(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

4.4.13

Eric lobo

Eric Lobo

Ora então vamos lá desvendar o segredo. Ando há mais de dois anos a querer escrever uma biografia. Mas não queria escrever sobre uma vida qualquer. Não teria paciência nem motivação para escrever sobre algum músico, ator, político ou qualquer outra personalidade com o ego demasiado inchado e uma vida desinteressante.
Devo ter uma estrelinha da sorte muito ativa (ou então sou apenas bastante determinada) porque o inusitado aconteceu. O Eric conheceu um pouco do meu trabalho e confiou-me a missão de narrar com carta branca estes quase cinquenta anos de vida em que os dias se sucedem com emoções tão intensas como fotografar tribos antropófagas ou dar a volta ao Mundo sozinho em cima desta Harley toda desconjuntada. Mas isto são só meras páginas do livro da existência deste fotógrafo antropológico-businessman-aventureiro-desvairado. E são todos os seus capítulos que espero ter a capacidade de narrar com justiça, emoção e interesse, de forma a fazer-lhe justiça e a dar-vos o prazer de lerem a história de vida deste herói dos tempos modernos cuja maior virtude é uma sensibilidade humana capaz de nos inspirar a todos a viver os nossos próprios sonhos.
Por agora, enquanto o livro se escreve, resta-me desafiar-vos a procurá-lo no facebook e, porque não, a pedirem-lhe amizade.
Abraço desde a Prevença,
Ana Amorim Dias

3.4.13

Maria Madalena

Maria Madalena

Às vezes desconfio que os destinos mais surpreendentes se escondem no fim de caminhos que se tomam por não querermos ficar parar parados. Aconteceu-me hoje outra vez.
Esta manhã não tive entrevistas porque os familiares da pessoa sobre quem estou a escrever foram fazer as compras para o almoço. O visado, por sua vez, tinha uma manhã de trabalho inadiável que o impediu de prosseguir com as narrativas que me estão a servir de base à sua biografia. Por isso fiquei com a manhã livre, no meio do campo, na Provença, sem qualquer meio de transporte à minha disposição.
Ia ficar parada? Não me parece. Comecei a caminhar pelo campo e, algum tempo depois, cheguei a uma vila chamada Saint-Maximin-la-Sainte-Baume. Linda. A sorte foi tanta que me vi no meio de um típico mercado de rua que só acontece às quartas feiras. Mas a delicia maior foi encontrar uma Basílica, a de Santa Maria Madalena, na qual se encontra nada mais nada menos que a sua cripta.
Mais palavras?
Para quê?

Ana Amorim Dias

Nas nuvens

Cá em cima

Gosto de escrever aqui em cima. Apesar de o café nunca ser sequer razoável, há algo de superior na criação feita acima das nuvens. Duvido que tenha a ver com a altitude. Nem me parece também que se prenda com a relativização dos problemas que a vista de cá de cima nos potencia. Sei muito bem que o que mais me entusiasma quando escrevo nos aviões, é a antecipação do que vou viver a seguir; a vertigem das novas experiências; a proximidade de fantásticas descobertas. Sempre que parto para um novo (ou repetido) destino, e seja qual for o motivo, não tenho quaisquer dúvidas que à volta vou estar incomensuravelmente mais rica.

