Jogo de cintura
Desde que tenho iPad abandonei quase por completo o computador. Só o ligo de tempos a tempos, quando tem mesmo de ser. O problema é que muitos meses de uma relação tátil com o ecrã do ipad se enraizaram de tal maneira que quando vou ao computador ele fica cheio de dedadas onde não deve enquanto eu, indignada, ainda vou dedilhando o ecrã durante uns segundos até perceber o engano.
Ontem, depois de correr, sentei-me debaixo da figueira e rendi-me ao prazer dos figos. A seleção musical, que soava em modo aleatório, passou a uma canção pouco própria: "It's beginning to look alot like Christmas..." cantava o Boublé todo satisfeito. Com meio figo na boca até fiquei indignada. "Bolas, que estranho! Estamos nos antípodas anuais do Natal e estou cheia de calor a saborear um figo! Nada se pode assemelhar menos a essa época!" Hesitei um pouco mas não mudei de música. Simplesmente não encontrei motivo suficientemente forte para o fazer.
Porque não ouvir uma música de Natal à entrada do Verão, debaixo da figueira? Porque não rir-me do disparate de dedilhar o ecrã do computador? Porque não tomar banho de mar em Janeiro? Porque não sentir alegria na saudade e ser otimista quando tudo parece negro? Porque não render-me a novas maneiras de pensar, agir e sentir?
Da mesma maneira que me farto de rir sozinha de cada vez que "ataco" convicta o ecrã do computador, também saberei rir-me de cada nova falha minha, corrigindo-a logo depois. Da mesma forma que ontem não encontrei motivos para desligar a música de Natal, também procurarei não encontrar razões para me opor ao ritmo com que a vida traz os novos acontecimentos, mesmo que me pareçam totalmente fora de época. Creio que este tipo de jogo de cintura me pode vir a ajudar a aproveitar melhor todos os dias e todas as encapotadas lições que eles trazem.
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
9.6.13
Ser
Ser
Viver a vida que imaginámos pode ser bastante complicado.
Mas...e ser quem sonhámos ser? Será difícil?
Acho que o problema maior é as pessoas não sonharem com o SER e sim, com o TER. Quase todos sonharam ter a profissão de sonho, ter o amor ideal, ter a casa com piscina, ter os bons carros, ter dinheiro para tudo, ter, ter, ter.
Ter é fantástico, não digo o contrário. Mas SER é sem dúvida o mais importante.
Ser amado, ser amor,
ser feliz, ser sonhador.
Ser um ser que está em paz
com o seu jeito de ser.
Ser fogo, ser alegria,
ser paixão e ser magia.
Ser vontade que se aceita
E ser Ser que se constrói
Ser abundância, ser emoção,
Ser história, arte e razão.
Olhando para trás percebo que sempre sonhei mais em Ser do que em ter. Luto por ser. Todos os dias. Ser para mim e ser para os outros. Ser tudo o que amo, tudo o que valorizo. Quando começamos a ser o nosso próprio sonho, a vida começa também a ser como a sonhámos.
Deve ser por isso que tenho tanto. Por isso e por saber que mesmo quando não tenho... Sou.
Ana Amorim Dias
Viver a vida que imaginámos pode ser bastante complicado.
Mas...e ser quem sonhámos ser? Será difícil?
Acho que o problema maior é as pessoas não sonharem com o SER e sim, com o TER. Quase todos sonharam ter a profissão de sonho, ter o amor ideal, ter a casa com piscina, ter os bons carros, ter dinheiro para tudo, ter, ter, ter.
Ter é fantástico, não digo o contrário. Mas SER é sem dúvida o mais importante.
Ser amado, ser amor,
ser feliz, ser sonhador.
Ser um ser que está em paz
com o seu jeito de ser.
Ser fogo, ser alegria,
ser paixão e ser magia.
Ser vontade que se aceita
E ser Ser que se constrói
Ser abundância, ser emoção,
Ser história, arte e razão.
Olhando para trás percebo que sempre sonhei mais em Ser do que em ter. Luto por ser. Todos os dias. Ser para mim e ser para os outros. Ser tudo o que amo, tudo o que valorizo. Quando começamos a ser o nosso próprio sonho, a vida começa também a ser como a sonhámos.
Deve ser por isso que tenho tanto. Por isso e por saber que mesmo quando não tenho... Sou.
Ana Amorim Dias
2.6.13
Uma camisa lavada
Sábado, 1 de Junho de 2013.
13 horas
- Mããeeee!-
- O que foi agora, Tomás?-
- A minha camisa branca?-
- E eu é que sei? -
- Oh mãe! A avó vem buscar-me às três! E agora? O que é que faço?
