Profundidade
Como se faz autoanálise sem mergulhar profundamente em nós? É possível encontrar os porquês das nossas escolhas e modos de ser ficando a nadar só à superfície? Lançarmos-nos em profundidade no nosso mar interior será assustador pelo medo da escuridão e dos enormes tubarões brancos que lá possam estar? Ou essa incursão é simplesmente demasiado ingrata pela dificuldade de discernimento que a falta de ar sempre implica?
Afinal quantos de nós vamos mesmo ao fundo das nossas motivações para perceber as escolhas? Quantos de nós procuramos conhecer as raízes da árvore das atitudes?
Sempre pensei que sabia ir ao fundo de mim procurar as respostas, mas por vezes surge a dúvida e fico com a sensação de ter a mesma profundidade de uma libelinha esvoaçante à tona de água.
E isso deixa-me a ponderar que, de todos os desafios com que somos brindados, o maior deles é muito bem capaz de ser esse tal mergulho em profundidade. Porque só ao fazê-lo encontramos as respostas e percebemos as soluções para tudo.
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
23.2.13
Mostrar a língua à vida
Mostrar a língua à vida
- Até amanhã, filha. E porta-te bem... se conseguires.- Não percebo porque é que a minha mãe se despede assim de mim tantas vezes. E mal sabia ela ontem, ao desligar o telefone, da loucura que momentos antes eu tinha lançado sobre a casa e todos os seus habitantes.
- Pronto! Acabou-se o sossego! - diz a menina Rita quando me vê chegar. Será porque a estrafego com mimos e beijos e falo alto e a ponho num virote? Talvez e, no entanto, sei que ela adora que o sossego se acabe.
- Mas será que não há quem ponha ordem nesta Quinta? - pergunta a Cristina, num desespero divertido, quando lhe invado a cozinha como se fosse um vendaval. Haver quem ponha ordem até há, mas ninguém quer fazê-lo porque todos percebem que a vida assim é melhor.
Não costumo parar para pensar no que potenciou os constantes ataques de maluquice divertida que espalham a boa disposição ao meu redor. Será um condicionalismo genético? Será que decidi, sem saber, levar a vida a brincar? Ou será devido à possibilidade constante de fazer figuras de ursa sem que grande mal venha ao mundo? E se eu trabalhasse numa conceituada firma de advogados onde não seria bem visto andar com calças de ganga rotas, colares tribais, brincos de penas e onde eu não pudesse andar a atirar borrachas aos colegas ou a imitar sons intestinais ao soprar uma palhinha no sovaco? Sim, como seria a minha vida se eu ligasse aos olhares estranhos que me lançam por dançar em todo o lado e cantar no carro a plenos pulmões?
Duvido que consigam algum dia roubar-me a alegria e as suas estranhas manifestações. Porque se o tentarem fazer eu escondo-me atrás de uma árvore e ponho-lhes a língua de fora! É isso: sempre que o destino voltar a conspirar contra mim, hei-de mostrar a língua à vida!
Ana Amorim Dias
- Até amanhã, filha. E porta-te bem... se conseguires.- Não percebo porque é que a minha mãe se despede assim de mim tantas vezes. E mal sabia ela ontem, ao desligar o telefone, da loucura que momentos antes eu tinha lançado sobre a casa e todos os seus habitantes.
- Pronto! Acabou-se o sossego! - diz a menina Rita quando me vê chegar. Será porque a estrafego com mimos e beijos e falo alto e a ponho num virote? Talvez e, no entanto, sei que ela adora que o sossego se acabe.
- Mas será que não há quem ponha ordem nesta Quinta? - pergunta a Cristina, num desespero divertido, quando lhe invado a cozinha como se fosse um vendaval. Haver quem ponha ordem até há, mas ninguém quer fazê-lo porque todos percebem que a vida assim é melhor.
