Quilómetros e quilómetros
Quando saímos de casa e entramos para o carro sabemos normalmente a distância que nos aguarda. Podemos sair para percorrer dez quilómetros, duzentos ou mil mas, sabendo ao que vamos, a mentalização trata de tudo. O problema tende a surgir quando estamos preparados para fazer dez quilómetros e afinal temos que percorrer mil. Ou, no caso inverso, quando planeamos fazer cinco mil e a missão é abortada.
Às vezes penso que é por isso que a vida não é mais simples. Ao contrário do que acontece com o número de quilómetros que normalmente sabemos esperarem-nos, com a vida estamos sempre numa absoluta incógnita. Cada manhã, ao regressarmos dos sonhos, não fazemos a mínima ideia da quantidade de quilómetros de prazeres e sacrifícios ou esforços que vamos ter que suportar. Podem ser dez. E podem ser mil. Podem ser bons. E podem ser maus. Podem ter perigos ou fazer-nos crescer. O que é certo é que a distância de vida que em cada dia vivemos é sempre imprevisível. Não há mentalização possível para o que está por vir e teremos que percorrer. Talvez seja por isso que as pessoas que mais facilmente se adaptam ao imprevisto tendam a ser as mais bem sucedidas e felizes.
Ana Amorim Dias
Sent with Writer.
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
18.8.13
9.8.13
Tanque de guerra e asas de anjo
Tanque de guerra e asas de anjo
- És um tanque de guerra! - disse-me ele há dias, ao telefone.
Desconfio que grande parte das mulheres não achasse grande piada a um elogio deste calibre. Normalmente todas preferem ser tratadas por " Meu amor", " minha flor", " princesa da minha vida" , " anjo lindo" , " rainha do meu coração"... o certo é que qualquer destes carinhos orais me causa logo refluxos.
- Continuas inteira? - perguntou-me ontem à noite, quando finalmente nos vimos.
- Os tanques de guerra não quebram, lembras-te?-
Gosto de estar casada com um homem que sabe que sou um tanque de guerra. Há conhecimentos de causa que poupam muitas chatices, daí ser tão boa esta sua consciência de que, para o bem e para o mal, levo sempre tudo à frente.
O verdadeiro problema está no bilhetinho que esta manhã encontrei ao meu lado: parece que durante o meu sono não soube esconder as asas...
Ana Amorim Dias
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- És um tanque de guerra! - disse-me ele há dias, ao telefone.
Desconfio que grande parte das mulheres não achasse grande piada a um elogio deste calibre. Normalmente todas preferem ser tratadas por " Meu amor", " minha flor", " princesa da minha vida" , " anjo lindo" , " rainha do meu coração"... o certo é que qualquer destes carinhos orais me causa logo refluxos.
- Continuas inteira? - perguntou-me ontem à noite, quando finalmente nos vimos.
- Os tanques de guerra não quebram, lembras-te?-
Gosto de estar casada com um homem que sabe que sou um tanque de guerra. Há conhecimentos de causa que poupam muitas chatices, daí ser tão boa esta sua consciência de que, para o bem e para o mal, levo sempre tudo à frente.
O verdadeiro problema está no bilhetinho que esta manhã encontrei ao meu lado: parece que durante o meu sono não soube esconder as asas...
Ana Amorim Dias
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Enriquecer
Enriquecer
O despertador toca. Dou um salto da cama. Volto a tombar nela, qual desamparada sequoia, só para me levantar de novo por não poder correr riscos: tenho que levar a minha sobrinha ao autocarro das dez.
No caminho pouco falamos. Sabe perfeitamente que é um risco falar comigo tão cedo. Ainda assim arrisca:
- Como te tem corrido a feira?-
- Bem.- respondo laconicamente.
Mas agora que acordei um pouco mais, vejo o quanto a resposta foi incompleta. Nem vendi muito nem pouco. Podia ter sido muito melhor e também podia ter sido pior. O que é factual é que conheci um montão de gente, fiz amigos (daqueles mesmo amigos), falei cinco línguas (o italiano não correu lá muito bem), desenvolvi métodos próprios (e eficientes) de produção/venda em cinco metros quadrados e ventosos. Em suma, trouxe dinheiro para casa, é verdade, mas acima de tudo fui feliz!
