Primavera hoje em mim
- Sssshhhh. Falem mais baixo para não acordarem a mãe!
Oiço-os ao longe, mesmo antes de saírem. Fico no nevoeiro do despertar, de olhos ainda fechados, a sentir-me muito melhor. Levanto-me e desço. O cenário dantesco da sala recorda um campo de batalha, depois de por ele passarem os mais ferozes guerreiros da história.
"Por onde começo? Pequeno almoço? Banho? Arrumações?" Vou fazendo um pouco de tudo, ao som de Louie Austen e do gratificante silêncio televisivo.
O café da manhã é tomado na rua. Sinto o sol na cara. Apercebo-me do som, constante e distante, dos insetos a voar. "Waow...chegou a primavera!"
Sei que a primavera não chega em Fevereiro, muito menos no seu início. Mas não me importo, estou na primavera.
"Temos todas as estacões do ano dentro de nós..." Começo a divagar. "Podemos escolher a poética nostalgia outonal, a loucura feliz do verão, a tranquila paz primaveril ou a fúria escura dos dias tempestuosos de inverno." Quantas vezes nos sentimos tristes e frios no verão? Quantas outras estamos quentes e felizes nos dias de tempestade? Não é tudo uma questão de escolha? Afinal, da mesma forma que todos os ambientes habitam os anos, todos os humores habitam em nós.
Entro para o carro e arranco. Esta primavera hoje em mim, está mesmo a pedir uma praia...
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
10.2.14
Botaterapia
Botaterapia
Tenho a absoluta consciência da minha sorte, por não estar habituada a sentir-me mal. Deve ser por isso que, nas raras vezes em que fico muito quieta e silenciosa, o povo desta casa fica meio aflito com o facto.
Para contrariar o mal estar físico que hoje se abateu sobre mim, vesti roupa mesmo gira, pus botas de salto alto, colares, pulseiras, brincos e anéis. Pintei-me (mas isso é sempre) e considerei até a hipótese de me dedicar a pintar as unhas.
Não serviu de muito, a não ser para passar o dia todo a sentir-me mal, estendida no sofá... mas toda gira.
Ter a casa cheia e não conseguir sair do sofá. Ter um jantar em Albufeira e perceber que não vou conseguir ir... É desagradável, mas não é o fim do mundo. Esta espécie de virose (calculo) talvez se suma tão depressa como surgiu. Mas deixar de escrever a crónica? Há coisas que não são opção: nunca sei até onde pode chegar o poder curativo das minhas palavras!
Percebo que os saltos altos não servem para curar doenças, mas que fazem uma mulher sentir-se sempre mais sexy, lá isso fazem. Será que é isso? Em vez de estar para aqui a dormitar a tarde toda, devia era ter estado a admirar o cruzar sensual das pernas, e forma como as botas lhes ficam bem?
Uma coisa é certa: enquanto mantivermos a vontade de nos sentirmos melhor, nunca desistiremos de procurar as "mezinhas" mais eficazes. Mesmo quando, como é agora o meu caso, elas se resumam a uma crónica tão tosca que me arrancou gargalhadas!
Ah, e sim: já me sinto um pouco melhor. Devem ser os efeitos da botaterapia!
Ana Amorim Dias
Tenho a absoluta consciência da minha sorte, por não estar habituada a sentir-me mal. Deve ser por isso que, nas raras vezes em que fico muito quieta e silenciosa, o povo desta casa fica meio aflito com o facto.
Para contrariar o mal estar físico que hoje se abateu sobre mim, vesti roupa mesmo gira, pus botas de salto alto, colares, pulseiras, brincos e anéis. Pintei-me (mas isso é sempre) e considerei até a hipótese de me dedicar a pintar as unhas.
Não serviu de muito, a não ser para passar o dia todo a sentir-me mal, estendida no sofá... mas toda gira.
Ter a casa cheia e não conseguir sair do sofá. Ter um jantar em Albufeira e perceber que não vou conseguir ir... É desagradável, mas não é o fim do mundo. Esta espécie de virose (calculo) talvez se suma tão depressa como surgiu. Mas deixar de escrever a crónica? Há coisas que não são opção: nunca sei até onde pode chegar o poder curativo das minhas palavras!
Percebo que os saltos altos não servem para curar doenças, mas que fazem uma mulher sentir-se sempre mais sexy, lá isso fazem. Será que é isso? Em vez de estar para aqui a dormitar a tarde toda, devia era ter estado a admirar o cruzar sensual das pernas, e forma como as botas lhes ficam bem?
Uma coisa é certa: enquanto mantivermos a vontade de nos sentirmos melhor, nunca desistiremos de procurar as "mezinhas" mais eficazes. Mesmo quando, como é agora o meu caso, elas se resumam a uma crónica tão tosca que me arrancou gargalhadas!
Ah, e sim: já me sinto um pouco melhor. Devem ser os efeitos da botaterapia!
Ana Amorim Dias
Com as motas no pensamento
Com as motas no pensamento
Vão ter que me desculpar.
Prometo que amanhã me calo com isto das motas.
Não durante muito tempo, claro.
É que, sabem? As crónicas a que este novo fascinante universo me inspira são em tal quantidade que já comecei a escrever para uma revista da especialidade (para a semana que vem logo vos conto esta história).
Confesso que não esperava que isto me impressionasse tanto. Mas, no fundo, era o que eu imaginava e queria que acontecesse. As lições de vida, a intensidade e a paixão aceleram-se dentro de mim... mesmo a baixa velocidade. As sensações de descoberta, encantamento e liberdade até podem ser indescritíveis para muitos. Mas eu, com as vestes de mestre das palavras que envergo todos os dias, tenho, pelo menos, a obrigação de as tentar verbalizar.
