(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

4.1.12

“É bom que não dancem!”


   O deck do Ipod faz soar uma música latina apetecível. Começo, lenta, a abanar-me, até que deixo o corpo tomar o controlo da situação e rendo-me a passos mais apaixonados e expansivos. Há instintos, reflexos denotadores de bem estar e felicidade, que são quase irreprimíveis e, por isso mesmo, não devem  ser refreados,  sob pena de perdermos momentos únicos da vida.
   É certo que estou na minha sala e que não tenho por hábito abanar-me tão volumptuosamente em público, embora confesse que, por vezes, me deixo levar por suaves movimentos na fila do supermercado ou enquanto espero os meus filhos à porta da escola. Sou uma criminosa!
  - Aqui não se dança, pois não? -  Perguntou-me, certo dia,  um agente da autoridade que fiscalizava o bar de família.
- Aqui no “Piratas” não costumam dançar, não…” – Respondi.
- Pois! É bom que não dancem! – Frisou bem as palavras pois o “Piratas” não tem licença para que as pessoas respirem a vida com dança.
   Lembrei-me deste episódio devido caso do proprietário de um restaurante que chegou mesmo a ser preso por ter tido clientes suficientemente felizes e descomplexados a ponto de se exprimirem  com uns passitos de dança. A meu ver o senhor devia ser premiado por lograr causar tal efeito nos clientes que, provavelmente fartos da austeridade da época, se conseguiram,  ali,  render à despreocupação de um bom momento.
  E não consigo evitar um pensamento: e se, pelo contrário, conseguíssemos obrigar todos os seres cinzentos a dançar? E se todos os legisladores ignorantes, burocratas arrogantes e engravatados pedantes, que operam em todas as estruturas rígidas e austeras, perdessem o seu pelouro a menos que, de hora a hora, fossem obrigados a dançar por dez minutos como se não houvesse amanhã?
   Parece-vos uma ideia estúpida? A mim parece-me suficientemente sábia para encerrar a solução de uma infinidade de problemas!
Ana Dias
   

3.1.12

A LISTA


   Ainda no rescaldo do início do ano que permanece em branco, como alva página na qual podemos escrever o que quisermos, quero confessar que não resisti à tentação de fazer A LISTA!  Pela primeira vez em muitos anos, sentei-me com papel e caneta e escrevi,  pelo meu próprio punho, um a um, os projetos e decisões que quero cumprir durante os próximos doze meses. Entre os vários devaneios apaixonados que me encheram duas pequenas páginas, encontram-se aspirações tão reais como passar ainda mais tempo feliz, escrever mais dois livros e um musical, viajar, amar mais, acarinhar mais, viver em abundância interior,  inspirar-me e inspirar os outros.
   Tenho a consciência absoluta de que muitas das coisas a que me propus serão cumpridas, da mesma forma que estou alerta para os perigos de distração e para alguns “truques” imprescindíveis para a concretização dA LISTA. Depois de sabermos o que queremos ( muitas vezes é este o passo mais difícil…) há alguns aspetos fundamentais  a ter em conta para levar a bom porto os nossos sonhos:
- Perseverança
- Apreciar o processo
- Verbalizar constantemente os nossos planos como se fossem já uma realidade
- Traçar metas concretas e datas que devemos respeitar
- Comprometer-nos connosco mesmos a dar tudo por tudo para não nos defraudarmos
- Saborear e celebrar cada pequena conquista que nos aproxima mais dos nossos intentos…
   E como quem me lê já sabe que sou um elemento  agitador dos vossos interiores, já devem estar à espera do desafio! Vá lá… Vão lá buscar caneta e papel!!
Ana Dias

2.1.12

Com sono, mas acordada!


