'Bora que eu vou-vos ganhar!
- André! André!!-
E o puto nada.
- André! Anda mais para aqui!-
O pai bem lhe gritava, meio aflito, para que se aproximasse mais da areia, mas o miúdo só queria estar com água pelo peito, onde já se apanhavam bem as ondas.
Olhei para aquele quadro pai/filho e comparei-o com o quadro pais/filhos que eu estava a protagonizar com a minha pequena tribo. Eu e o Ricardo com o Tomás e o João. Várias pranchas. Ondas fantásticas e uma temperatura de mar que nos permitiu estar três horas seguidas dentro dele.
Olhei para o pai do André que, já com uma considerável irritação, (como é possível estar-se irritado ao pé do mar?) insistia em chamar pelo André, que não lhe ligava nenhuma. E olhei para os meus filhos, felizes e seguros, a divertirem-se como loucos enquanto apanhavam ondas e competiam com o pai e com a mãe.
Não conheço o André de lado nenhum, e o pai muito menos, mas não hesitei em mandar ao puto um daqueles sorrisos que inspiram a mais rebeldia. Não sei se o garoto sentiu que enquanto nós estivéssemos por perto ele estaria em segurança, o certo é que foi deslizando nas ondas, a fazer ouvidos moucos ao pai.
Só desisti do mar quando os meus descendentes não aguentavam mais. O que acho que nunca vou desistir é de os acompanhar nas atividades que mais gostam enquanto a minha participação os fizer assim felizes. É bom acompanhá-los de bicicleta, saber dar-lhes as dicas no ski, discutir táticas de street surf (para quem não saiba, é o skate de duas rodas) e gritar para levantarem bem a frente da prancha de bodyboard para não se enrolarem nas ondas. É bom experimentar o surf com eles e, quem sabe, virmos a guiar cada um a sua mota. O que eu não vou querer nunca é demitir-me de viver, gritando para que voltem e não vivam eles também o que a vida tem de mais divertido e intenso. Não, decididamente não vou desistir de experimentar vivências para assim podermos divertir-nos todos juntos. Não vou desistir de lhes ensinar, de aprender com eles e nem de partilhar tantos momentos incríveis.
Só espero saber manter sempre o espírito de lhes continuar a dizer:
- Tomás! João! 'Bora, que eu vou-vos ganhar!!-
Ana Amorim Dias
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(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
2.9.13
O complot
O complot
Às vezes fico com a impressão de que existe um complot inter-galáctico (ou de qualquer outro tipo) determinado a fazer com que a parte mais negra dos Homens se exponencie.
Não nos estou a tirar as culpas da mesquinhez, avareza, violência e raivas, transferindo-as para quaisquer outras entidades, energias ou organizações. Também não tenho a mínima veleidade de nos desresponsabilizar pela mais bárbara inércia de que podemos ser capazes: demitirmo-nos de pensar!
Tenho a vaga ideia (ou talvez o insano sonho?) de que, ativando o pensamento com uma seriedade consciente, se ativariam também todos os nobres sentimentos que correspondem à nossa verdadeira essência.
Imaginem um Mundo em que todas as pessoas ganhassem o hábito de pensar: todos entenderiam (porque é lógico) que o ódio só se detém com amor; que o perdão sincero é o único caminho para solucionar conflitos; que ganância gera perda e que a posse é uma ilusão. Se pensassem, as pessoas entenderiam que nada tem muita importância; que não há motivos para ter medo; e que a única lei que realmente é válida é a do amor. Se todas as pessoas pensassem com o cérebro inteiro sobre meia dúzia de coisas, isso faria com que o seu entendimento dos outros, da vida e de si mesmos fosse o verdadeiro.
Não sei se o tal complot existe ou não, mas estou segura de que, no momento em que a humanidade inteira se atrever a pensar, o salto evolutivo será assombroso.
Ana Amorim Dias
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Às vezes fico com a impressão de que existe um complot inter-galáctico (ou de qualquer outro tipo) determinado a fazer com que a parte mais negra dos Homens se exponencie.
Não nos estou a tirar as culpas da mesquinhez, avareza, violência e raivas, transferindo-as para quaisquer outras entidades, energias ou organizações. Também não tenho a mínima veleidade de nos desresponsabilizar pela mais bárbara inércia de que podemos ser capazes: demitirmo-nos de pensar!
Tenho a vaga ideia (ou talvez o insano sonho?) de que, ativando o pensamento com uma seriedade consciente, se ativariam também todos os nobres sentimentos que correspondem à nossa verdadeira essência.
Imaginem um Mundo em que todas as pessoas ganhassem o hábito de pensar: todos entenderiam (porque é lógico) que o ódio só se detém com amor; que o perdão sincero é o único caminho para solucionar conflitos; que ganância gera perda e que a posse é uma ilusão. Se pensassem, as pessoas entenderiam que nada tem muita importância; que não há motivos para ter medo; e que a única lei que realmente é válida é a do amor. Se todas as pessoas pensassem com o cérebro inteiro sobre meia dúzia de coisas, isso faria com que o seu entendimento dos outros, da vida e de si mesmos fosse o verdadeiro.
Não sei se o tal complot existe ou não, mas estou segura de que, no momento em que a humanidade inteira se atrever a pensar, o salto evolutivo será assombroso.
Ana Amorim Dias
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Posso deitar-me contigo?
- Posso deitar-me contigo?-
- Claro que sim, meu amor!- como conseguiria resistir àquela vozinha doce e olhar amedrontado? - Vá, mas toca a dormir!
