(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

5.9.12

A melhor viagem



       Às vezes perguntam-me  qual foi a melhor viagem da minha vida. Para conseguir responder teria que colocar de volta uma grande quantidade de questões:  Sozinha ou acompanhada? De natureza ou citadina? De aventura ou de descanso? Desportiva ou cultural?  
   A verdade é crua e simples:  não recordo nenhuma como sendo a preferida.  Todas até agora tiveram o seu valor e o seu tempo. Todas se revestiram de um encanto muito próprio feito de paisagens, monumentos, cheiros e sabores. Enriqueci,  em cada diferente destino, com  estórias brilhantes, memórias fabulosas e muitos novos amigos. Cresci  com o que os locais me deram e com o que lá descobri sobre mim.
   Quando se pergunta a alguém qual foi a sua melhor viagem talvez não se saiba que todas têm os seus obstáculos, perigos e desconfortos,  que há que saber tourear com humor.  Penso nisto agora, enquanto planeio a próxima viagem, porque percebo que a melhor viagem de todas acaba por ser sempre a que se vai fazer a seguir.
   Ana Amorim Dias

4.9.12

A receita




     Não há receita infalível para educar os filhos.  Não é justo: não há manual de intruções!  É que nem sequer um folhetozinho informativo com algumas dicas básicas.  Quando nos tornamos pais não fazemos mesmo a mínima ideia que a verdadeira aventura das nossas vidas acabou de começar.
    O que é afinal, educar uma criança para a vida?  Como se prepara um/a  menino/a para ser um/a adulto/a   feliz, decidido/a, inteligente e honrado/a?    Os pais  podem ter uma educação esmerada, uma cultura sólida e uma polidez invejável ; podem  ter um caráter nobre e uma força de vontade imaculada e,  ainda assim,  não estar preparados para o constante desafio que é acompanhar  estas pessoas pequeninas até se tornarem grandes indivíduos autónomos.  
   Não me faz confusão nenhuma que se eduquem  dois  (ou mais)   filhos da mesma exata maneira e eles tomem  rumos muito diferentes, mas não consigo conceber que haja pais que, perante os vários filhos,  tenham vários pesos e diferentes medidas.
   Sou mãe há dez anos e quase três meses e duplamente mãe há sete anos e tal. O que é que aprendi nestes surpreendentes anos?  Que não devo esperar que sejam iguais a mim e que não devo tentar moldá-los contra a sua essência .   Aprendi que  cada dia pode ser uma sucessão de canseiras, patifarias e raspanetes ou  pode ser simplesmente divino e repleto de ensinamentos.    Mas a mais importante aprendizagem foi perceber que  a soma das atitudes educativas    de  um progenitor  não tem que ser   férreamente imutável.   O ato de educar, desde os primeiros dias até bem depois do abandono do ninho, é um arame preso entre duas montanhas, que se vai percorrendo, pé ante pé, sem qualquer rede por baixo.   Temos que tatear o arame, sentir os humores do vento, ter uma fé enorme neles e  confiar no instinto.
   Educar é saber ralhar e conseguir aplaudir. Mas por vezes também é afagar quando era para se ralhar e ralhar quando era suposto aplaudir, se acaso tiverem capacidades para mais.  Educar é aprender a  deixar o outro ser ; é vergar um pouco a crista aos frangos sem nunca lhes tentar domar  a raça de puros sangues selvagens.   Educar é mostrar a diferença entre bem e mal; verdade e mentira; dinheiro e valor; prazer e suor.   É ensinar a acalmar os defeitos e a realçar as virtudes. Educar é confiar e transmitir confiança.
   Mas, por mais voltas que  dê à questão, continuo a dizer que a receita de  educar talvez seja, simplesmente,  acompanhá-los  a  aprender a ser quem são.
Ana Amorim Dias

