No meio do Alto Atlas
- És mesmo burra! Em vez de estares em casa sossegada, vens para estes fins de mundo repletos de perigos!-
- Já te calavas!- respondi a mim mesma enquanto Hassan, o guia berbere-Fitipaldi, punha a música "marrocaine" mais alta e dava gás à viagem.
- Afinal porque é que aqui estás, no meio do Alto Atlas, a ir sabe-se lá para onde em busca não sei do quê? Vá, responde!-
- Só podes estar a gozar!!-
- Claro que estou, parva!- conclui de mim para mim, com uma gargalhada em surdina, para rematar a questão.
Saímos com quatro horas de atraso devido a uma greve qualquer. O guia avisou que seria perigoso tentar furá-la pois podíamos ser vítimas de ataques. Comecei logo a "espingardar" com aquele tipo de folclore, mas não havia nada a fazer. O resultado foi que, depois de visitar vários locais (entre os quais o encantador Ait Ben Haddou onde filmes como o Indiana Jones, Gladiador ou o Príncipe da Pérsia foram filmados) chegámos a Ouarzazate ao fim do dia e, não bastasse o pouco tempo ali passado, ainda fizemos todo o caminho até às Gargantas do Dadès de noite. Como não vou voltar pelo mesmo percurso, perdi a oportunidade de ver a paisagem e isso, se inicialmente me irritou, depressa teve o condão de me fazer ver algo com toda a clareza. Percebi que quando viajamos de noite não podemos apreciar convenientemente a paisagem! Frase tão óbvia que até é apatetada, não? Então deixem-me alterar ligeiramente a fórmula desta equação...
Imaginem que a escuridão são os nossos medos, pessimismos, revoltas, stresses, recalcamentos, raivas e afins, e imaginem que a paisagem são os dias que se sucedem uns aos outros sem descanso. Na escuridão de toda essa porcaria, que permitimos invadir-nos, deixamos de ver a vida tal como ela é; tal como podemos fazer com que ela seja: uma paisagem encantadora; um cenário surpreendente!
Atravessei o Alto Atlas de dia, deslumbrada com a paisagem, com a música e com o embalo dançante das curvas sobre as vertiginosas ravinas. A última etapa do dia, apesar de feita à noite, aconteceu com a habitual claridade interior que me sabe iluminar o caminho...
- És uma caçadora de histórias!- disse a mim mesma.
- Hã?-
- Sim: perguntavas ainda há pouco porque é que estás aqui, a ir sabe-se lá para onde, em busca não se sabe de quê... O objetivo é bem claro!
- Escrever!! - disse eu, comigo, em coro.
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
5.11.13
Concessões em Marraquesh
Concessões em Marraquesh
Entrar em Marraquesh ao som de blues pode parecer um completo disparate, mas garanto que a culpa desta vez não foi minha; era o que estava a passar no transfer para o hotel.
Cheguei à hora mais perfeita a que se pode chegar a qualquer que seja o lugar: o almoço esperava por mim; só me restava descobrir onde. Um sumo aqui, um petisco ali, uma prova mais adiante...e deliciei-me sem receios nos locais que os nativos frequentam.
Ao fim de pouco tempo passado nas praças, ruelas e souks, já não conseguia aturar as constantes investidas.
- "Vien ici". Española? Brasilêra? Compra siñora!-
Estes tipos são mestrados na arte da persuasão. Mas eu já tinha decidido não me render à qualidade de "vítima", agindo sim como discípula, por isso adotei uma postura de moura (o aspeto ajuda, claro) e deixei de passar cartão a quem quer que fosse. Ao perceberem que caminhava como uma autista, depressa desistiam do massacre e eu podia, então em paz, observar e aprender.
Por outro lado, e para uma cidade que se quer embeber de uma atmosfera mais europeia e cosmopolita (porquê, porquê?!?), falharam por completo um detalhe: por onde pára a cerveja?!? Será mais importante manterem-se genuínos e fieis aos seus princípios, ou ajustarem-se um pouco às necessidades de um setor que lhes traz tanto dinheiro?
Nunca pensei que, entre cobras, macacos, cheiros intensos e milhares de sons diferentes, conseguiria ter divagações tão profundas causadas pelo desejo ardente de uma cerveja gelada (nem costumo ter estes "ataques" de sede mas asseguro-vos que o ambiente pede mesmo!). Devem ou não, estes mouros, render-se e permitir que os turistas bebam uns canecos? Mais: devemos manter-nos genuínos ou fazer concessões a quem nos ajuda?