     O pano cai  de madrugada  sobre o alegre palco, marcando o final de mais um reencontro de amigos. Sou a última ainda em cena. Olho à volta. O espaço, há poucas horas repleto de vozes felizes, música e luz, está agora silencioso e parcamente iluminado por algumas velas e luzes da árvore de Natal. Lanço um olhar aos despojos da festa e recordo como, um após outro, os convivas se foram retirando, deixando-me a sós com a anfitriã ,  minha “mana” para a eternidade e,  por fim, a sós comigo mesma.
  Cedo ao cansaço e vou finalmente dormir.
E hoje no carro, enquanto o corpo guiava tranquilo e a alma se instalava na terceira nuvem à esquerda ( o seu habitat natural ) dou por mim a pensar nas razões que me levam a ser sempre a última resistente;  a eterna apaixonada pela  intimidade emocional  das conversas que invadem as silenciosas horas noturnas.
Recordo, então,  palavras há poucas horas trocadas.
- Não quero fotografias minhas,  destes convívios, no face, meninas! – Aviso às viciadas em disparar sessenta flashes por minuto. – Tenho um perfil profissional a manter! –
- Querida… os escritores são, por definição, eternos boémios! – Responde-me uma delas.
  Lembro-me disto no carro, com o corpo a conduzir e a alma refastelada na terceira nuvem à esquerda…  - Porque serei tão boémia? O que tenho contra o tempo passado a dormir? Será este um requisito incontornável para ser o que sou, escritora?  - Percebo depressa que sempre fui assim. Sempre serei. A viver bem acordada, mesmo a morrer de sono! Simplesmente porque a vida é demasiado preciosa para me poder dar ao luxo de me deixar vencer pelo cansaço.
Ana Dias


  

30.12.11

Very Happy!


Quando era miúda tinha a mania de fazer a lista de decisões de ano novo. Devo ter criado tal hábito depois de ler o “Adrian Mole aos 13 anos e ¾”.    Num caderninho bonito, apontava as dez decisões que me acompanhariam os atos ao longo do ano. Já não me lembro bem mas, na altura, deviam ser coisas como melhorar as notas, lavar sempre os dentes e namorar com o miúdo mais giro da escola.  Com os anos perdi tal costume. No entanto, de cada vez que oiço de novo a contagem decrescente acompanhada de passas e champanhe, não consigo evitar  pensar sobre as coisas que deveria mudar. 
   Quer queiramos quer não, e por mais que se desvalorizem as datas, a entrada de cada novo ciclo de 365 dias e seis horas traz consigo uma oportunidade de virar tudo ao contrário. A passagem de cada ano velho para um outro, novo e cheio de promessas, a par com o nosso aniversário, são as melhores ocasiões para se tomarem decisões verdadeiramente radicais. Daquelas capazes de mudar o curso das nossas vidas para melhor.
  Mas desta vez, tantos anos depois de ter feito a última lista, páro um pouco para pensar e pergunto-me por que razão não diminuímos o ciclo? Por que razão não encaramos cada novo dia como uma folha em branco na qual podemos escolher que estórias ficam escritas? Mesmo que a decisão, ao acordar, seja a mesma dia após dia. Se for a correta não temos como falhar!  E há uma, em particular, que é válida e poderosa, mesmo que repetida incessantemente: “Hoje vou ser feliz. Muito feliz!”
  É verdade que há muitas outras, como “ Hoje vou ser melhor”; “ Hoje vou amar mais”; “Hoje vou-me surpreender”; “ Hoje vou superar-me” ou “ Hoje vou sorrir a toda a gente”. Mas, se pensarmos um pouco, a decisão de hoje ser feliz,  engloba tudo o resto!
 E é então que percebo o porquê de já não fazer a lista que sempre  fazia quando Janeiro chegava.  A idade ensinou-me que as grandes decisões de vida se tomam a cada novo dia. Agora já sei que, como dizia o poeta, “el camino se hace caminando” e que o valor e eficácia de cada decisão está diretamente relacionado com a sua constante renovação.
  É por isso que termino com os sinceros votos de que aprendam a acordar todos os dias com a firme convicção de serem very, very happy!
Ana  Dias

29.12.11

Trabalhar sem trabalhar



 - O que fazias se ganhasses o euromilhões? –
- Que pergunta parva! Fazia a mesma coisa que faço agora! 
    De todas as vezes que já ouvi este tipo de pergunta, nunca houve ninguém que desse este género de resposta. Os planos passam, invariavelmente,  por não fazer mais nada na vida e por comprar, comprar, comprar….
   E isto faz-me lembrar uma frase, atribuída a Confúcio, que no outro dia li : “Escolhe um trabalho que gostes e não terás que trabalhar nem um dia da tua vida.” Ao rever a frase,  não posso evitar perguntar-me quantas pessoas no Mundo trabalharão sem trabalhar… Quantas serão as que podem sustentar-se sem a sensação de estar a vender os seus dias?
   Uma coisa é certa: perguntem a vocês mesmos o que fariam se ganhassem o euromilhões… Se a resposta for “ que pergunta parva, faria exatamente a mesma coisa que faço agora”, é porque fazem parte do grupo de afortunados que trabalha sem trabalhar.
Ana Dias