A fabulosa impressão que ontem se colou a mim, ao conduzir uma mota, fez nascer tantos temas e ideias para novos escritos, que os apaixonados por duas rodas terão aqui, no futuro, muito com que se identificar.
Uma das coisas que percebi, uma vez mais, é que quem não se desafia a si mesmo não chega a perceber o que perde!
E entendi também uma grande lição sobre o domínio...
Tememos o que não dominamos. Contudo, para chegarmos a dominar e a saber fazer minimamente bem o que quer que seja, temos que investir fortemente contra a resistência inicial e entregar-nos à prática: com todo o nosso ser e toda a nossa vontade.
A verdade é que podemos tudo. Todos nós! Com mais ou menos jeito. Com maior ou menor medo: uma vez decididos a aprender e a render-nos a novos mundos, a conquista está meia feita!
Ontem passei a tarde e a noite com motas no pensamento. E hoje? Hoje acordei com a felicidade estampada em cada célula minha. Se saberei algum dia dominar bem o que temia? Tenho a certeza que sim. Porque quero. Porque posso. E porque, com o vosso apoio e incentivo, ganho toda a motivação para me inspirar mais e mais a trazer-vos cada uma das lições que for aprendendo pelo caminho!
Ana Amorim Dias
Vão ter que me desculpar.
Prometo que amanhã me calo com isto das motas.
Não durante muito tempo, claro.
É que, sabem? As crónicas a que este novo fascinante universo me inspira são em tal quantidade que já comecei a escrever para uma revista da especialidade (para a semana que vem logo vos conto esta história).
Confesso que não esperava que isto me impressionasse tanto. Mas, no fundo, era o que eu imaginava e queria que acontecesse. As lições de vida, a intensidade e a paixão aceleram-se dentro de mim... mesmo a baixa velocidade. As sensações de descoberta, encantamento e liberdade até podem ser indescritíveis para muitos. Mas eu, com as vestes de mestre das palavras que envergo todos os dias, tenho, pelo menos, a obrigação de as tentar verbalizar.
A fabulosa impressão que ontem se colou a mim, ao conduzir uma mota, fez nascer tantos temas e ideias para novos escritos, que os apaixonados por duas rodas terão aqui, no futuro, muito com que se identificar.
Uma das coisas que percebi, uma vez mais, é que quem não se desafia a si mesmo não chega a perceber o que perde!
E entendi também uma grande lição sobre o domínio...
Tememos o que não dominamos. Contudo, para chegarmos a dominar e a saber fazer minimamente bem o que quer que seja, temos que investir fortemente contra a resistência inicial e entregar-nos à prática: com todo o nosso ser e toda a nossa vontade.
A verdade é que podemos tudo. Todos nós! Com mais ou menos jeito. Com maior ou menor medo: uma vez decididos a aprender e a render-nos a novos mundos, a conquista está meia feita!
Ontem passei a tarde e a noite com motas no pensamento. E hoje? Hoje acordei com a felicidade estampada em cada célula minha. Se saberei algum dia dominar bem o que temia? Tenho a certeza que sim. Porque quero. Porque posso. E porque, com o vosso apoio e incentivo, ganho toda a motivação para me inspirar mais e mais a trazer-vos cada uma das lições que for aprendendo pelo caminho!
Ana Amorim Dias
Liberdade de expressão
Liberdade de expressão
Desconfio que, para quem escreve, há algo que consegue ser ainda pior do que a indiferença e as críticas negativas: a limitação da liberdade de expressão.
Ontem ao jantar, enquanto debatíamos uma ocorrência fantástica que se deu na Quinta e alvitrávamos justificações para a mesma, foi-me pedido que não escrevesse sobre o tema. A sogrinha defendeu o seu caso e o Tomás apoiou-a. O Ricardo votou no "escreve" e o João nada disse, mais preocupado em enfardar a comida para poder ir ver os desenhos animados.
Arrumei a cozinha entre a criação cerebral da crónica (que linda ficaria...) e o dilema de ceder ou não às pressões daqueles dois seres que, quando se unem, formam uma poderosa força.
- Mãe! Tu não vais escrever sobre aquilo, pois não?- perguntou esta manhã o Tomás.
- Oh baby!! Vá lá...
- Mãe! Vou ficar chateado contigo. Olha que quando sair da escola eu vou ler o que escreveste!
- E eu bloqueio-te!- exclamei, a rir.
Jamais bloquearia o meu filho. Do que quer que fosse! E, muito embora me custe ceder a pressões que me limitam a liberdade de expressão, confesso que entendo as suas razões. Às vezes há que ceder às vontades daqueles que amamos, mesmo que isso implique penhorar valores que são, para nós, supremos. O amor vale isto tudo. Ainda assim avisei que apenas lhes estou a dar alguns dias de tréguas e que vou entrar oficialmente numa semana de negociações intensas para ganhar o legítimo e justificado direito de escrever sobre o encantador acontecimento que apenas estão a tentar proteger. O que vos posso garantir é que passei mesmo a acreditar nos impossíveis e acho que nem vou estranhar muito se, um dia destes, olhar para o céu da Quinta e vir a descerem, de pára-quedas, algumas girafas e hipopótamos.
Ana Amorim Dias
Desconfio que, para quem escreve, há algo que consegue ser ainda pior do que a indiferença e as críticas negativas: a limitação da liberdade de expressão.
