Uma casa de "pantanas"
Percorro o corredor com preguiça. Espreito o quarto do Tom e abano a cabeça à desordem. Continuo a andar e passo pelo quarto do João. Estremeço com o caos. Finalmente, ao chegar ao meu, começo-me a rir.
"O teu está quase tão mau como o deles, Ana!"
"E depois? Que se lixe a arrumação! Hoje é domingo e haverá paz...mesmo com tudo de "pantanas"!"
Atiro-me para cima da cama desfeita e suspiro, feliz. O que me importa é que, dentro de mim, seja domingo ou outro dia qualquer, costuma estar tudo arrumado...
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Enviado via iPad
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
11.10.13
Como funciona
Como funciona
Estava a conduzir e fui atingida. O pensamento chegou como o primeiro relâmpago de uma forte trovoada.
" E se tivesses que explicar como funciona o Mundo? "
" Hã!? "
" Sim. Imagina que estavas a ser entrevistada por um extraterrestre e tinhas que explicar, em poucas palavras, como é que o Mundo funciona!"
" Ai caneco!..."
A tempestade começara! Continuei a guiar sabendo que já não podia sair dela. Entrei na rotunda, com atenção e cuidado, dei pisca, saí e, com a consciência plena das ações do meu corpo, permiti que a imaginação fosse para o espaço.
O extraterrestre tinha um ar bastante simpático e o ambiente era confortável. O único problema era a questão que me estava a ser colocada.
- Ana Amorim Dias, muito obrigada por ter aceite o nosso convite. Gostaríamos que explicasse ao nosso povo como é que o vosso planeta funciona.-
- Eh... pois. O nosso planeta...-
" És mesmo maluca! Tu metes-te em cada uma...!!
Reparo que todos os carros me estão a ultrapassar. Volto ao ritmo normal.
- O nosso planeta funciona com as mesmas regras físicas e químicas que o vosso. É um planeta muito belo em que a natureza, ao sair dos eixos, tem os seus próprios e eficazes métodos de regressar à harmonia...-
- E a vossa espécie? Como funciona?-
- A história da humanidade está quase toda na internet, é só irem lá consultar, o que posso fazer é dar uma opinião muito geral...-
- Parece-me bem. - comentou o encantador ser.
- A humanidade anda esquecida de como ser feliz. Desligou-se da natureza e higienizou-se demais, tornando-se muito indefesa. Os Homens vendem a vida em profissões de que não gostam, a troco de dinheiro que usam para comprar coisas de que não precisam e que, ao adquirir, lhes acentuam a sensação de vazio. Vendem a vida por dinheiro sem tentar sequer perceber qual é o ofício da sua alma. Trocam o SER pelo TER e, com isso, ganham inimigos, guerras, doenças e mutilam o seu íntimo com sentimentos absurdos. Passam o tempo a sonhar com o "depois" à espera que a plenitude lhes chegue, na forma de algo ou alguém, e ignoram por completo a responsabilidade de serem plenos no "agora"...
- Oh céus... Precisam da nossa ajuda? Ainda há esperança para vós?-
E aí vem-me o sorriso.
- Há cada vez mais gente no Mundo a saber tudo isto com uma certeza ancestral. E depois temos um poderosíssimo aliado!...-
- Quem!?-
- O amor. O mais puro e profundo amor, a nós mesmos e ao próximo!-
- Waow!!!- disse o extraterrestre enquanto eu estacionava o carro, sã e salva, cá na Quinta.
Ana Amorim Dias
Estava a conduzir e fui atingida. O pensamento chegou como o primeiro relâmpago de uma forte trovoada.
" E se tivesses que explicar como funciona o Mundo? "
" Hã!? "
" Sim. Imagina que estavas a ser entrevistada por um extraterrestre e tinhas que explicar, em poucas palavras, como é que o Mundo funciona!"
" Ai caneco!..."
A tempestade começara! Continuei a guiar sabendo que já não podia sair dela. Entrei na rotunda, com atenção e cuidado, dei pisca, saí e, com a consciência plena das ações do meu corpo, permiti que a imaginação fosse para o espaço.
O extraterrestre tinha um ar bastante simpático e o ambiente era confortável. O único problema era a questão que me estava a ser colocada.
- Ana Amorim Dias, muito obrigada por ter aceite o nosso convite. Gostaríamos que explicasse ao nosso povo como é que o vosso planeta funciona.-
- Eh... pois. O nosso planeta...-
" És mesmo maluca! Tu metes-te em cada uma...!!
Reparo que todos os carros me estão a ultrapassar. Volto ao ritmo normal.
