(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

19.1.12

Itaipava


Já vos falei do Vítor, amigo do meu pai, que apenas vim a conhecer depois da sua partida. Mas nunca partilhei convosco o seu tesouro: a Micá ( Maria do Carmo de batismo), com quem partilha  a vida desde que, nos seus cinquenta e muitos anos, se conheceram e apaixonaram.
   Também eu estou apaixonada por ambos. Pelas suas manifestações constantes de mútuo carinho e pelas estórias, profusas e fantásticas, que debitam com a inteligência e graça da gratidão com que celebram cada novo dia.
   Na sua casa, perto de Itaipava  (em nativo, o sítio da pedra que chora) estou em contato com uma natureza luxuriante, cheirosa e sonora. Na sua casa, estou em casa, num ninho de afetos tão quentes como o clima.
  E é por me sentir assim, tão feliz no meio de cheiros, visões e memórias contadas, que apenas me apetece fazer como os meus anfitriões: celebrar a vida, dia a dia, momento a momento, e absorver tudo,  num instinto quase sôfrego de inspiração colossal.
   Ana Dias

17.1.12

Partir


   Partir requer força.  Implica espírito de sacrifício e capacidade de lidar com o desconhecido.  Ficar é muito mais fácil. Não incomodamos ninguém quando não nos mexemos do sítio; não levantamos ondas nem semeamos ventos de tempestade. 
   Aceito quem não queira partir. Aceito quem aceita ficar imóvel. E até aceito quem, em tentativas vãs, me tenta impedir de partir. Entendo que  as pessoas são todas diferentes e que, por isso mesmo, têm visões distintas do Mundo, da vida e de si mesmas. Entendo que há seres que, apesar de serem grandiosos nas suas capacidades, se resignam ao espaço confinado da habituação.
  Partir requer força. Mas quem parte ganha sempre. Ganha a riqueza da conquista do seu espaço pessoal. Ganha  cultura e  experiências. Ganha os momentos inesquecíveis que compõem o puzzle da vida. E se querem saber, quem tem a força de partir, mesmo quando a tempestade está forte, ganha inevitavelmente o respeito de quem o queria fazer ficar…
- Ana, já acabaste ? – a minha mãe chega das lojas que tem andado a ver, enquanto esperamos pelo nosso voo.
- Espera, mamy, ainda me falta dizer uma coisa.  
   E o que vos quero dizer é simples: não sucumbam, por favor, a quem vos quer fazer ficar. A nossa vida é demasiado preciosa para que possamos permitir que outros a vivam por nós! Lembrem-se:  para partir é preciso força. E é essa força que nos vai trazer de volta como pessoas mais completas, inteiras e felizes.
Ana Dias
 

Saudades?



- Meninos, vão ter saudades minhas? –
- Vaaamos! – Respondem em coro,  com um tom de voz que não deixa antever qualquer tipo de sofrimento.
- Mas não tenham muitas, está bem? –
- Sim, mãe!
 Em véspera de partir para dez dias fora, tento assegurar-me que estão bem com a minha breve ausência, afinal eles próprios já foram viajar sem mim durante mais tempo que isto.
  Mas o tema das saudades deixa-me a pensar… Sei que um dia os meus filhos vão sair de casa. Talvez para estudar fora ou para viajar pelo Mundo. É a lei da vida. É assim que deve ser. As crias a sairem do ninho e a trilharem o seu próprio destino. Quero que vivam aventuras, conheçam muita coisa e se descubram a si mesmos.  Sei que quando esse momento chegar quero estar preparada para os ver partir. Sei que é provável que custe um pouco, mas amar é isso: é aceitar a saudade como uma benção magnífica.  Só o amor perfeito aceita a partida e  exulta o abraço à vida dado pelo outro.
   Acredito que estou a construir esse tipo de relação com os meus filhos. De parte a parte. Porque os estou a deixar perceber que as saudades são um reflexo do amor, enquanto ao mesmo tempo lhes demonstro que é possível torná-las suaves e boas.... por amor!
Ana Dias