O rapaz tem a sua profissão de fé esta tarde e a avó deixou bem claro: calças de ganga sem rasgões e uma camisa branca.
Deixo-me estar em silêncio. Ele sabia, agora resolva.
- Mãe! A sério! O que é que eu faço? Só encontro esta e está suja...-
- Podes sempre lavá-la e estendê-la ao sol!-
A criatura, na sua aflição, desaparece para a lavandaria, e volta logo a seguir, com a blusa suja na mão.
- Mãe... Como é que se lava uma blusa?-
Torço-me de êxtase.
- Molhas, colocas o detergente e esfregas. Assim:- exemplifico com um pano de cozinha amarelo - Depois passas por água e penduras ao sol, no estendal.
Desaparece de novo. Mais dois minutos e está de volta, com a blusa numa mão e um pano de cozinha amarelo na outra.
- Explica lá outra vez? Molho este (o amarelo) e esfrego a blusa com ele??-
Tento manter o ar sério e confiante de quem acredita que ele vai ser capaz e explico que a blusa se esfrega com a própria blusa.
Um pouco mais tarde, depois de verificar que a blusa está bem lavada, cheirosa e pendurada, entrego-lhe a tal camisa branca de que ele andava à procura.
Sabia que ele conseguiria lavar uma peça de roupa. Porque ser mãe é isto: uma verdadeira profissão de fé!
Ana Amorim Dias
13 horas
- Mããeeee!-
- O que foi agora, Tomás?-
- A minha camisa branca?-
- E eu é que sei? -
- Oh mãe! A avó vem buscar-me às três! E agora? O que é que faço?
O rapaz tem a sua profissão de fé esta tarde e a avó deixou bem claro: calças de ganga sem rasgões e uma camisa branca.
Deixo-me estar em silêncio. Ele sabia, agora resolva.
- Mãe! A sério! O que é que eu faço? Só encontro esta e está suja...-
- Podes sempre lavá-la e estendê-la ao sol!-
A criatura, na sua aflição, desaparece para a lavandaria, e volta logo a seguir, com a blusa suja na mão.
- Mãe... Como é que se lava uma blusa?-
Torço-me de êxtase.
- Molhas, colocas o detergente e esfregas. Assim:- exemplifico com um pano de cozinha amarelo - Depois passas por água e penduras ao sol, no estendal.
Desaparece de novo. Mais dois minutos e está de volta, com a blusa numa mão e um pano de cozinha amarelo na outra.
- Explica lá outra vez? Molho este (o amarelo) e esfrego a blusa com ele??-
Tento manter o ar sério e confiante de quem acredita que ele vai ser capaz e explico que a blusa se esfrega com a própria blusa.
Um pouco mais tarde, depois de verificar que a blusa está bem lavada, cheirosa e pendurada, entrego-lhe a tal camisa branca de que ele andava à procura.
Sabia que ele conseguiria lavar uma peça de roupa. Porque ser mãe é isto: uma verdadeira profissão de fé!
Ana Amorim Dias
Anexo nazi
Anexo nazi
Imaginem uma pessoa a quem, ao longo de vinte e cinco anos, fossem entregues trezentos euros por dia. Uma pessoa sozinha, a quem tudo o que era pedido era que tornasse a sua vida sustentável e próspera por forma a que um dia pudesse repor esse empréstimo mantendo-se sustentável e próspera. O lógico seria a pessoa investir na sua educação e na sua formação; na criação de condições de produção para si mesmo e para vender; na sua saúde; no fomento de bons contactos e relações comerciais; na poupança e por aí fora.
Agora imaginem que esse dinheiro (que se tinha comprometido a utilizar da forma referida) era gasto em noitadas, luxos e superficialidades que em nada serviriam ao objetivo da criação de uma vida próspera. Quando chegasse a hora do pagamento essa pessoa estaria menos sustentável do que anteriormente e, claro, não teria como pagar, tendo então que se socorrer de incontáveis aleivosidades para fazer face à dívida.
Talvez o exemplo dos trezentos euros por dia para uma pessoa não esteja proporcional aos nove milhões por dia para um país como o nosso, mas como não sou economista terão que me perdoar e procurar vocês mesmos a proporção mais correta.
A analogia, no entanto, parece-me mínimamente válida. Onde se "investiu" o dinheiro? E desta vez não falo só de políticos pois é patente que muitos particulares usaram dinheiros de subsídios para gozar "la vida loca" em vez de o utilizar no que deviam.
