Ensino burocratizado
- Não gosto lá muito desses calções, João.
- Mas são bons para levar hoje, porque tenho "expressão físico-motora".
- Ah, tens ginástica?
- Não, mãe: expressão físico-motora!
É claro que não lhe disse, mas aquilo fez-me logo imaginar que estivessem a ensinar aos putos como fazer manguitos e espetar expressivamente o dedo do meio.
Porque é que não chamam as coisas pelos nomes? Não entendo! É para sermos mais finos? É para passar a ideia que temos um ensino muito eficaz? Porque é que não há nome nenhum composto por menos de três palavras? No meu tempo tínhamos "contínuas" em vez de auxiliares da ação educativa que, apesar do modesto epíteto, eram bem eram mais respeitadas. As fichas de avaliação diagnóstica chamavam-se testes e ai de nós se não estudássemos com afinco. Não tínhamos psicólogos de volta de nós a analisar o nosso enquadramento psico-socio-emocional: levavamos um par de reguadas e, com um bocadito de sorte, em casa, mais um aconchego no pêlo.
E os professores? Que felicidade não seria, não terem três resmas de papel para preencher e sete reuniões por mês, podendo apenas ensinar? Fiscalizações ao ensino? Que eu me lembre, se as havia, deviam ser muito suaves porque consigo visualizar perfeitamente a minha professora Alexandrino a mandar-lhes um daqueles pares de berros que nos punha a todos em sentido.
E não, nunca fiquei traumatizada. Nem pelos gritos nem pelas reguadas. Nem pelos nomes de uma só palavra nem pela ausência de rigorosos mapas a dividir os minutos dados ao ensino da matemática ou do português. O que me traumatiza, agora, é ver pessoas capazes e cheias de boa vontade, que não podem ensinar os nossos filhos e netos porque estão atolados num lodo burocrático que lhes rouba o tempo para fazer o que devem e querem: ensinar.
Da mesma forma, espero não vos traumatizar ao dizer que, por mim, os burocratas bem podiam ir todos passar uns meses a cavar, lá nas minas da Sibéria. Podia ser que voltassem com as ideias mais claras e parassem com a tendência, tão difícil de inverter, de regulamentarizar cada passo que se dá.
Pensando melhor: podiam lá ficar a cavar para todo o sempre!
Ana Amorim Dias
26/9/2014
Enviado do Writer
Enviada do meu iPad
9.10.14
Paixão pelo cérebro
Paixão pelo cérebro
Falei-lhe do livro que estava a ler e ela, no dia seguinte, foi comprá-lo.
Duas semanas depois, ao encontrá-la de novo, foi a sua vez de me falar de algo:
-"Lucy"! Tens de ver!
A primeira vez que fui ao cinema tinha seis anos. E fui sozinha. Entendi nesse dia que não precisamos de companhia para ver um filme: os nossos sentidos bastam, e o entendimento também. Lembro-me tão nitidamente da combustão sensorial que trazia, ao chegar a casa, que quase a consigo ainda sentir, tão pulsante e intensa como naquele momento.
- Lucy? Nunca ouvi falar desse filme.
- Pois, mas vais adorar: eu só me lembrava de ti e de todos os métodos de que me falas para exponenciarmos ao máximo as nossas capacidades cerebrais.
A Ângela é das pessoas mais inteligentes e cheias de personalidade que conheço. Perceber, por isso, a elevada consideração que tem pelo meu cérebro, deixa-me deveras encantada.
Enquanto, ontem, via o filme, lembrei-me de Salvadora, a personagem principal de um livro que me ficou no quinto capítulo por culpa do Eric Lobo. Tinha-me esquecido completamente dela e, à medida que ia vendo os efeitos da poderosa droga que se libertava dentro da Scarlett-Lucy, ia verificando a similitude comportamental entre ambas. Também na Salvadora eu quis ensaiar os efeitos de um crescente controle das potencialidades do cérebro. Recordei-me do quanto me estava a divertir ao fazê-lo: quase tanto como sempre me divirto ao tentar constantemente expandir os limites do meu próprio cérebro e consciência.
Regressei a casa com a mesma sensação de há trinta e quatro anos: pura combustão. E, no meio de todas as reflexões e novas sinopses, anuí comigo mesma quanto à derradeira mensagem de "Lucy": o propósito da existência, desde o primeiro homem, é a transmissão da célula... do conhecimento.
Guiei até casa em estado de absoluta paixão. Talvez estarmos apaixonados por ele seja o primeiro passo para começar a usar o cérebro com algum sopro de eficácia!
Ana Amorim Dias
24/9/2014
Falei-lhe do livro que estava a ler e ela, no dia seguinte, foi comprá-lo.
Duas semanas depois, ao encontrá-la de novo, foi a sua vez de me falar de algo:
-"Lucy"! Tens de ver!
A primeira vez que fui ao cinema tinha seis anos. E fui sozinha. Entendi nesse dia que não precisamos de companhia para ver um filme: os nossos sentidos bastam, e o entendimento também. Lembro-me tão nitidamente da combustão sensorial que trazia, ao chegar a casa, que quase a consigo ainda sentir, tão pulsante e intensa como naquele momento.
- Lucy? Nunca ouvi falar desse filme.
- Pois, mas vais adorar: eu só me lembrava de ti e de todos os métodos de que me falas para exponenciarmos ao máximo as nossas capacidades cerebrais.
A Ângela é das pessoas mais inteligentes e cheias de personalidade que conheço. Perceber, por isso, a elevada consideração que tem pelo meu cérebro, deixa-me deveras encantada.
Enquanto, ontem, via o filme, lembrei-me de Salvadora, a personagem principal de um livro que me ficou no quinto capítulo por culpa do Eric Lobo. Tinha-me esquecido completamente dela e, à medida que ia vendo os efeitos da poderosa droga que se libertava dentro da Scarlett-Lucy, ia verificando a similitude comportamental entre ambas. Também na Salvadora eu quis ensaiar os efeitos de um crescente controle das potencialidades do cérebro. Recordei-me do quanto me estava a divertir ao fazê-lo: quase tanto como sempre me divirto ao tentar constantemente expandir os limites do meu próprio cérebro e consciência.
Regressei a casa com a mesma sensação de há trinta e quatro anos: pura combustão. E, no meio de todas as reflexões e novas sinopses, anuí comigo mesma quanto à derradeira mensagem de "Lucy": o propósito da existência, desde o primeiro homem, é a transmissão da célula... do conhecimento.
Guiei até casa em estado de absoluta paixão. Talvez estarmos apaixonados por ele seja o primeiro passo para começar a usar o cérebro com algum sopro de eficácia!
Ana Amorim Dias
24/9/2014
Piratas e piratas
Piratas e piratas
Não sei como funcionam os outros na escolha matinal da roupa a usar. Provavelmente há de tudo: quem use a do dia anterior; quem vista a que está mais à mão; quem se resigne ao que está lavado e passado; e até quem, num exercício de organização extrema, planeie os modelitos para a semana inteira.
Eu sou daquelas que acorda e pensa numa peça em particular, normalmente as botas. Depois tudo o resto gira em volta do estilo e cor das botas eleitas.
Hoje foram umas pretas. Com pouco salto e de cano alto, como gosto. As calças foram escolhidas em cinzento e depois dirigi-me ao armário das blusas pretas. Reparei que a do "Kiss me / I'm a pirate - with proud" não tinha sido usada o Verão inteiro. Pu-la com satisfação. Gosto de vestir o papel de pirata irreverente, capaz de fazer sonhar os leitores com estórias de mil aventuras. Gosto mesmo.
