(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

20.1.13

Primeiro amor

Primeiro amor

Ontem não vim deixar nada no ar porque passei o dia atarefada com os preparativos para uma importante festa.
O primeiro amor da minha vida cumpriu mais um aniversário.
Tanto quanto sei, no próprio dia em que nasci, estabeleceu-se entre nós uma ligação abençoada e inquebrável. Ou talvez até tenha sido antes, não sei. Não sei nem me importa, porque tudo o que precisamos de saber é aquilo que sentimos uma pela outra: um amor tão genuíno e uma gratidão tão profunda que chegam a produzir surpreendentes milagres.
Que cumpras muitos e cada vez mais felizes e luminosos tempos, irmã da minha alma.

Ana Amorim Dias

18.1.13

Uma agulha no palheiro

Uma agulha no palheiro

Muitas das metáforas da minha vida acontecem com músicas ou de forma musicada. A que vos vou agora narrar terá certamente muitos pontos em comum com episódios já ocorridos convosco.
Havia uma música, indiana e muito bela, que me fazia sentir uma alegria enorme. Estava num cd que eu ouvia no carro e que desapareceu sem deixar rasto. Eu desconhecia o nome da canção, do álbum e do cantor. Quanto à melodia, apenas dela me restava a memória saudosa do bem que me fazia sentir.
Acreditem ou não passaram-se anos sem que eu ouvisse a tal música... e sem que a esquecesse também.
Até que, na semana passada, num mergulho destemido à minha memória externa, enquanto procurava não me afogar naquele infinito mar de "palha" musical, a dita canção me saltou para as mãos sem que eu a procurasse, qual agulha preciosa rendida ao meu magnetismo. Os arrepios percorreram-me corpo e alma ao ouvir os primeiros acordes. Continuo sem entender uma única palavra, mas também continuo a render-me a um sorriso feliz de cada vez que a oiço.
No fundo sempre soube que aquela música voltaria à minha vida. Como sempre as mais preciosas agulhas saltam da palha para as nossas mãos... quando paramos de procurar e deixamos o nosso magnetismo trabalhar.

Ana Amorim Dias

Bondade

Bondade

Ando às voltas com a questão dos super poderes. Gosto de acreditar que os tenho. Tanto que o meu novo livro é sobre eles, embora não tenha percebido ainda muito bem de que forma. Tudo o que sei é que a raça humana tem super poderes fantásticos que não se lembra de usar. Tudo o que sei é que ando a ver se ativo mais os meus e os "relembro" nos outros.
É por isso que tenho andado em pesquisa de campo, a perguntar a todos os que se atravessam no meu caminho, quais são os super poderes mais importantes. A cara de espanto da senhora do café ou do caixa do super mercado desconcentra-me sempre e acabo por não absorver as respostas.
Mas ontem, no escurinho do cinema, fez-se luz na minha alma. No fundo já o sabia, mas vi com uma clarividência maior: o supremo super poder é simplesmente a bondade. Aquela que tudo entende, tudo perdoa e tudo cura; em quem a sente, em quem a exerce e nos outros, nos que são por ela tocados.
De qualquer forma não termino sem vos pedir também a vossa valiosa opinião.

Ana Amorim Dias

Criativo

Criativo

Há dias ralhei com o Joãozinho devido à porcaria que as suas invenções artísticas estavam a originar.
- Não ralhes, mãe. Sou criativo.-
"Para sete anos sabes muito!", pensei, ao recuar nas acusações.
Aquilo a que achei mais graça nem sequer foi ao seu jeito sedutor de se safar às limpezas, foi ao orgulho com que disse o "sou criativo". E isso levou-me de volta aos agradecimentos frequentes que me dão pela minha própria criatividade e a uma resposta que recentemente dei a um desses agradecimentos.
- Quem deve agradecer a quem? O admirador de uma obra ao seu criador ou o próprio criador a quem lhe admira as obras?-
O certo é que nos últimos dias tenho admirado as obras fotográficas do criador desta fotografia, Ricardo Teixeira (Immagine) e, agradecendo-lhe as obras que me me inspiram a novos escritos, lhe propus escrever sobre algumas. E ele, bem... ele agradeceu-me.
Ora ontem à tarde, e para consolidar melhor em mim todo este tema, perguntei ao meu filho o que é ser criativo.
- Oh mãe, criativos são as pessoas que fazem coisas novas... Coisas novas para dar ao Mundo, percebes?-
Percebo João! É por isso que agradeço ao Ricardo que tirou esta fotografia que me faz sonhar; e agradeço a quem lê e aprecia o que de novo tenho para dar ao Mundo; e te agradeço a ti... por seres tão criativo!

