(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

1.8.12

E lá vai a caravana



   Ia a passar e ouvi-a, desde o  seu alpendre, a falar com uma tal fúria que me deixou espantada. Gesticulava e dava rédea solta à indignação que a consumia,  perante o olhar atento do resto da família.  Nem parei,  apesar de os conhecer  a todos e gostar imenso de cada um deles. Não parei porque há energias alheias que facilmente se “colam” à nossa pele, sobretudo se estivermos distraídos.
   É aliás bastante curiosa a maneira como (normalmente de forma muito pouco consciente)  nos deixamos levar por sentimentos de injustiça, raiva e ódio.  Quem não anda bem “centrado” no fio de prumo da sua sabedoria interior, facilmente cai na armadilha dos maus sentimentos que se coroam com vitimizações e planos de vingança que se cozem em fogo lento:  exatamente o mesmo fogo lento que passa a corroer as entranhas de quem lhe vai dando lenha e deixando sempre arder.
   Nos últimos dias, perante uma injustiça de que, a par com outras pessoas, fui alvo, tenho constatado com muita admiração que pessoas que em nada foram afetatadas têm deitado muita “lenha para a fogueira” num movimento de apoio indignado contra a injustiça ocorrida. Observo, com um sorriso na alma, o espanto das pessoas ao perceberem que por mais lenha solidária que mandem ela não consegue atear o fogo. E o motivo é tão simples: quando não há fogo pode-se mandar toda a lenha do mundo para a pira que ela não arde e pronto!
   Perante as injustiças, dificuldades, ofensas e toda a espécie de pedras que nos possam surgir pelo caminho, uma coisa vos garanto: vitimizações, ódios, raivas e desejos de vingança, não levam a lado nenhum. Por outro lado, apagando o inicial fogo interior de tais sentimentos e atitudes, voltamos à serenidade e readquirimos a capacidade de virar a nossa energia para  o lado certo: e é nesta viragem energética que soluções maravilhosas nos surgem. Sem ódios nem raivas, os cães podem ir ladrando mas a caravana, essa, vai seguindo o seu caminho… por caminhos ainda melhores.
   Ana Amorim Dias

30.7.12

Que tipo de sogra serei?



Que tipo de sogra serei?

    Há uns dias, no duche, comecei a pensar sobre que tipo de sogra serei. O tempo passa num instante e isso ficou comprovado pela nostalgia com que os meus filhos ficaram depois da partida de duas amiguinhas que passaram umas semanas cá na quinta.
    A minha primeira conclusão foi que vou ser uma daquelas sogras espetaculares, que ninguém vê nem ouve; daquelas que são leves e não se metem em nada. Mas, ao avançar na divagação, não pude evitar imaginar o que farei se me calhar uma daquelas miudinhas irritantes e afetadas, que falam com a boquinha meio fechada e acham tudo uma seca. E se o Tomas ou o João se apaixonarem perdidamente por aqueles “pãezinhos sem sal”, com quem nada me identifico, que têm medo de tudo e não gostam de nada; daquelas que se aborrecem por a praia ter areia, o sol dar calor e o dia ter claridade? Se me calhar uma “mosquinha morta” serei uma sogra assim tão leve como pretendo ou deixarei que a minha irritação se note?
    A verdade é que o João, com o seu espírito vivaço e jeito de Don Juan, provavelmente vai andar a esvoaçar de flor em flor sem se prender muito a nenhuma. Quem me preocupa mais é o meigo Tomás, que já antevejo capaz de uma só exaltada paixão, coroada por muito sofrimento de amor. Que farei eu se lhes partirem o coração? Devo avisá-los desde já que nunca devem amar mais do aquilo que são amados? E como os ensinaria a medir tais desvarios da alma?
    No fundo a pergunta resume-se a isto: como se preparam os filhos para o amor? Como se pode explicar-lhes que amar é a apoteótica sublimação de toda a nossa existência mas que, por isso mesmo, é também um caminho mais perigoso e sofrido do que qualquer outro que se possa tomar? Como se ensina um filho a usar a única droga ancestral que tanto pode levá-los ao céu como fazê-los viver no inferno?
    Não tenho respostas para estas perguntas e creio que jamais as terei, apenas sei que compreenderei bem o que quer que venham a sentir e lhes conseguirei dar um bom colo quando o circo dos seus sentimentos arder nas labaredas ardentes da paixão.
    Quanto à sogra que vou ser… bem, não vale a pena preocupar-me muito com isso: daqui a breves anos já terei a opinião de quem se poderá pronunciar.

