Memória externa
Corri tudo. Vasculhei todos os locais onde ela poderia estar. Subi escadas. Desci escadas. Virei salas, escritório, armários e gavetas. Quando comecei a avaliar as perdas o coração encolheu. Milhares de músicas e fotografias, e incontáveis horas de trabalho.
"Pára, criatura! Respira fundo. Uma memória externa não se desmaterializa!" E, ao parar no meio da sala, olhei em volta e lá estava ela. Em cima de uma prateleira, mesmo em frente à minha cara, a desafiar-me com ar de gozo.
Ora no momento em que a irritação se foi, chegou a reflexão... Sou do tempo (sim, mesmo tendo só 39 anos, com o ritmo evolutivo destas últimas décadas, sinto-me no direito de falar assim!) em que as memórias se guardavam no cérebro (e coração?!) e, quanto muito, tínhamos álbuns de fotografias, blocos de notas e outros artefactos similares para nos ajudarem a reter a vida já vivida.
Nos dias que correm, quando perdemos a memória externa, sentimo-nos lobotomizados, profanados de grande parte da nossa identidade, reféns de uma existência que ficou, mais do que coxa, amputada.
Será inteligente depositarmos partes tão importantes das nossas vidas em pequeninas caixas de megabites? A não ser aí, onde as guardaríamos, então? Na cabeça (e coração) por vezes tantas memórias não cabem, e escorrem, fugidias, para um qualquer limbo perdido, só voltando à consciência quando se vêem as fotos, ouvem as músicas ou lêem os textos.
Quando eu era miúda, tiravam-se fotografias nas ocasiões especiais. Hoje qualquer momento bom é registado. E se temos a possibilidade de ver, tempos depois, milhares e milhares de imagens que nos fazem reviver outras tantas vivências especiais, devemos rejubilar por isso! A memória externa é algo genialmente fabuloso que cumpre bem a função de nos fazer mais perfeitos, por isso vou comprar outra e guardar duplamente tudo para não apanhar mais sustos!
Ana Amorim Dias
Sent with Writer.
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
28.9.13
Algo bem melhor
Algo bem melhor
Liguei-lhe tão aflita que o pobre rapaz ficou a pensar que eu estava com um problema sério.
- Tem calma! O que foi?- perguntou-me.
- Foi que estive duas horas a entrar em todas as lojas deste maldito centro comercial e não encontrei as botas pretas de que preciso!!-
- Êh pá... Isso é grave!- (ele conhece-me tão bem) - Porque não esperas pela loja de peles que vem sempre à feira de Faro? Lá deves encontrar o que procuras...-
- Mas preciso das botas para levar a Paris, daqui a uns dias!!-
- E porque não tiramos amanhã o dia para as procurar melhor noutros centros comerciais?-
Não é uma rendição à sociedade de consumo, mas como preciso mesmo das botas disse-lhe logo que sim. Passámos a manhã em busca das esquivas botas pretas que tenho em mente e que teimam em não me aparecer, até que as praias começaram a "chamar" por nós. Rendi-me, um pouco dececionada, à evidência dos factos: provavelmente não levarei botas novas.
Regressámos a casa sem as ditas cujas mas felizes devido a um dia maravilhosamente passado. E foi então que me lembrei: as deceções costumam ser apenas uma conspiração do Universo para algo bem melhor!
Ana Amorim Dias
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Liguei-lhe tão aflita que o pobre rapaz ficou a pensar que eu estava com um problema sério.
- Tem calma! O que foi?- perguntou-me.
- Foi que estive duas horas a entrar em todas as lojas deste maldito centro comercial e não encontrei as botas pretas de que preciso!!-
- Êh pá... Isso é grave!- (ele conhece-me tão bem) - Porque não esperas pela loja de peles que vem sempre à feira de Faro? Lá deves encontrar o que procuras...-
- Mas preciso das botas para levar a Paris, daqui a uns dias!!-
- E porque não tiramos amanhã o dia para as procurar melhor noutros centros comerciais?-
Não é uma rendição à sociedade de consumo, mas como preciso mesmo das botas disse-lhe logo que sim. Passámos a manhã em busca das esquivas botas pretas que tenho em mente e que teimam em não me aparecer, até que as praias começaram a "chamar" por nós. Rendi-me, um pouco dececionada, à evidência dos factos: provavelmente não levarei botas novas.
Regressámos a casa sem as ditas cujas mas felizes devido a um dia maravilhosamente passado. E foi então que me lembrei: as deceções costumam ser apenas uma conspiração do Universo para algo bem melhor!
Ana Amorim Dias
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Indomáveis
Indomáveis
Pensando agora mais friamente no caso, percebo que só não lhe bati por me ter revisto nele.
Cinco da tarde. Lanchou e saiu de casa, avisando que ia andar de bicicleta. Eu fui trabalhar um pouco no computador e acabei por cair num sono leve e, não sei porquê, inquieto.
Despertei quase às sete.
- Tomás, viste o João?-
- Não, mãe, ainda não voltou.-
Saí de casa. Chamei e chamei. Nada. Não estava a pescar na barragem, nem na casa da árvore nem sequer na vazia casa da avó. A bicicleta abandonada nos estábulos. Voltei a chamar. Com o coração aos saltos fui procurá-lo de carro e concluí que na Quinta não estava. Algo me dizia que com a avó também não estaria mas liguei-lhe mesmo assim.
- Estou numa reunião,- disse-me ela - mas ia telefonar-te mesmo agora: ligaram-me agora a dizer que o viram para os lados do Montinho.