Alguns minutos de silêncio.
- Mãe? Que barulho foi este?-
- Os gatos.-
- Não, mãe! Estas pancadinhas, não ouviste?-
- Sei lá, deve ser o teu irmão no quarto dele.-
Fiquei incomodada por senti-lo com medo. Impôs-se uma pequena conversa.
- Óh João, tu sentes que eu tenho medo?-
- Não! Tu não tens medo!-
- Então porque é que tu tens medo? Não te sentes seguro ao pé de mim? Não sabes que aqui ninguém te faz mal? -
- Sim, eu sei... Mas às vezes tenho sonhos maus...-
- Ohh, meu bébé!- abri um abraço e aconcheguei-o bem junto ao meu peito.-
- Tens razão, agora ninguém me faz mal, isso era "entigamente", não é?-
- Sim, meu anjo. Isso era "entigamente"...
Adormeceu num instante, e eu fiquei a vê-lo dormir no meu abraço enquanto pensava em todos os mistérios da(s) vida(s).
Ana Amorim Dias
- Claro que sim, meu amor!- como conseguiria resistir àquela vozinha doce e olhar amedrontado? - Vá, mas toca a dormir!
Alguns minutos de silêncio.
- Mãe? Que barulho foi este?-
- Os gatos.-
- Não, mãe! Estas pancadinhas, não ouviste?-
- Sei lá, deve ser o teu irmão no quarto dele.-
Fiquei incomodada por senti-lo com medo. Impôs-se uma pequena conversa.
- Óh João, tu sentes que eu tenho medo?-
- Não! Tu não tens medo!-
- Então porque é que tu tens medo? Não te sentes seguro ao pé de mim? Não sabes que aqui ninguém te faz mal? -
- Sim, eu sei... Mas às vezes tenho sonhos maus...-
- Ohh, meu bébé!- abri um abraço e aconcheguei-o bem junto ao meu peito.-
- Tens razão, agora ninguém me faz mal, isso era "entigamente", não é?-
- Sim, meu anjo. Isso era "entigamente"...
Adormeceu num instante, e eu fiquei a vê-lo dormir no meu abraço enquanto pensava em todos os mistérios da(s) vida(s).
Ana Amorim Dias
Comoventes angústias
Comoventes angústias
Eu estava deitada na cama, com a atenção no iPad, quando ela entrou. Percebi de imediato que alguma coisa não estava bem.
- O que tens?-
- Uma angústia... -
- Conta.- endireitei-me um pouco e dediquei toda a atenção a esta amiga de há tantos anos.
Narrou-me que tinha acabado de ver uma pessoa com quem deixou de se dar e que a expressão corporal dessa pessoa tinha sido a de: "Estou aqui, pronta para falar contigo se tu falares comigo..."
- E então?- quis eu saber.
- Não consegui. Não fui falar com ela.- respondeu-me.
- ...E agora sentes-te mal contigo mesma, é isso?-
Sou uma eterna apaixonada pelo Ser Humano. As pessoas, de todos os credos, cores, géneros, idades, raças (e por aí fora) atraem-me os pensamentos, ativam-me a curiosidade e propulsionam-me os sentimentos. A necessidade de escrever transforma-se quase em compulsão quando entro no campo da infinitude de nuances da humanidade. E o que mais me atrai é a capacidade que o Homem tem de me comover e emocionar com milhares de intrigantes manifestações da sua complexa composição interior.
- Sim, não fiquei bem comigo... Estou com uma angústia enorme.- confessou-me.
O meu sorriso condescendente e feliz confundiu-a. Apesar mais nova, fui tão maternal e apaziguadora quanto sempre consigo ser quando as situações assim exigem.
- Mas tu estás a rir-te de quê? -
- Oh querida... Não percebes? A tua angústia é uma coisa maravilhosa: é a garantia de que estás pronta e que na próxima oportunidade serás capaz de falar com essa pessoa!-
- Sim. Vou falar, podes estar certa!-
Sou apaixonada pelo fabuloso Ser Humano. Serei sempre. Não pelas pessoas irrepreensíveis e imaculadamente corretas, mas por todas as que deixam fermentar em si as angústias que lhes permitem perdoar e evoluir. Não me sinto atraída por quem não tem dúvidas e cumpre todas as regras, mas não sei resistir a quem é espontâneo, impulsivo e vive a constante guerra interior de tentar ser melhor.
Talvez a angústia da minha amiga se tenha esbatido. Mas querem saber a verdade? Espero que não. Espero que se tenha ativado ao ponto de procurar ela mesma a tal pessoa para tomarem um café e darem o mais carinhoso abraço.
Ana Amorim Dias
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Eu estava deitada na cama, com a atenção no iPad, quando ela entrou. Percebi de imediato que alguma coisa não estava bem.
- O que tens?-
- Uma angústia... -
- Conta.- endireitei-me um pouco e dediquei toda a atenção a esta amiga de há tantos anos.
Narrou-me que tinha acabado de ver uma pessoa com quem deixou de se dar e que a expressão corporal dessa pessoa tinha sido a de: "Estou aqui, pronta para falar contigo se tu falares comigo..."
- E então?- quis eu saber.
- Não consegui. Não fui falar com ela.- respondeu-me.