- O nosso planeta funciona com as mesmas regras físicas e químicas que o vosso. É um planeta muito belo em que a natureza, ao sair dos eixos, tem os seus próprios e eficazes métodos de regressar à harmonia...-
- E a vossa espécie? Como funciona?-
- A história da humanidade está quase toda na internet, é só irem lá consultar, o que posso fazer é dar uma opinião muito geral...-
- Parece-me bem. - comentou o encantador ser.
- A humanidade anda esquecida de como ser feliz. Desligou-se da natureza e higienizou-se demais, tornando-se muito indefesa. Os Homens vendem a vida em profissões de que não gostam, a troco de dinheiro que usam para comprar coisas de que não precisam e que, ao adquirir, lhes acentuam a sensação de vazio. Vendem a vida por dinheiro sem tentar sequer perceber qual é o ofício da sua alma. Trocam o SER pelo TER e, com isso, ganham inimigos, guerras, doenças e mutilam o seu íntimo com sentimentos absurdos. Passam o tempo a sonhar com o "depois" à espera que a plenitude lhes chegue, na forma de algo ou alguém, e ignoram por completo a responsabilidade de serem plenos no "agora"...
- Oh céus... Precisam da nossa ajuda? Ainda há esperança para vós?-
E aí vem-me o sorriso.
- Há cada vez mais gente no Mundo a saber tudo isto com uma certeza ancestral. E depois temos um poderosíssimo aliado!...-
- Quem!?-
- O amor. O mais puro e profundo amor, a nós mesmos e ao próximo!-
- Waow!!!- disse o extraterrestre enquanto eu estacionava o carro, sã e salva, cá na Quinta.
Ana Amorim Dias
O espaço da paixão
O espaço da paixão
Saímos do restaurante e eu vinha a fazer um teatro tão cómico que ele, instintivamente, abraçou-me.
- Estou cada vez mais apaixonada por ti!- digo-lhe, de vez em quando, ao admirar este pequeno matulão com quem sinto uma cumplicidade enorme e crescente...
Se for pensar bem no caso, faz-me um certa confusão como é que um Ser, concebido há treze anos por esta altura, já me passa o braço por cima dos ombros e me fala com uma voz que começa (também ela!) a tomar corpo.
- Eu sei, mãe!- costuma responder com orgulho.
Uma coisa é certa: não fazia a mínima ideia da maravilhosa experiência que é ser mãe de um adolescente. Nunca, nem nos meus mais utópicos sonhos, considerei a hipótese de viver um relacionamento tão intenso, significativo e enriquecedor. Sinto-lhe o orgulho e encantamento por mim. Sinto-lhe a compreensão de quem sou, do que quero e da forma como funciono. Sinto uma conexão forjada em genes e alicerçada num diário "trabalho" de criação de uma relação abençoada.
Dizem que o ambiente familiar é crucial para se crescer feliz. Sem dúvida. No meu caso, a nossa vida a quatro tem que ser sólida e amorosa para se conseguir algo assim. Mas começo a perceber que o tempo que cada progenitor passa a sós com cada um dos seus filhos é também fundamental para a construção de cada um!
Às vezes fugimos só os dois, o Tomás e eu. Não importa para onde nem durante quanto tempo nem a fazer o quê. Fugimos para o porto seguro um do outro; para aquele espaço só nosso, onde, com gargalhadas soltas e olhares cúmplices que dispensam palavras, vamos construindo esta paixão que cada dia é maior.
Corro o risco de ser invasiva mas, ainda assim, atrevo-me a sugerir a quem tenha filhos, que experimente "fugir", a sós com cada um deles, para um espaço temporal só dos dois: para aquele espaço mágico em que as paixões ganham forma.
Ana Amorim Dias
Saímos do restaurante e eu vinha a fazer um teatro tão cómico que ele, instintivamente, abraçou-me.
- Estou cada vez mais apaixonada por ti!- digo-lhe, de vez em quando, ao admirar este pequeno matulão com quem sinto uma cumplicidade enorme e crescente...
Se for pensar bem no caso, faz-me um certa confusão como é que um Ser, concebido há treze anos por esta altura, já me passa o braço por cima dos ombros e me fala com uma voz que começa (também ela!) a tomar corpo.
- Eu sei, mãe!- costuma responder com orgulho.
Uma coisa é certa: não fazia a mínima ideia da maravilhosa experiência que é ser mãe de um adolescente. Nunca, nem nos meus mais utópicos sonhos, considerei a hipótese de viver um relacionamento tão intenso, significativo e enriquecedor. Sinto-lhe o orgulho e encantamento por mim. Sinto-lhe a compreensão de quem sou, do que quero e da forma como funciono. Sinto uma conexão forjada em genes e alicerçada num diário "trabalho" de criação de uma relação abençoada.
