(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

16.9.13

Quatro anos - 12 de Setembro

Quatro anos

Sentei-me e comecei. O que não sabia é que não mais iria parar.

"A chuva batia nas velas com crescente intensidade e vagas ferozes irritavam a obstinada resistência daquelas madeiras, maduras de tantas batalhas vencidas.
- Não me levas a melhor, pelas barbas de Neptuno!- gritava, rindo, Sebastien, comandante improvável daquele galeão pirata.
Provocado pelos elementos, com a adrenalina em crescendo, Sebastien rejubilava de excitação e contentamento.
- Mantenham-se firmes. Façam-se à vida nesta luta injusta, pois só olhando a morte de frente podemos saborear o gosto pela vida!"

Eram umas nove (ou dez?) da noite quando a minha primeira história iniciou o seu parto. E isso aconteceu precisamente (só hoje me apercebi) com águas a rebentar; com um naufrágio.
Faz esta noite quatro anos que comecei a escrever. Não consegui voltar a parar. Creio que tal jamais será possível.
Quatro anos. Cinco livros. Sete histórias. Cerca de novecentas crónicas. Poemas. Canções. Artigos. Entrevistas. Uma vida inteira em quatro anos.
Conheci muitas pessoas pelo caminho. Descobri melhor outras que pensava conhecer. Vivi coisas que não me teria lançado a viver se não fosse para as descrever. Procurei. Descobri. Descobri-me. Faço-o todos os dias.
Agora sou mais mulher. Sou mais homem. Mais anciã. Mais criança. Mais pessoa e mais humana.
Ao longo destes quatro anos desenvolvi o raciocínio, aprendi sobre a coerência, agucei a curiosidade, a emoção, a sensibilidade. Tornei-me melhor, sei que sim.
O sabor perfeito trazido por tudo o que evoluí só pode ser melhorado pela vossa presença constante. Desde quem já me acompanha e inspira há anos, até quem só há pouco tempo "chegou", são todos vocês a outra metade do "combustível" que me move.
Por estarem aí, o meu sentido obrigada.
E agora venham mais quatro!

Ana Amorim Dias



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Sobre energia e géneros

Sobre energia e géneros

Li. Voltei a ler. E ainda tornei a somar de novo as letras em palavras e as palavras em frases, atenta a todo o contexto, para ver se teria compreendido bem ou se uma interpretação errónea estaria a ser por mim dada àquilo que o emissor escrevera. O texto defendia que as mulheres são sempre (repito: sempre) exploradas, quanto mais não seja emocionalmente, pelos homens; preconizava que a mulher é sempre (!) esvaziada de si pelo sexo oposto.
Pensei em responder, queria comentar, mas abstive-me de o fazer. Preferi ponderar bastante antes de dissertar sobre o tema. E optei por fazê-lo em sede própria: não em "casa alheia" e sim no sereno conforto do meu próprio espaço virtual.
Entristece-me profundamente que haja mulheres tão revoltadas contra os homens. Talvez tenham sofrido demais às mãos de alguns, mas o certo é que o sofrimento não deveria ter o poder de toldar a lucidez lógica e cristalina do raciocínio. A maldade não escolhe géneros. O todo não pode ser julgado pela parte. E o "sempre" é demasiado absoluto para ser levianamente usado.
Sou mulher e, sim, vejo a minha energia constantemente "ao serviço" de vários homens. Bem como a tenho amiúde "à disposição" de muitas mulheres. Ser pessoa, ser humano, ser social, implica a troca energética. Inevitavelmente. De milhões de maneiras diferentes.
Bem sei que, infelizmente, há muitos tipos de hediondos crimes cometidos contra mulheres, um pouco por todo o mundo, a todo o instante. Mas também muitos há contra os homens. E a desumanidade não escolhe géneros, volto a repetir. Já vi muitos homens a adorarem e respeitarem mais a Mulher (em geral) do que muitas mulheres têm a capacidade de fazer.
"Sempre emocionalmente vampirizadas"? Não! De forma alguma! Num contexto de existências comuns e desligadas de patologias psicológicas, a mulher não vê a sua energia roubada, esvaziada ou vampirizada. Pelo contrário, dá-a de boa vontade, com amor, a outros homens e mulheres. Da mesma forma que o homem a dá, também, com amor, a outros homens e mulheres.
Ser humano é isto: dar e receber energia. E devia ser também ter a capacidade de perdoar e não ter um rancor tão imenso que se estende a um género inteiro...