Por isso, Mariana, terás de ler esta crónica para teres a tua resposta. Sabes? Quem só se move por dinheiro e faz dele o derradeiro objetivo nunca chega a enriquecer de verdade!! Que te corra bem a prova, minha querida.
Ana Amorim Dias
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O despertador toca. Dou um salto da cama. Volto a tombar nela, qual desamparada sequoia, só para me levantar de novo por não poder correr riscos: tenho que levar a minha sobrinha ao autocarro das dez.
No caminho pouco falamos. Sabe perfeitamente que é um risco falar comigo tão cedo. Ainda assim arrisca:
- Como te tem corrido a feira?-
- Bem.- respondo laconicamente.
Mas agora que acordei um pouco mais, vejo o quanto a resposta foi incompleta. Nem vendi muito nem pouco. Podia ter sido muito melhor e também podia ter sido pior. O que é factual é que conheci um montão de gente, fiz amigos (daqueles mesmo amigos), falei cinco línguas (o italiano não correu lá muito bem), desenvolvi métodos próprios (e eficientes) de produção/venda em cinco metros quadrados e ventosos. Em suma, trouxe dinheiro para casa, é verdade, mas acima de tudo fui feliz!
Por isso, Mariana, terás de ler esta crónica para teres a tua resposta. Sabes? Quem só se move por dinheiro e faz dele o derradeiro objetivo nunca chega a enriquecer de verdade!! Que te corra bem a prova, minha querida.
Ana Amorim Dias
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Os três ramos do cansaço
Os três ramos do cansaço
Tenho vindo a descobrir que o cansaço tem três ramos. Para desenvolver a teoria uso-me como cobaia.
Acontece-me com alguma frequência ter dezoito horas de trabalho seguidas e sempre em redline. Quando chego finalmente à cama doem-me músculos que desconhecia ter e a exaustão impede-me de adormecer de imediato. O cansaço físico é algo simples e limpo que se recupera com uma boa noite de sono que se possa prolongar manhã fora.
Depois existe o cansaço intelectual. Ao longo dos anos habituei-me a chamar-lhe "a nuvem" porque a sensação com que fico é a de ter uma nuvem cinzenta de chuva a trespassar-me o cérebro. Resulta normalmente de ter que pensar em mil e uma coisas, cobrir todas as possibilidades, gerir as funções de várias outras pessoas, verificar se tudo está minimamente perfeito, assegurar-me de que nada falta, encontrar soluções de última hora para imprevistos e por aí fora. Este cansaço mental desaparece com jornadas bem sucedidas, noites bem dormidas e zumba ou bodyboard.
O último ramo do cansaço é o emocional. O mais temível, perigoso e mortífero cansaço é o que nos rouba a paz de espírito, as gargalhadas da alma e a vontade de viver. Como por vezes se disfarça de apatia, inércia ou simples tristeza há quem não perceba que "apenas" se trata de cansaço emocional, ou seja, de já não se ter mais forças para lidar com a monotonia ou outras situações emocionalmente desgastantes que sugam o entusiasmo de viver até à ultima gota.
Não tenho fórmulas mágicas universais (quem sou eu para isso?) para se ultrapassar o problema, mas tenho o remédio santo para as raras ocasiões em que ele me atinge a mim: encontro novos projetos e interesses e, recordando-me da minha missão, sento-me e começo a escrever.
Ana Amorim Dias
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Tenho vindo a descobrir que o cansaço tem três ramos. Para desenvolver a teoria uso-me como cobaia.
Acontece-me com alguma frequência ter dezoito horas de trabalho seguidas e sempre em redline. Quando chego finalmente à cama doem-me músculos que desconhecia ter e a exaustão impede-me de adormecer de imediato. O cansaço físico é algo simples e limpo que se recupera com uma boa noite de sono que se possa prolongar manhã fora.
