(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

3.11.11

Aborrecimento crónico



   Quem tem filhos sabe do que estou a falar.  A eterna incapacidade de se entusiasmarem, durante um período substancial de tempo, por alguma coisa. Os vários canais só de programação infantil, as playstations, nintendos, computadores e legos têm uma validade limitada. Dos trabalhos de casa nem se fala… é fazê-los rapidamente e fugir a correr! E se os levamos para atividades fantásticas como parques temáticos, explorações florestais, praia, neve, piscinas e camas elásticas,  ficam a pensar que tudo o resto é revestido de um tédio absoluto.   O que me deixa a pensar que, por mais que lhes facultemos as mais incríveis vivências e alargamento de horizontes, isso só lhes cria sede de mais….
    Mas quem não tem filhos também sabe em que consiste o aborrecimento crónico. Apesar de haver coisas que decididamente nos entusiasmam bastante, como não podemos vivê-las com constância, o resto do tempo é passado num limbo amorfo de ausência de emoção. É claro que há pessoas com vidas mais monótonas do que outras e há alguns mais capazes de lidar com o marasmo e com o aborrecimento, sem se aborrecerem muito com isso. Mas, talvez devido à multiplicidade de oferta e rapidez com que tudo agora acontece, estamos cada vez mais aborrecidos… porque se por um lado  vivemos e experimentamos mais, por outro, quando os empolgantes momentos acabam, caímos num muito mais profundo fosso de insatisfação!    Não consigo impedir-me de imaginar se os nossos mais distantes antepassados se aborreciam nas grutas, depois de caçarem um búfalo e conseguirem ter um fogo aceso! Será que ficavam calmos e apaziguados, a catar piolhos uns dos outros e a olhar para as paredes da gruta??  A verdade é que a história comprova ( e somos a prova viva disso mesmo) que eles estavam aborrecidos! Caso contrário não teriam pintado as paredes das cavernas, não teriam começado a criar artefactos, nem inventado a roda. Se não estivessem aborrecidos, não teriam inventado guerras nem mil outras formas de se entreterem e talvez, apenas talvez, ainda estivéssemos agora num incipiente despertar desses tempos…
   Estou a dizer que o aborrecimento crónico é bom? Não! Estou apenas a concluir que é uma característica tão intrínsecamente humana como o são a necessidade de alimento, proteção e procriação.  É provavelmente esta incompleitude, que não nos deixa sossegar,  que nos impulsiona para a evolução…
  Quando os meus filhos estão tremendamente aborrecidos têm duas  tendências básicas: testar os limites da minha paciência ( que são bastante limitados…) ou provocar-se mutuamente até um inevitável estado bélico. Há uma solução que funciona sempre: água! Uma banheira bem cheia de água tépida com luz suave e uma musiquita a acompanhar tem o mesmo efeito do mais eficiente exorcismo.    E devo dizer que esta é apenas uma das muitas soluções para o aborrecimento crónico da humanidade em geral! Porque ele há-de existir sempre, resta apenas saber contorná-lo não com atitudes bélicas e repletas de adrenalina e efeitos nefastos, mas com a escolha de atividades mais apaziguadoras e produtivas. O aborrecimento crónico pode ser afastado por momentos zen ou repletos de paixão; pode ser afastado pela criatividade, solidariedade e caridade… e por tantas outras coisas boas para a nossa evolução no trilho certo!
Ana Dias