- ...E agora sentes-te mal contigo mesma, é isso?-
Sou uma eterna apaixonada pelo Ser Humano. As pessoas, de todos os credos, cores, géneros, idades, raças (e por aí fora) atraem-me os pensamentos, ativam-me a curiosidade e propulsionam-me os sentimentos. A necessidade de escrever transforma-se quase em compulsão quando entro no campo da infinitude de nuances da humanidade. E o que mais me atrai é a capacidade que o Homem tem de me comover e emocionar com milhares de intrigantes manifestações da sua complexa composição interior.
- Sim, não fiquei bem comigo... Estou com uma angústia enorme.- confessou-me.
O meu sorriso condescendente e feliz confundiu-a. Apesar mais nova, fui tão maternal e apaziguadora quanto sempre consigo ser quando as situações assim exigem.
- Mas tu estás a rir-te de quê? -
- Oh querida... Não percebes? A tua angústia é uma coisa maravilhosa: é a garantia de que estás pronta e que na próxima oportunidade serás capaz de falar com essa pessoa!-
- Sim. Vou falar, podes estar certa!-
Sou apaixonada pelo fabuloso Ser Humano. Serei sempre. Não pelas pessoas irrepreensíveis e imaculadamente corretas, mas por todas as que deixam fermentar em si as angústias que lhes permitem perdoar e evoluir. Não me sinto atraída por quem não tem dúvidas e cumpre todas as regras, mas não sei resistir a quem é espontâneo, impulsivo e vive a constante guerra interior de tentar ser melhor.
Talvez a angústia da minha amiga se tenha esbatido. Mas querem saber a verdade? Espero que não. Espero que se tenha ativado ao ponto de procurar ela mesma a tal pessoa para tomarem um café e darem o mais carinhoso abraço.
Ana Amorim Dias
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Como se
Respira como se cada inspiração fosse eterna.
Sorri como se o teu rosto refletisse a mais completa alegria.
Ouve como se tudo fosse encantadora música.
Cheira como se tivesses o mais apurado faro.
Saboreia como se cada garfada te saciasse para sempre.
Fala como se a tua voz transportasse a sabedoria do universo inteiro.
Move-te como se o teu corpo planasse sobre paisagens incríveis.
Caminha como se fosses para uma festa no Olimpo.
Pensa como se todos os cérebros estivessem ligados ao teu.
Sente integralmente como se tudo aceitasses.
Quem ousa agir, pensar e sentir assim, acaba por descobrir alquimias inimagináveis.
Atreve-te a tentar
Ana Amorim Dias
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Sorri como se o teu rosto refletisse a mais completa alegria.
Ouve como se tudo fosse encantadora música.
Cheira como se tivesses o mais apurado faro.
Saboreia como se cada garfada te saciasse para sempre.
Fala como se a tua voz transportasse a sabedoria do universo inteiro.
Move-te como se o teu corpo planasse sobre paisagens incríveis.
Caminha como se fosses para uma festa no Olimpo.
Pensa como se todos os cérebros estivessem ligados ao teu.
Sente integralmente como se tudo aceitasses.
Quem ousa agir, pensar e sentir assim, acaba por descobrir alquimias inimagináveis.
Atreve-te a tentar
Ana Amorim Dias
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Tocar para quem se toca
Tocar para quem se toca
Quando eles se posicionaram em frente à nossa barraquinha, eu disse ao Tomás:
- Vês, baby? Vieram tocar para mim!-
- Êh! Lá estás tu com as tuas coisas! Não vieram nada tocar para ti!-
- Ai não? Eu já te provo que sim!
A primeira vez que ouvi os "Le Condor" foi há muitos anos, lá em cima, no castelo, numa das iniciais edições dos Dias Medievais de Castro Marim. Em todos os anos seguintes, as sensações causadas pelo flautista com ar de Cristo e pelos seus acompanhantes voltaram a repetir-se: um encantamento enigmático e uma alegria pacificadora, capazes de me fazer transpor os limites do tempo e entrar em sintonia com tudo.
Alinhado à nossa frente, com o flautista com ar de Cristo exatamente no meio, o numeroso grupo fazia a sua magia. E eu deixei que a música me transportasse para além dos portais da razão, afinal eles estavam a tocar para mim. Perante o ar embasbacado (também maravilhado?) do meu filho mais velho, embalei nas asas das melodias e sorri para os intérpretes, deixando talvez que se apercebessem que estavam a tocar o mais nevrálgico centro de alguém.
- E isto o que é?- perguntou o flautista com ar de Cristo, algumas horas mais tarde, apontando para os pãezinhos.
- Música para a tua boca.- respondi com um sorriso enquanto lhe estendia um pão que não o deixei pagar-me.
Devolveu o sorriso e deliciou-se enquanto trocávamos algumas palavras.
Passou-se mais algum tempo e o flautista voltou. Trazia companheiros para comprarem a delícia que tinha provado e trazia também um CD, que alegremente me ofereceu.
- Oh mãe... Eles tocaram mesmo para ti, não foi?!?- questionou o Tomás.
- Sabes, meu amor? Os artistas tocam sempre para quem se deixa tocar pela sua arte...-
O cd continua no rádio do carro. A tocar. A tocar-nos.
Ana Amorim Dias
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Quando eles se posicionaram em frente à nossa barraquinha, eu disse ao Tomás:
- Vês, baby? Vieram tocar para mim!-
- Êh! Lá estás tu com as tuas coisas! Não vieram nada tocar para ti!-
- Ai não? Eu já te provo que sim!
