Perdida num mar de pedras
Fui para a horta mais por dever moral que por vontade ou vocação. Acontece que, se vou comer favas, ervilhas, batatas, cenouras e afins, é mais do que justo colaborar um pouco com o mentor do projeto.
Uma vez que pouco ou nada entendo de plantações, dediquei-me à menos sábia das atividades: a apanha da pedra. Luvas nas mãos, botas de montanha nos pés e claro (como não?) o iPhone no bolso de trás, soando a todo o vapor.
"Ah, Ana, que bom! Agora é que vais relaxar a mente e não pensar em nada!", vaticinei a mim mesma. Mas qual quê! Quanto mais eu as apanhava mais elas pareciam nascer das profundezas da terra, fazendo com que a filosofia da pedra se apoderasse de mim!
"Deve-se olhar para o que se faz no momento e não para imensidão do que falta", foi uma das primeiras pérolas que, de tão pirosa, me provocou logo o riso.
"Então, se as pedras do nosso caminho devem ser usadas para construir um castelo, que raios fazemos às pedras da nossa horta?" E quanto mais os brilhantes espasmos cerebrais se contorciam cá dentro, mais eu me ria e pensava que ter a cabeça baixa me causa efeitos estranhíssimos.
A verdade é que desta vez não me ocorreu nenhuma metáfora, alegoria, ou simples reflexão. Percebi apenas que o que é feito na nossa própria alegre companhia, se pode muito bem tornar num momento memorável, mesmo quando nos julgamos perdidos... num imenso mar de pedras.
Ana Amorim Dias
(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...
Ana Amorim Dias
22.1.13
Respostas
Respostas
Eu estava no limbo suspenso do sono, no ponto preciso do meio caminho entre a consciência e o seu apagão, quando os olhos brilhantes do ator no ecrã pareceram olhar-me.
- "O que nos leva a estar aqui, se já sabemos o desfecho? Porque temos que estar aprisionados ao destino? O que nos move? Que temos para dar um ao outro? Porque perdemos tempo? Porque não ganhamos?
Por não o enfrentamos? Porque só penso em ti?
Onde está a minha liberdade? Onde é que eu estou....
Porque não me quero encontrar? O que sou?" -
A sua musa olhou-o e começou a dar-lhe respostas que já não sei recordar porque a inconsciência me levou de volta para a adormecida paz. O amanhecer, contudo, trouxe-me o caso à memória, trazendo também a vontade de vos alertar para as respostas.
Nunca se sabe o desfecho. Nunca. E o que nos move é a vertigem de vida que nos sentimentos se encerra. Todos temos algo para dar uns aos outros: um sorriso, um "obrigada", um exemplo, uma lição de vida ou, nalguns casos mais extremos, a nossa própria vida. O que jamais devemos esquecer é que é nos outros que nos descobrimos, que nos conhecemos, que nos encontramos com o mais cristalino reflexo da nossa verdadeira essência. E nunca é uma perda de tempo: é o abraço libertador que nos revela o que somos e em que ponto evolutivo já nos encontramos.
Ana Amorim Dias
Eu estava no limbo suspenso do sono, no ponto preciso do meio caminho entre a consciência e o seu apagão, quando os olhos brilhantes do ator no ecrã pareceram olhar-me.
- "O que nos leva a estar aqui, se já sabemos o desfecho? Porque temos que estar aprisionados ao destino? O que nos move? Que temos para dar um ao outro? Porque perdemos tempo? Porque não ganhamos?
Por não o enfrentamos? Porque só penso em ti?
Onde está a minha liberdade? Onde é que eu estou....
Porque não me quero encontrar? O que sou?" -
A sua musa olhou-o e começou a dar-lhe respostas que já não sei recordar porque a inconsciência me levou de volta para a adormecida paz. O amanhecer, contudo, trouxe-me o caso à memória, trazendo também a vontade de vos alertar para as respostas.