Não costumo parar para pensar no que potenciou os constantes ataques de maluquice divertida que espalham a boa disposição ao meu redor. Será um condicionalismo genético? Será que decidi, sem saber, levar a vida a brincar? Ou será devido à possibilidade constante de fazer figuras de ursa sem que grande mal venha ao mundo? E se eu trabalhasse numa conceituada firma de advogados onde não seria bem visto andar com calças de ganga rotas, colares tribais, brincos de penas e onde eu não pudesse andar a atirar borrachas aos colegas ou a imitar sons intestinais ao soprar uma palhinha no sovaco? Sim, como seria a minha vida se eu ligasse aos olhares estranhos que me lançam por dançar em todo o lado e cantar no carro a plenos pulmões?
Duvido que consigam algum dia roubar-me a alegria e as suas estranhas manifestações. Porque se o tentarem fazer eu escondo-me atrás de uma árvore e ponho-lhes a língua de fora! É isso: sempre que o destino voltar a conspirar contra mim, hei-de mostrar a língua à vida!
Ana Amorim Dias
Tão fofos
As birras dos homens
Os homens são mesmo giros! Os homens e as suas birras! Adoram ter uma mulher boazona e sensual, mas ficam aflitos com a perspetiva da aproximação de predadores. Querem uma mulher inteligente mas exasperam-se com os seus bem fundamentados argumentos. Amam mais facilmente uma mulher emocionalmente estável, com a cabeça no lugar e as ideias todas em ordem, mas ficam muito sentidos pela sua falta de paciência para lhes aturar certas "tretas". Desejam uma mulher poderosa, mas temem secretamente o seu poder. Apaixonam-se por uma mulher determinada, ambiciosa e de horizontes bem largos, mas tremem de pavor quando imaginam onde isso as poderá levar.
Ficam algumas reflexões, minhas queridas:
- Quaisquer que sejam os vossos atributos, jamais os abandonem porque por mais que os homens vos inspirem, é de vós que o poder nasce.
- Nunca desistam dos sonhos por amor porque é exatamente esse um dos seus maiores assassinos.
- Desenvolvam a tática da inundação de mimos e da transmissão de confiança, porque é essa a única forma de lidar com estes fantásticos seres, mas nunca deixem passar uma ocasião de os colocar no lugar quando assim tiver que ser.
- Tenham sempre bem presente que o vosso homem é belo e forte por ainda vos aturar, mas jamais se atrevam a esquecer e abandonar as vossas missões e a vossa mais pura essência.
Ana Amorim Dias
Os homens são mesmo giros! Os homens e as suas birras! Adoram ter uma mulher boazona e sensual, mas ficam aflitos com a perspetiva da aproximação de predadores. Querem uma mulher inteligente mas exasperam-se com os seus bem fundamentados argumentos. Amam mais facilmente uma mulher emocionalmente estável, com a cabeça no lugar e as ideias todas em ordem, mas ficam muito sentidos pela sua falta de paciência para lhes aturar certas "tretas". Desejam uma mulher poderosa, mas temem secretamente o seu poder. Apaixonam-se por uma mulher determinada, ambiciosa e de horizontes bem largos, mas tremem de pavor quando imaginam onde isso as poderá levar.
Ficam algumas reflexões, minhas queridas:
- Quaisquer que sejam os vossos atributos, jamais os abandonem porque por mais que os homens vos inspirem, é de vós que o poder nasce.
- Nunca desistam dos sonhos por amor porque é exatamente esse um dos seus maiores assassinos.
- Desenvolvam a tática da inundação de mimos e da transmissão de confiança, porque é essa a única forma de lidar com estes fantásticos seres, mas nunca deixem passar uma ocasião de os colocar no lugar quando assim tiver que ser.
- Tenham sempre bem presente que o vosso homem é belo e forte por ainda vos aturar, mas jamais se atrevam a esquecer e abandonar as vossas missões e a vossa mais pura essência.
Ana Amorim Dias
Demónios pessoais
Demónios pessoais
Entre umas sessões de abdominais, deitada no chão da sala, detive o zapping num programa de fofocas americano que, naquele momento, falava do suicídio de uma cantora que me era desconhecida. "Não conseguiu viver com os seus demónios pessoais", comentaram.
Atravessei o salão completamente às escuras. O Joãozinho procurou a minha mão e eu apercebi-me dos seus medos. "Dunas! São como divãs..." começo a cantar. Ele faz coro comigo e sinto-lhe os passos mais firmes e destemidos. Está a aprender a minha velha tática para afastar os medos.
