Prazer e arte
Mandei-o ler o texto todo e responder às questões. Nada melhor do que a prática para nos preparar para os testes.
- Mas mãe... São sete páginas!- respondeu.
- Só podes estar a gozar comigo, Tomás! Isso não é nada! Vá, ataca!-
Passados alguns minutos, e vendo-o a patinar em seco, decidi dar uma ajuda.
- Vá lá... Aproveita que eu vou ler isto de uma forma interessante e divertida. Mas presta toda a atenção para depois responderes às perguntas de interpretação!-
Animou-se um pouco e eu comecei.
Um parágrafo. Dois. Três. Vi logo quem era o responsável pelos bocejos dos dois: Alexandre Herculano em "Lendas e narrativas". Optei por disfarçar o caso e continuar a tentar tornar a leitura interessante, mas regressei à minha adolescência e à entediante tortura que foi para mim, naqueles anos, ler "Viagens na minha terra" do Almeida Garrett. É que dos cantos de "Os Lusíadas" até gostei, assim como do "Amor de Perdição" ou de "Os Maias". Mas a obra "Viagens na minha terra" traumatizou-me ao ponto de quase colocar em causa a minha paixão pela leitura.
A sério: não deviam fazer isto aos miúdos! Quer dizer, revelar-lhes, num afloramento ligeiro, os grandes mestres da literatura pura e dura, é uma coisa; submetê-los a intensas terapias de aversão à leitura, é outra. Ainda mais quando temos contemporâneos de tão boa qualidade literária e capazes de despertar muito mais emoção e interesse!
Jamais poderia criticar o valor literário, intelectual e artístico dos grandes mestres, mas nada me impede de manifestar as minhas impressões enquanto consumidora dos mesmos... Sou da opinião que os verdadeiros criadores devem ser como os mais perfeitos amantes: tão atentos ao seu prazer como empenhados no prazer alheio. A erudição, a perfeição e a genialidade têm um elevado valor. Mas a arte, desculpem-me o atrevimento, é mais que isso; é conseguir tocar o outro dando-lhe o mais intenso prazer...em vez de o fazer bocejar!
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
27.10.13
Ironias
Ironias
Procurei por todos os sítios possíveis mas, como é óbvio, não encontrei nenhum. É o que dá quando temos aversão a algo. Mas chovia a cântaros e, farta de levar com chuva no lombo a semana inteira, decidi render-me momentaneamente ao óbvio.
Conduzi debaixo de um dilúvio até Castro Marim e, como tinha oito minutos até ao toque de saída do Tomás, parei à porta da loja e comprei um guarda-chuva. Cinco minutos depois a natureza mostrou-me a língua: o céu limpou e um sol radioso iluminou uma atmosfera límpida e vibrante.
Às vezes dou por mim a rir das ironias da vida. Por exemplo: como é que uma pessoa que tanto ama viajar, detesta tão intensamente fazer malas? Ou porque é que, tanto amando as pessoas em geral, tenho uma necessidade tão gritante de, constantemente, estar a sós?
Serão as ironias da vida, lições que temos de decifrar? Servirão realmente elas para nos ensinar alguma coisa, ou existirão simplesmente para zombar das nossas vontades?
Quase aposto que as ironias, como tudo o resto, existem para nos fazer aprender algo mais. O que ainda continuo a tentar decifrar é o que é que cada uma em si encerra para me fazer evoluir.
Entretanto, enquanto vou pensando no caso, terei que ir fazer a mala!
...Ou então fica para depois: é que não me apetece mesmo nada e ainda tenho tempo!
Ana Amorim Dias
Procurei por todos os sítios possíveis mas, como é óbvio, não encontrei nenhum. É o que dá quando temos aversão a algo. Mas chovia a cântaros e, farta de levar com chuva no lombo a semana inteira, decidi render-me momentaneamente ao óbvio.
Conduzi debaixo de um dilúvio até Castro Marim e, como tinha oito minutos até ao toque de saída do Tomás, parei à porta da loja e comprei um guarda-chuva. Cinco minutos depois a natureza mostrou-me a língua: o céu limpou e um sol radioso iluminou uma atmosfera límpida e vibrante.
Às vezes dou por mim a rir das ironias da vida. Por exemplo: como é que uma pessoa que tanto ama viajar, detesta tão intensamente fazer malas? Ou porque é que, tanto amando as pessoas em geral, tenho uma necessidade tão gritante de, constantemente, estar a sós?
Serão as ironias da vida, lições que temos de decifrar? Servirão realmente elas para nos ensinar alguma coisa, ou existirão simplesmente para zombar das nossas vontades?