Depois existe o cansaço intelectual. Ao longo dos anos habituei-me a chamar-lhe "a nuvem" porque a sensação com que fico é a de ter uma nuvem cinzenta de chuva a trespassar-me o cérebro. Resulta normalmente de ter que pensar em mil e uma coisas, cobrir todas as possibilidades, gerir as funções de várias outras pessoas, verificar se tudo está minimamente perfeito, assegurar-me de que nada falta, encontrar soluções de última hora para imprevistos e por aí fora. Este cansaço mental desaparece com jornadas bem sucedidas, noites bem dormidas e zumba ou bodyboard.
O último ramo do cansaço é o emocional. O mais temível, perigoso e mortífero cansaço é o que nos rouba a paz de espírito, as gargalhadas da alma e a vontade de viver. Como por vezes se disfarça de apatia, inércia ou simples tristeza há quem não perceba que "apenas" se trata de cansaço emocional, ou seja, de já não se ter mais forças para lidar com a monotonia ou outras situações emocionalmente desgastantes que sugam o entusiasmo de viver até à ultima gota.
Não tenho fórmulas mágicas universais (quem sou eu para isso?) para se ultrapassar o problema, mas tenho o remédio santo para as raras ocasiões em que ele me atinge a mim: encontro novos projetos e interesses e, recordando-me da minha missão, sento-me e começo a escrever.
Ana Amorim Dias
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3.8.13
Perfeição e sabor
Perfeição e sabor
Não me lembro bem onde é que vi um senhor com um cabelo tão perfeitamente penteado que tive de me perguntar se não seria um capachinho.
- Já reparaste que as coisas demasiado perfeitas soam a falso?- comentei com quem estava comigo.
Pouco vou à horta que o Ricardo plantou cá na Quinta mas, quando o faço, fico encantada com a cor dos tomates, o aroma das meloas e o sabor dos morangos.
- Anda! Quero que proves uma coisa.- disse ele enquanto me fazia segui-lo de um socalco para outro.
- Prova este morango!-
Olhei para o aspeto imperfeito e enfezado do fruto acabado de apanhar, limpei-o com as mãos e comi-o em duas pequenas dentadas.
Depois de alguns segundos a, literalmente, gemer de prazer, agradeci como uma criança: - Foi o melhor morango que comi em toda a minha vida!!
Quando me apercebi do antagonismo destes dois acontecimentos compreendi o valor da sua conjunta mensagem: não é a aparência perfeita que confere o sabor a nada! A perfeição em excesso faz tudo soar a falso. Procuramos rodear-nos de perfeição e beleza. No nosso corpo, nas nossas coisas, nas nossas relações e vivências. E no entanto é tão frequente esquecermos-lhes o sabor...
Não quero um casamento perfeito, quero-o tão saboroso como aquele morango. Não quero filhos perfeitos, quero-os com o seu sabor espontâneo e genuíno. Não preciso de carros topo de gama nem roupas de luxo, quero apenas bens que saibam a fiabilidade e caráter. E quanto à minha própria pessoa, fico feliz por já ter descoberto há muito que embora a perfeição não more aqui, o sabor de ser genuína todos os dias me nutre.
Ana Amorim Dias
Não me lembro bem onde é que vi um senhor com um cabelo tão perfeitamente penteado que tive de me perguntar se não seria um capachinho.
- Já reparaste que as coisas demasiado perfeitas soam a falso?- comentei com quem estava comigo.
Pouco vou à horta que o Ricardo plantou cá na Quinta mas, quando o faço, fico encantada com a cor dos tomates, o aroma das meloas e o sabor dos morangos.
- Anda! Quero que proves uma coisa.- disse ele enquanto me fazia segui-lo de um socalco para outro.
- Prova este morango!-
Olhei para o aspeto imperfeito e enfezado do fruto acabado de apanhar, limpei-o com as mãos e comi-o em duas pequenas dentadas.
Depois de alguns segundos a, literalmente, gemer de prazer, agradeci como uma criança: - Foi o melhor morango que comi em toda a minha vida!!
Quando me apercebi do antagonismo destes dois acontecimentos compreendi o valor da sua conjunta mensagem: não é a aparência perfeita que confere o sabor a nada! A perfeição em excesso faz tudo soar a falso. Procuramos rodear-nos de perfeição e beleza. No nosso corpo, nas nossas coisas, nas nossas relações e vivências. E no entanto é tão frequente esquecermos-lhes o sabor...