2.11.11

Ser inteiro

   Num feriado ainda ameno, entre um passeio de bicicleta, um banho de mar, um jogo de ténis, alguma escrita e arrumações, consigo encontrar tempo para me esticar no sofá e dar luz verde ao frenético polegar.
  Páro na volumosa Oprah.  A entrevistada é  Jane Fonda:  72 anos, um aspeto tremendamente jovem e saudável e um brilho feliz no olhar. Fico a ver. Afinal a senhora, a cada nova frase que diz, apresenta-se-me com a característica que mais gosto: coerência. Mando parar o polegar porque pressentido que algo  bom vai sair dali.
  E fico assim, durante quase uma hora, a conhecer  mais um caso de vida, como tantos, com altos e baixos, conquistas e desesperos. Sinto-me inspirada com muitas das coisas que diz… e comprova! Afinal envelhecer pode muito bem ser uma aventura maravilhosa, sábia e enriquecedora!
  Mas o momento pelo qual eu esperava, o tal que pressenti que chegaria desde o primeiro momento da entrevista, chega sob a forma de parcas palavras: “ As mulheres tentam, durante toda a vida, ser perfeitas… e esquecem que devem lutar apenas por ser inteiras!” .  A frase atinge-me com a força de um furação de boas consequências…. e começo,  de imediato, a “digerir” aquilo!
   Não são só as mulheres a buscar a perfeição quando, em vez disso,  deviam lutar por ser inteiras. Também aos homens se aplica. Cada vez mais.   Ser perfeito não será apenas uma utopia sem qualquer hipótese de concretização prática?  Ser inteiro não será a mais nobre causa a que  pode aspirar cada indivíduo, no campo da sua própria evolução? E o que implica ser inteiro? Aceitarmo-nos e aprendermos a lidar com as nossas idiossincrasias e características mais estranhas? Ou ousar colocar a nossa fasquia cum cume de realização pessoal, familiar e profissional? Ser inteiro será  aspirar a viver em absoluta e pura verdade com todos os que nos rodeiam e darmos tudo de nós?
   Creio que a resposta a esta questão apenas poderá ser dada por cada um de vocês… Mas posso partilhar que, para mim, ser inteira é não me dececionar; é ser verdadeira comigo;  é cair e voltar a reerguer-me mais forte e sábia; é saber  desistir do que não importa e descobrir o que tem realmente importância. Ser inteira é amar-me incondicionalmente, mas aceitar críticas; é amar incondicionalmente os outros sem deixar que esses outros me destruam ou suguem demasiada energia. Ser inteira, para mim, é estar ativa, cheia de planos, projetos, sonhos e metas…. enquanto, ao mesmo tempo, sei desfrutar a viagem….
Ana Dias

1.11.11

Onze horas



    Não me emocionei tremendamente no primeiro dia de escola dos meus filhos. Encarei o facto de forma muito prática  e concluí que é  a ordem natural das coisas: nascem, gatinham, andam, falam, pensam que mandam, vão para a escola, continuam a pensar que mandam, e por aí fora.
   Mas ontem à noite um novo dado surgiu nesta perfeita e previsível equação…
- Mãe… tenho a festa do Halloween lá na escola. Quero que me leves às oito e me vás buscar às onze… pode ser?
Reconheci no seu “pode ser”  uma ferramenta rudimentar  de mal disfarçada humildade por parte de quem sabia, à partida, que a batalha estava ganha.
 - Bolas… Começas cedo…. – Respondi-lhe, com o humor a oscilar entre o orgulho e a resignada condição de mãe de pré-adolescentes.
- Óh mãe… - Por momentos o Tomás viu a vida a andar para trás.
- Tem calma! Claro que podes ir! Mas onze horas é muito tarde para quem tem só dez anos… - Mal acabei de falar lembrei-me das intermináveis negociações com o meu pai… Ri-me… Parece que foi há tante tempo e, ao mesmo tempo, há tempo nenhum…
   Ouvi, nostálgica, a forte argumentação do doce Tomás, advogando com hombridade todas as razões pelas quais considerava que às onze horas era justo para os dois.
   Condescendi sem grande dificuldade e deixei-o na sua primeira festa noturna com direito a DJ e tudo. Combinei ir buscá-lo ao portão da escola às onze em ponto e,  às cinco para as onze, lá o vi a aparecer no local combinado….cinco minutos antes do tempo, tal como eu  fazia na época em que era eu a ter que saber os limites.
   Quando lhe levei o copo de água à cama e dei o beijo de boas noites, sorri…  Isto é complicado, mas pode ser que corra bem…
Ana Amorim Dias