Nunca se sabe o desfecho. Nunca. E o que nos move é a vertigem de vida que nos sentimentos se encerra. Todos temos algo para dar uns aos outros: um sorriso, um "obrigada", um exemplo, uma lição de vida ou, nalguns casos mais extremos, a nossa própria vida. O que jamais devemos esquecer é que é nos outros que nos descobrimos, que nos conhecemos, que nos encontramos com o mais cristalino reflexo da nossa verdadeira essência. E nunca é uma perda de tempo: é o abraço libertador que nos revela o que somos e em que ponto evolutivo já nos encontramos.
Ana Amorim Dias
20.1.13
Primeiro amor
Primeiro amor
Ontem não vim deixar nada no ar porque passei o dia atarefada com os preparativos para uma importante festa.
O primeiro amor da minha vida cumpriu mais um aniversário.
Tanto quanto sei, no próprio dia em que nasci, estabeleceu-se entre nós uma ligação abençoada e inquebrável. Ou talvez até tenha sido antes, não sei. Não sei nem me importa, porque tudo o que precisamos de saber é aquilo que sentimos uma pela outra: um amor tão genuíno e uma gratidão tão profunda que chegam a produzir surpreendentes milagres.
Que cumpras muitos e cada vez mais felizes e luminosos tempos, irmã da minha alma.
Ana Amorim Dias
Ontem não vim deixar nada no ar porque passei o dia atarefada com os preparativos para uma importante festa.
O primeiro amor da minha vida cumpriu mais um aniversário.
Tanto quanto sei, no próprio dia em que nasci, estabeleceu-se entre nós uma ligação abençoada e inquebrável. Ou talvez até tenha sido antes, não sei. Não sei nem me importa, porque tudo o que precisamos de saber é aquilo que sentimos uma pela outra: um amor tão genuíno e uma gratidão tão profunda que chegam a produzir surpreendentes milagres.
Que cumpras muitos e cada vez mais felizes e luminosos tempos, irmã da minha alma.
Ana Amorim Dias
18.1.13
Uma agulha no palheiro
Uma agulha no palheiro
Muitas das metáforas da minha vida acontecem com músicas ou de forma musicada. A que vos vou agora narrar terá certamente muitos pontos em comum com episódios já ocorridos convosco.
Havia uma música, indiana e muito bela, que me fazia sentir uma alegria enorme. Estava num cd que eu ouvia no carro e que desapareceu sem deixar rasto. Eu desconhecia o nome da canção, do álbum e do cantor. Quanto à melodia, apenas dela me restava a memória saudosa do bem que me fazia sentir.
Acreditem ou não passaram-se anos sem que eu ouvisse a tal música... e sem que a esquecesse também.
Até que, na semana passada, num mergulho destemido à minha memória externa, enquanto procurava não me afogar naquele infinito mar de "palha" musical, a dita canção me saltou para as mãos sem que eu a procurasse, qual agulha preciosa rendida ao meu magnetismo. Os arrepios percorreram-me corpo e alma ao ouvir os primeiros acordes. Continuo sem entender uma única palavra, mas também continuo a render-me a um sorriso feliz de cada vez que a oiço.
No fundo sempre soube que aquela música voltaria à minha vida. Como sempre as mais preciosas agulhas saltam da palha para as nossas mãos... quando paramos de procurar e deixamos o nosso magnetismo trabalhar.
Ana Amorim Dias
Muitas das metáforas da minha vida acontecem com músicas ou de forma musicada. A que vos vou agora narrar terá certamente muitos pontos em comum com episódios já ocorridos convosco.
Havia uma música, indiana e muito bela, que me fazia sentir uma alegria enorme. Estava num cd que eu ouvia no carro e que desapareceu sem deixar rasto. Eu desconhecia o nome da canção, do álbum e do cantor. Quanto à melodia, apenas dela me restava a memória saudosa do bem que me fazia sentir.