Não quero um casamento perfeito, quero-o tão saboroso como aquele morango. Não quero filhos perfeitos, quero-os com o seu sabor espontâneo e genuíno. Não preciso de carros topo de gama nem roupas de luxo, quero apenas bens que saibam a fiabilidade e caráter. E quanto à minha própria pessoa, fico feliz por já ter descoberto há muito que embora a perfeição não more aqui, o sabor de ser genuína todos os dias me nutre.
Ana Amorim Dias
Inteligente decote
Inteligente decote
Há dias em que tudo o que queremos é passar despercebidas. Há outros em que nos incomodamos com olhares e hipotéticas considerações que possam formular sobre nós. Mas outros ainda existem em que nos sentimos tão confortáveis e sensuais na nossa pele que uma apresentação um pouco mais provocante faz todo o sentido.
Quando se veste uma saia curta ou um decote de deixar meio planeta a babar, temos que estar preparadas para isso. Não podemos pavonear condignamente a nossa estrutura física sem uma sólida estrutura emocional, sob pena de deixar que o invólucro fale mais alto que o conteúdo. Quando isso acontece está tudo perdido, é-se presa fácil das próprias inseguranças. O que transforma uma mulher "boa" num ser extremamente sensual é a confiança e a classe. Na verdade é preciso muita classe, inteligência e personalidade para sustentar um provocante decote sem se parecer oferecida. Da mesma maneira que tudo isso é necessário para se conseguir ser sensual com golas até às orelhas.
Ana Amorim Dias
Há dias em que tudo o que queremos é passar despercebidas. Há outros em que nos incomodamos com olhares e hipotéticas considerações que possam formular sobre nós. Mas outros ainda existem em que nos sentimos tão confortáveis e sensuais na nossa pele que uma apresentação um pouco mais provocante faz todo o sentido.
Quando se veste uma saia curta ou um decote de deixar meio planeta a babar, temos que estar preparadas para isso. Não podemos pavonear condignamente a nossa estrutura física sem uma sólida estrutura emocional, sob pena de deixar que o invólucro fale mais alto que o conteúdo. Quando isso acontece está tudo perdido, é-se presa fácil das próprias inseguranças. O que transforma uma mulher "boa" num ser extremamente sensual é a confiança e a classe. Na verdade é preciso muita classe, inteligência e personalidade para sustentar um provocante decote sem se parecer oferecida. Da mesma maneira que tudo isso é necessário para se conseguir ser sensual com golas até às orelhas.
Ana Amorim Dias
Musicalmente
Musicalmente
Esbarrei por acaso com uma música dele assim que acordei. Ajudou-me a sair da névoa adocicada dos sonhos e a entrar no dia como se ele estivesse inegavelmente abençoado. Quase por instinto pedi-lhe amizade e lancei-me corajosamente a mais um cansativo e alucinante dia, esquecendo o acontecimento.
Ao fim da tarde, pouco antes de ir para o banho para passar depois à segunda fase laboral do dia, verifiquei que o Olivier Cosson tinha aceite o meu convite e publicado no meu mural. "Bom dia Ana, agradeço o teu convite. Desejo-te um doce dia. Musicalmente, Olivier Cosson." E juntou mais de uma hora da sua tranquilizante música que ouvi durante o banho e enquanto me vestia. O sublime atingiu-me e comoveu-me de tal forma que tive que lhe agradecer a partilha. E que fez ele? Bem, respondeu que era ele que me agradecia a mim por ouvi-lo!
Tive que sorrir. Ele faz melodias que dão paz e plenitude e ainda agradece a quem o ouve? Tive que sorrir porque senti a sintonia com o que eu própria descobri que faço: escrevo coisas que dão paz e plenitude e depois agradeço por lerem. Fico a pensar que se calhar há uma humildade estranha que une invisivelmente os artistas e sonhadores. Sim, se calhar há mesmo um fio mágico que nos une na esperança de inspirar e melhorar o mundo.