Eram umas oito da noite quando encontrei, no terraço de um prédio, um bar deslumbrante. Luzes baixas sobre cores quentes, decoração luxuriante e uns sons de lounge oriental a dar para o new age que me arrepiaram por dentro. Está bem que os preços me fizeram suspeitar que estava em Paris...mas havia cerveja e eu estava feliz! E foi ali, enquanto apreciava a magia do tempo a parar, que entendi que as concessões não roubam a genuinidade; pelo contrário, normalmente até lhe trazem um redobrado sentido.
Ana Amorim Dias
Entrar em Marraquesh ao som de blues pode parecer um completo disparate, mas garanto que a culpa desta vez não foi minha; era o que estava a passar no transfer para o hotel.
Cheguei à hora mais perfeita a que se pode chegar a qualquer que seja o lugar: o almoço esperava por mim; só me restava descobrir onde. Um sumo aqui, um petisco ali, uma prova mais adiante...e deliciei-me sem receios nos locais que os nativos frequentam.
Ao fim de pouco tempo passado nas praças, ruelas e souks, já não conseguia aturar as constantes investidas.
- "Vien ici". Española? Brasilêra? Compra siñora!-
Estes tipos são mestrados na arte da persuasão. Mas eu já tinha decidido não me render à qualidade de "vítima", agindo sim como discípula, por isso adotei uma postura de moura (o aspeto ajuda, claro) e deixei de passar cartão a quem quer que fosse. Ao perceberem que caminhava como uma autista, depressa desistiam do massacre e eu podia, então em paz, observar e aprender.
Por outro lado, e para uma cidade que se quer embeber de uma atmosfera mais europeia e cosmopolita (porquê, porquê?!?), falharam por completo um detalhe: por onde pára a cerveja?!? Será mais importante manterem-se genuínos e fieis aos seus princípios, ou ajustarem-se um pouco às necessidades de um setor que lhes traz tanto dinheiro?
Nunca pensei que, entre cobras, macacos, cheiros intensos e milhares de sons diferentes, conseguiria ter divagações tão profundas causadas pelo desejo ardente de uma cerveja gelada (nem costumo ter estes "ataques" de sede mas asseguro-vos que o ambiente pede mesmo!). Devem ou não, estes mouros, render-se e permitir que os turistas bebam uns canecos? Mais: devemos manter-nos genuínos ou fazer concessões a quem nos ajuda?
Eram umas oito da noite quando encontrei, no terraço de um prédio, um bar deslumbrante. Luzes baixas sobre cores quentes, decoração luxuriante e uns sons de lounge oriental a dar para o new age que me arrepiaram por dentro. Está bem que os preços me fizeram suspeitar que estava em Paris...mas havia cerveja e eu estava feliz! E foi ali, enquanto apreciava a magia do tempo a parar, que entendi que as concessões não roubam a genuinidade; pelo contrário, normalmente até lhe trazem um redobrado sentido.
Ana Amorim Dias
Uma mochila a dois terços
Uma mochila a dois terços
A cada nova partida vou tentando levar menos bagagem: aquilo que é realmente importante cabe dentro de nós e em dois terços de uma pequena mochila. Uma das coisas, contudo, que convém nunca deixar para trás é a expetativa feliz daquilo que se conseguirá trazer no regresso.
Não são malas cheias ou vazias que determinam o sucesso das viagens. O que faz delas mais um marco é o deslumbrado encantamento com que conseguimos enriquecer por dentro.
Ana Amorim Dias
A cada nova partida vou tentando levar menos bagagem: aquilo que é realmente importante cabe dentro de nós e em dois terços de uma pequena mochila. Uma das coisas, contudo, que convém nunca deixar para trás é a expetativa feliz daquilo que se conseguirá trazer no regresso.
Não são malas cheias ou vazias que determinam o sucesso das viagens. O que faz delas mais um marco é o deslumbrado encantamento com que conseguimos enriquecer por dentro.
Ana Amorim Dias
27.10.13
Prazer e arte
Prazer e arte
Mandei-o ler o texto todo e responder às questões. Nada melhor do que a prática para nos preparar para os testes.
- Mas mãe... São sete páginas!- respondeu.
- Só podes estar a gozar comigo, Tomás! Isso não é nada! Vá, ataca!-
Passados alguns minutos, e vendo-o a patinar em seco, decidi dar uma ajuda.
- Vá lá... Aproveita que eu vou ler isto de uma forma interessante e divertida. Mas presta toda a atenção para depois responderes às perguntas de interpretação!-
Animou-se um pouco e eu comecei.