Dizem que o ambiente familiar é crucial para se crescer feliz. Sem dúvida. No meu caso, a nossa vida a quatro tem que ser sólida e amorosa para se conseguir algo assim. Mas começo a perceber que o tempo que cada progenitor passa a sós com cada um dos seus filhos é também fundamental para a construção de cada um!
Às vezes fugimos só os dois, o Tomás e eu. Não importa para onde nem durante quanto tempo nem a fazer o quê. Fugimos para o porto seguro um do outro; para aquele espaço só nosso, onde, com gargalhadas soltas e olhares cúmplices que dispensam palavras, vamos construindo esta paixão que cada dia é maior.
Corro o risco de ser invasiva mas, ainda assim, atrevo-me a sugerir a quem tenha filhos, que experimente "fugir", a sós com cada um deles, para um espaço temporal só dos dois: para aquele espaço mágico em que as paixões ganham forma.
Ana Amorim Dias
Para nos lembrar
Para nos lembrar
Quando me apercebi, aquele telefonema já não era apenas o breve momento em que ela me perguntava pelas novidades.
- Ai, Ana! Fico tão feliz! Ainda bem que pude ajudar.- disse-me, toda contente.
Conhecemos-nos desde miúdas e, embora longos períodos passem sem que as nossas vidas se cruzem, não quer dizer que não se toquem. E que não nos emocionemos com isso.
Avançámos para o habitual mar de disparates, piadas e gargalhadas em que tão bem nadamos juntas... até que a conversa ganhou novos rumos, como que com vida própria.
- A melhor maneira de começares a arrebitar, querida, é perguntares a ti mesma: "Como quero que seja a minha vida?", "qual é a minha missão?"- disse-lhe eu.
- Pois. Isso eu ainda não descobri...-
- Nem tu nem oitenta por cento da população mundial. Por isso não fiques triste. Mas também não desistas da busca...-
- E tu, Ana? Como queres a tua vida?-
Rompo em gargalhadas. Como começar a explicar-lhe??
- A minha grande vantagem é saber isso com uma nitidez de alta definição! Quero escrever e emocionar-me, escrever e emocionar-me, emocionar-me e escrever!! Quero poder fazê-lo e partir por aí, pelo mundo, tendo sempre para onde voltar; quero conhecer muita gente porque é esse o meu barro; trabalhar com pessoas despertas e criativas... O que me move não é o dinheiro, e muito menos a fama. Mas batalho todos os dias por conseguir habitar, cada vez mais, numa vida emocionante e repleta de novas experiências.-
Nesta altura já não conseguia parar. A grande vantagem de ter interlocutores inteligentes é o facto de nos desafiarem a descobrirmos-nos enquanto falamos.
- A verdade é simples, Diana: ser rico não é ter muito dinheiro, é viver os dias todos como se fossem a realização dos nossos mais incríveis sonhos; é ter a força anímica de lutar para que assim seja; é desejar aprender sempre mais, conhecer sempre mais. E, se me perguntares, a pobreza mais profunda é a da imobilidade. Quem se rende ao desânimo, à inércia e à falta de curiosidade, pode ter todo o dinheiro do mundo mas é como se já estivesse morto... -
Bastante tempo depois, ao desligar o telefone, prometemo-nos voltar a falar em breve. E eu prometi-me lutar por nunca esquecer que estou aqui para nos lembrar...
Ana Amorim Dias
Quando me apercebi, aquele telefonema já não era apenas o breve momento em que ela me perguntava pelas novidades.
- Ai, Ana! Fico tão feliz! Ainda bem que pude ajudar.- disse-me, toda contente.
Conhecemos-nos desde miúdas e, embora longos períodos passem sem que as nossas vidas se cruzem, não quer dizer que não se toquem. E que não nos emocionemos com isso.
Avançámos para o habitual mar de disparates, piadas e gargalhadas em que tão bem nadamos juntas... até que a conversa ganhou novos rumos, como que com vida própria.
- A melhor maneira de começares a arrebitar, querida, é perguntares a ti mesma: "Como quero que seja a minha vida?", "qual é a minha missão?"- disse-lhe eu.
- Pois. Isso eu ainda não descobri...-
- Nem tu nem oitenta por cento da população mundial. Por isso não fiques triste. Mas também não desistas da busca...-
- E tu, Ana? Como queres a tua vida?-
Rompo em gargalhadas. Como começar a explicar-lhe??