Ana Amorim Dias

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Anjos

Anjos

Vi recentemente imagens, captadas pela câmara de vigilância de uma qualquer estrada (segundo dizem) chinesa, que mostram um anjo a salvar um ciclista de ser atropelado. À primeira vista, por mais incrível que possa parecer, o vídeo aparenta uma legitimidade inegável. E à segunda e terceira também. Rapidamente surgem vozes a contestar a veracidade do que se vê. Cabe-nos a nós decidir se estamos ou não a ver um anjo em ação ou se aquilo é apenas produto de algum engenhoso técnico de imagem.
Neste caso em particular é-me indiferente a veracidade do que vi: tão feliz fico por ter de facto visto um anjo como por ter observado o produto do trabalho de alguém decidido a fazer crer ao Mundo que os anjos estão entre nós. O esforço de alguém assim só me confirma o que já sei: existem anjos, sem dúvida. Basta recordarmos as simples situações em que a nossa irritação se desvanece perante a presença de alguém (muitas vezes a última pessoa que esperaríamos ser capaz de o fazer) que nos acalma.
A todos os anjos da minha vida, visíveis e invisíveis, a minha gratidão infinita!

Ana Amorim Dias

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Vitimização

Vitimização

Tenho que me controlar bastante quando vêm fazer o papel de vítimas para junto de mim. O primeiro instinto é fazer uso do velho sábio par de estalos, mas depois recordo-me que as ofensas à integridade física constituem crime e que a violência não costuma ser solução para nenhum caso (imaginem então usá-la ao lidar com maníacos da vitimização!)
Não digo que essas pessoas não tenham também a sua dose de problemas, sofrimentos e injustiças; não digo sequer que não se possam queixar um pouco da vida e suas maldades, mas fazer disso uma bandeira e escolher sentir uma constante pena de si mesmas só piora tudo.
Os maníacos da vitimização nem se devem certamente aperceber que o começam a fazer com uma constância e veemência tais que se viciam em buscar o sentimento de piedade por si em todos com quem se relacionam. Mas o pior de tudo é quando se trata de pessoas absolutamente saudáveis, inteligentes e capazes, com vidas que fariam a inveja de muitos!

- Deixa-te de merdas!! Tu já viste bem que blá, blá, blá, blá, blábláblá? - e vou enumerando todos os pontos positivos de que me consigo lembrar, sempre com a sensação de que um bom par de nalgadas devia fazer melhor efeito.
E fico a perguntar-me como se "trata" esta maleita da vitimização. Como se pode fazer com que quem sofre deste mal se liberte dele? Explicando os factos? Fazendo ver que se se optar pela atitude de guerreiro se tem muito mais hipóteses de ser feliz? Argumentando que nada do que de mal se possa passar é uma ofensa pessoal e específica à sua pessoa?
Tenho aprendido a lidar com muitos tipos de gente e diferentes problemáticas, mas confesso que a vitimização me põe os nervos em franja. Acho que se me impõe a atitude guerreira também para aprender a lidar com tais casos...

Ana Amorim Dias


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8.9.13

Um botão no ombro esquerdo

Um botão no ombro esquerdo

- Diz lá o que é que é preciso para descobrires onde está o teu botão do bom humor?-
- Leva-me a tomar uma meia de leite e eu começo a procurá-lo... - rosnei.
As manhãs nem sempre são fáceis, especialmente antes da cafeína entrar no sistema.

Um pouco mais tarde, no café: carrego com o indicador num sinal que tenho no ombro esquerdo. - Já está! Botão da boa disposição encontrado e ativado!
O Ricardo ri-se, aliviado. O Tomás encolhe os ombros, condescendente. E o João começa a "ligar" e "desligar" o sinal do meu ombro esquerdo, aguardando as minhas reações. Alterno os sorrisos amorosos com rosnadelas enfurecidas. Todos se riem até a brincadeira se perder numa outra qualquer distração.
Fica-me o conceito a boiar nos mares da alma: e se eu conferir reais poderes ao sinal do ombro esquerdo? E se, ao sentir-me insuportável, o pressionar, ficando efetivamente bem disposta? E se todos arranjássemos um "botão" de ânimo e boa disposição a que recorrêssemos com a certeza de funcionar?
Estou certa de que está tudo à distância de um "clique"... e da decisão de que o botão funciona.