Eram sete e meia e eles já não deviam demoravam a chegar. "Mas que gaita! Tenho que fazer outra vez o jantar e não me apetece nada!" Troco a iluminação, ateio o incenso e ligo a música. A preparação do jantar transforma-se num prazer imenso enquanto danço pela cozinha como se estivesse num palco.
Os demónios pessoais podem usar as mais variadas vestes e ter as mais distintas caras, mas acabam por ser sempre os medos que cada um tem em si. Saber exatamente quais são os nossos demónios é meio caminho andado para conseguir lidar com eles. Sorrisos, cantares e danças afastam atritos, medos e tédios. Confiança e amor próprio afastam fracassos e solidão. Mas entre os maiores inimigos dos demónios pessoais estão, sem dúvida, a inocência e a sintonia com frequências de amor. É por estas e por outras que os meus demónios pessoais vivem em constante pesadelo, infernizados por mim!
Ana Amorim Dias
Entre umas sessões de abdominais, deitada no chão da sala, detive o zapping num programa de fofocas americano que, naquele momento, falava do suicídio de uma cantora que me era desconhecida. "Não conseguiu viver com os seus demónios pessoais", comentaram.
Atravessei o salão completamente às escuras. O Joãozinho procurou a minha mão e eu apercebi-me dos seus medos. "Dunas! São como divãs..." começo a cantar. Ele faz coro comigo e sinto-lhe os passos mais firmes e destemidos. Está a aprender a minha velha tática para afastar os medos.
Eram sete e meia e eles já não deviam demoravam a chegar. "Mas que gaita! Tenho que fazer outra vez o jantar e não me apetece nada!" Troco a iluminação, ateio o incenso e ligo a música. A preparação do jantar transforma-se num prazer imenso enquanto danço pela cozinha como se estivesse num palco.
Os demónios pessoais podem usar as mais variadas vestes e ter as mais distintas caras, mas acabam por ser sempre os medos que cada um tem em si. Saber exatamente quais são os nossos demónios é meio caminho andado para conseguir lidar com eles. Sorrisos, cantares e danças afastam atritos, medos e tédios. Confiança e amor próprio afastam fracassos e solidão. Mas entre os maiores inimigos dos demónios pessoais estão, sem dúvida, a inocência e a sintonia com frequências de amor. É por estas e por outras que os meus demónios pessoais vivem em constante pesadelo, infernizados por mim!
Ana Amorim Dias
19.2.13
O intervalo entre as nuvens
O intervalo entre as nuvens
Na minha primeira ida ao Brasil andei entre Salvador da Baía e o Rio de Janeiro. Sempre que numa das cidades havia bom tempo eu estava na outra. Apesar de, não sei muito bem como, ter conseguido fazer um pouco de praia a norte de Salvador e na praia do Leblon, a sorte maior aconteceu no momento da visita ao Cristo Redentor.
Enquanto o "bondjinho" me transportava para o cume do morro do Corcovado, as nuvens adensavam-se lá no topo. No entanto, na hora de ver a vista encantadora da cidade maravilhosa, o céu limpou como que por magia, permitindo-me o privilégio de degustar condignamente uma das incontáveis paisagens épicas em que este nosso Mundinho é pródigo. Mas o momento de vir embora chegou e, com ele, voltaram as cerradas nuvens, que me deixaram com dó dos turistas que não tiveram a mesma benção dos céus.
Apesar de já muitos anos terem passado desde esse dia em que o tempo se abriu num presente perfeito, lembro-me disto amiúde. Sempre existirão nuvens e sempre haverá céu limpo, bem como alturas em que a natureza, no momento certo, nos permite ver com toda a nitidez as mais belas paisagens.
Ana Amorim Dias
Na minha primeira ida ao Brasil andei entre Salvador da Baía e o Rio de Janeiro. Sempre que numa das cidades havia bom tempo eu estava na outra. Apesar de, não sei muito bem como, ter conseguido fazer um pouco de praia a norte de Salvador e na praia do Leblon, a sorte maior aconteceu no momento da visita ao Cristo Redentor.