Ana Amorim Dias

15.1.13

O pão que um anjo amassou

O pão que um anjo amassou

Adoro expandir os meus conhecimentos...nem que seja com farinha. E dou particular valor à sabedoria experimentada porque, mesmo que não a volte a usar, enriquece-me as vivências, e claro, os escritos.
Mas deixem-me começar pelo princípio.
Já tenho amassado pão de saltos altos. Também já o fiz toda encasacada ou só de biquini e pareo. O que importa mesmo é a vontade e amor com que se amassa. E fazê-lo dá-me prazer. Pela sensação de pôr as mãos na massa e por sentir uma responsabilidade guerreira de alimentadora e zeladora que não sei explicar muito bem. Mas no outro dia foi diferente. Vi-me a braços com o próprio forno a lenha pela primeiríssima vez. Deixaram-me os paus a arder e foi tudo.
Aflita, liguei à minha sogra para me vir acudir. Não podia...mas explicou-me ao telefone o que tinha que fazer: - Quando já não houver fogo nenhum, pegas no rodo, tiras as brasas quase todas e deixas só um montinho à porta do forno para não deixar fugir o calor. Depois lavas o chão do forno duas ou três vezes com um trapo preso à ponta de um pau e de seguida metes o pão, que isso já tu sabes fazer.-
Anotei tudo mentalmente. Não me parecia difícil. Dois segundos depois a minha sogra ligou de novo.
- Ana?-
- Sim?-
- Tens que vez se o forno não está demasiado quente antes de pôr o pão!-
- E como faço eu isso?-
- Atiras um punhado de farinha lá para dentro. Se a farinha queimar instantaneamente tens que lavar o forno um pouco mais, caso contrário pode queimar logo tudo.
Respirei fundo. "Tu consegues, Ana!" E, claro, consegui. Mas confesso que o momento alto foi o do teste da farinha, que atirei com poderes de anjo a fazer os seus milagres. Talvez seja por isso que, no fim da odisseia, elevei um pão aos céus a pensar: "Aqui está ele: o pão que um anjo amassou..."

Ana Amorim Dias

100%

100%

Eu estava a pintar os olhos e, vinda do nada, ouvi de novo a conversa de ontem à noite.
- Estás a pensar vir cá esta semana?-
- Em princípio, sim, claro. Só não sei em que dia.-
Avancei para o rímel e, enquanto dava volume às pestanas, tive uma revelação: num só segundo revisitei inúmeros dos meus encontros semanais com ela, e percebi que volto sempre da sua companhia com uma alegria inexplicável agarrada ao meu humor. É como se fosse magia. Magia e muito amor.
- Faço cem quilómetros para ver a minha mãe -, penso ao passar o batom - mas, de alguma forma, parece que vou mesmo aqui ao lado.-
Visto o casaco e saio de casa com os meus ensonados filhos. Enquanto entro para o carro, olho-os e pergunto-me: "será que já percebem que eu também sou 100% amor e 100% magia?"