3.9.12

O colar genético


    Sou fascinada por colares únicos feitos pelas mãos hábeis dos próprios artesãos que os vendem em feiras, mercados ou simples bancas na rua despontadas.  Encanta-me conhecer quem faz o que trago ao peito,  para estar bem segura da riqueza das peças, porque cada objeto que requer arte na sua feitura fica impregnado da energia de quem o cria; fica com um valor que transcende a matéria e a beleza.  
  É por isso que grande parte dos meus colares tem uma estória, mas vou-vos contar apenas a mais recente.
   No domingo, último dia dos Medievais de Castro Marim, tive finalmente  tempo para, pela primeira  vez este ano,  vaguear pelas ruelas em busca de algum tesouro. Detive-me em algumas bancas de ornamentos, mas em outras, as do produto industrializado, nem sequer parei. A certa altura os olhos prenderam-se a um colar prateado com uma pedra azul, pendurado numa minuscula bancada que era também o atelier do artista moreno que me atendeu em tronco nu. Falamos um pouco. Era de Madrid, o rapaz. Tem amigos em todo o mundo, que foi fazendo no seu jeito acertadamente errante de levar a vida.
 - Esta pedra deve ser usada junto à garganta…  - Disse-me – Melhora a voz e a eloquência, sabe?  
  Eu ri-me. Claro. Tinha que ser.  
Não trazia dinheiro suficiente no bolso das calças e disse-lhe que voltava em pouco tempo. Sorriu-me em concordância: também ele sabia que aquele colar era meu.
  Mas a parte mais gira desta pequena estória não é, de todo, aquilo que já contei e sim  o que ainda aí vem.
   Quando fui buscar o colar, levei o meu filho mais velho comigo. O madrileno das rastas olhou para o Tomás e  disse:  - Este rapaz já cá veio ontem, e perguntou-me o preço do seu colar. –
- Pois foi, mãe. É o mais bonito de todos e tive a certeza que era o que escolherias.  
Abracei o meu filho enquanto o moreno artesão me talhava o colar à medida do pescoço.
“ De todas as bancas de colares ele acertou na correta e de todos os colares que aqui há, soube escolher o meu…” pensei, embevecida.  
  Será que o sentido estético se pega em dez anos e dois meses de vida? Será que ele é apenas um menino atento aos gostos da mãe? Ou será algo mais? Creio que é algo mais… e  que o meu gosto mais íntimo lhe foi transmitido nos genes.
Ana Amorim Dias

31.8.12

O néctar escarlate


 
    No fim obrigam-nos a comer uma sandes e a beber um sumo de fruta. Já me tentei escapar ao fatídico lanche, desculpando-me com o lauto almoço há pouco tempo ingerido, mas convencem-me sempre que há que retemperar o organismo.
   Antes disso, a poltrona. Forrada, reclinada. Para dar algum conforto a quem tema a grossa agulha por onde nos sai a oferta.
  Dar sangue é mais que dar vida. Que o diga o orgulho que tenho no meu cartão de dadora. O incómodo da leve dor, e  a aflição de  olhar para saco ondulante onde o nosso escarlate néctar vai ficando acumulado,  é de longe  superado pela sensação de altruísmo humanitário que ficamos a sentir.  À mesma velocidade que os perfeitos mililitros  nos vão saíndo do corpo,  vai-nos  entrando a certeza do valor daquele ato.
   Não sei para quem vai o meu sangue. Creio que nunca ninguém sabe. Mas fico ali a imaginar se salvará a vida a alguém ou se apenas ajudará às mais rápidas melhoras. Fico a sorrir perante o privilégio que representa ter um sangue suficientemente bom que possa correr nas veias de outros corpos. Mas a mais selvagem divagação começa no momento em que imagino a maravilha  que seria se, pela mera transfusão, os pensamentos bons e a alegria de viver se  pudessem também  transmitir.
   E então caio em mim. Dar sangue não me enobrece. É algo tão banal como é dar um sorriso. E quanto aos pensamentos bons e alegria de viver, não é pelas veias que os posso partilhar…
Ana Amorim Dias