Mais uma vez obrigada, Olivier!
E vocês, meus meninos, vão lá ouvi-lo e sentir a paz!
Musicalmente,
Ana Amorim Dias
Esbarrei por acaso com uma música dele assim que acordei. Ajudou-me a sair da névoa adocicada dos sonhos e a entrar no dia como se ele estivesse inegavelmente abençoado. Quase por instinto pedi-lhe amizade e lancei-me corajosamente a mais um cansativo e alucinante dia, esquecendo o acontecimento.
Ao fim da tarde, pouco antes de ir para o banho para passar depois à segunda fase laboral do dia, verifiquei que o Olivier Cosson tinha aceite o meu convite e publicado no meu mural. "Bom dia Ana, agradeço o teu convite. Desejo-te um doce dia. Musicalmente, Olivier Cosson." E juntou mais de uma hora da sua tranquilizante música que ouvi durante o banho e enquanto me vestia. O sublime atingiu-me e comoveu-me de tal forma que tive que lhe agradecer a partilha. E que fez ele? Bem, respondeu que era ele que me agradecia a mim por ouvi-lo!
Tive que sorrir. Ele faz melodias que dão paz e plenitude e ainda agradece a quem o ouve? Tive que sorrir porque senti a sintonia com o que eu própria descobri que faço: escrevo coisas que dão paz e plenitude e depois agradeço por lerem. Fico a pensar que se calhar há uma humildade estranha que une invisivelmente os artistas e sonhadores. Sim, se calhar há mesmo um fio mágico que nos une na esperança de inspirar e melhorar o mundo.
Mais uma vez obrigada, Olivier!
E vocês, meus meninos, vão lá ouvi-lo e sentir a paz!
Musicalmente,
Ana Amorim Dias
Fugaz dúvida
Fugaz dúvida
Quando fui convidada para ser entrevistadora num documentário, aceitei de imediato. Quando as minhas opiniões e visões me conduziram a estar diretamente envolvida na produção do mesmo, achei tudo muito normal. Ao perceber que as filmagens decorrerão em Paris e entrevistarei em inglês, achei tudo perfeito e não me preocupei minimamente.
Mas no outro dia, enquanto guiava, comecei a somar todos os factos e, por breves segundos, ocorreu-me que talvez o meu inglês e todas as minhas capacidades não estejam à altura deste desafio em finais de Setembro. Foi estranho porque não costumo duvidar, nem sequer por segundos, daquilo de que sou capaz. Mas percebi logo que, às vezes, uma breve dúvida pode representar um avanço. Talvez sejam as fugazes dúvidas que nos fazem dar o nosso melhor. A minha imagem pode não ser das mais perfeitas para aparecer na televisão. O meu inglês pode não ser dos mais fluentes. Mas descobri uma capacidade que já não quero perder: a de transformar as breves dúvidas no sério compromisso de tentar fazer mais e melhor. E fiquei com a ideia de que é precisamente assim que nos nasce a certeza de conseguirmos orgulhar-nos com tudo aquilo que fazemos.
Ana Amorim Dias
Quando fui convidada para ser entrevistadora num documentário, aceitei de imediato. Quando as minhas opiniões e visões me conduziram a estar diretamente envolvida na produção do mesmo, achei tudo muito normal. Ao perceber que as filmagens decorrerão em Paris e entrevistarei em inglês, achei tudo perfeito e não me preocupei minimamente.
Mas no outro dia, enquanto guiava, comecei a somar todos os factos e, por breves segundos, ocorreu-me que talvez o meu inglês e todas as minhas capacidades não estejam à altura deste desafio em finais de Setembro. Foi estranho porque não costumo duvidar, nem sequer por segundos, daquilo de que sou capaz. Mas percebi logo que, às vezes, uma breve dúvida pode representar um avanço. Talvez sejam as fugazes dúvidas que nos fazem dar o nosso melhor. A minha imagem pode não ser das mais perfeitas para aparecer na televisão. O meu inglês pode não ser dos mais fluentes. Mas descobri uma capacidade que já não quero perder: a de transformar as breves dúvidas no sério compromisso de tentar fazer mais e melhor. E fiquei com a ideia de que é precisamente assim que nos nasce a certeza de conseguirmos orgulhar-nos com tudo aquilo que fazemos.
