Pelo sol ou pela vida?
- Não te rias, Ana! A sério: sou uma pessoa marcada!-
- Pelo sol ou pela vida?
Como ela tinha acabado de regressar da praia a minha pergunta saiu por instinto mas agora, quanto mais me lembro da questão mais lhe reconheço a pertinência.
Começo a divagação constatando que uma vida que não marca é como um Verão em que faltamos à praia. De que serve uma vida que não marca? Uma vida que não bronzeia nem nos deixa com um ar mais saudável e sensual?
"Mas, Ana, muitas vezes a vida marca com dores, com tristezas e sofrimentos...", poderão vocês contrapor.
Não posso falar em nome das "queimaduras solares" que a vida trouxe aos outros mas o que fiz com os meus próprios "escaldões" confere-me legitimidade para dizer algumas coisas.
Detenho-me um momento a fazer uma compilação dos dolorosos raios com que a vida já me queimou. Podem ter sido só três ou quatro mas fariam tombar qualquer um. Então porque é que me lembro de tudo sem me recordar da dor e com um sorriso tranquilo a brotar no corpo todo? Qual foi a alquimia que transformou queimaduras neste bronzeado perfeito? Aceitar que a vida é assim, que às vezes queima a valer; aceitar o ocorrido e encher o coração de amor, perdoar, seguir em frente, seja lá para onde for. É que o que não nos liquidou só nos pode tornar mais fortes.
Temos a sensata opção de não nos expor demasiado ao sol, mas não nos expormos à vida não devia caber nos planos de ninguém. Ela queima, é verdade, mas é com cada escaldão dela que conquistamos a hipótese de andar de alma saudável, forte, feliz, sensual... e bronzeada!
(E Luís? Esta é para si, caro amigo!)
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
30.6.13
De luz e escuridão
De luz e escuridão
- Ai mãe... Está tão escuro...-
Seguíamos de carro por uma estrada isolada, o João e eu. Liguei os máximos quase instintivamente, para ver se lhe passava.
- Deixa-me explicar-te uma coisa, amor: a noite é escura, é mesmo assim, mas tudo o que vês de dia está igual durante a noite. Só que não se vê porque não há luz, percebes?-
Senti-o a relaxar um pouco ao medir a veracidade das minhas palavras. Mas não continuei a verbalizar os meus pensamentos.
Quantas pessoas vivem na escuridão mesmo em plena luz do dia? A confiança e ausência de medos tolos lança tanta luz à noite como os medos infundados escurecem os mais luminosos dias. Não é uma divagação, é um facto. Há quem se desloque na noite com olhos felinos, vendo nas sombras difusas exatamente o que lá está e não inexistentes monstros. E há quem atravesse a luz com o esmagador e negro peso dos fantasmas nascidos no seu interior.
Caminho por vezes às escuras, mas uso o passo firme e confiante da minha luz interior, a mesma que sabe que os mais perigosos demónios são os que a nossa imaginação se permite deixar entrar.
Ana Amorim Dias
- Ai mãe... Está tão escuro...-
Seguíamos de carro por uma estrada isolada, o João e eu. Liguei os máximos quase instintivamente, para ver se lhe passava.
- Deixa-me explicar-te uma coisa, amor: a noite é escura, é mesmo assim, mas tudo o que vês de dia está igual durante a noite. Só que não se vê porque não há luz, percebes?-
Senti-o a relaxar um pouco ao medir a veracidade das minhas palavras. Mas não continuei a verbalizar os meus pensamentos.
Quantas pessoas vivem na escuridão mesmo em plena luz do dia? A confiança e ausência de medos tolos lança tanta luz à noite como os medos infundados escurecem os mais luminosos dias. Não é uma divagação, é um facto. Há quem se desloque na noite com olhos felinos, vendo nas sombras difusas exatamente o que lá está e não inexistentes monstros. E há quem atravesse a luz com o esmagador e negro peso dos fantasmas nascidos no seu interior.
Caminho por vezes às escuras, mas uso o passo firme e confiante da minha luz interior, a mesma que sabe que os mais perigosos demónios são os que a nossa imaginação se permite deixar entrar.
Ana Amorim Dias
Ao som dos chocalhos
Ao som dos chocalhos
Deviam ser umas dez da noite quando comecei a ouvir os chocalhos. À meia noite o Tomás veio reclamar: de janela aberta não conseguia adormecer porque as vizinhas fugitivas faziam muito barulho e com a janela fechada tinha que ligar a ventoínha que fazia um chiar estranho.
