês a minha inspiração!) quero deixar o meu muito obrigada.
A todos um forte abraço!
Ana Amorim Dias
A ser verdade que a vida só começa aos quarenta, resta-me esperar mais um ano. Esperarei com a paciência irrequieta de quem se prepara, de todas as formas possíveis, para algo grandioso. Esperarei em movimento, em ação, em aprendizagem, encantada com o belo e a querer tornar bom o que é mau.
A ser verdade (e isto é mesmo!) que a beleza e a jovialidade interior são mais importantes que as exteriores, só posso sentir-me mais bela que nunca. Mais sábia, mais capaz, mais preparada. Estou certa que, de todas as bênçãos com que já fui brindada, uma das mais magníficas é a de ter descoberto o sentido mais profundo da minha existência. É por isso que o partilho convosco. Diariamente . Em palavras e dias escritos.
A todos os que me acompanham, lêem, entendem e inspiram (sim, são mesmo vocês a minha inspiração!) quero deixar o meu muito obrigada.
A todos um forte abraço!
Ana Amorim Dias
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