30.8.12

Nas águas de Formentera


   Cheguei a Formentera de iate. Num momento estava na cozinha, a comer melancia e, no seguinte,  a boca escancarou-se perante a visão daquele azul transparente.  Não me importei com a distância que ainda me separava de terra. Mergulhei. Nada me poderia travar.
  As Baleares, em  particular Formentera, deixam-me sempre a pensar porque é que se perde tanto tempo no ar para chegar às Caraíbas. Nunca encontrei, sob o calor caribenho,  o tropical garbo europeu que por ali se respira. A graça de Sant Francesc, as maravilhosas feiras de rua, o misticismo do ocaso na Mola ou o ambiente hippie chic do Big Sur, são apenas alguns dos componentes mágicos da atmosfera desta ilhota vizinha de Ibiza.  Ninguém o pode negar, Formentera, não percebi ainda porquê,  tem uma aura  mística deveras acentuada. É um daqueles locais em que, mesmo à chegada,  parece que se atravessa um portal que nos dá direta entrada a outra dimensão, a uma realidade paralela.
   Mas Formentera marcou-me em mais do que  uma maneira. Certa tarde, do lado nascente da ilha,  enquanto me divertia naquela sopa turquesa, o tentáculo de uma medusa acariciou-me levemente.   Pelo menos foi o que me disseram os senhores do bar que me forneceram o amoníaco para colocar no ombro, ao ver o tamanho e a intensidade da marca.  Já tinha tido dois filhos, ambos de parto normal e às secas, mas aquela foi, até hoje, a dor da minha vida. A sacana da alforreca fez com que me  lembrasse daquela suave carícia por mais de um ano, o tempo que durou a desaparecer a sensual meia lua que me ficou gravada na pele.
   O curioso é que acabei por ter pena. Achei que a dor que senti me tinha feito merecer ficar com aquela marca para sempre. Durante os meses que a tive em mim afeiçoei-me a ela e habituei-me a olhá-la com o orgulho de quem ostenta uma ferida de guerra.  Acabei  por comparar aquele mar às cobras e às mulheres que, segundo as más linguas, quanto mais belas mais perigosas são.
  Tudo o que fiquei a saber é que o sabor mágico de Formentera não se esquece jamais. Vem-nos agarrado ao lombo da memória e reacende-se, de tempos a tempos,  com alguma maresia mais forte ou ao som do  Café del Mar.    No fundo as experiências boas  são como as vivências  más: umas dão prazer, outras dão dor mas,  a maior parte das vezes, as marcas  ficam  só do nosso lado de dentro,   a fazer parte  de  nós.
 Ana Amorim Dias

29.8.12

Uma fotocópia na mala



   Numa das publicações em que  escrevo, o Jornal do Baixo Guadiana, saiu na edição de Agosto o artigo “Uma carta aos Professores”.   Nele coloquei, como em todos os outros, a minha forte convicção e entoação emocionada.
   Ora sucedeu que, há poucos dias, fui interpelada na rua por uma senhora que me olhou e perguntou se eu era eu. Respondi-lhe que sim, que sou a Ana Amorim Dias e a senhora, com a voz embargada, iniciou um chorrilho de elogios que quase me constrangeram.
- Quer ver? Quer ver?  - E nisto abriu a mala e tirou de lá uma fotocópia da folha do jornal em que o artigo saíra.
  Continuou com a sua interminável dissertação sobre o quanto aquele artigo fora importante para ela, mas vou ser-vos bem sincera,  eu já não ouvia nada. Só pensava alegremente: “uma fotocópia na mala… ela tem uma fotocópia na mala!”
Ana Amorim Dias
 