- A minha grande vantagem é saber isso com uma nitidez de alta definição! Quero escrever e emocionar-me, escrever e emocionar-me, emocionar-me e escrever!! Quero poder fazê-lo e partir por aí, pelo mundo, tendo sempre para onde voltar; quero conhecer muita gente porque é esse o meu barro; trabalhar com pessoas despertas e criativas... O que me move não é o dinheiro, e muito menos a fama. Mas batalho todos os dias por conseguir habitar, cada vez mais, numa vida emocionante e repleta de novas experiências.-
Nesta altura já não conseguia parar. A grande vantagem de ter interlocutores inteligentes é o facto de nos desafiarem a descobrirmos-nos enquanto falamos.
- A verdade é simples, Diana: ser rico não é ter muito dinheiro, é viver os dias todos como se fossem a realização dos nossos mais incríveis sonhos; é ter a força anímica de lutar para que assim seja; é desejar aprender sempre mais, conhecer sempre mais. E, se me perguntares, a pobreza mais profunda é a da imobilidade. Quem se rende ao desânimo, à inércia e à falta de curiosidade, pode ter todo o dinheiro do mundo mas é como se já estivesse morto... -
Bastante tempo depois, ao desligar o telefone, prometemo-nos voltar a falar em breve. E eu prometi-me lutar por nunca esquecer que estou aqui para nos lembrar...
Ana Amorim Dias
Chaves universais
Chaves universais
- Obrigada mais uma vez por este bocadinho, Ana!-
- Mas porquê?- perguntei-lhe espantada.
- Uma pessoa com uma vida tão cheia, que anda sempre a mil à hora, e que vem tomar um café, assim demorado, com alguém que nem conhecia... Fico grata.-
- Nada disso, eu é que fico!-
..." Quem usa o seu tempo a ler o que escrevo e a conhecer um pouco de mim e das minhas ideias, merece conhecer-me em pessoa. Faz sentido." Pensei.
- Sabes Dani, isto significa tanto para ti como para mim! Enriquecemos as duas! - só não lhe expliquei foi porquê...
- Explica-me lá outra vez o que são chaves universais.-
E o pai explicou-lhe.
Fiquei a ouvi-los a debater os usos de tais chaves e, instantaneamente, assumi que todos temos uma dentro de nós. Uma chave colossal. Universal. Mestra. E que pode fazer de nós mestres. Uma chave feita de alma e coração, de energia e atenção. A nossa chave mestra é feita de tempo e vontade. É a chave do olhar e da entrega.
A chave com a qual conseguimos entrar no coração dos outros.
A chave mestra capaz de fazer de nós mestres...
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
- Obrigada mais uma vez por este bocadinho, Ana!-
- Mas porquê?- perguntei-lhe espantada.
- Uma pessoa com uma vida tão cheia, que anda sempre a mil à hora, e que vem tomar um café, assim demorado, com alguém que nem conhecia... Fico grata.-
- Nada disso, eu é que fico!-
..." Quem usa o seu tempo a ler o que escrevo e a conhecer um pouco de mim e das minhas ideias, merece conhecer-me em pessoa. Faz sentido." Pensei.
- Sabes Dani, isto significa tanto para ti como para mim! Enriquecemos as duas! - só não lhe expliquei foi porquê...
- Explica-me lá outra vez o que são chaves universais.-
E o pai explicou-lhe.
Fiquei a ouvi-los a debater os usos de tais chaves e, instantaneamente, assumi que todos temos uma dentro de nós. Uma chave colossal. Universal. Mestra. E que pode fazer de nós mestres. Uma chave feita de alma e coração, de energia e atenção. A nossa chave mestra é feita de tempo e vontade. É a chave do olhar e da entrega.
A chave com a qual conseguimos entrar no coração dos outros.
A chave mestra capaz de fazer de nós mestres...
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Canais
Canais
À tarde já tínhamos falado bastante mas, à noite, apeteceu-me ligar-lhe de novo.
Falámos de tudo e de nada. De coisas importantes e de outras, sem importância alguma. Rimos. Partilhámos. Namorámos.
- Estive a dar muito mimo à minha mãe...-
- E porquê?-
- Faziam anos de casados hoje, ela e o meu pai... Foi como um presentinho dele para ela, sabes? ... Através de mim. - um curto silêncio uso a mais sentida voz de beicinho: - ...tenho saudades dele...-
- Como te entendo. Mas não te esqueças: mimares a tua mãe é como mimá-lo a ele!-
Sei que sim. E sei que muitas vezes apenas somos canais de mensagens fortes que inspiram a um novos alentos. Quer saibamos ou nem por isso, fazemos parte de uma vasta cadeia de transições amorosas que talvez apenas digam: "Não me vês mas estou aqui. E Amo-te...tanto como sempre foi e será."
Ana Amorim Dias
(Foto: Nelspruit, lua de mel)
Enviado do Writer
À tarde já tínhamos falado bastante mas, à noite, apeteceu-me ligar-lhe de novo.