Um parágrafo. Dois. Três. Vi logo quem era o responsável pelos bocejos dos dois: Alexandre Herculano em "Lendas e narrativas". Optei por disfarçar o caso e continuar a tentar tornar a leitura interessante, mas regressei à minha adolescência e à entediante tortura que foi para mim, naqueles anos, ler "Viagens na minha terra" do Almeida Garrett. É que dos cantos de "Os Lusíadas" até gostei, assim como do "Amor de Perdição" ou de "Os Maias". Mas a obra "Viagens na minha terra" traumatizou-me ao ponto de quase colocar em causa a minha paixão pela leitura.
A sério: não deviam fazer isto aos miúdos! Quer dizer, revelar-lhes, num afloramento ligeiro, os grandes mestres da literatura pura e dura, é uma coisa; submetê-los a intensas terapias de aversão à leitura, é outra. Ainda mais quando temos contemporâneos de tão boa qualidade literária e capazes de despertar muito mais emoção e interesse!
Jamais poderia criticar o valor literário, intelectual e artístico dos grandes mestres, mas nada me impede de manifestar as minhas impressões enquanto consumidora dos mesmos... Sou da opinião que os verdadeiros criadores devem ser como os mais perfeitos amantes: tão atentos ao seu prazer como empenhados no prazer alheio. A erudição, a perfeição e a genialidade têm um elevado valor. Mas a arte, desculpem-me o atrevimento, é mais que isso; é conseguir tocar o outro dando-lhe o mais intenso prazer...em vez de o fazer bocejar!
Ana Amorim Dias
Mandei-o ler o texto todo e responder às questões. Nada melhor do que a prática para nos preparar para os testes.
- Mas mãe... São sete páginas!- respondeu.
- Só podes estar a gozar comigo, Tomás! Isso não é nada! Vá, ataca!-
Passados alguns minutos, e vendo-o a patinar em seco, decidi dar uma ajuda.
- Vá lá... Aproveita que eu vou ler isto de uma forma interessante e divertida. Mas presta toda a atenção para depois responderes às perguntas de interpretação!-
Animou-se um pouco e eu comecei.
Um parágrafo. Dois. Três. Vi logo quem era o responsável pelos bocejos dos dois: Alexandre Herculano em "Lendas e narrativas". Optei por disfarçar o caso e continuar a tentar tornar a leitura interessante, mas regressei à minha adolescência e à entediante tortura que foi para mim, naqueles anos, ler "Viagens na minha terra" do Almeida Garrett. É que dos cantos de "Os Lusíadas" até gostei, assim como do "Amor de Perdição" ou de "Os Maias". Mas a obra "Viagens na minha terra" traumatizou-me ao ponto de quase colocar em causa a minha paixão pela leitura.
A sério: não deviam fazer isto aos miúdos! Quer dizer, revelar-lhes, num afloramento ligeiro, os grandes mestres da literatura pura e dura, é uma coisa; submetê-los a intensas terapias de aversão à leitura, é outra. Ainda mais quando temos contemporâneos de tão boa qualidade literária e capazes de despertar muito mais emoção e interesse!
Jamais poderia criticar o valor literário, intelectual e artístico dos grandes mestres, mas nada me impede de manifestar as minhas impressões enquanto consumidora dos mesmos... Sou da opinião que os verdadeiros criadores devem ser como os mais perfeitos amantes: tão atentos ao seu prazer como empenhados no prazer alheio. A erudição, a perfeição e a genialidade têm um elevado valor. Mas a arte, desculpem-me o atrevimento, é mais que isso; é conseguir tocar o outro dando-lhe o mais intenso prazer...em vez de o fazer bocejar!
Ana Amorim Dias
Ironias
Ironias
Procurei por todos os sítios possíveis mas, como é óbvio, não encontrei nenhum. É o que dá quando temos aversão a algo. Mas chovia a cântaros e, farta de levar com chuva no lombo a semana inteira, decidi render-me momentaneamente ao óbvio.
Conduzi debaixo de um dilúvio até Castro Marim e, como tinha oito minutos até ao toque de saída do Tomás, parei à porta da loja e comprei um guarda-chuva. Cinco minutos depois a natureza mostrou-me a língua: o céu limpou e um sol radioso iluminou uma atmosfera límpida e vibrante.
Às vezes dou por mim a rir das ironias da vida. Por exemplo: como é que uma pessoa que tanto ama viajar, detesta tão intensamente fazer malas? Ou porque é que, tanto amando as pessoas em geral, tenho uma necessidade tão gritante de, constantemente, estar a sós?
