(...) e a confiança cega
que tenho na minha verdade
não a detém quem me nega
as asas da liberdade ...

Ana Amorim Dias

12.11.11

Não quero

Não quero juntar riquezas
Nem viver de glória e fama
Só pretendo ter-me inteiro  
Saber amar quem me ama

Não vou galgar continentes
Nem coleccionar países
Só pretendo ver o ocaso
Longe das minhas raízes

Não quero a imensa mansão  
Não é esse o meu destino
Mas quero poder dar a mão
Falar e ser entendido

Não ambiciono o poder
Fujo dele na verdade
Nada me dá mais prazer
 Que o manto da liberdade

Ser um rei não é p’ra mim
Desisto da minha coroa
Eu só quero estar em mim
Nesta alma que em mim voa

Não quero dar o meu nome
 A qualquer grande avenida
Só me importa que o saiba
 Quem entrou na minha vida

Eu não vou ter biografias
 Entrar em livros de história
Basta-me ficar para sempre
 Vivo na tua memória
Ana Dias

11.11.11

O tempero

- E como quer que lhe prepare a carne, menina?-
- Olhe.. Não sei. – Respondi.
- Mas como é que a vai cozinhar?- Insistiu a senhora do talho, enquanto eu tentava controlar o Tomás, então com cinco anos, tendo o João ao meu colo.
- Pois… eu não cozinho.
   Apesar deste episódio se ter passado há uns bons anos, ainda me lembro bem da cara de pasmo da dita senhora,  que olhava alternadamente para mim e para as minhas rechonchudas crias, tentando perceber como raios  conseguia eu manter uma família sem cozinhar.
  Mas tudo tem o seu tempo e, se durante muitos anos eu pensei que jamais iria cozinhar, (porque não gostava ou não sabia) a vida veio a surpreender-me com o prazer desta atividade tão complexa e desafiante. Considero que, para cozinhar bem, é preciso inteligência,  vontade e instinto (requisitos que são imprescindíveis para qualquer coisa que se queira fazer bem).
  Mas, voltando à cozinha e ao fogão,  há algo mais que determina se o resultado final é um reduntante sucesso ou um tremendo fracasso: o tempero! Quando descobrimos as potencialidades do tempero e de tudo o que ele pode fazer pelas nossas criações, percebemos como é fácil garantir a presença de qualidades apetecíveis em tudo o  que confeccionamos. E, apesar das cestas repletas de especiarias, eu sei muito bem que o tempero secreto que garante o sabor das comidas que preparo é… a música! Poderá parecer estranho mas, pelo menos no meu caso, cozinhar a ouvir música faz realmente toda a diferença. E isto leva-me a pensar: já encontraram o vosso tempero para a vida?
Ana Dias
    