Falámos de tudo e de nada. De coisas importantes e de outras, sem importância alguma. Rimos. Partilhámos. Namorámos.
- Estive a dar muito mimo à minha mãe...-
- E porquê?-
- Faziam anos de casados hoje, ela e o meu pai... Foi como um presentinho dele para ela, sabes? ... Através de mim. - um curto silêncio uso a mais sentida voz de beicinho: - ...tenho saudades dele...-
- Como te entendo. Mas não te esqueças: mimares a tua mãe é como mimá-lo a ele!-
Sei que sim. E sei que muitas vezes apenas somos canais de mensagens fortes que inspiram a um novos alentos. Quer saibamos ou nem por isso, fazemos parte de uma vasta cadeia de transições amorosas que talvez apenas digam: "Não me vês mas estou aqui. E Amo-te...tanto como sempre foi e será."
Ana Amorim Dias
(Foto: Nelspruit, lua de mel)
Enviado do Writer
Super vilã
Super vilã
Ter que castigá-lo estava a partir-me o coração. Íamos ao centro comercial, o que alicia qualquer consumista criaturinha e, ao ver-se na iminência de ser obrigado a ficar em casa, usou de todos os expedientes para me demover da decisão.
- Já disse que ficas de castigo e não vais, João! E é bom que entendas as razões! No fim de semana passado deixaste os trabalhos da escola para segunda de manhã e este fim de semana nem sequer trouxeste os livros da escola para casa?? Tens que compreender que estás no mau caminho e é bom que te habitues à ideia de mudar depressa essa tua postura!-
- Mas mãe...- e abraçava-me muito, o pequeno manipulador!
- Já te disse, amor: não vais porque tens que começar a sentir as consequências das tuas más escolhas!-
- Pois fica sabendo que TU és uma Super Vilã!!!-
Quando se deu por vencido e lhe estalou o verniz da esperançosa simpatia, tive que me conter muito para não romper em gargalhadas.
Encantou-me a imagem de super vilã, confesso. E fui pronta na resposta:
- Sabes quem faz os Super Heróis, meu amor? São os Super Vilões! Estes é que lhes despertam os seus super poderes! Por isso agora põe-te a estudar e até logo!-
Não consigo manter muito tempo a minha capa de super vilã... Mas sei que a envergarei sempre que ela se revele crucial para activação dos surpreendentes poderes dos meus mais amados heróis!
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Ter que castigá-lo estava a partir-me o coração. Íamos ao centro comercial, o que alicia qualquer consumista criaturinha e, ao ver-se na iminência de ser obrigado a ficar em casa, usou de todos os expedientes para me demover da decisão.
- Já disse que ficas de castigo e não vais, João! E é bom que entendas as razões! No fim de semana passado deixaste os trabalhos da escola para segunda de manhã e este fim de semana nem sequer trouxeste os livros da escola para casa?? Tens que compreender que estás no mau caminho e é bom que te habitues à ideia de mudar depressa essa tua postura!-
- Mas mãe...- e abraçava-me muito, o pequeno manipulador!
- Já te disse, amor: não vais porque tens que começar a sentir as consequências das tuas más escolhas!-
- Pois fica sabendo que TU és uma Super Vilã!!!-
Quando se deu por vencido e lhe estalou o verniz da esperançosa simpatia, tive que me conter muito para não romper em gargalhadas.
Encantou-me a imagem de super vilã, confesso. E fui pronta na resposta:
- Sabes quem faz os Super Heróis, meu amor? São os Super Vilões! Estes é que lhes despertam os seus super poderes! Por isso agora põe-te a estudar e até logo!-
Não consigo manter muito tempo a minha capa de super vilã... Mas sei que a envergarei sempre que ela se revele crucial para activação dos surpreendentes poderes dos meus mais amados heróis!
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Horário de voo
Horário de voo
Domingo. Dez da manhã. O Gordon Haskell canta-me "al capone" diretamente aos ouvidos para abafar o som dos cartoons com que os putos se entretêm, a "jiboiar" no sofá.
Estou a trabalhar no computador desde as oito e pouco. Tenho sono mas ignoro-o. Olho pela janela. Perco-me no verde banhado pela luz do outono. Perco-me na graça que vejo nos irónicos episódios com que os dias nos presenteiam...
- Já decidi: vou definir o meu horário de trabalho. Por exemplo, das nove às cinco, como qualquer pessoa normal, e depois fico livre!-
- dizia-me, ontem, o Ricardo.
- Pois, somos ambos livres de o fazer, realmente... Mas como se pode espartilhar o horário de voo de um pássaro?...
- É uma simples questão de organização, Ana.-
- A vida é tua, o horário é teu, acho bem. Quanto ao meu, não posso nem quero alterá-lo: desde que acordo até que adormeço!