Enquanto o "bondjinho" me transportava para o cume do morro do Corcovado, as nuvens adensavam-se lá no topo. No entanto, na hora de ver a vista encantadora da cidade maravilhosa, o céu limpou como que por magia, permitindo-me o privilégio de degustar condignamente uma das incontáveis paisagens épicas em que este nosso Mundinho é pródigo. Mas o momento de vir embora chegou e, com ele, voltaram as cerradas nuvens, que me deixaram com dó dos turistas que não tiveram a mesma benção dos céus.
Apesar de já muitos anos terem passado desde esse dia em que o tempo se abriu num presente perfeito, lembro-me disto amiúde. Sempre existirão nuvens e sempre haverá céu limpo, bem como alturas em que a natureza, no momento certo, nos permite ver com toda a nitidez as mais belas paisagens.
Ana Amorim Dias
Associas-me a quê?
Associas-me a quê?
Estava dizer-lhe que associo o barulho do ar condicionado do meu quarto a uma série televisiva já antiga, sobre uma enfermeira americana no Vietnam. Tudo porque o arrancar do aparelho me faz lembrar o barulho dos helicópteros que traziam os feridos.
- E tu a mim associas-me a quê?-
Já não faço a mínima ideia do que respondi, mas fiquei a pensar nas associações que adoraria que os outros fizessem à minha pessoa. Gostava que me associassem a boas energias, a gargalhadas e sorrisos. Gostava que me associassem a amor e paixão, sonhos e esperança, força e inspiração. Ficaria completamente feliz se me associassem a uma imaginativa loucura ou a um estilo anarquicamente alternativo de encarar tudo na vida. Mas então interrompo-me e percebo: que importa a forma como os outros nos vêem? Desde que sejamos o mais genuínos possível e consigamos associar-nos nós mesmos ao que nos é mais querido, os bons entendedores saberão "ler-nos" bem.
Ana Amorim Dias
Estava dizer-lhe que associo o barulho do ar condicionado do meu quarto a uma série televisiva já antiga, sobre uma enfermeira americana no Vietnam. Tudo porque o arrancar do aparelho me faz lembrar o barulho dos helicópteros que traziam os feridos.
- E tu a mim associas-me a quê?-
Já não faço a mínima ideia do que respondi, mas fiquei a pensar nas associações que adoraria que os outros fizessem à minha pessoa. Gostava que me associassem a boas energias, a gargalhadas e sorrisos. Gostava que me associassem a amor e paixão, sonhos e esperança, força e inspiração. Ficaria completamente feliz se me associassem a uma imaginativa loucura ou a um estilo anarquicamente alternativo de encarar tudo na vida. Mas então interrompo-me e percebo: que importa a forma como os outros nos vêem? Desde que sejamos o mais genuínos possível e consigamos associar-nos nós mesmos ao que nos é mais querido, os bons entendedores saberão "ler-nos" bem.
Ana Amorim Dias
16.2.13
De meteoritos e faturas
De meteoritos e faturas
- Isto agora é só meteoritos a cair! Olha do que se foram lembrar, hã?-
Ri-me perdidamente. Como se a culpa disso também fosse do nosso doce Governo e dos legisladores mentecaptos.
Comecei logo a deambular nas avenidas da minha imaginação sem conseguir parar de rir.
E se, sem que ninguém se tenha apercebido, saiu em Diário da República que as pessoas que não pedem fatura seriam atingidas por fragmentos de meteorito e o serviço contratado pelo Estado falhou o alvo, caindo nos Urais?
Quem é que vai pagar mesmo tendo corrido mal? Claro: os mesmos que pagam buracos negros bancários, máfias elitistas e submarinos assucatados.
Por outro lado, se o meteorito não foi contratado por duzentos mil milhões de euros pelo Estado português para punir os perigosos criminosos que não pedem a fatura do café, que teria acontecido se o dito corpo celeste tivesse caído mesmo em terras lusas?
Já estou a ver o Gasparzinho, a esfregar as mãos de contentamento. Afinal um meteorito no nosso espaço aéreo quanto não pagaria de portagem?