Segui para lá a voar.
E lá vinha ele, pelo lado errado da estrada, a ouvir música no (inativo) telemóvel, com um cão rafeiro ao seu lado.
- Em que estavas tu a pensar, João? Não te ocorreu que eu podia estar a morrer de preocupação?-
- Então, apeteceu-me passear e fui ao café do Montinho (são quinze minutos a andar pela estrada) beber um sumo...- respondeu como quem acha que não fez nada de mal.
E eu, que estava demasiado assustada para ser racional, decidi dar-lhe de imediato alguns castigos.
- Percebeste agora, João?-
- Sim, mãe, o meu território por enquanto é só a Quinta...-
Acabei de lhe explicar há dez minutos que no Mundo também há gente má (infelizmente teve que ser) e de lhe fazer ver que compreendo e valorizo a sua grande autonomia e sede de liberdade (de quem a terá herdado?) mas que apenas devemos explorar territórios cujos perigos estamos já preparados para enfrentar.
- Se aos dezoito me disseres que queres ir conhecer o Mundo, eu vou deixar-te ir, filho, mas agora é cedo demais, ainda não é sensato! Eu compreendo essa tua sede de viver, mas tu também tens de tentar compreender a minha preocupação!-
- Pronto, mãe, não saio mais da Quinta sozinho.-
Sei que os genes indomáveis da autonomia e liberdade lhe foram transmitidos por mim, por isso amanhã sem falta vou carregar-lhe o telefone!
Ana Amorim Dias
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Pensando agora mais friamente no caso, percebo que só não lhe bati por me ter revisto nele.
Cinco da tarde. Lanchou e saiu de casa, avisando que ia andar de bicicleta. Eu fui trabalhar um pouco no computador e acabei por cair num sono leve e, não sei porquê, inquieto.
Despertei quase às sete.
- Tomás, viste o João?-
- Não, mãe, ainda não voltou.-
Saí de casa. Chamei e chamei. Nada. Não estava a pescar na barragem, nem na casa da árvore nem sequer na vazia casa da avó. A bicicleta abandonada nos estábulos. Voltei a chamar. Com o coração aos saltos fui procurá-lo de carro e concluí que na Quinta não estava. Algo me dizia que com a avó também não estaria mas liguei-lhe mesmo assim.
- Estou numa reunião,- disse-me ela - mas ia telefonar-te mesmo agora: ligaram-me agora a dizer que o viram para os lados do Montinho.
Segui para lá a voar.
E lá vinha ele, pelo lado errado da estrada, a ouvir música no (inativo) telemóvel, com um cão rafeiro ao seu lado.
- Em que estavas tu a pensar, João? Não te ocorreu que eu podia estar a morrer de preocupação?-
- Então, apeteceu-me passear e fui ao café do Montinho (são quinze minutos a andar pela estrada) beber um sumo...- respondeu como quem acha que não fez nada de mal.
E eu, que estava demasiado assustada para ser racional, decidi dar-lhe de imediato alguns castigos.
- Percebeste agora, João?-
- Sim, mãe, o meu território por enquanto é só a Quinta...-
Acabei de lhe explicar há dez minutos que no Mundo também há gente má (infelizmente teve que ser) e de lhe fazer ver que compreendo e valorizo a sua grande autonomia e sede de liberdade (de quem a terá herdado?) mas que apenas devemos explorar territórios cujos perigos estamos já preparados para enfrentar.
- Se aos dezoito me disseres que queres ir conhecer o Mundo, eu vou deixar-te ir, filho, mas agora é cedo demais, ainda não é sensato! Eu compreendo essa tua sede de viver, mas tu também tens de tentar compreender a minha preocupação!-
- Pronto, mãe, não saio mais da Quinta sozinho.-
Sei que os genes indomáveis da autonomia e liberdade lhe foram transmitidos por mim, por isso amanhã sem falta vou carregar-lhe o telefone!
Ana Amorim Dias
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16.9.13
Guerreira
Guerreira
- Tinhas razão, Ana!- disse-me ele com um sorriso radiante.
Há uns tempos atrás eu dissera-lhe que, no fim, a conversa dos noivos é sempre a mesma: "Superou muito as nossas expetativas!" Assegurei-lhe que ele não seria exceção e me diria exatamente o mesmo, no final da sua festa.
Não faço pinturas de guerra nem uso camuflagem, ou melhor, se calhar sim: uma sombra suave e rímel nos olhos; uma roupa minimamente elegante que se conjugue bem com confortáveis botas de montanha (sim, é possível!), e estou pronta para a batalha!
Esta alegoria usa a guerra de uma forma diferente, não sangrenta, em que o belicismo nada mais é que do que a nossa determinação em sermos muito bons no que fazemos. Reconheço a tremenda sorte que tenho por adorar todas as minhas batalhas laborais. Há, no entanto, algumas que intimidam ao ponto de quase me roubarem o sono e me fazerem pensar que sou louca por aceitar assumir tão assustadores desafios. Sei que a minha vida não corre perigo, mas há por vezes em jogo valores de quase igual importância, como a honra, a competência e o nome. A realidade é que, no mercado empresarial, honra, competência e nome, equivalem à vida!
Preparação
Ninguém no seu juízo perfeito se deve lançar numa guerra sem o máximo de preparação possível. Muito treino. Armas preparadíssimas e mil vezes verificadas. Tropas bem motivadas, apaixonadas pela causa. Estratégia, planeamento. E munições! Munições em quantidade suficiente para garantir a vitória.