10.11.11

O único problema do Homem…

    
O único problema do Homem é teimar em esquecer-se que tem prazo de validade.  Parece-me bastante óbvio que,  se chegassemos à vida como os iogurtes, com o limite do prazo gravado na tampa, o Mundo seria um lugar bem diferente.  E nem era preciso saber a data exata do perecimento, bastava a consciência plena da sua vindoura ocorrência.
  Confesso que as epifanias de pessoas que passaram por grandes provações e descobriram o intrínseco  valor da vida, já não me comovem nem inspiram.  Na verdade só vêm corroborar a teoria do óbvio fim, segundo a qual o conhecimento da existência de algo tão irrefutável  e imperativo como a  morte deveria ser  o maior aliado para uma vida boa e recheada de sentido.
  É bem provável que, ao fim de apenas dois parágrafos, estejam a lamentar este sórdido tema e a ponderar seriamente interromper, por aqui, a leitura. A escolha é vossa… talvez não percam nada …  ou talvez estejam  a deixar passar uma oportunidade única…   Mas decidam vocês próprios se vão ou não enfrentar este touro  pelos cornos!
  É tão simples quanto isto: não existe vida sem haver morte e não há morte sem ter havido vida.  Mas como é que a consciência do fim nos pode dar sentido à existência?  Comecemos por um exemplo muito prático e simples: imaginem que a vossa vida era um longo e interminável período de férias sem data certa para regressar ao trabalho.  Tinham a vaga ideia que o dia do fim das féria eventualmente chegaria, mas nunca acreditavam que vos acontecesse a vocês… pelo menos não tão cedo…  E então, como as férias eram tidas como garantidas e intermináveis, perdiam todo o sabor: não eram vividas com a alegria absoluta nem com a energia devida;  ficavam sempre visitas e programas por fazer porque as férias iriam durar para sempre e haveria tempo para isso mais à frente; não iriam saborear aquele banho de mar  que, por inércia,  não dariam; não leriam todos os livros que a vossa sede impunha; não fariam aquele jantar para todos os amigos e familiares,   com velas e à luz da lua; não iriam ver o amigo que estava na estância balnear ao lado da vossa; não beberiam um elaborado cocktail ao pôr do sol  na companhia do vosso amor … Não fariam nada disto  simplesmente porque  haveria muito tempo até ao dia em que as férias acabariam,  por mais que, no fundo, soubessem que elas não podiam durar para sempre!
     A nossa vida são essas férias, sabem??!!  E um dia vamos  ser  “chamados para nos apresentarmos ao serviço” e não gozámos as férias!! Podemos até chegar à conclusão que não aproveitámos um dia sequer! Podemos ter ainda um laivo de consciência e perceber que deixamos passar todas as oportunidades, mas as férias chegaram, impreterivelmente, ao fim!
  E como podemos inverter esta devastadora tendência para esquecer o óbvio, que nos corre nas veias desde tempos ancestrais?  Que mecanismos existem para nos lembrar que a vida é limitada no tempo e que, até prova em contrário, é só com esta que podemos,  sem dúvida,  contar?   
    Há uma solução tremendamente simples: estabeleçam um fim imaginário para as férias da vida… Seis meses, um ano, dois anos… não importa. Imaginem apenas que têm  uma data marcada para o fim. Que lista farão de coisas a fazer? Quais serão as vossas prioridades?  Vão beijar e abraçar todos os dias as pessoas que amam? Vão perdoar ofensas e perceber que as raivinhas e ódios não valem, de todo, a pena?  Vão visitar os amigos que há tanto tempo não vêem? Vão pintar o tal quadro, escrever o tal livro, fazer a tal escultura ou canção? Vão finalmente tornar a vossa casa num caos de cor, amor e incenso? Vão fazer aquela viagem sozinhos? Vão enfrentar os vossos maiores medos? Vão dançar à chuva, dormir ao relento, cantar ao vento?  Vão saber viver o momento, apreciar a paisagem, ver o lado bom?  Vão conseguir fazer figura de parvos, ser tidos por loucos, rir à gargalhada? Vão aprender que é tão bom dar como é receber?
  Dêm-se ao trabalho de estabelecer este imaginário fim das vossas vidas e levem-no a sério. Comportem-se de acordo com o prazo que a vida, inexoravelmente, tem.  Não esperem por uma desgraça para que a epifania se dê!  Não esperem por ver a morte de frente para aprender a viver a vida bem! Podem já não ir a tempo!  
   E se fizerem esta experiência de forma dedicada, séria e consciente, verão que, quando o prazo fictício se esgotar, já aprenderam a viver de acordo com o que a vida realmente deve ser: viva, acordada, sentida, surpreendente, avassaladora  e plena.
  Experimentem… antes que as férias acabem.
Por agora, a todos os que tiveram a coragem de chegar ao fim deste texto, apenas me resta congratular-vos pela ousadia, pois tenho a certeza que, ao fechar a revista, vão pegar numa folha e começar a rabiscar uma interessante e arrojada lista que vos fará embarcar na mais proveitosa viagem que alguma vez fizeram…
Ana Dias

9.11.11

O bolinho de côco


  No outro dia encontrei a São, uma das senhoras que trabalha no ATL que o meu filho Tomás frequenta depois das aulas.
- Olá Ana! Sabe o que o Tomás fez hoje? –
   Se ela estivesse a falar do João, teria sido, certamente, alguma cómica patifaria… mas sendo o Tomás, fiquei admirada.
- O quê, São? – Eu já estava com ar zangado a planear o raspanete mas, pelo  olhar sorridente dela,  percebi que afinal não tinha saído asneira.
- Ele ontem estava a comer um bolinho de côco e eu comentei que adoro aqueles bolos e que há já muito tempo não os encontro em lado nenhum…. – Explicou ela. – E hoje… quando chegou da escola, trazia um, todo embrulhadinho, para me dar!-
Fiquei sem palavras. O que lhe ia eu responder? Que o meu filho é uma ternura? Não são as mães que têm que dizer isso dos filhos…  Mas o certo é que, dias depois quando o teste de matemática não veio com o “muito bom” que eu gostaria… não me preocupei muito com isso. Afinal ele anda a tirar “muito bons” em temas, quanto a mim,  bem mais importantes que a matemática…
Ana Dias