Acreditem ou não passaram-se anos sem que eu ouvisse a tal música... e sem que a esquecesse também.
Até que, na semana passada, num mergulho destemido à minha memória externa, enquanto procurava não me afogar naquele infinito mar de "palha" musical, a dita canção me saltou para as mãos sem que eu a procurasse, qual agulha preciosa rendida ao meu magnetismo. Os arrepios percorreram-me corpo e alma ao ouvir os primeiros acordes. Continuo sem entender uma única palavra, mas também continuo a render-me a um sorriso feliz de cada vez que a oiço.
No fundo sempre soube que aquela música voltaria à minha vida. Como sempre as mais preciosas agulhas saltam da palha para as nossas mãos... quando paramos de procurar e deixamos o nosso magnetismo trabalhar.
Ana Amorim Dias
Bondade
Bondade
Ando às voltas com a questão dos super poderes. Gosto de acreditar que os tenho. Tanto que o meu novo livro é sobre eles, embora não tenha percebido ainda muito bem de que forma. Tudo o que sei é que a raça humana tem super poderes fantásticos que não se lembra de usar. Tudo o que sei é que ando a ver se ativo mais os meus e os "relembro" nos outros.
É por isso que tenho andado em pesquisa de campo, a perguntar a todos os que se atravessam no meu caminho, quais são os super poderes mais importantes. A cara de espanto da senhora do café ou do caixa do super mercado desconcentra-me sempre e acabo por não absorver as respostas.
Mas ontem, no escurinho do cinema, fez-se luz na minha alma. No fundo já o sabia, mas vi com uma clarividência maior: o supremo super poder é simplesmente a bondade. Aquela que tudo entende, tudo perdoa e tudo cura; em quem a sente, em quem a exerce e nos outros, nos que são por ela tocados.
De qualquer forma não termino sem vos pedir também a vossa valiosa opinião.
Ana Amorim Dias
Ando às voltas com a questão dos super poderes. Gosto de acreditar que os tenho. Tanto que o meu novo livro é sobre eles, embora não tenha percebido ainda muito bem de que forma. Tudo o que sei é que a raça humana tem super poderes fantásticos que não se lembra de usar. Tudo o que sei é que ando a ver se ativo mais os meus e os "relembro" nos outros.
É por isso que tenho andado em pesquisa de campo, a perguntar a todos os que se atravessam no meu caminho, quais são os super poderes mais importantes. A cara de espanto da senhora do café ou do caixa do super mercado desconcentra-me sempre e acabo por não absorver as respostas.
Mas ontem, no escurinho do cinema, fez-se luz na minha alma. No fundo já o sabia, mas vi com uma clarividência maior: o supremo super poder é simplesmente a bondade. Aquela que tudo entende, tudo perdoa e tudo cura; em quem a sente, em quem a exerce e nos outros, nos que são por ela tocados.
De qualquer forma não termino sem vos pedir também a vossa valiosa opinião.
Ana Amorim Dias
Criativo
Criativo
Há dias ralhei com o Joãozinho devido à porcaria que as suas invenções artísticas estavam a originar.
- Não ralhes, mãe. Sou criativo.-
"Para sete anos sabes muito!", pensei, ao recuar nas acusações.
Aquilo a que achei mais graça nem sequer foi ao seu jeito sedutor de se safar às limpezas, foi ao orgulho com que disse o "sou criativo". E isso levou-me de volta aos agradecimentos frequentes que me dão pela minha própria criatividade e a uma resposta que recentemente dei a um desses agradecimentos.
- Quem deve agradecer a quem? O admirador de uma obra ao seu criador ou o próprio criador a quem lhe admira as obras?-
O certo é que nos últimos dias tenho admirado as obras fotográficas do criador desta fotografia, Ricardo Teixeira (Immagine) e, agradecendo-lhe as obras que me me inspiram a novos escritos, lhe propus escrever sobre algumas. E ele, bem... ele agradeceu-me.