Nos primeiros anos ficava um pouco nervosa no momento em que a Quinta do Monte era invadida por "hordas de cossacos" esfomeados e sequiosos. Depois aprendi que o truque estava na extrema preparação... Mas não só...
Mentalização
Nenhuma tropa, por muito bons que os soldados sejam, consegue ganhar a guerra se for conduzida por um líder inseguro e desorientado. Um líder não tem só que ir à frente dos seus soldados, com bravura e inteligência; um líder tem que saber decidir tudo a todo o momento e, acima de tudo, tem que sentir-se guerreiro e inspirar a máxima confiança a quem o segue.
Podem vir 30 ou 300. É sempre uma "guerra". Nunca me permito colocar em causa a honra, a competência e o nome "Quinta do Monte"! Tudo tem que ser perfeito. Tudo tem que superar as expetativas. Por isso, quando os comensais começam a chegar, renovo o entusiasmo das tropas para os encherem de munições feitas de comida, bebida e simpatia; e transformo-me de novo na guerreira que tanto adoro ser.
Ana Amorim Dias
- Tinhas razão, Ana!- disse-me ele com um sorriso radiante.
Há uns tempos atrás eu dissera-lhe que, no fim, a conversa dos noivos é sempre a mesma: "Superou muito as nossas expetativas!" Assegurei-lhe que ele não seria exceção e me diria exatamente o mesmo, no final da sua festa.
Não faço pinturas de guerra nem uso camuflagem, ou melhor, se calhar sim: uma sombra suave e rímel nos olhos; uma roupa minimamente elegante que se conjugue bem com confortáveis botas de montanha (sim, é possível!), e estou pronta para a batalha!
Esta alegoria usa a guerra de uma forma diferente, não sangrenta, em que o belicismo nada mais é que do que a nossa determinação em sermos muito bons no que fazemos. Reconheço a tremenda sorte que tenho por adorar todas as minhas batalhas laborais. Há, no entanto, algumas que intimidam ao ponto de quase me roubarem o sono e me fazerem pensar que sou louca por aceitar assumir tão assustadores desafios. Sei que a minha vida não corre perigo, mas há por vezes em jogo valores de quase igual importância, como a honra, a competência e o nome. A realidade é que, no mercado empresarial, honra, competência e nome, equivalem à vida!
Preparação
Ninguém no seu juízo perfeito se deve lançar numa guerra sem o máximo de preparação possível. Muito treino. Armas preparadíssimas e mil vezes verificadas. Tropas bem motivadas, apaixonadas pela causa. Estratégia, planeamento. E munições! Munições em quantidade suficiente para garantir a vitória.
Nos primeiros anos ficava um pouco nervosa no momento em que a Quinta do Monte era invadida por "hordas de cossacos" esfomeados e sequiosos. Depois aprendi que o truque estava na extrema preparação... Mas não só...
Mentalização
Nenhuma tropa, por muito bons que os soldados sejam, consegue ganhar a guerra se for conduzida por um líder inseguro e desorientado. Um líder não tem só que ir à frente dos seus soldados, com bravura e inteligência; um líder tem que saber decidir tudo a todo o momento e, acima de tudo, tem que sentir-se guerreiro e inspirar a máxima confiança a quem o segue.
Podem vir 30 ou 300. É sempre uma "guerra". Nunca me permito colocar em causa a honra, a competência e o nome "Quinta do Monte"! Tudo tem que ser perfeito. Tudo tem que superar as expetativas. Por isso, quando os comensais começam a chegar, renovo o entusiasmo das tropas para os encherem de munições feitas de comida, bebida e simpatia; e transformo-me de novo na guerreira que tanto adoro ser.
Ana Amorim Dias
A caminho da escola
A caminho da escola
- Meninos?-
- Diz, mãe.-
- O que esperam do ano letivo que hoje começa?-
Íamos a caminho das suas escolas e a excitação já os deixara bem despertos mas, apanhados de surpresa, só responderam disparates.
- Não, não, não! Nada disso! O que vocês devem esperar e ambicionar é uma coisa só: conhecimento!-
- Sim, mãe...-
- Uma das coisas mais valiosas que podemos possuir, guardamo-la aqui- bati com o indicador nas têmporas- o conhecimento é uma das ferramentas que mais vantagens nos pode dar em qualquer situação, percebem? Devem lutar por obtê-lo e guardá-lo bem. E por treinar ao máximo a vossa capacidade de pensar.
Ao vê-los, pouco depois, a caminhar para as escolas, com as suas mochilas às costas, fiquei a torcer para que se lembrem todos os dias disto: da importância de tentar fazer do cérebro uma esponja.
Ana Amorim Dias
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- Meninos?-
- Diz, mãe.-
- O que esperam do ano letivo que hoje começa?-
Íamos a caminho das suas escolas e a excitação já os deixara bem despertos mas, apanhados de surpresa, só responderam disparates.
- Não, não, não! Nada disso! O que vocês devem esperar e ambicionar é uma coisa só: conhecimento!-
- Sim, mãe...-
- Uma das coisas mais valiosas que podemos possuir, guardamo-la aqui- bati com o indicador nas têmporas- o conhecimento é uma das ferramentas que mais vantagens nos pode dar em qualquer situação, percebem? Devem lutar por obtê-lo e guardá-lo bem. E por treinar ao máximo a vossa capacidade de pensar.