E agora, além das centenas de desgovernos incríveis que estão a acabar de cremar o nosso falecido país, ainda temos de usar cateteres em segunda mão? Porque não usam a tática dos Khmers vermelhos no Camboja e matam logo quem está doente, velho ou incapaz para trabalhar? Ou então, como o nome do anexo SS indica, porque não se seguem os exemplos das forças nazis?
O desgoverno começou no dia em que se receberam os primeiros milhões. Era para serem gastos na construção de um país desenvolvido e próspero e não nesta amálgama de gente de bem depauperada e de gananciosos impunes. Espero com esperança o dia em que se apurem responsabilidades junto de todos os que ocuparam posições de poder nas últimas três décadas. Quando isto acontecer e quando os seus patrimónios e contas no estrangeiro forem devolvidos aos cofres do estado, talvez eu consiga voltar a dizer "sou portuguesa" sem sentir uma enorme vergonha.
Ana Amorim Dias
Imaginem uma pessoa a quem, ao longo de vinte e cinco anos, fossem entregues trezentos euros por dia. Uma pessoa sozinha, a quem tudo o que era pedido era que tornasse a sua vida sustentável e próspera por forma a que um dia pudesse repor esse empréstimo mantendo-se sustentável e próspera. O lógico seria a pessoa investir na sua educação e na sua formação; na criação de condições de produção para si mesmo e para vender; na sua saúde; no fomento de bons contactos e relações comerciais; na poupança e por aí fora.
Agora imaginem que esse dinheiro (que se tinha comprometido a utilizar da forma referida) era gasto em noitadas, luxos e superficialidades que em nada serviriam ao objetivo da criação de uma vida próspera. Quando chegasse a hora do pagamento essa pessoa estaria menos sustentável do que anteriormente e, claro, não teria como pagar, tendo então que se socorrer de incontáveis aleivosidades para fazer face à dívida.
Talvez o exemplo dos trezentos euros por dia para uma pessoa não esteja proporcional aos nove milhões por dia para um país como o nosso, mas como não sou economista terão que me perdoar e procurar vocês mesmos a proporção mais correta.
A analogia, no entanto, parece-me mínimamente válida. Onde se "investiu" o dinheiro? E desta vez não falo só de políticos pois é patente que muitos particulares usaram dinheiros de subsídios para gozar "la vida loca" em vez de o utilizar no que deviam.
E agora, além das centenas de desgovernos incríveis que estão a acabar de cremar o nosso falecido país, ainda temos de usar cateteres em segunda mão? Porque não usam a tática dos Khmers vermelhos no Camboja e matam logo quem está doente, velho ou incapaz para trabalhar? Ou então, como o nome do anexo SS indica, porque não se seguem os exemplos das forças nazis?
O desgoverno começou no dia em que se receberam os primeiros milhões. Era para serem gastos na construção de um país desenvolvido e próspero e não nesta amálgama de gente de bem depauperada e de gananciosos impunes. Espero com esperança o dia em que se apurem responsabilidades junto de todos os que ocuparam posições de poder nas últimas três décadas. Quando isto acontecer e quando os seus patrimónios e contas no estrangeiro forem devolvidos aos cofres do estado, talvez eu consiga voltar a dizer "sou portuguesa" sem sentir uma enorme vergonha.
Ana Amorim Dias
Natureza Morta
Natureza morta
- Olha lá mãe! Está bonito?-
Depois de uma manhã atribulada em que esgrimimos teimosias, o João aproximou-se de mim com uma pintura a lápis de cera.
- Que bonito, João! Uma natureza morta!-
- Não, não, mãe: é uma banana e uma laranja!-
Não sei se o maroto ficou com receio que eu estivesse com o entendimento distorcido ou se apenas se assustou com a analogia pós-apocalíptica daquelas duas palavras.
- Natureza morta é como se chama a este género de pinturas que ilustram coisas inanimadas. Podem ser naturais, como as frutas, legumes e flores, ou podem ser artificiais, como copos, jarros, relógios e coisas dessas, percebes?-
Ele não me pareceu muito interessado. Estava apenas satisfeito com o resultado final e com a sensação boa que sempre se desprende da libertação da criatividade.
Hoje mostrei-lhe de novo a pintura.
- Ainda te lembras o que é uma natureza morta?-
- Sim mãe: pinturas de frutas e repolhos!-
- E se fosses um crítico de arte o que dirias desta? - perguntei-lhe.
- Que o pintor tem muito jeito!-
- E tu Tomás?-
- Eu diria que tanto a laranja como a banana estão bonitas.-
- Não têm nada mais interessante a dizer? É que queria ter mais material para a crónica...-
- Mãe?-
- Diz, meu amor.-
- Eu sou famoso na internet?-
Desmanchei-me a rir.