Cheia de energia, desci as escadas e, na companhia de um copo de leite gelado, pus-me a ver as notícias...
Dizem que os três milhões de processos judiciais não desapareceram. Mas ninguém sabe em que vórtice da desvirtuosa virtualidade do citius se encontram. Normal.
Dizem que não houve luvas no processo dos submarinos. Mas os alemães foram dentro. Cá? Nada. Normal.
Dizem que os condenados no "face oculta" afinal são inocentes. Tanto que o menino Sócrates nem sequer foi julgado. Os condenados vão apresentar recurso e, quase aposto, ter carta branca para continuar a piratear a nação. Normal.
Podia ficar aqui o dia todo, a semana inteira, até! Mas estes exemplos chegam para perceber que há piratas e piratas. Há os aventureiros, sãos e heróicos, que continuam a fazer voar o imaginário das gentes. E há os filibusteiros nojentos, que costumam escapar impunes por mais asneiras e pulhices que façam. É normal.
Ana Amorim Dias
23/9/2014
Não sei como funcionam os outros na escolha matinal da roupa a usar. Provavelmente há de tudo: quem use a do dia anterior; quem vista a que está mais à mão; quem se resigne ao que está lavado e passado; e até quem, num exercício de organização extrema, planeie os modelitos para a semana inteira.
Eu sou daquelas que acorda e pensa numa peça em particular, normalmente as botas. Depois tudo o resto gira em volta do estilo e cor das botas eleitas.
Hoje foram umas pretas. Com pouco salto e de cano alto, como gosto. As calças foram escolhidas em cinzento e depois dirigi-me ao armário das blusas pretas. Reparei que a do "Kiss me / I'm a pirate - with proud" não tinha sido usada o Verão inteiro. Pu-la com satisfação. Gosto de vestir o papel de pirata irreverente, capaz de fazer sonhar os leitores com estórias de mil aventuras. Gosto mesmo.
Cheia de energia, desci as escadas e, na companhia de um copo de leite gelado, pus-me a ver as notícias...
Dizem que os três milhões de processos judiciais não desapareceram. Mas ninguém sabe em que vórtice da desvirtuosa virtualidade do citius se encontram. Normal.
Dizem que não houve luvas no processo dos submarinos. Mas os alemães foram dentro. Cá? Nada. Normal.
Dizem que os condenados no "face oculta" afinal são inocentes. Tanto que o menino Sócrates nem sequer foi julgado. Os condenados vão apresentar recurso e, quase aposto, ter carta branca para continuar a piratear a nação. Normal.
Podia ficar aqui o dia todo, a semana inteira, até! Mas estes exemplos chegam para perceber que há piratas e piratas. Há os aventureiros, sãos e heróicos, que continuam a fazer voar o imaginário das gentes. E há os filibusteiros nojentos, que costumam escapar impunes por mais asneiras e pulhices que façam. É normal.
Ana Amorim Dias
23/9/2014
Encontrados
Encontrados
Passei a manhã do segundo dia de Outono num dos meus muitos escritórios. A manhã, inicialmente ensolarada, foi dando lugar a nuvens, vento e alguns relâmpagos. Tentei por duas vezes começar a escrever a crónica mas abortei de imediato, em ambas as ocasiões, por não estarem reunidos os dois sentimentos imprescindíveis: paixão pelo conteúdo e desejo pela forma. Não que os temas não fossem bons, simplesmente não os estava a sentir.
Decidi esperar pelo momento em que a luz se acendesse e avancei, manhã fora, a tratar de muitos assuntos pendentes enquanto as primeiras folhas se desprendiam das árvores, deixando-se levar pelo vento.
O almoço tardio fi-lo eu. Algo simples, só para mim. Sentei-me de novo no alpendre, mas tive que voltar à cozinha pelo guardanapo de pano. Foi então que reparei que eles estavam ali, na mesinha da entrada: os brincos que há tantas semanas perdera.
Acredito que a reação que escolhemos ter, perante tudo na vida, condiciona o subsequente desenrolar dos acontecimentos que nos atingem. O que é o mesmo que dizer que o nosso pensamento transforma a nossa realidade, uma vez que é o pensamento que comanda (deve comandar) as nossas reações.
Ora quando eu perco alguma coisa só há dois caminhos possíveis: ou apenas reparo que perdi o que perdi após o encontrar de novo; ou escolho a atitude despreocupada do "calma que logo aparece". Em casos graves digo adeus à coisa ou pessoa perdida e agradeço o tempo que as tive. Ponto final. O resultado? Tudo o que perco volta a mim. Tudo! Até quem perdi para a morte me regressa quando o chamo.
Acabo o meu café a pensar que agora sim, tenho a crónica do dia. Foi trazida por um par de brincos que tiveram saudades minhas.
Ana Amorim Dias
22/9/2014
Passei a manhã do segundo dia de Outono num dos meus muitos escritórios. A manhã, inicialmente ensolarada, foi dando lugar a nuvens, vento e alguns relâmpagos. Tentei por duas vezes começar a escrever a crónica mas abortei de imediato, em ambas as ocasiões, por não estarem reunidos os dois sentimentos imprescindíveis: paixão pelo conteúdo e desejo pela forma. Não que os temas não fossem bons, simplesmente não os estava a sentir.
Decidi esperar pelo momento em que a luz se acendesse e avancei, manhã fora, a tratar de muitos assuntos pendentes enquanto as primeiras folhas se desprendiam das árvores, deixando-se levar pelo vento.
O almoço tardio fi-lo eu. Algo simples, só para mim. Sentei-me de novo no alpendre, mas tive que voltar à cozinha pelo guardanapo de pano. Foi então que reparei que eles estavam ali, na mesinha da entrada: os brincos que há tantas semanas perdera.
Acredito que a reação que escolhemos ter, perante tudo na vida, condiciona o subsequente desenrolar dos acontecimentos que nos atingem. O que é o mesmo que dizer que o nosso pensamento transforma a nossa realidade, uma vez que é o pensamento que comanda (deve comandar) as nossas reações.
Ora quando eu perco alguma coisa só há dois caminhos possíveis: ou apenas reparo que perdi o que perdi após o encontrar de novo; ou escolho a atitude despreocupada do "calma que logo aparece". Em casos graves digo adeus à coisa ou pessoa perdida e agradeço o tempo que as tive. Ponto final. O resultado? Tudo o que perco volta a mim. Tudo! Até quem perdi para a morte me regressa quando o chamo.
Acabo o meu café a pensar que agora sim, tenho a crónica do dia. Foi trazida por um par de brincos que tiveram saudades minhas.
Ana Amorim Dias
22/9/2014
We are family
We are family
- Precisas de alguma coisa?
- Não, está tudo.
- E o teu copo?...
- Cheio!
Nos casamentos, costumo passar pelos vários bares para verificar se falta alguma coisa. Faz parte da lista das verificações averiguar se os meus meninos estão alimentados e felizes. Não me passa pela ideia, por exemplo, que o Paulo esteja a cortar um presunto inteiro sem ter ao seu lado um copo de cerveja bem gelada.
- É a sua patroa?
Ainda oiço um convidado a fazer a pergunta depois de virar as costas.
- Sim.
- Que sorte!
Sorrio e concordo.
Às tantas da manhã, interrompo uma conversa.
- Desculpem, eu já volto, vou só ali animar as tropas.