Segui-o até ao quarto, matei os três mosquitos, fechei a janela, arranjei a ventoínha e dei-lhe o "beijo mágico", capaz de adormecer quem já bebeu dez cafés. Cinco minutos depois a criaturinha respirava profundamente, entregue ao seu sono tranquilo. E eu continuei o meu serão embalado por chocalhos.
- Pai, pai!! Compraste vacas?? Yeeeyyyy!- o João chegou ao quarto a segurar um tabuleiro com o pequeno almoço para todos, provavelmente para comemorar e agradecer a "compra" das cinco vacas cujos chocalhos continuavam a soar.
- Não João. São vizinhas fugitivas.-
- Ooohhhh.-
Provei o leite com chocolate e engasguei-me.
- Filho: deixa-te de pequenos almoços. Está outra vez horrível.-
Habituado à minha frontalidade sincera, deu-me um satisfeito "Está bem" e foi olhar para as vacas chocalhantes que continuavam a espalhar bosta pelos relvados.
Quando saímos de casa e parei para as fotografar, olharam-me com o focinho de "O que é que foi? Há algum problema??" e eu respondi que "Não, não há problema nenhum". Gosto de chocalhos, mosquitos, ventoínhas chiantes e leites mal misturados. Acho que é a conjugação disto tudo que me faz mesmo feliz.
Ana Amorim Dias
Deviam ser umas dez da noite quando comecei a ouvir os chocalhos. À meia noite o Tomás veio reclamar: de janela aberta não conseguia adormecer porque as vizinhas fugitivas faziam muito barulho e com a janela fechada tinha que ligar a ventoínha que fazia um chiar estranho.
Segui-o até ao quarto, matei os três mosquitos, fechei a janela, arranjei a ventoínha e dei-lhe o "beijo mágico", capaz de adormecer quem já bebeu dez cafés. Cinco minutos depois a criaturinha respirava profundamente, entregue ao seu sono tranquilo. E eu continuei o meu serão embalado por chocalhos.
- Pai, pai!! Compraste vacas?? Yeeeyyyy!- o João chegou ao quarto a segurar um tabuleiro com o pequeno almoço para todos, provavelmente para comemorar e agradecer a "compra" das cinco vacas cujos chocalhos continuavam a soar.
- Não João. São vizinhas fugitivas.-
- Ooohhhh.-
Provei o leite com chocolate e engasguei-me.
- Filho: deixa-te de pequenos almoços. Está outra vez horrível.-
Habituado à minha frontalidade sincera, deu-me um satisfeito "Está bem" e foi olhar para as vacas chocalhantes que continuavam a espalhar bosta pelos relvados.
Quando saímos de casa e parei para as fotografar, olharam-me com o focinho de "O que é que foi? Há algum problema??" e eu respondi que "Não, não há problema nenhum". Gosto de chocalhos, mosquitos, ventoínhas chiantes e leites mal misturados. Acho que é a conjugação disto tudo que me faz mesmo feliz.
Ana Amorim Dias
Às vezes pergunto-me a quem foi o catraio sair. É que tanta demagogia numa pessoa tão jovem até me deixa assustada. Depois de se portar mal e perante a ameaça de eu já não lhe emprestar o iPad, a criança lembrou-se de ir fazer uma composição:
"A minha mãe é tão bonita como o pôr do sol
A minha mãe também é linda e também muito sexy. Quando ela fala tem uma voz tão meiga e o cabelo é preto como um jaguar. Sobretudo a minha mãe tem uns olhos tão bonitos e brilhantes como dois diamantes."
Ter filhos pode ser muito assustador...
Ana Amorim Dias
"A minha mãe é tão bonita como o pôr do sol
A minha mãe também é linda e também muito sexy. Quando ela fala tem uma voz tão meiga e o cabelo é preto como um jaguar. Sobretudo a minha mãe tem uns olhos tão bonitos e brilhantes como dois diamantes."
Ter filhos pode ser muito assustador...