Ana Amorim Dias

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lado a lado

Lado a lado

"Tens que o tentar entender, Ana! Se fosse ao contrário tu estarias preparada e aceitarias sem qualquer problema, mas sabes perfeitamente que isto lhe vai fazer muito mal! Espera um pouco mais, dá-lhe tempo..."
Ia no carro quando me chamei a mim mesma à razão. Se fosse qualquer outra pessoa a dizê-lo eu manteria o meu rumo e faria prevalecer a minha vontade. Mas como tenho o estranho hábito de me ouvir com atenção, aceitei sentar-me lado a lado comigo, e fazer negócio!

- Sempre que estiveres a negociar com alguém senta-te ao seu lado, nunca à sua frente!- disse-me, há uns meses, um dos meus heróis.
- Porquê?- perguntei-lhe.
- Sabes, Ana? O frente a frente potencia o ego, a oposição; fomenta uma hostilidade que em nada nos favorece. Pelo contrário, se te sentas lado a lado com a outra parte, consegues estabelecer uma sensação de estarem ambos do mesmo lado, desarmas, dás confiança e, com algum tato, baixas-lhe as defesas e a negociação acaba por te ser favorável.-

" Tens que ser paciente. As grandes batalhas não se ganham precipitamente. Não precisas de ir já sozinha de carro até à Croácia. Podes ir daqui a uns meses, dar-lhe mais tempo para se habituar à ideia e aceitar sem se magoar... qual é o stress?" - continuei, lado a lado comigo, em plena negociação.
" Olha que porra! Sabes bem que tenho que me sentir livre! Que tenho que ir embora quando entendo! Que me faz mal começar com cedências!"
" Às vezes és mesmo imatura... Não é perante ele que tens de fazer cedências. É perante ti que tens de estabelecer soluções de compromisso! Queres que ele fique infeliz e amargurado?"
" Não! Claro que não! Mas detesto colocar o bem estar dos outros à frente das minhas asas!!!"
" Vá lá. Trabalha essa tua impaciência, atrasa essa viagem até ele se habituar à ideia e arranja outros planos para agora, há tantas coisas que queres e podes fazer sem criar conflitos..."

- Ricardo?- assim que cheguei à quinta quis comunicar-lhe que tinha estado em negociações comigo.
- O que foi?- o ar um pouco aflito quase me fez rir.
- Lembras-te que em Outubro eu era para ir sozinha de carro até à Croácia?-
Um trejeito carrancudo.
- Pois bem, por essa altura faz uma mala. Vamos embora!-
- Para onde??-
- Não sei, vamos à aventura, logo se decide o destino!-
Abraçou-me com força enquanto me lançava um apaixonado: "Parvalhona!..."
- Mas a outra viagem não foi cancelada, só adiada.- avisei.

Aquilo que realmente queremos raramente nos é trazido de bandeja. A liberdade não se conquista à bruta, nasce também da tentativa de não ferir os outros. E a vida... bem, a vida é uma gaja muito sabida com quem convém negociar sempre lado a lado!

Ana Amorim Dias





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Pessoas-universo

Pessoas-Universo


Não faço ideia se o facto de se ser extrovertido ou tímido provém mais de fatores genéticos ou culturais e educacionais. Talvez dependa da conjugação de ambos. O certo é que quem é envergonhado tem muito a perder.

Desde miudita que me conheço como pessoa expansiva, capaz de meter conversa com qualquer pessoa e em qualquer situação. Mas só ao longo dos últimos anos é que me tenho apercebido da riqueza que tal característica nos pode acrescentar à vida.
Cada pessoa é um Mundo. Não! Cada pessoa é um Universo! E acredito firmemente que uma das nossas missões é ligarmo-nos uns aos outros para assim termos condições de expandir o entendimento e a sabedoria.
Reconheço a desmedida sorte de me ser natural falar com desconhecidos sem qualquer vergonha e de tentar, sempre que posso, conhecê-los um pouco melhor. A não ser assim já teria perdido muitas centenas de enriquecimentos que esses novos universos me trazem...