Ana Amorim Dias
- Isto agora é só meteoritos a cair! Olha do que se foram lembrar, hã?-
Ri-me perdidamente. Como se a culpa disso também fosse do nosso doce Governo e dos legisladores mentecaptos.
Comecei logo a deambular nas avenidas da minha imaginação sem conseguir parar de rir.
E se, sem que ninguém se tenha apercebido, saiu em Diário da República que as pessoas que não pedem fatura seriam atingidas por fragmentos de meteorito e o serviço contratado pelo Estado falhou o alvo, caindo nos Urais?
Quem é que vai pagar mesmo tendo corrido mal? Claro: os mesmos que pagam buracos negros bancários, máfias elitistas e submarinos assucatados.
Por outro lado, se o meteorito não foi contratado por duzentos mil milhões de euros pelo Estado português para punir os perigosos criminosos que não pedem a fatura do café, que teria acontecido se o dito corpo celeste tivesse caído mesmo em terras lusas?
Já estou a ver o Gasparzinho, a esfregar as mãos de contentamento. Afinal um meteorito no nosso espaço aéreo quanto não pagaria de portagem?
Ana Amorim Dias
Era uma vez uma Quinta
Era uma vez uma Quinta
Olho pela janela do quarto, com o já primaveril Sol a alaranjar-me a manhã.
Lá em baixo, junto à figueira raínha, consigo ainda ver os passos daquele Homem que, na sua imensa sabedoria e abundância, soube deixar, mais que a matéria, um espírito de tenacidade que continua a nortear todos os seus descendentes. Chamava-se João. Claro, só podia.
Era uma vez uma Quinta. Feita de estórias e com amor. Era uma vez uma Quinta que guarda lembranças e tem alma nas paredes. Um sítio lindo, acarinhado por tanta gente que lhe sobram mimos e legados de uma prolixa diversidade. Era uma vez uma Quinta que, depois de muitos anos a fazer com que as festas sejam de um brilho ainda mais festivo, inicia hoje uma nova fase, abrindo para todos de sexta a domingo.
Não sei como vai correr mais esta etapa. Nunca há como saber. Mas de uma coisa tenho a certeza: que em cada caipirinha, em cada sangria de frutos vermelhos, biscoito caseiro ou pãozinho recheado que me tocar fazer, irá muito mais que a matéria. Irá o espirito de quem faz por e com amor. Irá o sabor afrodisíaco da inspiração deleitada com que escrevo e me enamoro, a cada momento, pela vida.
Faço por isso sinceros votos de que apreciem não só o espaço e o bons sabores, como a mística inerente a tudo o que é feito por uma escritora e mais alguns seres inspirados.
Ana Amorim Dias
Olho pela janela do quarto, com o já primaveril Sol a alaranjar-me a manhã.
Lá em baixo, junto à figueira raínha, consigo ainda ver os passos daquele Homem que, na sua imensa sabedoria e abundância, soube deixar, mais que a matéria, um espírito de tenacidade que continua a nortear todos os seus descendentes. Chamava-se João. Claro, só podia.
Era uma vez uma Quinta. Feita de estórias e com amor. Era uma vez uma Quinta que guarda lembranças e tem alma nas paredes. Um sítio lindo, acarinhado por tanta gente que lhe sobram mimos e legados de uma prolixa diversidade. Era uma vez uma Quinta que, depois de muitos anos a fazer com que as festas sejam de um brilho ainda mais festivo, inicia hoje uma nova fase, abrindo para todos de sexta a domingo.
Não sei como vai correr mais esta etapa. Nunca há como saber. Mas de uma coisa tenho a certeza: que em cada caipirinha, em cada sangria de frutos vermelhos, biscoito caseiro ou pãozinho recheado que me tocar fazer, irá muito mais que a matéria. Irá o espirito de quem faz por e com amor. Irá o sabor afrodisíaco da inspiração deleitada com que escrevo e me enamoro, a cada momento, pela vida.
Faço por isso sinceros votos de que apreciem não só o espaço e o bons sabores, como a mística inerente a tudo o que é feito por uma escritora e mais alguns seres inspirados.