Ana Amorim Dias


29.7.12

De cabeça



    O tempo tem estado ventoso e, embora o mar esteja quentinho, a vontade de ir a banhos é roubada pela frescura que à beira de água se faz sentir.  
     Hoje, com a pele toda arrepiada, quase cedi à falta de vontade de me submergir por inteiro. Hesitei uns segundos: passos para trás e para os lados;  ombros encolhidos até às orelhas; saltinhos  nas amostras de ondas que teimavam em molhar-me o umbigo.
- Mas afinal és uma princesa do mar ou uma florzinha de estufa, pá? – Perguntei-me, já impaciente com tamanha mariquice.  E, em resposta à provocação que a mim mesma dei, lá mergulhei de rompante. E de cabeça, claro.
    Sempre disse que ir à praia e não tomar banho é como ir à discoteca e não dançar; é como andar de carro sem guiar ou ir ao aeroporto sem apanhar o avião. Ir à praia sem dar um mergulho no mar é como ir à feira de Abril, em Sevilha, e não pertencer, pelo sangue ou amizades, às casetas onde a manzanilha corre a rodos e se respira a tradição das mãos que bailam mais que todo o resto do corpo. Em resumo: ir à praia e não sentir o fresco abraço do  mar é ter  apenas meia experiência  e viver só por metade.
   Há pouco não sucumbi  ( porque raramente o faço ) à tentação de deixar  a vida  a meio mas, no momento em que vi o mundo como o vêem os peixes, percebi que era esta a mensagem que queria hoje deixar: valerá a pena viver sempre a meio gás? Não deveriamos estar mais conscientes de tudo aquilo que perdemos por não querermos sentir a água fria no lombo? É que viver só por metade não tem piadinha nenhuma, sobretudo se deixarmos a vida a meio quase todos os dias.
   Já estão a ver o que aí vem, não estão? É isso mesmo: o convite para deixarem de lado o frio e se atirarem… de cabeça, claro!
Ana Amorim Dias

27.7.12

Os senhores do lodo



      Aos seis anos decidi que queria ser advogada e sei bem porquê: antes de levar a cabo as minhas patifarias, preparava logo o  discurso de legítima defesa com uma tal convicção que toda a culpa e ilicitude eram  liminarmente retiradas às minhas ações.   Achei que tinha jeito para a coisa e lá passei os anos seguintes a tratar de entrar para a Clássica e, depois, a estudar para de lá sair.   Durante toda a infância e juventude pensei que ser uma lutadora da justiça era uma coisa muito bonita de se ser.
      Não sei qual foi o momento em que percebi que a justiça é quase uma utopia, a menos que lutemos por ela por meios pouco ortodoxos.  E também não sei com que idade comecei a olhar para certas leis e a pensar: “ Mas que raio?... Estes legisladores terão o cérebro nas unhas dos pés ou terão vindo de algum planeta distante?”.   Porque a verdade é só uma: há  legisladores (e corja que aprova certas leis se calhar sem perceceber sequer o que está a validar) que não vivem no mundo real.  Juro-vos que é a única explicação que encontro para as gargalhadas que dou ao ler regras, regrinhas e regretas que fazem o País tropeçar nos próprios pés sem ter oportunidade de se levantar sequer!  É absurdo! Quando vão perceber que esta diarreia legislativa só serve para travar o desenvolvimento económico, social e cultural do País?   Quanto mais legislarem cada respiração que damos, menos ar nos chega aos pulmões, é assim tão difícil de perceber?
   Outra coisa que eu pensava é que os políticos serviam para governar as nações e zelar pelo interesse comum. Coitadinha… as crianças acreditam mesmo em contos de fadas. Os únicos políticos sãos de quem já ouvi falar,  ou morreram assassinados ou passaram décadas presos.  Depois temos os outros, que só chegam ao poder por serem corruptos e só lá conseguem permanecer por pagarem bem os favores. Não importa se de direita, esquerda, centro ou extremos,  a podridão é toda a mesma. Pavoneiam-se no seu pedestal de poder e pactos de senhores do lodo, sem perceber o quão repelentes são.
   Entretanto, do outro lado da barricada, trabalhadores e empresários, já de joelhos e lombo dorido,  vão continuando a carregar às costas todo o peso do país; vão continuando a ceder a todas as infâmias e vergastadas sem se atrever a contrariar os lacaios formatados dos senhores do lodo, todos esses políticos rastejantes que desde há muito têm vindo a deixar o País neste maravilhoso estado.
   Talvez todos os trabalhadores continuem calados com a perda de direitos há muito adquiridos;  talvez nenhum empresário  faça nada contra as trezentas licenças e obrigações a que tem de dar resposta para poder produzir; talvez ninguém mais coma bolas com creme na praia  nem se chateie por o nível de vida estar cada vez mais calamitoso. Talvez ninguém se importe por haver carros de centenas de milhares de euros a ser comprados para os chulecos do poder,  e haver idosos que não têm para comer depois de terem sustentado o país durante toda a sua vida. Talvez ninguém se importe por não haver dinheiro para pagar a enfermeiros, professores, bombeiros e tantos outros  que trabalham,  por vezes,  mais por serem bons seres humanos do que pela miséria que ganham.   Talvez ninguém se importe com a estupidez que é ter que  instruir os filhos a pedir fatura a cada chupa que comprem pois podem (quem sabe?) vir a correr o risco de ser presos…
  Ou talvez toda a gente se importe e apenas ninguém saiba como agir. Porque aguentar as pauladas dói, mas reagir a elas dá medo…  
   Aos seis anos quis ser advogada e sabia bem o porquê. Hoje sou escritora e ainda percebo melhor as razões: porque posso dizer o que quero ( vamos lá ver até quando...?); porque posso não calar   o que sei e aquilo em que acredito  e  para, entre muitas outras coisas, vos dizer aqui e agora que todos vocês se importam com todas as questões  que acabei de focar! Então pensemos bem em tudo o que, serena e tranquilamente, está nas nossas mãos  fazer para deixarmos de ser uns completos bananas!!
  Ana Amorim Dias
   