31.10.11

Sete mil milhões


“….no dia em que a população mundial chega aos sete mil milhões de habitantes…” - oiço o senhor das notícias dizer na rádio…   Sete mil milhões?? Como raio sabem que é hoje?? Qual é o bébé que nasce hoje com direito à faixa que diz: “Parabéns! És o bébé nº sete mil milhões e acabaste de ganhar um Mundo sem guerras nem estupidez!”
   E isto leva-me a pensar como foi que,  ao longo de apenas algumas décadas duplicamos a população mundial… num mundo onde a vida humana vale por vezes tão pouco… Mas, por outro lado, lembro-me que,  enquanto em alguns locais se mata como se se bebesse um café, noutros tudo se faz para salvar uma única vida! Lembro-me de todas as notícias em que as baixas são apresentadas como um número com o qual já ninguém se emociona e recordo todas as outras, que ainda nos deixam com as lágrimas a querer saltar dos olhos por constatarmos que há Homens dispostos a arriscar as suas vidas para salvar as vidas de perfeitos desconhecidos… Arrepio-me ao pensar em todos os casos em que o altruísmo e o amor sem rosto resgata a vida de quem é salvo e de quem salva, ao devolver-lhes a preciosa fé na humanidade!
   Numa época em que a excelência no desenvolvimento anda de mãos dadas com as mais diversas crises, talvez devessemos repensar crenças e valores. Talvez fosse produtivo deixar de viver nos medos e sintonizar as nossas vidas na frequência da determinação e da coragem, chamando a nós não só a responsabilidade de uma atitude mais positiva, como  a  ação de construção de uma realidade circundante mais de acordo com o que gostaríamos que o Mundo fosse…
   Talvez assim,  quando a criança nº oito mil milhões nascer, lhe possa ser entregue uma faixa que diga: “ Bem vindo, bébé… O mundo ainda não é perfeito, mas andamos a fazer os possíveis!!”
Ana Dias

28.10.11

Fleumático conhecimento…


  Estava numa esplanada a escrever e não pude evitar uma certa irritação com o tom pedante e egocêntrico com que um jovem senhor partilhava ideias com uma amiga.  Quando vieram recolher o seu pedido, o sujeito, na tentativa de se superiorizar, perguntou ao homem quem o foi atender se  também ele  era niilista.
  Mas o inquirido escapou por pouco: foi interpelado por outras pessoas quase em simultâneo  e sumiu-se sem revelar o desconforto de não saber o que responder.
   Decidi tornar-me uma instantânea protetora dos fracos e oprimidos e fiz uma busca rápida no google, porque também eu não saberia ter respondido àquela questão, assim, sem pré-aviso. Chamei o senhor do café antes de ele ir de novo à mesa do prepotente fulano e fui rápida nas palavras: - “ O niilismo é uma espécie de “nadismo”; é a negação de todos os princípios religiosos, políticos e sociais!”
    Embora este tema dê para semestres inteiros nos cursos de filosofia, o senhor do café fez um excelente uso das minhas parcas palavras. Dirigiu-se à malfadada mesa e, ao colocar o pedido em frente aos seus interlocutores, disse: - “Em resposta à questão que me colocou: não, não sou niilista. Tenho muitas crenças em todos os aspectos da vida, social e moral. Não me parece que a negação de tudo e a preconização da ausência de sentido faça, por si, qualquer sentido!”.   Virou-se, piscou-me o olho com um sorriso cúmplice e desapareceu dali, deixando atrás de si o convencido pedante com a boca aberta em desconforto.
  Lembrei-me deste episódio porque andava,  há uns tempos,  com uma palavra a “perseguir-me” o espírito sem descanso:   “fleumático”. Tinha uma leve ideia do que significava, mas só ontem à noite descansei, ao comprovar que tal palavra adjetiva sujeitos imperturbáveis, impassíveis, que controlam as emoções.
   O senhor a quem me aliei naquela esplanada foi bastante fleumático e talvez por isso me tenha lembrado deste singular episódio.
   Mas, se tanto me irritou o sujeito com ares de superioridade intelectual, o que mais me rouba a capacidade de ser fleumática é a ignorância orgulhosa!  Perco a razão ao verificar que há quem hasteie a bandeira da ignorância com um orgulho assumido!    Li ontem no jornal que há um concurso em que os concorrentes pensam que a África é um pais da América do sul, que o Sena é um rio da Ásia e que andam há uma semana a tentar descobrir onde fica o Dubai….
  Mas será possível que haja quem não deseje esconder-se até ao fim da vida nalgum buraco escuro e longínquo,  depois de revelar tamanha ignorância em público?? Já não se pede a ninguém que conheça as correntes filosóficas, as tendências artísticas ou o nome dos grandes descobridores… Já não se pede que conheçam os mais básicos factos históricos, os responsáveis pelas grandes descobertas científicas, ou dos pais da economia… Não se pede que conheçam todas as capitais e rios de cada país, nem a obra dos grandes autores… Mas por favor!! O mínimo que se pode pedir é um pouco de curiosidade para continuar a aprender sempre!! O mínimo que se pode pedir a qualquer ser humano é que honre o estatudo do  Ser pensante e dotado de raciocínio que é, e use a massa cinzenta antes que, pela ordem natural da evolução, ela se transforme numa papa amalgamada unicamente capaz da busca de alimento e abrigo!
   O conhecimento não ocupa lugar, está acessível mesmo em crise, e é fundamental à realização do Homem enquanto Homem…  É por isso que vos peço ( com a boca toda, como dizem os meus filhos ) que continuem na busca constante de mais conhecimento; que pensem pela vossa cabeça e façam as vossas equações e descobertas e,  já agora… que inspirem sempre os outros a fazer o mesmo!   Porque, como o fleumático senhor que trabalhava naquela esplanada, podemos sempre apanhar a “bola” que nos atiram e marcar grandes golos!!
Ana Dias