- Não, querido. Não se pode dizer que sejas. Mas trazes a boa disposição às manhãs de muita gente...-
Ana Amorim Dias
- Olha lá mãe! Está bonito?-
Depois de uma manhã atribulada em que esgrimimos teimosias, o João aproximou-se de mim com uma pintura a lápis de cera.
- Que bonito, João! Uma natureza morta!-
- Não, não, mãe: é uma banana e uma laranja!-
Não sei se o maroto ficou com receio que eu estivesse com o entendimento distorcido ou se apenas se assustou com a analogia pós-apocalíptica daquelas duas palavras.
- Natureza morta é como se chama a este género de pinturas que ilustram coisas inanimadas. Podem ser naturais, como as frutas, legumes e flores, ou podem ser artificiais, como copos, jarros, relógios e coisas dessas, percebes?-
Ele não me pareceu muito interessado. Estava apenas satisfeito com o resultado final e com a sensação boa que sempre se desprende da libertação da criatividade.
Hoje mostrei-lhe de novo a pintura.
- Ainda te lembras o que é uma natureza morta?-
- Sim mãe: pinturas de frutas e repolhos!-
- E se fosses um crítico de arte o que dirias desta? - perguntei-lhe.
- Que o pintor tem muito jeito!-
- E tu Tomás?-
- Eu diria que tanto a laranja como a banana estão bonitas.-
- Não têm nada mais interessante a dizer? É que queria ter mais material para a crónica...-
- Mãe?-
- Diz, meu amor.-
- Eu sou famoso na internet?-
Desmanchei-me a rir.
- Não, querido. Não se pode dizer que sejas. Mas trazes a boa disposição às manhãs de muita gente...-
Ana Amorim Dias
Bateria de vitória
Bateria da vitória
Decido fazê-lo eu mesma. Espero que toda a gente saia da quinta e dirijo-me ao carro. Procuro a patilha para abrir o capot, no local onde costuma estar sempre. Nada. Tateio melhor. Nada. Enfio lá a cabeça e, ao fim de uns dez segundos naquela posição estranha, encontro a fugidia alavanca.
Tento levantar o capot. Não me obedece. Lembro-me que há outra patilha que o liberta, mas o carro está de tal forma encostado à parede que tenho de me esticar de novo para lograr os meus intentos. Ainda por cima de calças brancas!
Coloco o suporte de segurança no sítio certo e verifico se está firme. Levar com o capot na cabeça deve dar um certo abalo.
E agora? Onde está a bateria? Depois de alguns segundos a olhar, invisto sobre uma tampa de plástico que sai com facilidade. Eureca! Mais uma vitória. Observo atempadamente a magana, tentando perceber como é que a vou fazer sair e fazendo uma lista mental das ferramentas necessárias.
Com passo decidido dirijo-me à casinha das ferramentas. Spray oleante, chave de bocas, alicate, luvas e uma tesoura, porque nunca se sabe...
Percorro de novo todo o caminho até ao carro, sentindo-me como aquelas mecânicas super sexys dos filmes. Sinto-me confiante.
Tiro os óculos. Ato o cabelo. Calço as luvas. Pelo sim pelo não, tiro a chave da ignição, não me vá atacar algum choque sem haver quem me socorra.
Desenrosco as porcas da barra de proteção. Com todo o cuidado para não caírem para onde eu não as consiga apanhar. Percebo de imediato que, para um bom mecânico, as mãos pequeninas são uma enorme vantagem. As minhas são demasiado grandes e com as luvas, pior!
Continuo a minha odisseia, de rabo espetado e costas arqueadas, como se estivesse num filme mas, no fundo, é só para não sujar as calças.
Chego ao borne positivo. Uma spreizada de óleo, uma puxadela e sai logo. No negativo é que levo mais minutos. Como é que aquela porcaria sai? Ponho óleo. Observo melhor, aquilo tem que ter uma lógica. Mais óleo e lá descubro a porca que tenho que desenroscar para libertar a coisa. Ando outra vez todo o caminho até à casinha das ferramentas em busca de uma chave de bocas mais pequena.
Regresso. Luto com a filha da mãe da porca. O colar atrapalha-me mas não o tiro. Começo a vencer a porca e acabo por tirar a bateria. Sinto-me genial e feliz. Se não estivesse sozinha roubar-me-iam o prazer desta vitória.
Enfio-me no outro carro e vou comprar uma substituta enquanto penso que, para a montar, é tudo igual mas ao contrário.