Quase aposto que as ironias, como tudo o resto, existem para nos fazer aprender algo mais. O que ainda continuo a tentar decifrar é o que é que cada uma em si encerra para me fazer evoluir.
Entretanto, enquanto vou pensando no caso, terei que ir fazer a mala!
...Ou então fica para depois: é que não me apetece mesmo nada e ainda tenho tempo!
Ana Amorim Dias
Janela e espelho
Janela e espelho
A certa altura quase deixei de a ouvir. Quer dizer, estava a escutá-la com a consciência e o cérebro, mas a minha alma, embalada pelo Billy Paul a cantar "Me and ms. Jones", abraçava aquela partilha com uma tal emoção que me confirmou mais um dos meus amores eternos.
Não saíamos juntas e sozinhas há muitos meses, mas recuperámos totalmente o tempo perdido com as mesmas infindáveis horas de ininterrupta conversa e sentidas gargalhadas que sempre nos recordam as razões desta paixão.
- E isso foi a melhor coisa que te aconteceu na vida...- disse ela quando a deixei em casa.
Começar a escrever foi tudo isso e mais, realmente.
- A "melhor coisa que já me aconteceu na vida" foram tantas coisas, em tantos momentos diferentes... E uma delas foste tu!- respondi-lhe com toda a verdade.
Voltei para casa a ouvir a "Canção de mim mesmo" dos Black Mamba. "...sou janela e espelho por onde te vês...sou o sol que depois da chuva, brilha outra vez..."
A amizade é isto, pensei, completamente feliz.
Ana Amorim Dias
A certa altura quase deixei de a ouvir. Quer dizer, estava a escutá-la com a consciência e o cérebro, mas a minha alma, embalada pelo Billy Paul a cantar "Me and ms. Jones", abraçava aquela partilha com uma tal emoção que me confirmou mais um dos meus amores eternos.
Não saíamos juntas e sozinhas há muitos meses, mas recuperámos totalmente o tempo perdido com as mesmas infindáveis horas de ininterrupta conversa e sentidas gargalhadas que sempre nos recordam as razões desta paixão.
- E isso foi a melhor coisa que te aconteceu na vida...- disse ela quando a deixei em casa.
Começar a escrever foi tudo isso e mais, realmente.
- A "melhor coisa que já me aconteceu na vida" foram tantas coisas, em tantos momentos diferentes... E uma delas foste tu!- respondi-lhe com toda a verdade.
Voltei para casa a ouvir a "Canção de mim mesmo" dos Black Mamba. "...sou janela e espelho por onde te vês...sou o sol que depois da chuva, brilha outra vez..."
A amizade é isto, pensei, completamente feliz.
Ana Amorim Dias
Fecundar emoções
Fecundar as emoções
- Mãe, põe mais alto...-
Fiquei toda contente. Normalmente sou eu a querer a música aos gritos no carro e são eles a reclamar.
"Mas espera, Ana... O João está a gostar assim tanto da SINFONI DEO dos Era?!..."
Isto aconteceu depois de o ir buscar à porta da escola enquanto caía uma chuvita convicta. Durante os sete minutos que durou a espera, tive vários simpáticos convites para partilhar o abrigo de sombrinhas alheias e tive até direito a uma cara de espanto/incompreensão com uma pitada de piedade (não foi Luísa? :) ).
Acontece que gosto de andar à chuva. E até de estar parada sob ela. Acho uma delícia entregar-me plenamente aos elementos, desde que com alguma segurança e conforto, claro. Até entendo que algumas pessoas temam a chuva como quem teme uma rega de ácido sulfúrico misturada com essência de doninha e veneno de cascavel mas, se a temperatura está amena e nos podemos secar em breve, porque não havemos de nos deixar levar pelo momento?
"Quem anda à chuva, molha-se!" diz a popular sabedoria, esquecendo que a chuva é só água. Está bem, molha, e depois? É tão bom estar molhado (podem interpretar como quiserem que a ideia também é essa).
Regressem lá da gargalhada que isto ainda vai a meio. "Quem anda à chuva, molha-se" faz-me sempre lembrar uma receita de anti-vida: "Não arrisques, não te mexas, olha que vai dar sarilho!", e depois?? Não estamos aqui para experimentar, sentir, errar e aprender com cada molha? Existirá algo mais fecundo que estas metafóricas chuvadas que nos fazem brotar as sementinhas da alma?
- Mãe, põe outra vez a musica de ontem...- Pediu o João ainda agora, enquanto o levava para a escola.