Ontem ao jantar, enquanto debatíamos uma ocorrência fantástica que se deu na Quinta e alvitrávamos justificações para a mesma, foi-me pedido que não escrevesse sobre o tema. A sogrinha defendeu o seu caso e o Tomás apoiou-a. O Ricardo votou no "escreve" e o João nada disse, mais preocupado em enfardar a comida para poder ir ver os desenhos animados.
Arrumei a cozinha entre a criação cerebral da crónica (que linda ficaria...) e o dilema de ceder ou não às pressões daqueles dois seres que, quando se unem, formam uma poderosa força.
- Mãe! Tu não vais escrever sobre aquilo, pois não?- perguntou esta manhã o Tomás.
- Oh baby!! Vá lá...
- Mãe! Vou ficar chateado contigo. Olha que quando sair da escola eu vou ler o que escreveste!
- E eu bloqueio-te!- exclamei, a rir.
Jamais bloquearia o meu filho. Do que quer que fosse! E, muito embora me custe ceder a pressões que me limitam a liberdade de expressão, confesso que entendo as suas razões. Às vezes há que ceder às vontades daqueles que amamos, mesmo que isso implique penhorar valores que são, para nós, supremos. O amor vale isto tudo. Ainda assim avisei que apenas lhes estou a dar alguns dias de tréguas e que vou entrar oficialmente numa semana de negociações intensas para ganhar o legítimo e justificado direito de escrever sobre o encantador acontecimento que apenas estão a tentar proteger. O que vos posso garantir é que passei mesmo a acreditar nos impossíveis e acho que nem vou estranhar muito se, um dia destes, olhar para o céu da Quinta e vir a descerem, de pára-quedas, algumas girafas e hipopótamos.
Ana Amorim Dias
A arte de viver
A arte da viver
Tive nota máxima, hoje ao pequeno almoço.
- Excelente, mãe! Tens nota máxima neste pequeno almoço!
E tudo porque preparei ao João um copo de leite fresco e uma torrada com fiambre.
O gato roçou-se nas minhas botas e miou. Não me deu nota máxima porque deixei acabar as latinhas e teve que comer ração.
Dei uma dentada na minha torrada e regressei à questão da manhã: "Porque é que o Oscar me acordou antes do despertador tocar?" Acordei com o cérebro a sussurrar Wilde... Wilde... Oscar Wilde. "Ou seria wild? Não. Era Wilde, Oscar Wilde. Bolas, logo hoje que eu queria escrever a crónica sobre a frase de Enrique Morente!"
"Bem, Ana, vais ter que conciliar o escritor irlandês com o músico espanhol, não te resta outra opção!" concluí, enquanto guiava atrás de um trator sem me aperceber que o podia ultrapassar se quisesse.
"A liberdade é a arte de viver" escreveu Morente.
"Cada um de nós passa a vida buscando o segredo dela. Pois bem, o segredo da vida é a arte" escreveu Wilde.
"Será a arte a derradeira sublimação da liberdade humana?" pensei eu.
"Um homem que não tem pensamentos individuais é um homem que não pensa": Wilde de novo. Eu sorri. Porque penso. De facto. E muito.
Penso a liberdade a ponto de a sentir e viver. Sou livre por pensar apenas por mim, sem formatações nem cedências. E vivo a arte. Ohh sim, vivo-a ao minuto, com a intensidade de quem sente tudo o que cria.
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe": Wilde outra vez. "Realmente..." pensei, "realmente para existir basta respirar. Mas para de facto viver? Para isso é necessário ter a arte de pensar. E a liberdade de sentir... a arte e a vida!"
Termino a meia de leite a sentir-me feliz e viva. Entre pensamentos livres e arte sentida. O segredo da vida consiste na liberdade de pensar e sentir a felicidade ao receber a nota máxima com uma torrada de fiambre. E sim, é esta a "wild" arte de viver!
Ana Amorim Dias
Tive nota máxima, hoje ao pequeno almoço.
- Excelente, mãe! Tens nota máxima neste pequeno almoço!
E tudo porque preparei ao João um copo de leite fresco e uma torrada com fiambre.
O gato roçou-se nas minhas botas e miou. Não me deu nota máxima porque deixei acabar as latinhas e teve que comer ração.
Dei uma dentada na minha torrada e regressei à questão da manhã: "Porque é que o Oscar me acordou antes do despertador tocar?" Acordei com o cérebro a sussurrar Wilde... Wilde... Oscar Wilde. "Ou seria wild? Não. Era Wilde, Oscar Wilde. Bolas, logo hoje que eu queria escrever a crónica sobre a frase de Enrique Morente!"
"Bem, Ana, vais ter que conciliar o escritor irlandês com o músico espanhol, não te resta outra opção!" concluí, enquanto guiava atrás de um trator sem me aperceber que o podia ultrapassar se quisesse.
"A liberdade é a arte de viver" escreveu Morente.
"Cada um de nós passa a vida buscando o segredo dela. Pois bem, o segredo da vida é a arte" escreveu Wilde.
"Será a arte a derradeira sublimação da liberdade humana?" pensei eu.
"Um homem que não tem pensamentos individuais é um homem que não pensa": Wilde de novo. Eu sorri. Porque penso. De facto. E muito.
Penso a liberdade a ponto de a sentir e viver. Sou livre por pensar apenas por mim, sem formatações nem cedências. E vivo a arte. Ohh sim, vivo-a ao minuto, com a intensidade de quem sente tudo o que cria.
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe": Wilde outra vez. "Realmente..." pensei, "realmente para existir basta respirar. Mas para de facto viver? Para isso é necessário ter a arte de pensar. E a liberdade de sentir... a arte e a vida!"
Termino a meia de leite a sentir-me feliz e viva. Entre pensamentos livres e arte sentida. O segredo da vida consiste na liberdade de pensar e sentir a felicidade ao receber a nota máxima com uma torrada de fiambre. E sim, é esta a "wild" arte de viver!