Ora ontem à tarde, e para consolidar melhor em mim todo este tema, perguntei ao meu filho o que é ser criativo.
- Oh mãe, criativos são as pessoas que fazem coisas novas... Coisas novas para dar ao Mundo, percebes?-
Percebo João! É por isso que agradeço ao Ricardo que tirou esta fotografia que me faz sonhar; e agradeço a quem lê e aprecia o que de novo tenho para dar ao Mundo; e te agradeço a ti... por seres tão criativo!
Ana Amorim Dias
Há dias ralhei com o Joãozinho devido à porcaria que as suas invenções artísticas estavam a originar.
- Não ralhes, mãe. Sou criativo.-
"Para sete anos sabes muito!", pensei, ao recuar nas acusações.
Aquilo a que achei mais graça nem sequer foi ao seu jeito sedutor de se safar às limpezas, foi ao orgulho com que disse o "sou criativo". E isso levou-me de volta aos agradecimentos frequentes que me dão pela minha própria criatividade e a uma resposta que recentemente dei a um desses agradecimentos.
- Quem deve agradecer a quem? O admirador de uma obra ao seu criador ou o próprio criador a quem lhe admira as obras?-
O certo é que nos últimos dias tenho admirado as obras fotográficas do criador desta fotografia, Ricardo Teixeira (Immagine) e, agradecendo-lhe as obras que me me inspiram a novos escritos, lhe propus escrever sobre algumas. E ele, bem... ele agradeceu-me.
Ora ontem à tarde, e para consolidar melhor em mim todo este tema, perguntei ao meu filho o que é ser criativo.
- Oh mãe, criativos são as pessoas que fazem coisas novas... Coisas novas para dar ao Mundo, percebes?-
Percebo João! É por isso que agradeço ao Ricardo que tirou esta fotografia que me faz sonhar; e agradeço a quem lê e aprecia o que de novo tenho para dar ao Mundo; e te agradeço a ti... por seres tão criativo!
Ana Amorim Dias
15.1.13
O pão que um anjo amassou
O pão que um anjo amassou
Adoro expandir os meus conhecimentos...nem que seja com farinha. E dou particular valor à sabedoria experimentada porque, mesmo que não a volte a usar, enriquece-me as vivências, e claro, os escritos.
Mas deixem-me começar pelo princípio.
Já tenho amassado pão de saltos altos. Também já o fiz toda encasacada ou só de biquini e pareo. O que importa mesmo é a vontade e amor com que se amassa. E fazê-lo dá-me prazer. Pela sensação de pôr as mãos na massa e por sentir uma responsabilidade guerreira de alimentadora e zeladora que não sei explicar muito bem. Mas no outro dia foi diferente. Vi-me a braços com o próprio forno a lenha pela primeiríssima vez. Deixaram-me os paus a arder e foi tudo.
Aflita, liguei à minha sogra para me vir acudir. Não podia...mas explicou-me ao telefone o que tinha que fazer: - Quando já não houver fogo nenhum, pegas no rodo, tiras as brasas quase todas e deixas só um montinho à porta do forno para não deixar fugir o calor. Depois lavas o chão do forno duas ou três vezes com um trapo preso à ponta de um pau e de seguida metes o pão, que isso já tu sabes fazer.-
Anotei tudo mentalmente. Não me parecia difícil. Dois segundos depois a minha sogra ligou de novo.
- Ana?-
- Sim?-
- Tens que vez se o forno não está demasiado quente antes de pôr o pão!-
- E como faço eu isso?-
- Atiras um punhado de farinha lá para dentro. Se a farinha queimar instantaneamente tens que lavar o forno um pouco mais, caso contrário pode queimar logo tudo.