Fiz-lhe a vontade e recordei a sensação que tive ao ouvi-la, há uns anos, depois de uma semana em que poderia ter morrido de três maneiras diferentes. Depois de experimentar um abalo sísmico, uma explosão na cozinha e a queda do teto de um centro comercial mesmo por cima de mim, ouvi esta música e pensei: "Caneco, vou viver tão intensamente esta vida!!"
- Porque é que gostas tanto desta música, filhote?-
- Hum... Não te sei explicar. E tu, mãe?-
- Porque é emocionante... E tu sabes que eu adoro emoções!-
- Sabes? Acho que é por isso que eu também gosto.-
Ana Amorim Dias
- Mãe, põe mais alto...-
Fiquei toda contente. Normalmente sou eu a querer a música aos gritos no carro e são eles a reclamar.
"Mas espera, Ana... O João está a gostar assim tanto da SINFONI DEO dos Era?!..."
Isto aconteceu depois de o ir buscar à porta da escola enquanto caía uma chuvita convicta. Durante os sete minutos que durou a espera, tive vários simpáticos convites para partilhar o abrigo de sombrinhas alheias e tive até direito a uma cara de espanto/incompreensão com uma pitada de piedade (não foi Luísa? :) ).
Acontece que gosto de andar à chuva. E até de estar parada sob ela. Acho uma delícia entregar-me plenamente aos elementos, desde que com alguma segurança e conforto, claro. Até entendo que algumas pessoas temam a chuva como quem teme uma rega de ácido sulfúrico misturada com essência de doninha e veneno de cascavel mas, se a temperatura está amena e nos podemos secar em breve, porque não havemos de nos deixar levar pelo momento?
"Quem anda à chuva, molha-se!" diz a popular sabedoria, esquecendo que a chuva é só água. Está bem, molha, e depois? É tão bom estar molhado (podem interpretar como quiserem que a ideia também é essa).
Regressem lá da gargalhada que isto ainda vai a meio. "Quem anda à chuva, molha-se" faz-me sempre lembrar uma receita de anti-vida: "Não arrisques, não te mexas, olha que vai dar sarilho!", e depois?? Não estamos aqui para experimentar, sentir, errar e aprender com cada molha? Existirá algo mais fecundo que estas metafóricas chuvadas que nos fazem brotar as sementinhas da alma?
- Mãe, põe outra vez a musica de ontem...- Pediu o João ainda agora, enquanto o levava para a escola.
Fiz-lhe a vontade e recordei a sensação que tive ao ouvi-la, há uns anos, depois de uma semana em que poderia ter morrido de três maneiras diferentes. Depois de experimentar um abalo sísmico, uma explosão na cozinha e a queda do teto de um centro comercial mesmo por cima de mim, ouvi esta música e pensei: "Caneco, vou viver tão intensamente esta vida!!"
- Porque é que gostas tanto desta música, filhote?-
- Hum... Não te sei explicar. E tu, mãe?-
- Porque é emocionante... E tu sabes que eu adoro emoções!-
- Sabes? Acho que é por isso que eu também gosto.-
Ana Amorim Dias
A tristeza tem razões que a própria razão desconhece
A tristeza tem razões que a própria razão desconhece
Nem dei por ela a chegar. Veio, sorrateira, e instalou-se descaradamente em mim como se eu fosse a sua casa.
- O que é que tu tens hoje?-
- Sono.- Como podia confessar-lhe uma tristeza que não saberia, depois, como justificar?
Dei voltas e caminhadas pelas ruelas da razão. Procurei por todos os becos, espreitei portas e janelas que nem tenho por hábito abrir...e nada! Não encontrei absolutamente nada que pudesse justificar uma tristeza tão absoluta, invasiva e intensa. Recordei fases passadas em que me empenhava em estar triste; lembrei-me da emocionante intensidade com que já senti a tristeza e a forma como ela me conduziu à arte que me dá o pleno sentido à vida. Encerrará a tristeza, em si mesma, uma das poderosas forças que nos faz avançar?
A certa altura desisti de pensá-la e de a tentar racionalizar. Os sentimentos nem sempre precisam de um atestado justificativo. Basta que os aceitemos em toda a sua imensa plenitude, fazendo dessa intensidade o nosso maior combustível, para que a força nos chegue. E, de repente, a razão conseguiu mostrar-me que até os mais sofridos sentimentos, desde que bem encaminhados, podem fazer de nós invencíveis sobreviventes.