Ana Amorim Dias
Desculpa lá, mãe
Desculpa lá, mãe!
Se a coragem é medida pela intensidade dos medos que superamos, concluo que não estou, nesse campo, mal servida. Para muitos, manejar uma mota é tão banal como ir ao café. Mas para mim? Bem...para mim este bébé japonês é, de momento, o meu Gigante Adamastor pessoal. Contudo, virar as costas ao bicho e fugir apavorada não me parece uma opção.
Dizem que a vida começa aos quarenta e quero estar preparada. Já adoro viajar sozinha, faço ski, bodyboard, e até ando a ver se dou uns toques no surf. Já dou palestras, faço diretos na televisão com toda a serenidade e enfrento situações complicadas com o prazer de quem toma a recomendada dose diária de adrenalina. Já superei coisas que temia muito com a graça de quem acaba de regressar das labaredas do inferno a sorrir e, caramba, pari dois filhos sem epidural! Não é esta bébé japonesa nem a outra, a grande, que vou ter que domar a seguir, que me vão fazer vacilar.
- Sabes, Ana?- disse o Rodrigo a sorrir.- És a primeira pessoa que estou de facto a ensinar a guiar uma mota. Os outros todos já cá chegam a saber. E posso dizer-te: é muito gratificante.
Sim, porque eu não sabia de que lado se baixava o descanso e pensava que, para acelerar, o punho direito rodava para a frente!
Não tenho qualquer pudor em dizer-vos que a primeira aula foi passada em primeira (deve ter sido por isso que não me consegui equilibrar lá muito bem) . Não meti mais mudanças que o neutral e a primeira! Se me envergonho? De maneira nenhuma: hei-de aprender até usar só o instinto que nasce da prática. Hei-de encontrar o que procuro: o prazer e a liberdade que chegam com o domínio e a confiança!
Desculpa lá mãe! Desculpa-me a irrequietude que a idade não sabe abafar. Desculpa as novas preocupações. Mas sabes que sou cautelosa e que tenho em mim ferramentas para enfrentar novos perigos. Desculpa-me a determinação e a sede de liberdade. Desculpa-me querer sempre mais, de mim e da vida. Lembra-te que tenho pernas compridas e fortes e que nunca amei velocidades. E não te esqueças jamais que sou filha do meu pai, e esse acompanha-me sempre, soprando ao meu ouvido tudo aquilo que sabia...
Não sei se tomarei sob mim uma máquina japonesa, inglesa ou americana. Sei que de momento, esta bébé que respeito, me devolveu a humildade e refreou o ego de quem pensa que tudo é fácil. E se isto não é extremamente enriquecedor para o meu crescimento emocional, não sei o que mais o seja.
Por tudo isto, mãe, e por outras coisas que te continuarei a mostrar, desculpa mas vou fazê-lo!
Ana Amorim Dias
Se a coragem é medida pela intensidade dos medos que superamos, concluo que não estou, nesse campo, mal servida. Para muitos, manejar uma mota é tão banal como ir ao café. Mas para mim? Bem...para mim este bébé japonês é, de momento, o meu Gigante Adamastor pessoal. Contudo, virar as costas ao bicho e fugir apavorada não me parece uma opção.
Dizem que a vida começa aos quarenta e quero estar preparada. Já adoro viajar sozinha, faço ski, bodyboard, e até ando a ver se dou uns toques no surf. Já dou palestras, faço diretos na televisão com toda a serenidade e enfrento situações complicadas com o prazer de quem toma a recomendada dose diária de adrenalina. Já superei coisas que temia muito com a graça de quem acaba de regressar das labaredas do inferno a sorrir e, caramba, pari dois filhos sem epidural! Não é esta bébé japonesa nem a outra, a grande, que vou ter que domar a seguir, que me vão fazer vacilar.
- Sabes, Ana?- disse o Rodrigo a sorrir.- És a primeira pessoa que estou de facto a ensinar a guiar uma mota. Os outros todos já cá chegam a saber. E posso dizer-te: é muito gratificante.
Sim, porque eu não sabia de que lado se baixava o descanso e pensava que, para acelerar, o punho direito rodava para a frente!
Não tenho qualquer pudor em dizer-vos que a primeira aula foi passada em primeira (deve ter sido por isso que não me consegui equilibrar lá muito bem) . Não meti mais mudanças que o neutral e a primeira! Se me envergonho? De maneira nenhuma: hei-de aprender até usar só o instinto que nasce da prática. Hei-de encontrar o que procuro: o prazer e a liberdade que chegam com o domínio e a confiança!
Desculpa lá mãe! Desculpa-me a irrequietude que a idade não sabe abafar. Desculpa as novas preocupações. Mas sabes que sou cautelosa e que tenho em mim ferramentas para enfrentar novos perigos. Desculpa-me a determinação e a sede de liberdade. Desculpa-me querer sempre mais, de mim e da vida. Lembra-te que tenho pernas compridas e fortes e que nunca amei velocidades. E não te esqueças jamais que sou filha do meu pai, e esse acompanha-me sempre, soprando ao meu ouvido tudo aquilo que sabia...
Não sei se tomarei sob mim uma máquina japonesa, inglesa ou americana. Sei que de momento, esta bébé que respeito, me devolveu a humildade e refreou o ego de quem pensa que tudo é fácil. E se isto não é extremamente enriquecedor para o meu crescimento emocional, não sei o que mais o seja.
Por tudo isto, mãe, e por outras coisas que te continuarei a mostrar, desculpa mas vou fazê-lo!