A primeira vez que ouvi os "Le Condor" foi há muitos anos, lá em cima, no castelo, numa das iniciais edições dos Dias Medievais de Castro Marim. Em todos os anos seguintes, as sensações causadas pelo flautista com ar de Cristo e pelos seus acompanhantes voltaram a repetir-se: um encantamento enigmático e uma alegria pacificadora, capazes de me fazer transpor os limites do tempo e entrar em sintonia com tudo.
Alinhado à nossa frente, com o flautista com ar de Cristo exatamente no meio, o numeroso grupo fazia a sua magia. E eu deixei que a música me transportasse para além dos portais da razão, afinal eles estavam a tocar para mim. Perante o ar embasbacado (também maravilhado?) do meu filho mais velho, embalei nas asas das melodias e sorri para os intérpretes, deixando talvez que se apercebessem que estavam a tocar o mais nevrálgico centro de alguém.
- E isto o que é?- perguntou o flautista com ar de Cristo, algumas horas mais tarde, apontando para os pãezinhos.
- Música para a tua boca.- respondi com um sorriso enquanto lhe estendia um pão que não o deixei pagar-me.
Devolveu o sorriso e deliciou-se enquanto trocávamos algumas palavras.
Passou-se mais algum tempo e o flautista voltou. Trazia companheiros para comprarem a delícia que tinha provado e trazia também um CD, que alegremente me ofereceu.
- Oh mãe... Eles tocaram mesmo para ti, não foi?!?- questionou o Tomás.
- Sabes, meu amor? Os artistas tocam sempre para quem se deixa tocar pela sua arte...-
O cd continua no rádio do carro. A tocar. A tocar-nos.
Ana Amorim Dias
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Estado original
Estado original
No meio de toda aquela confusão, consegui arranjar dois minutos para conversar um pouco com ele. Devido à forma como o diálogo começou a nascer, pressenti que talvez algo importante estivesse prestes a ser-me revelado. Como nunca quero correr o risco de perder "pitada" da vida, decidi esquecer tudo o resto e dedicar-me apenas a ouvi-lo.
- Somos todos peixinhos fora de água, sabe?-
- Peixinhos fora de água? Como assim?- perguntei, decidida a não o levar muito a sério.
- Sim! O nosso estado normal é em espírito e isto aqui no Mundo é muito violento para nós! Nascer, viver, morrer; tudo implica dor e sofrimento, coisas que não existem na nossa forma original. As pessoas estão é demasiado apegadas a tudo, até à dor, e não se apercebem que o seu estado normal é apenas em espírito.-
Horas depois, de forma completamente aleatória, apertei um pão e reparei na maneira como, ao largá-lo, readquiria a sua forma original. E então a lembrança das palavras do estranho homem invadiu-me o espaço interior.
Há uma tendência universal para tudo voltar ao seu estado original, para readquirir, após a pressão, a originária forma essencial. E nós? Qual é o nosso estado original? Presos às dores da vida? Ou ligados à invencível alegria do espírito? Haverá alguma ligação causal entre a consciência dessa alegria intrínseca e a activação de condições de vida mais aprazíveis? O esquecimento dessa alegria e perfeição essenciais tornará as existências mais difíceis? Estarão aqui encerradas as respostas que justificam a insatisfação de muitos que tudo têm e a alegria consistente de tanta gente humilde?
"Tudo tende a regressar ao seu estado original" repeti em voz alta, para me ouvir melhor. "O nosso estado original é pureza e alegria". Sorri e voltei ao rebuliço, completamente feliz.
Ana Amorim Dias
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No meio de toda aquela confusão, consegui arranjar dois minutos para conversar um pouco com ele. Devido à forma como o diálogo começou a nascer, pressenti que talvez algo importante estivesse prestes a ser-me revelado. Como nunca quero correr o risco de perder "pitada" da vida, decidi esquecer tudo o resto e dedicar-me apenas a ouvi-lo.
- Somos todos peixinhos fora de água, sabe?-
- Peixinhos fora de água? Como assim?- perguntei, decidida a não o levar muito a sério.
- Sim! O nosso estado normal é em espírito e isto aqui no Mundo é muito violento para nós! Nascer, viver, morrer; tudo implica dor e sofrimento, coisas que não existem na nossa forma original. As pessoas estão é demasiado apegadas a tudo, até à dor, e não se apercebem que o seu estado normal é apenas em espírito.-
Horas depois, de forma completamente aleatória, apertei um pão e reparei na maneira como, ao largá-lo, readquiria a sua forma original. E então a lembrança das palavras do estranho homem invadiu-me o espaço interior.
Há uma tendência universal para tudo voltar ao seu estado original, para readquirir, após a pressão, a originária forma essencial. E nós? Qual é o nosso estado original? Presos às dores da vida? Ou ligados à invencível alegria do espírito? Haverá alguma ligação causal entre a consciência dessa alegria intrínseca e a activação de condições de vida mais aprazíveis? O esquecimento dessa alegria e perfeição essenciais tornará as existências mais difíceis? Estarão aqui encerradas as respostas que justificam a insatisfação de muitos que tudo têm e a alegria consistente de tanta gente humilde?
"Tudo tende a regressar ao seu estado original" repeti em voz alta, para me ouvir melhor. "O nosso estado original é pureza e alegria". Sorri e voltei ao rebuliço, completamente feliz.
Ana Amorim Dias
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26.8.13
À minha maneira
À minha maneira
Este Eric é sempre a mesma coisa! Faz tudo à maneira dele!