E foi assim, completamente vencida pelo ensinamento que trouxe, que a tristeza me deixou, entregue a melhores sensações.
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Enviado via iPad
Nem dei por ela a chegar. Veio, sorrateira, e instalou-se descaradamente em mim como se eu fosse a sua casa.
- O que é que tu tens hoje?-
- Sono.- Como podia confessar-lhe uma tristeza que não saberia, depois, como justificar?
Dei voltas e caminhadas pelas ruelas da razão. Procurei por todos os becos, espreitei portas e janelas que nem tenho por hábito abrir...e nada! Não encontrei absolutamente nada que pudesse justificar uma tristeza tão absoluta, invasiva e intensa. Recordei fases passadas em que me empenhava em estar triste; lembrei-me da emocionante intensidade com que já senti a tristeza e a forma como ela me conduziu à arte que me dá o pleno sentido à vida. Encerrará a tristeza, em si mesma, uma das poderosas forças que nos faz avançar?
A certa altura desisti de pensá-la e de a tentar racionalizar. Os sentimentos nem sempre precisam de um atestado justificativo. Basta que os aceitemos em toda a sua imensa plenitude, fazendo dessa intensidade o nosso maior combustível, para que a força nos chegue. E, de repente, a razão conseguiu mostrar-me que até os mais sofridos sentimentos, desde que bem encaminhados, podem fazer de nós invencíveis sobreviventes.
E foi assim, completamente vencida pelo ensinamento que trouxe, que a tristeza me deixou, entregue a melhores sensações.
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Enviado via iPad
Alegoria da urgência
Alegoria da urgência
A encomenda chegou finalmente. Os livros que encomendei com urgência (duplamente paga) há vinte e dois dias (sim: vinte e dois) foi hoje por mim levantada (como a Quinta do Monte não tem número de porta, todos os árduos esforços para a encontrar foram inglórios) no posto de correios mais próximo.
Poderia maldizer a wook e os serviços expresso dos ctt, mas prefiro, sem qualquer ponta de ironia, agradecer-lhes. Passei por fases de incredulidade, indignação e ação (averiguar o estafeta em causa revelou-se impossível: parece que os ctt expresso gostam de encobrir a incompetência dos seus) até chegar à iluminação. Gosto de tentar reagir às contrariedades extraindo-lhes algo de bom... E esta contrariedade trouxe-me a alegoria da urgência.
Podemos lutar, correr, ter a maior das pressas e agir em conformidade: o facto é que as coisas só nos chegam quando têm que chegar. De pouco serve madrugar se o sol só nasce à sua hora. De nada serve ter urgência e de, muitas diferentes maneiras, tentar pagar o que ela vale pois tudo tem o seu tempo, por mais que nos pareça excessivo.
Quando queremos algo há que lutar e trabalhar por isso. Um dia a "encomenda" acaba por nos chegar...mesmo que tenhamos que calar a nossa urgência e esperar muito mais tempo do que seria aceitável.
Ana Amorim Dias
A encomenda chegou finalmente. Os livros que encomendei com urgência (duplamente paga) há vinte e dois dias (sim: vinte e dois) foi hoje por mim levantada (como a Quinta do Monte não tem número de porta, todos os árduos esforços para a encontrar foram inglórios) no posto de correios mais próximo.
Poderia maldizer a wook e os serviços expresso dos ctt, mas prefiro, sem qualquer ponta de ironia, agradecer-lhes. Passei por fases de incredulidade, indignação e ação (averiguar o estafeta em causa revelou-se impossível: parece que os ctt expresso gostam de encobrir a incompetência dos seus) até chegar à iluminação. Gosto de tentar reagir às contrariedades extraindo-lhes algo de bom... E esta contrariedade trouxe-me a alegoria da urgência.
Podemos lutar, correr, ter a maior das pressas e agir em conformidade: o facto é que as coisas só nos chegam quando têm que chegar. De pouco serve madrugar se o sol só nasce à sua hora. De nada serve ter urgência e de, muitas diferentes maneiras, tentar pagar o que ela vale pois tudo tem o seu tempo, por mais que nos pareça excessivo.
Quando queremos algo há que lutar e trabalhar por isso. Um dia a "encomenda" acaba por nos chegar...mesmo que tenhamos que calar a nossa urgência e esperar muito mais tempo do que seria aceitável.
Ana Amorim Dias
Lutando com monstros
Lutando com monstros
- Depressa, mãe!-
- Hã?- estava a ouvir música com fones e não o escutei à primeira.
- Passa-me aí o comando! Tenho que mudar depressa, mãe!-
Assim que levantei os olhos entendi-lhe o pânico: era a casa dos segredos.