Serão as ironias da vida, lições que temos de decifrar? Servirão realmente elas para nos ensinar alguma coisa, ou existirão simplesmente para zombar das nossas vontades?
Quase aposto que as ironias, como tudo o resto, existem para nos fazer aprender algo mais. O que ainda continuo a tentar decifrar é o que é que cada uma em si encerra para me fazer evoluir.
Entretanto, enquanto vou pensando no caso, terei que ir fazer a mala!
...Ou então fica para depois: é que não me apetece mesmo nada e ainda tenho tempo!
Ana Amorim Dias
Procurei por todos os sítios possíveis mas, como é óbvio, não encontrei nenhum. É o que dá quando temos aversão a algo. Mas chovia a cântaros e, farta de levar com chuva no lombo a semana inteira, decidi render-me momentaneamente ao óbvio.
Conduzi debaixo de um dilúvio até Castro Marim e, como tinha oito minutos até ao toque de saída do Tomás, parei à porta da loja e comprei um guarda-chuva. Cinco minutos depois a natureza mostrou-me a língua: o céu limpou e um sol radioso iluminou uma atmosfera límpida e vibrante.
Às vezes dou por mim a rir das ironias da vida. Por exemplo: como é que uma pessoa que tanto ama viajar, detesta tão intensamente fazer malas? Ou porque é que, tanto amando as pessoas em geral, tenho uma necessidade tão gritante de, constantemente, estar a sós?
Serão as ironias da vida, lições que temos de decifrar? Servirão realmente elas para nos ensinar alguma coisa, ou existirão simplesmente para zombar das nossas vontades?
Quase aposto que as ironias, como tudo o resto, existem para nos fazer aprender algo mais. O que ainda continuo a tentar decifrar é o que é que cada uma em si encerra para me fazer evoluir.
Entretanto, enquanto vou pensando no caso, terei que ir fazer a mala!
...Ou então fica para depois: é que não me apetece mesmo nada e ainda tenho tempo!
Ana Amorim Dias
Janela e espelho
Janela e espelho
A certa altura quase deixei de a ouvir. Quer dizer, estava a escutá-la com a consciência e o cérebro, mas a minha alma, embalada pelo Billy Paul a cantar "Me and ms. Jones", abraçava aquela partilha com uma tal emoção que me confirmou mais um dos meus amores eternos.
Não saíamos juntas e sozinhas há muitos meses, mas recuperámos totalmente o tempo perdido com as mesmas infindáveis horas de ininterrupta conversa e sentidas gargalhadas que sempre nos recordam as razões desta paixão.
- E isso foi a melhor coisa que te aconteceu na vida...- disse ela quando a deixei em casa.
Começar a escrever foi tudo isso e mais, realmente.
- A "melhor coisa que já me aconteceu na vida" foram tantas coisas, em tantos momentos diferentes... E uma delas foste tu!- respondi-lhe com toda a verdade.
Voltei para casa a ouvir a "Canção de mim mesmo" dos Black Mamba. "...sou janela e espelho por onde te vês...sou o sol que depois da chuva, brilha outra vez..."
A amizade é isto, pensei, completamente feliz.
Ana Amorim Dias
A certa altura quase deixei de a ouvir. Quer dizer, estava a escutá-la com a consciência e o cérebro, mas a minha alma, embalada pelo Billy Paul a cantar "Me and ms. Jones", abraçava aquela partilha com uma tal emoção que me confirmou mais um dos meus amores eternos.
Não saíamos juntas e sozinhas há muitos meses, mas recuperámos totalmente o tempo perdido com as mesmas infindáveis horas de ininterrupta conversa e sentidas gargalhadas que sempre nos recordam as razões desta paixão.
- E isso foi a melhor coisa que te aconteceu na vida...- disse ela quando a deixei em casa.
Começar a escrever foi tudo isso e mais, realmente.
- A "melhor coisa que já me aconteceu na vida" foram tantas coisas, em tantos momentos diferentes... E uma delas foste tu!- respondi-lhe com toda a verdade.
Voltei para casa a ouvir a "Canção de mim mesmo" dos Black Mamba. "...sou janela e espelho por onde te vês...sou o sol que depois da chuva, brilha outra vez..."
A amizade é isto, pensei, completamente feliz.
Ana Amorim Dias
Fecundar emoções
Fecundar as emoções
- Mãe, põe mais alto...-
Fiquei toda contente. Normalmente sou eu a querer a música aos gritos no carro e são eles a reclamar.