Ana Amorim Dias

13.1.13

Os homens precisam de proteção

Os homens precisam de proteção

Se houvesse um medidor de sensibilidades quem é que ficaria no topo da lista? Se se fizessem estudos gerais, cientificamente comprovados, seriam os homens ou as mulheres a ser considerados os mais sensíveis?
Sobre essas eventuais conclusões apenas me posso permitir divagar, já que desconheço a existência de tais estudos. No entanto a análise empírica que os anos e a atenção ao comportamento humano me têm revelado é que os homens são tão sensíveis como as mulheres, senão mais.
Os homens também se emocionam, entristecem, desesperam e caem por dentro. Os homens também têm inseguranças, conflitos interiores, dores escondidas, traumas, medos. Os homens também sentem falta do "amo-te", do "não te preocupes", do "eu protejo-te" e, sobretudo, do "chora, não faz mal chorar".
Esperamos que os nossos maridos, namorados, pais, filhos, irmãos e amigos sejam fortes. Esperamos que estejam sempre bem, sorridentes, protetores. Esperamos não ter que lidar com as suas sensibilidades, fraquezas e lágrimas, porque esses atributos era suposto serem direitos só nossos.
Os homens são privados pela natureza do super poder de parir, e são castrados pela sociedade do seu direito à sensibilidade e suas manifestações. Eles têm o azar de não poder chorar, ter ataques histéricos e esconder-se depois atrás de tensões pré menstruais. Quanto à privação que a natureza lhes trouxe, nada há a fazer. Mas o direito à sensibilidade tem que ser por eles resgatado, de preferência com o nosso incentivo e, claro, sob a nossa proteção.

Ana Amorim Dias

Equilíbrio

Equilíbrio

Once upon a time, há muitos, muitos anos...
Tinha eu acabado de tirar a carta e tive que levar o carro sozinha numa curta viagem. Na noite anterior custou-me a adormecer. Imaginei uma e outra vez os pontos do percurso em que teria de parar em subidas. Tentei prever como faria algo que ainda não dominava: o ponto de embraiagem.

O ponto perfeito de um corpo está no exato meio caminho: nem gordo nem magro.
A elegância situa-se no ponto preciso que concilia a sensualidade com o recato.
E os homens querem-se extremamente sensíveis... na sua masculinidade, enquanto as mulheres devem ser divinas, mas sem a postura de divas.
As pessoas mais atraentes sabem estar a meio caminho entre a sensatez e a loucura; entre a inteligência e a inocência.
As pessoas mais sábias conseguem ter uma maturidade infantil, uma seriedade humorada e uma divindade animal.
Queremos partilhar a vida com quem seja generoso, mas não ganancioso; com quem nos ame apaixonadamente mas sem nos querer possuir; com quem seja atento mas não controlador; seguro mas não detentor de excessos de confiança.
Somos mais felizes ao ser sensíveis sem ser piegas; humildes, mas grandiosos; atentos mas distraídos e fortes nas nossas fraquezas.

Domino o ponto de embraiagem há quase duas décadas, como o domina bem quem muito guia e gosta de o fazer. É ao conduzir-me pela vida que vejo que as coisas não são assim tão simples. O equilíbrio é uma conquista constante, diária, sofrida, feita no esforço de aprender a manter-me no ponto certo entre dois extremos.
Sim, acredito mesmo que equilibrado é quem domina o ponto de embraiagem da vida!

Ana Amorim Dias

11.1.13

Lucidez

Lucidez

- Mãe, tens ali lugar.-
- Aquele é para deficientes, João.-
Silêncio.
- Mãe?-
- Huum.-
- Os deficientes podem parar nos lugares todos?-
- Sim meu amor, desde que não sejam lugares proibidos.-
- Mãe?-
- Huummmmm!?-
- ... Eu sou deficiente?-
- Não, João! Tu tens todas as capacidades corporais e mentais.-
Acabei por estacionar e acompanhá-lo com os olhos no seu caminhar para a escola, mas o estupor do puto deixou-me a pensar, aliás como sempre faz.
Será que o défice de capacidades físicas ou mentais é que determina quem é ou não é deficiente? Ou será o défice de ternura, lucidez, e capacidade de amar, entender e perdoar? Não tenho a mais pequena dúvida: deficiente é apenas quem tem défices na mais básica estrutura interior que o ser humano deve ter: um grande coração.
Obrigada, João, por essa tua vozinha traquina e lúcida que é, tão amiúde, a voz da minha própria lucidez.

Ana Amorim Dias

10.1.13

Fascínio

Fascínio

Vi-o aqui, virtual, no meio de tantas outras caras. Não olhei apenas. Tentei ver. Ver para lá das barbas e das rugas. Ver para lá da pele pintada de sol e dos olhos de dureza cristalina. Tentei ver o que apenas posso imaginar: quem será; o seu percurso; as suas estórias; as pequenas e grandes escolhas que fizeram deste o seu olhar. E deixei-o logo entrar, altaneiro, no romance que agora escrevo. Não posso saber o que lhe deu este olhar, mas posso muito bem imaginar.