Ana Amorim Dias
O rótulo do amor
O rótulo do amor
A mensagem dela chegou-me esta manhã. Como todos os dias me chegam tantas, com os mais variados temas, sugestões e desabafos.
Queixava-se, esta amiga que tanto adoro, dos rótulos que se nos colam como uma segunda pele e que temos, por vezes, dificuldade em desfazer e desmistificar perante os demais. Referiu que eu sou a única pessoa com quem se dá que não tem essa irritante tendência, e que foi por isso que, no meio da sua confusão, lhe apeteceu desabafar comigo.
Fiquei a pensar na minha relação com os tais rótulos e, sem demoras, respondi-lhe:
"O único problema dos rótulos é deixarmos que existam. Eu só aceito que se me colem dois: a escritora excessiva. O resto são detalhes sem importância.
Quero amar gente. Pessoas. Com amor humano. Sem me lembrar se são homens, mulheres, crianças ou anciãos/ãs; se são solteiros/as, divorciados/as, viúvos/as, predadores/as ou presas. Isso são meros detalhes e a mim importa-me amar gente. Com amor humano!
Ah e sabes? Rótulos à parte: amo-te!"
Quais são afinal os mais espartilhadores rótulos? Aqueles que nos incomoda que nos colem ou aqueles que decidimos vestir? Olhem-nos os outros como decidirem olhar-nos, desde que nos mantenhamos fieis ao que de facto somos (humanos capazes de amar com amor humano), viveremos com o único rótulo que importa: o da capacidade de amar.
E sim, o resto são pormenores sem qualquer importância!
Ana Amorim Dias
A mensagem dela chegou-me esta manhã. Como todos os dias me chegam tantas, com os mais variados temas, sugestões e desabafos.
Queixava-se, esta amiga que tanto adoro, dos rótulos que se nos colam como uma segunda pele e que temos, por vezes, dificuldade em desfazer e desmistificar perante os demais. Referiu que eu sou a única pessoa com quem se dá que não tem essa irritante tendência, e que foi por isso que, no meio da sua confusão, lhe apeteceu desabafar comigo.
Fiquei a pensar na minha relação com os tais rótulos e, sem demoras, respondi-lhe:
"O único problema dos rótulos é deixarmos que existam. Eu só aceito que se me colem dois: a escritora excessiva. O resto são detalhes sem importância.
Quero amar gente. Pessoas. Com amor humano. Sem me lembrar se são homens, mulheres, crianças ou anciãos/ãs; se são solteiros/as, divorciados/as, viúvos/as, predadores/as ou presas. Isso são meros detalhes e a mim importa-me amar gente. Com amor humano!
Ah e sabes? Rótulos à parte: amo-te!"
Quais são afinal os mais espartilhadores rótulos? Aqueles que nos incomoda que nos colem ou aqueles que decidimos vestir? Olhem-nos os outros como decidirem olhar-nos, desde que nos mantenhamos fieis ao que de facto somos (humanos capazes de amar com amor humano), viveremos com o único rótulo que importa: o da capacidade de amar.
E sim, o resto são pormenores sem qualquer importância!
Ana Amorim Dias
Protocolos
Protocolos
- João, tira a blusa e veste-a de novo, está ao contrário.
Virei costas e fui lavar os dentes.
- Quando eu for presidente vai-se poder usar a roupa do direito e do avesso! Cada um é que escolhe, porque eu vou fazer essa lei!- ouvi-o dizer lá do quarto.
O Tomás fartou-se de rir e, a mim, a pasta de dentes saiu-me disparada em chuveiro, claro! "Bem, pelo menos ficavam sem efeito muitos atentados ao protocolo..."
Pouco depois, ao pequeno-almoço, até deu gosto vê-los, de guardanapo de pano sobre as pernas, muito direitos, a comer as panquecas de faca e garfo e a beber o sumo de frutas com ar emproado. O hotel, em Motril, foi por eles escolhido com muita satisfação.
- Pode ser este, mãe? Pode, pai?
Olhei para o Ricardo e pisquei-lhe o olho.
- Pode, meninos. Hoje escolhem vocês!
Viajar com os putos ao sabor do improviso tanto pode ser maravilhoso como desesperante. Especialmente quando o ilustre pai das exigentes criancinhas se vai lembrando de novos planos a cada cinco minutos:
- E macacos? Querem ir ver macacos a Gibraltar? - perguntou-lhes, enquanto almoçávamos em Nerja.
- Yeeeeaahhh!
E eu nem disse nada, apesar de, mais tarde, me terem feito engolir à pressa a meia de leite em Marbella.
- Vá mãe, despacha-te ou já não conseguimos ver os macacos!
"Raios partam os macacos, detesto macacos! Estava-se aqui tão bem!"
Eram umas oito da noite quando chegámos ao cimo do cerro de Gibraltar. Macacos nem vê-los, já deviam estar a dormir. A viagem, contudo, não foi perdida. Entre roupas do avesso e imprevistos constantes, o dia foi completamente desprovido de qualquer protocolo e totalmente preenchido por inesquecíveis momentos.
Ana Amorim Dias
- João, tira a blusa e veste-a de novo, está ao contrário.
Virei costas e fui lavar os dentes.
- Quando eu for presidente vai-se poder usar a roupa do direito e do avesso! Cada um é que escolhe, porque eu vou fazer essa lei!- ouvi-o dizer lá do quarto.
O Tomás fartou-se de rir e, a mim, a pasta de dentes saiu-me disparada em chuveiro, claro! "Bem, pelo menos ficavam sem efeito muitos atentados ao protocolo..."
