(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

24.11.11

My name is Bond…

    Quem não adora o James Bond? A “personificação” do estilo, autoconfiança e adrenalina é, desde há decadas, invejado por homens e desejado por mulheres. Não importando muito que ator o representa, a criação de Ian Fleming tem gerado milhões em bilheteiras e publicidade.
   Marcas como a BMW, Visa, L’Oreal, Ericsson, Avis ou Omega, já gastaram muito por alguns segundos de exposição às mãos da deliciosa personagem, sempre com resultados excelentes. Mas nem sempre se paga para aparecer. Há coisas que valem por si e, tarde ou cedo, são lembradas. É o caso da revista para amantes da leitura, a “Literary Review”, que aparecerá no próximo filme em cima de uma qualquer secretária do apartamento da M.  Segundo li no “The Mail on Sunday”, a revista foi contactada há certa de três semanas para autorizar tal protagonismo, integralmente oferecido.
  Pode ter sido uma notícia muito pouco importante e relativa a algo muito subtil, mas deixou-me feliz. Vejo o caso como se cinema e literatura fossem “irmãos” na criatividade e arte de fazer sonhar, em que o mais mediático estende a mão ao outro… para bem da humanidade. Fiquei feliz porque é no meio de inegáveis subtilezas que se exponencia a nossa capacidade de crescer.
Ana Dias

23.11.11

Joaquina


Todos estavam atarefados no castelo. Era dia de festa. Bobos saltitavam, coloridos, animando o povo, enquanto nobres guerreiros demostravam as suas artes de guerra para mero entretenimento dos visitantes. Cheirava a carne grelhada e cevada naquele entardecer do fim do Verão. Estavamos numa das primeiras edições dos Dias Medievais de Castro Marim.
   Uma criança parou perto de alguns burros que transportam outras crianças em pequenos passeios. A criança levantou a mão e, com um à vontade surpreendente, fez festas no pacífico animal.
 - Mãe! Também quero andar… - Eu já sabia que o Tomás não faria uma birra. Nunca foi miúdo de birras. Olhei para a fila de crianças que esperavam a sua vez para o curioso passeio e respondi-lhe:
- Olha amor, estão muitos meninos à frente…-
- Mas mãe… Eu quero mesmo andar!”
- Não,  Tomás! Andas depois, em casa.  – Assim que disse estas palavras, reparei no ar espantado de algumas mães que estavam próximas.
- Adeus Joaquina! Até depois. – Disse o Tomás, dando-lhe mais um par de festas. A burra, que de burra pouco tinha, deu-lhe um sinal cúmplice de entendimento e continuou com o único trabalho que tinha, apenas quatro dias por ano.
   A Joaquina foi oferecida ao Tomás,  pelos avós paternos, por altura do seu batizado. Vivia lá na quinta na existência mais idílica que uma burra poderia desejar. Não fossem algumas pontuais altercações com as irascíveis éguas e a sua vida teria sido um conto de fadas! Havia algo naquele animal que fazia com que fosse fácil amá-lo. Lembro-me, por exemplo, que era frequente o meu pai, após perguntar ao telefone por toda a família,  querer saber também se a Joaquina estava boa!
- Manda-lhe cumprimentos meus. – Dizia-me ele em jeito de brincadeira, mas com um inegável carinho na voz.
Também recordo como ele, quando nos visitava, subtraía belas frutas à fruteira lá de casa para depois se esgueirar, sorrateiro, e ir mimar a sua amiga de quatro patas e olhar meigo.
   Lembro-me de tudo isto porque há coisas boas de lembrar. Memórias doces de momentos passados a que, por sorte, tivemos a sabedoria de dar todo o valor.
Ana Dias
  
 
 

22.11.11

Trilogia

    Assim que me sentei os meus olhos colaram-se às palavras que brotavam da placa na parede:  “Existem três tipos de homem. Os vivos. Os mortos. E os que andam no mar.”  Indaguei de quem seria e foi-me dito que era atribuída a Platão.
- Hum… Não conhecia… - Disse eu, ainda encantada.
O dono do restaurante perguntou:  - Quem? Paltão? –
- Credo, não! Apenas não conhecia esta frase dele.-
- Procurei na net. Queria homenagear os homens do mar…-
   Fazia todo o sentido. Afinal o restaurante servia trinta pratos diferentes de polvo. Voltei a “namorar” as palavras. Os vivos, os mortos e os que desafiam a morte como modo de vida. E foi então que percebi que, para mim, também há três tipos de Homem: os vivos, os mortos… e os que desafiam a vida!
Ana Dias