25.7.12

Brilha-me o sol no pescoço




    Cheguei às bilheteiras pouco depois das dez. Contra o que é meu costume, não planeei absolutamente nada. Apenas sabia que era daquele local que saíam os barcos que, após cerca de uma hora a atravessar o rio de la plata, aportavam na Colonia del Sacramento, Uruguai.
   Após uns dias a sós em Buenos Aires pareceu-me boa ideia ir investigar o que se passava do outro lado do rio e “conhecer” um cheirinho de outro país mas, por não ter estudado a lição, o barco das nove já tinha partido há muito e o do meio dia já não me permitiria aproveitar bem a visita.   Embora pouco satisfeita, foi sem hesitar que alterei de novo os planos e rumei para o jardim japonês, para a floris generica e para o túmulo da Evita.  Deambulei, errante, por diversos pontos da bela cidade de Buenos Aires, absorvendo tudo com a paixão que em todas as viagens me move, mas também com o sabor algo amargo de ter deixado escapar a oportunidade de dar um saltinho ao Uruguai.
  - E agora? Como torno este dia memorável? – Dei por mim a pensar, para me recompensar da perda.   Não demorou muito tempo até algo memorável acontecer. O táxi que apanhei para regressar ao hotel, ficou retido a poucos quarteirões devido a umas manifestações populares que estavam a ter lugar junto ao Obelisco, pelo que decidi fazer o resto do percurso a pé. Ao caminhar vi uma loja de tatuagens e, como que sem vontade própria, entrei.
- Buenas tardes! Como puedo ayudarla? – Quis saber a simpática senhora.
- Quero um sol. – Respondi no meu castelhano muito europeu. – Pode ser já?
- Como no? – Respondeu ela na mais típica forma que os argentinos têm para dizer que sim. –
  Escolhi o meu sol e o local para o pôr: no lado direito das costas, logo abaixo do pescoço. Não demorei  meia hora a sair dali com o meu sol a brilhar-me também do lado de fora da pele. Sabia que um dia ia tatuar um sol a escorregar-me do pescoço, apenas não calculava que o faria em Buenos Aires e  para me consolar por não ter ido ao Uruguai.
   Só mais tarde me lembrei do sol que brilha no centro da bandeira Argentina e não pude deixar de sorrir: fico com a sensação que tudo se reveste,  para mim, de um sentido bem mais profundo. Lembrei-me disto hoje porque me torci em frente ao espelho espelho e,  mais que senti-lo em mim, vi de novo  o sol a brilhar-me no pescoço.
Ana Amorim Dias