Ao vê-los, pouco depois, a caminhar para as escolas, com as suas mochilas às costas, fiquei a torcer para que se lembrem todos os dias disto: da importância de tentar fazer do cérebro uma esponja.
Ana Amorim Dias
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Sublimes comunhões
Sublimes comunhões
Quando os conteúdos são mais arrojados, gosto de avisar primeiro, não vá algum incauto púdico ler o que não queria.
Apesar de usar palavras suaves, antes de me iniciar na divagação, deixo o alerta: se lerem para além destes dois parágrafos, é por vossa conta e risco.
Parece que, na Rússia, andam a aparecer lições para quem queira aprender ou aperfeiçoar a "arte" do fellatio. Até aqui nada de novo, pelo menos na minha despreconceituosa forma de ver as coisas. Ora a razão de ser desta crónica nem é o fellacio em si e sim a reação de horror que a notícia de tais aulitas desencadeou em certos seres. Não bastando invocar que tais práticas levam à alienação e perda de identidade da mulher, bem como à miséria humana, a massa crítica ainda se fartou de "bater" (quem quiser pode rir agora com a bela escolha verbal) nos pobres russos, alegando serem uns desalmados materialistas sem qualquer espiritualidade. Conheço bastantes russos e, tanto quanto sei, apesar de um pouco ruidosos e loucos, são extremamente hospitaleiros e dados.
Mas voltemos às lições de fellatio! Para quê tanta indignação? Não são aulas sobre como praticar nenhum crime e quem tem vontade de aprender a fazer melhor as coisas deve sempre investir no desenvolvimento das suas habilidades, certo? Haverá perda de identidade da mulher pelo facto de também exprimir o seu amor dessa forma? Claro que não, muito pelo contrário.
Tudo isto deixa-me a pensar que continuam a existir demasiados tabus e que é em parte por culpa deles que as pessoas são tão ignorantes e preconceituosas.
Não posso terminar sem chamar a atenção para o seguinte: miséria é viver sem saber como dar e receber amor; é passar pela existência sem experimentar os inócuos e soberbos prazeres partilhados com paixão. Miséria é vivermos sem nos rendermos e entregarmos, com amor, a comunhões sublimes.
Ana Amorim Dias
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Quando os conteúdos são mais arrojados, gosto de avisar primeiro, não vá algum incauto púdico ler o que não queria.
Apesar de usar palavras suaves, antes de me iniciar na divagação, deixo o alerta: se lerem para além destes dois parágrafos, é por vossa conta e risco.
Parece que, na Rússia, andam a aparecer lições para quem queira aprender ou aperfeiçoar a "arte" do fellatio. Até aqui nada de novo, pelo menos na minha despreconceituosa forma de ver as coisas. Ora a razão de ser desta crónica nem é o fellacio em si e sim a reação de horror que a notícia de tais aulitas desencadeou em certos seres. Não bastando invocar que tais práticas levam à alienação e perda de identidade da mulher, bem como à miséria humana, a massa crítica ainda se fartou de "bater" (quem quiser pode rir agora com a bela escolha verbal) nos pobres russos, alegando serem uns desalmados materialistas sem qualquer espiritualidade. Conheço bastantes russos e, tanto quanto sei, apesar de um pouco ruidosos e loucos, são extremamente hospitaleiros e dados.
Mas voltemos às lições de fellatio! Para quê tanta indignação? Não são aulas sobre como praticar nenhum crime e quem tem vontade de aprender a fazer melhor as coisas deve sempre investir no desenvolvimento das suas habilidades, certo? Haverá perda de identidade da mulher pelo facto de também exprimir o seu amor dessa forma? Claro que não, muito pelo contrário.
Tudo isto deixa-me a pensar que continuam a existir demasiados tabus e que é em parte por culpa deles que as pessoas são tão ignorantes e preconceituosas.
Não posso terminar sem chamar a atenção para o seguinte: miséria é viver sem saber como dar e receber amor; é passar pela existência sem experimentar os inócuos e soberbos prazeres partilhados com paixão. Miséria é vivermos sem nos rendermos e entregarmos, com amor, a comunhões sublimes.
Ana Amorim Dias
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Quatro anos - 12 de Setembro
Quatro anos
Sentei-me e comecei. O que não sabia é que não mais iria parar.
"A chuva batia nas velas com crescente intensidade e vagas ferozes irritavam a obstinada resistência daquelas madeiras, maduras de tantas batalhas vencidas.
- Não me levas a melhor, pelas barbas de Neptuno!- gritava, rindo, Sebastien, comandante improvável daquele galeão pirata.
Provocado pelos elementos, com a adrenalina em crescendo, Sebastien rejubilava de excitação e contentamento.
- Mantenham-se firmes. Façam-se à vida nesta luta injusta, pois só olhando a morte de frente podemos saborear o gosto pela vida!"
Eram umas nove (ou dez?) da noite quando a minha primeira história iniciou o seu parto. E isso aconteceu precisamente (só hoje me apercebi) com águas a rebentar; com um naufrágio.
Faz esta noite quatro anos que comecei a escrever. Não consegui voltar a parar. Creio que tal jamais será possível.
Quatro anos. Cinco livros. Sete histórias. Cerca de novecentas crónicas. Poemas. Canções. Artigos. Entrevistas. Uma vida inteira em quatro anos.
Conheci muitas pessoas pelo caminho. Descobri melhor outras que pensava conhecer. Vivi coisas que não me teria lançado a viver se não fosse para as descrever. Procurei. Descobri. Descobri-me. Faço-o todos os dias.