Ana Amorim Dias

1.4.13

Evolução e esfregonas

Evolução e esfregonas

- Percebes mãe?-
Tenho a impressão que ela me respondeu com um olhar baralhado de incompreensão, mas não posso garantir porque ia com atenção à estrada.
- O que fazemos de mais banal pode ganhar dimensões super emocionantes se dermos o enquadramento certo. - continuei. - Por exemplo, andar de carro é algo a que já quase não se dá valor, mas se imaginarmos que estamos a guiar no velho Oeste, no tempo em só havia carroças e cavalos, a condução ganha outro sabor!-
A grande vantagem da minha mãe é que já me atura desde o dia em que eu nasci, por isso nada lhe faz confusão. O que me fez confusão a mim foi a reviravolta que a conversa deu. Evolução para cá, desenvolvimento para lá e eis que chega a sua bombástica revelação.
- As esfregonas só apareceram quando tu tinhas um ou dois anos... E tínhamos que ir a Espanha comprar. Foi uma maravilha!-
Continuo a tentar perceber como é que não bati no carro da frente. Então eu sou anterior às esfregonas???? Eu já existia quando as mulheres puderam passar à posição ereta para lavar o chão da casa?? Mas como? Eu ainda sou uma miúda!
De repente senti que pouco faltou para, durante a infância, ter tido por animal de estimação uma cria de dinossauro. Mas depois, num breve flash, recordei tudo o que existia e não existia nesses meus primeiros anos e compreendi que não sou eu que sou muito velha, é a evolução que é mais galopante que os tais cavalos do velho Oeste que às vezes me acompanham na estrada.
De qualquer das formas há uma coisa que é certa, vou levar o resto do dia para me conseguir ultrapassar o choque de ter descoberto que sou anterior à era da esfregona!

Ana Amorim Dias

Lembro-me

Escrever a vida

Lembro-me com precisão do que fiz há um ano. Lembro-me por onde andei, de como estava o tempo, do que pensei e do que senti. Não preciso de ir ler o que escrevi para me conseguir lembrar de tudo.
Lembro-me de muitos dias e momentos aparentemente normais, não por os catalisar em crónicas, mas por intensificar a vida ao escrevê-la. Assim de simples.
O que tem isto de bom? Uma coisa, acima de todas as outras: fazer com que todos os dias sejam dignos de ser vividos... e lembrados.

Ana Amorim Dias

Foco

Ganhar

Começo pelos matraquilhos. Um contra um. Ganho. O adversário, com o seu mau perder, desafia-me para um jogo de snooker.
- Quem ganhar este, ganha tudo.- explica, com vista a salvar a face.
Aceito. Sei que as minhas hipóteses são fracas porque, ao contrário dos matraquilhos, o snooker não é a minha especialidade. O meu oponente é bem mais forte que eu neste novo campo de batalha.
Dou a tacada da partida. Forte, firme, seca. As esferas ficam bem espalhadas e o adversário mete duas bolas e estrutura o seu jogo. Respiro fundo. Circulo à volta da mesa a planear a estratégia. Respiro com calma, centro o meu foco na direção e na força controlada que me deixa as bolas todas nas entradas dos buracos. O adversário ataca uma e outra vez até que por fim falha a preta. Tenho três bolas bem posicionadas. Tiro as medidas ao jogo. Deslizo como uma pantera pronta para chacinar a presa. Seguro no taco com a ferocidade e confiança de um daqueles bad boys que há nos antros de perdição. Só me faltam os olhos semicerrados pelo fumo da beata no canto da boca e duas armas nos bolsos.
"Foca-te, tu consegues." E meto uma. "Respira fundo, aproveita essa alegria confiante." Meto outra. Mantenho-me completamente neutra, sem manifestar qualquer reflexo do que estou a sentir. Meto a terceira bola e preparo-me para jogar à preta. "Yes!! Estás a jogar mesmo bem, nem importa que não ganhes!" digo a mim mesma. "Não ganhar?? Estar tão perto e não ganhar?? Maluca!", respondo-me.
Faço pontaria à preta. Doseio a força, esse meu ponto fraco quando é usado em excesso. Dou a tacada e fico a olhar para o lento rebolar da bola. Entra. Ganho o jogo outra vez. O adversário retira-se sem dizer palavra. Sabe tão bem ganhar. Tão bem, tão bem, tão bem!!
Tirando o condimento da sorte, todos os ingredientes necessários para ganhar dependem apenas de nós: o foco, a aptidão, a motivação, o esforço e, claro, a alegria de estar no desafio. E não me venham cá com histórias porque só jogar bem não é tudo. É que não é mesmo!