23.7.12

O polvo



    Não sei porquê, acordei com a palavra “azimute” a saltitar-me no pensamento. Além de ser uma medida de abertura angular usada nos meios náuticos, “azimute”, para mim, é nome de barco. Deve ser por isso que o pensamento seguinte me caiu no “Charrama”, o barquito do meu pai que, nos meus tempos de criança, transportava toda a família ( mais o cão, o piriquito e o aquário com os dois peixinhos vermelhos) para  acampar na ilha do Farol.   Daí a lembrar-me do episódio do polvo foi um salto.
   A verdade é que eu era tão pequenina que  não guardo memória da ocorrência, mas tantas vezes  a ouvi, narrada pelo meu pai, que se me formaram imagens de tão singelo momento. Íamos os três no “Charrama”:  eu , o meu pai e o meu irmão e, a certa altura, o meu pai apanhou um polvo tão grande que eu, apavorada com a maquiavélica aparência dos tentáculos do animal, comecei a chorar de medo. Para que o susto me passasse, o meu pai segurou-o do lado de fora do barco  e o bicho aproveitou o momento para se esgueirar de  novo para o mar.
  Houve alturas em que cheguei a pensar que o meu pai tinha ressentimentos comigo por ter sido a minha birra a fazê-lo perder tão possante animal. Mas não. Não era ressentimento. Era apenas uma história que contava com o doce sabor da  proteção paternal a envolver-lhe as palavras. É que, percebi-o agora,  ele teria deitado fora todos os polvos do mundo só para não me ouvir chorar.

Ana Amorim Dias

22.7.12

Ouvi com os meus próprios olhos!



   Ia eu a guiar,com os meus dois anjos no banco de trás, quando oiço o Tomás a rematar a ocorrência que tinha acabado de me narrar: - Juro que ele disse isso,  mãe! Eu ouvi com os meus próprios olhos!! –
    Rebentei em gargalhadas  e ainda o ouvi perguntar: - Vai dar crónica, não vai mãe? -  Mas não lhe respondi porque fiz uma travagem (suave) para não matar um camaleão que seguia, sereno, o seu caminho.   Liguei os piscas, encostei o carro à berma e disse aos meus caçadores para apanharem o animal para repovoarmos a Quinta pois já há algum tempo que não  viamos por lá nenhum Tobias ( todos os camaleões da Quinta são batizados assim, mas não me perguntem porquê).
   Sucedeu que nem um nem outro se sentiram  confortáveis com os ferozes sopros do Tobias XVI, que se escapou para debaixo do carro. Arrancámos de novo, devagarinho, e o Tobias XVI lá saltou. Voltei a parar, a ligar os piscas e a enviar os meus caçadores de dragões naquela difícil missão. Mas,  para grande espanto meu,  faltou-lhes a coragem e lá tive eu que sair do carro e agarrar o animal pelo lombo. Meti-o dentro da mochila do lanche do João para o soltar no pinheiro mais próximo de casa, onde estavamos quase a chegar.
- Mas vocês, dois moços do campo, tão safos e corajosos, não tiveram capacidade para apanhar um mero camaleão?!?  Nem parece vosso, meninos! – Ralhei eu, genuinamente desapontada.  – Parece mentira, ter sido eu a apanhá-lo! –
- Óh mãe… Tu és mesmo nossa mãe! – Disse o Tom,  muito orgulhoso.   
  Juro que me deu este perfeito elogio. Juro porque eu ouvi… com os meus próprios olhos!
Ana Amorim Dias