21.11.11

Os esquilos

   O João entra no British Museum e fica espantado com as pessoas que lá estão, espalhadas pelo chão, de bloco de desenho na mão a registar com o seu cunho pessoal os artefactos expostos. Não se exalta com a beleza e importância do local e de todo o seu espólio: apenas lhe importa ter, também ele, um bloco de folhas brancas e um pedaço de carvão, para poder dar rédea solta à sua forma de ver o mundo.  Depressa percebemos que o melhor é arranjar-lhe papel e lápis. E, sem saber muito bem como, acabo por demorar por ali muito mais do que contava, deliciada a ver o meu filho de seis anos empolgado a desenhar tudo a que consegue deitar o olho.
  Viajar é isto. Ser surpreendido pelo inesperado e encontrar o encanto em pequenos “nadas” que nos invadem a cada nova esquina. Viajar é ver o que se planeou e é ler as entrelinhas, espreitar os sinais, viver o momento. Viajar é encantar quem se leva na “bagagem” e ser encantado pela sua companhia feita de espanto e cansaço. É regressar mais rico e encontar mais riqueza no ponto de partida.
  Perguntei aos meus filhos qual foi o momento de que mais gostaram e, depois de todo o esforço e investimento, percebo que foi algo tão simples como os esquilos que habitam os jardins do palácio de Buckingham… E é nesse momento que percebo que, para mim, o ponto alto foi o reencontro de um velho amigo com quem há tanto tempo não estava… e as gargalhadas que demos enquanto mostravamos Londres aos miúdos.
As viagens são isso mesmo: surpresas que se fotografam, acima de tudo, com a memória.
Ana Dias

15.11.11

O contador de estórias


  O ancião entrega o seu colar a um jovem. Ao mesmo tenho que lhe coloca o simbólico objeto ao pescoço, investe-o também com a missão que toda a vida teve. Contar estórias que fazem parte da história da tribo. Para que o legado não se perca. Para que as mensagens ancestrais continuem a passar de geração em geração.
  Ao testemunhar este momento, num qualquer programa de antropologia  que passa nos bons canais que a tv paga tem, sou atingida por uma revelação que me enche de um forte sentimento de solenidade. Os contadores de estórias são importantes. Da mesma forma que existem pessoas que fazem pão para alimentar os corpos, outras há que, transmitindo estórias e mensagens, alimentam as almas. Ocorre-me o pensamento, talvez fantástico e sonhador, de ser uma dessas pessoas. De ter por missão contar histórias, transmitir mensagens, alimentar almas… Se assim for, que privilégio representará para mim tal missão! E talvez assim seja porque, afinal, de tudo o que faço, contar estórias é a coisa que sinto ser mais importante.
  Foi ontem à noite que vi o ancião passar o seu colar e a sua função ao homem mais jovem. E que propositada imagem para iniciar a mensagem que hoje vos pretendia deixar: um pedido de desculpas pela ausência dos próximos dias. Espero que sintam a falta das palavras que todos os dias vos escrevo… Na verdade ficaria muito feliz se lhes sentissem a falta! Mas os verdadeiros contadores de estórias são como caçadores nómadas, movendo-se incessantemente no Mundo, de olhos bem abertos e com os sentidos bem apurados para melhor conseguirem “caçar” as estórias com que depois alimentam as almas.
  É por isso que agora me vou, na promessa de regressar,  daqui a alguns dias, com mais uma prolixa “caçada” que, feliz,   partilharei convosco.
Um abraço já saudoso,
Ana Dias
    
 

14.11.11

Muitos anos depois


  Ela continua linda. Ele, como todos os homens, melhorou com os anos. Não é que não se vejam há muito tempo pois as reuniões familiares voltam a juntá-los todos os anos. Conversam um pouco sobre as suas vidas. Riem. Riem muito, na verdade. Circulam entre todos os outros convivas que também se divertem com estórias que saltam do passado para o presente, contadas com a naturalidade de quem sabe que a vida é feita de etapas. É frequente passarem muito tempo sem se verem e até sem se falarem, mas a sabedoria que possuem faz com que se mantenham amigos. Sabem que o amor ficou lá atrás, gasto até ao final no decorrer do tempo que há tanto tempo passou. Mas conhecem-se bem. Por isso sabem rir juntos.  Afinal partilharam a vida durante alguns anos e deixaram um legado comum. Sabem que, para o bem e para o mal, o outro está lá, ao longe mas presente,  para algum conselho ou palavra de apoio.  Sabem conviver tão bem quanto podem conviver um homem e uma mulher depois de passada a tensão do amor.
  E então, enquanto o seu neto sopra as velas do terceiro aniversário, eu abro-me num sorriso… o miúdo tem uns avós que se dão mesmo bem!
Ana Dias