Respirei fundo. "Tu consegues, Ana!" E, claro, consegui. Mas confesso que o momento alto foi o do teste da farinha, que atirei com poderes de anjo a fazer os seus milagres. Talvez seja por isso que, no fim da odisseia, elevei um pão aos céus a pensar: "Aqui está ele: o pão que um anjo amassou..."
Ana Amorim Dias
Adoro expandir os meus conhecimentos...nem que seja com farinha. E dou particular valor à sabedoria experimentada porque, mesmo que não a volte a usar, enriquece-me as vivências, e claro, os escritos.
Mas deixem-me começar pelo princípio.
Já tenho amassado pão de saltos altos. Também já o fiz toda encasacada ou só de biquini e pareo. O que importa mesmo é a vontade e amor com que se amassa. E fazê-lo dá-me prazer. Pela sensação de pôr as mãos na massa e por sentir uma responsabilidade guerreira de alimentadora e zeladora que não sei explicar muito bem. Mas no outro dia foi diferente. Vi-me a braços com o próprio forno a lenha pela primeiríssima vez. Deixaram-me os paus a arder e foi tudo.
Aflita, liguei à minha sogra para me vir acudir. Não podia...mas explicou-me ao telefone o que tinha que fazer: - Quando já não houver fogo nenhum, pegas no rodo, tiras as brasas quase todas e deixas só um montinho à porta do forno para não deixar fugir o calor. Depois lavas o chão do forno duas ou três vezes com um trapo preso à ponta de um pau e de seguida metes o pão, que isso já tu sabes fazer.-
Anotei tudo mentalmente. Não me parecia difícil. Dois segundos depois a minha sogra ligou de novo.
- Ana?-
- Sim?-
- Tens que vez se o forno não está demasiado quente antes de pôr o pão!-
- E como faço eu isso?-
- Atiras um punhado de farinha lá para dentro. Se a farinha queimar instantaneamente tens que lavar o forno um pouco mais, caso contrário pode queimar logo tudo.
Respirei fundo. "Tu consegues, Ana!" E, claro, consegui. Mas confesso que o momento alto foi o do teste da farinha, que atirei com poderes de anjo a fazer os seus milagres. Talvez seja por isso que, no fim da odisseia, elevei um pão aos céus a pensar: "Aqui está ele: o pão que um anjo amassou..."
Ana Amorim Dias
100%
100%
Eu estava a pintar os olhos e, vinda do nada, ouvi de novo a conversa de ontem à noite.
- Estás a pensar vir cá esta semana?-
- Em princípio, sim, claro. Só não sei em que dia.-
Avancei para o rímel e, enquanto dava volume às pestanas, tive uma revelação: num só segundo revisitei inúmeros dos meus encontros semanais com ela, e percebi que volto sempre da sua companhia com uma alegria inexplicável agarrada ao meu humor. É como se fosse magia. Magia e muito amor.
- Faço cem quilómetros para ver a minha mãe -, penso ao passar o batom - mas, de alguma forma, parece que vou mesmo aqui ao lado.-
Visto o casaco e saio de casa com os meus ensonados filhos. Enquanto entro para o carro, olho-os e pergunto-me: "será que já percebem que eu também sou 100% amor e 100% magia?"
Ana Amorim Dias
Eu estava a pintar os olhos e, vinda do nada, ouvi de novo a conversa de ontem à noite.
- Estás a pensar vir cá esta semana?-
- Em princípio, sim, claro. Só não sei em que dia.-
Avancei para o rímel e, enquanto dava volume às pestanas, tive uma revelação: num só segundo revisitei inúmeros dos meus encontros semanais com ela, e percebi que volto sempre da sua companhia com uma alegria inexplicável agarrada ao meu humor. É como se fosse magia. Magia e muito amor.
- Faço cem quilómetros para ver a minha mãe -, penso ao passar o batom - mas, de alguma forma, parece que vou mesmo aqui ao lado.-
Visto o casaco e saio de casa com os meus ensonados filhos. Enquanto entro para o carro, olho-os e pergunto-me: "será que já percebem que eu também sou 100% amor e 100% magia?"