Ana Amorim Dias

O melhor banho

O melhor banho

Era Agosto. Agosto de 1989. O pó avermelhado e fino que os helicópteros elevavam pelo ar cobria cada milímetro do meu corpo. No Monte do Gozo, perto de Santiago, éramos 400.000 jovens por aqueles dias, naquela que foi a IV jornada mundial da juventude.
Vi o Papa João Paulo II, sim senhor: passou mesmo à minha frente. Mas a sensação de sujidade estava a perturbar-me com uma tal intensidade que creio ter rezado pelo milagre de um banho.
- Ana!-
Abri lentamente os olhos e vi-o, completamente desperto, a acenar para que o seguisse.
- Shhhh, não faças barulho para não acordares mais ninguém!-
Caminhei alguns minutos, no meio dos milhares de tendas e de pessoas que iam despertando para o dia, sem fazer ideia do que me esperava.
- Para onde me levas?-
- Já vês. Vais gostar! - e deu-me a mão para que eu não duvidasse.
Ao fim de uma curta caminhada, para lá da multidão, no sopé da colina, apresentou-me finalmente a sua oferenda: um riacho abundante e cristalino, sem uma única presença humana!
Creio que o meu agradecimento foi tão grandioso como a sua amorosa oferta: um banho de felicidade pura que me arrancou cada grama daquele pó infernal.
Tenho quase a certeza que foi naquele momento que me apaixonei por ele. Na parca sabedoria dos meus quinze anos lembro-me de ter pensado: "Uau! Se ficasse encalhada numa ilha deserta, que fosse com ele!"
Sei que lhe perguntei como tinha descoberto o fantástico manancial e que ele me explicou o raciocínio lógico que o levara ali. O que não lhe perguntei foi o porquê de me ter escolhido a mim para entregar o prazer daquele banho perfeito. Não foi preciso. Percebi bem depressa que ambos tínhamos escolhido a companhia um do outro para a aventura da ilha deserta do resto da vida.
O problema é que a ilha deserta do resto da vida pode ser tão incrivelmente hostil que poucos lhe resistem. É por isso que me alegro por lhe ter captado as grandes capacidades de sobrevivência; por o ter eleito. E é por isso também que quando as tempestades chegam à paradisíaca ilha, escolho nunca me esquecer...do meu melhor banho.

Ana Amorim Dias

27.3.13

Em erupção

Para não morrer de tédio

Cada vez me convenço mais que os meus maiores inimigos se chamam "tédio" e "inércia". São como um daqueles casais de primos muitos afastados que às vezes se plantam na nossa sala à espera que lhes sirvamos um cházinho.
Ainda por cima, o senhor Tédio e a dona Inércia costumam trazer de lembrança um cestinho cheio de "nada" como se o vazio que os acompanha não fosse já suficiente.
Detesto este casalinho asqueroso mais do que consigo explicar, mas pergunto-me se não serei eu quem lhes potencia as visitas. Sempre que o meu vulcão diminui a intensidade das erupções, estou a convidá-los a entrar. Sempre que o meu agitado mar se espelha, abro-lhes de par em par as portas. Sempre que a emoção e a criatividade esmorecem, nem que seja por momentos, lá chega o senhor Tédio com a sua esposa atrás.
Pode ser que algum dia o calar do vulcão não traga consigo o vazio. Mas por agora só me resta prosseguir em erupção... para não morrer de tédio.

Ana Amorim Dias

Barafunda

Línguas

Chamo os miúdos para a mesa. Instalo um em cada ponta. Ou estudam a bem ou estudam a mal. O pequenino, à minha esquerda, lê baixinho em português. O grande, à minha direita, vai tirando dúvidas de inglês.
Continuo a repetir baixinho as frases em russo que a Sveta hoje me ensinou. O russo soa bem aos miúdos porque era nessa língua que ela lhes falava quando eram pequeninos. Riem-se todos de mim. Calo-me. Mas se quiser mesmo hei-de aprender. Mergulho de novo no livro que tenho que ler, em francês, para o meu próximo projeto que vai ganhando forma no ecrã do iPad. Interrompo para ler um texto em inglês e traduzi-lo ao Tomás. A Sveta aproxima-se e presta toda a atenção porque anda a aprender essa língua.
Passado pouco tempo as crianças escapam-se para a liberdade da vida fora de portas. A Sveta regressa à sua casa e eu fico sozinha à mesa, a tentar pronunciar as frases em russo; a tentar que as páginas que leio em francês façam sentido; a tentar não me entusiasmar demasiado com o livro que estou a escrever que, suspeito, será traduzido em tantas línguas quantas as que esta tarde foram à mesa servidas.