12.11.11

Não quero

Não quero juntar riquezas
Nem viver de glória e fama
Só pretendo ter-me inteiro  
Saber amar quem me ama

Não vou galgar continentes
Nem coleccionar países
Só pretendo ver o ocaso
Longe das minhas raízes

Não quero a imensa mansão  
Não é esse o meu destino
Mas quero poder dar a mão
Falar e ser entendido

Não ambiciono o poder
Fujo dele na verdade
Nada me dá mais prazer
 Que o manto da liberdade

Ser um rei não é p’ra mim
Desisto da minha coroa
Eu só quero estar em mim
Nesta alma que em mim voa

Não quero dar o meu nome
 A qualquer grande avenida
Só me importa que o saiba
 Quem entrou na minha vida

Eu não vou ter biografias
 Entrar em livros de história
Basta-me ficar para sempre
 Vivo na tua memória
Ana Dias

11.11.11

O tempero

- E como quer que lhe prepare a carne, menina?-
- Olhe.. Não sei. – Respondi.
- Mas como é que a vai cozinhar?- Insistiu a senhora do talho, enquanto eu tentava controlar o Tomás, então com cinco anos, tendo o João ao meu colo.
- Pois… eu não cozinho.
   Apesar deste episódio se ter passado há uns bons anos, ainda me lembro bem da cara de pasmo da dita senhora,  que olhava alternadamente para mim e para as minhas rechonchudas crias, tentando perceber como raios  conseguia eu manter uma família sem cozinhar.
  Mas tudo tem o seu tempo e, se durante muitos anos eu pensei que jamais iria cozinhar, (porque não gostava ou não sabia) a vida veio a surpreender-me com o prazer desta atividade tão complexa e desafiante. Considero que, para cozinhar bem, é preciso inteligência,  vontade e instinto (requisitos que são imprescindíveis para qualquer coisa que se queira fazer bem).
  Mas, voltando à cozinha e ao fogão,  há algo mais que determina se o resultado final é um reduntante sucesso ou um tremendo fracasso: o tempero! Quando descobrimos as potencialidades do tempero e de tudo o que ele pode fazer pelas nossas criações, percebemos como é fácil garantir a presença de qualidades apetecíveis em tudo o  que confeccionamos. E, apesar das cestas repletas de especiarias, eu sei muito bem que o tempero secreto que garante o sabor das comidas que preparo é… a música! Poderá parecer estranho mas, pelo menos no meu caso, cozinhar a ouvir música faz realmente toda a diferença. E isto leva-me a pensar: já encontraram o vosso tempero para a vida?
Ana Dias
    