- Tu já viste isto?- perguntou-me uma amiga, à espera de opinião sobre como lidar com uma pessoa complicada que lhe acabara de mandar uma mensagem feia.
- Ignora, querida. Em absoluto. Caso contrário só estás a fazer mal a ti mesma e a alimentar a insanidade alheia. Não respondas!-
Lutamos constantemente com todo o tipo de monstros e, de facto, durante cada batalha, temos que estar bem vigilantes por forma a não nos tornarmos, nós também, um pouco monstruosos.
É tão fácil deixarmos que a raiva, a frustração, a inveja, o desalento e mil outras monstruosas características nos invadam e comecem a dominar desde dentro que, se não nos acautelarmos, depressa fazem de nós seus reféns.
O ideal é conseguir evitar contactar com monstros, tal como o Tomás sabiamente ontem fez ao mudar de canal. Mas quando os monstros se colocam mesmo à nossa frente, fazendo com que a luta seja inevitável, mais vale que usemos a única "arma" eficaz: uma monstruosa inocência!
Ana Amorim Dias
- Depressa, mãe!-
- Hã?- estava a ouvir música com fones e não o escutei à primeira.
- Passa-me aí o comando! Tenho que mudar depressa, mãe!-
Assim que levantei os olhos entendi-lhe o pânico: era a casa dos segredos.
- Tu já viste isto?- perguntou-me uma amiga, à espera de opinião sobre como lidar com uma pessoa complicada que lhe acabara de mandar uma mensagem feia.
- Ignora, querida. Em absoluto. Caso contrário só estás a fazer mal a ti mesma e a alimentar a insanidade alheia. Não respondas!-
Lutamos constantemente com todo o tipo de monstros e, de facto, durante cada batalha, temos que estar bem vigilantes por forma a não nos tornarmos, nós também, um pouco monstruosos.
É tão fácil deixarmos que a raiva, a frustração, a inveja, o desalento e mil outras monstruosas características nos invadam e comecem a dominar desde dentro que, se não nos acautelarmos, depressa fazem de nós seus reféns.
O ideal é conseguir evitar contactar com monstros, tal como o Tomás sabiamente ontem fez ao mudar de canal. Mas quando os monstros se colocam mesmo à nossa frente, fazendo com que a luta seja inevitável, mais vale que usemos a única "arma" eficaz: uma monstruosa inocência!
Ana Amorim Dias
20.10.13
Marcar pontos
Marcar pontos
Assisti uma única vez aos treinos de futebol do Tomás. No final disse-lhe:
- Meu amor? Não tens jeitinho absolutamente nenhum! Devias mudar de desporto...-
Apesar de me terem chamado a atenção para tentar não colocar os factos de uma forma tão crua, tenho a certeza que agi bem. Se ele não servia para aquilo não era melhor confirmar-lhe uma certeza que ele se calhar até já tinha?
- Mãe... ok, eu deixo-te assistir ao jogo... Mas por favor: não comeces com as tuas loucuras!!-
Estou sentada a ver o jogo. O mais sossegadita que posso. Acabei de receber o sorriso rasgado de um filho feliz, veloz e ágil que, para o basquete, já tem jeito.
E não posso impedir-me de pensar que a frontalidade mais crua é, muitas vezes, a que vem a potenciar que mais e melhores pontos se marquem.
Ana Amorim Dias
Assisti uma única vez aos treinos de futebol do Tomás. No final disse-lhe:
- Meu amor? Não tens jeitinho absolutamente nenhum! Devias mudar de desporto...-
Apesar de me terem chamado a atenção para tentar não colocar os factos de uma forma tão crua, tenho a certeza que agi bem. Se ele não servia para aquilo não era melhor confirmar-lhe uma certeza que ele se calhar até já tinha?
- Mãe... ok, eu deixo-te assistir ao jogo... Mas por favor: não comeces com as tuas loucuras!!-
Estou sentada a ver o jogo. O mais sossegadita que posso. Acabei de receber o sorriso rasgado de um filho feliz, veloz e ágil que, para o basquete, já tem jeito.
E não posso impedir-me de pensar que a frontalidade mais crua é, muitas vezes, a que vem a potenciar que mais e melhores pontos se marquem.
Ana Amorim Dias
Terapia de choque
Saí esta manhã de casa e lá estavam eles: a cheirar tudo com uma curiosidade espantada que o barulho dos meus tacões assustou. Embora tenha ficado com pena por não ter conseguido captar a imagem cómica dos foragidos porquitos, agradeci-lhes em silêncio a visita... É que foi ela que me potenciou um poderoso regresso ao passado.