28.8.12

Amores de perdição



   
 E se tentássemos classificar o amor?  Em quantas diferentes categorias, espécies e sub-espécies poderia ele ser estratificado?
    Podia ser classificado pelo destinatário amado  ou pelo emissor do sentimento, havendo amor de  mãe, pai, avô, irmão, filho, amigo, marido, mulher, cão,  gato e por aí fora.
   Podia ser classificado quanto ao grau, se acaso existisse um amorómetro  e uma escala tipo “quilamor” ou “metrolove”: 
 - Quanto é que me amas?-
  - Amo-te novecentos e três “quilamores”. -   
 - Bolas! Não sabia que estavas tão apaixonado por mim! -
  O amor também se poderia classificar como são, doentio ou mesmo patológico, subdividindo-se depois cada um destes ramos em inúmeras outras catalogações.
  Mas  o amor entre um homem e uma mulher só tem duas categorias: o amor prático e o de perdição.
   O primeiro é o amor dos casais; o amor da concretização real que dá origem a novas famílias; é o amor do caminho percorrido a dois ao longo da vida. O amor prático é o que sustenta a estrutura da humanidade; é o amor companheiro e ternurento que enfrenta as pedras da vida; é o amor sereno que, com o passar dos anos,  transforma a paixão em laços de sangue que não é do mesmo sangue. O amor prático tem dias melhores e meses piores; tem paciência, compaixão, perdão e dedicação. O amor prático tem chão, paredes e teto e consuma-se no mar de águas calmas que é o leito conjugal.  O amor prático sustenta o corpo e serena a alma; protege o outro e reclama proteção; e às vezes acaba, mas outras vezes não. Este amor é de um valor inestimável mas, ainda assim,  não supera aquele que é o topo da pirâmide amorosa. 
   O pináculo do amor  é o amor de perdição, o único que embarga a voz, arrepia a pele inteira,  traz todo o frio à barriga e um grande nó à garganta. É este o amor que faz história e que dá sentido às estórias. É este que alimenta a arte, eleva o Homem e faz sonhar os mortais.
    Sim, o amor de perdição é o mais completo,  acabado  e sublime estado do amor; é o supra-sumo da emoção humana; o rebentamento da escala,  a apoteose  do sentir.  O amor de perdição é sublime, inexplicável, aéreo e etéreo. Neste amor morre-se e renasce-se das cinzas a cada dia, a cada minuto.  Este amor é arrebatado, violento, demente e, contudo, absurdamente ardente e perfeito.
   Mas há um preço a pagar por todos os que  ousam atingir o auge dessa mortal vertigem. Ninguém me tira da ideia que os Deuses lançaram, nos primórdios dos tempos,  uma maldição sobre os arrogantes humanos que ousaram alcançar o divino através deste estado  amoroso. É por isso que os amores de perdição são sempre impossíveis, dramáticos, letais. A dor dilacerante da perda, da saudade e da morte é deles  parte integrante.   Que o digam Pedro e Inês, Romeu e Julieta,  Tristão e Isolda, Sansão e Dalila e tantos, tantos outros.
  O amor de perdição é sempre impossível pois caso assim não fosse cairia no amor prático, real, humano.
   E o amor de perdição não é, definitivamente, para todos. Na elite que o experimenta apenas cabem pessoas sensacionais, capazes de se rasgar numa dor que se abraça e aceita com despudorado estoicismo.  Os insanos seres que nesse estado habitam, sabem que jamais terão paz. Sabem que a todo o momento o  esgar agonizante da morte se abaterá sobre si, na saudade que sentem e na surda raiva da ausência. Mas sabem também que do outro lado, qualquer que ele seja, o seu amor está lá, a sentir o mesmo: a morrer e a nascer em cada instante distante desse amor amaldiçoado.
Ana Amorim Dias

27.8.12

No fundo do Paraíso




   Há memórias que, por mais anos que passem, permanecem tão frescas como pão quente. Podemos não as ter ativas todos os dias mas,  quando as trazemos de volta, conseguimos recuperar todo o sabor dessas vivências.
  E foi  ao ser “espicaçada” por alguém que me desafiou a escrever sobre o fundo do mar que recuperei, com incrível precisão, os ficheiros mentais de uma ida ao Paraíso.
  Nada é mais errado do que assumir que  o Inferno é para baixo e o Paraíso para cima pois  quando,  há nove anos,  mergulhei junto às  Islas del Rosario, ao largo de Cartagena das Índias, tenho a certeza absoluta que  desci ao Paraíso.
   A lancha que me  transportou deslizava entre  pequenas ilhotas rodeadas de um mar de turqueza transparente. Enquanto absorvia com toda a força dos sentidos, o vento e o sol na cara,  lembro-me que já exultava  em excitada expetativa,  embora nenhuma descrição me pudesse ter preparado para o que viria a seguir.
   Mergulhei na água tépida e compreendi a solenidade do momento. Reverenciei cada segundo daquelas duas horas inesquecíveis, da mesma forma que me rendi ao cenário mais sereno, perfeito e belo em que os meus olhos já pousaram.  A prolixidade de espécies de corais de diferentes formas e cores fez-me querer harmonizar o meu próprio movimento com o seu balanço bailante;  os pequenos peixes de um azul marinho absurdamente elétrico quase me levaram a  acreditar que estavam ligados à eletricidade; e os pequenos  Nemos revelaram-se tão simpáticos e sociáveis como as criações de Walt Disney.  Vi pequenas moreias a espreitar dos seus redutos; cardumes de peixes em multiracial aceitação, a bolinar na corrente; seres vivos tão coloridos e deslumbrantes que a garganta, volta e meia, se me embargada em comoção.
   Quando acabar de escrever esta crónica vou à bomba do meu combustível: vou “tropeçar no mar” e cair lá para dentro, como sempre faço quando o tempo não é pródigo e  as forças não me faltam.   Em cada mergulho coloco a emoção e a atitude reverencial que sempre tive com os mares. Mas por mais que sempre o faça, nunca mais voltei a repetir a intensidade daquela descida ao fundo do  Paraíso, há tantos anos na Colômbia.
   Resta-me, antes de ir ao meu mergulho, agradecer ao Luis Quinta, que me inspirou a memória de um dos mais solenes acontecimentos da minha vida.
Ana Amorim Dias
  