16.1.12

Amores

  
 Lembro-me de ter cinco ou seis anos e fazer birras de ciúmes por achar que a minha irmã mais velha gostava mais do namorado do que de mim…
- Mas, querida… Há vários tipos de amor e tu nunca vais deixar de ser a minha maninha pequenina.  Por ele tenho amor de namorado e por ti,  amor de irmã.  Podemos amar muitas pessoas ao mesmo tempo! – Explicou-me pacientemente.
- Nunca vais deixar de me amar? – Perguntei eu, a reforçar o beicinho.
- Claro que não, querida. É impossível! –
  Esta conversa tem-me acompanhado sempre.
  Pouco tempo depois tivémos outra irmã. Uma de alma. E coração. Que me apareceu na vida quando ambas tinhamos apenas sete anos. Ontem passei o dia com ela. Falámos do passado, do futuro e do presente. Agradecemos o presente de nos termos. Celebrámos o facto de estarmos sempre presentes uma para a outra. Não fizemos juras de amor eterno porque não precisamos.  Apenas dissemos “amo-te”. Porque ambas sabemos que há vários tipos de amor. Amores invaciláveis que são ancorados por um entendimento quase sobrenatural.
   Há muitos tipos amor e muitas pessoas para amar…. Apenas não devemos esquecer que somos uma fonte inesgotável de capacidade de amar.
Ana Dias

14.1.12

Estrela cadente


   Olhei para a estrela cadente e atropelei-me em desejos. Numa fração de segundo, tive uma quantidade de pensamentos que não julgava ser possível em tão estreita moldura temporal. E quando a luz cintilante se desvaneceu na escuridão, apenas me sobrou a memória do mais lógico dos desejos: “ Quero ver outra…”
   O que me ficou da experiência? A perceção de que há momentos que devem ser vividos sem interferência da razão e do pensamento consciente… sob pena de não lhes saborearmos o valor antes que se esfumem num passado terminado. Só quando se vive cada momento sem interferências nem ruídos é que eles são realmente vívidos e vividos, não deixando atrás de si a necessidade de desejar uma repetição.
Ana Dias

12.1.12

I had a farm in Africa…



  Ontem passei o dia com a Meryl Streep a sussurar-me na alma.  “ I had a farm in Africa… I had a farm in Africa…” – Ouvia-a com a pronúncia dinamarquesa da personagem que interpretou,  com a sua indizível mestria,  no filme Out of Africa.
   Procurei no Youtube a sequência inicial do filme para tentar perceber o que tinha que ser escrito. E ouvi a sua narrativa inicial, embrulhada no som da magnífica melodia em que os violinos se destacam, enquanto percebia o que é que vocês merecem ler…
   Pergunto muitas vezes aos outros o que esperam eles da vida. As respostas, muitas vezes previsíveis, nunca correspondem ao que espero da minha. Talvez a responsabilidade seja do Sydney Pollack; talvez seja da própria Meryl Streep e da sua inesquecível pronúncia que se gravou em mim aos onze anos de idade. Ou talvez seja apenas porque, algures neste incrível percurso que é a vida, me tenha apercebido do que espero dela.  
   É,  por isso,  num tom profundamente intimista que vos digo, aqui e agora, que a derradeira expetativa da minha vida é tão simples quanto um cenário que crio na minha própria mente: vejo-me, na minha velhice, a escrever as minhas memórias. Quero fazê-lo ao som de uma épica banda sonora e encher páginas e páginas das mais incríveis e significativas estórias e descobertas. Vejo-me sentada, com vista para uma paisagem bucólica ( ou talvez marítima, logo se vê) a derramar em palavras toda a riqueza que acumulei: momentos. Talvez comece com  “ I had a farm in the Algarve…  e tive vislumbres do Mundo pelos olhos de Deus…”
   Por agora apenas vos peço que imaginem um momento igual. Imaginem-se com os cabelos brancos, a escrever as vossas memórias. E lembrem-se que estão perfeitamente a tempo de as tornar tão memoráveis quanto queiram…
Ana Dias
 
 