8.11.11

NO TEU SONO…


“Velo-te o doce sono / enquanto te vejo dormir
Respiras suavemente / até pareces sorrir
Leio-te o rosto sereno / sondo esses perfeitos traços
Esse semblante moreno  / que não me poupa os abraços
E imagino-te os  sonhos / o que te dá mais prazer
Em coloridos desenhos / memórias do que vais ser…” …

  A música ecoa pela casa. E eu já nem reparo no seu especial significado… admiro-lhe apenas a extrema beleza. E antevejo o sucesso do meu amigo Ricardo Sousa.
    O Tomás chega e comenta – Que gira, mãe!! É tua? -  A naturalidade da pergunta e da forma como é feita, deixam-me admirada.  Aceno afirmativamente com um sorriso brilhante, enquanto lhe  meço as palavras. Afinal esta música, que todos em breve ouvirão, foi escrita para ele e para o irmão. É uma ode aos seus sonhos de criança, para que os acompanhem sempre e os mantenham corajosos, sinceros e inocentes…
  A música ecoa pela casa. E eu já nem reparo no seu especial significado… admiro-lhe apenas a extrema beleza.  Agradeço a sorte do reencontro com o Ricardo Sousa e o nascer deste fabuloso projeto. 
E agora de manhã, ao ouvi-la de novo, imagino o quanto o meu pai apreciaria este fabuloso bailado de letra e melodia a soar na bela voz do Ricardo… Uma lágrima teima em espreitar. Deixo-a correr. E termino a cantar-te, pai, as últimas palavras deste tema encantador: “… e sonho que nunca percas esse sono feito esperança…”
Ana Dias

7.11.11

No banco de trás…

   Abro o jornal. Uma pequena notícia faz-me parar. Na Alemanha desenvolvem um VW Passat e e conseguem pô-lo na estrada sem condutor… controlado por computador. O título da notícia?  “Carro sem condutor tem futuro”.
   Título do meu pensamento? “ Mas que raio??...”  A cada dia que passa vivemos mais no futuro. Mas até que ponto isso é bom? Neste caso em concreto, até acredito que haja pessoas para quem este futuro seja perfeito, mas para mim, é como uma condenação à privação de prazeres!  Sempre que volto de viagem, a segunda coisa de que mais sinto a falta ( a primeira são os putos, claro!) e para a qual volto com uma satisfação inflamada, é para o prazer de conduzir. Se estou dois ou três pares de dia sem os comandos das viaturas, falta-me uma parte de mim, da minha auto-determinação… sinto-me quase amputada! Por isso posso dizer que este futuro possível,  de que a notícia fala,  não  será por mim escolhido!
   Mas há mais: penso como seria mandar o carro buscar os miúdos à escola… Até acredito na segurança e executabilidade, mas como reagiria a dita viatura quando eles começassem com as habituais implicâncias e tropelias no banco de trás? Acredito piamente que todos os fusíveis do carro e circuitos do computador que lhe desse as ordens se derreteriam antes da primeira rotunda!!  Por outro lado começo a imaginar com quem implicariam certos condutores mais irascíveis, ao verificarem que o carro que os tinha ultrapassado de forma mais abrupta não tinha ninguém lá dentro…   E acabo por me lembrar do Knight Rider – o Justiceiro- , a série televisiva dos anos oitenta, com o David Hasselhoff, em que carro e condutor, além de grandes amigos, eram uma dupla imparável no combate ao crime! Não consigo evitar o riso ao imaginar os meus carros com umas luzinhas vermelhas à frente, a meterem-se comigo de cada vez que páro numa sapataria para comprar mais um par de botas…
   Na verdade, a grande ironia de tudo isto é ser a marca “carro do povo” a desenvolver este conceito que me parece tão descabido como a invenção de bananas que falam,  para os miúdos não se esquecerem de as comer no lanche da meia manhã!!
  Mas não posso evitar  ressalvar-me com a hipótese de,  talvez, daqui a duas ou três décadas, ir sentada no banco de trás a ler esta crónica ao meu carro que me “ouve” com atenção enquanto  me conduz  a uma qualquer apresentação de um novo romance… e me responde: “Ana: devias ter acreditado no futuro”…
Ana Dias
  