Ana Amorim Dias
Document 1
Dias de paixão
A celebração dos apaixonados no mês de Fevereiro remonta tanto aos feitos de são Valentim pelos sacramentos que dava, contra ordens instituídas, aos casais enamorados (e à própria paixão que a lenda conta ter vivido antes da sua execução) como às festividades em honra da Deusa Juno na Roma antiga.
Quando se encara este dia com o limitador espartilho de "dia dos namorados" fico sempre com uma certa pena dos casais de pombinhos que, nada sabendo da vida e muito pouco do amor, trocam inocentes juras eternas com caixas de bombons no regaço. Existe uma colossal distância entre os casalitos justapostos que, tudo fazendo para se agradar mutuamente, vão escavando sem saber a sepultura de breves paixões e as pessoas que sabem viver sempre em estado de paixão pura.
Prefiro encarar este dia como mais um dos 365 dias que o ano deve ter em plena exultação dos afetos, amores e paixões. Um dia em que talvez devamos repensar de um modo mais consciente na forma como deixamos que os amorosos sentimentos nos dominem e na maneira como nos deixamos amar.
Há pouco mais de um ano, depois de ver um espectáculo de tango em Buenos Aires, escrevi a crónica "A vida num tango" em cujo final desejei a mim mesma a vida num tango. Nesse momento epifânico compreendi que, independente de quem a cada momento amamos, devemos fazê-lo total e desmedidamente, com o derradeiro arrepio, que nos arranca o ar dos pulmões, a arrastar-se no tempo. Por mais que tenhamos suaves afetos, carinhosos amores ou sofridas paixões, temos a obrigação, pelo mesmos perante nós mesmos, de sentir e viver tudo com um total e comprometido empenho, reinventando-nos a cada momento na nossa indomabilidade ancestral. Porque na vida nada pode ser mais garantido que a nossa relação connosco e com o compromisso de viver eternamente enamorados.
Assim sendo instituo hoje e aqui o meu apelido como Dias, mas Dias de paixão.
Ana Amorim Dias
A celebração dos apaixonados no mês de Fevereiro remonta tanto aos feitos de são Valentim pelos sacramentos que dava, contra ordens instituídas, aos casais enamorados (e à própria paixão que a lenda conta ter vivido antes da sua execução) como às festividades em honra da Deusa Juno na Roma antiga.
Quando se encara este dia com o limitador espartilho de "dia dos namorados" fico sempre com uma certa pena dos casais de pombinhos que, nada sabendo da vida e muito pouco do amor, trocam inocentes juras eternas com caixas de bombons no regaço. Existe uma colossal distância entre os casalitos justapostos que, tudo fazendo para se agradar mutuamente, vão escavando sem saber a sepultura de breves paixões e as pessoas que sabem viver sempre em estado de paixão pura.
Prefiro encarar este dia como mais um dos 365 dias que o ano deve ter em plena exultação dos afetos, amores e paixões. Um dia em que talvez devamos repensar de um modo mais consciente na forma como deixamos que os amorosos sentimentos nos dominem e na maneira como nos deixamos amar.
Há pouco mais de um ano, depois de ver um espectáculo de tango em Buenos Aires, escrevi a crónica "A vida num tango" em cujo final desejei a mim mesma a vida num tango. Nesse momento epifânico compreendi que, independente de quem a cada momento amamos, devemos fazê-lo total e desmedidamente, com o derradeiro arrepio, que nos arranca o ar dos pulmões, a arrastar-se no tempo. Por mais que tenhamos suaves afetos, carinhosos amores ou sofridas paixões, temos a obrigação, pelo mesmos perante nós mesmos, de sentir e viver tudo com um total e comprometido empenho, reinventando-nos a cada momento na nossa indomabilidade ancestral. Porque na vida nada pode ser mais garantido que a nossa relação connosco e com o compromisso de viver eternamente enamorados.
Assim sendo instituo hoje e aqui o meu apelido como Dias, mas Dias de paixão.