Ana Amorim Dias
Visualmente diferente
Visualmente diferente
Eu não queria acreditar. Por isso olhei uma e outra vez. Tentando sempre que ninguém se apercebesse, claro, para não ser inconveniente. O curto vestido de alças deixava à vista umas pernas e sovacos tão peludos que, comparativamente, fariam qualquer homem sentir-se quase depilado.
Mas o que me fez mais confusão nem foram os visíveis e fartos tufos, foi a desenvoltura despreocupada com que a moçoila se pavoneava entre os seus pares, completamente feliz. Fiquei muito baralhada. Espero que não me tomem por preconceituosa, mas não entendi como se pode sair assim à rua e estar em público com o ar mais tranquilo e confiante que alguém pode usar.
O certo é que a corajosa (ou naturista) senhora me deixou a matutar sobre liberdades básicas. Enquanto várias outras pessoas olhavam consternadas para as suas pernas e axilas, ocorreu-me que não há nenhuma regra legal, ética nem moral que proíba as mulheres de andarem desaparadas! Ela não estava a fazer mal a ninguém, apenas usou o singelo direito de não alterar qualquer vírgula no seu corpo, circulando com ele assim.
Continuei com o raciocínio acrescentando-lhe novas variáveis. E quando uma pessoa cheira mal? Não está a perturbar os direitos de quem está por perto? Afinal é ou não legítimo agredir visual e olfativamente os outros? Estar demasiado feio ou mal cheiroso é um direito legítimo de cada um? Ou, pelo contrário, há que respeitar publicamente padrões instituídos de beleza e de bom senso?
Volto aos sovacos cabeludos da confiante senhora e percebo o que tinha que perceber: pode ser-se visualmente diferente porque ninguém é obrigado a olhar para ninguém. Além do mais os gostos não se discutem e o namorado dela até me pareceu bastante apaixonado.
Quanto aos cheiros...bem, deixemo-los para outro dia.
Ana Amorim Dias
Eu não queria acreditar. Por isso olhei uma e outra vez. Tentando sempre que ninguém se apercebesse, claro, para não ser inconveniente. O curto vestido de alças deixava à vista umas pernas e sovacos tão peludos que, comparativamente, fariam qualquer homem sentir-se quase depilado.
Mas o que me fez mais confusão nem foram os visíveis e fartos tufos, foi a desenvoltura despreocupada com que a moçoila se pavoneava entre os seus pares, completamente feliz. Fiquei muito baralhada. Espero que não me tomem por preconceituosa, mas não entendi como se pode sair assim à rua e estar em público com o ar mais tranquilo e confiante que alguém pode usar.
O certo é que a corajosa (ou naturista) senhora me deixou a matutar sobre liberdades básicas. Enquanto várias outras pessoas olhavam consternadas para as suas pernas e axilas, ocorreu-me que não há nenhuma regra legal, ética nem moral que proíba as mulheres de andarem desaparadas! Ela não estava a fazer mal a ninguém, apenas usou o singelo direito de não alterar qualquer vírgula no seu corpo, circulando com ele assim.
Continuei com o raciocínio acrescentando-lhe novas variáveis. E quando uma pessoa cheira mal? Não está a perturbar os direitos de quem está por perto? Afinal é ou não legítimo agredir visual e olfativamente os outros? Estar demasiado feio ou mal cheiroso é um direito legítimo de cada um? Ou, pelo contrário, há que respeitar publicamente padrões instituídos de beleza e de bom senso?
Volto aos sovacos cabeludos da confiante senhora e percebo o que tinha que perceber: pode ser-se visualmente diferente porque ninguém é obrigado a olhar para ninguém. Além do mais os gostos não se discutem e o namorado dela até me pareceu bastante apaixonado.
Quanto aos cheiros...bem, deixemo-los para outro dia.
Ana Amorim Dias
A lição de hortelã
A lição da hortelã
Um amigo recente fez-me descobrir mais uns quantos truques do ofício de barman. Espero que ele não se importe, mas vou partilhar um convosco.