26.8.12

Next Level



    - Agora vou fazer amor com a minha alma. – Disse eu,  ainda agora,   por ter  finalmente meia hora de paz para escrever, depois de tanto tempo  sem o ter podido fazer.   Este aforismo surpreendeu-me logo à nascença e é tão verdadeiro que duvido muito que nunca antes tenha sido usado.
  Nos últimos dias abracei projetos profissionais ambiciosos. Em quantidade elevada e todos em simultâneo. Desejei ter a divina capacidade da omnipresença, mas sou apenas humana. Desejei que todos os que trabalham comigo fossem tão empenhados e competentes como eu tento ser, mas também eles são apenas humanos. E têm os seus ritmos. E as suas motivações.
   Nos últimos dias passei ao nível seguinte. Subi um degrau grande na escala de dificuldade dos meus vários trabalhos. Três frentes de “guerra” em que tudo teve que estar preparado até aos ínfimos detalhes para que o grau de desempenho se aproximasse o mais possível da perfeição. Três equipas em locais diferentes e a supervisão constante para que nada falhasse. E correu bem. Muito bem.
   Hoje o “fogo” já só arde em duas frentes e se há coisa que a conquista do “Next Level” nos traz é a sensação de facilidade e fluidez nos níveis mais básicos. Hoje, um dia que poderia ser arrasador para muitas pessoas, vai ser para mim um “passeio no parque”;  “a piece of cake” como dizem no cinema.
   Não fomos  abençoados com o dom da omnipresença. Nunca seremos. Mas para se passar ao “next level” com motivação, energia e capacidade de concretização, basta que saibamos como fazer amor com a nossa alma.   É aí que nos viramos do avesso. E é então que o nosso mundinho pessoal se começa a transformar.
Ana Amorim Dias









  

21.8.12

2012


Andam a vaticinar o fim do Mundo para este ano. Várias teorias, com diversos fundamentos, apontam desde há séculos para o “apoteótico” final dos tempos durante os próximos meses.
    Não quero conhecer as teorias a fundo ( nem à superfície, na verdade) porque casos existem em que a ignorância me sabe melhor que pão quente com manteiga. Só me pergunto uma coisa: será que os criadores e defensores destas previsões não tiveram em conta o facto de a Humanidade ter ganho o maior jackpot galáctico?
   Todos fomos, desde sempre, uns sortudos do caraças por, neste cantinho do Universo, se terem reunido  condições tão fabulosas quanto especificamente favoráveis ao nosso surgimento, mas é claro que há riscos inerentes: entre megassismos geradores de inimagináveis tsunamis; gigantescos asteróides a colidir com a terra; possibilidades reais dos polos se deslocarem ou quaisquer outras ocorrências drásticas, a verdade é que o cenário (mais ou menos) perfeito que possibilitou o aparecimento do Homem pode a qualquer momento mudar.
   O que não convém mesmo nada é pensar nisto a toda a hora nem ceder a este tipo de medos,  sob pena de enlouquecermos quer como indivíduos quer como Ser Global. No entanto este horrível  extremo bem poderia ter pelo menos o valor de nos fazer perceber a indizível sorte de  nos ter sido dada a possibilidade de existir enquanto Humanidade. Talvez assim já fossemos capazes de fazer com que cada momento valesse apenas por si mesmo.
Ana Amorim Dias