10.11.11

O único problema do Homem…

    
O único problema do Homem é teimar em esquecer-se que tem prazo de validade.  Parece-me bastante óbvio que,  se chegassemos à vida como os iogurtes, com o limite do prazo gravado na tampa, o Mundo seria um lugar bem diferente.  E nem era preciso saber a data exata do perecimento, bastava a consciência plena da sua vindoura ocorrência.
  Confesso que as epifanias de pessoas que passaram por grandes provações e descobriram o intrínseco  valor da vida, já não me comovem nem inspiram.  Na verdade só vêm corroborar a teoria do óbvio fim, segundo a qual o conhecimento da existência de algo tão irrefutável  e imperativo como a  morte deveria ser  o maior aliado para uma vida boa e recheada de sentido.
  É bem provável que, ao fim de apenas dois parágrafos, estejam a lamentar este sórdido tema e a ponderar seriamente interromper, por aqui, a leitura. A escolha é vossa… talvez não percam nada …  ou talvez estejam  a deixar passar uma oportunidade única…   Mas decidam vocês próprios se vão ou não enfrentar este touro  pelos cornos!
  É tão simples quanto isto: não existe vida sem haver morte e não há morte sem ter havido vida.  Mas como é que a consciência do fim nos pode dar sentido à existência?  Comecemos por um exemplo muito prático e simples: imaginem que a vossa vida era um longo e interminável período de férias sem data certa para regressar ao trabalho.  Tinham a vaga ideia que o dia do fim das féria eventualmente chegaria, mas nunca acreditavam que vos acontecesse a vocês… pelo menos não tão cedo…  E então, como as férias eram tidas como garantidas e intermináveis, perdiam todo o sabor: não eram vividas com a alegria absoluta nem com a energia devida;  ficavam sempre visitas e programas por fazer porque as férias iriam durar para sempre e haveria tempo para isso mais à frente; não iriam saborear aquele banho de mar  que, por inércia,  não dariam; não leriam todos os livros que a vossa sede impunha; não fariam aquele jantar para todos os amigos e familiares,   com velas e à luz da lua; não iriam ver o amigo que estava na estância balnear ao lado da vossa; não beberiam um elaborado cocktail ao pôr do sol  na companhia do vosso amor … Não fariam nada disto  simplesmente porque  haveria muito tempo até ao dia em que as férias acabariam,  por mais que, no fundo, soubessem que elas não podiam durar para sempre!
     A nossa vida são essas férias, sabem??!!  E um dia vamos  ser  “chamados para nos apresentarmos ao serviço” e não gozámos as férias!! Podemos até chegar à conclusão que não aproveitámos um dia sequer! Podemos ter ainda um laivo de consciência e perceber que deixamos passar todas as oportunidades, mas as férias chegaram, impreterivelmente, ao fim!
  E como podemos inverter esta devastadora tendência para esquecer o óbvio, que nos corre nas veias desde tempos ancestrais?  Que mecanismos existem para nos lembrar que a vida é limitada no tempo e que, até prova em contrário, é só com esta que podemos,  sem dúvida,  contar?   
    Há uma solução tremendamente simples: estabeleçam um fim imaginário para as férias da vida… Seis meses, um ano, dois anos… não importa. Imaginem apenas que têm  uma data marcada para o fim. Que lista farão de coisas a fazer? Quais serão as vossas prioridades?  Vão beijar e abraçar todos os dias as pessoas que amam? Vão perdoar ofensas e perceber que as raivinhas e ódios não valem, de todo, a pena?  Vão visitar os amigos que há tanto tempo não vêem? Vão pintar o tal quadro, escrever o tal livro, fazer a tal escultura ou canção? Vão finalmente tornar a vossa casa num caos de cor, amor e incenso? Vão fazer aquela viagem sozinhos? Vão enfrentar os vossos maiores medos? Vão dançar à chuva, dormir ao relento, cantar ao vento?  Vão saber viver o momento, apreciar a paisagem, ver o lado bom?  Vão conseguir fazer figura de parvos, ser tidos por loucos, rir à gargalhada? Vão aprender que é tão bom dar como é receber?
  Dêm-se ao trabalho de estabelecer este imaginário fim das vossas vidas e levem-no a sério. Comportem-se de acordo com o prazo que a vida, inexoravelmente, tem.  Não esperem por uma desgraça para que a epifania se dê!  Não esperem por ver a morte de frente para aprender a viver a vida bem! Podem já não ir a tempo!  
   E se fizerem esta experiência de forma dedicada, séria e consciente, verão que, quando o prazo fictício se esgotar, já aprenderam a viver de acordo com o que a vida realmente deve ser: viva, acordada, sentida, surpreendente, avassaladora  e plena.
  Experimentem… antes que as férias acabem.
Por agora, a todos os que tiveram a coragem de chegar ao fim deste texto, apenas me resta congratular-vos pela ousadia, pois tenho a certeza que, ao fechar a revista, vão pegar numa folha e começar a rabiscar uma interessante e arrojada lista que vos fará embarcar na mais proveitosa viagem que alguma vez fizeram…
Ana Dias

9.11.11

O bolinho de côco


  No outro dia encontrei a São, uma das senhoras que trabalha no ATL que o meu filho Tomás frequenta depois das aulas.
- Olá Ana! Sabe o que o Tomás fez hoje? –
   Se ela estivesse a falar do João, teria sido, certamente, alguma cómica patifaria… mas sendo o Tomás, fiquei admirada.
- O quê, São? – Eu já estava com ar zangado a planear o raspanete mas, pelo  olhar sorridente dela,  percebi que afinal não tinha saído asneira.
- Ele ontem estava a comer um bolinho de côco e eu comentei que adoro aqueles bolos e que há já muito tempo não os encontro em lado nenhum…. – Explicou ela. – E hoje… quando chegou da escola, trazia um, todo embrulhadinho, para me dar!-
Fiquei sem palavras. O que lhe ia eu responder? Que o meu filho é uma ternura? Não são as mães que têm que dizer isso dos filhos…  Mas o certo é que, dias depois quando o teste de matemática não veio com o “muito bom” que eu gostaria… não me preocupei muito com isso. Afinal ele anda a tirar “muito bons” em temas, quanto a mim,  bem mais importantes que a matemática…
Ana Dias