  

4.11.11

Morrer de amor


   Ela não queria acreditar! Ele estava mesmo a deixá-la. Desta vez não havia mais argumentos nem ardis para o conseguir manter a seu lado. Sabia, no fundo, que tal dia chegaria. O que não sabia era que, com a sua chegada, partiria toda a sua vontade de viver.
   Ela matou-se pouco tempo depois. Por não ter esperança. Por não ter amor para si. Por não ter amor por si. Tinha-o entregue todo. Não importa como o fez. Fê-lo simplesmente. Roubou a si mesma a vida que um dia lhe tinham dado. E partiu.
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Este caso é verdadeiro. É de alguém que eu conheci. De alguém que morreu de amor. Ou por amor, como queiram. Ela já se foi há quase um ano e só agora consigo escrever-lhe. A ela, a todos os que já morreram de amor e a todos os que já sobreviveram ao amor…
Nos filmes fantásticos há por vezes uma poção extremamente poderosa capaz de controlar o Mundo. Os personagens lutam por ela para a controlarem e a usarem em seu proveito, sejam os seus intuitos bons ou maus. Ora o amor é isso mesmo: é aquele frasquinho azul turqueza, guardado num cofre da mais alta segurança por ser algo tão poderoso que, caindo nas mãos dos “maus”,  pode destruir o todo o Universo conhecido. E é também a “substância” mais magnífica e poderosa que jamais existiu ou poderá vir a existir.
    Na realidade, a maior descoberta da humanidade deu-se no preciso momento em que um ser sentiu amor por outro…  Tornámo-nos poderosos para além do que a própria imaginação é capaz de alcançar!
  Mas então porque é que há quem ainda se mate por amor? Porque é que há quem definhe aos poucos e perca toda a razão de viver se o amor se vai? Porque é que há pessoas que se matam por serem “deixados”e outras que, como a minha mãe, que viu o seu amor de toda a vida partir para outro estado, se erguem com nobreza e enfrentam a vida da forma mais positiva que conseguem, honrando o amor que tiveram a fortuna de viver??
   Tudo depende de dois fatores: a forma como se vêem as coisas e o modo como se amou ou ainda ama…
   Sabendo olhar para um amor que se foi com o sorriso da alegria que se sentiu na sua presença, consegue-se manter viva a memória desse amor. Quem guarda,  no seu património interior, o imaculado e eterno amor, pode seguir adiante e amar de novo… sem nunca esquecer nem deixar de amar quem já amou!
  Mas sobreviver ao amor e não desejar morrer na sua ausência depende também da forma como se amou: quem ama outra pessoa deixando de se amar a si mesmo, perde-se no processo. Quem ama assim, ao perder o seu amado/a, deixa de existir e apenas encontra um caminho: a extinção! Mas quem ama alguém mantendo intacto e imaculado todo o amor e respeito que tem por si mesmo, há-de encontrar sempre a força para seguir adiante e amar de novo… porque o amor continua catalizado em si, como a tal poderosa “arma” azul turqueza de que vos falei há pouco!
  Há quem se mate por amor e há quem escolha “matar” o amor para não morrer de amor… Como sempre, o caminho do meio é o mais certo. É por isso que aconselho  a que não se matem por amor… nem escolham matar o amor: lutem por continuar a senti-lo, mesmo depois dele partir. Só escolhendo sempre o amor  estarão preparados… para amar!
Ana Dias