E regresso para junto deles. Estamos todos cansados, é normal. Mas sei o que tenho a fazer: o que sempre faço. Trago energia. Incentivo. Trabalho um pouco ao seu lado. Faço loucuras. Digo disparates. E dançamos enquanto levantamos as mesas ou servimos bebidas. Depois bebemos um copo. Gozamos uns com os outros e rimos. Rimos muito. Lembramos velhas histórias e rimos de novo. O cansaço esvai-se na sensação de equipa, de pertença, de festa.
Quem tem sorte sou eu. Tenho umas equipas de sonho; umas tropas invencíveis que nunca se rendem ao cansaço nem à falta de paciência. Eles só se sabem render à felicidade de alguns momentos em que sentimos que, mais que equipa... "We are family"
Ana Amorim Dias
21/9/2014
- Precisas de alguma coisa?
- Não, está tudo.
- E o teu copo?...
- Cheio!
Nos casamentos, costumo passar pelos vários bares para verificar se falta alguma coisa. Faz parte da lista das verificações averiguar se os meus meninos estão alimentados e felizes. Não me passa pela ideia, por exemplo, que o Paulo esteja a cortar um presunto inteiro sem ter ao seu lado um copo de cerveja bem gelada.
- É a sua patroa?
Ainda oiço um convidado a fazer a pergunta depois de virar as costas.
- Sim.
- Que sorte!
Sorrio e concordo.
Às tantas da manhã, interrompo uma conversa.
- Desculpem, eu já volto, vou só ali animar as tropas.
E regresso para junto deles. Estamos todos cansados, é normal. Mas sei o que tenho a fazer: o que sempre faço. Trago energia. Incentivo. Trabalho um pouco ao seu lado. Faço loucuras. Digo disparates. E dançamos enquanto levantamos as mesas ou servimos bebidas. Depois bebemos um copo. Gozamos uns com os outros e rimos. Rimos muito. Lembramos velhas histórias e rimos de novo. O cansaço esvai-se na sensação de equipa, de pertença, de festa.
Quem tem sorte sou eu. Tenho umas equipas de sonho; umas tropas invencíveis que nunca se rendem ao cansaço nem à falta de paciência. Eles só se sabem render à felicidade de alguns momentos em que sentimos que, mais que equipa... "We are family"
Ana Amorim Dias
21/9/2014
Uniões
Uniões
Conheço bem a história do Reino Unido? Não.
Saberia explicar as vantagens e desvantagens da saída da Escócia? Pelo senso comum sim, fundamentadamente, não.
A decisão do referendo de ontem tem implicações diretas e palpáveis na minha vida? Não.
Então porque é que fiquei contente com a decisão dos escoceses? Simples: a união é sempre muito mais bela que a cisão.
Fiquei foi para aqui a pensar como se seria se pertencêssemos ao "Reino Ibérico Unido"... Soa-me bastante bem. E aqui sim, sei exatamente porquê!
Ana Amorim Dias
19/9/2014
Conheço bem a história do Reino Unido? Não.
Saberia explicar as vantagens e desvantagens da saída da Escócia? Pelo senso comum sim, fundamentadamente, não.
A decisão do referendo de ontem tem implicações diretas e palpáveis na minha vida? Não.
Então porque é que fiquei contente com a decisão dos escoceses? Simples: a união é sempre muito mais bela que a cisão.
Fiquei foi para aqui a pensar como se seria se pertencêssemos ao "Reino Ibérico Unido"... Soa-me bastante bem. E aqui sim, sei exatamente porquê!
Ana Amorim Dias
19/9/2014
Abalos e terramotos
Abalos e terramotos
Se me tiveste visto de fora, acho que teria tido medo. Sim. Definitivamente teria pensado: "chiça, com esta não me meto eu, não!" ou então "credo, há pessoas que não se sabem mesmo controlar..."
Passado o par de impropérios trovejantemente vociferados e o voo picado das mesas que fiz desaparecer do meu caminho, lembrei-me do "Zeca Diabo" (personagem de uma das novelas que via em miúda) e da forma como se regenerou da sua vida de malfeitor contando até dez sempre que se irritava, na esperança de que a vontade de espancar ou matar alguém lhe passasse. Segui-lhe o exemplo. Acalmei o ritmo cardíaco, estabilizei-me um pouco e procurei apreender se conseguia tirar algum ensinamento de tão explosiva atitude.
"Será que as pessoas devem tentar reagir sempre com toda a calma? Ou será produtivo que, de tempos a tempos, se passem um bocado?"
Normalmente aconselho os outros a nunca tomarem decisões ou reagirem de cabeça quente. Então porque é que eu hoje soltei a minha fúria e só não fiz tantos estragos como um tornado por me ter controlado depressa? Para onde foi a evolução da tempestuosa criatura que em mim habita e que tenho aprendido a domar?
Decidi ordenar os pensamentos na certeza de que, subsequentemente e como sempre acontece, também os sentimentos e a vida se ordenariam.
- Olha pá...-disse a mim mesma - isto é como a crosta terrestre: enquanto forem ocorrendo uns ligeiros abalos telúricos para estabilizar o planeta, não ocorrem os colossais terramotos...
Percebi que talvez não estivesse totalmente errada: enquanto nos formos passando só um bocadinho e apenas de vez em quando, não precisamos de nos passar de todo nem para sempre.
À cautela, e para prevenir algum outro sismo temperamental, vim arrefecer a temperatura ao único que tem mão em mim: o Mar!
Ana Amorim Dias
18/9/2014
Se me tiveste visto de fora, acho que teria tido medo. Sim. Definitivamente teria pensado: "chiça, com esta não me meto eu, não!" ou então "credo, há pessoas que não se sabem mesmo controlar..."
Passado o par de impropérios trovejantemente vociferados e o voo picado das mesas que fiz desaparecer do meu caminho, lembrei-me do "Zeca Diabo" (personagem de uma das novelas que via em miúda) e da forma como se regenerou da sua vida de malfeitor contando até dez sempre que se irritava, na esperança de que a vontade de espancar ou matar alguém lhe passasse. Segui-lhe o exemplo. Acalmei o ritmo cardíaco, estabilizei-me um pouco e procurei apreender se conseguia tirar algum ensinamento de tão explosiva atitude.
"Será que as pessoas devem tentar reagir sempre com toda a calma? Ou será produtivo que, de tempos a tempos, se passem um bocado?"
Normalmente aconselho os outros a nunca tomarem decisões ou reagirem de cabeça quente. Então porque é que eu hoje soltei a minha fúria e só não fiz tantos estragos como um tornado por me ter controlado depressa? Para onde foi a evolução da tempestuosa criatura que em mim habita e que tenho aprendido a domar?
Decidi ordenar os pensamentos na certeza de que, subsequentemente e como sempre acontece, também os sentimentos e a vida se ordenariam.
- Olha pá...-disse a mim mesma - isto é como a crosta terrestre: enquanto forem ocorrendo uns ligeiros abalos telúricos para estabilizar o planeta, não ocorrem os colossais terramotos...
Percebi que talvez não estivesse totalmente errada: enquanto nos formos passando só um bocadinho e apenas de vez em quando, não precisamos de nos passar de todo nem para sempre.
À cautela, e para prevenir algum outro sismo temperamental, vim arrefecer a temperatura ao único que tem mão em mim: o Mar!
Ana Amorim Dias
18/9/2014
Divinos genes
Divinos genes
O meu Deus adora rir às gargalhadas, gosta de Sol, mar e conversas profundas. O meu Deus adora arte e é fã incondicional do Ser Humano. O meu Deus não julga, não castra, não vinga. Ele entende, aceita e perdoa; limita-se a observar e esperar, não pelo dia do juízo final mas pela era em que tenhamos finalmente juízo.