Pouco depois, ao pequeno-almoço, até deu gosto vê-los, de guardanapo de pano sobre as pernas, muito direitos, a comer as panquecas de faca e garfo e a beber o sumo de frutas com ar emproado. O hotel, em Motril, foi por eles escolhido com muita satisfação.
- Pode ser este, mãe? Pode, pai?
Olhei para o Ricardo e pisquei-lhe o olho.
- Pode, meninos. Hoje escolhem vocês!
Viajar com os putos ao sabor do improviso tanto pode ser maravilhoso como desesperante. Especialmente quando o ilustre pai das exigentes criancinhas se vai lembrando de novos planos a cada cinco minutos:
- E macacos? Querem ir ver macacos a Gibraltar? - perguntou-lhes, enquanto almoçávamos em Nerja.
- Yeeeeaahhh!
E eu nem disse nada, apesar de, mais tarde, me terem feito engolir à pressa a meia de leite em Marbella.
- Vá mãe, despacha-te ou já não conseguimos ver os macacos!
"Raios partam os macacos, detesto macacos! Estava-se aqui tão bem!"
Eram umas oito da noite quando chegámos ao cimo do cerro de Gibraltar. Macacos nem vê-los, já deviam estar a dormir. A viagem, contudo, não foi perdida. Entre roupas do avesso e imprevistos constantes, o dia foi completamente desprovido de qualquer protocolo e totalmente preenchido por inesquecíveis momentos.
Ana Amorim Dias
O máximo prazer
O máximo prazer
O espanhol desconhecido gemeu ao mesmo tempo que eu.
Começámos a rir. Eu estava a entregar os skis e a trocar as minhas botas pelas de montanha: o alívio supremo.
- Esta es la mejor parte, no?
- Nooo!! - respondi-lhe. - La mejor parte es sacar placer en las pistas! Esta es la segunda mejor sensacion!
Acabou por concordar.
Venho deslizar na montanha branca há vários anos, mas fazia-o sempre com a angústia enervante de me "destramancar" toda. E esse medinho sacana minava o sentido de tudo: o prazer; tirar de tudo o maior prazer possível!
A verdade é que desta vez ainda me dava menos jeito magoar-me ou partir o que quer que fosse, devido aos desafios físicos que me esperam durante a próxima semana. Mas nem pensei no assunto. "Hoje é para curtir, minha menina! Por isso deixa-te de merdas!"
Nem o vento nem o frio me incomodaram. Nem os pés apertados e as canelas doridas. "De corpo lançado à montanha, sem medo, caraças!" E o deslizar ganhou um sabor diferente. Usei os ensinamentos e a experiência mas, acima de tudo, libertei os instintos e aticei o prazer. "Tenho que fazer sempre assim! Em tudo! É preciso lutar pelo prazer!"
E no fim, enquanto trocava as botas de ski pelas de montanha, no tal prazer aliviado, constatei que há prazeres que só se sentem no fim de algum desconforto.
Ana Amorim Dias
O espanhol desconhecido gemeu ao mesmo tempo que eu.
Começámos a rir. Eu estava a entregar os skis e a trocar as minhas botas pelas de montanha: o alívio supremo.
- Esta es la mejor parte, no?
- Nooo!! - respondi-lhe. - La mejor parte es sacar placer en las pistas! Esta es la segunda mejor sensacion!
Acabou por concordar.
Venho deslizar na montanha branca há vários anos, mas fazia-o sempre com a angústia enervante de me "destramancar" toda. E esse medinho sacana minava o sentido de tudo: o prazer; tirar de tudo o maior prazer possível!
A verdade é que desta vez ainda me dava menos jeito magoar-me ou partir o que quer que fosse, devido aos desafios físicos que me esperam durante a próxima semana. Mas nem pensei no assunto. "Hoje é para curtir, minha menina! Por isso deixa-te de merdas!"
Nem o vento nem o frio me incomodaram. Nem os pés apertados e as canelas doridas. "De corpo lançado à montanha, sem medo, caraças!" E o deslizar ganhou um sabor diferente. Usei os ensinamentos e a experiência mas, acima de tudo, libertei os instintos e aticei o prazer. "Tenho que fazer sempre assim! Em tudo! É preciso lutar pelo prazer!"
E no fim, enquanto trocava as botas de ski pelas de montanha, no tal prazer aliviado, constatei que há prazeres que só se sentem no fim de algum desconforto.
Ana Amorim Dias
E de novo, a mala
E de novo, a mala
- Mãe, quando é que fazemos a mala?
- Amanhã.
- Amanhã? Mas é amanhã que vamos embora!
- Sim, Tomás. Sabes perfeitamente que faço a mala vinte minutos antes de sair.
Esta manhã, outra vez:
- Mãe...e a mala?
"Caraças, mais o miúdo e a mala!"
- Tomás! São oito da manhã! Já fazemos quando eu te for buscar à escola. Só vamos embora a meio da tarde, filhote, não stresses, vá lá!
Normalmente não me esqueço de nada. Sou prática e tenho prática. Mas detesto. E é um bocado estúpido, dado que gosto tanto de estar sempre "a ir". De preferência sem planos, rumo aos inesperados desígnios de apetites instantâneos e atenta às curiosas surpresas dos caminhos do imprevisto.
Ontem deitei-me furiosa.
- O que é que tu tens?
- Nada.
- Ana! Eu conheço-te há trezentos e vinte e sete anos!
Quase me fez rir enquanto me aconchegava mais ao seu corpo.
- Vá, conta lá! - insistiu, apesar de ensonado.
- Estou a contactar editoras para fazer uma edição maior do último livro e estou a aperceber-me que, por já existir a minha primeira edição, ele não lhes interessa. E é estúpido!