27.10.11

A marca de um beijo

  
Chego a casa e vejo algo a mais. Numa das paredes da sala observo três marcas de batom, gravadas por uns pequenos lábios. Olho em volta e procuro o culpado. É fácil ver, pelo ar reguila e pelos restos de batom vermelho a esborratar-lhe a cara, que o autor da habilidade é o João, o meu filho mais novo….
   Chego a casa e olho para aquela parede e para as suas marcas escarlates a que já me acostumei. Passaram mais de dois anos desde o dia em que o João, num dos seus acessos de criatividade sem estribeiras, marcou o seu amor nas paredes. Lembro-me de, na altura, ter ficado com uma leve irritação que se foi dissipando à medida que percebi que estava decidida a deixar a lembrança daquela façanha a decorar a parede por uns tempos. Mais tarde trataria do assunto.
   Olho para a parede uma vez mais e tiro-lhe uma fotografia para partilhar convosco. As marcas daqueles apetitosos lábios têm estado sempre ali e eu não as tenho visto… não tenho sorrido com o seu encanto repleto de significado…  E percebo que nunca vou lavar a marca daqueles beijos. Nunca vou deixar perder o valioso sentido daquelas perfeitas marcas de batom, criatividade e amor! Enquanto aquela parede existir, existirá também a prova dos beijos que o meu filho partilha com o mundo;  a prova do seu amor de criança.
   E, antes de sair, olho uma vez mais para aquela obra de arte  e penso em todas as marcas que se encontram gravadas nas nossas “paredes” interiores… penso em todas as marcas que todos os amores deixam em nós,  em memórias eternas que jamais deveriamos escolher apagar. Porque há memórias em nós que, apesar de não vermos durante muito tempo, se encontram cá dentro, gravadas sob a forma do mais perfeito beijo que nos deram, impressas com o fogo lento da paixão e dos sentimentos mais fortes. Há marcas que, como as que estão na parede da minha sala, são a mais valiosa parte do nosso património…
Ana Dias
 

25.10.11

Caráter


    O que vos dá mais prazer?  Saber que fizeram algo bem ou serem louvados por isso?  E o  que terá mais valor?  Saberem que o que fizeram está muito bem feito, mesmo que ninguém o diga,  ou receberem elogios quanto a algo de que até nem se orgulham muito?
    O Homem funciona  com o ego, o elogio e o reconhecimento. Desde os primórdios da existência que a sobrevivência está dependente do grupo. A pena máxima a que um ateniense podia ser sujeito era o ostracismo, ou seja,  a expulsão da urbe.   O Homem não sabe existir a sós… nem em termos práticos, nem emocionais. E é por ser um Ser social, que o Homem busca incessantemente o reconhecimento alheio, a sensação de pertença ao grupo e a aprovação dos seus actos.
   Mas há a participação saudável na grande tela  social, na qual as regras se respeitam e cumprem, e a participação falaciosa em que muitos vivem para continuarem a ser aceites como parte integrante e valorosa dessa mesma tela. Quantas pessoas  deixam o seu destino e a sua verdadeira missão para trás,  pelo simples medo de serem votados ao ostracismo dos tempos modernos? Quantas pessoas se julgam a si mesmas pela visão que os outros têm de si??   
   E é aqui que entra o caráter, essa característica que permite que quem a tem se veja exactamente como é e não como os outros o “pintam”. Quando vejo alguém com caráter, sei que estou perante uma pessoa que sabe exactamente o seu valor;   que conhece os seus defeitos e qualidades, limites e capacidades. O caráter é, entre outras coisas, o discernimento de quem se é, sem expectativas de aprovação alheia, nem dúvidas quanto a si mesmo ou quanto aos seus actos e escolhas.
   Ter caráter é saber ser social sem sucumbir à sociedade.
   Mas não termino sem perguntar… conhecem alguém com caráter??
Ana Dias