Ana Amorim Dias
O estranho mistério da clavícula torta
O estranho caso da clavícula torta
Há uns anos, não sei precisar quantos, apanhei um susto no banho. Passava eu o gel pelos ombros e, ao chegar à zona das clavículas, apercebi-me que as tinha completamente diferentes uma da outra. A esquerda estava direitinha e a direita toda amolgada, metida para dentro na parte central do osso. Habituei-me ao facto e passei a ignorá-lo quase na mesma medida em que o ignorava antes de nele ter reparado.
Mas ontem ao almoço, talvez a propósito de alguma conversa, lembrei-me da clavícula torta e percebi finalmente que a devo ter partido à nascença sem que ninguém se tenha apercebido. Comentei a minha constatação perante o olhar espantado da minha mãe, que insistiu em comprovar com as suas próprias mãos e olhos este defeito de fabrico.
Ao fim do dia, quando lhe fui dar o beijo de boa noite à cama, confessou-me ter ficado incomodada e preocupada por nunca ter dado por nada. É claro que só me arrancou gargalhadas.
Tenho as minhas conclusões formadas quanto ao estranho caso da clavícula torta. Ela é como aqueles pedacinhos da nossa alma que já se quebraram sem nos termos apercebido e que se soldaram de novo, de uma forma muito própria e deveras eficiente. Ela é um símbolo de como quebramos e recuperamos de forma quase automática. Mas para mim, cá bem no fundo, a minha sui generis clavícula direita, é mais uma manifestação dos meus super poderes que, um atrás do outro, se continuam a revelar!
Ana Amorim Dias
Há uns anos, não sei precisar quantos, apanhei um susto no banho. Passava eu o gel pelos ombros e, ao chegar à zona das clavículas, apercebi-me que as tinha completamente diferentes uma da outra. A esquerda estava direitinha e a direita toda amolgada, metida para dentro na parte central do osso. Habituei-me ao facto e passei a ignorá-lo quase na mesma medida em que o ignorava antes de nele ter reparado.
Mas ontem ao almoço, talvez a propósito de alguma conversa, lembrei-me da clavícula torta e percebi finalmente que a devo ter partido à nascença sem que ninguém se tenha apercebido. Comentei a minha constatação perante o olhar espantado da minha mãe, que insistiu em comprovar com as suas próprias mãos e olhos este defeito de fabrico.
Ao fim do dia, quando lhe fui dar o beijo de boa noite à cama, confessou-me ter ficado incomodada e preocupada por nunca ter dado por nada. É claro que só me arrancou gargalhadas.
Tenho as minhas conclusões formadas quanto ao estranho caso da clavícula torta. Ela é como aqueles pedacinhos da nossa alma que já se quebraram sem nos termos apercebido e que se soldaram de novo, de uma forma muito própria e deveras eficiente. Ela é um símbolo de como quebramos e recuperamos de forma quase automática. Mas para mim, cá bem no fundo, a minha sui generis clavícula direita, é mais uma manifestação dos meus super poderes que, um atrás do outro, se continuam a revelar!
Ana Amorim Dias
23.6.13
Obrigada
Obrigada
A ser verdade que a vida só começa aos quarenta, resta-me esperar mais um ano. Esperarei com a paciência irrequieta de quem se prepara, de todas as formas possíveis, para algo grandioso. Esperarei em movimento, em ação, em aprendizagem, encantada com o belo e a querer tornar bom o que é mau.
A ser verdade (e isto é mesmo!) que a beleza e a jovialidade interior são mais importantes que as exteriores, só posso sentir-me mais bela que nunca. Mais sábia, mais capaz, mais preparada. Estou certa que, de todas as bênçãos com que já fui brindada, uma das mais magníficas é a de ter descoberto o sentido mais profundo da minha existência. É por isso que o partilho convosco. Diariamente . Em palavras e dias escritos.
A todos os que me acompanham, lêem, entendem e inspiram (sim, são mesmo vocês a minha inspiração!) quero deixar o meu muito obrigada.
A todos um forte abraço!
Ana Amorim Dias
A ser verdade que a vida só começa aos quarenta, resta-me esperar mais um ano. Esperarei com a paciência irrequieta de quem se prepara, de todas as formas possíveis, para algo grandioso. Esperarei em movimento, em ação, em aprendizagem, encantada com o belo e a querer tornar bom o que é mau.