Ana Amorim Dias

On the road again

No final de cada curva

- Gostava de ter sido camionista. - Sempre que o digo ficam a olhar para mim embasbacados, a tentar perceber se falo seriamente ou estou a ironizar.
Há algo nas estradas que me prende, fascina, enfeitiça. Sobretudo nas viagens feitas a sós com a minha música e os meus pensamentos. Vejo-me imensas vezes a desejar que a estrada não se acabe no destino; a imaginar até onde chegaria antes que o cansaço me vencesse.
Não ligo muito à viatura, apesar de, confesso, algumas me darem mais prazer que outras. Não me importa se a estrada é constantemente por mim usada ou uma via desconhecida; não penso no ponto de partida nem na hora da chegada. O que me importa é o caminho e a sensação de movimento que esbate o horror da estagnação. O que importa é o encanto hipnótico do asfalto à minha frente e a maneira segura, prazerosa e consciente com que entro em cada curva. Creio que as curvas da estrada são para mim tão atrativas quanto as do meu interior porque quando entro nelas a paisagem muda para cenários tão fantásticos, incríveis e encantadores que tudo o que sei desejar é a eternização da viagem.

Ana Amorim Dias

Sombras

Sombras

Entendemos as nossas sombras como algo de mau. Mas as sombras dependem da luz. Só não enfrentamos as nossas sombras quando nos escondemos na penumbra, quando nos escondemos da vida. Prefiro mil vezes expor-me às luzes que me acendem as sombras do que fingir que as sombras não são uma parte integrante de mim.

Ana Amorim Dias

23.3.13

Teoria da relatividade

Teoria da relatividade

A genialidade de Einstein permitiu-lhe a descoberta de uma fórmula que nem equipas de grandes cérebros, com todo o tempo e equipamentos necessários, conseguiram descortinar. Fê-lo, diz-se, nos intervalos de almoço de um emprego que tinha, provavelmente em folhas de rascunho engorduradas com salpicos da comida que ia debicando enquanto carburava as suas fantásticas visões do funcionamento do Universo.
Não tenho a menor intenção de me comparar a Einstein (como poderia!?!?) mas também nada me impede, enquanto represento a Quinta do Monte numa feira de empresas, de desenvolver a minha própria teoria da relatividade. Contudo, e ao contrário do génio, tentarei fazê-lo da forma mais compreensível possível.
Somos todos seres relativos. Mais altos que uns, mais baixos que outros. Mais feios que alguns e mais belos que tantos outros. Mais inteligentes. Ou menos. Mais intensos, amorosos, sábios, simpáticos, experientes, viajados. Ou menos. Depende do sujeito em relação ao qual nos relativizamos.
Vivemos sob o constante peso da comparação, sendo que, no final da história, tudo o que pretendemos é causar uma maior e melhor impressão aos demais, comparativamente a tudo o que veio antes. Quanto a isto não me restam grandes dúvidas.
Mas voltemos um pouco atrás antes de avançar para a conclusão. Somos todos seres relativos quando analisados como uma gota de água nos oceanos da humanidade inteira. Mas o que acontece se nos equacionarmos como algo absoluto? Se nos despirmos de todo e qualquer termo de comparação o que é que realmente nos resta?
Existirá algum botão no ser humano passível de ser desligado que desligue também a constante comparação aos demais, feita por cada um de nós e por todos os outros com quem nos relacionamos? E se o desligarmos? O que acontece depois?
Não me parece que tenhamos a capacidade de impedir que os outros nos comparem a quem quer que seja, mas quando (mesmo respeitando e aceitando os outros sete mil milhões) nos conseguimos entender individualmente como um todo, estamos preparados para transcender a relatividade e começar a caminhar com firmeza em direção à perfeição.
Assim sendo e apesar de ter sido várias vezes interrompida ao longo desta dissertação, creio ter a fórmula pronta: ES = CP vezes BS2. Eu explico: a existência sublime é igual ao conhecimento pessoal multiplicado por bons sentimentos ao quadrado.

Ana Amorim Dias