Agora sou mais mulher. Sou mais homem. Mais anciã. Mais criança. Mais pessoa e mais humana.
Ao longo destes quatro anos desenvolvi o raciocínio, aprendi sobre a coerência, agucei a curiosidade, a emoção, a sensibilidade. Tornei-me melhor, sei que sim.
O sabor perfeito trazido por tudo o que evoluí só pode ser melhorado pela vossa presença constante. Desde quem já me acompanha e inspira há anos, até quem só há pouco tempo "chegou", são todos vocês a outra metade do "combustível" que me move.
Por estarem aí, o meu sentido obrigada.
E agora venham mais quatro!
Ana Amorim Dias
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Sentei-me e comecei. O que não sabia é que não mais iria parar.
"A chuva batia nas velas com crescente intensidade e vagas ferozes irritavam a obstinada resistência daquelas madeiras, maduras de tantas batalhas vencidas.
- Não me levas a melhor, pelas barbas de Neptuno!- gritava, rindo, Sebastien, comandante improvável daquele galeão pirata.
Provocado pelos elementos, com a adrenalina em crescendo, Sebastien rejubilava de excitação e contentamento.
- Mantenham-se firmes. Façam-se à vida nesta luta injusta, pois só olhando a morte de frente podemos saborear o gosto pela vida!"
Eram umas nove (ou dez?) da noite quando a minha primeira história iniciou o seu parto. E isso aconteceu precisamente (só hoje me apercebi) com águas a rebentar; com um naufrágio.
Faz esta noite quatro anos que comecei a escrever. Não consegui voltar a parar. Creio que tal jamais será possível.
Quatro anos. Cinco livros. Sete histórias. Cerca de novecentas crónicas. Poemas. Canções. Artigos. Entrevistas. Uma vida inteira em quatro anos.
Conheci muitas pessoas pelo caminho. Descobri melhor outras que pensava conhecer. Vivi coisas que não me teria lançado a viver se não fosse para as descrever. Procurei. Descobri. Descobri-me. Faço-o todos os dias.
Agora sou mais mulher. Sou mais homem. Mais anciã. Mais criança. Mais pessoa e mais humana.
Ao longo destes quatro anos desenvolvi o raciocínio, aprendi sobre a coerência, agucei a curiosidade, a emoção, a sensibilidade. Tornei-me melhor, sei que sim.
O sabor perfeito trazido por tudo o que evoluí só pode ser melhorado pela vossa presença constante. Desde quem já me acompanha e inspira há anos, até quem só há pouco tempo "chegou", são todos vocês a outra metade do "combustível" que me move.
Por estarem aí, o meu sentido obrigada.
E agora venham mais quatro!
Ana Amorim Dias
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Sobre energia e géneros
Sobre energia e géneros
Li. Voltei a ler. E ainda tornei a somar de novo as letras em palavras e as palavras em frases, atenta a todo o contexto, para ver se teria compreendido bem ou se uma interpretação errónea estaria a ser por mim dada àquilo que o emissor escrevera. O texto defendia que as mulheres são sempre (repito: sempre) exploradas, quanto mais não seja emocionalmente, pelos homens; preconizava que a mulher é sempre (!) esvaziada de si pelo sexo oposto.
Pensei em responder, queria comentar, mas abstive-me de o fazer. Preferi ponderar bastante antes de dissertar sobre o tema. E optei por fazê-lo em sede própria: não em "casa alheia" e sim no sereno conforto do meu próprio espaço virtual.
Entristece-me profundamente que haja mulheres tão revoltadas contra os homens. Talvez tenham sofrido demais às mãos de alguns, mas o certo é que o sofrimento não deveria ter o poder de toldar a lucidez lógica e cristalina do raciocínio. A maldade não escolhe géneros. O todo não pode ser julgado pela parte. E o "sempre" é demasiado absoluto para ser levianamente usado.
Sou mulher e, sim, vejo a minha energia constantemente "ao serviço" de vários homens. Bem como a tenho amiúde "à disposição" de muitas mulheres. Ser pessoa, ser humano, ser social, implica a troca energética. Inevitavelmente. De milhões de maneiras diferentes.
Bem sei que, infelizmente, há muitos tipos de hediondos crimes cometidos contra mulheres, um pouco por todo o mundo, a todo o instante. Mas também muitos há contra os homens. E a desumanidade não escolhe géneros, volto a repetir. Já vi muitos homens a adorarem e respeitarem mais a Mulher (em geral) do que muitas mulheres têm a capacidade de fazer.
"Sempre emocionalmente vampirizadas"? Não! De forma alguma! Num contexto de existências comuns e desligadas de patologias psicológicas, a mulher não vê a sua energia roubada, esvaziada ou vampirizada. Pelo contrário, dá-a de boa vontade, com amor, a outros homens e mulheres. Da mesma forma que o homem a dá, também, com amor, a outros homens e mulheres.
Ser humano é isto: dar e receber energia. E devia ser também ter a capacidade de perdoar e não ter um rancor tão imenso que se estende a um género inteiro...
Ana Amorim Dias
Sent with Writer.
Enviado via iPad
Li. Voltei a ler. E ainda tornei a somar de novo as letras em palavras e as palavras em frases, atenta a todo o contexto, para ver se teria compreendido bem ou se uma interpretação errónea estaria a ser por mim dada àquilo que o emissor escrevera. O texto defendia que as mulheres são sempre (repito: sempre) exploradas, quanto mais não seja emocionalmente, pelos homens; preconizava que a mulher é sempre (!) esvaziada de si pelo sexo oposto.