Andava a chateá-lo há algumas semanas para publicar, no facebook, as capas (a portuguesa e a francesa) de "Olho Ubíquo - A vida de Eric Lobo", e ele respondia sempre:
- Ainda não, é muito cedo.-
Para a versão francesa talvez fosse, pois só está previsto sair lá mais para o fim do ano, quando apresentar oficialmente a nova expedição (coisa de loucos, aviso já), mas para a versão portuguesa, em vias de avançar para a gráfica, não me pareceu ser cedo. Ainda insisti um pouco mas acabei por desistir e aceitar as táticas deste comunicador nato.
Ora ontem, estando tão assoberbada de trabalho que nem tempo me restou para a diária crónica, fiquei toda irritada quando, ao abrir o face, vi as suas publicações das capas! Então e os foguetes? E o champanhe? E a crónica a acompanhar/celebrar o facto desta antestreia ao Mundo? Que bandido!
- Tu és mesmo uma ditadora!- disse-me há uns tempos, já não sei a que propósito.
- Eu?!?- respondi com um espanto muito pouco espantado que apenas queria sacar nabos da púcara.- Porquê?-
- Porque és tão mandona que chegas a irritar-me!-
Calei-me. Um sorriso traquina começou a desenhar-se-me nos lábios devido à satisfação de ouvir uma crítica tão genuína e carinhosa. O Eric tem razão. Talvez eu seja ligeiramente ditadora e tenda a impor que as coisas se façam à minha maneira, mas isso só acontece porque costumo ter razão (como a desobediência dele bem provou...).
P.S. - Pré-reservas de exemplares autografados oficialmente abertas através de mensagem privada, entretanto vou só ali comprar os foguetes e o champanhe. À minha maneira, claro!
Ana Amorim Dias
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Este Eric é sempre a mesma coisa! Faz tudo à maneira dele!
Andava a chateá-lo há algumas semanas para publicar, no facebook, as capas (a portuguesa e a francesa) de "Olho Ubíquo - A vida de Eric Lobo", e ele respondia sempre:
- Ainda não, é muito cedo.-
Para a versão francesa talvez fosse, pois só está previsto sair lá mais para o fim do ano, quando apresentar oficialmente a nova expedição (coisa de loucos, aviso já), mas para a versão portuguesa, em vias de avançar para a gráfica, não me pareceu ser cedo. Ainda insisti um pouco mas acabei por desistir e aceitar as táticas deste comunicador nato.
Ora ontem, estando tão assoberbada de trabalho que nem tempo me restou para a diária crónica, fiquei toda irritada quando, ao abrir o face, vi as suas publicações das capas! Então e os foguetes? E o champanhe? E a crónica a acompanhar/celebrar o facto desta antestreia ao Mundo? Que bandido!
- Tu és mesmo uma ditadora!- disse-me há uns tempos, já não sei a que propósito.
- Eu?!?- respondi com um espanto muito pouco espantado que apenas queria sacar nabos da púcara.- Porquê?-
- Porque és tão mandona que chegas a irritar-me!-
Calei-me. Um sorriso traquina começou a desenhar-se-me nos lábios devido à satisfação de ouvir uma crítica tão genuína e carinhosa. O Eric tem razão. Talvez eu seja ligeiramente ditadora e tenda a impor que as coisas se façam à minha maneira, mas isso só acontece porque costumo ter razão (como a desobediência dele bem provou...).
P.S. - Pré-reservas de exemplares autografados oficialmente abertas através de mensagem privada, entretanto vou só ali comprar os foguetes e o champanhe. À minha maneira, claro!
Ana Amorim Dias
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Não tenho provas de nada
- Oh pá... Tu és tão pequenina!...-
Protegida pelos óculos escuros, conseguia esconder as lágrimas, mas não o estremecimento que os soluços me causavam.
Numa esplanada, com "cañas" e tapas à minha frente, constatei outra vez que os homens bons não sabem lidar com o choro sentido do sexo oposto. O meu pai também ficava nervoso ao ver-me chorar e eu, como qualquer terrível fémea que se preze, usava amiúde os novelescos dotes lacrimais para fazer valer os meus interesses. E ri-me no meio do choro ao lembrar-me disto, eu que estava a chorar com saudades daquele casmurro durão a quem tão bem dava a volta.
Gostava que a reencarnação existisse. Na verdade tenho passado a maior parte da minha vida adulta tentada a ter certezas de que é assim que a coisa funciona; que voltamos e voltamos e voltamos a voltar, em grupinhos engraçados que se ensinam mutuamente até se chegar à mestria existencial. Quando mais vivo, mais sentido me parece fazer esta sensação de já por cá ter andado muitas vezes a aprender pela primeira vez coisas que agora só lembro. Cumplicidades profundas, ligações extraordinárias e empatias inexplicáveis ficavam, assim, justificadas.
- Não percebes que o teu pai estará sempre aqui contigo? Ele nunca te vai deixar!-
Mais um golo na cerveja. "Então porque é que me vêm estas saudades da voz e do beijo que me dava na testa?" Encolho os ombros e deixo que mais duas pesadas lágrimas me desçam pela cara abaixo.
Não escolhemos a família. Não elegemos os pais, os filhos, os irmãos. Ou será que sim? E porque é que antes de os nossos filhos nascerem já os amamos tanto e sentimos conhecê-los? E o intrigante karma? Vem de onde? Para que serve? Faz sentido termos só algumas décadas para aprender a ser gente e fazer evoluir as nossas almas até à sabedoria acabada? Existirá tal estado de sabedoria acabada?