20.8.12

A salvo




   “ As palavras salvam-me sempre da tristeza.”  Quem o disse foi Truman Capote, o  escritor norte americano que viveu   no século passado.  Entre alguns dos seus sucessos contam-se os romances  “A sangue frio” e “Boneca de luxo”,  ( o tal Breakfast at Tifany’s  a que a Audrey Hepburn deu vida).
   Quando li esta sua frase, identifiquei-me de imediato com ela. Fiquei a mastigá-la e a saboreá-la mas, depois de a engolir, percebi que continuava com fome por, a meu ver, ser demasiado redutora.   
    Creio que cada escritor é salvo pelas palavras de diferente forma e se alguns são resgatados à tristeza, outros talvez  sejam salvos de coisas como a loucura, o vazio ou o conformismo.
    É óbvio que fiquei a pensar. De que me salvam a mim as palavras? Da monotonia? Da fealdade do Mundo? Salvar-me-ão do tédio, da tristeza, das dores d’alma ou das questões do dia a dia? Percebi muito depressa que as palavras não são a minha salvação. As palavras são os meus olhos e ouvidos; as minhas pernas e braços. Elas são os meus pulmões, o meu coração e a minha alma. As palavras que escrevo são o Eu daquele instante; a golfada de ar que me permite viver; a força do batimento que me bombeia o sangue e mantém com a energia em alta. Não sei como pode viver quem não habita em palavras. Como “existe” quem não escreve?  Quem se “é” sem o bailado encantado das ideias  com o verbo?  Sinto que estas são questões a que jamais saberei responder.
   Hoje, como todos os dias, foi por isso que aqui passei: não pela esperança de redenção nem para ser arrancada à tristeza. Vim escrever só porque sim. Vim escrever por ser só nas palavras que  existo… completamente a salvo.  
Ana Amorim Dias

19.8.12

“Culo de mal asiento”



    Uma das grandes vantagens da idade é  a de aprendermos (eventualmente) como funcionamos.  Quanto mais dias  vamos somando à nossa estória, mais crescemos  em auto-conhecimento.   E se isto,  por um lado,  dá imenso jeito, por outro também nos deixa logo com os sentidos todos alerta, sobretudo quando reconhecemos os nossos  sinais de perigo.
   Quando,  há muitos anos,  umas amigas espanholas me chamaram “culo de mal asiento”, o cognome pelo qual mais me reconheço ficou, por mim mesma, adotado para sempre.  Não sei estar muito tempo no mesmo local. Por mais belo que seja e por melhor que seja a companhia, quando a vontade de ir embora chega nada é mais desconcertante que ser obrigado a ficar. Tive que aprender a viver com isso:  a vontade de levantar ferro nasce-me muitas vezes  assim que a âncora cai.  Quando já vi, vivi e aprendi o que tinha que ver, viver e sentir, é porque é hora de seguir caminho.  Talvez o espírito demasiado irrequieto me impulsione a viver nesta constante vontade de partir; neste perpétuo conflito  entre a tranquila paz do “ficar” e a  sofrida conquista do “ir”.    As razões não importam, sou um “culo de mal asiento” e é essa a minha  maldição mais bendita.
    Há dias soube que está na hora de planear mais uma viagem a sós. Uma viagem que sei que tenho que fazer, mas que acreditava não precisar de realizar já. Uma daquelas jornadas de auto-descoberta e reencontro com o passado da qual nascerá mais um livro.  Desta vez não se trata de uma cidade europeia nem de uma capital cosmopolita da América do sul, destinos já demasiado banais para o meu crescente gosto pela aventura e  sede de me superar com conquistas mais arrojadas.  Mais do que a vontade de ir, desceu sobre mim a entranhada certeza da necessidade de não ceder às pressões de ficar.
   Mas como pode uma mulher, com marido e filhos, partir assim sozinha para um destino longíncuo e perigoso, sem mais bagagem do que a forte convicção de ter que ir?  Prender-se-á a capacidade de não virar costas a desafios da própria alma, com a certeza de saber que tenho coisas para sentir, por forma a poder depois escrevê-las? Serei uma subversiva guerrilheira pela conquista feminina do seu reencontro consigo?  A verdade é que não sei. Mas acredito que nós, os “culos de mal asiento”,  temos tido sempre a capacidade de enfrentar tudo e todos para conseguir proporcionar o alargamento de todo o tipo de horizontes.
Ana Amorim Dias