Regresso depressa com um entusiasmo incontido. Monto tudo em cinco minutos e dou à chave. Funciona!! Caramba, como me adoro!
Isto aconteceu ontem de manhã. Hoje, ao entrar com os miúdos para o carro que EU ARRANJEI, abro de novo o capot com uma desenvoltura quase profissional e, sob o seu olhar impressionado, coloco a tampa de plástico sobre a bateria. É que me lembrei ontem, já na cama, que me faltou montar essa peça.
Ana Amorim Dias
Decido fazê-lo eu mesma. Espero que toda a gente saia da quinta e dirijo-me ao carro. Procuro a patilha para abrir o capot, no local onde costuma estar sempre. Nada. Tateio melhor. Nada. Enfio lá a cabeça e, ao fim de uns dez segundos naquela posição estranha, encontro a fugidia alavanca.
Tento levantar o capot. Não me obedece. Lembro-me que há outra patilha que o liberta, mas o carro está de tal forma encostado à parede que tenho de me esticar de novo para lograr os meus intentos. Ainda por cima de calças brancas!
Coloco o suporte de segurança no sítio certo e verifico se está firme. Levar com o capot na cabeça deve dar um certo abalo.
E agora? Onde está a bateria? Depois de alguns segundos a olhar, invisto sobre uma tampa de plástico que sai com facilidade. Eureca! Mais uma vitória. Observo atempadamente a magana, tentando perceber como é que a vou fazer sair e fazendo uma lista mental das ferramentas necessárias.
Com passo decidido dirijo-me à casinha das ferramentas. Spray oleante, chave de bocas, alicate, luvas e uma tesoura, porque nunca se sabe...
Percorro de novo todo o caminho até ao carro, sentindo-me como aquelas mecânicas super sexys dos filmes. Sinto-me confiante.
Tiro os óculos. Ato o cabelo. Calço as luvas. Pelo sim pelo não, tiro a chave da ignição, não me vá atacar algum choque sem haver quem me socorra.
Desenrosco as porcas da barra de proteção. Com todo o cuidado para não caírem para onde eu não as consiga apanhar. Percebo de imediato que, para um bom mecânico, as mãos pequeninas são uma enorme vantagem. As minhas são demasiado grandes e com as luvas, pior!
Continuo a minha odisseia, de rabo espetado e costas arqueadas, como se estivesse num filme mas, no fundo, é só para não sujar as calças.
Chego ao borne positivo. Uma spreizada de óleo, uma puxadela e sai logo. No negativo é que levo mais minutos. Como é que aquela porcaria sai? Ponho óleo. Observo melhor, aquilo tem que ter uma lógica. Mais óleo e lá descubro a porca que tenho que desenroscar para libertar a coisa. Ando outra vez todo o caminho até à casinha das ferramentas em busca de uma chave de bocas mais pequena.
Regresso. Luto com a filha da mãe da porca. O colar atrapalha-me mas não o tiro. Começo a vencer a porca e acabo por tirar a bateria. Sinto-me genial e feliz. Se não estivesse sozinha roubar-me-iam o prazer desta vitória.
Enfio-me no outro carro e vou comprar uma substituta enquanto penso que, para a montar, é tudo igual mas ao contrário.
Regresso depressa com um entusiasmo incontido. Monto tudo em cinco minutos e dou à chave. Funciona!! Caramba, como me adoro!
Isto aconteceu ontem de manhã. Hoje, ao entrar com os miúdos para o carro que EU ARRANJEI, abro de novo o capot com uma desenvoltura quase profissional e, sob o seu olhar impressionado, coloco a tampa de plástico sobre a bateria. É que me lembrei ontem, já na cama, que me faltou montar essa peça.
Ana Amorim Dias
Conquistas
Conquistas
Sempre que vejo filmes americanos chego à conclusão que lutar contra os maus da fita que eles inventam é a coisa mais fácil do Mundo. Eles são tão completamente maus e tão desprovidos de qualquer sopro de bondade que, ao serem pulverizados, ninguém fica com remorsos.
A parte lixada da vida é que muito dificilmente encontramos maus completamente maus, sem qualquer sopro de bondade. De facto a grande maioria das pessoas é feita predominantemente de bondade (já me têm tentado provar o contrário mas recuso-me a aceitar). E mesmo que nos deparemos com alguém maioritariamente mau não temos a legitimidade (a menos que haja vidas em risco, claro) de o/a pulverizar. Devemos sim, se possível, tentar estimular a sua parte boa para que se expanda.