Passou-se há muitos anos. Quando eu era ainda uma citadina criatura, completamente inadaptada às duras realidades campestres.
- Vamos capar porcos, queres vir?- perguntou o avô João.
Passei muitos anos a tentar perceber as razões daquele meu "sim". Teria sido para o tentar impressionar? Teria sido obra da constante vontade de perceber como tudo funciona? Ou apenas a consciência do enorme poder das terapias de choque?
Momentos depois estava dentro das pocilgas com eles. O Ricardo a agarrar o porco; o avô a "tratar" do assunto e eu a dar assistência. A certa altura, no meio de desinfeções, cortes e guinchos, o avô João, por não ter mais onde o colocar, estendeu-me o órgão ovalado e ainda quente que, por instinto, recebi na minha mão.
Poderia deter-me aqui e fazer uma série de analogias interessantes quanto ao facto de se conseguir ter túbaros na mão. Mas não. O importante foi saber deter-me naquele momento específico (que até poderia ter sido traumático) e conseguir abraçar todo o seu grande valor mesmo sem o entender por completo.
Hoje, tantos anos depois, vejo como a menina da cidade se soube adaptar aos desafios do campo e compreendo a razão de ser daquele meu "sim". É que eu, mesmo sem saber, já sabia que a vida tem que ser mais que "enfrentar o touro pelos cornos"; tem que ser também agarrá-la a ela pelos túbaros.
Ana Amorim Dias
Passou-se há muitos anos. Quando eu era ainda uma citadina criatura, completamente inadaptada às duras realidades campestres.
- Vamos capar porcos, queres vir?- perguntou o avô João.
Passei muitos anos a tentar perceber as razões daquele meu "sim". Teria sido para o tentar impressionar? Teria sido obra da constante vontade de perceber como tudo funciona? Ou apenas a consciência do enorme poder das terapias de choque?
Momentos depois estava dentro das pocilgas com eles. O Ricardo a agarrar o porco; o avô a "tratar" do assunto e eu a dar assistência. A certa altura, no meio de desinfeções, cortes e guinchos, o avô João, por não ter mais onde o colocar, estendeu-me o órgão ovalado e ainda quente que, por instinto, recebi na minha mão.
Poderia deter-me aqui e fazer uma série de analogias interessantes quanto ao facto de se conseguir ter túbaros na mão. Mas não. O importante foi saber deter-me naquele momento específico (que até poderia ter sido traumático) e conseguir abraçar todo o seu grande valor mesmo sem o entender por completo.
Hoje, tantos anos depois, vejo como a menina da cidade se soube adaptar aos desafios do campo e compreendo a razão de ser daquele meu "sim". É que eu, mesmo sem saber, já sabia que a vida tem que ser mais que "enfrentar o touro pelos cornos"; tem que ser também agarrá-la a ela pelos túbaros.
Ana Amorim Dias
Das trevas para a luz
Das trevas para a luz
Liguei-lhe ainda antes das dez da manhã. Não sei há quantos meses não falávamos. Há muitos...
- Ana!! Passa-se alguma coisa? Eu vou já para baixo!!-
- Calma, querida! Não se passa nada. - ela quase não me deixava falar.
- Nem precisas de dizer o que é! Eu arranco já para o Algarve e vamos resolver o problema!
Por esta altura já eu estava engasgada em gargalhadas.
- Sim, Angela, eu sei: há as pessoas que criam os problemas e as que resolvem os problemas...
- ...e nós resolvemos problemas!- terminámos em coro.
A hora seguinte foi, como sempre, de uma cumplicidade, alegria e entendimento para lá do explicável e, no entanto, tão comuns como o são (felizmente que para isto ainda não criaram imposto) as grandes amizades.
Hoje acordei a pensar em ti. O cheiro extasiante da terra molhada e o encantador paradoxo do sol a desfazer o nevoeiro, trouxeram-me à memória muito do que vivemos juntas. Ao som das músicas que sempre me banham os dias, realizei um filme mental de uma beleza ímpar. E detive-me num momento, fraturado no tempo, há tantos anos atrás que parece ter sido numa outra vida qualquer...
Entraste no meu quarto, com o entusiasmo de sempre, a falar sem parar. E de repente gelaste: eu chorava copiosamente, já não me lembro porquê. A tua aflição por veres a "rocha de alegria e força" a chorar, foi tão grande e genuína que não pude impedir-me e comecei a rir por entre as lágrimas. lembras-te?