3.11.11

Aborrecimento crónico



   Quem tem filhos sabe do que estou a falar.  A eterna incapacidade de se entusiasmarem, durante um período substancial de tempo, por alguma coisa. Os vários canais só de programação infantil, as playstations, nintendos, computadores e legos têm uma validade limitada. Dos trabalhos de casa nem se fala… é fazê-los rapidamente e fugir a correr! E se os levamos para atividades fantásticas como parques temáticos, explorações florestais, praia, neve, piscinas e camas elásticas,  ficam a pensar que tudo o resto é revestido de um tédio absoluto.   O que me deixa a pensar que, por mais que lhes facultemos as mais incríveis vivências e alargamento de horizontes, isso só lhes cria sede de mais….
    Mas quem não tem filhos também sabe em que consiste o aborrecimento crónico. Apesar de haver coisas que decididamente nos entusiasmam bastante, como não podemos vivê-las com constância, o resto do tempo é passado num limbo amorfo de ausência de emoção. É claro que há pessoas com vidas mais monótonas do que outras e há alguns mais capazes de lidar com o marasmo e com o aborrecimento, sem se aborrecerem muito com isso. Mas, talvez devido à multiplicidade de oferta e rapidez com que tudo agora acontece, estamos cada vez mais aborrecidos… porque se por um lado  vivemos e experimentamos mais, por outro, quando os empolgantes momentos acabam, caímos num muito mais profundo fosso de insatisfação!    Não consigo impedir-me de imaginar se os nossos mais distantes antepassados se aborreciam nas grutas, depois de caçarem um búfalo e conseguirem ter um fogo aceso! Será que ficavam calmos e apaziguados, a catar piolhos uns dos outros e a olhar para as paredes da gruta??  A verdade é que a história comprova ( e somos a prova viva disso mesmo) que eles estavam aborrecidos! Caso contrário não teriam pintado as paredes das cavernas, não teriam começado a criar artefactos, nem inventado a roda. Se não estivessem aborrecidos, não teriam inventado guerras nem mil outras formas de se entreterem e talvez, apenas talvez, ainda estivéssemos agora num incipiente despertar desses tempos…
   Estou a dizer que o aborrecimento crónico é bom? Não! Estou apenas a concluir que é uma característica tão intrínsecamente humana como o são a necessidade de alimento, proteção e procriação.  É provavelmente esta incompleitude, que não nos deixa sossegar,  que nos impulsiona para a evolução…
  Quando os meus filhos estão tremendamente aborrecidos têm duas  tendências básicas: testar os limites da minha paciência ( que são bastante limitados…) ou provocar-se mutuamente até um inevitável estado bélico. Há uma solução que funciona sempre: água! Uma banheira bem cheia de água tépida com luz suave e uma musiquita a acompanhar tem o mesmo efeito do mais eficiente exorcismo.    E devo dizer que esta é apenas uma das muitas soluções para o aborrecimento crónico da humanidade em geral! Porque ele há-de existir sempre, resta apenas saber contorná-lo não com atitudes bélicas e repletas de adrenalina e efeitos nefastos, mas com a escolha de atividades mais apaziguadoras e produtivas. O aborrecimento crónico pode ser afastado por momentos zen ou repletos de paixão; pode ser afastado pela criatividade, solidariedade e caridade… e por tantas outras coisas boas para a nossa evolução no trilho certo!
Ana Dias

2.11.11

Ser inteiro

   Num feriado ainda ameno, entre um passeio de bicicleta, um banho de mar, um jogo de ténis, alguma escrita e arrumações, consigo encontrar tempo para me esticar no sofá e dar luz verde ao frenético polegar.
  Páro na volumosa Oprah.  A entrevistada é  Jane Fonda:  72 anos, um aspeto tremendamente jovem e saudável e um brilho feliz no olhar. Fico a ver. Afinal a senhora, a cada nova frase que diz, apresenta-se-me com a característica que mais gosto: coerência. Mando parar o polegar porque pressentido que algo  bom vai sair dali.
  E fico assim, durante quase uma hora, a conhecer  mais um caso de vida, como tantos, com altos e baixos, conquistas e desesperos. Sinto-me inspirada com muitas das coisas que diz… e comprova! Afinal envelhecer pode muito bem ser uma aventura maravilhosa, sábia e enriquecedora!
  Mas o momento pelo qual eu esperava, o tal que pressenti que chegaria desde o primeiro momento da entrevista, chega sob a forma de parcas palavras: “ As mulheres tentam, durante toda a vida, ser perfeitas… e esquecem que devem lutar apenas por ser inteiras!” .  A frase atinge-me com a força de um furação de boas consequências…. e começo,  de imediato, a “digerir” aquilo!
   Não são só as mulheres a buscar a perfeição quando, em vez disso,  deviam lutar por ser inteiras. Também aos homens se aplica. Cada vez mais.   Ser perfeito não será apenas uma utopia sem qualquer hipótese de concretização prática?  Ser inteiro não será a mais nobre causa a que  pode aspirar cada indivíduo, no campo da sua própria evolução? E o que implica ser inteiro? Aceitarmo-nos e aprendermos a lidar com as nossas idiossincrasias e características mais estranhas? Ou ousar colocar a nossa fasquia cum cume de realização pessoal, familiar e profissional? Ser inteiro será  aspirar a viver em absoluta e pura verdade com todos os que nos rodeiam e darmos tudo de nós?
   Creio que a resposta a esta questão apenas poderá ser dada por cada um de vocês… Mas posso partilhar que, para mim, ser inteira é não me dececionar; é ser verdadeira comigo;  é cair e voltar a reerguer-me mais forte e sábia; é saber  desistir do que não importa e descobrir o que tem realmente importância. Ser inteira é amar-me incondicionalmente, mas aceitar críticas; é amar incondicionalmente os outros sem deixar que esses outros me destruam ou suguem demasiada energia. Ser inteira, para mim, é estar ativa, cheia de planos, projetos, sonhos e metas…. enquanto, ao mesmo tempo, sei desfrutar a viagem….
Ana Dias