21.10.11

Paixão


   Tenho sempre uma reserva de temas em espera para o vício matinal da crónica que me acompanha a meia de leite.  Já sabia, ontem, que hoje escreveria sobre a paixão, mas a certeza intensificou-se-me à noite quando, num filme que estava a ver, alguém disse: - Os antigos gregos não escreviam obituários aos seus mortos, apenas comentavam se a pessoa tinha ou não vivido com paixão. -    Não sei se a afirmação é verdadeira ou não, mas é um balanço que faz todo o sentido … porque não há sentir mais vibrante e produtivo do que a paixão!
   Se pensarem um pouco em todas as pessoas magnéticas e  contagiantes (pela positiva) que conhecem, verão que são pessoas que vivem apaixonadas. Talvez sejam apaixonados por uma pessoa, pelo que fazem, por um sítio ou pela própria vida, mas o facto de saberem colocar-se nesse estado, eleva-os para um plano superior que apenas alcança quem é louco e corajoso o suficiente para se entregar a emoções fortes.
  Quem tem a doce sorte de trabalhar com paixão nunca tem carências. Vive em abundância, mesmo que pouco dinheiro sobre depois de pagar todas as contas.  Quem é apaixonado pelo mar, surf, música, leitura, cinema ou qualquer outra atividade, sabe onde encontrar o prazer de se elevar um pouco mais…
  Mas… e quem sabe o que é sentir paixão por alguém… como reaje quando a paixão, certo dia, se esquece de lhe invadir os sentidos?  Como pode reaprender a viver sem essa vertigem viciante e sublime?
   Sempre ouvi dizer que o amor é suave e duradouro e a paixão, intensa e fugaz. Quanto a isso não vou opinar. Apenas sei que há dois tipos de gente: os que não querem sentir paixão porque lhe conhecem os perigos; e os que lutam para que a paixão volte porque já lhe sentiram o gosto.
   Mas vou um pouco mais longe… Será que há pessoas mais predispostas à paixão? E será que alguém sabe, realmente, como se reacende e alimenta esse poderoso e delirante fogo? Ou será ele algo incontrolável, que ninguém domina; algo que surge quando entende e se esvai sem deixar rasto nem hipótese de resgate? A minha incipiente sabedoria não tem como dar resposta a estas questões… apenas sei que, quando se tem saudades de sentir paixão,  ativar as memórias de momentos apaixonantes ajuda a preencher a o vazio que a sua ausência deixou.
Ana Dias



  