E quanto a nós próprios? Como devemos lidar com a dualidade de bom e mau que todos temos? Fazer como o Dr. Jekyll fez, no romance de Robert Louis Stevenson, e despertar o Mr. Hyde que há em nós para acabar com ele? Não me parece boa ideia. O ser humano tende à bondade. O ser humano tem a obrigação de lutar convictamente pela expansão do seu lado bom e pelo esbatimento da sua negritude num cinzento mais clarinho, que passe a ocupar menos espaço. Só no meio desta batalha começaremos a ganhar a força de lutar também pela expansão da bondade alheia.
Ana Amorim Dias
Sempre que vejo filmes americanos chego à conclusão que lutar contra os maus da fita que eles inventam é a coisa mais fácil do Mundo. Eles são tão completamente maus e tão desprovidos de qualquer sopro de bondade que, ao serem pulverizados, ninguém fica com remorsos.
A parte lixada da vida é que muito dificilmente encontramos maus completamente maus, sem qualquer sopro de bondade. De facto a grande maioria das pessoas é feita predominantemente de bondade (já me têm tentado provar o contrário mas recuso-me a aceitar). E mesmo que nos deparemos com alguém maioritariamente mau não temos a legitimidade (a menos que haja vidas em risco, claro) de o/a pulverizar. Devemos sim, se possível, tentar estimular a sua parte boa para que se expanda.
E quanto a nós próprios? Como devemos lidar com a dualidade de bom e mau que todos temos? Fazer como o Dr. Jekyll fez, no romance de Robert Louis Stevenson, e despertar o Mr. Hyde que há em nós para acabar com ele? Não me parece boa ideia. O ser humano tende à bondade. O ser humano tem a obrigação de lutar convictamente pela expansão do seu lado bom e pelo esbatimento da sua negritude num cinzento mais clarinho, que passe a ocupar menos espaço. Só no meio desta batalha começaremos a ganhar a força de lutar também pela expansão da bondade alheia.
Ana Amorim Dias
Génio mau e figos verdes
Génio mau e figos verdes
Ia falar do mau génio que ontem se apoderou de mim como uma possessão maquiavélica, mas de repente lembrei-me dos figos. Pode até parecer que o meu raciocínio está descomposto mas garanto que no fim tudo fará sentido.
Creio que os fenómenos de aproximação "poltergeist" se dão, de tempos a tempos, com quase toda a gente. Chegam de forma impercetível, pelos mais variados motivos, e fazem-nos considerar seriamente ligar ao padre mais próximo para vir executar um ritual de exorcismo. Um mau génio consistente faz-nos andar carrancudos e falar com um sarcasmo que parece ter voz própria. Torna-se imperativo desativar-nos de alguma maneira, nem que seja a ir dormir.
Há mais de uma semana que, ao chegar à Quinta, páro sempre o carro de baixo da figueira preferida para ver se há figos maduros. É um exercício de paciência complicado de executar, sobretudo por quem é impaciente e gosta tanto de figos. Páro o carro todos os dias junto à figueira com uma atitude de fé e esperança, sabendo perfeitamente que este ano tardarão um pouco mais a amadurecer devido à falta de calor. Mas foi só ontem ao fim do dia que os figos ainda verdes me revelaram um importante ensinamento. Pensando simplesmente no facto, percebi que as pessoas são como os figos: quanto mais calor humano sentem em seu redor, mais doces ficam.
Mas então porque é que passei o dia completamente impossível de aturar? Se o calor humano não me falta porque é que andei tão azeda, a espalhar o terror à minha passagem? Desconfio que, mais do que calor humano, precisamos do nosso próprio calorzinho interior e, quando os dias interiormente frios se instalam, não quer dizer que sejamos pouco doces... pode significar apenas que não soubemos amadurecer para esse dia em concreto.
Ana Amorim Dias
Ia falar do mau génio que ontem se apoderou de mim como uma possessão maquiavélica, mas de repente lembrei-me dos figos. Pode até parecer que o meu raciocínio está descomposto mas garanto que no fim tudo fará sentido.
Creio que os fenómenos de aproximação "poltergeist" se dão, de tempos a tempos, com quase toda a gente. Chegam de forma impercetível, pelos mais variados motivos, e fazem-nos considerar seriamente ligar ao padre mais próximo para vir executar um ritual de exorcismo. Um mau génio consistente faz-nos andar carrancudos e falar com um sarcasmo que parece ter voz própria. Torna-se imperativo desativar-nos de alguma maneira, nem que seja a ir dormir.