Ana Amorim Dias
13.1.13
Os homens precisam de proteção
Os homens precisam de proteção
Se houvesse um medidor de sensibilidades quem é que ficaria no topo da lista? Se se fizessem estudos gerais, cientificamente comprovados, seriam os homens ou as mulheres a ser considerados os mais sensíveis?
Sobre essas eventuais conclusões apenas me posso permitir divagar, já que desconheço a existência de tais estudos. No entanto a análise empírica que os anos e a atenção ao comportamento humano me têm revelado é que os homens são tão sensíveis como as mulheres, senão mais.
Os homens também se emocionam, entristecem, desesperam e caem por dentro. Os homens também têm inseguranças, conflitos interiores, dores escondidas, traumas, medos. Os homens também sentem falta do "amo-te", do "não te preocupes", do "eu protejo-te" e, sobretudo, do "chora, não faz mal chorar".
Esperamos que os nossos maridos, namorados, pais, filhos, irmãos e amigos sejam fortes. Esperamos que estejam sempre bem, sorridentes, protetores. Esperamos não ter que lidar com as suas sensibilidades, fraquezas e lágrimas, porque esses atributos era suposto serem direitos só nossos.
Os homens são privados pela natureza do super poder de parir, e são castrados pela sociedade do seu direito à sensibilidade e suas manifestações. Eles têm o azar de não poder chorar, ter ataques histéricos e esconder-se depois atrás de tensões pré menstruais. Quanto à privação que a natureza lhes trouxe, nada há a fazer. Mas o direito à sensibilidade tem que ser por eles resgatado, de preferência com o nosso incentivo e, claro, sob a nossa proteção.
Ana Amorim Dias
Se houvesse um medidor de sensibilidades quem é que ficaria no topo da lista? Se se fizessem estudos gerais, cientificamente comprovados, seriam os homens ou as mulheres a ser considerados os mais sensíveis?
Sobre essas eventuais conclusões apenas me posso permitir divagar, já que desconheço a existência de tais estudos. No entanto a análise empírica que os anos e a atenção ao comportamento humano me têm revelado é que os homens são tão sensíveis como as mulheres, senão mais.
Os homens também se emocionam, entristecem, desesperam e caem por dentro. Os homens também têm inseguranças, conflitos interiores, dores escondidas, traumas, medos. Os homens também sentem falta do "amo-te", do "não te preocupes", do "eu protejo-te" e, sobretudo, do "chora, não faz mal chorar".
Esperamos que os nossos maridos, namorados, pais, filhos, irmãos e amigos sejam fortes. Esperamos que estejam sempre bem, sorridentes, protetores. Esperamos não ter que lidar com as suas sensibilidades, fraquezas e lágrimas, porque esses atributos era suposto serem direitos só nossos.
Os homens são privados pela natureza do super poder de parir, e são castrados pela sociedade do seu direito à sensibilidade e suas manifestações. Eles têm o azar de não poder chorar, ter ataques histéricos e esconder-se depois atrás de tensões pré menstruais. Quanto à privação que a natureza lhes trouxe, nada há a fazer. Mas o direito à sensibilidade tem que ser por eles resgatado, de preferência com o nosso incentivo e, claro, sob a nossa proteção.
Ana Amorim Dias
Equilíbrio
Equilíbrio
Once upon a time, há muitos, muitos anos...
Tinha eu acabado de tirar a carta e tive que levar o carro sozinha numa curta viagem. Na noite anterior custou-me a adormecer. Imaginei uma e outra vez os pontos do percurso em que teria de parar em subidas. Tentei prever como faria algo que ainda não dominava: o ponto de embraiagem.
O ponto perfeito de um corpo está no exato meio caminho: nem gordo nem magro.
A elegância situa-se no ponto preciso que concilia a sensualidade com o recato.