O meu Deus não lança pragas colossais nem condena ninguém ao inferno; o meu Deus não é terrível nem temível, e sim tão tangível que quase se torna incredível.
O meu Deus está-se nas tintas para ser o único. Porque sabe que em cada Homem existe uma célula do seu todo; sabe que enquanto os Homens se injustiçarem e matarem em "seu nome", é como se Ele tivesse um cancro que precisa de ser curado para que sobrevivamos todos.
O meu Deus não se importa com o tamanho da minha fé, mas com o tamanho da minha humanidade e amor ao próximo.
O meu Deus não faz da sua existência a minha desresponsabilização, pelo contrário: sou tão mais responsável pelo meu melhoramento constante e pelo seguro futuro do mundo, quanto mais entendo que sou, como tu, portadora do gene divino.
Ana Amorim Dias
17/9/2914
O meu Deus adora rir às gargalhadas, gosta de Sol, mar e conversas profundas. O meu Deus adora arte e é fã incondicional do Ser Humano. O meu Deus não julga, não castra, não vinga. Ele entende, aceita e perdoa; limita-se a observar e esperar, não pelo dia do juízo final mas pela era em que tenhamos finalmente juízo.
O meu Deus não lança pragas colossais nem condena ninguém ao inferno; o meu Deus não é terrível nem temível, e sim tão tangível que quase se torna incredível.
O meu Deus está-se nas tintas para ser o único. Porque sabe que em cada Homem existe uma célula do seu todo; sabe que enquanto os Homens se injustiçarem e matarem em "seu nome", é como se Ele tivesse um cancro que precisa de ser curado para que sobrevivamos todos.
O meu Deus não se importa com o tamanho da minha fé, mas com o tamanho da minha humanidade e amor ao próximo.
O meu Deus não faz da sua existência a minha desresponsabilização, pelo contrário: sou tão mais responsável pelo meu melhoramento constante e pelo seguro futuro do mundo, quanto mais entendo que sou, como tu, portadora do gene divino.
Ana Amorim Dias
17/9/2914
As alterações perdidas
As alterações perdidas
Não percebo como é que perdi mais de duas horas de trabalho! Ou melhor, até entendo. Erro humano. Como quase sempre. Mais de duas horas a trabalhar cinco páginas. Nunca tal me tinha acontecido. Quis aproximar-me o mais possível da minha melhor forma, no que à estética literária diz respeito. Estava a senti-la entre os dedos quando as alterações se perderam. Num desespero pouco angustiado procurei, em vão, recuperar a noite de trabalho...
"QUATRO", o quarto livro que escrevi, esperou na gaveta quase dois anos. Foi paciente e merece por isso absorver, na sua forma, os reflexos da evolução da autora. Penso no assunto, no meu escritório, a ver a chuva cair: exercício bonito este, de comparar a escritora que fui com aquela em que me tornei. No conteúdo sei que não tocarei porque a acompanhante sádica, a assassina profissional, o ex-pugilista e o idoso repleto de segredos, nunca me enganaram: têm histórias fabulosas. Mas até cada frase soar exatamente como eu quero, muitos dias passarão.
Quanto às alterações perdidas... Bem, as de hoje serão melhores e tomarei mais cuidado!
Ana Amorim Dias
16/9/2014
Não percebo como é que perdi mais de duas horas de trabalho! Ou melhor, até entendo. Erro humano. Como quase sempre. Mais de duas horas a trabalhar cinco páginas. Nunca tal me tinha acontecido. Quis aproximar-me o mais possível da minha melhor forma, no que à estética literária diz respeito. Estava a senti-la entre os dedos quando as alterações se perderam. Num desespero pouco angustiado procurei, em vão, recuperar a noite de trabalho...
"QUATRO", o quarto livro que escrevi, esperou na gaveta quase dois anos. Foi paciente e merece por isso absorver, na sua forma, os reflexos da evolução da autora. Penso no assunto, no meu escritório, a ver a chuva cair: exercício bonito este, de comparar a escritora que fui com aquela em que me tornei. No conteúdo sei que não tocarei porque a acompanhante sádica, a assassina profissional, o ex-pugilista e o idoso repleto de segredos, nunca me enganaram: têm histórias fabulosas. Mas até cada frase soar exatamente como eu quero, muitos dias passarão.
Quanto às alterações perdidas... Bem, as de hoje serão melhores e tomarei mais cuidado!
Ana Amorim Dias
16/9/2014
Fertilidades
- Espera! Então não tiramos a selfie?
Olhei-o de lado, desconfiada. Teriam passado por ali alienígenas e trocado o Capitão por um sósia insuspeito?
- Pois é! A fotografia que tiramos sempre, no primeiro dia de aulas!- concordou o Tomás.
Saímos prontamente do carro. Todos menos o João, que ainda andava a recolher a mochila e a ajeitar o cabelo, ao mesmo tempo que saía de casa.
Dois. Três. Quatro disparos de iPhone e o Capitão sem reclamar nem revelar a impaciência com que sempre brinda estes momentos de captura. Estranho. Muito estranho.
A viagem até às escolas dos rapazes foi absolutamente festiva. O entusiasmo de uma nova manhã memorável foi brindado com gotas de chuva libertadoras do mais intenso e perfeito cheiro da terra.
Como num bom augúrio, imaginei que toda aquela alegria e odor a fertilidade se fundissem numa benção: a da fecundação das mentes com iluminação e cultura.
Quando, há pouco, os fui buscar, vi as suas expressões ainda felizes e recordei-lhes de novo que a preciosa oportunidade de ir à escola, que tantos milhões de meninos não têm, é um privilégio que deve ser celebrado com sede de aprender mais e mais. Quanto ao Capitão... Bem, o beijo apaixonado com que me recebeu, neste final de tarde, dissipou quaisquer dúvidas: pode ter solicitado a selfie mas nenhum alienígena o trocou por uma simples imitação.
Ana Amorim Dias
15/9/2014
Olhei-o de lado, desconfiada. Teriam passado por ali alienígenas e trocado o Capitão por um sósia insuspeito?
- Pois é! A fotografia que tiramos sempre, no primeiro dia de aulas!- concordou o Tomás.
Saímos prontamente do carro. Todos menos o João, que ainda andava a recolher a mochila e a ajeitar o cabelo, ao mesmo tempo que saía de casa.
Dois. Três. Quatro disparos de iPhone e o Capitão sem reclamar nem revelar a impaciência com que sempre brinda estes momentos de captura. Estranho. Muito estranho.
A viagem até às escolas dos rapazes foi absolutamente festiva. O entusiasmo de uma nova manhã memorável foi brindado com gotas de chuva libertadoras do mais intenso e perfeito cheiro da terra.
Como num bom augúrio, imaginei que toda aquela alegria e odor a fertilidade se fundissem numa benção: a da fecundação das mentes com iluminação e cultura.
Quando, há pouco, os fui buscar, vi as suas expressões ainda felizes e recordei-lhes de novo que a preciosa oportunidade de ir à escola, que tantos milhões de meninos não têm, é um privilégio que deve ser celebrado com sede de aprender mais e mais. Quanto ao Capitão... Bem, o beijo apaixonado com que me recebeu, neste final de tarde, dissipou quaisquer dúvidas: pode ter solicitado a selfie mas nenhum alienígena o trocou por uma simples imitação.
Ana Amorim Dias
15/9/2014
Pequenos mestres
Pequenos mestres
Acordei com ele às turras pelo quarto. Aquilo não era desespero, apenas convicção. Entrou pela janela que fica aberta o verão todo e não estava a conseguir encontrar o seu caminho de volta à rua.