Os senhores do norte que assavam porcos no espeto e me contaram a vida toda enquanto me ofereciam os melhores pedaços de carne; o irmão de um noivo que ensina cegos do Nepal a dar massagens para terem como se sustentar; o mecânico sobrevivente com quem tenho conversas profundas; a "vizinha" do lado, numa feira medieval, que é caracterizadora e vai sozinha para a Costa Rica... E poderia continuar durante muitos parágrafos com a lista de encantadoras personagens da vida real que vou conhecendo a um alucinante ritmo.
Sei que temos muito a aprender uns com os outros e, no meu caso em particular, sei identificar de imediato quem, ao chegar à minha vida, vem com ensinamentos novos. Contudo, mais importante do que estar consciente desse facto, é saber que todas as pessoas-universo que chegam à nossa vida, vêm com a tarefa de nos ensinar algo mais sobre nós mesmos. E vice-versa, claro!

Ana Amorim Dias

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Zambujeira do Mar

Zambujeira do Mar. Duas horas na água a fazer bobyboard. A meio da odisseia, um pequeno anjo faz-me completamente feliz:
- A senhora é professora disto? - pergunta-me o desconhecido puto.
- Não! porquê?- contraponho, espantada.
- É que faz tão bem!-
Não consigo evitar: passo o resto da manhã a sentir-me uma verdadeira Neptuna!

Ana Amorim Dias

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Pergunto-me

Pergunto-me...

Pergunto-me quantas pessoas precisam de mudar as suas vidas. Quantas pessoas passam os dias, os meses e os anos a protelar decisões de fundo por falta de coragem? Quantas pessoas não gostam do que fazem? Quantas estão acomodadas em relacionamentos sem futuro nem sentido ou emoção por puro medo de ficarem sós? Quantas têm uma vida medíocre e adormecida, ganhando menos do que poderiam ou perdendo os seus talentos por falta de "oportunidades"?
Digam lá, se souberem, quantas pessoas conhecem que acordam para cada novo dia sem qualquer entusiasmo, apenas para se arrastarem em piloto automático até à hora de adormecer de novo? Quantas dormem mal? Quantas vivem no receio de não ter como pagar a próxima renda e conta da luz?
Por vezes é preciso mudar. Mudar tudo. Virar a vida ao avesso. Minimalizar em absoluto. Perder quase tudo. Viver com quase nada. Por vezes é necessário rasgar padrões, perder estatutos, desligar o botão do "o que é que vão pensar?" e ir viver com os pais ou com os tios ou vinte patamares abaixo do era habitual. Por vezes é preciso ir embora, ficar longe de quem mais se ama, para ter como voltar. E recomeçar.
Viver dá medo. Um medo do caraças. Mas surgem épocas em que, para se poder viver aos comandos da vida, é preciso encontrar a coragem de virar tudo ao contrário, quebrar as estruturas e começar de novo. Do zero. Ou quase.

Ana Amorim Dias

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Verão de 2036

Verão de 2036
Numa qualquer praia da Europa...

- Conte-nos como tudo começou.-
- Então... Deixe ver... Começou num centro comercial!-
- Num centro comercial?!?-
- Sim, eu estava a passar e vi a prancha. Ela olhou para mim, eu olhei para ela e meia hora depois estávamos as duas nas ondas. Foi assim que tudo começou.-
- O que sente ao sagrar-se campeã europeia de surf dos super séniores?-
- Bem... Estaria mais feliz com um Nobelzito da literatura... Mas isto também sabe bem.-

De volta à realidade do agora: uma hora no mar com a minha primeira prancha de surf. Já me equilibro deitada e sentada. Já a consigo virar e deslocar para onde quero... Já é alguma coisa. A humildade de aceitar fazer "figuras de urso" é pródiga de ensinamentos e proporciona experiências imperdíveis. O mar tem essa faculdade magnífica de nos "reduzir" à ausência de estatutos. Ali não sou a advogada rebelde, nem a organizadora de eventos mandona. Não sou a escritora impulsiva, a autodidata exigente nem a barmaid de serviço. Não sou mãe nem filha nem mulher. Sou eu, apenas eu, sem mais nada. O mar tem essa faculdade única de nos aumentar até à explosão de ligação ao Universo inteiro e de nos fazer responder à tal questão do "quantos anos terias se não soubesses quantos anos tens?" A resposta, lá no mar, é sempre a mesma: "tenho a idade da alma que habita este corpo salgado... que não sei quantos anos tem!"