- Baixem o som da televisão, não volto a repetir!!-
A música do iPad também me está a irritar. Noto que o vidro está sujo. "Admite, Ana: estás com birra de sono!"
Ele entrou no quarto um pouco depois das duas.
- Não chega, já?- perguntou cuidadosamente, para não despertar a fera que por vezes nasce em mim quando me arrancam do limbo da criação.
Ignorei. Continuei. Não me apetecia parar. "Dormir é para os fracos".
Volto a olhar pela janela. Várias aves bailam, completamente felizes, por entre suaves sopros de chuva.
"Não se pode condicionar o voo das aves livres, mas elas quando têm sono, dormem, Ana!"
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Domingo. Dez da manhã. O Gordon Haskell canta-me "al capone" diretamente aos ouvidos para abafar o som dos cartoons com que os putos se entretêm, a "jiboiar" no sofá.
Estou a trabalhar no computador desde as oito e pouco. Tenho sono mas ignoro-o. Olho pela janela. Perco-me no verde banhado pela luz do outono. Perco-me na graça que vejo nos irónicos episódios com que os dias nos presenteiam...
- Já decidi: vou definir o meu horário de trabalho. Por exemplo, das nove às cinco, como qualquer pessoa normal, e depois fico livre!-
- dizia-me, ontem, o Ricardo.
- Pois, somos ambos livres de o fazer, realmente... Mas como se pode espartilhar o horário de voo de um pássaro?...
- É uma simples questão de organização, Ana.-
- A vida é tua, o horário é teu, acho bem. Quanto ao meu, não posso nem quero alterá-lo: desde que acordo até que adormeço!
- Baixem o som da televisão, não volto a repetir!!-
A música do iPad também me está a irritar. Noto que o vidro está sujo. "Admite, Ana: estás com birra de sono!"
Ele entrou no quarto um pouco depois das duas.
- Não chega, já?- perguntou cuidadosamente, para não despertar a fera que por vezes nasce em mim quando me arrancam do limbo da criação.
Ignorei. Continuei. Não me apetecia parar. "Dormir é para os fracos".
Volto a olhar pela janela. Várias aves bailam, completamente felizes, por entre suaves sopros de chuva.
"Não se pode condicionar o voo das aves livres, mas elas quando têm sono, dormem, Ana!"
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
Trabalho e sorte
Trabalho e sorte
- Sabes? Eu não acredito muito nisso da sorte...-
- Como assim?-
- As pessoas não chegam ao sucesso e à concretização pessoal por sorte; chegam lá com esforço e muito trabalho!-
- Sim, está bem, mas a sorte ajuda!- contraponho.
- Não percebes que sem trabalho, a sorte não acontece?-
Não respondo, fico a pensar.
- Aquilo a que as pessoas chamam de "sorte" é necessariamente a soma do trabalho, do génio e das hipóteses que se agarram! - continua ele.
- Mas por exemplo, tudo o que temos criado juntos... Deve-se à sorte de ter visto um dia a tua fotografia! Se não fosse isso não havia biografia, nem documentários, nem entrevistas, nem o futuro filme...- replico.
- Lembras-te de já te ter falado da teoria do azar concorrente, do Lezama Lima, certo? -
- Sim, claro...-
- Veres a fotografia não foi sorte. Milhares de pessoas já a viram e não fizeram nada, percebes? O que já criamos juntos vem de todo o meu trabalho e da tua grande dedicação e busca permanentes; vem das nossas escolhas e ações; vem dos nossos génios!-
- Eric?-
- Hum?-
- Agrada-me essa ideia... e sinto-me tão criativa que vamos estar cheios de sorte! Obrigada!
- De nada, "cerebrozito fértil".
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
- Sabes? Eu não acredito muito nisso da sorte...-
- Como assim?-
- As pessoas não chegam ao sucesso e à concretização pessoal por sorte; chegam lá com esforço e muito trabalho!-
- Sim, está bem, mas a sorte ajuda!- contraponho.
- Não percebes que sem trabalho, a sorte não acontece?-
Não respondo, fico a pensar.
- Aquilo a que as pessoas chamam de "sorte" é necessariamente a soma do trabalho, do génio e das hipóteses que se agarram! - continua ele.
- Mas por exemplo, tudo o que temos criado juntos... Deve-se à sorte de ter visto um dia a tua fotografia! Se não fosse isso não havia biografia, nem documentários, nem entrevistas, nem o futuro filme...- replico.