E os homens querem-se extremamente sensíveis... na sua masculinidade, enquanto as mulheres devem ser divinas, mas sem a postura de divas.
As pessoas mais atraentes sabem estar a meio caminho entre a sensatez e a loucura; entre a inteligência e a inocência.
As pessoas mais sábias conseguem ter uma maturidade infantil, uma seriedade humorada e uma divindade animal.
Queremos partilhar a vida com quem seja generoso, mas não ganancioso; com quem nos ame apaixonadamente mas sem nos querer possuir; com quem seja atento mas não controlador; seguro mas não detentor de excessos de confiança.
Somos mais felizes ao ser sensíveis sem ser piegas; humildes, mas grandiosos; atentos mas distraídos e fortes nas nossas fraquezas.
Domino o ponto de embraiagem há quase duas décadas, como o domina bem quem muito guia e gosta de o fazer. É ao conduzir-me pela vida que vejo que as coisas não são assim tão simples. O equilíbrio é uma conquista constante, diária, sofrida, feita no esforço de aprender a manter-me no ponto certo entre dois extremos.
Sim, acredito mesmo que equilibrado é quem domina o ponto de embraiagem da vida!
Ana Amorim Dias
Once upon a time, há muitos, muitos anos...
Tinha eu acabado de tirar a carta e tive que levar o carro sozinha numa curta viagem. Na noite anterior custou-me a adormecer. Imaginei uma e outra vez os pontos do percurso em que teria de parar em subidas. Tentei prever como faria algo que ainda não dominava: o ponto de embraiagem.
O ponto perfeito de um corpo está no exato meio caminho: nem gordo nem magro.
A elegância situa-se no ponto preciso que concilia a sensualidade com o recato.
E os homens querem-se extremamente sensíveis... na sua masculinidade, enquanto as mulheres devem ser divinas, mas sem a postura de divas.
As pessoas mais atraentes sabem estar a meio caminho entre a sensatez e a loucura; entre a inteligência e a inocência.
As pessoas mais sábias conseguem ter uma maturidade infantil, uma seriedade humorada e uma divindade animal.
Queremos partilhar a vida com quem seja generoso, mas não ganancioso; com quem nos ame apaixonadamente mas sem nos querer possuir; com quem seja atento mas não controlador; seguro mas não detentor de excessos de confiança.
Somos mais felizes ao ser sensíveis sem ser piegas; humildes, mas grandiosos; atentos mas distraídos e fortes nas nossas fraquezas.
Domino o ponto de embraiagem há quase duas décadas, como o domina bem quem muito guia e gosta de o fazer. É ao conduzir-me pela vida que vejo que as coisas não são assim tão simples. O equilíbrio é uma conquista constante, diária, sofrida, feita no esforço de aprender a manter-me no ponto certo entre dois extremos.
Sim, acredito mesmo que equilibrado é quem domina o ponto de embraiagem da vida!
Ana Amorim Dias
11.1.13
Lucidez
Lucidez
- Mãe, tens ali lugar.-
- Aquele é para deficientes, João.-
Silêncio.
- Mãe?-
- Huum.-
- Os deficientes podem parar nos lugares todos?-
- Sim meu amor, desde que não sejam lugares proibidos.-
- Mãe?-
- Huummmmm!?-
- ... Eu sou deficiente?-
- Não, João! Tu tens todas as capacidades corporais e mentais.-
Acabei por estacionar e acompanhá-lo com os olhos no seu caminhar para a escola, mas o estupor do puto deixou-me a pensar, aliás como sempre faz.
Será que o défice de capacidades físicas ou mentais é que determina quem é ou não é deficiente? Ou será o défice de ternura, lucidez, e capacidade de amar, entender e perdoar? Não tenho a mais pequena dúvida: deficiente é apenas quem tem défices na mais básica estrutura interior que o ser humano deve ter: um grande coração.