20.10.11

Três em um


    O meu pai adorava viajar. E sempre o ouvi dizer que cada viagem é, na verdade, composta por três: o antes, com toda a expectativa e preparação; o durante, quando absorvemos tudo aquilo que a nossa motivação e tempo permitem; e o depois, feito de memórias saborosas que cristalizam a vivência.
   Sou adepta incondicional da partida. E amante da chegada, também. E se digo frequentemente que as pessoas não viajam mais por mera preguiça é porque sei bem do que estou a falar. É claro que ficar em resorts de luxo com a família toda talvez seja, para muitos, a única visão possível de uma viagem… Mas não tem que ser  assim!  Tive tal epifania há uns anos, quando uns amigos da Colômbia estiveram na Europa um mês, e um semana comigo… - “Que sorte que vocês têm, com todos os países da Europa tão à mão de os conhecerem! – Disse-me certa tarde, o Luis. Percebi algo que ainda não sabia e que determinou a minha vontade.
   Meus caros: a vida é demasiado preciosa e o Mundo demasiado belo para se perderem nas desculpas de não haver tempo, dinheiro ou condições… Se não vão todos os anos duas vezes a Londres, três a Paris e uma a Nova York, vão só uma de três em três anos. Mas vão!  Se não podem levar toda a família… vão sozinhos! Porque os vossos filhos hão-de crescer e ter muitas oportunidades, mas vocês,  daqui a uns anos, já não podem ir a lado nenhum de arrastadeira e com com alguma incontinência que a idade vos traga!  E se não ficam no melhor hotel, pelo menos ficarão num com uma cama onde caibam e água quentinha para se lavarem da canseira dos dias em que viram tudo o que queriam!
   Uma das coisas mais maravilhosas é viajar a sós, sem caras metades nem excessos de bagagem. Aprendemos a contar derradeiramente só com a nossa responsabilidade, organização  e sentido de orientação. Vemos preciasamente o que queremos, quando queremos e ao nosso próprio ritmo. Conhecemos gente, partilhamos histórias e vivências. Comovemos-nos  e conhecemo-nos mais intensa e profundamente, ao mesmo ritmo que os nossos horizontes se alargam de uma maneira brutal. Saímos da nossa zona de conforto… apenas para perceber que a vida é tão mais ampla  e confortável do que pensamos!
    Viajar bem requer apenas duas coisas: vontade e preparação. Porque  a vontade move-nos, tira-nos do lugar, e a preparação faz com que o tempo se rentabilize e aproveite da mais perfeita maneira.
  Por isso comecem. Agora mesmo. Façam um mealheiro e escolham um destino. Percam horas na net, onde tudo se encontra em conta, tudo se descobre e tudo se pode planear. Marquem os dias, por poucos que sejam, e organizem o tempo:  destribuam-no por tudo o que vão querer ver, fazer, experimentar. Preparem-se para o desconforto das horas de viagem, para o minimalismo absoluto na bagagem ( quanto a mim, a derradeira sabedoria do bom viajante) e para ficar em locais que a vossa bolsa suporte. Depois vivam em expectativa até o momento chegar e partam para viver e se emocionarem com contemplações e experiências que farão parte integrante da única coisa que realmente possuímos na vida: o que vivemos!
Ana Dias
 
  

19.10.11

A teoria da evolução das espécies


   Há duas noites, depois de vermos um programa no Discovery science, expliquei um pouco melhor ao Tomás a razão da importância das Galápagos na formação da teoria de Darwin. Expliquei-lhe que foi o facto de,  nesse habitat confinado, certas espécies terem evoluído de forma distinta dos seus “irmãos” continentais, que conferiu as Darwin as certezas e fundamentos idóneos  ( que ainda hoje perduram como corretos) para a teoria da evolução das espécies….
  E, como adoro “colagens” e analogias, depressa se me formou a ideia de que todos nós, humanos, vivemos nas nossas Galápagos individuais…
- “ Estás tão diferente… Já não és a mesma pessoa que conheci…” – Eu já ouvi isto. Vocês também.
E o porquê é simples. Além dos genes e das características intrinsecamente permanentes, somos, como qualquer outra espécie, animais que se adaptam ao meio em que vivem…
Sim, estou diferente, evolui, adaptei-me. Nas ilhas Galápagos das minhas circunstâncias de vida, tive que me tornar mais fria e arrefecer o meu sangue para enfrentar as temperaturas adversas dos dissabores; as garras cresceram e tornaram-se mais letais para poder impôr-me perante adversários perigosos; revesti-me de uma carapaça mais forte e protectora que agora me impede de sentir coisas que outrora sentia; agora sou mais rápida, astuta e inteligente, pois só assim garanto a minha felicidade e supremacia nestas Galápagos em que vivo. Podem dizer que já não me reconhecem em mim, mas pouco me importa: sobrevivi, tornei-me mais forte e mais feliz. Descobri qualidades e capacidades que não sabia ter e desenvolvi-as, sempre com sentimentos bons a percorrerem-me os músculos, o pêlo e as garras…
Vocês talvez tenham evoluído de forma diferente. É natural que assim seja, porque cada habitat humano é único. Mas a vossa mudança também se deu com um único objectivo: subsistir, não perecer… sobreviver a todo o custo. Porque quem não se adapta…extingue-se!
Verifiquem apenas, quando vos disserem que estão diferentes, se aproveitaram a evolução e melhoraram com ela!
Ana Dias
 