- Lembras-te de já te ter falado da teoria do azar concorrente, do Lezama Lima, certo? -
- Sim, claro...-
- Veres a fotografia não foi sorte. Milhares de pessoas já a viram e não fizeram nada, percebes? O que já criamos juntos vem de todo o meu trabalho e da tua grande dedicação e busca permanentes; vem das nossas escolhas e ações; vem dos nossos génios!-
- Eric?-
- Hum?-
- Agrada-me essa ideia... e sinto-me tão criativa que vamos estar cheios de sorte! Obrigada!
- De nada, "cerebrozito fértil".
Ana Amorim Dias
Enviado do Writer
28.9.13
Viagem ao centro dos Mundos
Viagem ao centro dos mundos
Para onde se fazem, afinal, as maiores viagens?
Não estou a falar das mais espectaculares, nem das de maior estilo, ou aventura, ou custo. Não me refiro às viagens mais longas nem sequer às que melhor guardamos na memória...
As maiores viagens fazem-se sempre por dentro e para dentro. De nós, claro. Podemos ir ao cabo do Mundo, ver coisas de assombro e gastar astronómicas quantias. Podemos à vila mais próxima e não ver nada de novo, gastando muito pouco. E pouco importa. As grandes e mais marcantes viagens são sempre feitas cá dentro.
- A tua viagem de volta Mundo, sabes, eu fi-la em Paris...-
- Ah oui? -
- Sim. Em Janeiro de 2011, quando aqui estive sozinha: foi o meu ponto de viragem; o renascer das cinzas; a compreensão acabada do sentido da minha vida e início do derradeiro regresso a mim... Tal como te começou a acontecer a ti, algures entre Kiev e Vladivostok. Dessa viagem nasceu o livro "ZOIA" e renasci eu, reinventada por mim.
- Que sorte! Conseguiste fazê-lo tão perto?-
- A verdade é que poderia tê-lo feito no sofá da minha sala... As grandes viagens são sempre ao centro do Mundo, do nosso mundo interior. E eu tenho sorte. Todos os dias viajo e me reinvento...Sou escritora.
Ana Amorim Dias
Sent with Writer.
Para onde se fazem, afinal, as maiores viagens?
Não estou a falar das mais espectaculares, nem das de maior estilo, ou aventura, ou custo. Não me refiro às viagens mais longas nem sequer às que melhor guardamos na memória...
As maiores viagens fazem-se sempre por dentro e para dentro. De nós, claro. Podemos ir ao cabo do Mundo, ver coisas de assombro e gastar astronómicas quantias. Podemos à vila mais próxima e não ver nada de novo, gastando muito pouco. E pouco importa. As grandes e mais marcantes viagens são sempre feitas cá dentro.
- A tua viagem de volta Mundo, sabes, eu fi-la em Paris...-
- Ah oui? -
- Sim. Em Janeiro de 2011, quando aqui estive sozinha: foi o meu ponto de viragem; o renascer das cinzas; a compreensão acabada do sentido da minha vida e início do derradeiro regresso a mim... Tal como te começou a acontecer a ti, algures entre Kiev e Vladivostok. Dessa viagem nasceu o livro "ZOIA" e renasci eu, reinventada por mim.
- Que sorte! Conseguiste fazê-lo tão perto?-
- A verdade é que poderia tê-lo feito no sofá da minha sala... As grandes viagens são sempre ao centro do Mundo, do nosso mundo interior. E eu tenho sorte. Todos os dias viajo e me reinvento...Sou escritora.
Ana Amorim Dias
Sent with Writer.
Concretização
Concretização
Comemos mais ou menos em silêncio. Eu, pelo menos, abstraio-me um pouco da conversa técnica e voo para dentro. Tenho as ideias muito bem definidas no pensamento e nas várias páginas de rascunhos, escritas em três línguas diferentes, cujos rabiscos apenas eu consigo decifrar. É de suma importância que os meus planos para o documentários sejam aceites. Sei qual é o caminho para criar um produto que inspire, emocione e deixe as pessoas a pensar. Faço-o constantemente em poucas palavras escritas e mais fácil será fazê-lo com imagens, música, entrevista e movimento.
"Porque tens essa maldita mania de que a tua visão é a mais eficiente?", pergunto-me. "Terei em mim assim tanto de ditadora?"
- Ana?-
- Oui?...-
Tenho que regressar do limbo dos pensamentos. Começo por explicar que é imperativo que paremos de divagar e comecemos a assentar finalmente toda a estrutura do que se vai fazer. Se os consigo aliciar a seguir o caminho que quero tomar? Não sei. Mas que tenho de nos fazer a todos partir para a concretização, disso não tenho quaisquer dúvidas.
Ana Amorim Dias
Ps- A longa reunião terminou sem que eu tenha conseguido publicar a crónica, o que me dá agora a oportunidade de acrescentar: foi tudo aceite...acho que acabarei de escrever o meu primeiro documentário exatamente como quero!! Yesss!