- Tens que ser paciente. Quem sabe não descobres um caminho melhor ou alternativas que não estás ainda a ponderar?
Não lhe respondi. Realmente só contactei duas. E foi ontem. Já ando nisto há tempo suficiente para saber que estas "malas" levam meses infinitos a fazer.
"Talvez tenhas razão. Não posso planear estas "viagens" que ultrapassam a minha vontade." Mas, ainda assim, adormeci a sentir-me injustiçada.
Só agora, enquanto as palavras saem e me curam a urticária da impaciência como um eficiente bálsamo, é que me apercebo: não gosto de malas feitas com antecedência nem de viagens óbvias e programadas ao detalhe. Que enorme fortuna, a minha! É que para nos fazermos à viagem da vida da mais emocionante maneira, só precisamos da bagagem que temos em nós! E o caminho? Ah ah ah... O caminho está sempre em aberto!!
Ana Amorim Dias
- Mãe, quando é que fazemos a mala?
- Amanhã.
- Amanhã? Mas é amanhã que vamos embora!
- Sim, Tomás. Sabes perfeitamente que faço a mala vinte minutos antes de sair.
Esta manhã, outra vez:
- Mãe...e a mala?
"Caraças, mais o miúdo e a mala!"
- Tomás! São oito da manhã! Já fazemos quando eu te for buscar à escola. Só vamos embora a meio da tarde, filhote, não stresses, vá lá!
Normalmente não me esqueço de nada. Sou prática e tenho prática. Mas detesto. E é um bocado estúpido, dado que gosto tanto de estar sempre "a ir". De preferência sem planos, rumo aos inesperados desígnios de apetites instantâneos e atenta às curiosas surpresas dos caminhos do imprevisto.
Ontem deitei-me furiosa.
- O que é que tu tens?
- Nada.
- Ana! Eu conheço-te há trezentos e vinte e sete anos!
Quase me fez rir enquanto me aconchegava mais ao seu corpo.
- Vá, conta lá! - insistiu, apesar de ensonado.
- Estou a contactar editoras para fazer uma edição maior do último livro e estou a aperceber-me que, por já existir a minha primeira edição, ele não lhes interessa. E é estúpido!
- Tens que ser paciente. Quem sabe não descobres um caminho melhor ou alternativas que não estás ainda a ponderar?
Não lhe respondi. Realmente só contactei duas. E foi ontem. Já ando nisto há tempo suficiente para saber que estas "malas" levam meses infinitos a fazer.
"Talvez tenhas razão. Não posso planear estas "viagens" que ultrapassam a minha vontade." Mas, ainda assim, adormeci a sentir-me injustiçada.
Só agora, enquanto as palavras saem e me curam a urticária da impaciência como um eficiente bálsamo, é que me apercebo: não gosto de malas feitas com antecedência nem de viagens óbvias e programadas ao detalhe. Que enorme fortuna, a minha! É que para nos fazermos à viagem da vida da mais emocionante maneira, só precisamos da bagagem que temos em nós! E o caminho? Ah ah ah... O caminho está sempre em aberto!!
Ana Amorim Dias
22.1.14
"Selvagicalidade"
"Selvagicalidade"
Acabei de reparar que os dias em que escolho guiar até um café mais distante, são os mesmos em que a crónica mais me entusiasma e desafia. Dou um tempo extra aos preliminares do deleite criativo, protelando o pináculo do prazer para que seja ainda mais intenso, numa lógica que, por certo, todos entenderão.
Foi ontem à noite que li esta bela questão: com que escritor escolheria jantar, se pudesse? Quem me lê sempre sabe a resposta. Ernest Miller Hemingway regressaria do grande desconhecido para partilharmos uma conversa sublime ao sabor de um enorme peixe grelhado, bom vinho e uns cubanos.
Sou fascinada por ele desde que me lembro. Mais por ele do que pelas obras, confesso. Mas, na minha visão dos factos, a obra de qualquer escritor vale tanto pela sua qualidade como pela personalidade apaixonante do seu criador. Os livros de escritores omissos, por mais excelentes que sejam, parecem-me algo apátridas e deixam-me um travo de orfandade que lhes retira valor. Livro que é livro, daqueles que marcam mesmo, precisa de trazer em si entranhado toda a intensidade e personalidade de autores só por si apaixonantes, caso contrário é só mais um.
- Gosto de pessoas com "selvagicalidade"- disse eu.
- Desculpa? Essa palavra existe?
- Não! Mas eu sou escritora, posso inventar palavras, se me apetecer!
Sempre admirei os escritores de uma forma tão absoluta que, ao constatar que era uma, a minha vida se tornou num constante sonho feliz. Nós, os escritores, podemos inventar e inventar-nos; podemos exagerar, subverter, criar irreais realidades. Nós, os escritores, somos de todos irmãos, pais, filhos, amigos e amantes. Nós, os escritores, somos magos capazes de transformar pensamentos, atitudes e vidas... tudo só com palavras e, claro, com a intensidade pessoal com que as fazemos bailar.
Passei muitos anos desiludida com o meu herói literário. Como é que um homem tão intenso e apaixonante se mata? Porque é que desistiu? Como podia eu explicar tão absurdo paradoxo? A resposta é óbvia, na verdade. Mas só ao assumir-me na plena intensidade de emocionada (e emocionante?) escritora, logrei compreender a equação. Quando se viu encurralado numa existência física e mental que não podia controlar com a "selvagicalidade" que lhe era natural, o Ernest fez a única coisa que podia ter feito para se respeitar a si mesmo. Não foi um paradoxo, foi uma inevitabilidade.