Ana Amorim Dias
13.2.13
Deixa-me ligar-te
Deixa-me ligar-te
Há tempos li isto: "The meaning of life is to find your gift. The purpose of life is to give it away.". O que quer mais ou menos dizer que o sentido da vida é encontrar o teu dom e que o propósito da vida deve ser a entrega dessa dádiva ou dom aos outros.
Pois bem, parece-me que existem imensas pessoas que já descobriram o sentido das suas vidas e que estão comprometidas com o tal propósito, colocando os seus dons à disposição dos outros. A questão é mais profunda: quantos de nós estamos dispostos a receber essas dádivas?
Isto faz-me lembrar o episódio do violinista famoso que interpretou magistralmente uma elaborada peça à entrada de uma estação, sem que ninguém se detivesse a apreciá-lo quando, na noite anterior, tinha enchido uma sala de espectáculos com bilhetes caríssimos.
Quererá isto dizer que não sabemos receber as dádivas alheias a menos que paguemos o seu preço? Nem sempre é assim que funciona!
Como receptora de dons procuro estar sempre alerta para não perder nenhum. Como emissora, apenas me resta a esperança que os outros me deixem ligá-los para a frequência das boas emoções. Posso nem sempre conseguir mas não é lá por isso que deixarei de insistir no " Let me turn you on!"
Ana Amorim Dias
Há tempos li isto: "The meaning of life is to find your gift. The purpose of life is to give it away.". O que quer mais ou menos dizer que o sentido da vida é encontrar o teu dom e que o propósito da vida deve ser a entrega dessa dádiva ou dom aos outros.
Pois bem, parece-me que existem imensas pessoas que já descobriram o sentido das suas vidas e que estão comprometidas com o tal propósito, colocando os seus dons à disposição dos outros. A questão é mais profunda: quantos de nós estamos dispostos a receber essas dádivas?
Isto faz-me lembrar o episódio do violinista famoso que interpretou magistralmente uma elaborada peça à entrada de uma estação, sem que ninguém se detivesse a apreciá-lo quando, na noite anterior, tinha enchido uma sala de espectáculos com bilhetes caríssimos.
Quererá isto dizer que não sabemos receber as dádivas alheias a menos que paguemos o seu preço? Nem sempre é assim que funciona!
Como receptora de dons procuro estar sempre alerta para não perder nenhum. Como emissora, apenas me resta a esperança que os outros me deixem ligá-los para a frequência das boas emoções. Posso nem sempre conseguir mas não é lá por isso que deixarei de insistir no " Let me turn you on!"
Ana Amorim Dias
Entre ti e o Mundo
Entre ti e o Mundo
Quando me dizem que não gostam de viajar fico em estado catatónico. Chego mesmo a levar alguns minutos até voltar ao normal e tentar compreender as razões de tal calamidade. Pergunto se houve más experiências, situações traumáticas ou algo do género. Mas não. Parece que há pessoas assim, para quem sair da rotina e do espaço em que se está confortável, é tudo menos uma experiência agradável.
Poderei criticar esta visão ou indignar-me com ela? Certamente que não. Compreendo e aceito. O que não consigo mesmo compreender é quem gosta e quer e finge que não pode. O que não sei aceitar é quem se esconde constantemente atrás de desculpas perfeitamente ultrapassáveis devido a uma preguiçosa inércia que finge não saber o que está a perder.
Não tem dinheiro? Junte, daqui a um ano ou dois será mais que suficiente.
Não tem companhia? Vá sozinho/a: são indiscutivelmente as mais espantosas viagens.
Não tem tempo? O tempo constrói-se a partir do tempo que se consegue roubar ao tempo que dizemos sempre não ter. Não tem vontade? Então imagine o que é nascer de novo, mas desta vez completamente aceso, desperto e vivo...
Já fiz viagens que pouca gente faria, em condições que travariam corajosos, impediriam determinados e assustariam aventureiros. Já fiz viagens debaixo de fogos cruzados, com regressos conturbados e muita coisa a perder. Mas fui. E creio que irei sempre. Porque não quero render-me a nada que se meta entre mim e o Mundo.