Sent with Writer.
Comemos mais ou menos em silêncio. Eu, pelo menos, abstraio-me um pouco da conversa técnica e voo para dentro. Tenho as ideias muito bem definidas no pensamento e nas várias páginas de rascunhos, escritas em três línguas diferentes, cujos rabiscos apenas eu consigo decifrar. É de suma importância que os meus planos para o documentários sejam aceites. Sei qual é o caminho para criar um produto que inspire, emocione e deixe as pessoas a pensar. Faço-o constantemente em poucas palavras escritas e mais fácil será fazê-lo com imagens, música, entrevista e movimento.
"Porque tens essa maldita mania de que a tua visão é a mais eficiente?", pergunto-me. "Terei em mim assim tanto de ditadora?"
- Ana?-
- Oui?...-
Tenho que regressar do limbo dos pensamentos. Começo por explicar que é imperativo que paremos de divagar e comecemos a assentar finalmente toda a estrutura do que se vai fazer. Se os consigo aliciar a seguir o caminho que quero tomar? Não sei. Mas que tenho de nos fazer a todos partir para a concretização, disso não tenho quaisquer dúvidas.
Ana Amorim Dias
Ps- A longa reunião terminou sem que eu tenha conseguido publicar a crónica, o que me dá agora a oportunidade de acrescentar: foi tudo aceite...acho que acabarei de escrever o meu primeiro documentário exatamente como quero!! Yesss!
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Ver a vida passar
Ver a vida passar
- Merci! - Digo ao músico de rua enquanto lhe ponho dinheiro no chapéu.
Sentada num banco, numa ponte sobre o Sena, delicio-me uns momentos com as músicas dele. Era imperativo agradecer-lhe.
Sigo o meu caminho sozinha, renovadamente encantada com a maravilhosa atmosfera. Devia estar a escrever, a preparar os textos para as reuniões de amanhã, mas tudo o que me ocorre é o que vos quero dizer a vocês. E por isso passeio, completamente sem rumo, tomando aleatoriamente as ruas e condensando em mim emoções e impressões enquanto me vai nascendo a crónica.
- Porque os anos passaram e não os vi passar!...- Dizia-me esta manhã o Eric.
- E já pensaste que se estivesses cheio de atenção, a observá-los a passar, não terias vivido nada? Se calhar é mesmo esse o truque: estarmos tão empenhados em viver intensamente quem nem vemos a vida a passar. Isto soa-me maravilhosamente, se queres que te diga!- respondi-lhe.
Observo as parisienses, impecavelmente arranjadas, e pergunto-me se algum incauto ser me tomaria por uma. Não me parece, sinto-me demasiado selvagem e livre de quaisquer grilhões para poder criar semelhante confusão. E de repente, observando os outros e fazendo o mesmo a mim própria, apercebo-me que, afinal, a viagem da vida pode muito bem conciliar-se com a contemplação da passagem dos anos. De facto isso até a intensifica. Da mesma forma que a música de rua nos traz mais emoção aos passeios.
Ana Amorim Dias
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- Merci! - Digo ao músico de rua enquanto lhe ponho dinheiro no chapéu.
Sentada num banco, numa ponte sobre o Sena, delicio-me uns momentos com as músicas dele. Era imperativo agradecer-lhe.
Sigo o meu caminho sozinha, renovadamente encantada com a maravilhosa atmosfera. Devia estar a escrever, a preparar os textos para as reuniões de amanhã, mas tudo o que me ocorre é o que vos quero dizer a vocês. E por isso passeio, completamente sem rumo, tomando aleatoriamente as ruas e condensando em mim emoções e impressões enquanto me vai nascendo a crónica.
- Porque os anos passaram e não os vi passar!...- Dizia-me esta manhã o Eric.
- E já pensaste que se estivesses cheio de atenção, a observá-los a passar, não terias vivido nada? Se calhar é mesmo esse o truque: estarmos tão empenhados em viver intensamente quem nem vemos a vida a passar. Isto soa-me maravilhosamente, se queres que te diga!- respondi-lhe.
Observo as parisienses, impecavelmente arranjadas, e pergunto-me se algum incauto ser me tomaria por uma. Não me parece, sinto-me demasiado selvagem e livre de quaisquer grilhões para poder criar semelhante confusão. E de repente, observando os outros e fazendo o mesmo a mim própria, apercebo-me que, afinal, a viagem da vida pode muito bem conciliar-se com a contemplação da passagem dos anos. De facto isso até a intensifica. Da mesma forma que a música de rua nos traz mais emoção aos passeios.
Ana Amorim Dias
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