Mas eu só desejava jantar com ele. Nem que fosse uma torrada.
Ana Amorim Dias
Acabei de reparar que os dias em que escolho guiar até um café mais distante, são os mesmos em que a crónica mais me entusiasma e desafia. Dou um tempo extra aos preliminares do deleite criativo, protelando o pináculo do prazer para que seja ainda mais intenso, numa lógica que, por certo, todos entenderão.
Foi ontem à noite que li esta bela questão: com que escritor escolheria jantar, se pudesse? Quem me lê sempre sabe a resposta. Ernest Miller Hemingway regressaria do grande desconhecido para partilharmos uma conversa sublime ao sabor de um enorme peixe grelhado, bom vinho e uns cubanos.
Sou fascinada por ele desde que me lembro. Mais por ele do que pelas obras, confesso. Mas, na minha visão dos factos, a obra de qualquer escritor vale tanto pela sua qualidade como pela personalidade apaixonante do seu criador. Os livros de escritores omissos, por mais excelentes que sejam, parecem-me algo apátridas e deixam-me um travo de orfandade que lhes retira valor. Livro que é livro, daqueles que marcam mesmo, precisa de trazer em si entranhado toda a intensidade e personalidade de autores só por si apaixonantes, caso contrário é só mais um.
- Gosto de pessoas com "selvagicalidade"- disse eu.
- Desculpa? Essa palavra existe?
- Não! Mas eu sou escritora, posso inventar palavras, se me apetecer!
Sempre admirei os escritores de uma forma tão absoluta que, ao constatar que era uma, a minha vida se tornou num constante sonho feliz. Nós, os escritores, podemos inventar e inventar-nos; podemos exagerar, subverter, criar irreais realidades. Nós, os escritores, somos de todos irmãos, pais, filhos, amigos e amantes. Nós, os escritores, somos magos capazes de transformar pensamentos, atitudes e vidas... tudo só com palavras e, claro, com a intensidade pessoal com que as fazemos bailar.
Passei muitos anos desiludida com o meu herói literário. Como é que um homem tão intenso e apaixonante se mata? Porque é que desistiu? Como podia eu explicar tão absurdo paradoxo? A resposta é óbvia, na verdade. Mas só ao assumir-me na plena intensidade de emocionada (e emocionante?) escritora, logrei compreender a equação. Quando se viu encurralado numa existência física e mental que não podia controlar com a "selvagicalidade" que lhe era natural, o Ernest fez a única coisa que podia ter feito para se respeitar a si mesmo. Não foi um paradoxo, foi uma inevitabilidade.
Mas eu só desejava jantar com ele. Nem que fosse uma torrada.
Ana Amorim Dias
A perfect gift
A perfect gift
A inspiração oferece-se. E é uma prenda perfeita. Alguém que nos dá um bom exemplo ou faz aumentar em nós a energia para seguir: que prenda mais perfeita!
A felicidade oferece-se. Um sorriso franco, encorajador. Um olhar que nos diz "Estou aqui! Sigo ao teu lado para te apoiares em mim se quiseres". Que grandiosa oferenda!
A coragem oferece-se. "Se eu consegui, tu também consegues, podes estar certo/a". Que poderosa oferta!
A sabedoria oferece-se. Palavras. Exemplos. Vidas. De quantos lados diferentes vem esta perfeita prenda!?
O bem estar oferece-se. A nós mesmos: "Hoje não me dói nada, consigo ver, ouvir, cheirar, saborear; consigo mexer-me e pensar e sentir." Que colossal oferta!
Deram-nos a fitinha vermelha durante o jantar. Uma para cada um. Todos a colocámos, ficando a pertencer a uma espécie de irmandade capaz de entender o grandioso valor (e sabor?) das prendas perfeitas.
Mais tarde, ao serão, ofereceram-me uma companheira para a fitinha vermelha: a pulseira com o trevo das quatro folhas. Não consegui tirá-las mais!
A sorte oferece-se, tal como o amor aos outros, que nasce sem explicações: a sorte de conseguir amar os outros como eles são, percebendo que todos os dias, se estivermos atentos e soubermos receber, temos tudo (mas mesmo tudo) a ganhar.
Ana Amorim Dias
A inspiração oferece-se. E é uma prenda perfeita. Alguém que nos dá um bom exemplo ou faz aumentar em nós a energia para seguir: que prenda mais perfeita!
A felicidade oferece-se. Um sorriso franco, encorajador. Um olhar que nos diz "Estou aqui! Sigo ao teu lado para te apoiares em mim se quiseres". Que grandiosa oferenda!
A coragem oferece-se. "Se eu consegui, tu também consegues, podes estar certo/a". Que poderosa oferta!
A sabedoria oferece-se. Palavras. Exemplos. Vidas. De quantos lados diferentes vem esta perfeita prenda!?
O bem estar oferece-se. A nós mesmos: "Hoje não me dói nada, consigo ver, ouvir, cheirar, saborear; consigo mexer-me e pensar e sentir." Que colossal oferta!
Deram-nos a fitinha vermelha durante o jantar. Uma para cada um. Todos a colocámos, ficando a pertencer a uma espécie de irmandade capaz de entender o grandioso valor (e sabor?) das prendas perfeitas.
Mais tarde, ao serão, ofereceram-me uma companheira para a fitinha vermelha: a pulseira com o trevo das quatro folhas. Não consegui tirá-las mais!
A sorte oferece-se, tal como o amor aos outros, que nasce sem explicações: a sorte de conseguir amar os outros como eles são, percebendo que todos os dias, se estivermos atentos e soubermos receber, temos tudo (mas mesmo tudo) a ganhar.
Ana Amorim Dias
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