"Mas espera, Ana... O João está a gostar assim tanto da SINFONI DEO dos Era?!..."
Isto aconteceu depois de o ir buscar à porta da escola enquanto caía uma chuvita convicta. Durante os sete minutos que durou a espera, tive vários simpáticos convites para partilhar o abrigo de sombrinhas alheias e tive até direito a uma cara de espanto/incompreensão com uma pitada de piedade (não foi Luísa? :) ).
Acontece que gosto de andar à chuva. E até de estar parada sob ela. Acho uma delícia entregar-me plenamente aos elementos, desde que com alguma segurança e conforto, claro. Até entendo que algumas pessoas temam a chuva como quem teme uma rega de ácido sulfúrico misturada com essência de doninha e veneno de cascavel mas, se a temperatura está amena e nos podemos secar em breve, porque não havemos de nos deixar levar pelo momento?
"Quem anda à chuva, molha-se!" diz a popular sabedoria, esquecendo que a chuva é só água. Está bem, molha, e depois? É tão bom estar molhado (podem interpretar como quiserem que a ideia também é essa).
Regressem lá da gargalhada que isto ainda vai a meio. "Quem anda à chuva, molha-se" faz-me sempre lembrar uma receita de anti-vida: "Não arrisques, não te mexas, olha que vai dar sarilho!", e depois?? Não estamos aqui para experimentar, sentir, errar e aprender com cada molha? Existirá algo mais fecundo que estas metafóricas chuvadas que nos fazem brotar as sementinhas da alma?
- Mãe, põe outra vez a musica de ontem...- Pediu o João ainda agora, enquanto o levava para a escola.
Fiz-lhe a vontade e recordei a sensação que tive ao ouvi-la, há uns anos, depois de uma semana em que poderia ter morrido de três maneiras diferentes. Depois de experimentar um abalo sísmico, uma explosão na cozinha e a queda do teto de um centro comercial mesmo por cima de mim, ouvi esta música e pensei: "Caneco, vou viver tão intensamente esta vida!!"
- Porque é que gostas tanto desta música, filhote?-
- Hum... Não te sei explicar. E tu, mãe?-
- Porque é emocionante... E tu sabes que eu adoro emoções!-
- Sabes? Acho que é por isso que eu também gosto.-
Ana Amorim Dias
- Mãe, põe mais alto...-
Fiquei toda contente. Normalmente sou eu a querer a música aos gritos no carro e são eles a reclamar.
"Mas espera, Ana... O João está a gostar assim tanto da SINFONI DEO dos Era?!..."
Isto aconteceu depois de o ir buscar à porta da escola enquanto caía uma chuvita convicta. Durante os sete minutos que durou a espera, tive vários simpáticos convites para partilhar o abrigo de sombrinhas alheias e tive até direito a uma cara de espanto/incompreensão com uma pitada de piedade (não foi Luísa? :) ).
Acontece que gosto de andar à chuva. E até de estar parada sob ela. Acho uma delícia entregar-me plenamente aos elementos, desde que com alguma segurança e conforto, claro. Até entendo que algumas pessoas temam a chuva como quem teme uma rega de ácido sulfúrico misturada com essência de doninha e veneno de cascavel mas, se a temperatura está amena e nos podemos secar em breve, porque não havemos de nos deixar levar pelo momento?
"Quem anda à chuva, molha-se!" diz a popular sabedoria, esquecendo que a chuva é só água. Está bem, molha, e depois? É tão bom estar molhado (podem interpretar como quiserem que a ideia também é essa).
Regressem lá da gargalhada que isto ainda vai a meio. "Quem anda à chuva, molha-se" faz-me sempre lembrar uma receita de anti-vida: "Não arrisques, não te mexas, olha que vai dar sarilho!", e depois?? Não estamos aqui para experimentar, sentir, errar e aprender com cada molha? Existirá algo mais fecundo que estas metafóricas chuvadas que nos fazem brotar as sementinhas da alma?
- Mãe, põe outra vez a musica de ontem...- Pediu o João ainda agora, enquanto o levava para a escola.
Fiz-lhe a vontade e recordei a sensação que tive ao ouvi-la, há uns anos, depois de uma semana em que poderia ter morrido de três maneiras diferentes. Depois de experimentar um abalo sísmico, uma explosão na cozinha e a queda do teto de um centro comercial mesmo por cima de mim, ouvi esta música e pensei: "Caneco, vou viver tão intensamente esta vida!!"