Obrigada, João, por essa tua vozinha traquina e lúcida que é, tão amiúde, a voz da minha própria lucidez.
Ana Amorim Dias
- Mãe, tens ali lugar.-
- Aquele é para deficientes, João.-
Silêncio.
- Mãe?-
- Huum.-
- Os deficientes podem parar nos lugares todos?-
- Sim meu amor, desde que não sejam lugares proibidos.-
- Mãe?-
- Huummmmm!?-
- ... Eu sou deficiente?-
- Não, João! Tu tens todas as capacidades corporais e mentais.-
Acabei por estacionar e acompanhá-lo com os olhos no seu caminhar para a escola, mas o estupor do puto deixou-me a pensar, aliás como sempre faz.
Será que o défice de capacidades físicas ou mentais é que determina quem é ou não é deficiente? Ou será o défice de ternura, lucidez, e capacidade de amar, entender e perdoar? Não tenho a mais pequena dúvida: deficiente é apenas quem tem défices na mais básica estrutura interior que o ser humano deve ter: um grande coração.
Obrigada, João, por essa tua vozinha traquina e lúcida que é, tão amiúde, a voz da minha própria lucidez.
Ana Amorim Dias
10.1.13
Fascínio
Fascínio
Vi-o aqui, virtual, no meio de tantas outras caras. Não olhei apenas. Tentei ver. Ver para lá das barbas e das rugas. Ver para lá da pele pintada de sol e dos olhos de dureza cristalina. Tentei ver o que apenas posso imaginar: quem será; o seu percurso; as suas estórias; as pequenas e grandes escolhas que fizeram deste o seu olhar. E deixei-o logo entrar, altaneiro, no romance que agora escrevo. Não posso saber o que lhe deu este olhar, mas posso muito bem imaginar.
O Homem fascina-me completamente. Não este, todos. O ser humano em geral, transformado em indivíduo, é a mais fascinante maravilha que existe. Creio que é por isso que me apaixono por toda a gente, excepto talvez pelas poucas pessoas que conseguem a difícil tarefa de ser totalmente desprovidas de interesse.
E, ao concretizar estes pensamentos, percebo melhor a minha sorte. Percebo que esta afortunada paixão é o que me faz conseguir ver em vez de apenas olhar; percebo que esta compulsão pelos outros é o que me constrói e dá a capacidade de entender, não julgar e amar quem conheço e não conheço. É por isso que escrevo, mais que tudo, sobre pessoas, sobre vida. Porque o meu maior fascínio é, sem a mais pequena dúvida, o Homem.
Ana Amorim Dias
Vi-o aqui, virtual, no meio de tantas outras caras. Não olhei apenas. Tentei ver. Ver para lá das barbas e das rugas. Ver para lá da pele pintada de sol e dos olhos de dureza cristalina. Tentei ver o que apenas posso imaginar: quem será; o seu percurso; as suas estórias; as pequenas e grandes escolhas que fizeram deste o seu olhar. E deixei-o logo entrar, altaneiro, no romance que agora escrevo. Não posso saber o que lhe deu este olhar, mas posso muito bem imaginar.
O Homem fascina-me completamente. Não este, todos. O ser humano em geral, transformado em indivíduo, é a mais fascinante maravilha que existe. Creio que é por isso que me apaixono por toda a gente, excepto talvez pelas poucas pessoas que conseguem a difícil tarefa de ser totalmente desprovidas de interesse.
E, ao concretizar estes pensamentos, percebo melhor a minha sorte. Percebo que esta afortunada paixão é o que me faz conseguir ver em vez de apenas olhar; percebo que esta compulsão pelos outros é o que me constrói e dá a capacidade de entender, não julgar e amar quem conheço e não conheço. É por isso que escrevo, mais que tudo, sobre pessoas, sobre vida. Porque o meu maior fascínio é, sem a mais pequena dúvida, o Homem.
Ana Amorim Dias
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