Pensei em responder, queria comentar, mas abstive-me de o fazer. Preferi ponderar bastante antes de dissertar sobre o tema. E optei por fazê-lo em sede própria: não em "casa alheia" e sim no sereno conforto do meu próprio espaço virtual.
Entristece-me profundamente que haja mulheres tão revoltadas contra os homens. Talvez tenham sofrido demais às mãos de alguns, mas o certo é que o sofrimento não deveria ter o poder de toldar a lucidez lógica e cristalina do raciocínio. A maldade não escolhe géneros. O todo não pode ser julgado pela parte. E o "sempre" é demasiado absoluto para ser levianamente usado.
Sou mulher e, sim, vejo a minha energia constantemente "ao serviço" de vários homens. Bem como a tenho amiúde "à disposição" de muitas mulheres. Ser pessoa, ser humano, ser social, implica a troca energética. Inevitavelmente. De milhões de maneiras diferentes.
Bem sei que, infelizmente, há muitos tipos de hediondos crimes cometidos contra mulheres, um pouco por todo o mundo, a todo o instante. Mas também muitos há contra os homens. E a desumanidade não escolhe géneros, volto a repetir. Já vi muitos homens a adorarem e respeitarem mais a Mulher (em geral) do que muitas mulheres têm a capacidade de fazer.
"Sempre emocionalmente vampirizadas"? Não! De forma alguma! Num contexto de existências comuns e desligadas de patologias psicológicas, a mulher não vê a sua energia roubada, esvaziada ou vampirizada. Pelo contrário, dá-a de boa vontade, com amor, a outros homens e mulheres. Da mesma forma que o homem a dá, também, com amor, a outros homens e mulheres.
Ser humano é isto: dar e receber energia. E devia ser também ter a capacidade de perdoar e não ter um rancor tão imenso que se estende a um género inteiro...
Ana Amorim Dias
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Anjos
Anjos
Vi recentemente imagens, captadas pela câmara de vigilância de uma qualquer estrada (segundo dizem) chinesa, que mostram um anjo a salvar um ciclista de ser atropelado. À primeira vista, por mais incrível que possa parecer, o vídeo aparenta uma legitimidade inegável. E à segunda e terceira também. Rapidamente surgem vozes a contestar a veracidade do que se vê. Cabe-nos a nós decidir se estamos ou não a ver um anjo em ação ou se aquilo é apenas produto de algum engenhoso técnico de imagem.
Neste caso em particular é-me indiferente a veracidade do que vi: tão feliz fico por ter de facto visto um anjo como por ter observado o produto do trabalho de alguém decidido a fazer crer ao Mundo que os anjos estão entre nós. O esforço de alguém assim só me confirma o que já sei: existem anjos, sem dúvida. Basta recordarmos as simples situações em que a nossa irritação se desvanece perante a presença de alguém (muitas vezes a última pessoa que esperaríamos ser capaz de o fazer) que nos acalma.
A todos os anjos da minha vida, visíveis e invisíveis, a minha gratidão infinita!
Ana Amorim Dias
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Vi recentemente imagens, captadas pela câmara de vigilância de uma qualquer estrada (segundo dizem) chinesa, que mostram um anjo a salvar um ciclista de ser atropelado. À primeira vista, por mais incrível que possa parecer, o vídeo aparenta uma legitimidade inegável. E à segunda e terceira também. Rapidamente surgem vozes a contestar a veracidade do que se vê. Cabe-nos a nós decidir se estamos ou não a ver um anjo em ação ou se aquilo é apenas produto de algum engenhoso técnico de imagem.
Neste caso em particular é-me indiferente a veracidade do que vi: tão feliz fico por ter de facto visto um anjo como por ter observado o produto do trabalho de alguém decidido a fazer crer ao Mundo que os anjos estão entre nós. O esforço de alguém assim só me confirma o que já sei: existem anjos, sem dúvida. Basta recordarmos as simples situações em que a nossa irritação se desvanece perante a presença de alguém (muitas vezes a última pessoa que esperaríamos ser capaz de o fazer) que nos acalma.
A todos os anjos da minha vida, visíveis e invisíveis, a minha gratidão infinita!
Ana Amorim Dias
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Vitimização
Vitimização
Tenho que me controlar bastante quando vêm fazer o papel de vítimas para junto de mim. O primeiro instinto é fazer uso do velho sábio par de estalos, mas depois recordo-me que as ofensas à integridade física constituem crime e que a violência não costuma ser solução para nenhum caso (imaginem então usá-la ao lidar com maníacos da vitimização!)
Não digo que essas pessoas não tenham também a sua dose de problemas, sofrimentos e injustiças; não digo sequer que não se possam queixar um pouco da vida e suas maldades, mas fazer disso uma bandeira e escolher sentir uma constante pena de si mesmas só piora tudo.
Os maníacos da vitimização nem se devem certamente aperceber que o começam a fazer com uma constância e veemência tais que se viciam em buscar o sentimento de piedade por si em todos com quem se relacionam. Mas o pior de tudo é quando se trata de pessoas absolutamente saudáveis, inteligentes e capazes, com vidas que fariam a inveja de muitos!
- Deixa-te de merdas!! Tu já viste bem que blá, blá, blá, blá, blábláblá? - e vou enumerando todos os pontos positivos de que me consigo lembrar, sempre com a sensação de que um bom par de nalgadas devia fazer melhor efeito.