O Homem fascina-me completamente. Não este, todos. O ser humano em geral, transformado em indivíduo, é a mais fascinante maravilha que existe. Creio que é por isso que me apaixono por toda a gente, excepto talvez pelas poucas pessoas que conseguem a difícil tarefa de ser totalmente desprovidas de interesse.
E, ao concretizar estes pensamentos, percebo melhor a minha sorte. Percebo que esta afortunada paixão é o que me faz conseguir ver em vez de apenas olhar; percebo que esta compulsão pelos outros é o que me constrói e dá a capacidade de entender, não julgar e amar quem conheço e não conheço. É por isso que escrevo, mais que tudo, sobre pessoas, sobre vida. Porque o meu maior fascínio é, sem a mais pequena dúvida, o Homem.

Ana Amorim Dias

9.1.13

Orgasmo universal

A humanidade precisa de se vir. Mais, muito mais.
Vão perdoar-me a franqueza e o vocabulário, mas se em Tribunal os factos devem ser expostos clara e taxativamente, não vejo motivo para que tal não aconteça aqui também.
A frase que acompanha a fotografia não é minha, contudo, assim que a li, decidi que lhe queria fazer uns breves acrescentos.
"São poucos os problemas que um orgasmo não consegue resolver." Tão simples quanto isto! Para quê complicar mais?
Não importa se sozinhos ou acompanhados; se de forma simples ou mais rebuscada; se de noite ou de dia; o importante é que cada pessoa saiba ouvir e respeitar as necessidades do seu corpo. Há quem coma mais e quem tenha menos apetite. Há quem durma muito e quem se baste com poucas horas. O que não acredito que haja é pessoas sensatas e de bem com a vida...sem comer nem dormir.
Às vezes, perante pessoas demasiado irritadas, dou comigo a pensar: "Oh minha senhora, vá-se vir." ou "Caro senhor: já lhe fazia bem um orgasmo, não acha?" Se calhar é por isso que as pessoas se mandam foder umas às outras. Se virmos bem não é uma ofensa, é um conselho sensato, valioso e apropriado, que vale bem a pena acatar.
Ora se a constatação dos benefícios de assíduos orgasmos, na vida de cada indivíduo, é inegável, acredito piamente que a humanidade daria um enorme salto qualitativo se cada um dos seus componentes aprendesse a respeitar melhor as necessidades do seu corpo. Embora o chavão "make love not war" me pareça demasiado redutor, tenho a certeza absoluta que muitos dos problemas do mundo se começariam a atenuar se cada ser humano contribuísse, fazendo a sua parte.
Agora dêm-me licença que tenho de ir ali ajudar a salvar o Mundo.

Ana Amorim Dias


8.1.13

Provar o Mundo

Provar o Mundo

Cinco dias por semana. Sempre pela fresquinha. Dez quilómetros de retas e curvas, forradas de verde se o ano é de chuva. Um rebanho de ovelhas, duas ou três perdizes. Umas galinhas à solta e um casal de pavões na rotunda do Rio Seco. E quando o verão se aproxima: lagartixas, uma ou outra cobra e atenção redobrada para não esborrachar algum adorável camaleão. E vacas, também há vacas.
Carros? Depende. Entre cinco e quinze. Incluindo tratores e motinhas-camião.
Amendoeiras. Alfarrobeiras. Estevas. Umas pequenas hortas os meus preferidos, os paus de pita, que ganha quem contar mais.
Companhia? A melhor: dois fedelhos ensonados, uma banda sonora boa e os pensamentos matinais que me brotam das entranhas como géiseres inflamados.
Mas o ponto alto são os pedaços de caminho em que o sol me atinge de frente, num óbvio convite a saborear a vida.
"O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído", canta o brasileiro na rádio. "O sabor do Mundo vai-me chegar, enquanto eu o quiser provar", canto eu, de frente para o sol.

Ana Amorim Dias