A amizade é isto! É ir ao cabo do mundo sem precisar de saber a razão. É uma amálgama de paradoxos incríveis que nos faz duvidar de toda a lógica. É a paixão incorpórea mais genuína e valiosa; aquela nos faz entender que existe quem nos consiga fazer voltar das trevas para a luz... com apenas um olhar.
E sabes que mais? Que se lixem os erróneos entendimentos! Eu amo-te!
Ana Amorim Dias
Liguei-lhe ainda antes das dez da manhã. Não sei há quantos meses não falávamos. Há muitos...
- Ana!! Passa-se alguma coisa? Eu vou já para baixo!!-
- Calma, querida! Não se passa nada. - ela quase não me deixava falar.
- Nem precisas de dizer o que é! Eu arranco já para o Algarve e vamos resolver o problema!
Por esta altura já eu estava engasgada em gargalhadas.
- Sim, Angela, eu sei: há as pessoas que criam os problemas e as que resolvem os problemas...
- ...e nós resolvemos problemas!- terminámos em coro.
A hora seguinte foi, como sempre, de uma cumplicidade, alegria e entendimento para lá do explicável e, no entanto, tão comuns como o são (felizmente que para isto ainda não criaram imposto) as grandes amizades.
Hoje acordei a pensar em ti. O cheiro extasiante da terra molhada e o encantador paradoxo do sol a desfazer o nevoeiro, trouxeram-me à memória muito do que vivemos juntas. Ao som das músicas que sempre me banham os dias, realizei um filme mental de uma beleza ímpar. E detive-me num momento, fraturado no tempo, há tantos anos atrás que parece ter sido numa outra vida qualquer...
Entraste no meu quarto, com o entusiasmo de sempre, a falar sem parar. E de repente gelaste: eu chorava copiosamente, já não me lembro porquê. A tua aflição por veres a "rocha de alegria e força" a chorar, foi tão grande e genuína que não pude impedir-me e comecei a rir por entre as lágrimas. lembras-te?
A amizade é isto! É ir ao cabo do mundo sem precisar de saber a razão. É uma amálgama de paradoxos incríveis que nos faz duvidar de toda a lógica. É a paixão incorpórea mais genuína e valiosa; aquela nos faz entender que existe quem nos consiga fazer voltar das trevas para a luz... com apenas um olhar.
E sabes que mais? Que se lixem os erróneos entendimentos! Eu amo-te!
Ana Amorim Dias
Fora do horário letivo
Fora do horário letivo
Com um filho de cada lado, consegui estender o braço até à mesinha se cabeceira. Peguei no comando para que a aparelhagem fizesse soar, aleatoriamente, uma música. E o Jorge Palma começou a narrar, com excelente melodia e ritmo, "Jeremias, o fora da lei".
- Mãe, põe outra vez!-
Não se nega boa música às criancinhas. Soou de novo e de novo e de novo até que, ao vestir-me, o espírito de fora da lei havia tomado conta de mim e as calças eleitas foram as mais rasgadas.
- Escolhe aí um CD, Tom.- pedi, quando entrámos para o carro.
Estendeu-me um dos DOORS e os meus olhos brilharam. "Ainda o dia mal começou e já conspiras a meu favor, Universo?"
- O quê, mãe?-
- Nada, nada...-
Fui todo o caminho para a escola a falar-lhes um pouco do Jim; inspirá-los com a genialidade que o som testemunhava e a tentar explicar-lhes porque é que há pessoas que não sabem lidar com a "atração do abismo". E agora, enquanto escrevo, percebo que da mesma maneira que nunca outras músicas foram tão capazes de fomentar a liberdade da alma... também nunca nada será tão poderoso, para a formação de uma criança, como as "aulas" que os pais lhes conseguem dar, fora do horário letivo.
Ana Amorim Dias
Com um filho de cada lado, consegui estender o braço até à mesinha se cabeceira. Peguei no comando para que a aparelhagem fizesse soar, aleatoriamente, uma música. E o Jorge Palma começou a narrar, com excelente melodia e ritmo, "Jeremias, o fora da lei".
- Mãe, põe outra vez!-
Não se nega boa música às criancinhas. Soou de novo e de novo e de novo até que, ao vestir-me, o espírito de fora da lei havia tomado conta de mim e as calças eleitas foram as mais rasgadas.
- Escolhe aí um CD, Tom.- pedi, quando entrámos para o carro.
Estendeu-me um dos DOORS e os meus olhos brilharam. "Ainda o dia mal começou e já conspiras a meu favor, Universo?"