E fico a perguntar-me como se "trata" esta maleita da vitimização. Como se pode fazer com que quem sofre deste mal se liberte dele? Explicando os factos? Fazendo ver que se se optar pela atitude de guerreiro se tem muito mais hipóteses de ser feliz? Argumentando que nada do que de mal se possa passar é uma ofensa pessoal e específica à sua pessoa?
Tenho aprendido a lidar com muitos tipos de gente e diferentes problemáticas, mas confesso que a vitimização me põe os nervos em franja. Acho que se me impõe a atitude guerreira também para aprender a lidar com tais casos...
Ana Amorim Dias
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Tenho que me controlar bastante quando vêm fazer o papel de vítimas para junto de mim. O primeiro instinto é fazer uso do velho sábio par de estalos, mas depois recordo-me que as ofensas à integridade física constituem crime e que a violência não costuma ser solução para nenhum caso (imaginem então usá-la ao lidar com maníacos da vitimização!)
Não digo que essas pessoas não tenham também a sua dose de problemas, sofrimentos e injustiças; não digo sequer que não se possam queixar um pouco da vida e suas maldades, mas fazer disso uma bandeira e escolher sentir uma constante pena de si mesmas só piora tudo.
Os maníacos da vitimização nem se devem certamente aperceber que o começam a fazer com uma constância e veemência tais que se viciam em buscar o sentimento de piedade por si em todos com quem se relacionam. Mas o pior de tudo é quando se trata de pessoas absolutamente saudáveis, inteligentes e capazes, com vidas que fariam a inveja de muitos!
- Deixa-te de merdas!! Tu já viste bem que blá, blá, blá, blá, blábláblá? - e vou enumerando todos os pontos positivos de que me consigo lembrar, sempre com a sensação de que um bom par de nalgadas devia fazer melhor efeito.
E fico a perguntar-me como se "trata" esta maleita da vitimização. Como se pode fazer com que quem sofre deste mal se liberte dele? Explicando os factos? Fazendo ver que se se optar pela atitude de guerreiro se tem muito mais hipóteses de ser feliz? Argumentando que nada do que de mal se possa passar é uma ofensa pessoal e específica à sua pessoa?
Tenho aprendido a lidar com muitos tipos de gente e diferentes problemáticas, mas confesso que a vitimização me põe os nervos em franja. Acho que se me impõe a atitude guerreira também para aprender a lidar com tais casos...
Ana Amorim Dias
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8.9.13
Um botão no ombro esquerdo
Um botão no ombro esquerdo
- Diz lá o que é que é preciso para descobrires onde está o teu botão do bom humor?-
- Leva-me a tomar uma meia de leite e eu começo a procurá-lo... - rosnei.
As manhãs nem sempre são fáceis, especialmente antes da cafeína entrar no sistema.
Um pouco mais tarde, no café: carrego com o indicador num sinal que tenho no ombro esquerdo. - Já está! Botão da boa disposição encontrado e ativado!
O Ricardo ri-se, aliviado. O Tomás encolhe os ombros, condescendente. E o João começa a "ligar" e "desligar" o sinal do meu ombro esquerdo, aguardando as minhas reações. Alterno os sorrisos amorosos com rosnadelas enfurecidas. Todos se riem até a brincadeira se perder numa outra qualquer distração.
Fica-me o conceito a boiar nos mares da alma: e se eu conferir reais poderes ao sinal do ombro esquerdo? E se, ao sentir-me insuportável, o pressionar, ficando efetivamente bem disposta? E se todos arranjássemos um "botão" de ânimo e boa disposição a que recorrêssemos com a certeza de funcionar?
Estou certa de que está tudo à distância de um "clique"... e da decisão de que o botão funciona.
Ana Amorim Dias
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- Diz lá o que é que é preciso para descobrires onde está o teu botão do bom humor?-
- Leva-me a tomar uma meia de leite e eu começo a procurá-lo... - rosnei.
As manhãs nem sempre são fáceis, especialmente antes da cafeína entrar no sistema.
Um pouco mais tarde, no café: carrego com o indicador num sinal que tenho no ombro esquerdo. - Já está! Botão da boa disposição encontrado e ativado!
O Ricardo ri-se, aliviado. O Tomás encolhe os ombros, condescendente. E o João começa a "ligar" e "desligar" o sinal do meu ombro esquerdo, aguardando as minhas reações. Alterno os sorrisos amorosos com rosnadelas enfurecidas. Todos se riem até a brincadeira se perder numa outra qualquer distração.
Fica-me o conceito a boiar nos mares da alma: e se eu conferir reais poderes ao sinal do ombro esquerdo? E se, ao sentir-me insuportável, o pressionar, ficando efetivamente bem disposta? E se todos arranjássemos um "botão" de ânimo e boa disposição a que recorrêssemos com a certeza de funcionar?
Estou certa de que está tudo à distância de um "clique"... e da decisão de que o botão funciona.
Ana Amorim Dias
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lado a lado
Lado a lado
"Tens que o tentar entender, Ana! Se fosse ao contrário tu estarias preparada e aceitarias sem qualquer problema, mas sabes perfeitamente que isto lhe vai fazer muito mal! Espera um pouco mais, dá-lhe tempo..."
Ia no carro quando me chamei a mim mesma à razão. Se fosse qualquer outra pessoa a dizê-lo eu manteria o meu rumo e faria prevalecer a minha vontade. Mas como tenho o estranho hábito de me ouvir com atenção, aceitei sentar-me lado a lado comigo, e fazer negócio!