Explicou-me ele que, para intensificar o sabor e odores da hortelã basta colocar algumas folhas numa mão e, com a outra, dar-lhes uma valente palmada.
Experimentei cheirá-las antes e depois e, como poderão comprovar, a decidida palmada intensifica realmente as suas propriedades.
Como seria de esperar lá fiquei a pensar no caso. Será que as outras ervas aromáticas também se intensificam à chapada? E nós? Seremos como folhas de hortelã, libertando mais a nossa essência a toque de tabefes? Sei, porque também já comprovei, que quando a vida nos dá valentes chapadões mesmo em cheio, tendemos a aprender certas lições de uma forma inesquecível. Mas e a nossa essência? É ou não à chapada que liberta o seu sabor e odores? Será que é a pancada que a vida dá que nos torna mais conscientes, sábios e despertos? Tenho a leve sensação que tudo depende da atenção com que vivemos: quanto mais estamos abertos, curiosos, atentos e meditativos quanto ao verdadeiro sentido e valor relativo de tudo, menos a vida precisa de andar à chapada connosco para nos realçar a essência.
Obrigada João, por mais uma bela lição com cheirinho a hortelã.
Ana Amorim Dias
Um amigo recente fez-me descobrir mais uns quantos truques do ofício de barman. Espero que ele não se importe, mas vou partilhar um convosco.
Explicou-me ele que, para intensificar o sabor e odores da hortelã basta colocar algumas folhas numa mão e, com a outra, dar-lhes uma valente palmada.
Experimentei cheirá-las antes e depois e, como poderão comprovar, a decidida palmada intensifica realmente as suas propriedades.
Como seria de esperar lá fiquei a pensar no caso. Será que as outras ervas aromáticas também se intensificam à chapada? E nós? Seremos como folhas de hortelã, libertando mais a nossa essência a toque de tabefes? Sei, porque também já comprovei, que quando a vida nos dá valentes chapadões mesmo em cheio, tendemos a aprender certas lições de uma forma inesquecível. Mas e a nossa essência? É ou não à chapada que liberta o seu sabor e odores? Será que é a pancada que a vida dá que nos torna mais conscientes, sábios e despertos? Tenho a leve sensação que tudo depende da atenção com que vivemos: quanto mais estamos abertos, curiosos, atentos e meditativos quanto ao verdadeiro sentido e valor relativo de tudo, menos a vida precisa de andar à chapada connosco para nos realçar a essência.
Obrigada João, por mais uma bela lição com cheirinho a hortelã.
Ana Amorim Dias
28.7.13
O que andam por aqui a fazer?
O que andam por aqui a fazer?
Andava com o pensamento às voltas. O que iria hoje escrever?
Sobre o acompanhamento onde fui buscar os meus filhos e a paciência da avó? Sobre o gato que já só quer andar à solta? Sobre o silêncio que temporariamente voltou a pairar na quinta? Sobre chakras e kundalinis ou o que irei fazer para o almoço de amanhã? Sobre o documentário em que ando a trabalhar ou os prazos de entrega de artigos que estão quase a chegar ao fim? Sobre o fabuloso mojito de morango que ontem fiz ou os casamentos que tenho que organizar?
E então o pensamento parou e tudo voltou a ordenar-se num alinhamento perfeito com o ato de apenas ser.
Não preciso de escrever sobre nada de especial. Basta-me apenas deixar fluir os dedos no teclado ao sabor do mais puro sentir. É assim que todos os dias celebro algo que desejo a todos e tão bem sei atingir: o mais puro e reconfortante encontro comigo e com o que ando por aqui a fazer.
É por isso que hoje terão que me perdoar, mas vejo-me obrigada a deixar-vos a mais complexa questão: o que andam por aqui a fazer?
Ana Amorim Dias
Andava com o pensamento às voltas. O que iria hoje escrever?