- Porque é que gostas tanto desta música, filhote?-
- Hum... Não te sei explicar. E tu, mãe?-
- Porque é emocionante... E tu sabes que eu adoro emoções!-
- Sabes? Acho que é por isso que eu também gosto.-
Ana Amorim Dias
A tristeza tem razões que a própria razão desconhece
A tristeza tem razões que a própria razão desconhece
Nem dei por ela a chegar. Veio, sorrateira, e instalou-se descaradamente em mim como se eu fosse a sua casa.
- O que é que tu tens hoje?-
- Sono.- Como podia confessar-lhe uma tristeza que não saberia, depois, como justificar?
Dei voltas e caminhadas pelas ruelas da razão. Procurei por todos os becos, espreitei portas e janelas que nem tenho por hábito abrir...e nada! Não encontrei absolutamente nada que pudesse justificar uma tristeza tão absoluta, invasiva e intensa. Recordei fases passadas em que me empenhava em estar triste; lembrei-me da emocionante intensidade com que já senti a tristeza e a forma como ela me conduziu à arte que me dá o pleno sentido à vida. Encerrará a tristeza, em si mesma, uma das poderosas forças que nos faz avançar?
A certa altura desisti de pensá-la e de a tentar racionalizar. Os sentimentos nem sempre precisam de um atestado justificativo. Basta que os aceitemos em toda a sua imensa plenitude, fazendo dessa intensidade o nosso maior combustível, para que a força nos chegue. E, de repente, a razão conseguiu mostrar-me que até os mais sofridos sentimentos, desde que bem encaminhados, podem fazer de nós invencíveis sobreviventes.
E foi assim, completamente vencida pelo ensinamento que trouxe, que a tristeza me deixou, entregue a melhores sensações.
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Enviado via iPad
Nem dei por ela a chegar. Veio, sorrateira, e instalou-se descaradamente em mim como se eu fosse a sua casa.
- O que é que tu tens hoje?-
- Sono.- Como podia confessar-lhe uma tristeza que não saberia, depois, como justificar?
Dei voltas e caminhadas pelas ruelas da razão. Procurei por todos os becos, espreitei portas e janelas que nem tenho por hábito abrir...e nada! Não encontrei absolutamente nada que pudesse justificar uma tristeza tão absoluta, invasiva e intensa. Recordei fases passadas em que me empenhava em estar triste; lembrei-me da emocionante intensidade com que já senti a tristeza e a forma como ela me conduziu à arte que me dá o pleno sentido à vida. Encerrará a tristeza, em si mesma, uma das poderosas forças que nos faz avançar?
A certa altura desisti de pensá-la e de a tentar racionalizar. Os sentimentos nem sempre precisam de um atestado justificativo. Basta que os aceitemos em toda a sua imensa plenitude, fazendo dessa intensidade o nosso maior combustível, para que a força nos chegue. E, de repente, a razão conseguiu mostrar-me que até os mais sofridos sentimentos, desde que bem encaminhados, podem fazer de nós invencíveis sobreviventes.
E foi assim, completamente vencida pelo ensinamento que trouxe, que a tristeza me deixou, entregue a melhores sensações.
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Enviado via iPad
Alegoria da urgência
Alegoria da urgência
A encomenda chegou finalmente. Os livros que encomendei com urgência (duplamente paga) há vinte e dois dias (sim: vinte e dois) foi hoje por mim levantada (como a Quinta do Monte não tem número de porta, todos os árduos esforços para a encontrar foram inglórios) no posto de correios mais próximo.
Poderia maldizer a wook e os serviços expresso dos ctt, mas prefiro, sem qualquer ponta de ironia, agradecer-lhes. Passei por fases de incredulidade, indignação e ação (averiguar o estafeta em causa revelou-se impossível: parece que os ctt expresso gostam de encobrir a incompetência dos seus) até chegar à iluminação. Gosto de tentar reagir às contrariedades extraindo-lhes algo de bom... E esta contrariedade trouxe-me a alegoria da urgência.
Podemos lutar, correr, ter a maior das pressas e agir em conformidade: o facto é que as coisas só nos chegam quando têm que chegar. De pouco serve madrugar se o sol só nasce à sua hora. De nada serve ter urgência e de, muitas diferentes maneiras, tentar pagar o que ela vale pois tudo tem o seu tempo, por mais que nos pareça excessivo.
Quando queremos algo há que lutar e trabalhar por isso. Um dia a "encomenda" acaba por nos chegar...mesmo que tenhamos que calar a nossa urgência e esperar muito mais tempo do que seria aceitável.