8.11.11

NO TEU SONO…


“Velo-te o doce sono / enquanto te vejo dormir
Respiras suavemente / até pareces sorrir
Leio-te o rosto sereno / sondo esses perfeitos traços
Esse semblante moreno  / que não me poupa os abraços
E imagino-te os  sonhos / o que te dá mais prazer
Em coloridos desenhos / memórias do que vais ser…” …

  A música ecoa pela casa. E eu já nem reparo no seu especial significado… admiro-lhe apenas a extrema beleza. E antevejo o sucesso do meu amigo Ricardo Sousa.
    O Tomás chega e comenta – Que gira, mãe!! É tua? -  A naturalidade da pergunta e da forma como é feita, deixam-me admirada.  Aceno afirmativamente com um sorriso brilhante, enquanto lhe  meço as palavras. Afinal esta música, que todos em breve ouvirão, foi escrita para ele e para o irmão. É uma ode aos seus sonhos de criança, para que os acompanhem sempre e os mantenham corajosos, sinceros e inocentes…
  A música ecoa pela casa. E eu já nem reparo no seu especial significado… admiro-lhe apenas a extrema beleza.  Agradeço a sorte do reencontro com o Ricardo Sousa e o nascer deste fabuloso projeto. 
E agora de manhã, ao ouvi-la de novo, imagino o quanto o meu pai apreciaria este fabuloso bailado de letra e melodia a soar na bela voz do Ricardo… Uma lágrima teima em espreitar. Deixo-a correr. E termino a cantar-te, pai, as últimas palavras deste tema encantador: “… e sonho que nunca percas esse sono feito esperança…”
Ana Dias

7.11.11

No banco de trás…

   Abro o jornal. Uma pequena notícia faz-me parar. Na Alemanha desenvolvem um VW Passat e e conseguem pô-lo na estrada sem condutor… controlado por computador. O título da notícia?  “Carro sem condutor tem futuro”.
   Título do meu pensamento? “ Mas que raio??...”  A cada dia que passa vivemos mais no futuro. Mas até que ponto isso é bom? Neste caso em concreto, até acredito que haja pessoas para quem este futuro seja perfeito, mas para mim, é como uma condenação à privação de prazeres!  Sempre que volto de viagem, a segunda coisa de que mais sinto a falta ( a primeira são os putos, claro!) e para a qual volto com uma satisfação inflamada, é para o prazer de conduzir. Se estou dois ou três pares de dia sem os comandos das viaturas, falta-me uma parte de mim, da minha auto-determinação… sinto-me quase amputada! Por isso posso dizer que este futuro possível,  de que a notícia fala,  não  será por mim escolhido!
   Mas há mais: penso como seria mandar o carro buscar os miúdos à escola… Até acredito na segurança e executabilidade, mas como reagiria a dita viatura quando eles começassem com as habituais implicâncias e tropelias no banco de trás? Acredito piamente que todos os fusíveis do carro e circuitos do computador que lhe desse as ordens se derreteriam antes da primeira rotunda!!  Por outro lado começo a imaginar com quem implicariam certos condutores mais irascíveis, ao verificarem que o carro que os tinha ultrapassado de forma mais abrupta não tinha ninguém lá dentro…   E acabo por me lembrar do Knight Rider – o Justiceiro- , a série televisiva dos anos oitenta, com o David Hasselhoff, em que carro e condutor, além de grandes amigos, eram uma dupla imparável no combate ao crime! Não consigo evitar o riso ao imaginar os meus carros com umas luzinhas vermelhas à frente, a meterem-se comigo de cada vez que páro numa sapataria para comprar mais um par de botas…
   Na verdade, a grande ironia de tudo isto é ser a marca “carro do povo” a desenvolver este conceito que me parece tão descabido como a invenção de bananas que falam,  para os miúdos não se esquecerem de as comer no lanche da meia manhã!!
  Mas não posso evitar  ressalvar-me com a hipótese de,  talvez, daqui a duas ou três décadas, ir sentada no banco de trás a ler esta crónica ao meu carro que me “ouve” com atenção enquanto  me conduz  a uma qualquer apresentação de um novo romance… e me responde: “Ana: devias ter acreditado no futuro”…
Ana Dias