Sobre o acompanhamento onde fui buscar os meus filhos e a paciência da avó? Sobre o gato que já só quer andar à solta? Sobre o silêncio que temporariamente voltou a pairar na quinta? Sobre chakras e kundalinis ou o que irei fazer para o almoço de amanhã? Sobre o documentário em que ando a trabalhar ou os prazos de entrega de artigos que estão quase a chegar ao fim? Sobre o fabuloso mojito de morango que ontem fiz ou os casamentos que tenho que organizar?
E então o pensamento parou e tudo voltou a ordenar-se num alinhamento perfeito com o ato de apenas ser.
Não preciso de escrever sobre nada de especial. Basta-me apenas deixar fluir os dedos no teclado ao sabor do mais puro sentir. É assim que todos os dias celebro algo que desejo a todos e tão bem sei atingir: o mais puro e reconfortante encontro comigo e com o que ando por aqui a fazer.
É por isso que hoje terão que me perdoar, mas vejo-me obrigada a deixar-vos a mais complexa questão: o que andam por aqui a fazer?
Ana Amorim Dias
Chegada da guerra
Chegada da guerra
O que faz uma pessoa quando chega da guerra?
Eu descarreguei as compras.
Depois tomei um longo banho, dei de comer ao gato e limei as unhas. Senti-me tentada a adormecer um pouco, mas as palavras escondidas em mim, falaram mais alto que o sono, exigindo vir à tona.
Estendida na cama, ouvindo o vento lá fora, atribuo-lhe agora uma grande parte da culpa. Pior que um dia frio de verão é um dia frio de verão no Algarve. O povo salta dos areais e invade as estradas, as terras, as ruas. Demorei quatro horas a tratar de coisitas que, na pior das hipóteses, me costumam tomar duas. Carrinhos de choque com os corpos, com os carros de supermercado e com os carros verdadeiros. Caras carrancudas, stressadas, aborrecidas. E as buzinadelas. Pergunto-me para quê. Quem está parado na estrada não o faz por gosto: é porque não pode avançar.
Cheguei da guerra, mas só cansada. Vim ilesa de corpo e alma. Estive lá mas com o escudo imunitário de quem é só observador. É muito melhor assim. Não fiz más caras, cedi várias vezes passagem com o corpo, com o carrinho de supermercado e com o carro, enquanto via a aborrecida multidão e ouvia os "buzinadores". Posso não ter descoberto a explicação para certos comportamentos, mas comprovei que quando se olha como se se estivesse de fora, a nossa atitude tende a ser diferente e melhor.
Agora vou fechar os olhos e talvez sonhar com as caipirinhas que vou fazer daqui a pouco...tranquilamente...e sem buzinas.
Ana Amorim Dias
O que faz uma pessoa quando chega da guerra?
Eu descarreguei as compras.
Depois tomei um longo banho, dei de comer ao gato e limei as unhas. Senti-me tentada a adormecer um pouco, mas as palavras escondidas em mim, falaram mais alto que o sono, exigindo vir à tona.
Estendida na cama, ouvindo o vento lá fora, atribuo-lhe agora uma grande parte da culpa. Pior que um dia frio de verão é um dia frio de verão no Algarve. O povo salta dos areais e invade as estradas, as terras, as ruas. Demorei quatro horas a tratar de coisitas que, na pior das hipóteses, me costumam tomar duas. Carrinhos de choque com os corpos, com os carros de supermercado e com os carros verdadeiros. Caras carrancudas, stressadas, aborrecidas. E as buzinadelas. Pergunto-me para quê. Quem está parado na estrada não o faz por gosto: é porque não pode avançar.
Cheguei da guerra, mas só cansada. Vim ilesa de corpo e alma. Estive lá mas com o escudo imunitário de quem é só observador. É muito melhor assim. Não fiz más caras, cedi várias vezes passagem com o corpo, com o carrinho de supermercado e com o carro, enquanto via a aborrecida multidão e ouvia os "buzinadores". Posso não ter descoberto a explicação para certos comportamentos, mas comprovei que quando se olha como se se estivesse de fora, a nossa atitude tende a ser diferente e melhor.
Agora vou fechar os olhos e talvez sonhar com as caipirinhas que vou fazer daqui a pouco...tranquilamente...e sem buzinas.
Ana Amorim Dias
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