11.1.12

Enquanto esperamos por mesa…



- Não sei se conheces um provérbio muito nova-iorquino que diz que a vida acontece enquanto esperamos por mesa – Disse-me ele, ao telefone.
- Esse nunca tinha ouvido, não… - Respondi.
   Gosto de estar atenta a  perspetivas da vida em que nunca pensei. Frases que iluminam os factos com uma luz colorida. É em pequenos momentos, inesperados, que fórmulas mágicas nos assolam. Basta ter algumas  capacidades no “on”: ouvir, estar atento e querer pensar.
  Saber ouvir é uma virtude. Praticar a atenção é um exercício. E pensar… bem, pensar é um desafio a que ninguém devia fugir.
  Mas voltando ao fabuloso cerne  deste tema: a vida acontece mesmo ao minuto! Acontece enquanto esperamos por mesa;  enquanto esperamos pelo próximo combóio que nos possa levar ao vale encantado dos nossos mais selvagens sonhos. A vida acontece na estação, enquanto esperamos pelo alegórico trem do destino.
  Mas estaremos suficientemente atentos para  a ver acontecer? Estaremos despertos para a sentir a fluir? Não nos devemos esquecer que, enquanto esperamos por mesa e a vida acontece, também nos cabe a missão de escrever grandes estórias na página em branco dos dias…
Ana Dias



10.1.12

No dorso da vida


     A forma como as cavaleiras de antigamente montavam  os cavalos de lado,  sempre me fez uma confusão enorme.  Manter o equilíbrio em cima daqueles  dorsos altos e, simultaneamente, controlar os animais para fazerem o que queremos já é suficientemente difícil para ainda se ter de aumentar o grau de dificuldade com fórmulas  circenses. E porque montavam de lado, as mulheres? Por decoro? Para impedir a masculinização do “sexo fraco”, que se pretendia frágil e puro?...
  Nos dias que correm as mulheres já não montam de lado. Montam sentadas na sela da forma que a leis da anatomia, ergonomia e equilíbrio mandam. Qualquer mulher que o queira consegue fazê-lo: montar como um homem e, ainda assim, fazê-lo com toda a feminilidade e graça com que o tal par de cromossomas a brindou.
  E esta reflexão leva-me a outros atos. Há três indícios de atitude que me despertam a consideração por qualquer ser humano que os execute com constância: a sustentação do olhar;  o aperto de mão firme e a verticalidade na postura. Mas ainda os aprecio mais no género a que pertenço.
Uma mulher que caminha direita e se senta com postura; uma mulher que fala com as pessoas olhos nos olhos e que é capaz de um aperto de mão firme e seguro, reúne, à partida, os requisitos para ser uma grande senhora, uma grande pessoa! Cada vez mais me convenço que não é por fazermos coisas másculas que perdemos a feminilidade. É por as fazermos com hombridade e retidão que essas coisas  têm, em nós, um maior  valor e beleza.
Ana Dias

9.1.12

Factos


   Um dos professores que tive nas aulas de estágio repetia muitas vezes uma frase que consistia mais ou menos no seguinte:
- Por mais que o anos vos tragam o traquejo de estar na barra a divagar sobre a beleza das mulheres e os maravilhosos aromas da Primavera, o que vai importar sempre, espero que nunca o esqueçam, são os factos! –
E depois repetia, como que para nos hipnotizar:
- Factos, factos, factos!
De vez em quando lembro-me disto porque, por mais que em tribunal tudo o que importa sejam os factos (provados, claro está), nas demais circunstâncias da vida nem sempre são os factos que ditam as nossas sentenças.
E lembro-me de uma parte da vida, em particular, na qual os  acórdãos pouco ou nada se devem basear em factos. No amor os factos provados de nada servem. No amor apenas vale o sentimento. Parece-me claro que, no amor, quando deixamos que os factos ditem o veredito, ele sucumbe à razão e deixa de existir…
Ana Dias


8.1.12

Amigas


  Ele olhou para mim com um ar que não conseguia esconder o espanto. Não estava, provavelmente, à espera de me ouvir dizer aquilo. E eu continuava a tentar explicar-lhe qual de nós dois estaria na vida dela para sempre.
- Porque hoje és tu o homem que ela ama, mas amanhã poderás não ser… - Continuei, enquanto ele se contorcia levemente no seu desconforto.
- …Eu sei… - Respondeu-me.
- Sabes, quando eu estou triste, nos meus momentos de fraqueza e desespero, lembro-me das quatro mulheres da minha vida e um sorriso triunfante volta a invadir-me o rosto. Sinto o amor delas mesmo sem as ver ou ouvir. É uma espécie de ritual mágico que me devolve a consciência de que há um pequeno e poderosíssimo grupo de pessoas que me vão amar incondicionalmente até ao fim dos tempos.
- Eu não tenho isso… - comentou ele, com alguma tristeza no olhar.
- É por isso que te digo que, esteja ela com quem estiver e  faça o que fizer, há uma riqueza suprema  que a faz ser tão poderosa: sabe que tem quem a vá apoiar sempre em cada escolha e atitude… mesmo que não seja a mais correta. Ela, como eu, tem uma fortaleza para onde poderá sempre ir para se protejer e restabelecer das tempestades da vida… e essa fortaleza, são as verdadeiras amigas!
  Sei que este homem, cuja estrutura provavelmente abalei com tão sentidas palavras, é merecedor do amor da minha amiga. Afinal é um corajoso guerreiro que mantém “batalhas” diárias para ser feliz ao lado de uma mulher que de fácil trato pouco tem. Mas é bom que todos os homens saibam que qualquer mulher que tenha uma verdadeira amiga, supera tudo na vida!
Ana Dias