Ana Amorim Dias
A encomenda chegou finalmente. Os livros que encomendei com urgência (duplamente paga) há vinte e dois dias (sim: vinte e dois) foi hoje por mim levantada (como a Quinta do Monte não tem número de porta, todos os árduos esforços para a encontrar foram inglórios) no posto de correios mais próximo.
Poderia maldizer a wook e os serviços expresso dos ctt, mas prefiro, sem qualquer ponta de ironia, agradecer-lhes. Passei por fases de incredulidade, indignação e ação (averiguar o estafeta em causa revelou-se impossível: parece que os ctt expresso gostam de encobrir a incompetência dos seus) até chegar à iluminação. Gosto de tentar reagir às contrariedades extraindo-lhes algo de bom... E esta contrariedade trouxe-me a alegoria da urgência.
Podemos lutar, correr, ter a maior das pressas e agir em conformidade: o facto é que as coisas só nos chegam quando têm que chegar. De pouco serve madrugar se o sol só nasce à sua hora. De nada serve ter urgência e de, muitas diferentes maneiras, tentar pagar o que ela vale pois tudo tem o seu tempo, por mais que nos pareça excessivo.
Quando queremos algo há que lutar e trabalhar por isso. Um dia a "encomenda" acaba por nos chegar...mesmo que tenhamos que calar a nossa urgência e esperar muito mais tempo do que seria aceitável.
Ana Amorim Dias
Lutando com monstros
Lutando com monstros
- Depressa, mãe!-
- Hã?- estava a ouvir música com fones e não o escutei à primeira.
- Passa-me aí o comando! Tenho que mudar depressa, mãe!-
Assim que levantei os olhos entendi-lhe o pânico: era a casa dos segredos.
- Tu já viste isto?- perguntou-me uma amiga, à espera de opinião sobre como lidar com uma pessoa complicada que lhe acabara de mandar uma mensagem feia.
- Ignora, querida. Em absoluto. Caso contrário só estás a fazer mal a ti mesma e a alimentar a insanidade alheia. Não respondas!-
Lutamos constantemente com todo o tipo de monstros e, de facto, durante cada batalha, temos que estar bem vigilantes por forma a não nos tornarmos, nós também, um pouco monstruosos.
É tão fácil deixarmos que a raiva, a frustração, a inveja, o desalento e mil outras monstruosas características nos invadam e comecem a dominar desde dentro que, se não nos acautelarmos, depressa fazem de nós seus reféns.
O ideal é conseguir evitar contactar com monstros, tal como o Tomás sabiamente ontem fez ao mudar de canal. Mas quando os monstros se colocam mesmo à nossa frente, fazendo com que a luta seja inevitável, mais vale que usemos a única "arma" eficaz: uma monstruosa inocência!
Ana Amorim Dias
- Depressa, mãe!-
- Hã?- estava a ouvir música com fones e não o escutei à primeira.
- Passa-me aí o comando! Tenho que mudar depressa, mãe!-
Assim que levantei os olhos entendi-lhe o pânico: era a casa dos segredos.
- Tu já viste isto?- perguntou-me uma amiga, à espera de opinião sobre como lidar com uma pessoa complicada que lhe acabara de mandar uma mensagem feia.
- Ignora, querida. Em absoluto. Caso contrário só estás a fazer mal a ti mesma e a alimentar a insanidade alheia. Não respondas!-
Lutamos constantemente com todo o tipo de monstros e, de facto, durante cada batalha, temos que estar bem vigilantes por forma a não nos tornarmos, nós também, um pouco monstruosos.
É tão fácil deixarmos que a raiva, a frustração, a inveja, o desalento e mil outras monstruosas características nos invadam e comecem a dominar desde dentro que, se não nos acautelarmos, depressa fazem de nós seus reféns.
O ideal é conseguir evitar contactar com monstros, tal como o Tomás sabiamente ontem fez ao mudar de canal. Mas quando os monstros se colocam mesmo à nossa frente, fazendo com que a luta seja inevitável, mais vale que usemos a única "arma" eficaz: uma monstruosa inocência!
Ana Amorim Dias
20.10.13
Marcar pontos
Marcar pontos
Assisti uma única vez aos treinos de futebol do Tomás. No final disse-lhe:
- Meu amor? Não tens jeitinho absolutamente nenhum! Devias mudar de desporto...-
Apesar de me terem chamado a atenção para tentar não colocar os factos de uma forma tão crua, tenho a certeza que agi bem. Se ele não servia para aquilo não era melhor confirmar-lhe uma certeza que ele se calhar até já tinha?