18.10.11

Abram valas para o Noddy

   
 Esta crónica não tem qualquer mensagem nem moral da história. Se prosseguirem na leitura estão por vossa conta…
   Detesto o Noddy. Sei que não se deve detestar ninguém, muito menos um mero boneco que tanto fascina o imaginário infantil.  Mas, só de pronunciar esse nome, forma-se-me logo uma imagem muito nítida daquela cara de parvo e daquele chapéu ridículo a coroar umas roupas de cor bem chamativa. E, à mesma velocidade que a minha mente é invadida por tão triste figura, cresce-me uma urticária inexplicável. Mas o pior mesmo é quando oiço aquela música que não lembra a ninguém, com as três buzinadelas do carro a ecoar, como um som vindo das profundezas dos infernos.
  Nas poucas vezes em que me apetece ver televisão e não estou para entrar em guerra com as tropas de eleite juniores lá de casa, deixo que sejam guardiães do comando e junto-me a eles a ver desenhos animados. E há alguns que realmente me prendem, como o Avatar ou o desvairado do SpongeBob… Mas, ao mínimo sinal do Noddy, os aguerridos defensores do Canal Disney e Nickelodeon, rendem-se de imediato à minha esquizofrenia noddyniana e mudam prontamente para outro canal.   
   E dou por mim a ver os programas infantis atormentada pela hipótese desse malfadado boneco me aparecer no ecrã… quase como quando estou a ver os canais de cinema, à noite e sozinha, sempre alerta nos zappings, não me vá aparecerer algum filme de terror com uma cena do exorcista ou uma boneca de porcelana a revirar os olhos e a pegar numa faca… Tenho que ter o polegar sempre firme no gatilho do comando, para liquidar sem piedade essas perversões da criação humana.
   Continuo sem perceber como é que a Enid Blyton, a autora dos melhores livros da minha infância, deixou um legado destes! Só consigo encontrar uma explicação: a senhora estava possuída por alguma força do mal quando criou esse filho das trevas a que deu o nome de Noddy….
   Termino com uma defesa básica dos direitos infantis: nenhuma criança merece definhar o intelecto com um bandido daqueles… e, sobretudo, nenhum adulto deveria sentir-se em ameaça constante perante a iminência de ser aterrorizado por essa criação das forças do mal.
   Por isso inicio, aqui e hoje, o movimento AVPN :  Abram Valas Para o Noddy!!
Ana Dias

17.10.11

Maldito sono

    
 Quantas vezes é que já perdeste horas de sono com um bom filme ou uma interessante conversa?  Quantas vezes já acordaste rabujento e a dever horas à almofada pela simples leitura de um livro que te prendeu ou por causa da vaga sensação de que estar acordado é melhor?
   Há tempos alguém me disse que o maior prazer da sua vida ( em absoluto!!) é … dormir.  Olhei para a pessoa em questão com a mesma cara que teria posto caso um estranho alienígena com ar de cruzamento entre um sapo e uma libelinha me tivesse dito que estava apaixonado por mim e me queria levar para o seu planeta…  Caneco! Haverá mesmo quem prefira dormir a estar acordado?  Lamento imenso as pessoas que têm de dormir oito horas para conseguirem funcionar bem porque eu, se pudesse escolher, limitava as cinco ou seis que me bastam , a um mínimo de uma ou duas… e mesmo assim já era desperdício!
   Se assim fosse aumentava a vida em cerca de mais vinte por cento de tempo útil! Não que não seja extremamente proveitoso descansar o corpo e a alma… e sonhar a dormir, mas se pudesse escolher, e apenas duas horas me renovassem por completo, sei bem o que escolheria!! 
  A verdade é que a noite é um momento tão mágico e criativo que fico irritada com os filmes que perco, as conversas que não tenho e os livros a que , por mais que tente resistir, o sono me rouba!  Acho injusto que, lá pela uma ou duas da manhã, no exacto limbo do tempo em que as ideia me chegam mais surpreendentes e cristalinas, o maldito sono me leve, refém das suas inebriantes garras às quais não consigo, ainda, resitir.
   Mas  a verdade é  que o sono que me leva é tão profundo que raramente me lembro dos sonhos… Talvez seja por isso que prefiro sonhar acordada: porque os sonhos conscientes, embora revelem menos sobre os nossos intrínsecos dilemas, tomam o rumo que lhes ordenamos e levam-nos diretamente aos nossos paraísos.
    Seja para estar acordada no presente, voar nas asas de memórias do passado ou galopar no dorso de sonhos futuros, prefiro estar acordada! E,  bem feitas as contas, isso deixa-me extremamente feliz, porque por mais que  às vezes reclame com a vida, estou inteiramente à sua disposição!
  E tu?...
  Ana Dias