Não tenho provas de nada. Este campo é complicado e creio que poucos as têm. Mas sinto que há mais, muito mais, que apenas isto. E há uma certeza, de há anos, que nunca morreu em mim: quem amamos de verdade, vivo ou morto, está connosco. Desconfio que estará sempre.
Ana Amorim Dias
Protegida pelos óculos escuros, conseguia esconder as lágrimas, mas não o estremecimento que os soluços me causavam.
Numa esplanada, com "cañas" e tapas à minha frente, constatei outra vez que os homens bons não sabem lidar com o choro sentido do sexo oposto. O meu pai também ficava nervoso ao ver-me chorar e eu, como qualquer terrível fémea que se preze, usava amiúde os novelescos dotes lacrimais para fazer valer os meus interesses. E ri-me no meio do choro ao lembrar-me disto, eu que estava a chorar com saudades daquele casmurro durão a quem tão bem dava a volta.
Gostava que a reencarnação existisse. Na verdade tenho passado a maior parte da minha vida adulta tentada a ter certezas de que é assim que a coisa funciona; que voltamos e voltamos e voltamos a voltar, em grupinhos engraçados que se ensinam mutuamente até se chegar à mestria existencial. Quando mais vivo, mais sentido me parece fazer esta sensação de já por cá ter andado muitas vezes a aprender pela primeira vez coisas que agora só lembro. Cumplicidades profundas, ligações extraordinárias e empatias inexplicáveis ficavam, assim, justificadas.
- Não percebes que o teu pai estará sempre aqui contigo? Ele nunca te vai deixar!-
Mais um golo na cerveja. "Então porque é que me vêm estas saudades da voz e do beijo que me dava na testa?" Encolho os ombros e deixo que mais duas pesadas lágrimas me desçam pela cara abaixo.
Não escolhemos a família. Não elegemos os pais, os filhos, os irmãos. Ou será que sim? E porque é que antes de os nossos filhos nascerem já os amamos tanto e sentimos conhecê-los? E o intrigante karma? Vem de onde? Para que serve? Faz sentido termos só algumas décadas para aprender a ser gente e fazer evoluir as nossas almas até à sabedoria acabada? Existirá tal estado de sabedoria acabada?
Não tenho provas de nada. Este campo é complicado e creio que poucos as têm. Mas sinto que há mais, muito mais, que apenas isto. E há uma certeza, de há anos, que nunca morreu em mim: quem amamos de verdade, vivo ou morto, está connosco. Desconfio que estará sempre.
Ana Amorim Dias
Cebola da eternidade
Cebola da eternidade
Quando comento, às vezes, que gosto de picar cebola, as pessoas ficam a olhar para mim com aquele ar de: "Eu sabia que não regulas bem, mas isto já passa das marcas..."
Gosto. Gosto mesmo. É mais forte que eu. No entanto conheço os motivos: implica método, disciplina e dá para pensar.
Acontece com frequência precisar de cebola picada, de muita cebola picada. Entra na receita dos pãezinhos recheados que vendo nos medievais. "Podias picar no 1,2,3", poderão vocês pensar. Pois podia. Mas o sabor não fica igual. As máquinas não conferem aos pedacinhos da cebola aquele corte em cubinhos minúsculos, perfeitos, exatamente iguais e de arestas bem definidas. E isto faz toda a diferença. Faço o recheio dos pãezinhos, que centenas de pessoas comem, como se o estivesse a fazer para os meus filhos. E faço questão de servir a todas as pessoas a qualidade que sirvo aos meus filhos.
No fundo faço o mesmo ao escrever: sirvo a todos algo recheado com mensagens bem picadinhas, saborosas, consistentes, como qualquer progenitor deve apresentar aos filhos os ensinamentos que a vida já lhe foi dando.
Pensava nisto ontem à tarde, enquanto picava cebolas com o esmero que que sempre uso nesta ação. Pensava, talvez com a soberba de imortalidade que caracteriza os escritores, que até as cebolas podemos eternizar, se transformarmos o momento do seu corte numa lição de vida. Fiquei com a vaga impressão de que, se todos fizéssemos o que temos que fazer para o "público" em geral como se o estivéssemos a fazer para os nossos filhos, o mundo seria um local completamente diferente. E muito melhor, de certeza!
Depois desta conclusão, da próxima vez que picar cebolas, mesmo que os olhos ardam e as lágrimas caiam, o meu sorriso será tão grande e cheio de eternidade, que ninguém acreditará que estive a picar cebolas!
Ana Amorim Dias
Se
Quando comento, às vezes, que gosto de picar cebola, as pessoas ficam a olhar para mim com aquele ar de: "Eu sabia que não regulas bem, mas isto já passa das marcas..."
Gosto. Gosto mesmo. É mais forte que eu. No entanto conheço os motivos: implica método, disciplina e dá para pensar.
Acontece com frequência precisar de cebola picada, de muita cebola picada. Entra na receita dos pãezinhos recheados que vendo nos medievais. "Podias picar no 1,2,3", poderão vocês pensar. Pois podia. Mas o sabor não fica igual. As máquinas não conferem aos pedacinhos da cebola aquele corte em cubinhos minúsculos, perfeitos, exatamente iguais e de arestas bem definidas. E isto faz toda a diferença. Faço o recheio dos pãezinhos, que centenas de pessoas comem, como se o estivesse a fazer para os meus filhos. E faço questão de servir a todas as pessoas a qualidade que sirvo aos meus filhos.
No fundo faço o mesmo ao escrever: sirvo a todos algo recheado com mensagens bem picadinhas, saborosas, consistentes, como qualquer progenitor deve apresentar aos filhos os ensinamentos que a vida já lhe foi dando.