Era demasiado cedo quando o passarito me arrancou ao sono. Mas não me irritei nem indignei. Com toda a solenidade, após o capturar em imagem, abri-lhe outras janelas de oportunidade. Saiu num instante, o espertalhão. Voou feliz de regresso aos seus pares e ao seu mundo. E eu atirei-me em voo para a cama. Contudo já não dormi mais. Fiquei a divagar sobre o abrir de portas e janelas. E de novo chegou o amor: não se ama alguém prendendo-o junto a nós. Não se completa, não se potencia, não se faz feliz ninguém, fechando-lhe as portas e janelas. Só o inverso é real.
Não fosse a pequena ave e ainda estaria a dormir... Mas agradeci-lhe a sorrir aquele duplo despertar.
Ana Amorim Dias
14/9/2014
Acordei com ele às turras pelo quarto. Aquilo não era desespero, apenas convicção. Entrou pela janela que fica aberta o verão todo e não estava a conseguir encontrar o seu caminho de volta à rua.
Era demasiado cedo quando o passarito me arrancou ao sono. Mas não me irritei nem indignei. Com toda a solenidade, após o capturar em imagem, abri-lhe outras janelas de oportunidade. Saiu num instante, o espertalhão. Voou feliz de regresso aos seus pares e ao seu mundo. E eu atirei-me em voo para a cama. Contudo já não dormi mais. Fiquei a divagar sobre o abrir de portas e janelas. E de novo chegou o amor: não se ama alguém prendendo-o junto a nós. Não se completa, não se potencia, não se faz feliz ninguém, fechando-lhe as portas e janelas. Só o inverso é real.
Não fosse a pequena ave e ainda estaria a dormir... Mas agradeci-lhe a sorrir aquele duplo despertar.
Ana Amorim Dias
14/9/2014
Cinco anos
Cinco anos
Três voltas na cama. Se calhar foram trinta. Quase três da manhã. Tateio na escuridão e ligo o IPad no "writer".
"Escrever é pôr a imaginação a fazer amor com as palavras. É tentar subverter o mito de que já tudo foi dito, descrito, narrado, inventado. É brincar aos Deuses, como se de facto o fôssemos."
Tinha que registar isto. Era-me forçoso gravar os pensamentos que a madrugada trouxera: os caminhos e estradas que escolhemos percorrer só fazem sentido se forem sentidos com a mesma verdade com que um escritor escolhe as palavras dos seus mais emblemáticos aforismos.
E então lembro-me do glorioso primeiro passo na estrada da minha mais plena existência. Lembro-me da secretária em que estava, do caderno no qual as primeiras linhas se desenharam. E sim, oh sim, consigo lembrar-me do prazer soberbo que de imediato senti.
Cumprem-se hoje cinco anos de escrita. Tem sido a melhor estrada. O mais belo caminho até vós. E a mais eficiente viagem de regresso... a mim.
Ana Amorim Dias
13/9/2014
Três voltas na cama. Se calhar foram trinta. Quase três da manhã. Tateio na escuridão e ligo o IPad no "writer".
"Escrever é pôr a imaginação a fazer amor com as palavras. É tentar subverter o mito de que já tudo foi dito, descrito, narrado, inventado. É brincar aos Deuses, como se de facto o fôssemos."
Tinha que registar isto. Era-me forçoso gravar os pensamentos que a madrugada trouxera: os caminhos e estradas que escolhemos percorrer só fazem sentido se forem sentidos com a mesma verdade com que um escritor escolhe as palavras dos seus mais emblemáticos aforismos.
E então lembro-me do glorioso primeiro passo na estrada da minha mais plena existência. Lembro-me da secretária em que estava, do caderno no qual as primeiras linhas se desenharam. E sim, oh sim, consigo lembrar-me do prazer soberbo que de imediato senti.
Cumprem-se hoje cinco anos de escrita. Tem sido a melhor estrada. O mais belo caminho até vós. E a mais eficiente viagem de regresso... a mim.
Ana Amorim Dias
13/9/2014
Amor é achar lindo que
Amor é achar lindo que alguém pendure assim a toalha!
O grande fora para o treino de basquete. Já o pequeno, alegando estar completamente farto de praia, declinou o convite e preferiu ficar a ver televisão com o gato ao colo.
Lá fui um bocado à praia, na exclusiva companhia do capitão. A sequência foi a do costume: parar o carro bem perto, pousar a toalha na areia, tomar um prolongado banho, dar meia dúzia de beijos e gargalhadas e, depois de cinco minutos ao sol, confessar-me entediada e desafiá-lo para uma cerveja na esplanada. Até aqui nada de novo. O mote desta crónica só surgiu depois de chegarmos de novo à Quinta: quando fui pendurar a minha toalha ao estendal, vi a que ele acabara de "estender". Não me contive e fotografei a deliciosa imagem, enquanto sorria embevecida. O que me despertou o espanto não foi a incongruência entre as suas fabulosas capacidades de conseguir coisas incríveis e a forma tosca como pendurou a toalha. O que me deixou mesmo extasiada foi a quantidade de amor que senti por ele ao ver como estendera a toalha. Foi então que aprendi algo novo sobre esse sentimento tão estranho: amor é achar lindo que alguém pendure assim a toalha!
Ana Amorim Dias
12/9/2014
O grande fora para o treino de basquete. Já o pequeno, alegando estar completamente farto de praia, declinou o convite e preferiu ficar a ver televisão com o gato ao colo.
Lá fui um bocado à praia, na exclusiva companhia do capitão. A sequência foi a do costume: parar o carro bem perto, pousar a toalha na areia, tomar um prolongado banho, dar meia dúzia de beijos e gargalhadas e, depois de cinco minutos ao sol, confessar-me entediada e desafiá-lo para uma cerveja na esplanada. Até aqui nada de novo. O mote desta crónica só surgiu depois de chegarmos de novo à Quinta: quando fui pendurar a minha toalha ao estendal, vi a que ele acabara de "estender". Não me contive e fotografei a deliciosa imagem, enquanto sorria embevecida. O que me despertou o espanto não foi a incongruência entre as suas fabulosas capacidades de conseguir coisas incríveis e a forma tosca como pendurou a toalha. O que me deixou mesmo extasiada foi a quantidade de amor que senti por ele ao ver como estendera a toalha. Foi então que aprendi algo novo sobre esse sentimento tão estranho: amor é achar lindo que alguém pendure assim a toalha!
Ana Amorim Dias
12/9/2014
Sem desconto
Sem desconto
Decidi comprar o melhor. Não com a tonta desculpa do "eu mereço" e sim pela justificada necessidade de um melhor desempenho.
Tenho dois livros para rever muito bem antes de publicar; um outro que está histérico, aos saltos, para sair cá de dentro; e qualquer coisa como mil e duzentas crónicas e artigos para organizar. Se queria um computador capaz de enfrentar estoicamente, a meu lado, estas desejadas labutas, tinha que optar por algo realmente bom.
-Olá, boa tarde, quero um daqueles. E com a memória máxima, se faz favor.
O senhor esbugalhou ligeiramente o olhar. Não deve ser assim que as pessoas costumam efetuar compras destas.
-Ouvi dizer que tem desconto para estudantes...- eu fora prevenida com o cartão de cidadão do Tomás e uma declaração da sua matrícula.
-Só universitários.
-Ahhh...
-E professores. Os professores também têm um desconto. Dez por cento. Bem como os jornalistas.