A ser verdade (e isto é mesmo!) que a beleza e a jovialidade interior são mais importantes que as exteriores, só posso sentir-me mais bela que nunca. Mais sábia, mais capaz, mais preparada. Estou certa que, de todas as bênçãos com que já fui brindada, uma das mais magníficas é a de ter descoberto o sentido mais profundo da minha existência. É por isso que o partilho convosco. Diariamente . Em palavras e dias escritos.
A todos os que me acompanham, lêem, entendem e inspiram (sim, são mesmo vocês a minha inspiração!) quero deixar o meu muito obrigada.
A todos um forte abraço!
Ana Amorim Dias
La escritora
La escritora
Ontem à noite estive imenso tempo na esplanada do "Piratas" a conversar com um sevilhana interessantíssima. Dona de uma cultura impressionante e permitindo-me aceder à sua contagiante paixão pela vida, proporcionou-me um serão deveras aprazível.
Mas o acontecimento digno de nota chegou mais para o fim da noite, quando o seu marido reclamou que queria ir para casa.
- Pero estarás loco?? Estoy hablando con una escritora y quieres que me vaya?!?-
Deliciei-me completamente naquele momento. Mas encantei-me ainda mais ao lembrar-me que antes também eu me emocionava ao falar com um escritor. Tornei-me naquilo que mais admiro!
Ana Amorim Dias
Ontem à noite estive imenso tempo na esplanada do "Piratas" a conversar com um sevilhana interessantíssima. Dona de uma cultura impressionante e permitindo-me aceder à sua contagiante paixão pela vida, proporcionou-me um serão deveras aprazível.
Mas o acontecimento digno de nota chegou mais para o fim da noite, quando o seu marido reclamou que queria ir para casa.
- Pero estarás loco?? Estoy hablando con una escritora y quieres que me vaya?!?-
Deliciei-me completamente naquele momento. Mas encantei-me ainda mais ao lembrar-me que antes também eu me emocionava ao falar com um escritor. Tornei-me naquilo que mais admiro!
Ana Amorim Dias
Quando for grande
Quando for grande
- O que é que queres ser quando fores grande?-
- Quero ser carismático.-
Normalmente os miúdos querem ser polícias ou bombeiros. Nem sei se o carisma é algo que se possa aprender a ser, ou uma condição já contratada pela alma ao nascer.
Procurei o significado de carisma em vários dicionários. Não transcrevo nenhum porque me parecem todos incompletos. Carisma é algo indefinível por si mesmo; é um conjunto de características indecifráveis para as quais dificilmente nos podemos treinar.
No entanto, e de forma bem paradoxal, as pessoas carismáticas identificam-se sem qualquer dificuldade: são sóis que brilham sempre, onde quer que se encontrem.
Ana Amorim Dias
- O que é que queres ser quando fores grande?-
- Quero ser carismático.-
Normalmente os miúdos querem ser polícias ou bombeiros. Nem sei se o carisma é algo que se possa aprender a ser, ou uma condição já contratada pela alma ao nascer.
Procurei o significado de carisma em vários dicionários. Não transcrevo nenhum porque me parecem todos incompletos. Carisma é algo indefinível por si mesmo; é um conjunto de características indecifráveis para as quais dificilmente nos podemos treinar.
No entanto, e de forma bem paradoxal, as pessoas carismáticas identificam-se sem qualquer dificuldade: são sóis que brilham sempre, onde quer que se encontrem.
Ana Amorim Dias
A troca
A troca
Há muitos anos que não me lembrava da sensação que os exames causam. Graças aos do Tomás voltei a ter uma ténue recordação, devido ao facto de o ter ajudado um pouco a preparar-se para o exame de português.
- Podes parar de explicar tanta coisa, mãe? Já tenho a cabeça quentinha!-
O raio do moço é tão doce que em vez de dizer, como eu, que tem o cérebro a fritar, diz que tem a cabeça quentinha!
- Mãe?-
- Diz.- respondo, entre advérbios e pronomes.
- Fixe, fixe, era no dia do exame trocarmos de cérebro!-
Interrompo-lhe a maluqueira e regresso às explicações. Mas claro, depois fico a pensar! Trocaria eu de cérebro com alguém? Se fosse a um título muito fugazmente transitório era capaz de ser giro fazê-lo com pessoas como o Stephen Hawking, por exemplo. Mas ainda bem que isto é só ficção científica porque gosto demasiado da maneira como o cérebro funciona para colocar isso em risco.