28.12.11

Aos primeiros acordes


    Sempre que oiço uma música pela primeira vez percebo, logo nos acordes iniciais, se gosto ou não gosto. Há as que ponho imediatamente de parte, há as que merecem que as oiça novamente, e depois há aquelas que me prendem e apaixonam e que insisto em ouvir até à exaustão.
   Aconteceu-me hoje, no carro. Passou uma música que me arrebatou aos primeiros segundos e me deixou a pensar. Será que com as pessoas que conhecemos a regra é a mesma? Haverá as que pomos imediatamente de parte, as que merecem que as conheçamos melhor e as outras,   aquelas nas quais reconhecemos, no primeiro instante, uma profunda e surpreendente empatia?  E será que as que pomos de parte não se revelariam, afinal, uma surpresa? Ou que aquelas com quem nos sentimos logo ligados  são uma fraude?
  Não tenho a resposta. Apenas sei que, sobre  canções, botas ou roupa, sou rápida a perceber se gosto ou não. Quanto às pessoas,  à partida gosto de todas… mas nunca me aconteceu arrebatar-me, no primeiro instante, como me aconteceu hoje com a tal música.
Ana Dias


27.12.11

Matilde


   Quando ela chegou eu percebi logo que havia tempestade. O sorriso, forçado e mal desenhado, não conseguia disfarçar os resquícios de choro que lhe sobravam no olhar.
- Foi ele, não foi?  - Perguntei-lhe,  apreensivo.
- Ó Pedro… Eu não entendo… Estava tudo a correr tão bem. Parecia que ele gostava mesmo de mim. Como pude entender tudo mal?
- Querida, querida, Matilde… - Olhei-a,  com um suspiro, enquanto lhe segurava nas mãos. A nossa amizade é assim. Ela sofre e liga-me. Eu estou feliz e ligo-lhe a ela.
- Não entendo! Só gostava que me explicassem porque é que eu entendo mal os sinais! Começámos este relacionamento tão bem. Ele gostava de mim! Porque é que se afastou? -
- Pára de falar e ouve-me! Tu és linda, Matilde! Maravilhosa, na verdade. Mas tens que aprender uma coisa sobre os homens: há muitos que têm medo de amar. É por isso que acontece muitas vezes isto… Um relacionamento a despontar, tudo a encaixar na perfeição e , de repente… pff, eles desaparecem no espaço! E quase todos os que fogem do amor, fazem-no no exato momento em que percebem que estão na vertigem do momento do não retorno… -
-  Como sabes disso, Pedro? –
- Como poderia não saber? ... Sou um homem…-
Ana Dias

25.12.11

Muita gente e um peru


 - Joãozinho… -
- Hã? –
- … O que é que mais gostas no Natal? – Pergunta-lhe a avó.
- De muitas pessoas à mesa a comer o peru! – A firmeza e prontidão da resposta não deixam a mínima margem para dúvidas.
Acabo de ouvir aquela conversa e percebo que a criatura tem mesmo a quem sair. Uma mesa repleta de comensais, reunidos em ameno convívio,   é algo que encaro como um momento sempre único, irrepetível e maravilhoso. E não posso deixar de me perguntar se não será nossa obrigação, viver cada um desses momentos com a devida solenidade e emoção…
- Mãe… e tu do que mais gostas no Natal? –
- De tudo, amor! De tudo! – Porque não lhe sei ainda explicar que o que mais gostei neste Natal, foi da capacidade que tive para não sentir a falta dos ausentes com tristeza. Senti a falta tanto dos que já não voltam como dos que talvez algum dia voltem, com uma alegria invasora, consciente e invacilável! Porque a ausência só existe quando a lembrança esmorece e o amor desvanece.
Ana Dias

23.12.11

Livre trânsito Natalício


     Qualquer que seja o lado para onde me viro, só oiço e leio “Bom Natal”,  em todas as versões, formatos e cores.  Porquê? Porque estamos na época mágica em que nos é permitido distribuir todo o  carinho e amor  que nos apetecer, por quem bem entendermos, sem que nos considerem tontinhos ou merecedores de internamento!   Estamos naqueles poucos dias do ano em que há uma espécie de livre trânsito para todas as felicitações, abraços e beijos…. Estamos na época em que alguns ódios se suavizam; alguns desentendimentos se  amenizam e  se chega mesmo a praticar o perdão!
   Não vos vou deixar votos de Bom Natal!   Vou deixar-vos a semente do desejo de que a “insanidade” desta época se comece a estender a outras. Não se esqueçam de a regar!!
Ana Dias