-Pois... Mas já agora diga-me: para escritores? Há desconto?
Novo trejeito expressivo. Quase me passou pela ideia que ele estivesse a começar a temer-me.
-Não.
Para escritores não há desconto. Mas também não vale a pena porque as nossas horas de trabalho são sempre pagas a peso de ouro. Todas elas. Não precisamos de desconto, muito obrigada. Temos o fôlego suficiente para nos sustentarmos de outras formas, mantendo a energia e inspiração para escrever o resto do tempo. Não precisamos de desconto. A sério. Ganhamos tanto em prazer que tudo o resto é, numa palavra, irrelevante.
Ana Amorim Dias
11/9/2014
Decidi comprar o melhor. Não com a tonta desculpa do "eu mereço" e sim pela justificada necessidade de um melhor desempenho.
Tenho dois livros para rever muito bem antes de publicar; um outro que está histérico, aos saltos, para sair cá de dentro; e qualquer coisa como mil e duzentas crónicas e artigos para organizar. Se queria um computador capaz de enfrentar estoicamente, a meu lado, estas desejadas labutas, tinha que optar por algo realmente bom.
-Olá, boa tarde, quero um daqueles. E com a memória máxima, se faz favor.
O senhor esbugalhou ligeiramente o olhar. Não deve ser assim que as pessoas costumam efetuar compras destas.
-Ouvi dizer que tem desconto para estudantes...- eu fora prevenida com o cartão de cidadão do Tomás e uma declaração da sua matrícula.
-Só universitários.
-Ahhh...
-E professores. Os professores também têm um desconto. Dez por cento. Bem como os jornalistas.
-Pois... Mas já agora diga-me: para escritores? Há desconto?
Novo trejeito expressivo. Quase me passou pela ideia que ele estivesse a começar a temer-me.
-Não.
Para escritores não há desconto. Mas também não vale a pena porque as nossas horas de trabalho são sempre pagas a peso de ouro. Todas elas. Não precisamos de desconto, muito obrigada. Temos o fôlego suficiente para nos sustentarmos de outras formas, mantendo a energia e inspiração para escrever o resto do tempo. Não precisamos de desconto. A sério. Ganhamos tanto em prazer que tudo o resto é, numa palavra, irrelevante.
Ana Amorim Dias
11/9/2014
Mães
Mães
- Ahh, fizeste outra tatuagem, filha?
A naturalidade com que fez a pergunta deixou-me com vontade de rir.
- Não, mãe, esta é daquelas falsas que saem nas batatas fritas.
Voltei ao passado ao recordar a tarde em que, vinda de Buenos Aires, reencontrei a minha mãe no Brasil. Ao mostrar-lhe o sol que tatuara no meu pescoço, tive imenso trabalho a convencê-la de que não estava a gozar e que aquela era de facto uma tatuagem real.
Fiquei a olhar para a tartaruga no meu braço, e a pensar que além de todos os milhões de qualidades que as mães normalmente têm, existe uma outra à qual eu ainda nunca dera o devido valor: a capacidade de adaptação mais rápida e eficiente de todas as espécies.
Ana Amorim Dias
10/9/2014
- Ahh, fizeste outra tatuagem, filha?
A naturalidade com que fez a pergunta deixou-me com vontade de rir.
- Não, mãe, esta é daquelas falsas que saem nas batatas fritas.
Voltei ao passado ao recordar a tarde em que, vinda de Buenos Aires, reencontrei a minha mãe no Brasil. Ao mostrar-lhe o sol que tatuara no meu pescoço, tive imenso trabalho a convencê-la de que não estava a gozar e que aquela era de facto uma tatuagem real.
Fiquei a olhar para a tartaruga no meu braço, e a pensar que além de todos os milhões de qualidades que as mães normalmente têm, existe uma outra à qual eu ainda nunca dera o devido valor: a capacidade de adaptação mais rápida e eficiente de todas as espécies.
Ana Amorim Dias
10/9/2014
A estrada não é só tua
A estrada não é só tua
Não cumpres os limites de velocidade? És uma besta! Aquilo não é para ti, pois não? És superior a isso, guias muito bem, tão bem que até fazes trezentos quilómetros numa hora e vinte. Grande campeão. Campeão da estupidez, entende, minha grande besta.
Fazes as rotundas inteirinhas por fora, eu sei, e até aproveitas para passar à frente de uns quantos tótós que não põem em causa a tua segurança como tu colocas a deles e a de qualquer um que se cruze no teu caminho. E ainda és capaz de buzinar e reclamar, estou errada?
E os traços contínuos? Fazes ideia da sua razão de existir? Se calhar até fazes mas, seja ele só um ou duplo, a ti não se aplica porque a estrada é só tua... Besta! Grande, grande besta!
Aproximas-te das passadeiras sem abrandar, por vezes até ultrapassas mesmo em cima delas. Menos ao pé da escola onde os teus filhos andam, porque aí, meu anormal, sobra-te um resto de consciência, não é?
E os SMS que mandas enquanto conduzes? Vais ao facebook ou a ler mails? Muito importante, hã? Até ao dia em que entendas que não, que devias ter prestado mais atenção à condução.
Já para não falar das tangentes que fazes aos ciclistas e aos impropérios irritados que lanças a quem vai de mota. Sim, sim, eu sei, és o rei da estrada e podes tudo porque tens um carro tão bom e guias tão divinalmente bem que a ti as leis não se aplicam!
És um assassino em potência, sabes? No fundo deves saber, mas a pressa e a ganância de ser o dono absoluto da estrada, impedem-te de ter juízo.
E um suicída, também. Mas isso dá-nos igual desde que te mates sozinho contra uma parede de betão.
A estrada não é só tua, pá. Tem calma. Pensa que podes espatifar o carro que, a menos que te tenha caído das nuvens, até te custa a pagar.
Pensa, minha besta, que um dia os teus excessos podem tirar a vida a alguém. Pode ser a tua mulher ou o teu marido; os teus filhos ou os teus pais; podem ser desconhecidos ou um cão abandonado. A consciência depois pesa, sabes? Eles vão acompanhar-te sempre, mortos ou só estropiados, vão viver no teu remorso a vida que lhes ceifaste.
A estrada não é só tua. E antes que algum outro condutor, por ti irritado, te redirecione o alinhamento dos dentes, ou antes que alguma desgraça pior aconteça, lembra-te, por favor, que cabemos todos em segurança na estrada que não é só tua.
A todos os que, como eu, pertencem ao grupo de "tótós" cumpridores das normas de segurança rodoviária, as minhas sinceras desculpas e votos de viagens seguras.
Ana Amorim Dias
9/9/2014
Não cumpres os limites de velocidade? És uma besta! Aquilo não é para ti, pois não? És superior a isso, guias muito bem, tão bem que até fazes trezentos quilómetros numa hora e vinte. Grande campeão. Campeão da estupidez, entende, minha grande besta.
Fazes as rotundas inteirinhas por fora, eu sei, e até aproveitas para passar à frente de uns quantos tótós que não põem em causa a tua segurança como tu colocas a deles e a de qualquer um que se cruze no teu caminho. E ainda és capaz de buzinar e reclamar, estou errada?
E os traços contínuos? Fazes ideia da sua razão de existir? Se calhar até fazes mas, seja ele só um ou duplo, a ti não se aplica porque a estrada é só tua... Besta! Grande, grande besta!
Aproximas-te das passadeiras sem abrandar, por vezes até ultrapassas mesmo em cima delas. Menos ao pé da escola onde os teus filhos andam, porque aí, meu anormal, sobra-te um resto de consciência, não é?