Pensava nisto ontem à tarde, enquanto picava cebolas com o esmero que que sempre uso nesta ação. Pensava, talvez com a soberba de imortalidade que caracteriza os escritores, que até as cebolas podemos eternizar, se transformarmos o momento do seu corte numa lição de vida. Fiquei com a vaga impressão de que, se todos fizéssemos o que temos que fazer para o "público" em geral como se o estivéssemos a fazer para os nossos filhos, o mundo seria um local completamente diferente. E muito melhor, de certeza!
Depois desta conclusão, da próxima vez que picar cebolas, mesmo que os olhos ardam e as lágrimas caiam, o meu sorriso será tão grande e cheio de eternidade, que ninguém acreditará que estive a picar cebolas!
Ana Amorim Dias
Se
I wonder
I wonder
O filho da minha amiga chegou à mesa com um entusiasmo incomum. Embora o almoço já tivesse terminado, continuávamos sentados a conversar sem pressas.
- Mãe, mãe!! Acabei de me pesar! E sabes uma coisa? Engordeci!!!
Enquanto todos se riam já eu estava a aproximar o iPhone de mim para apontar no bloco de notas esta imperdível pérola.
A minha cunhada ainda acrescentou algo do género:- Deixa estar que logo "emagras"!- mas eu já nem liguei. Tinha partido para longe, para a terra mágica das palavras geniais.
Infelizmente uma das palavras que considero tremendamente genial não é portuguesa. Gosto dela quando antecedida pelo "eu", pois só assim se torna profundamente rica e intradutível: estou a falar-vos do "I wonder"! Sem o "I" significa simplesmente "maravilha" mas, ao transformar-se em verbo, é que a maravilha acontece mesmo e, numa palavra só, sintetizam-se o "eu penso", "eu pergunto-me", "eu imagino", "divago", "suponho", "equaciono", "medito" e por aí fora.
Mas não era só aqui que eu queria chegar. A viagem ainda vai a meio. Acompanhem-me e vejamos se, juntos nesta divagação, não "engordecemos" as nossas essências.
Muitos de vocês já se aperceberam que estou sempre em modo "I wonder". O que procuro nunca acrescentar é o "if". "I wonder if" é o equivalente ao "e se?" E se tivesse sido diferente? E se eu tivesse feito outra escolha? E se eu tivesse optado por aquela outra situação? Fujo disto a sete pés! O encanto do "I wonder" é inversamente proporcional à repulsa que sinto pelo "I wonder if".
Somos os arquitetos da nossa existência. Foi cada pequena escolha, feita ao longo da vida, que nos colocou aqui, agora, exatamente assim. Cada insignificante opção tornou-se numa parte do todo causal deste momento. Ou somos suficientemente loucos para concordar a cem por cento com todas as nossas escolhas, ou corremos o risco de viver constantemente amargurados pelo "I wonder if". Bem sei que é difícil não cair por vezes na tentação de sair a navegar pelos mares do hipotético mas o "como teria sido se..." é questão que não devia interessar a ninguém. As coisas são como são porque as escolhemos assim ou porque o destino ou acaso assim as proporcionaram. É por isso que não me permito, nunca, perder tempo a questionar as decisões que já tomei e as escolhas que já me vi obrigada a fazer. Repetiria as mais importantes. E as mais insignificantes também, na sua grande maioria. Acho que assumir tudo sem "e ses..." é uma das grandes chaves para vivermos bem connosco.
Resta-me agradecer ao pequeno Gastão, por me ter proporcionado mais esta reflexão que tanto me engordeceu a alma!
Ana Amorim Dias
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O filho da minha amiga chegou à mesa com um entusiasmo incomum. Embora o almoço já tivesse terminado, continuávamos sentados a conversar sem pressas.
- Mãe, mãe!! Acabei de me pesar! E sabes uma coisa? Engordeci!!!
Enquanto todos se riam já eu estava a aproximar o iPhone de mim para apontar no bloco de notas esta imperdível pérola.
A minha cunhada ainda acrescentou algo do género:- Deixa estar que logo "emagras"!- mas eu já nem liguei. Tinha partido para longe, para a terra mágica das palavras geniais.
Infelizmente uma das palavras que considero tremendamente genial não é portuguesa. Gosto dela quando antecedida pelo "eu", pois só assim se torna profundamente rica e intradutível: estou a falar-vos do "I wonder"! Sem o "I" significa simplesmente "maravilha" mas, ao transformar-se em verbo, é que a maravilha acontece mesmo e, numa palavra só, sintetizam-se o "eu penso", "eu pergunto-me", "eu imagino", "divago", "suponho", "equaciono", "medito" e por aí fora.
Mas não era só aqui que eu queria chegar. A viagem ainda vai a meio. Acompanhem-me e vejamos se, juntos nesta divagação, não "engordecemos" as nossas essências.
Muitos de vocês já se aperceberam que estou sempre em modo "I wonder". O que procuro nunca acrescentar é o "if". "I wonder if" é o equivalente ao "e se?" E se tivesse sido diferente? E se eu tivesse feito outra escolha? E se eu tivesse optado por aquela outra situação? Fujo disto a sete pés! O encanto do "I wonder" é inversamente proporcional à repulsa que sinto pelo "I wonder if".