O certo é que a esta hora o meu filhote mais velho está a começar o exame de português. Não trocamos de cérebro como esta crónica bem comprova. O que trocamos sempre são afetos, conhecimentos e experiências. E o que eu lhe costumo dar é espaço para que possa usar o seu corpo e a sua mente de forma a que, no futuro, alguém lhe venha a dizer: - Pai? Fixe, fixe era trocarmos!-
Boa sorte filho. E não stresses muito, um dia hás-de escrever sem erros!
Ana Amorim Dias
Há muitos anos que não me lembrava da sensação que os exames causam. Graças aos do Tomás voltei a ter uma ténue recordação, devido ao facto de o ter ajudado um pouco a preparar-se para o exame de português.
- Podes parar de explicar tanta coisa, mãe? Já tenho a cabeça quentinha!-
O raio do moço é tão doce que em vez de dizer, como eu, que tem o cérebro a fritar, diz que tem a cabeça quentinha!
- Mãe?-
- Diz.- respondo, entre advérbios e pronomes.
- Fixe, fixe, era no dia do exame trocarmos de cérebro!-
Interrompo-lhe a maluqueira e regresso às explicações. Mas claro, depois fico a pensar! Trocaria eu de cérebro com alguém? Se fosse a um título muito fugazmente transitório era capaz de ser giro fazê-lo com pessoas como o Stephen Hawking, por exemplo. Mas ainda bem que isto é só ficção científica porque gosto demasiado da maneira como o cérebro funciona para colocar isso em risco.
O certo é que a esta hora o meu filhote mais velho está a começar o exame de português. Não trocamos de cérebro como esta crónica bem comprova. O que trocamos sempre são afetos, conhecimentos e experiências. E o que eu lhe costumo dar é espaço para que possa usar o seu corpo e a sua mente de forma a que, no futuro, alguém lhe venha a dizer: - Pai? Fixe, fixe era trocarmos!-
Boa sorte filho. E não stresses muito, um dia hás-de escrever sem erros!
Ana Amorim Dias
Salvo-conduto
Salvo-conduto
A sensação de vir de outro continente e aterrar numa qualquer cidade europeia costumava fazer-me sentir segura e em casa. Era uma coisa automática, quase celular.
A sensação de viver, há quase trinta e nove anos, em paz e sem medo não tem preço. Respirar a liberdade democrática é algo que sempre tomei por garantido, algo que respeito com uma reverência tão agradecida que nem sei como expressar.
A sensação de viver numa Europa económica e socialmente cada vez mais desarranjada, começa a fazer-me temer por coisas que nunca antes receei.
Viver em mais um país de políticos maioritariamente gulosos em que a educação, a saúde, a segurança social, os valores e a estrutura económica em geral estão a colapsar diante dos nossos olhos, faz nascer em mim considerações que até agora preferi afastar. O caos às vezes traz ordem. Mas a que tipo de ordem é que nos estamos a habilitar?
Creio que todas as atrocidades ocorridas no século passado na Europa, se mantêm bem presentes nas mentes de cada adulto informado. Os acontecimentos dos últimos dias, na euro-asiática Turquia, fazem-me temer o pior. O início do fim da liberdade de expressão é o fim do que devia ser o início da evolução do Homem na sua dimensão social.
Estaremos a caminhar de novo para o fim da democracia? Nunca antes me tinha permitido esta dúvida. Agora começa a fazer sentido duvidar.
Resta-me um apelo, singelo e sentido. É nas mãos das autoridades, policiais e militarizadas, que se encerra o derradeiro poder de evitar a morte das liberdades mais básicas. Apelo a que pensemos um pouco nisto e a que comecemos uma carinhosa campanha, perante todos os agentes de autoridade que conhecemos: há que fazê-los pensar antes de obedecer cegamente. Talvez desta forma estejamos a garantir o salvo-conduto que nos permitirá, no futuro, continuar a poder dizer e manifestar os valores em que acreditamos.
Ana Amorim Dias
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A sensação de vir de outro continente e aterrar numa qualquer cidade europeia costumava fazer-me sentir segura e em casa. Era uma coisa automática, quase celular.
A sensação de viver, há quase trinta e nove anos, em paz e sem medo não tem preço. Respirar a liberdade democrática é algo que sempre tomei por garantido, algo que respeito com uma reverência tão agradecida que nem sei como expressar.