- Sempre que estiveres a negociar com alguém senta-te ao seu lado, nunca à sua frente!- disse-me, há uns meses, um dos meus heróis.
- Porquê?- perguntei-lhe.
- Sabes, Ana? O frente a frente potencia o ego, a oposição; fomenta uma hostilidade que em nada nos favorece. Pelo contrário, se te sentas lado a lado com a outra parte, consegues estabelecer uma sensação de estarem ambos do mesmo lado, desarmas, dás confiança e, com algum tato, baixas-lhe as defesas e a negociação acaba por te ser favorável.-
" Tens que ser paciente. As grandes batalhas não se ganham precipitamente. Não precisas de ir já sozinha de carro até à Croácia. Podes ir daqui a uns meses, dar-lhe mais tempo para se habituar à ideia e aceitar sem se magoar... qual é o stress?" - continuei, lado a lado comigo, em plena negociação.
" Olha que porra! Sabes bem que tenho que me sentir livre! Que tenho que ir embora quando entendo! Que me faz mal começar com cedências!"
" Às vezes és mesmo imatura... Não é perante ele que tens de fazer cedências. É perante ti que tens de estabelecer soluções de compromisso! Queres que ele fique infeliz e amargurado?"
" Não! Claro que não! Mas detesto colocar o bem estar dos outros à frente das minhas asas!!!"
" Vá lá. Trabalha essa tua impaciência, atrasa essa viagem até ele se habituar à ideia e arranja outros planos para agora, há tantas coisas que queres e podes fazer sem criar conflitos..."
- Ricardo?- assim que cheguei à quinta quis comunicar-lhe que tinha estado em negociações comigo.
- O que foi?- o ar um pouco aflito quase me fez rir.
- Lembras-te que em Outubro eu era para ir sozinha de carro até à Croácia?-
Um trejeito carrancudo.
- Pois bem, por essa altura faz uma mala. Vamos embora!-
- Para onde??-
- Não sei, vamos à aventura, logo se decide o destino!-
Abraçou-me com força enquanto me lançava um apaixonado: "Parvalhona!..."
- Mas a outra viagem não foi cancelada, só adiada.- avisei.
Aquilo que realmente queremos raramente nos é trazido de bandeja. A liberdade não se conquista à bruta, nasce também da tentativa de não ferir os outros. E a vida... bem, a vida é uma gaja muito sabida com quem convém negociar sempre lado a lado!
Ana Amorim Dias
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Enviado via iPad
"Tens que o tentar entender, Ana! Se fosse ao contrário tu estarias preparada e aceitarias sem qualquer problema, mas sabes perfeitamente que isto lhe vai fazer muito mal! Espera um pouco mais, dá-lhe tempo..."
Ia no carro quando me chamei a mim mesma à razão. Se fosse qualquer outra pessoa a dizê-lo eu manteria o meu rumo e faria prevalecer a minha vontade. Mas como tenho o estranho hábito de me ouvir com atenção, aceitei sentar-me lado a lado comigo, e fazer negócio!
- Sempre que estiveres a negociar com alguém senta-te ao seu lado, nunca à sua frente!- disse-me, há uns meses, um dos meus heróis.
- Porquê?- perguntei-lhe.
- Sabes, Ana? O frente a frente potencia o ego, a oposição; fomenta uma hostilidade que em nada nos favorece. Pelo contrário, se te sentas lado a lado com a outra parte, consegues estabelecer uma sensação de estarem ambos do mesmo lado, desarmas, dás confiança e, com algum tato, baixas-lhe as defesas e a negociação acaba por te ser favorável.-
" Tens que ser paciente. As grandes batalhas não se ganham precipitamente. Não precisas de ir já sozinha de carro até à Croácia. Podes ir daqui a uns meses, dar-lhe mais tempo para se habituar à ideia e aceitar sem se magoar... qual é o stress?" - continuei, lado a lado comigo, em plena negociação.
" Olha que porra! Sabes bem que tenho que me sentir livre! Que tenho que ir embora quando entendo! Que me faz mal começar com cedências!"
" Às vezes és mesmo imatura... Não é perante ele que tens de fazer cedências. É perante ti que tens de estabelecer soluções de compromisso! Queres que ele fique infeliz e amargurado?"
" Não! Claro que não! Mas detesto colocar o bem estar dos outros à frente das minhas asas!!!"
" Vá lá. Trabalha essa tua impaciência, atrasa essa viagem até ele se habituar à ideia e arranja outros planos para agora, há tantas coisas que queres e podes fazer sem criar conflitos..."
- Ricardo?- assim que cheguei à quinta quis comunicar-lhe que tinha estado em negociações comigo.
- O que foi?- o ar um pouco aflito quase me fez rir.
- Lembras-te que em Outubro eu era para ir sozinha de carro até à Croácia?-
Um trejeito carrancudo.
- Pois bem, por essa altura faz uma mala. Vamos embora!-
- Para onde??-
- Não sei, vamos à aventura, logo se decide o destino!-
Abraçou-me com força enquanto me lançava um apaixonado: "Parvalhona!..."
- Mas a outra viagem não foi cancelada, só adiada.- avisei.
Aquilo que realmente queremos raramente nos é trazido de bandeja. A liberdade não se conquista à bruta, nasce também da tentativa de não ferir os outros. E a vida... bem, a vida é uma gaja muito sabida com quem convém negociar sempre lado a lado!
Ana Amorim Dias
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