- O quê, mãe?-
- Nada, nada...-
Fui todo o caminho para a escola a falar-lhes um pouco do Jim; inspirá-los com a genialidade que o som testemunhava e a tentar explicar-lhes porque é que há pessoas que não sabem lidar com a "atração do abismo". E agora, enquanto escrevo, percebo que da mesma maneira que nunca outras músicas foram tão capazes de fomentar a liberdade da alma... também nunca nada será tão poderoso, para a formação de uma criança, como as "aulas" que os pais lhes conseguem dar, fora do horário letivo.
Ana Amorim Dias
Esgrimir o tédio
- Bom dia, meninos!...Buon giorno... E dzień dobry!
Nesta altura começaram logo a bater palmas; ninguém estava à espera de um bom dia em polaco (desculpem mas sou incapaz se dizer "polonês")
Queria transmitir àqueles miúdos, nem que fosse só um bocadinho, a noção da importância da comunicação e o que ela pode fazer por nós.
Atirei-me de cabeça na conquista daquele difícil e mesclado público que me ouvia numa língua não materna.
- Vou-vos contar a história de como me transformei numa super-heroína...- comecei.
Agora que me lembro da cara de alguns, garanto-vos que me farto de rir. Ficaram tão embasbacados que tiveram de decidir depressa se estavam a entender mal ou se eu era apenas uma louca que ali entrara por engano. Mas prendi-lhes a atenção. ...Bem, pelo menos durante um bocado.
Estava no escritório, a imprimir uns documentos e, por obra do acaso, olhei para cima de um armário. E lá estava ele! O meu sabre desaparecido!
Levantei-me de rompante, saí para a rua e, mesmo ali no meio da quinta, perante o olhar estupefacto de algumas pessoas, comecei a esgrimir "em seco" contra inimigos imaginários.
Saí um pouco triste da palestra que, há dias, fui dar àqueles adolescentes: a falta de entusiasmo que lhes senti, por pouco não me contagiava. Como é que se pode ser tão jovem e inocente sem estar absolutamente entusiasmado pela vida? Serão a falta de empenho, energia e entusiasmo, algumas das maiores catástrofes do mundo atual? Fiquei triste, desiludida e preocupada. Estaremos a viver numa sociedade assim tão aborrecida que faz de todos meros recetores de produtos acabados que desconhecem o prazer dos processos criativos?
Passei largos momentos a matar saudades do sabre e a deixar sair, livre, o samurai que há em mi. Super-heroína ou não, sei que assumi o compromisso de esgrimir eternamente contra o invisível tédio... O meu e o alheio!
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Nesta altura começaram logo a bater palmas; ninguém estava à espera de um bom dia em polaco (desculpem mas sou incapaz se dizer "polonês")
Queria transmitir àqueles miúdos, nem que fosse só um bocadinho, a noção da importância da comunicação e o que ela pode fazer por nós.
Atirei-me de cabeça na conquista daquele difícil e mesclado público que me ouvia numa língua não materna.
- Vou-vos contar a história de como me transformei numa super-heroína...- comecei.
Agora que me lembro da cara de alguns, garanto-vos que me farto de rir. Ficaram tão embasbacados que tiveram de decidir depressa se estavam a entender mal ou se eu era apenas uma louca que ali entrara por engano. Mas prendi-lhes a atenção. ...Bem, pelo menos durante um bocado.
Estava no escritório, a imprimir uns documentos e, por obra do acaso, olhei para cima de um armário. E lá estava ele! O meu sabre desaparecido!
Levantei-me de rompante, saí para a rua e, mesmo ali no meio da quinta, perante o olhar estupefacto de algumas pessoas, comecei a esgrimir "em seco" contra inimigos imaginários.
Saí um pouco triste da palestra que, há dias, fui dar àqueles adolescentes: a falta de entusiasmo que lhes senti, por pouco não me contagiava. Como é que se pode ser tão jovem e inocente sem estar absolutamente entusiasmado pela vida? Serão a falta de empenho, energia e entusiasmo, algumas das maiores catástrofes do mundo atual? Fiquei triste, desiludida e preocupada. Estaremos a viver numa sociedade assim tão aborrecida que faz de todos meros recetores de produtos acabados que desconhecem o prazer dos processos criativos?
Passei largos momentos a matar saudades do sabre e a deixar sair, livre, o samurai que há em mi. Super-heroína ou não, sei que assumi o compromisso de esgrimir eternamente contra o invisível tédio... O meu e o alheio!
Ana Amorim Dias
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