E os SMS que mandas enquanto conduzes? Vais ao facebook ou a ler mails? Muito importante, hã? Até ao dia em que entendas que não, que devias ter prestado mais atenção à condução.
Já para não falar das tangentes que fazes aos ciclistas e aos impropérios irritados que lanças a quem vai de mota. Sim, sim, eu sei, és o rei da estrada e podes tudo porque tens um carro tão bom e guias tão divinalmente bem que a ti as leis não se aplicam!
És um assassino em potência, sabes? No fundo deves saber, mas a pressa e a ganância de ser o dono absoluto da estrada, impedem-te de ter juízo.
E um suicída, também. Mas isso dá-nos igual desde que te mates sozinho contra uma parede de betão.
A estrada não é só tua, pá. Tem calma. Pensa que podes espatifar o carro que, a menos que te tenha caído das nuvens, até te custa a pagar.
Pensa, minha besta, que um dia os teus excessos podem tirar a vida a alguém. Pode ser a tua mulher ou o teu marido; os teus filhos ou os teus pais; podem ser desconhecidos ou um cão abandonado. A consciência depois pesa, sabes? Eles vão acompanhar-te sempre, mortos ou só estropiados, vão viver no teu remorso a vida que lhes ceifaste.
A estrada não é só tua. E antes que algum outro condutor, por ti irritado, te redirecione o alinhamento dos dentes, ou antes que alguma desgraça pior aconteça, lembra-te, por favor, que cabemos todos em segurança na estrada que não é só tua.
A todos os que, como eu, pertencem ao grupo de "tótós" cumpridores das normas de segurança rodoviária, as minhas sinceras desculpas e votos de viagens seguras.
Ana Amorim Dias
9/9/2014
E cá vou eu
E cá vou eu
Desafiaram-me e fiquei a pensar no assunto. "Miami? Daytona? Porque não? Tinha mesmo que ir fazer uma viagem qualquer para me inspirar para o próximo livro... Ora ele pode muito bem começar por lá, na Main Street..."
Não precisei de meditar muito. Embora o ambiente selvagem e opulento em silicone, álcool e loucura, me pareça demasiado exagerado, não deixa de ser tentador mergulhar num universo humano tão curioso.
Não sei se vou em busca de memórias inolvidáveis ou de pessoas fantásticas. Nem sei sequer se vou para capturar a essência da liberdade motard ou tentar identificar, no meio da multidão ruidosa, o "ultimate biker". Sei que vou. E sei que, como de costume, as estórias que viverei serão quase tão fantásticas como as que plasmarei em palavras.
(A reportagem sairá na edição seguinte da REV, que conseguiu o exclusivo em terras lusas.)
Ana Amorim Dias
8/9/2014
Desafiaram-me e fiquei a pensar no assunto. "Miami? Daytona? Porque não? Tinha mesmo que ir fazer uma viagem qualquer para me inspirar para o próximo livro... Ora ele pode muito bem começar por lá, na Main Street..."
Não precisei de meditar muito. Embora o ambiente selvagem e opulento em silicone, álcool e loucura, me pareça demasiado exagerado, não deixa de ser tentador mergulhar num universo humano tão curioso.
Não sei se vou em busca de memórias inolvidáveis ou de pessoas fantásticas. Nem sei sequer se vou para capturar a essência da liberdade motard ou tentar identificar, no meio da multidão ruidosa, o "ultimate biker". Sei que vou. E sei que, como de costume, as estórias que viverei serão quase tão fantásticas como as que plasmarei em palavras.
(A reportagem sairá na edição seguinte da REV, que conseguiu o exclusivo em terras lusas.)
Ana Amorim Dias
8/9/2014
Home again
Home again
Baixo os máximos para médios, não quero encandear ninguém. Mudo a estação de rádio, de novo. Poderia esta compulsão constante da busca da música perfeita ser um hábito irritante para terceiros, mas nada disso importa: estou sozinha no carro. Depois do barulho, o quase silêncio. Depois de horas de ininterruptas conversas, a atenção regressa apenas a mim e aos pensamentos que em breve gravarei por escrito. Depois do caos estou na ordem regrada de uma condução feita com plenos e apurados sentidos.
Não me lamento por sair e não beber. A consciência com que tudo se observa e absorve, compensa as leves euforias a que por vezes permito entregar-me. O prazer de guiar, noite fora, pela estrada das profundas inspirações que as madrugadas atentas sempre me trazem, compensa tudo.
"Ahhhh, uma música boa!!", alegro-me. "Home again", Michael Kiwanuka. Faz-me recordar os anos-luz de distância entre a oca noite de Albufeira e o pleno sentido da minha tribo e do meu chão. Recordo a enorme quantidade de grupitos que vi na noite: ou só eles ou só elas, vestidos de igual ou com faixas identificativas, provavelmente em despedidas de solteiro/a. "Nem que me pagassem fortunas embarcaria eu naquilo." Sou demasiado individualista e independente. Sempre fui. Por isso nunca pertenci a qualquer grupo. Porque odeio regras e horários e tudo o que me possa roubar o ímpeto livre do imprevisto constantante.
"Home again, hoooome again... Someday I know I'll feel home again...", canta o Michael, cheio de soul. Sorrio. Dentro de pouco, já ali, no fim da minha estrada, estarei "home again", no único grupo a que pertenço de facto: o clã.
Ana Amorim Dias
7/9/2014
Baixo os máximos para médios, não quero encandear ninguém. Mudo a estação de rádio, de novo. Poderia esta compulsão constante da busca da música perfeita ser um hábito irritante para terceiros, mas nada disso importa: estou sozinha no carro. Depois do barulho, o quase silêncio. Depois de horas de ininterruptas conversas, a atenção regressa apenas a mim e aos pensamentos que em breve gravarei por escrito. Depois do caos estou na ordem regrada de uma condução feita com plenos e apurados sentidos.
Não me lamento por sair e não beber. A consciência com que tudo se observa e absorve, compensa as leves euforias a que por vezes permito entregar-me. O prazer de guiar, noite fora, pela estrada das profundas inspirações que as madrugadas atentas sempre me trazem, compensa tudo.
"Ahhhh, uma música boa!!", alegro-me. "Home again", Michael Kiwanuka. Faz-me recordar os anos-luz de distância entre a oca noite de Albufeira e o pleno sentido da minha tribo e do meu chão. Recordo a enorme quantidade de grupitos que vi na noite: ou só eles ou só elas, vestidos de igual ou com faixas identificativas, provavelmente em despedidas de solteiro/a. "Nem que me pagassem fortunas embarcaria eu naquilo." Sou demasiado individualista e independente. Sempre fui. Por isso nunca pertenci a qualquer grupo. Porque odeio regras e horários e tudo o que me possa roubar o ímpeto livre do imprevisto constantante.
"Home again, hoooome again... Someday I know I'll feel home again...", canta o Michael, cheio de soul. Sorrio. Dentro de pouco, já ali, no fim da minha estrada, estarei "home again", no único grupo a que pertenço de facto: o clã.
Ana Amorim Dias
7/9/2014
A descair
A descair
Eu juro que estava sossegadinha do meu canto, metida comigo mesma, a fazer as caipirinhas. Observei a miúda tentando não a julgar. Devia ter uns dezoito, vinte anos no máximo. De silhueta elegante mas exageradamente provocante na indumentária escolhida. Talvez tivesse um certo déficit de atenção pois falava alto e monopolizava indisfarçadamente as conversas.