1.11.11

Onze horas



    Não me emocionei tremendamente no primeiro dia de escola dos meus filhos. Encarei o facto de forma muito prática  e concluí que é  a ordem natural das coisas: nascem, gatinham, andam, falam, pensam que mandam, vão para a escola, continuam a pensar que mandam, e por aí fora.
   Mas ontem à noite um novo dado surgiu nesta perfeita e previsível equação…
- Mãe… tenho a festa do Halloween lá na escola. Quero que me leves às oito e me vás buscar às onze… pode ser?
Reconheci no seu “pode ser”  uma ferramenta rudimentar  de mal disfarçada humildade por parte de quem sabia, à partida, que a batalha estava ganha.
 - Bolas… Começas cedo…. – Respondi-lhe, com o humor a oscilar entre o orgulho e a resignada condição de mãe de pré-adolescentes.
- Óh mãe… - Por momentos o Tomás viu a vida a andar para trás.
- Tem calma! Claro que podes ir! Mas onze horas é muito tarde para quem tem só dez anos… - Mal acabei de falar lembrei-me das intermináveis negociações com o meu pai… Ri-me… Parece que foi há tante tempo e, ao mesmo tempo, há tempo nenhum…
   Ouvi, nostálgica, a forte argumentação do doce Tomás, advogando com hombridade todas as razões pelas quais considerava que às onze horas era justo para os dois.
   Condescendi sem grande dificuldade e deixei-o na sua primeira festa noturna com direito a DJ e tudo. Combinei ir buscá-lo ao portão da escola às onze em ponto e,  às cinco para as onze, lá o vi a aparecer no local combinado….cinco minutos antes do tempo, tal como eu  fazia na época em que era eu a ter que saber os limites.
   Quando lhe levei o copo de água à cama e dei o beijo de boas noites, sorri…  Isto é complicado, mas pode ser que corra bem…
Ana Amorim Dias

31.10.11

Sete mil milhões


“….no dia em que a população mundial chega aos sete mil milhões de habitantes…” - oiço o senhor das notícias dizer na rádio…   Sete mil milhões?? Como raio sabem que é hoje?? Qual é o bébé que nasce hoje com direito à faixa que diz: “Parabéns! És o bébé nº sete mil milhões e acabaste de ganhar um Mundo sem guerras nem estupidez!”
   E isto leva-me a pensar como foi que,  ao longo de apenas algumas décadas duplicamos a população mundial… num mundo onde a vida humana vale por vezes tão pouco… Mas, por outro lado, lembro-me que,  enquanto em alguns locais se mata como se se bebesse um café, noutros tudo se faz para salvar uma única vida! Lembro-me de todas as notícias em que as baixas são apresentadas como um número com o qual já ninguém se emociona e recordo todas as outras, que ainda nos deixam com as lágrimas a querer saltar dos olhos por constatarmos que há Homens dispostos a arriscar as suas vidas para salvar as vidas de perfeitos desconhecidos… Arrepio-me ao pensar em todos os casos em que o altruísmo e o amor sem rosto resgata a vida de quem é salvo e de quem salva, ao devolver-lhes a preciosa fé na humanidade!
   Numa época em que a excelência no desenvolvimento anda de mãos dadas com as mais diversas crises, talvez devessemos repensar crenças e valores. Talvez fosse produtivo deixar de viver nos medos e sintonizar as nossas vidas na frequência da determinação e da coragem, chamando a nós não só a responsabilidade de uma atitude mais positiva, como  a  ação de construção de uma realidade circundante mais de acordo com o que gostaríamos que o Mundo fosse…
   Talvez assim,  quando a criança nº oito mil milhões nascer, lhe possa ser entregue uma faixa que diga: “ Bem vindo, bébé… O mundo ainda não é perfeito, mas andamos a fazer os possíveis!!”
Ana Dias