Há mais de uma semana que, ao chegar à Quinta, páro sempre o carro de baixo da figueira preferida para ver se há figos maduros. É um exercício de paciência complicado de executar, sobretudo por quem é impaciente e gosta tanto de figos. Páro o carro todos os dias junto à figueira com uma atitude de fé e esperança, sabendo perfeitamente que este ano tardarão um pouco mais a amadurecer devido à falta de calor. Mas foi só ontem ao fim do dia que os figos ainda verdes me revelaram um importante ensinamento. Pensando simplesmente no facto, percebi que as pessoas são como os figos: quanto mais calor humano sentem em seu redor, mais doces ficam.
Mas então porque é que passei o dia completamente impossível de aturar? Se o calor humano não me falta porque é que andei tão azeda, a espalhar o terror à minha passagem? Desconfio que, mais do que calor humano, precisamos do nosso próprio calorzinho interior e, quando os dias interiormente frios se instalam, não quer dizer que sejamos pouco doces... pode significar apenas que não soubemos amadurecer para esse dia em concreto.
Ana Amorim Dias
Mais forte que ontem
Mais forte que ontem
É claro que o aço não se forja em amenas temperaturas primaveris. É óbvio que os nascimentos não ocorrem sem dor e desconforto. É inegável que o caráter se forma com o enfrentar dos obstáculos e que a força nos nasce da necessidade de ser fortes.
Não me sobram dúvidas que também nos construímos com as experiências boas e prazerosas. O que duvido é que estas nos construam e fortaleçam tanto como as vivências difíceis. É que depois destas ficamos preparados para tudo.
Para quem se esteja a interrogar sobre os motivos destas palavras, posso assegurar que o meu domingo não está a ser nada fácil: há horas a medir forças com o meu filho mais novo e a lidar com as nossas desavenças provocadas pela realização dos trabalhos de casa. Estou absolutamente convencida que amanhã estaremos os dois muito mais fortes!
Ana Amorim Dias
É claro que o aço não se forja em amenas temperaturas primaveris. É óbvio que os nascimentos não ocorrem sem dor e desconforto. É inegável que o caráter se forma com o enfrentar dos obstáculos e que a força nos nasce da necessidade de ser fortes.
Não me sobram dúvidas que também nos construímos com as experiências boas e prazerosas. O que duvido é que estas nos construam e fortaleçam tanto como as vivências difíceis. É que depois destas ficamos preparados para tudo.
Para quem se esteja a interrogar sobre os motivos destas palavras, posso assegurar que o meu domingo não está a ser nada fácil: há horas a medir forças com o meu filho mais novo e a lidar com as nossas desavenças provocadas pela realização dos trabalhos de casa. Estou absolutamente convencida que amanhã estaremos os dois muito mais fortes!
Ana Amorim Dias
E de novo os super poderes
E de novo os super poderes
Para variar o João está a portar-se mal no banco de trás.
- Ou páras já com isso ou desligo-te os super poderes! - ameaço.
- O quê? Que super poderes? - quer saber o Tomás.
- Sim, Tomás! Eu e a mãe temos super poderes, sabes? E quando eu me porto mal a mãe desliga-os...- explica o mais pequeno.
Noto o silêncio preocupado da minha mãe, que segue connosco no carro, e apresso-me a tranquilizá-la explicando que o João sabe que não pode voar nem fazer nada dessas coisas perigosas. A minha mãe dá um suspiro aliviado.
- Mãe?...- conheço aquela voz mimosa demasiado bem. Interrompo-o.
- Tu também tens super poderes, Tomás!-
- Quais são, mãe?-
- Isso vais ter que descobrir por ti porque se eu te contar desativam-se...-
No interior do carro volta a estar tudo calmo e, enquanto vou cantando baixinho, percebo que há um super poder que sou bem capaz de não ter: o de os fazer estudar mais.
Ana Amorim Dias
Para variar o João está a portar-se mal no banco de trás.
- Ou páras já com isso ou desligo-te os super poderes! - ameaço.
- O quê? Que super poderes? - quer saber o Tomás.
- Sim, Tomás! Eu e a mãe temos super poderes, sabes? E quando eu me porto mal a mãe desliga-os...- explica o mais pequeno.
Noto o silêncio preocupado da minha mãe, que segue connosco no carro, e apresso-me a tranquilizá-la explicando que o João sabe que não pode voar nem fazer nada dessas coisas perigosas. A minha mãe dá um suspiro aliviado.
- Mãe?...- conheço aquela voz mimosa demasiado bem. Interrompo-o.
- Tu também tens super poderes, Tomás!-
- Quais são, mãe?-
- Isso vais ter que descobrir por ti porque se eu te contar desativam-se...-
No interior do carro volta a estar tudo calmo e, enquanto vou cantando baixinho, percebo que há um super poder que sou bem capaz de não ter: o de os fazer estudar mais.