Somos os arquitetos da nossa existência. Foi cada pequena escolha, feita ao longo da vida, que nos colocou aqui, agora, exatamente assim. Cada insignificante opção tornou-se numa parte do todo causal deste momento. Ou somos suficientemente loucos para concordar a cem por cento com todas as nossas escolhas, ou corremos o risco de viver constantemente amargurados pelo "I wonder if". Bem sei que é difícil não cair por vezes na tentação de sair a navegar pelos mares do hipotético mas o "como teria sido se..." é questão que não devia interessar a ninguém. As coisas são como são porque as escolhemos assim ou porque o destino ou acaso assim as proporcionaram. É por isso que não me permito, nunca, perder tempo a questionar as decisões que já tomei e as escolhas que já me vi obrigada a fazer. Repetiria as mais importantes. E as mais insignificantes também, na sua grande maioria. Acho que assumir tudo sem "e ses..." é uma das grandes chaves para vivermos bem connosco.
Resta-me agradecer ao pequeno Gastão, por me ter proporcionado mais esta reflexão que tanto me engordeceu a alma!
Ana Amorim Dias
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Como se ensina a humildade?
Como se ensina a humildade?
A estrada era estreita e só dele. Miúdo novo, não devia ter mais de vinte anos, a guiar o Porsche Cayenne. Até aqui nada que desse crónica, mas a soberba contida no ar e atitude do miudito, que me prensou contra o passeio, ficou reservado cá dentro.
Algumas horas depois ouvi o meu filho mais novo a dizer a um colaborador (que é como se fosse de família e mesmo que não fosse era igual): "olha que eu sou filho do patrão...". O meu sangue gelou. Chamei-o à cozinha e à razão. Fui dura. Ele defendeu-se como pôde, argumentou que estava só a brincar e reconheceu o erro. Mas nada me consolou.
Afinal como se ensina a humildade? Que lições terei que dar aos únicos dois seres pelos quais sou responsável para que aprendam a nobreza de apenas se orgulharem pelo que eles próprios são? O exemplo será suficiente? O exemplo estará a ser bem dado ou terei que me esforçar mais?
Pouco me importa se o João, aos vinte anos, guiará um Porsche ou um Fiat Punto. Tudo o que quero é que as manifestações do seu ego assentem no facto de ser uma pessoa boa, honrada, justa e esforçada. Quero que saiba valorizar-se apenas pela sua essência, que terá de saber construir. Quero que se orgulhe de si e das conquistas do seu trabalho. Quero que venha a entender que o valor de cada um não tem raízes nos bens que possui nem na posição social ou profissional que ocupa e sim na forma dedicada como desenvolve os seus dons e os coloca ao serviço de um Mundo ligeiramente melhor.
Não quero que os meus filhos sejam os filho do patrão nem da patroa. Não quero que sejam os donos disto ou daquilo. Quero que sejam apenas os aventureiros exploradores do seu legado genético e de valores importantes. Quero que percebam que coisas são só coisas e que servem para nos servir e não para nos escravizar a personalidade. Sei que só assim é que, seja qual for a viatura conduzida, não prensarão ninguém contra o passeio com ares de superioridade.
Amanhã falarei de novo com o João para lhe explicar isto tudo. E depois de amanhã. E depois. E depois. E sempre, se preciso for. Desconfio que tudo correrá bem pois conheço o poder das minhas palavras.
Ana Amorim Dias
Sent with Writer.
Enviado via iPad
A estrada era estreita e só dele. Miúdo novo, não devia ter mais de vinte anos, a guiar o Porsche Cayenne. Até aqui nada que desse crónica, mas a soberba contida no ar e atitude do miudito, que me prensou contra o passeio, ficou reservado cá dentro.
Algumas horas depois ouvi o meu filho mais novo a dizer a um colaborador (que é como se fosse de família e mesmo que não fosse era igual): "olha que eu sou filho do patrão...". O meu sangue gelou. Chamei-o à cozinha e à razão. Fui dura. Ele defendeu-se como pôde, argumentou que estava só a brincar e reconheceu o erro. Mas nada me consolou.
Afinal como se ensina a humildade? Que lições terei que dar aos únicos dois seres pelos quais sou responsável para que aprendam a nobreza de apenas se orgulharem pelo que eles próprios são? O exemplo será suficiente? O exemplo estará a ser bem dado ou terei que me esforçar mais?
Pouco me importa se o João, aos vinte anos, guiará um Porsche ou um Fiat Punto. Tudo o que quero é que as manifestações do seu ego assentem no facto de ser uma pessoa boa, honrada, justa e esforçada. Quero que saiba valorizar-se apenas pela sua essência, que terá de saber construir. Quero que se orgulhe de si e das conquistas do seu trabalho. Quero que venha a entender que o valor de cada um não tem raízes nos bens que possui nem na posição social ou profissional que ocupa e sim na forma dedicada como desenvolve os seus dons e os coloca ao serviço de um Mundo ligeiramente melhor.
Não quero que os meus filhos sejam os filho do patrão nem da patroa. Não quero que sejam os donos disto ou daquilo. Quero que sejam apenas os aventureiros exploradores do seu legado genético e de valores importantes. Quero que percebam que coisas são só coisas e que servem para nos servir e não para nos escravizar a personalidade. Sei que só assim é que, seja qual for a viatura conduzida, não prensarão ninguém contra o passeio com ares de superioridade.
Amanhã falarei de novo com o João para lhe explicar isto tudo. E depois de amanhã. E depois. E depois. E sempre, se preciso for. Desconfio que tudo correrá bem pois conheço o poder das minhas palavras.
Ana Amorim Dias
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