21.7.12

Traficante de creme




    Numa época em que a crise obriga a novas ideias de negócio, ocorreu-me que há um filão a que me devia dedicar.  Todos sabemos que as bolas de berlim sabem bem é na praia, sobretudo se estiverem quentinhas e bem recheadas de creme. Contudo as autoridades higiénicas lembraram-se, logo  no início do auge da época balnear, que comer cremes na praia representa um perigo imenso para o bem estar da nação. Vai daí começaram a multar todos os vendedores de bolas, essas pessoas de bem e de trabalho, que estoicamente galgam as praias sob um sol escaldante  distribuindo o delicioso sabor das recheadas bolas,  como se fossem malfeitores responsáveis por grande parte dos males que afetam a humanidade.
    E é então que nós, comuns cidadãos,  que apenas pretendemos  esquecer, entre mergulhos no mar, toda a crise que nos afeta, nos deparamos com o ar apavorado dos vendedores de bolas ao fazer-lhes  o singelo pedido: - São três bolas com creme se faz favor. -   Eles olham para nós como se estivessemos a pedir-lhes que nos fornecessem cinco gramas de cocaína e então, com todo o cuidado, olham em redor e dizem em surdina: - Passo por aqui às quatro horas, mas peça apenas “das outras” e baixinho de preferência! -
   Por volta das quatro da tarde, todos estamos alerta para a chegada do “dealer” que, sorrateiro e a medo, nos “passa” as benditas bolas com creme como se um crime estivesse a ser cometido. Vejo o ar deliciado das crianças que, como verdadeiros “agarrados”, se deliciam com o proibido produto e não consigo evitar perguntar-me se não faria muito dinheiro a embalar creme de bolas de berlim em doses individuais, vendendo-as depois, à candoga,  pelos nossos areais…
   Mas não, decido não enveredar por uma carreira de traficante de creme, no entanto não me conformo com o facto de continuarmos a ter autoridades tão estúpidas.
Ana Amorim Dias
  
  

20.7.12

O fogo de todos por todos



    Nos poucos dias em que levo sombrinhas para a praia,  adoro ficar mesmo perto do mar mas hoje acho que abusei. Não medi bem a subida da maré que, ao fim de algum tempo, se começou a aproximar perigosamente da exagerada quantidade de coisas que trouxemos. Iniciei então a contrução de um dique de areia,  obra a que os outros três adultos e cinco crianças se juntaram. Rapidamente tinhamos uma contingência de construção semimegalómana a dezoito mãos. Um arrepio emocionado percorreu-me a alma: a bricadeira interativa entre nós, o mar e a  areia ganhou um sentido mais profundo que me lembrou da importância suprema da entreajuda.
   Enquanto íamos construíndo os três diques sucessivos para proteger o “forte”,  fui olhando para a assustadora nuvem de fumo que se mantém  a oeste, vinda do enorme fogo que continua a lavrar a norte de Tavira. Ao vê-la não é alma que se me arrepia, é mesmo a pele. Há oito anos, exatamente por esta altura, vivi a experiência mais assustadora da minha vida. Ficou-me gravada a fogo, um fogo que ardeu lá na  quinta e que se continua a acender em medo de cada vez que o perigo ardente se aproxima.  De tudo o que de mau já vivi, tenho a certeza que este episódio foi o único que até hoje ainda não consegui superar e “resolver”, não obstante ter-me trazido a certeza de que não fico parada perante nada.  Apesar da passagem dos anos não terem apagado em mim o ardente medo do fogo descontrolado,  mantenho a memória de todos quantos se juntaram àquela terrível luta, porque foi nessa noite que aprendi que há quem venha para ajudar; há quem, sem esperar nada em troca, dê mostras inesquecíveis de altruismo e solidariedade, que nada mais são que outras formas de amor ao próximo.
   Os três diques de nada serviram contra a força do mar crescente e acabámos por ter que mudar a parafernália toda uns bons metros mais para cima, mas creio que as cinco crianças se aperceberam bem do valor do “todos por todos”. Às vezes as lutas que travamos não bastam para proteger o nosso “forte” mas, enquanto a solidariedade e amor ao próximo existirem, existirá sempre também a força para nos voltarmos a erguer das cinzas. 
   Por tudo isto não posso terminar sem referir que o meus pensamento e orações estão com todos os que, neste momento, se encontram a lutar,  “ todos por todos”,  contra as chamas.
Ana Amorim Dias

17.7.12

Cartagena


    Quando o avião se começou a fazer à pista tentei visualizá-lo de novo. Não me lembrava de ter entrado em nenhum hidroavião e estava prestes a aterrar no meio da água. A pista apareceu finalmente e só recordo que a primeira impressão de Cartagena de Indias, na Colômbia, foi diametralmente oposta à ideia com que de lá voltei. Inicialmente pensei que criara expetativas demasiado altas pois tudo era banal e sem graça mas,  à medida que o taxi se ia aproximando da velha Cartagena, fui-me deixando deslumbar.
    As memórias estão já vagas pois muitos anos se passaram e, nessa época, nem existiam iphones nem eu sabia ainda que era escritora e que devia registar  com palavras  cada sensação à medida que as ia sentindo. Mas ficou-me gravada a beleza quase sobrenatural do fundo do mar nas Islas del Rosário; ficou-me marcado o sentir dos cheiros, da atmosfera, dos sons e sabores. E ficou-me uma imagem:  a entrada do clube de vela, à noite, onde já não me recordo porque não cheguei a jantar.  Creio que passámos lá de charrete, a caminho de qualquer outro destino onde a noite já estava planeada.  A imagem daquela entrada de vegetação tropical e contornos coloniais, coroada pelas velas e tochas que ardiam oscilantes sob a suave brisa quente, está tão nítida em mim como se a estivesse a ver neste momento. Talvez por isso não me tenha esquecido da promessa que me fiz de lá voltar e não deixar de jantar no clube de vela…
   E agora que me lembro de tudo isto uma nova ideia me surge: é que viajar é como amar,  por melhor que se escreva não há palavras que descrevam estes dois estados de espírito.
Ana Amorim Dias