- Mãe... ok, eu deixo-te assistir ao jogo... Mas por favor: não comeces com as tuas loucuras!!-
Estou sentada a ver o jogo. O mais sossegadita que posso. Acabei de receber o sorriso rasgado de um filho feliz, veloz e ágil que, para o basquete, já tem jeito.
E não posso impedir-me de pensar que a frontalidade mais crua é, muitas vezes, a que vem a potenciar que mais e melhores pontos se marquem.
Ana Amorim Dias
Assisti uma única vez aos treinos de futebol do Tomás. No final disse-lhe:
- Meu amor? Não tens jeitinho absolutamente nenhum! Devias mudar de desporto...-
Apesar de me terem chamado a atenção para tentar não colocar os factos de uma forma tão crua, tenho a certeza que agi bem. Se ele não servia para aquilo não era melhor confirmar-lhe uma certeza que ele se calhar até já tinha?
- Mãe... ok, eu deixo-te assistir ao jogo... Mas por favor: não comeces com as tuas loucuras!!-
Estou sentada a ver o jogo. O mais sossegadita que posso. Acabei de receber o sorriso rasgado de um filho feliz, veloz e ágil que, para o basquete, já tem jeito.
E não posso impedir-me de pensar que a frontalidade mais crua é, muitas vezes, a que vem a potenciar que mais e melhores pontos se marquem.
Ana Amorim Dias
Terapia de choque
Saí esta manhã de casa e lá estavam eles: a cheirar tudo com uma curiosidade espantada que o barulho dos meus tacões assustou. Embora tenha ficado com pena por não ter conseguido captar a imagem cómica dos foragidos porquitos, agradeci-lhes em silêncio a visita... É que foi ela que me potenciou um poderoso regresso ao passado.
Passou-se há muitos anos. Quando eu era ainda uma citadina criatura, completamente inadaptada às duras realidades campestres.
- Vamos capar porcos, queres vir?- perguntou o avô João.
Passei muitos anos a tentar perceber as razões daquele meu "sim". Teria sido para o tentar impressionar? Teria sido obra da constante vontade de perceber como tudo funciona? Ou apenas a consciência do enorme poder das terapias de choque?
Momentos depois estava dentro das pocilgas com eles. O Ricardo a agarrar o porco; o avô a "tratar" do assunto e eu a dar assistência. A certa altura, no meio de desinfeções, cortes e guinchos, o avô João, por não ter mais onde o colocar, estendeu-me o órgão ovalado e ainda quente que, por instinto, recebi na minha mão.
Poderia deter-me aqui e fazer uma série de analogias interessantes quanto ao facto de se conseguir ter túbaros na mão. Mas não. O importante foi saber deter-me naquele momento específico (que até poderia ter sido traumático) e conseguir abraçar todo o seu grande valor mesmo sem o entender por completo.
Hoje, tantos anos depois, vejo como a menina da cidade se soube adaptar aos desafios do campo e compreendo a razão de ser daquele meu "sim". É que eu, mesmo sem saber, já sabia que a vida tem que ser mais que "enfrentar o touro pelos cornos"; tem que ser também agarrá-la a ela pelos túbaros.
Ana Amorim Dias
Passou-se há muitos anos. Quando eu era ainda uma citadina criatura, completamente inadaptada às duras realidades campestres.
- Vamos capar porcos, queres vir?- perguntou o avô João.
Passei muitos anos a tentar perceber as razões daquele meu "sim". Teria sido para o tentar impressionar? Teria sido obra da constante vontade de perceber como tudo funciona? Ou apenas a consciência do enorme poder das terapias de choque?
Momentos depois estava dentro das pocilgas com eles. O Ricardo a agarrar o porco; o avô a "tratar" do assunto e eu a dar assistência. A certa altura, no meio de desinfeções, cortes e guinchos, o avô João, por não ter mais onde o colocar, estendeu-me o órgão ovalado e ainda quente que, por instinto, recebi na minha mão.
Poderia deter-me aqui e fazer uma série de analogias interessantes quanto ao facto de se conseguir ter túbaros na mão. Mas não. O importante foi saber deter-me naquele momento específico (que até poderia ter sido traumático) e conseguir abraçar todo o seu grande valor mesmo sem o entender por completo.
Hoje, tantos anos depois, vejo como a menina da cidade se soube adaptar aos desafios do campo e compreendo a razão de ser daquele meu "sim". É que eu, mesmo sem saber, já sabia que a vida tem que ser mais que "enfrentar o touro pelos cornos"; tem que ser também agarrá-la a ela pelos túbaros.
Ana Amorim Dias
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