Consegui não julgar, ficando a pensar apenas em tudo o que a miudita ainda terá que aprender. Senti uma certa compaixão, pois vi naquela exuberância toda uma fragilidade estrutural propícia aos dissabores.
E foi então que ela veio ter comigo:
- Estou-me a sentir a descair... Não se importa de me ajudar aí atrás com as alças do top?
É que nem baixou a voz para disfarçar a descaidela e eu, atónita como poucas vezes fico, lá a auxiliei a combater a gravidade peitoral.
- Pronto, querida, já está.- respondi-lhe com uma voz segura e meiga.
"O culpado disto tudo é o Newton! Dele e da maçã que lhe caiu no cucuruto", concluí. Devo ter soltado uma gargalhada quase tão imprópria como a atitude da imatura miúda. Mas aos quarenta (independentemente do volume das femininas extremidades e da força com que a magana lei de Newton as possa fazer descair) sabemos ter atitudes que, ao contrário de nos fazerem descair, nos elevam. Fiquei mesmo com a sensação de ser imune à gravidade, pelo menos na segurança estruturada das atitudes com que todos os dias brindo as minhas horas de ação.
Ana Amorim Dias
6/9/2014
Enviado do Writer
Enviada do meu iPad
Eu juro que estava sossegadinha do meu canto, metida comigo mesma, a fazer as caipirinhas. Observei a miúda tentando não a julgar. Devia ter uns dezoito, vinte anos no máximo. De silhueta elegante mas exageradamente provocante na indumentária escolhida. Talvez tivesse um certo déficit de atenção pois falava alto e monopolizava indisfarçadamente as conversas.
Consegui não julgar, ficando a pensar apenas em tudo o que a miudita ainda terá que aprender. Senti uma certa compaixão, pois vi naquela exuberância toda uma fragilidade estrutural propícia aos dissabores.
E foi então que ela veio ter comigo:
- Estou-me a sentir a descair... Não se importa de me ajudar aí atrás com as alças do top?
É que nem baixou a voz para disfarçar a descaidela e eu, atónita como poucas vezes fico, lá a auxiliei a combater a gravidade peitoral.
- Pronto, querida, já está.- respondi-lhe com uma voz segura e meiga.
"O culpado disto tudo é o Newton! Dele e da maçã que lhe caiu no cucuruto", concluí. Devo ter soltado uma gargalhada quase tão imprópria como a atitude da imatura miúda. Mas aos quarenta (independentemente do volume das femininas extremidades e da força com que a magana lei de Newton as possa fazer descair) sabemos ter atitudes que, ao contrário de nos fazerem descair, nos elevam. Fiquei mesmo com a sensação de ser imune à gravidade, pelo menos na segurança estruturada das atitudes com que todos os dias brindo as minhas horas de ação.
Ana Amorim Dias
6/9/2014
Enviado do Writer
Enviada do meu iPad
Desmistificar o amor
Desmistificar o amor
O Ébola que continua a matar. O conflito entre a Ucrânia e a Rússia que prossegue. Os Isis apanhados das ideias que insistem em infetar o mundo com a sua cegueira diabólica. A menina que mal chegou a viver por culpa do malfadado cancro... O sorriso que tende a apagar-se perante tanto sofrimento alheio que, por solidariedade ou receio, acaba por ser sempre um pouco nosso também.
Sinto a impotência com desgosto. Com indignação. Como se combatem estes males com palavras? E então lembro-me: estes não são os únicos males do mundo e há alguns contra os quais posso levantar a voz utilmente.
As pessoas confundem-se muito. Chamam amor à mera necessidade que têm do outro; chamam felicidade àquele instante de atenção que a outra pessoa às vezes lhes dá. E aceitam condições relacionais humilhantes sem sequer se aperceberem disso.
Poderei ser um pouco dura, mas hoje terá que assim ser.
Amar não é sentir na pele a saudade a queimar. Amar é querer a felicidade alheia com uma força maior do que aquela que usamos para almejar a nossa.
Amar não é impor comportamentos ou a ausência deles; não é exigir nem proibir o que quer que seja: é gostar do outro como de nós mesmos, aceitando os enormes defeitos a par das pequenas virtudes.
Amar não é tesão nem paixão nem desejo. Amar é a paz absoluta, a ausência total de dor e, ainda assim, a emoção mais potente de todo o universo conhecido. Quem te instruiu em contrário enganou-te. Amor e dor não têm por que viver de mãos dadas.
Agora olha para ti, com honestidade, por um minuto que seja, e pergunta-te se não tens andado a tentar mudar a pessoa que dizes amar. Pergunta-te se não lhe impões, se não lhe exiges, se não reprovas tanta coisa. Mais: pergunta-te se não o/a estás a forçar a ser alguém que ele/ela não é. Pergunta-te também até que ponto tu és mesmo tu e fiel a ti mesmo/a ao lado da pessoa que diz amar-te.
Amor? Amor é amá-lo até aos defeitos e saber perdoar tudo o que me apetecer.
Ser amada? É poder ser eu mesma o tempo todo e vê-lo a sorrir-me apaixonadamente mesmo quando faço as mais acabadas asneiras.
O que não seja assim, desculpem-me a franqueza, é pura perda de tempo.
Ana Amorim Dias
5/9/2014
O Ébola que continua a matar. O conflito entre a Ucrânia e a Rússia que prossegue. Os Isis apanhados das ideias que insistem em infetar o mundo com a sua cegueira diabólica. A menina que mal chegou a viver por culpa do malfadado cancro... O sorriso que tende a apagar-se perante tanto sofrimento alheio que, por solidariedade ou receio, acaba por ser sempre um pouco nosso também.
Sinto a impotência com desgosto. Com indignação. Como se combatem estes males com palavras? E então lembro-me: estes não são os únicos males do mundo e há alguns contra os quais posso levantar a voz utilmente.
As pessoas confundem-se muito. Chamam amor à mera necessidade que têm do outro; chamam felicidade àquele instante de atenção que a outra pessoa às vezes lhes dá. E aceitam condições relacionais humilhantes sem sequer se aperceberem disso.
Poderei ser um pouco dura, mas hoje terá que assim ser.
Amar não é sentir na pele a saudade a queimar. Amar é querer a felicidade alheia com uma força maior do que aquela que usamos para almejar a nossa.
Amar não é impor comportamentos ou a ausência deles; não é exigir nem proibir o que quer que seja: é gostar do outro como de nós mesmos, aceitando os enormes defeitos a par das pequenas virtudes.
Amar não é tesão nem paixão nem desejo. Amar é a paz absoluta, a ausência total de dor e, ainda assim, a emoção mais potente de todo o universo conhecido. Quem te instruiu em contrário enganou-te. Amor e dor não têm por que viver de mãos dadas.
Agora olha para ti, com honestidade, por um minuto que seja, e pergunta-te se não tens andado a tentar mudar a pessoa que dizes amar. Pergunta-te se não lhe impões, se não lhe exiges, se não reprovas tanta coisa. Mais: pergunta-te se não o/a estás a forçar a ser alguém que ele/ela não é. Pergunta-te também até que ponto tu és mesmo tu e fiel a ti mesmo/a ao lado da pessoa que diz amar-te.
Amor? Amor é amá-lo até aos defeitos e saber perdoar tudo o que me apetecer.
Ser amada? É poder ser eu mesma o tempo todo e vê-lo a sorrir-me apaixonadamente mesmo quando faço as mais acabadas asneiras.
O que não seja assim, desculpem-me a franqueza, é pura perda de tempo.
Ana Amorim Dias
5/9/2014
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