22.12.11

Ao domingo…


   Sempre que eu e os meus irmãos estamos juntos, os disparates reinam e as gargalhadas divertidas são uma constante. Não sei se isso acontece por termos o mesmo tipo de humor, que nos faz rir muito mais entre nós do que com estímulos externos, ou se é por pertencermos a um grupo muito restrito a  que mais ninguém poderá, jamais, fazer parte: o grupo de pessoas que sairam da barriga da minha mãe!
     Ora este trio a que pertenço tem peculiaridades tão exclusivas que a sensação de pertença não é comparável a mais nada.  Nesta espécie de clã,  elitista e impenetrável, impera uma regra básica e irrevogável:  a  nossa irmandade ( e os nossos secretos super-poderes de entendimento supremo) é inabalável e eterna.   Se calhar é por isso que, nos dias de festa em  que a casa estava cheia de gente, nos trancávamos a sós na casa de banho para poder dar largas às nossas divertidas tolices.  Talvez seja também por isso que continuamos a conseguir comunicar por dialetos estranhos,  inventados na infância, que mais ninguém percebe… nem mesmo os nossos filhos.  
   E hoje ao almoço, estando os três na presença da minha mãe, comentou-se novamente que todos nascemos ao Domingo.   O meu irmão logo de manhã, a minha irmã à hora de sair da missa e eu… bem, eu cheguei às primeiras horas da madrugada, já a antecipar o gosto pela criatividade noturna. Fiquei a pensar no facto de todos termos chegado à vida em dias dominicais. Terá sido coincidência? Ou terá sido um sinal? Terá sido um presságio de que as nossas vidas decorreriam tão despreocupadas e leves como as tardes de domingo?  Um aviso de preguiça sei muito bem que não foi porque não somos dados a isso. Por agora não tenho mais teorias a formular quanto a este pouco preocupante assunto, mas pode ser que um dia se faça mais luz quanto a isto. O que redescobri, ao escrever esta crónica, foi que duas das prendas mais belas que a vida já me meu, foram-me dadas… ao domingo!
Ana Dias

21.12.11



    Algum de vocês pode dizer que nunca dececionou ninguém?  Não sou, nem serei nunca, dona da razão, mas parece-me que ter a pretensão de passar pela vida sem nunca dececionar ninguém é quase tão impossível como pôr o tal elefante ( ou era um camelo?) a passar pelo buraco da agulha.
   Há sempre momentos em que dececionamos aqueles de quem gostamos ( com quem nos é indiferente parece que a questão nem se coloca, já repararam?).  Há sempre situações em que, por mais que nos estiquemos até ao nosso máximo , não sabemos como não defraudar as expetativas alheias.  É   então que surge aquele sentimento algo amargo que,  por momentos,  nos faz gostar um bocadinho menos de nós.
   Se me perguntassem a opinião ( nunca ninguém pergunta, mas eu dou-a sempre  na mesma!) eu diria para não se preocuparem muito com isso. Respondam apenas a três questões:  
- Deram o melhor de vós?
- Agiram movidos por bons sentimentos?
- Não se dececionaram a vocês mesmos?
  Se as respostas foram sim/sim/não, tenho a leve impressão de que, cedo ou tarde, tudo ficará bem. 
  Quando se é uma pessoa justa e de bons sentimentos, as deceções provocadas aos outros, desde que não nos dececionem a nós, acabam sempre por vir a ser entendidas e, com sorte, perdoadas.
Ana Dias
 

20.12.11

Instintivo


      Não sei quem foi que uma vez me disse que sabemos guiar bem um carro quando o fazemos sem pensar.  Faltas de jeito à parte, sinto-me inclinada a concordar quanto ao facto de não se dominar  a arte da condução  enquanto ainda se pensa como conseguir fazer o ponto de embraiagem. 
O que seria de nós se, de cada vez que nos sentamos ao volante, tivéssemos que nos abstrair de tudo e pensar apenas na próxima mudança a meter ou em levantar gentilmente um pé enquanto pressionamos o pedal com o  outro?     O  que seria de nós se estivéssemos constantemente a pensar em pôr um pé à frente do outro para andar, ou na direção que a  mão tem que levar para conduzir o garfo à boca?
   Será que  quanto mais as nossas ações são comandadas pelo instinto mais perfeitas saem? Será que as decisões são mais acertadas quando as tomamos sem perder muito tempo em pensamentos e pesagens?
   Acho que às vezes pensamos demais e isso impede-nos de viver melhor.  Por isso, da próxima vez que tivermos o impulso de abraçar, beijar ou dizer a alguém o quanto o/a amamos… porque não seguir o instinto?
Ana Dias