28.10.11

Fleumático conhecimento…


  Estava numa esplanada a escrever e não pude evitar uma certa irritação com o tom pedante e egocêntrico com que um jovem senhor partilhava ideias com uma amiga.  Quando vieram recolher o seu pedido, o sujeito, na tentativa de se superiorizar, perguntou ao homem quem o foi atender se  também ele  era niilista.
  Mas o inquirido escapou por pouco: foi interpelado por outras pessoas quase em simultâneo  e sumiu-se sem revelar o desconforto de não saber o que responder.
   Decidi tornar-me uma instantânea protetora dos fracos e oprimidos e fiz uma busca rápida no google, porque também eu não saberia ter respondido àquela questão, assim, sem pré-aviso. Chamei o senhor do café antes de ele ir de novo à mesa do prepotente fulano e fui rápida nas palavras: - “ O niilismo é uma espécie de “nadismo”; é a negação de todos os princípios religiosos, políticos e sociais!”
    Embora este tema dê para semestres inteiros nos cursos de filosofia, o senhor do café fez um excelente uso das minhas parcas palavras. Dirigiu-se à malfadada mesa e, ao colocar o pedido em frente aos seus interlocutores, disse: - “Em resposta à questão que me colocou: não, não sou niilista. Tenho muitas crenças em todos os aspectos da vida, social e moral. Não me parece que a negação de tudo e a preconização da ausência de sentido faça, por si, qualquer sentido!”.   Virou-se, piscou-me o olho com um sorriso cúmplice e desapareceu dali, deixando atrás de si o convencido pedante com a boca aberta em desconforto.
  Lembrei-me deste episódio porque andava,  há uns tempos,  com uma palavra a “perseguir-me” o espírito sem descanso:   “fleumático”. Tinha uma leve ideia do que significava, mas só ontem à noite descansei, ao comprovar que tal palavra adjetiva sujeitos imperturbáveis, impassíveis, que controlam as emoções.
   O senhor a quem me aliei naquela esplanada foi bastante fleumático e talvez por isso me tenha lembrado deste singular episódio.
   Mas, se tanto me irritou o sujeito com ares de superioridade intelectual, o que mais me rouba a capacidade de ser fleumática é a ignorância orgulhosa!  Perco a razão ao verificar que há quem hasteie a bandeira da ignorância com um orgulho assumido!    Li ontem no jornal que há um concurso em que os concorrentes pensam que a África é um pais da América do sul, que o Sena é um rio da Ásia e que andam há uma semana a tentar descobrir onde fica o Dubai….
  Mas será possível que haja quem não deseje esconder-se até ao fim da vida nalgum buraco escuro e longínquo,  depois de revelar tamanha ignorância em público?? Já não se pede a ninguém que conheça as correntes filosóficas, as tendências artísticas ou o nome dos grandes descobridores… Já não se pede que conheçam os mais básicos factos históricos, os responsáveis pelas grandes descobertas científicas, ou dos pais da economia… Não se pede que conheçam todas as capitais e rios de cada país, nem a obra dos grandes autores… Mas por favor!! O mínimo que se pode pedir é um pouco de curiosidade para continuar a aprender sempre!! O mínimo que se pode pedir a qualquer ser humano é que honre o estatudo do  Ser pensante e dotado de raciocínio que é, e use a massa cinzenta antes que, pela ordem natural da evolução, ela se transforme numa papa amalgamada unicamente capaz da busca de alimento e abrigo!
   O conhecimento não ocupa lugar, está acessível mesmo em crise, e é fundamental à realização do Homem enquanto Homem…  É por isso que vos peço ( com a boca toda, como dizem os meus filhos ) que continuem na busca constante de mais conhecimento; que pensem pela vossa cabeça e façam as vossas equações e descobertas e,  já agora… que inspirem sempre os outros a fazer o mesmo!   Porque, como o fleumático senhor que trabalhava naquela esplanada, podemos sempre apanhar a “bola” que nos atiram e marcar grandes golos!!
Ana Dias