Ana Amorim Dias
Quando me dizem que não gostam de viajar fico em estado catatónico. Chego mesmo a levar alguns minutos até voltar ao normal e tentar compreender as razões de tal calamidade. Pergunto se houve más experiências, situações traumáticas ou algo do género. Mas não. Parece que há pessoas assim, para quem sair da rotina e do espaço em que se está confortável, é tudo menos uma experiência agradável.
Poderei criticar esta visão ou indignar-me com ela? Certamente que não. Compreendo e aceito. O que não consigo mesmo compreender é quem gosta e quer e finge que não pode. O que não sei aceitar é quem se esconde constantemente atrás de desculpas perfeitamente ultrapassáveis devido a uma preguiçosa inércia que finge não saber o que está a perder.
Não tem dinheiro? Junte, daqui a um ano ou dois será mais que suficiente.
Não tem companhia? Vá sozinho/a: são indiscutivelmente as mais espantosas viagens.
Não tem tempo? O tempo constrói-se a partir do tempo que se consegue roubar ao tempo que dizemos sempre não ter. Não tem vontade? Então imagine o que é nascer de novo, mas desta vez completamente aceso, desperto e vivo...
Já fiz viagens que pouca gente faria, em condições que travariam corajosos, impediriam determinados e assustariam aventureiros. Já fiz viagens debaixo de fogos cruzados, com regressos conturbados e muita coisa a perder. Mas fui. E creio que irei sempre. Porque não quero render-me a nada que se meta entre mim e o Mundo.
Ana Amorim Dias
11.2.13
Alimentadores
Alimentadores
Desconfio que sou assim desde sempre, mas só ao longo da vida adulta é que me comecei a aperceber disso de forma mais consciente. Não me consigo libertar da mania de tentar fazer com que as pessoas comam. Dá-me um imenso prazer ver toda a gente a comer e a beber à minha volta. Só estou bem a atulhar os outros de comida, seja quem me aparece em casa, seja nos casamentos cá na Quinta. Desde que haja grandes quantidades de comida (e bebida) a serem ingeridos com convicção e prazer, sinto que estou a cumprir bem o meu papel.
Assim, e assumindo-me como alimentadora há já muitos anos, começo a estranhar o facto de nunca ter analisado mais profundamente as motivações de tal tara. Será que há outras vidas e em alguma delas fui um chefe de tribo que deixou a populança desfalecer à mingua? Ou terei passado eu mesma muita fome? Será que esta mania se prende com carências ou abundância? Será que é por eu própria gostar tanto de comer que quero proporcionar fartura aos outros? E o que é mais curioso é que, tal como faço com a comida, também sou fervorosa adepta de alimentar com palavras. Os "porquês" é que me escapam e isso não me agrada nada.
No entanto, e para me consolar, concluo que o mais importante não é perceber as razões que nos levam a ser como somos, é sim gostarmos imensamente da nossa maneira de ser!
Ana Amorim Dias
Desconfio que sou assim desde sempre, mas só ao longo da vida adulta é que me comecei a aperceber disso de forma mais consciente. Não me consigo libertar da mania de tentar fazer com que as pessoas comam. Dá-me um imenso prazer ver toda a gente a comer e a beber à minha volta. Só estou bem a atulhar os outros de comida, seja quem me aparece em casa, seja nos casamentos cá na Quinta. Desde que haja grandes quantidades de comida (e bebida) a serem ingeridos com convicção e prazer, sinto que estou a cumprir bem o meu papel.
Assim, e assumindo-me como alimentadora há já muitos anos, começo a estranhar o facto de nunca ter analisado mais profundamente as motivações de tal tara. Será que há outras vidas e em alguma delas fui um chefe de tribo que deixou a populança desfalecer à mingua? Ou terei passado eu mesma muita fome? Será que esta mania se prende com carências ou abundância? Será que é por eu própria gostar tanto de comer que quero proporcionar fartura aos outros? E o que é mais curioso é que, tal como faço com a comida, também sou fervorosa adepta de alimentar com palavras. Os "porquês" é que me escapam e isso não me agrada nada.
No entanto, e para me consolar, concluo que o mais importante não é perceber as razões que nos levam a ser como somos, é sim gostarmos imensamente da nossa maneira de ser!
Ana Amorim Dias
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