A sensação de viver numa Europa económica e socialmente cada vez mais desarranjada, começa a fazer-me temer por coisas que nunca antes receei.
Viver em mais um país de políticos maioritariamente gulosos em que a educação, a saúde, a segurança social, os valores e a estrutura económica em geral estão a colapsar diante dos nossos olhos, faz nascer em mim considerações que até agora preferi afastar. O caos às vezes traz ordem. Mas a que tipo de ordem é que nos estamos a habilitar?
Creio que todas as atrocidades ocorridas no século passado na Europa, se mantêm bem presentes nas mentes de cada adulto informado. Os acontecimentos dos últimos dias, na euro-asiática Turquia, fazem-me temer o pior. O início do fim da liberdade de expressão é o fim do que devia ser o início da evolução do Homem na sua dimensão social.
Estaremos a caminhar de novo para o fim da democracia? Nunca antes me tinha permitido esta dúvida. Agora começa a fazer sentido duvidar.
Resta-me um apelo, singelo e sentido. É nas mãos das autoridades, policiais e militarizadas, que se encerra o derradeiro poder de evitar a morte das liberdades mais básicas. Apelo a que pensemos um pouco nisto e a que comecemos uma carinhosa campanha, perante todos os agentes de autoridade que conhecemos: há que fazê-los pensar antes de obedecer cegamente. Talvez desta forma estejamos a garantir o salvo-conduto que nos permitirá, no futuro, continuar a poder dizer e manifestar os valores em que acreditamos.
Ana Amorim Dias
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O heróico ato de ensinar
O heróico ato de ensinar
Ensinar é a apoteose do heroísmo. Não consigo recordar-me de missão mais nobre do que transmitir conhecimentos, a não ser, talvez, a de salvar vidas. Se bem que ensinar é também isso: resgatar vidas à ignorância que torna os seres frágeis e indefesos.
Qualquer civilização sã e próspera tem que se alicerçar em pessoas com conhecimentos e uma capacidade de pensar suficientemente consolidados para executarem condignamente o seu papel não só na vida profissional como na sua participação social.
Recuso-me a acreditar (ingenuamente talvez) que o poderio que nos tem governado tenha interesse num povo embrutecido por um ensino decadente, antiquado e desajustado à realidade galopantemente mutável destes tempos que vivemos.
Recuso-me a acreditar que não se abram, em breve, os olhos de quem manda, e que os professores tenham que continuar a perder tempo e energia a preencher quilos de papel e a tentar provar que estão aptos para ensinar, em vez de se poderem dedicar ao que já pouco têm hipótese de fazer.
Andei na escola entre 1980 e 1997. Não foi assim há tanto tempo. Nem digo que fosse perfeito. Levei duas reguadas, aprendi alguma coisa e nunca os meus pais questionaram a autoridade e razão dessas pessoas fantásticas cujos nomes, vozes e caras continuo a recordar. Nessa altura havia testes e classificações. Quem sabia passava, quem não sabia chumbava. E depois ia-se de férias sem mais exames-palhaçada.
As aptidões dos professores mudaram? Não me parece. Mudou a sua motivação e energia. Mudou a sua atitude heróica, vencida pelo desrespeito vindo de todos os lados; espancada por currículos desajustados; esmagada pelos quilos de papeis a preencher e provas a dar às pessoas erradas! Os mestres existem para os discípulos. A escola serve para os alunos aprenderem e isso implica deixar os professores ensinar! Parece-me bastante simples.
Se concordo com esta greve? Isso não é importante. Há razões e desrazões de parte a parte. Só é pena que se tenha que chegar ao ponto de tentar solucionar a educação de um país com braços de ferro que prejudicam, mais que tudo, aqueles que era suposto serem os beneficiários da educação.
O certo é que cada vez mais me apercebo que o ensino é, para quem nele manda, um jogo que se joga à sorte, com o despudor de quem não quer ver a sua importância. É isto que me leva a crer que se não começar eu a tomar seriamente nas minhas mãos a formação dos meus filhos, poucas hipóteses terão de obter sólidas bases. É triste. De todas as formas possíveis.
Ana Amorim Dias
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Ensinar é a apoteose do heroísmo. Não consigo recordar-me de missão mais nobre do que transmitir conhecimentos, a não ser, talvez, a de salvar vidas. Se bem que ensinar é também isso: resgatar vidas à ignorância que torna os seres frágeis e indefesos.