Nota: aceitam-se lições de surf nos comentários.

Ana Amorim Dias

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Novas éticas

Novas éticas

Costumava adorar as festanças. Não é que já não goste, entenda-se, mas nos dias que correm acho que qualquer pessoa minimamente zelosa da sua imagem tem que pensar cinco vezes antes de ir a jantaradas e saídas de grupo com facebookaólicos. Não aprecio particularmente a publicação constante de fotografias de tudo o que se come, faz e vive ao longo de todas as horas dos dias, mas isso é lá com cada um. O verdadeiro problema surge-me quando decido socializar menos por não querer perder o controle daquilo que é publicado sobre mim. E quando opto por ir acabo por me esquivar bastante às fotografias tiradas com dispositivos alheios, cuja futura utilização não posso controlar.
Nunca aqui proibi a utilização das imagens e textos que publico. Assumo todas as fotografias e todas as palavras. No entanto creio que cada um de nós tem o direito de escolher o que sobre si é publicamente exposto.
- Não quero que publiquem qualquer fotografia minha a menos que me mostrem primeiro e eu esteja de acordo, está bem?- costumo pedir sem rodeios, logo à chegada. Depois, é claro, fico fula e descomponho quem usa a minha imagem sem acatar o que pedi.
Afinal somos ou não donos e senhores da nossa imagem? Com que direito é que se torna pública, a torto e a direito, a imagem alheia? Custará assim tanto ter o cuidado de pedir licença para expor eternamente ao mundo inteiro algo que não é nosso para disponibilizar tão levianamente? Creio que não custa nada tentar refrear um pouco a sofreguidão de protagonismo e começar a pensar mais nas regras de ética e boa educação que as novas realidades virtuais implicam.

Ana Amorim Dias

2.9.13

'Bora que eu vou-vos ganhar!

'Bora que eu vou-vos ganhar!

- André! André!!-
E o puto nada.
- André! Anda mais para aqui!-
O pai bem lhe gritava, meio aflito, para que se aproximasse mais da areia, mas o miúdo só queria estar com água pelo peito, onde já se apanhavam bem as ondas.

Olhei para aquele quadro pai/filho e comparei-o com o quadro pais/filhos que eu estava a protagonizar com a minha pequena tribo. Eu e o Ricardo com o Tomás e o João. Várias pranchas. Ondas fantásticas e uma temperatura de mar que nos permitiu estar três horas seguidas dentro dele.

Olhei para o pai do André que, já com uma considerável irritação, (como é possível estar-se irritado ao pé do mar?) insistia em chamar pelo André, que não lhe ligava nenhuma. E olhei para os meus filhos, felizes e seguros, a divertirem-se como loucos enquanto apanhavam ondas e competiam com o pai e com a mãe.

Não conheço o André de lado nenhum, e o pai muito menos, mas não hesitei em mandar ao puto um daqueles sorrisos que inspiram a mais rebeldia. Não sei se o garoto sentiu que enquanto nós estivéssemos por perto ele estaria em segurança, o certo é que foi deslizando nas ondas, a fazer ouvidos moucos ao pai.

Só desisti do mar quando os meus descendentes não aguentavam mais. O que acho que nunca vou desistir é de os acompanhar nas atividades que mais gostam enquanto a minha participação os fizer assim felizes. É bom acompanhá-los de bicicleta, saber dar-lhes as dicas no ski, discutir táticas de street surf (para quem não saiba, é o skate de duas rodas) e gritar para levantarem bem a frente da prancha de bodyboard para não se enrolarem nas ondas. É bom experimentar o surf com eles e, quem sabe, virmos a guiar cada um a sua mota. O que eu não vou querer nunca é demitir-me de viver, gritando para que voltem e não vivam eles também o que a vida tem de mais divertido e intenso. Não, decididamente não vou desistir de experimentar vivências para assim podermos divertir-nos todos juntos. Não vou desistir de lhes ensinar, de aprender com eles e nem de partilhar tantos momentos incríveis.
Só espero saber manter sempre o espírito de lhes continuar a dizer:
- Tomás! João! 'Bora, que eu vou-vos ganhar!!-

Ana Amorim Dias


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