16.7.12

A árvore




   Uma das características  mais bem marcadas do Homem é a sua tendência para ir acumulando coisas ao longo da vida. Esta tendência pode fazer-se sentir em vários graus e, se alguns são acumuladores patológicos, outros existem que quase não evidenciam a vontade de ir guardando.
   Eu sou louca por colares. Tenho  preferência por aqueles que são únicos, rústicos;  em que a alma do artesão fica um pouco lá  impressa  e a estória do objeto é muito maior que ele.   Não sou colecionadora de colares; apenas vou guardando  cada um deles com um carinho muito especial porque todos têm um significado fantástico;  muitos deles vieram de alguma recôndida parte do mundo, imbuídos das memórias que guardo dessas viagens ou do amor de quem mos trouxe. Tenho um,  dos povos Mauberes, trazido pelos meus pais; tenho outro de contas milenares,  de uma tribo da américa central, oferecido por uma mulher que eu jamais esquecerei:  mora do outro lado do mundo e dois colares iguais tinham-lhe sido oferecidos  pela avó  para que os desse às suas filhas…
   Há tempos decidi organizar mais condignamente os colares/estórias que tenho acumulado. Pendurei alguns nesta árvore seca que, na sua simplicidade, os consegue valorizar.  Gosto de ficar no meu quarto, perdida nos pensamentos, a olhar para a árvore sagrada dos colares/estórias: e acabo sempre por sonhar com  a capacidade de desenvolver  em mim uma árvore sagrada que dê para pendurar todas a as minhas memórias.
Ana Amorim Dias

15.7.12

Depressa e quente




   Ainda no seguimento da crónica do domingo passado, sobre a alegria no trabalho, partilho hoje esta fotografia de colaboradoras/amigas a fazer uma pausa em pleno casamento.  Quando se trabalha muito e se tem o à vontade de pausas dignas de grandes  “dondocas”, tudo acaba por ter uma eficiência superior.
   Mas o que mais me marcou no dia de ontem foi quando a Cristina, a cozinheira, que  não aparece na foto porque é uma daquelas máquina de guerra que não precisa de comer nem de descansar, se virou para mim, enquanto o jantar estava a ser servido, e me disse com má cara: - É depressa e frio  ou  mais devagar e quente! Tens que escolher! Não podes ter depressa e quente!! –
  Confesso-me: gosto que os convidados dos casamentos que me contratam sejam servidos com comiga farta e  gostosa. E tento certificar-me sempre que não tenham que esperar. Nada! Detesto esperar, mas creio que odeio ainda mais deixar pessoas à espera. Sobretudo pessoas cujo bem estar me foi confiado.
   Mas voltando à cozinha e à cara de má da Cristina: quando esta maravilhosa e destemida mulher, me faz cara de má, sei bem o que se esconde por trás! É uma cumplicidade e admiração mútuas que fazem com que os maus feitios de ambas, nos momentos de maior stress, sejam uma mera gota de água num oceano de entendimento que se coze sem palavras. Foi por isso que quando me ralhou eu dancei. Dancei para ela e dei-lhe o meu maior e mais aberto sorriso, a dizer-lhe com toda a energia que o meu corpo emite que os impossiveis não existem. Ela tentou manter a má cara. E conseguiu. Mas os anos que já passamos juntas permitiram-me saber que por dentro ela sorria.
Querida Cristina, tenho algo a dizer-te: servir duzentas ou trezentas  pessoas com rapidez e comida bem escaldante não é nada de outro mundo. Sobretudo se formos nós as duas a encarregar-nos disso!
Ana Amorim Dias