Qualquer civilização sã e próspera tem que se alicerçar em pessoas com conhecimentos e uma capacidade de pensar suficientemente consolidados para executarem condignamente o seu papel não só na vida profissional como na sua participação social.
Recuso-me a acreditar (ingenuamente talvez) que o poderio que nos tem governado tenha interesse num povo embrutecido por um ensino decadente, antiquado e desajustado à realidade galopantemente mutável destes tempos que vivemos.
Recuso-me a acreditar que não se abram, em breve, os olhos de quem manda, e que os professores tenham que continuar a perder tempo e energia a preencher quilos de papel e a tentar provar que estão aptos para ensinar, em vez de se poderem dedicar ao que já pouco têm hipótese de fazer.
Andei na escola entre 1980 e 1997. Não foi assim há tanto tempo. Nem digo que fosse perfeito. Levei duas reguadas, aprendi alguma coisa e nunca os meus pais questionaram a autoridade e razão dessas pessoas fantásticas cujos nomes, vozes e caras continuo a recordar. Nessa altura havia testes e classificações. Quem sabia passava, quem não sabia chumbava. E depois ia-se de férias sem mais exames-palhaçada.
As aptidões dos professores mudaram? Não me parece. Mudou a sua motivação e energia. Mudou a sua atitude heróica, vencida pelo desrespeito vindo de todos os lados; espancada por currículos desajustados; esmagada pelos quilos de papeis a preencher e provas a dar às pessoas erradas! Os mestres existem para os discípulos. A escola serve para os alunos aprenderem e isso implica deixar os professores ensinar! Parece-me bastante simples.
Se concordo com esta greve? Isso não é importante. Há razões e desrazões de parte a parte. Só é pena que se tenha que chegar ao ponto de tentar solucionar a educação de um país com braços de ferro que prejudicam, mais que tudo, aqueles que era suposto serem os beneficiários da educação.
O certo é que cada vez mais me apercebo que o ensino é, para quem nele manda, um jogo que se joga à sorte, com o despudor de quem não quer ver a sua importância. É isto que me leva a crer que se não começar eu a tomar seriamente nas minhas mãos a formação dos meus filhos, poucas hipóteses terão de obter sólidas bases. É triste. De todas as formas possíveis.
Ana Amorim Dias
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Novas riquezas
Novas riquezas
Vinha no carro a dar voltas ao pensamento. Não tinha tema para hoje. Pelo menos nada que me estivesse a entusiasmar o suficiente para poder escrever apaixonadamente.
Por isso a cara que o João fez veio mesmo a calhar. Entrou no recinto onde se concentram, antes de irem para as respetivas atividades, todos os miúdos que frequentam as férias ativas. Olhou à volta com uma expressão desencantada e deixou-se ficar ali no meio, com a mochila nas costas e, aposto, algum desalento no coração.
Baixei-me um pouco e falei-lhe ao ouvido para me fazer escutar no meio da gritaria.
- Não ter amigos por perto é uma grande prenda, sabes? É assim que se fazem amigos novos!-
E pronto, vim-me embora. A carinha um pouco triste não me comoveu nem um pouco: tem quinze dias para fazer nascer amizades e, mesmo que não tivesse aquela personalidade expansiva que cativa toda a gente, estaria perante uma oportunidade excelente de começar a treinar.
Ana Amorim Dias
Vinha no carro a dar voltas ao pensamento. Não tinha tema para hoje. Pelo menos nada que me estivesse a entusiasmar o suficiente para poder escrever apaixonadamente.
Por isso a cara que o João fez veio mesmo a calhar. Entrou no recinto onde se concentram, antes de irem para as respetivas atividades, todos os miúdos que frequentam as férias ativas. Olhou à volta com uma expressão desencantada e deixou-se ficar ali no meio, com a mochila nas costas e, aposto, algum desalento no coração.
Baixei-me um pouco e falei-lhe ao ouvido para me fazer escutar no meio da gritaria.
- Não ter amigos por perto é uma grande prenda, sabes? É assim que se fazem amigos novos!-
E pronto, vim-me embora. A carinha um pouco triste não me comoveu nem um pouco: tem quinze dias para fazer nascer amizades e, mesmo que não tivesse aquela personalidade expansiva que cativa toda a gente, estaria perante uma oportunidade excelente de começar a treinar.
Ana Amorim Dias
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