6.1.12

No banco de trás

   Há coisas  que às vezes ouvimos e nos marcam.  Coisas banais que, à partida, se poderiam apagar em nós,  mas acabam por ficar cá dentro e vir à superfície meses ou anos mais tarde.
  Poderão pensar que estou a falar de  palavras menos boas, ditas com más intenções, mas não é, de todo, o caso.  Refiro-me a palavras e conversas mesmo banais. Mas deixem-me explicar dois casos.
  Uma amiga, com dois filhos um pouco mais velhos que os meus, disse-me, já há anos,  que adorava ouvir as conversas que os seus rebentos tinham, entre si, no banco de trás do carro. Recordo constantemente a efusividade com que o disse porque também eu me tenho divertido imenso ( e aprendido muito ) com as conversas que o João e o Tomás têm tido  no dito banco de trás.
  Uma outra banalidade que ficou em mim retida, foram as palavras de uma senhora que, num programa de televisão, afirmou que adorava os filhos por a fazerem rir tanto. Marcou-me a forma como compôs o final da sua ideia: - Basta lembrar-me dos meus filhos para começar a rir!-
  Vou ser franca: sei que os filhos não nos fazem apenas rir. Os estupores fazem-nos gritar, desesperar e  preocupar. Dão-nos preocupações; exigem dedicação;  implicam esforço e fazem-nos “perder” muitas coisas como a barriga lisa e a despreocupada vida de quem não tem quem dependa de si. Mas não há nada que se compare àquele abraço que nos dão; ao beijo lambuzado ou ao olhar de quem ainda nos vê como o mais maravilhoso dos seres. Não há nada que se compare a ouvir que somos a melhor mãe do mundo só porque lhes compramos uma carteira de cromos ou deixamos comer o segundo gelado! Não há nada que se compare a imaginar o dia em que vamos ter um neto nos braços!
  E agora percebo o porquê se haver banalidades inesquecíveis… É porque as conversas que os nossos filhos têm,  no banco de trás do carro,  se podem tranformar numa das mais belas experiências da vida.
Ana Dias

5.1.12

A sós


   Quando é que uma pessoa se conhece verdadeiramente a si mesma? Na alegria ou na tristeza? Na tempestade ou na bonança? Em que preciso ponto da vida é que descobrimos exatamente que tipo de pessoa somos? Ou será que essa descoberta é um processo paulatino, resultante das nossas constantes escolhas? E será que, mais que escolher atitudes, podemos escolher o que sentimos?
   Perdoem-me a profusão de perguntas, logo pela fresquinha, mas há coisas em que vale a pena pensar.
   Tenho a firme convicção de que descobrimos o que nos define,  enquanto pessoas,  em duas situações em particular: nos momentos mais difíceis e nas viagens a sós. Percebemos as nossas capacidades e “lemos” a nossa essência quando enfrentamos as derradeiras dores da existência. E é nas solitárias viagens, (mais nas que escolhemos do que nas de trabalho) que conseguimos estabelecer um relacionamento verdadeiramente apaixonado com nós mesmos; que podemos desfrutar da nossa companhia, ver apenas pelos nossos olhos e dar provas apenas ao nosso interior.
  Tenho a firme convicção de que quem sai mais forte, otimista  e esclarecido dos períodos mais negros da sua existência, se torna num ser superior e capaz de quase tudo. E são apenas as pessoas que conseguem dar à vida o perdão absoluto pelas suas maldades,  que têm a capacidade de conquistar o mundo, a sós, ou acompanhadas, com amor por si e por tudo o resto…
Ana Dias