Ana Amorim Dias
24.5.13
Porto inseguro
Porto inseguro
Não sei se existem portos completamente seguros. Sei que há portos nos quais conseguimos sentir-nos protegidos, mas daí a serem capazes de nos proteger com total eficácia das mais fortes tempestades, já tenho as minhas dúvidas.
No fundo considero os portos muito seguros, os mais inseguros de todos. É que os barquinhos existem para navegar e não para ficar amarrados nos portos. Quanto mais seguros nos sentimos, menos vontade temos de nos fazer ao mar e cumprir as missões das nossas existências. Quanto mais nos habituamos a não enfrentar ventos e vagas, menos nos fortalecemos; mais a inércia se nos apodera das velas e o caruncho das madeiras.
"Small boat, deep sea" (pequeno barco, profundo mar) disseram-me um dia. Somos pequeninos e a vida é enorme, bem sei. Mas temos a obrigação de garantir que toda a segurança sentida em qualquer dos nossos portos seguros, não se transforma em medo de navegar. Porque a maior insegurança é correr o risco de chegar ao fim e perceber que não vivemos.
Ana Amorim Dias
Não sei se existem portos completamente seguros. Sei que há portos nos quais conseguimos sentir-nos protegidos, mas daí a serem capazes de nos proteger com total eficácia das mais fortes tempestades, já tenho as minhas dúvidas.
No fundo considero os portos muito seguros, os mais inseguros de todos. É que os barquinhos existem para navegar e não para ficar amarrados nos portos. Quanto mais seguros nos sentimos, menos vontade temos de nos fazer ao mar e cumprir as missões das nossas existências. Quanto mais nos habituamos a não enfrentar ventos e vagas, menos nos fortalecemos; mais a inércia se nos apodera das velas e o caruncho das madeiras.
"Small boat, deep sea" (pequeno barco, profundo mar) disseram-me um dia. Somos pequeninos e a vida é enorme, bem sei. Mas temos a obrigação de garantir que toda a segurança sentida em qualquer dos nossos portos seguros, não se transforma em medo de navegar. Porque a maior insegurança é correr o risco de chegar ao fim e perceber que não vivemos.
Ana Amorim Dias
O fim da rebaldaria
O fim da rebaldaria
Quanto mais simples melhor. O assunto até pode ser complicado, mas há sempre formas simples de o ver e abordar.
Alma. Coração. Cérebro. "Afinal quem é que manda aqui?", pergunto-me às vezes, sem aceitar render-me àquela rebaldaria. Bom, deixem-me lá abordar a questão como se fosse um miúdo de cinco anos porque esses é que são mesmo sábios!
Alma: uma espécie de nuvem branquinha que vive sempre dentro de nós e sabe coisas incríveis.
Coração: o motor do nosso corpo e a nascente do amor.
Cérebro: aquela máquina fantástica que faz falta exercitar e alimentar todos os dias.
Continuando no modo de sabedoria infantil, avanço para a vaca fria: porque é que há pessoas infelizes? Simples!! Porque deixam que estas três pecinhas andem numa rebaldaria!
Quem consiga fazer com que a alma, o coração e o cérebro funcionem em equipa torna-se completamente invencível. A sério, é mesmo assim!
O quê? Como é que os pomos em sintonia? Fácil: deixamos que o cérebro se cale e se alimente com as respostas da alma, enquanto o coração vai batendo de emoção.
Ana Amorim Dias
Quanto mais simples melhor. O assunto até pode ser complicado, mas há sempre formas simples de o ver e abordar.
Alma. Coração. Cérebro. "Afinal quem é que manda aqui?", pergunto-me às vezes, sem aceitar render-me àquela rebaldaria. Bom, deixem-me lá abordar a questão como se fosse um miúdo de cinco anos porque esses é que são mesmo sábios!
Alma: uma espécie de nuvem branquinha que vive sempre dentro de nós e sabe coisas incríveis.
Coração: o motor do nosso corpo e a nascente do amor.
Cérebro: aquela máquina fantástica que faz falta exercitar e alimentar todos os dias.
Continuando no modo de sabedoria infantil, avanço para a vaca fria: porque é que há pessoas infelizes? Simples!! Porque deixam que estas três pecinhas andem numa rebaldaria!
Quem consiga fazer com que a alma, o coração e o cérebro funcionem em equipa torna-se completamente invencível. A sério, é mesmo assim!
O quê? Como é que os pomos em sintonia? Fácil: deixamos que o cérebro se cale e se alimente com as respostas da alma, enquanto o coração vai batendo de emoção.
Ana Amorim Dias
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